Dentro do pequeno quarto, na Lapa, a luz de um poste iluminava o colchão sob a janela. Havia roupas espalhadas, uma garrafa de vodka a um canto, livros empilhados de outro. Uma arara próxima à porta, servia de armário e uma estante feita de madeira e tijolos com seis prateleiras cobertas de livros. Uma cômoda antiga e uma mesa de bar amarela, com uma cadeira em frente, onde neste momento, uma mulher estava sentada encarando uma pagina em branco no seu notebook.
Olívia sentiu as costas arderem. Estava parada na mesma posição há algumas horas. Esticou as pernas e alongou os braços. Podia sentir que sua bunda, tinha tomado a forma da cadeira. Olhou a volta e percebeu que a noite já havia caído, e uma brisa morna entrava pela janela. Era morna, mas já era algo.
Fazia um calor insuportável no Rio de Janeiro. O verão havia chegado com tudo. Olívia odiava o verão. Odiava o calor, o sol forte, o suor pelo corpo, aquele incomodo constante que podia sentir dentro da pele, como se esta fosse um macacão acolchoado apropriado para a neve do qual ela não conseguia se livrar. Era quase como estar presa dentro de uma garrafa térmica cheia de água quente.
Olhou para o pequeno ventilador ao lado da cama, era o mesmo que nada. Sentia o suor escorrer por suas costas, e por de trás dos joelhos. Seus cabelos estavam presos e colados na cabeça.
Havia se mudado para o pequeno apartamento há apenas um mês. Por mais feliz que estivesse por finalmente ter conseguido o próprio quarto, já que antes dividia um dois quartos com seis pessoas, ainda assim achava que tinha feito um mal negocio. O apartamento era antigo, quente e central. O que significava participar de todas as festas na Lapa, mesmo quando não estava a fim.
Amava a noite. Amava tomar cerveja com os amigos, ir de bar em bar, cantar no meio da rua, dançar. Mas quando precisava se concentrar, ouvia vir lá de baixo o buxixo da noite que estava apenas começando.
Olívia era estudante da pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nunca fora uma aluna aplicada, mas estava decidida a se formar. Seu sonho era se tornar escritora, mas como ainda não tinha conseguido publicar nada, investia na carreira acadêmica. Ministrava aulas de redação e literatura em uma escola particular, e se conseguisse ingressar no mestrado, poderia lecionar também na Universidade.
Era descolada, um pouco boêmia, mas levava seu trabalho com os alunos a serio. Acreditava que se alguém tinha o poder de mudar a mente burguesa dos adolescentes privilegiados, como ela mesma tinha sido, precisava ir à fonte. Nunca havia cogitado a hipótese de ser professora, mas assim que se formou, estava endividada e seus bicos em bares não estavam sendo o suficiente para pagar as contas.
Havia feito faculdade para poder sair da cidade onde morava e se mudar para o Rio. Queria muito sair de casa, e esse era o jeito mais fácil. Como gostava de escrever, optou por fazer letras. É claro que a faculdade não era exatamente o que ela queria, mas fez muitos amigos, e depois de tropeçar bastante, havia se formado. Ingressou direto na pós-graduação por incentivo de uma professora. A mesma conseguiu uma colocação para ela em uma escola onde era diretora da área de Língua portuguesa. Olívia era inteligente, e por mais que fosse preguiçosa, caíra nas graças de Paula. Elas namoraram por um tempo, mas mesmo depois de terem terminado, continuaram amigas.
Há três anos, quando começou a dar aulas, era apenas monitora de turma. Estagiaria. Não ganhava muito, mas já era um salário fixo, por isso aceitou. No inicio, não gostava do trabalho que tinha que fazer, mas assim que conquistou uma turma só para ela, como professora substituta, acabou se apaixonando por lecionar. A escola não era grande, portanto tinha maior liberdade. Apesar de existir um currículo rígido a aplicar, vivia inventando novas formas de ensinar. Não gostava de formalidades, e sabia que os alunos também não. Criava aulas dinâmicas, levava textos de autores diversos, dos clássicos, aos pos modernos. Sabia que literatura era a arte de contar historias, não importando a forma, mas sim a mensagem. Dava liberdade aos alunos para sugerirem novos autores, e criava historias comunitárias com eles. Os incentivava com musica, teatro, cinema. Dizia que toda forma de arte, era uma das maneiras de se contar historias. Acabou se descobrindo uma apaixonada por educação, e estava pleiteando um mestrado na área.
Seu irmão mais novo, Gustavo, tinha vindo morar no Rio com ela. Dividiam agora este apartamento. Ele havia começado três cursos diferentes em Teresópolis, onde cresceram, mas havia largado todos. Agora queria fazer Arquitetura. Olívia não sentia firmeza nas escolhas do irmão. Sabia que ele estava se mudando para fugir do pai, e o novo curso era mais uma desculpa. Mas apesar disso, estava feliz por tê-lo por perto. Havia saído de casa aos dezoito anos e foram poucas as visitas que fez a família. Seus pais eram separados, e ela não gostava do novo marido da mãe. Seu pai, Otavio Gurgel, era um medico respeitado na cidade, mas também havia se casado de novo e fazia o papel de pai, enviando dinheiro para ambos. Já fazia alguns anos que Olívia não aceitava mais esta contribuição. Era orgulhosa, e ela e o pai nunca se entenderam muito bem. Sua mãe sempre dizia que eles se pareciam muito. Tinham gênio forte, por isso brigavam tanto. Olívia preferia pensar que eram duas personalidades fortes distintas. Odiava ter qualquer similaridade com ele.
Já a mãe, Raquel Gurgel, ela mantivera o nome de casada mesmo após a separação, Olívia a amava muito, mas não aprovava o novo casamento. Via a mãe se apagando cada vez mais. Trocara um homem impulsivo e dominador por outro. Parecia decidida a não assumir sua própria vida e tomar as próprias decisões. Era dependente destes homens. Olívia odiava ver isso. Preferiu se afastar, o que acabou afetando a sua relação com Guto. Os dois estavam se conhecendo de fato pela primeira vez, e Olívia estava amando essa proximidade com o irmão. Acabou descobrindo que ele era uma pessoa alegre, apesar de ter sido criado por sua mãe depressiva, e era simples também, apesar de mimado e ainda ser sustentado pelo pai.
O Guto e sua tia Gigi, irmã de seu pai, eram os únicos na família que haviam de fato aceitado a sua sexualidade. Olívia sabia que gostava de mulheres desde os onze anos de idade, quando se apaixonou pela melhor amiga. Sofreu como qualquer um sofre pelo primeiro amor, e passou anos tentando entender seus sentimentos. Se declarou quando as duas tinham quinze anos e veio dela também, sua primeira decepção. Não foi a única. Logo percebeu que na vida, amar também é sofrer. Quando deixou Teresópolis, sabia que viveria novos amores e novas dores. Depois de tanto tempo, se sentia vacinada.
Tentava não se envolver profundamente com nenhuma mulher. Namorava até se sentir sufocada, e então as deixava. Prezava a sua liberdade mais que tudo. E por mais que explicasse isso, avisasse que não era boa com compromissos, que não se apegava, que não queria ser cobrada, por muitas vezes teve que encarar cobranças, brigas e como dizia seu melhor amigo, Theo, ela acabava deixando um rastro de destruição por onde passava.
Deixou a cadeira e caminhou até a janela. Ascendeu um cigarro e ficou olhando o movimento nas ruas serpenteadas da Lapa. Os bares começavam a se encher, alguns artistas de rua já se dirigiam para os Arcos, e carros começavam a preencher os estacionamentos. Era sexta-feira, e tinha Show na Fundição Progresso, e uma festa nova no Circo Voador.
Virou-se quando ouviu o barulho da porta do seu quarto se abrindo. Guto sorriu e entrou, colocando-se ao lado da irmã na janela. Pegou o cigarro da mão dela, e deu um trago.
-- Vamos pra onde hoje? -- Ele quis saber. Assim como ela, Gustavo era muito bonito. Um homem alto. Tinha o corpo definido, os cabelos castanhos e os olhos verdes. Era bem mais moreno que Olívia, já que curtia praia, coisa que ela não gostava muito. Era branquinha, e o maximo de sol que pegava, era quando tinha que andar até o ponto de ônibus. Evitava as ruas durante o dia, sempre fora mais da noite.
-- Você eu não sei. Eu tenho que ficar aqui e terminar logo esse projeto.
-- Ok. Eu deixei você ficar trancada no quarto por três dias escrevendo. Hoje é sexta-feira, e você vai sair comigo. -- Falou serio.
-- Desculpa maninho, mas não vai rolar. -- Falou dirigindo-se a sua mesa e sentando novamente na cadeira. -- Eu preciso entregar até semana que vem se quiser ter alguma chance de entrar no mestrado.
-- Quando é que você ficou tão responsável assim? A sua fama lá em Terê é outra.
Olívia começou a rir. Sabia bem qual era a sua fama em Teresópolis. Rebelde sem causa. Vivia arrumando confusão na escola. Matava aula, colava, discutia com os professores, vivia na sala da direção, era má influencia, diziam. No fundo, Olívia agia assim porque sentia necessidade de se rebelar contra tudo e contra todos. Quando as pressões dos pais e da escola deixaram a suas costas, começou a sossegar. Não havia mais nada a transgredir, mais ninguém que se preocupasse quando o fazia. Quando percebeu que a vida era dela, e somente a ela interessava, quis a liberdade total, e para isso começou a batalhar. Trabalhou muito, se virou como pode, e percebeu que não precisava afundar a própria vida para atingir ninguém. Esta havia sido a sua libertação.
-- E qual é a minha fama? -- Provocou.
-- Você virou lenda por lá. Eu cresci ouvindo historias suas e achando a minha irmã a pessoa mais legal do mundo.
-- E eu não sou? -- Perguntou fingindo se sentir ofendida.
-- Você é. Mas anda muito certinha. Careta até. Só falta agora começar a namorar homens, casar, ter filhos e uma casa de campo.
Olívia riu mais ainda. Achava engraçado ser chamada de careta. Logo ela. Sabia que existia uma grande diferença entre ser responsável, e se adequar ao sistema. Nunca se adequaria. Mas aprendera a respeitar as diferenças de opinião. Não perdia mais a cabeça e nem o tempo, tentando convencer ninguém de nada. Passou por muitas situações difíceis quando se mudou para o Rio, e foi obrigada a crescer na marra. Toda a atitude revoltada, só lhe era permitida porque tinha os pais por trás para tirá-la de qualquer enrascada. Achava que aquilo era o seu grito de liberdade. Teve que passar por momentos difíceis sozinha para perceber isso e mudar de atitude. Manu tinha sido muito importante nesse processo. A conheceu na faculdade e namoraram durante nove meses. A Manu tinha batalhado muito a vida toda. Vinha de uma família simples e trabalhava desde os doze anos ajudando a mãe. Conseguir ir para a faculdade, havia sido uma vitória e tanto, pois era a primeira dos irmãos a conseguir estudar depois de terminar o ensino médio. Ela e Manu não haviam terminado bem. Olívia a admirava muito e tinha um carinho imenso por ela, mas havia virado amizade apenas. Manu sofreu, estava apaixonada, mas com o passar do tempo conseguiram construir uma amizade bacana. Não se viam mais muito, as duas trabalhavam e estudavam em lugares diferentes, mas sempre se falavam. Olívia seria eternamente grata a ela por tudo o que mudou na sua vida depois que a conheceu.
-- Não é caretice, Guto. Eu só não sou mais criança. No colégio eu podia me dar ao luxo de ser irreverente ao extremo, inconseqüente na verdade, que quando a coisa ficava feia, eu sabia que o papai iria me socorrer. Não quero mais isso.
-- Aucht! O direto de esquerda pegou bem em cheio. -- Falou, fazendo cara de quem tinha apanhado.
-- Não é uma critica mano. Cada um sabe do seu. E eu não deixo de curtir a vida. Você sabe disso.
-- Eu sei. Com a quantidade de mulher que você tem atrás de você, você não deixa mesmo. Nunca vi. Mamãe passou todo o mel lá de casa em você.
-- Até parece né Guto?! A mulherada cai em cima de você, mas quem mandou se prender tão cedo?
-- O amor! -- Respondeu um pouco cínico.
-- Sei, sei. Preciso passar mais tempo com essa minha cunhada. Quero saber se ela vale o sacrifício.
-- Você fala como se namorar fosse sacrifício.
-- Namorar não é. Se prender a alguém com promessas de ‘felizes para sempre’, é que é. Não existe amor eterno. Existem paixões, encontros. Algumas duram mais, outras menos, mas ninguém pode achar que vai se sentir da mesma forma por outra pessoa para sempre. Não há como prever isso.
Guto já havia escutado essa conversa algumas vezes. Olívia era contra monogamia, casamento e casais perfeitinhos que com o tempo só falavam ‘nós’. Ela não acreditava em grandes amores, mas em grandes paixões de momento. Dizia que amor era sentimento puro. Você o tinha por amigos, alguns familiares, mas quando havia sexo, não era amor, era paixão.
-- Tudo bem! Eu até concordo. Mas você esta proibida de dizer isso para a Marcinha quando ela vier aqui.
-- Ta vendo! Você me acha insensível, mas isso eu não faço. Eu não engano ninguém.
-- Só a você mesma. -- Guto ficou sério de repente.
Olívia não queria entrar neste mérito. Muitos tentaram antes, nenhum conseguiu. Todos os seus amigos achavam que ela tinha problemas sérios de confiança. Especialmente nas relações amorosas. Era excelente amiga, ninguém poderia negar, mas não se envolvia em relacionamentos.
-- Vai ter que comer muito feijão com arroz antes de me dar lição de moral, Gugu. -- Chamou-o pelo apelido de infância. -- Agora vai. Curte a sua noite e bebe todas por mim.
-- Por favor. Um choppinho e uma sinuca. Juro que não tento te arrastar pra farra hoje. Só uma relaxada.
-- Guto... -- Ela não resistiria e ele sabia disso.
-- Por favor! Vai ser bom pra você se distrair um pouco. Vamos apenas eu, você, Nina e Clarissa. E o Théo, se você conseguir convencê-lo de que eu sou o ultimo dos héteros gatos sim.
Os dois caíram na gargalhada. Theo era o melhor amigo da Olívia desde que chegara ao Rio. Em uma das suas primeiras saídas na noite gay carioca, ela arrumou confusão com uma menina casada, e o Theo resolveu a enrascada. Desde então se tornaram grandes amigos e confidentes. Theo era também vizinho dos dois. Na verdade, ele tinha achado aquele apartamento para eles morarem. Ele vivia implicando com o Guto, mas no fundo era só pilha mesmo. O Guto não fazia o tipo do Theo e Olívia sabia disso.
-- Ta bom! Eu só preciso tomar um banho. Eu estou colando. -- Disse tirando a camiseta rasgada que usava, ficando apenas de calcinha.
-- Vai rápido. Vou terminar de me arrumar e já te trago uma gelada. -- Guto saiu rápido do quarto e Oliva pegou a toalha e uma roupa na arara.
A sala não era muito maior que o quarto dela. Tinha um futon no chão com algumas almofadas, uma mesinha de bar igual a que tinha no seu quarto, uma televisão antiga, um aparelho de DVD e um aparelho de som que o Guto havia trazido de Teresópolis. Estes ficavam dispostos em uma estante de ferro que Olívia havia ganhado na escola onde trabalhava. Ela tinha livros demais e espaço de menos. A cozinha também era bastante estreita, e a geladeira ficava na entrada, com o fogão ao lado e a pia ao fundo. O banheiro ficava entre os dois quartos. O do Guto tinha quase as mesmas proporções que o dela, mas não tinha janela para rua, e sim para o meio do prédio. Era mais escuro, mas muitas vezes mais silencioso.
Ele também não tinha uma cama no quarto, e sim um colchão de solteiro a um canto, um armário de três portas muito vagabundo que tinha sido deixado no apartamento pelos antigos locatários, e um violão. Os livros da faculdade ficavam empilhados em cima do armário.
Olívia terminou o banho e se olhou no espelho do banheiro. Viu as olheiras profundas encravadas abaixo dos olhos verdes escuros. O seu cabelo tinha crescido muito. Como sempre o manteve curto e repicado, ele estava desalinhado e sem corte. Nunca foi muito vaidosa, gostava de vestir roupas confortáveis e pouca maquiagem. Sabia que tinha um estilo largado, mas se sentia bem assim. Olhou para o corpo nu, e percebeu o quanto havia emagrecido. Sempre fora magra, biótipo, mas estava seca. Andava comendo pouco, fumando muito. Sempre levou uma vida desregrada, nunca conseguiu seguir padrões e rotinas. Estava tendo que aprender na marra, mas tinha objetivos a alcançar e sabia que para chegar lá, teria que fazer certos sacrifícios.
Lembrava-se bem do momento em que decidira parar de levar a vida na brincadeira. Estava no bar após o expediente, era bartender na época, e olhou a volta. Percebeu a mediocridade daquilo. Em geral, era mais uma entre os bêbados do final da noite. Era patético. Ia para a faculdade para encontrar os amigos. Bebia em aula, fumava um, tomava um doce e esquecia do mundo.
Nesta noite, a menina com que estava ficando há alguns dias, teve uma parada cardíaca. Olívia mal a conhecia, era só sexo, mas aquilo a assustou mais do que tudo. Se viu ali, misturada com o que tinha de mais degradante, sem perspectiva de futuro, sem objetivo algum. Estava sem escrever a quase um ano, e mesmo antes disso, não conseguira escrever nada que valesse a pena.
Ajudou Breno a levar a menina para o hospital, não lembrava do nome dela, nem na hora, nem agora. Estava assustada, queria ficar careta para entender melhor a situação, mas a onda não passava e se sentia cada vez mais presa. Quando chegaram ao hospital e a levaram para dentro, sentiu as pernas bambas e desmaiou. Acordou em uma maca com soro no braço. Ergueu-se e Theo estava lá. Ele não tinha ficado pra zoada daquela noite, mas todos o conheciam e haviam avisado do ocorrido. Ela sabia que ele estava lá por ela. Não sabia por que, mas começou a chorar compulsivamente.
A menina sobreviveu, mas teve seqüelas. Olívia se sentiu culpada e suja. Passou a semana seguinte toda em casa. Sentia-se completamente perdida. Pensou em largar a faculdade de vez, já que não estava de fato cursando e viajar por um tempo. Foi aí que a Paula entrou na vida dela. Quando foi até a faculdade falar com alguns amigos e trancar o curso, Paula a chamou para conversar. Foi doce, sincera, mas dura também. Falou que Olívia não tinha o direito de desperdiçar a vida daquela forma. Tinha um dom, escrevia como poucos, era comunicativa, tinha alto astral, mas era uma menina mimada e perdida. Olívia a odiou em principio, mas como não podia deixar de ser, se sentiu atraída, desafiada por aquela mulher.
Não deixou a faculdade, e passou a freqüentar as aulas de Paula. Com o tempo, não só as dela, mas outras também. Paula a incentivava, mas a enfrentava também. Olívia tanto fez que acabou conseguindo conquista-la. Não esperava porem, se apaixonar por Paula. Paixão mesmo. Sentia-se atraída e a admirava muito. Paula não era como as mulheres com quem ela estava acostumada a sair. Alem de mais velha, tinha a cabeça no lugar. Era dedicada, inteligente, culta, e não deixava Olívia comandar a situação como gostava de fazer.
Olívia queria impressioná-la, mas acabou gostando de ter objetivos mais concretos. Em principio, queria terminar a faculdade que já estava levando tempo demais. Depois queria um emprego que a sustentasse. Começou a sair menos para as baladas, parou com todas as drogas pesadas, percebeu que poderia curtir a vida sem tanto estrago. Foi fiel pela segunda vez na vida. Voltou a escrever.
Ela e Paula ficaram juntas por quase dois anos, o suficiente para Olívia se tornar uma pessoa inteira. Tinha medo de deixar Paula. Sabia que seria grata para sempre, mas também sabia que era injusto ficar com a Paula por gratidão. Não teve coragem de terminar, Paula o fez. Desde então, e isso tinha quatro anos, Olívia não se envolvera com ninguém em um nível tão profundo. Passou a namorar uma ou outra menina, mas sem compromisso e se dedicar totalmente a sua carreira.
Agora, tinha um livro encaminhado para uma editora. Era professora em uma escola, e estava terminando seu projeto para o Mestrado. Sentia orgulho. Sentia um vazio também, mas acima de tudo, tinha orgulho de quem se tornara. Havia se tornado uma mulher forte e decidida. Um pouco mais rígida, um pouco mais fechada, mas forte. Não deixou de ser alegre, muito pelo contrario, era contagiante a sua animação e alegria. Era boa amiga, boa companheira de festa, boa com seus alunos, tinha uma energia muito positiva, que qualquer um poderia sentir estando perto dela. Sabia que hoje era uma pessoa melhor do que jamais tinha sido.
Vestiu um short jeans e uma camiseta regata branca, colocou uma sandália de couro baixa, e saiu do quarto. Guto a esperava com uma cerveja na mão.
-- Esta linda como sempre. -- Elogiou entregando-lhe o copo.
-- Você não conta. É meu irmão e é homem. -- Pegou o copo da mão dele e brindou antes de beber metade da cerveja em um gole só. O calor secava-lhe a garganta, e a cerveja era convidativa.
-- Vejo que esta com sede. Vamos logo que hoje eu to precisando extravasar. -- Guto falou rindo e puxando-a pela mão.
-- Aconteceu alguma coisa? -- Olívia podia pressentir mais na sentença do que o irmão pretendia dizer.
Ele sorriu sem graça, e balançou a cabeça negativamente. Ela sabia que havia mais. Ele fazia essa cara de moleque sapeca quando estava aprontando alguma coisa.
-- Pode começar a falar!
-- Não é nada demais. -- Respirou fundo. E viu o olhar cheio de expectativas da irmã. -- Eu ando com pensamentos não muito puros.
-- Ah -- Olívia abriu um sorriso. Sabia que o irmão não era o santo que tentava transparecer. Afinal, era irmão dela, e Olívia sempre fora terrível. -- Estou adorando. Quero saber de tudo em detalhes. Pode mandar os sórdidos também. Eu agüento.
Ela sorria e Guto teve que rir da expressão dela. Olívia gostava de tentá-lo. Era um tanto quanto promiscua nos seus relacionamentos amorosos, tinha sempre três a quatro mulheres a disposição, algumas amigas com benefícios, e outras conquistas da noite. Ele sabia da fama dela antes de virem a morar juntos no Rio, mas se surpreendeu ainda mais, quando a viu em ação.
Ela não era do tipo que fazia grandes esforços. Dificilmente ele a via se aproximar e conquistar alguma mulher na conversa. Em geral ela ficava com os amigos no bar, brincava, bebia, se divertia como se não houvesse nenhuma outra intenção. Quando Guto percebia, alguma mulher, em geral linda, se chegava e puxava papo com ela. Olívia só não levava pra cama quando não queria.
É claro que já ter uma fama no meio gay, a ajudava. Ela não precisava fazer muito. Quando chegava a algum lugar, era notada. Guto entendia, sua irmã era linda. Ela podia não ser vaidosa, em geral era extremamente simples, mas chamava atenção. Theo dizia que ela tinha excesso de confiança, e isso era afrodisíaco.
-- Vai falar o que esta aprontando, ou não vai? -- Olívia voltou a pressioná-lo em tom de brincadeira, enquanto desciam as escadas do prédio.
-- É uma menina da faculdade. -- Guto espiou a irmã e completou. -- A Juliana.
-- Sabia. Eu tinha certeza de que tinha alguma coisa rolando entre vocês. Amizade inocente assim, não existe. -- Olívia não se conteve. Vinha percebendo um interesse do irmão há algum tempo. Vivia falando da Juliana, ela freqüentava a casa deles. Ela conhecia o bastante desse jogo de sedução, para não ter reparado em nada.
-- Posso continuar? -- Fingiu indignação.
-- Por favor. -- Olívia sorriu.
-- Eu acho que na verdade não tem nada. Ela provavelmente não me vê dessa forma, mas eu não consigo controlar. Ela é linda, certo?
-- Não é muito meu tipo, mas... É bonitinha. -- Olívia desdenhou e sorriu. -- Sim, ela é linda. E gostosa. Com aquele shortinho que ela estava semana passada, então... Uma delicia. -- Olívia não resistiu à provocação.
-- Se você fosse homem...-- Deixou no ar.
-- O que? Me enchia de porrada? -- Olívia caiu na gargalhada, acompanhada por Guto.
-- Provavelmente. -- Respondeu ainda rindo. -- Mas serio, estou me sentindo um filho da puta. Eu sou louco pela Marcinha, mas não sou de ferro.
-- Não. Nenhum de nós é. -- Olívia falou mais para si mesma do que para o irmão. -- Eu entendo. Até porque, você e a Marcinha não se vêem há mais de um mês. Não adianta, a distância pode esfriar as coisas, ainda mais quando não é um amor de virar a cabeça.
-- E você lá sabe o que é isso? -- Guto provocou. -- Não se apega a ninguém. É só sexo, não é?
-- Em geral sim. Mas isso não quer dizer que eu nunca tenha me apaixonado.
Deixando no ar, eles chegaram ao bar da esquina. Haviam decidido não ir longe. Só queriam mesmo tomar uma cerveja gelada e é claro, jogar uma sinuca.
O Bar do Bola era um ‘boteco limpinho’. Eles viviam lá. Primeiro porque era perto de casa e segundo, porque não ficava tão cheio como os outros bares da Lapa. Ali era o recanto deles. Sempre começavam a noite e terminavam no Bola. Olívia havia trabalhado lá durante um tempo, mas o pagamento não compensava, trabalhava pra pagar a noite e era só. Gostava de lá. Tinha duas mesas de sinuca ao fundo, cerveja de garrafa barata e a lei contra o fumo ainda não tinha chegado ao Bola.
Logo que entraram foram recebidos pelo Bola. O simpático dono do bar tinha uns quarenta anos, era gordinho, baixinho e gay. Ele era casado com o Tom, um pouco mais novo que ele, era um cozinheiro de mão cheia. Trabalhava em um restaurante que o Bola gerenciava. Se conheceram lá e se apaixonaram. Alguns anos depois, decidiram abrir um lugar só deles. Era um bar gay disfarçado, mas bem freqüentado.
Theo já estava à espera dos dois e veio andando em direção a eles, com um sorriso no rosto.
-- É até pecado vocês serem irmãos. Juro que nunca pensei que pegaria mulher de novo na vida, mas para ter os dois na cama, faria esse sacrifício. -- Os abraçou.
-- Aucht! Valeu Theo!-- Olívia brincou.
-- Você sabe que eu te amo, meu doce. Mas o seu irmão é a tentação que veio do céu pra me atormentar o juízo.
Theo deu um beijo na bochecha do Guto, que a essa altura, já havia se habituado às suas provocações. Não se esquivava, e muitas vezes provocava de volta. Já havia entendido que com o Theo, ou você entra na brincadeira, ou vai ser zoado pra sempre.
-- Querendo dividir a cama com a minha irmã também, Theo. Achei que esse fogo todo era só pra mim. -- Guto provocou se fazendo de ofendido.
-- Você sabe que é, meu bem, só não quer aproveitar. Fica se fartando de carpacho, quando poderia se deliciar com salsichão.
-- Olha o nível, Theo. -- Exclamou Bola, que vinha trazendo dois copos de cerveja nas mãos.
-- Desculpa Bola. O bar é de família, eu sei. É que esse menino me tira do serio. -- Theo beijou-lhe a bochecha.
-- Sei, sei. Comportem-se. -- Bola entregou um copo para o Guto e outro para a Olívia e lhe deu um abraço. Tinha se tornado quase um pai para ela em uma época muito difícil. Olívia tinha um carinho imenso por ele e pelo Tom.
Os três seguiram para o fundo do bar, onde Clarissa e Nina já esperavam por eles. Nina era, provavelmente, a única amiga que Olívia tinha feito no Rio com quem não tinha ido pra cama. As duas se conheceram na noite, se estranharam no principio, pois Nina era tão pegadora, ou “player”, como Olívia. Mas assim que Olívia salvou Nina de apanhar de uns marmanjos na saída da boate, ficaram amigas. Nunca cogitaram sexo entre elas, sabiam que não daria certo de cara. Nina havia sossegado quando conheceu Clarissa, e Olívia perdeu sua companheira da noite, mas torcia por elas, era um casal único. Clarissa era estudante de medicina e muito extrovertida. Na época em que se conheceram, hetero convicta, mas Nina reverteu essa história.
A volta delas, algumas outras meninas estavam jogando sinuca. Nina tinha um grupo grande de amigas que saíam sempre juntas. Olívia já tinha ficado com todas, e quebrado alguns corações. A única significativa, tinha sido a Laura. As duas namoraram por três meses, até Olívia dar um basta. Laura ainda guardava magoas, mas tratava Olívia bem. Nina dizia que ela tinha esperanças, mesmo conhecendo a ex-namorada. Beto, o novo affair do Theo, estava sentado com as meninas à mesa.
Eles os cumprimentaram animados e Olívia se sentiu bem por ter saído de casa. Guto tinha razão, ela estava realmente precisando disso. Nina puxou Olívia para sentar ao lado dela. E a abraçou. Guto sentou-se em frente e piscou confidente para a irmã. Olívia gostava disso. Guto não tinha qualquer preconceito com os amigos dela, se divertia sempre quando saía com eles e acabara se tornando um bom amigo do Theo, o que parecia impossível.
-- Achei que você não fosse vir. Esta enfurnada em casa há dias! -- Nina exclamou.
-- Eu não ia vir mesmo. O Guto encheu o saco pra eu sair.
-- Que bom. Ao menos alguém tem alguma influência sobre você. -- Se aproximou e baixou o tom de voz. -- To precisando conversar.
Pelo olhar sugestivo, Olívia entendeu tudo. Nina estava em alguma crise com a Clarissa e não podia falar ali na mesa.
-- Nina, será que você pode vir comigo. -- Olívia levantou, e estendeu-lhe a mão.
Guto a olhou interrogativo, assim como Clarissa encarou Nina.
-- A gente já volta. -- Olívia disse apenas e saiu puxando Nina com ela.
Quando chegaram do lado de fora do bar, Olívia colocou o copo sobre uma mesa e ascendeu um cigarro. Nina encostou-se à parede e espiou para dentro do bar. Pegou um cigarro do maço de Olívia e ascendeu.
-- Estava precisando de um desses. -- disse após soltar uma baforada para o céu.
-- Fala. Qual a crise? -- Olívia foi direta como sempre. -- Você e a Lilica brigaram de novo?
-- Não. -- Nina respondeu sob um suspiro. -- Dessa vez nem chegamos lá. Ao menos quando brigamos eu sei que tem a reconciliação, o que em geral envolve muito sexo.
-- Certo, certo. -- Olivia sorriu. -- Então o que foi?
-- Eu posso estar muito paranóica aqui, mas eu acho que a Clarissa esta gostando de outra pessoa. E eu to achando que é um dos residentes com quem ela trabalha no hospital.
-- Você ta de sacanagem? A Lica? Te traindo? E com um cara? Não. Não mesmo.
Nina baixou os olhos, e Olívia sentiu que ela estava desnorteada mesmo. Parecia um pouco perdida, o que não lhe era natural. Em geral a Nina era segura e forte. Era cenógrafa, e trabalhava com grandes companhias de teatro e dança. Era destemida e temida. Olívia não lembrava de tê-la visto assim antes. Mesmo quando começou a namorar a Clarissa, e esta tinha um namorado, tinha convicção de que a conquistaria e o fez.
-- Ok. Me conta o que você sabe. De onde vem essa desconfiança?
Nina espiou mais uma vez para dentro do bar, e respirando fundo, começou a explicar.
-- Já tem um tempo que a gente ta distante, sabe? Ela não me toca mais, mal temos transado, ela esta sempre cansada do trabalho, o que eu até entendo, mas ela se afastou também de mim. Nós quase não conversamos. Falamos trivialidades do dia, discutimos a lista de compras, quem vai levar o Dudu para passear, essas coisas.
-- Ok, me lembre de nunca casar. -- Olívia não resistiu. -- Desculpa, continua.
-- É você tem razão. A rotina mata um pouco da paixão. Mas nunca tínhamos chegado a esse ponto. Eu não sei mais nem como me aproximar dela. Nem dar um beijo, fazer um carinho. Ela dorme distante de mim na cama, e isso esta me enlouquecendo.
-- Que merda, amiga. Mas onde entra essa tua paranóia com o residente?
-- Marcelo é o nome dele. Ele é um bundinha que trabalha com ela. Esta um ano acima e meio que assumiu ela como interna dele no hospital. O que significa, eles trabalham juntos em quase todos os casos. Em principio, eu estava tranqüila. Ela falava dele quando chegava animada do trabalho, o admirava como medico, e eu nem me ligava. De uns tempos pra cá, eu a vejo de conversinha com ele por telefone, brincadeirinhas íntimas sabe? Flerte mesmo. Eu tentei interroga-la sobre isso, mas ela se esquivou. Disse que eu estava viajando e não me deixou voltar no assunto. -- Nina disfarçou uma lagrima, o que era estranho, já que em geral esse tipo de demonstração de emoção, não era característica dela, e com a voz embargada, completou. -- Eu não tenho idéia do que fazer.
-- Putz, Nina! Que merda! Eu não sei se quebro a cara dela ou dele primeiro. -- Olívia falou revoltada. Odiava ver a amiga sofrer assim. Gostava da Clarissa, mas se ela estivesse mesmo destruindo uma relação de três anos, e pior ainda, sem ter a decência de falar com a Nina, Olívia quebraria os dentes dela, sem pestanejar. Ao menos isso foi o que pensou no momento.
Olívia pos o braço em volta dos ombros de Nina e a puxou para um abraço. Nina se deixou abraçar por alguns segundos e se soltou. Limpou as lagrimas e abriu um sorriso torto.
-- Quando você imaginou me ver assim? Na merda e chorando por mulher? -- Falou rindo.
-- Sinceramente, assim que você conheceu aquela mulher. -- E apontou pra dentro do bar. -- Nós somos duras na queda, mas não somos feitas de pedra.
-- Hum, declaração interessante vinda de você. Esta apaixonada Olie?
-- Não. Eu não sei o que é isso há muito tempo. -- Olívia soou triste. Nina percebeu, mas nada disse. Olívia em geral lidava com relações amorosas com certo sarcasmo. Fazia uma piada, e saía pela tangente. Talvez o fato de ver Nina fragilizada, a deixara mais aberta, exposta.
-- Sabe o que eu acho? -- Falou em tom animado.
-- Hum? -- Olívia se virou para ela.
-- Acho que nós deveríamos voltar lá pra dentro, encher a cara e jogar até de manhã. Não estou com estomago pra ficar sentada ao lado da Clarissa agora, e nem quero ir pra casa. Me faz companhia?
-- Claro amiga. Sempre. -- Olívia pegou a mão oferecida por Nina e voltaram para dentro do bar rindo. Olívia acompanhou Nina, pois percebia o esforço dela para fingir que estava tudo bem. Conhecia a amiga, sabia que era orgulhosa e que mesmo sofrendo muito, não daria o braço a torcer. Se identificava muito com isso. Também não gostava de demonstrar fraqueza pra quem quer que fosse. Talvez por isso, nunca deixava que as pessoas se aproximassem demais, tudo o que precisava externar, todos os demônios que precisava encarar, o fazia escrevendo.
O restante da noite transcorreu tranquilamente. Olívia, como era habito, saiu do bar acompanhada de uma mulher. Guto acabou indo sozinho pra casa e Nina e Clarissa seguiram juntas, só não se sabia por quanto tempo.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
CAP 2 - Uma visita inesperada
Na semana seguinte, Olívia estava de volta à faculdade e de volta a escola. Tinha entregado o projeto do mestrado, e agora esperava por uma resposta. Paula, que fazia parte do corpo docente de Letras da UFRJ, tentou tranqüilizá-la, mas Olívia era ansiosa demais para não pirar com a espera.
Chegou a casa à noite, e Guto estava deitado no futon, assistindo televisão, com dois potes de pão de queijo e algumas latas de cerveja.
- Vagabundagem tomou conta geral! – Olívia já entrou falando.
- Me dei folga hoje. – Ele respondeu simplesmente. – Quer? – Ofereceu uma cerveja.
Olívia colocou a mochila no chão e sentou ao lado do irmão, abriu a latinha e virou a cerveja gelada. Respirou fundo e relaxou.
- Estava precisando disso.
Guto sorriu e se acomodou, sentando no futon.
- Preciso te pedir uma coisa. – Falou com cara de criança aprontando.
- Quer trazer a Juliana pra casa? Fique a vontade. Quem sou eu pra me meter.
- Não é nada disso. Já te disse que não vou pegar a Ju. Eu gosto da Marcinha. De verdade. Quer você entenda isso ou não.
- Hey! Não to julgando. Acho ótimo que você ame a sua namorada. Só te disse que entendo se você quiser sair com outras pessoas. Monogamia não é natural.
Guto não respondeu, e Olívia se arrependeu de ter falado na Juliana. Ela sabia que o irmão estava lutando pra manter a relação com a namorada, e de certa forma, o admirava por isso. Nunca sentiu de fato isso por alguém, a ponto de querer somente essa pessoa. Talvez uma vez, mas foi há tanto tempo atrás, e como nunca chegou a ter um relacionamento de verdade com ela, não tinha certeza de como teria se portado.
- Foi mal. Eu sou a ultima pessoa no mundo que tem o direito de te julgar. Acho até nobre da sua parte. Você é uma raridade, e a Marcinha tem sorte em te ter.
Ele sorriu para ela. Sabia que no fundo, Olívia queria se apaixonar e viver um grande amor, ela só não sabia disso. Ele via por trás da força, da coragem e das brincadeiras, que ela cultivava um vazio. Se defendia como podia, mas Guto a conhecia. Muito pouco pelo o que ela dizia e demonstrava, mas profundamente pelo o que ela escrevia.
- Então? Qual o pedido? – Olívia cortou o silêncio.
- A Marcinha chega ao Rio amanhã, e vai ficar uns dias aqui comigo. Ela tem aquela prova do concurso na semana que vem.
- Sem problemas. Ela pode vir sempre que quiser Guto. A casa também é sua. E eu quero passar um tempo com a minha cunhadinha.
- Tenho até medo disso. – Ele arregalou os olhos, o que provocou um riso nos dois, antes de ele continuar. - Mas não é só isso. Tem uma amiga do trabalho dela, que vai prestar a mesma prova, e a Marcinha me perguntou se ela poderia ficar aqui, também.
- Hum. Ela é gostosa? – Olívia abriu um sorriso sedutor.
- Você não vale nada mesmo. To falando serio. E você conhece as regras quando a Marcinha esta aqui...
- Sem mulheres nuas saindo do meu quarto. Eu sei. E a Marcinha pode trazer a amiguinha dela. Sem problemas. Prometo me comportar. – Fez a continência dos escoteiros, em provocação ao irmão.
- Você é muito engraçadinha, sabia?!
Olívia sorriu, e levantou indo em direção ao quarto. Não tinha grandes relações com a namorada do irmão, mas o respeitava o bastante pra conviver com ela. Não que ela fosse uma pessoa desagradável, pois não era. Era até divertida e engraçada. De certa forma, era até capaz de entender porque o Guto era tão apaixonado. Mas era muito novinha, e nas poucas vezes em que se viram, parecia relutante com relação à Olívia. Ela não se incomodava muito com isso, era uma reação normal das pessoas ao seu jeito sarcástico e despojado. Falava o que queria, e esquecia que tinha gente que não queria ouvir.
Achava-a bonita também. Marcinha tinha um jeitinho meigo, cara de criança que fez arte. Um sorriso franco, que lhe caía bem. O rosto redondo e cheio de sardas, os cabelos cor de fogo, cacheados e compridos, os olhos azuis profundos. Não fazia muito o tipo de Olívia, mas era bonita.
Jogou-se na cadeira, de frente para o computador e deu um suspiro. Precisava retomar o seu livro. Havia deixado de lado por causa do Projeto do mestrado e ainda não tinha tido coragem de mergulhar de novo. Era sempre um processo, mas que precisava ser feito. Ela escrevia romances de ficção. E este, em particular, estava sendo sofrido. Não sabia como, mas a sua personagem principal havia se tornado um alter ego com o qual ela não se dava muito bem. Sentia vontade de desistir e começar tudo de novo. A sua editora, Letícia, foi quem a convenceu a não fazer isso. Pediu que ela lutasse pela personagem, dizia que fazia parte do aprendizado ter sentimentos conflitantes. Que a relação de amor e ódio, admiração e desilusão faziam parte da experiência humana, e que faziam com que o personagem, sendo dúbio como qualquer pessoa, se tornasse mais real e crível.
Enquanto o computador ligava, tirou a calça jeans e a camisa, e vestiu somente uma camiseta regata. Mesmo com a chuva dos últimos dois dias, o calor não dava trégua, e o pequeno ventilador, continuava não dando conta. Prendeu o cabelo, jurando que o cortaria ainda esta semana, e pegou duas cervejas na geladeira. Entregou uma ao irmão, e se fechou no quarto.
Ao abrir o arquivo, teve o mesmo sentimento de repulsa que havia sentido nos últimos dois dias. Mas não podia mais adiar, precisava terminar essa historia. Um, porque a Letícia já havia esticado o prazo ao maximo, e segundo, porque ela mesma precisava descobrir o final dessa jornada.
Releu o ultimo capitulo relutante. Acabou por modificar muitas coisas. O cinzeiro já estava abarrotado de guimbas de cigarro, quando de fato conseguiu progredir na historia. Não sentia firmeza alguma no que estava fazendo, mas precisava tentar sair do ponto em que estava estagnada.
A luz da manhã, já adentrava timidamente o quarto, quando fechou o notebook após salvar o arquivo. Tinha dor no corpo todo e não se sentia satisfeita. Mal havia conseguido sair do lugar. Escrevera em círculos, rodando em torno de uma mesma idéia. Provavelmente apagaria todo o trabalho feito no dia seguinte, mas ao menos podia sentir a historia fluir nas suas veias novamente.
Deixou o quarto, e foi tomar um banho. Era sábado, não teria que madrugar para trabalhar. Após vinte minutos deixando a água correr por seu corpo, voltou para o quarto e se jogou, sem roupa mesmo, na cama.
Olívia acordou com o som de vozes vindo da sala. Sentia uma ressaca de noite mal dormida e a respiração pesada pela quantidade de cigarros que havia fumado. Revirou-se na cama, puxando o lençol por sobre a cabeça. Ouviu batidas na porta, mas não respondeu. Marcinha devia ter chegado e Guto tentava acorda-la. Olhou as horas no relógio prata que estava sobre a caixa que lhe servia de mesa de cabeceira, e viu que marcava oito horas. Guto bateu na porta, e dessa vez, não esperou resposta, foi entrando.
- Ollie! Olívia acorda! – Ele disse se aproximando da cama dela. – Ollie! Eu sei que você já acordou, não adianta me ignorar.
Olívia se mexeu e puxou o lençol por sobre a cabeça, olhando feio para Guto. Ele sabia que no sábado, ela gostava de dormir até tarde.
- Desculpa. – Ele foi logo dizendo. – Mas você não vai acreditar quem é a amiga da Marcinha que esta aí. – Ele disse animado.
- Jura que me acordou pra isso? Se não for a Sandra Bullock, você esta perdendo seu tempo.
Olívia virou a cara e voltou a se cobrir até a cabeça. Guto riu e se jogou ao lado dela na cama.
- Não, não é a Sandra Bullock, nem a Paola Oliveira.
- Tinha esquecido. A Paola Oliveira também é gostosa. – Olívia resmungou por de baixo do lençol.
- Mas sério você vai tomar um susto. Eu tomei.
- Pára com o mistério, e fala logo.
- Prefiro que você veja com seus próprios olhos. – Ele falou rindo e levantando da cama. – Vamos logo! Levanta daí e veste uma roupa. A regra de nenhuma mulher nua saindo do seu quarto, também se aplica a você.
Guto saiu do quarto e fechou a porta. Olívia resmungou, mas ele não a ouviu, já havia saído. Ela pensou em voltar a dormir, mas depois percebeu que poderia parecer rude de sua parte. Muito descontente, levantou da cama, e foi vestir uma roupa qualquer.
Ela não estava preparada. Assim que saiu do quarto, vestindo uma bermuda de surfista azul, e uma camiseta branca, deu de cara com um fantasma. Gelou na hora. A linda mulher a sua frente também parecia totalmente desconcertada. Seus olhos castanhos claros, grandes e de cílios longos, a encarava assustada. E esboçou um leve sorriso sem graça. Olívia não conseguiu dizer nada. Ficou parada à soleira da porta, sem sentir suas pernas.
Guto se adiantou e passando os braços pelos ombros da mulher, sorriu dizendo:
- O mundo é um ovo, ou não é? – Se dirigiu a irmã.
Olívia continuou a encarar aqueles olhos amendoados. Ela continuava a mesma. Estatura mediana apenas alguns centímetros mais baixa que ela, cabelos castanhos ondulados, com cachos nas pontas, sobrancelhas grossas, nariz um pouco arrebitado, pele dourada, uma boca vermelha e carnuda, o corpo magro, mas bem feito, com seios médios e quadril largo. Era inacreditável. Olívia não a via há mais de dez anos.
- Oi, Ollie! – a voz baixa e um pouco rouca a despertou de seu estado atônito.
- Uau. Nem eu a chamo de Ollie! – Marcinha exclamou divertindo-se e se dirigiu a Olívia dando-lhe um abraço e um beijo no rosto.
Olívia sorriu de volta para a cunhada, e voltou a encarar aqueles olhos. Era tão linda que lhe doía por dentro. Sentiu que precisava conter a avalanche de sentimentos despertados pela presença dela. Estampou um sorriso leve no rosto e se encaminhou estendendo-lhe a mão.
- Oi, Jo! – Segurou a mão quente na sua, e sentiu um arrepio. – Faz muito tempo! – E foi só o que conseguiu dizer. Queria se desvencilhar daquele contato, mas Joana não soltou sua mão de imediato.
- Muito tempo! – Respondeu e seu sorriso se iluminou. Olívia sentiu o ar faltar-lhe no pulmão. Havia esquecido que aquele sorriso tinha este efeito sobre ela. – Eu não acreditei quando vi o Gugu, mas mais inacreditável ainda, é ver você.
As duas se encararam e Olívia enfim liberou sua mão, mas continuou presa àqueles olhos. Tinha uma sensação de irrealidade, como no momento em que se acorda, mas ainda esta dentro do sonho e tem consciência do que acontece a volta, mas não consegue interferir.
- Eu to achando isso ótimo! Quando eu poderia imaginar que vocês se conheciam? E de tanto tempo assim?! – Marcinha sorriu.
- Pois é. A Jo freqüentava a minha casa quando eu ainda era pirralho. Essas duas eram inseparáveis.
Olívia pode sentir o compasso de o seu coração voltar ao normal, mas precisava sair dali. Precisava processar aquele momento. Passou as mãos pelo cabelo bagunçado, e o prendeu em nó.
- Eu vou pegar algo para vocês beberem. Suco, refri, cerveja? – Falou para as duas, mas sem voltar a olhar para Joana.
- Por mim pode ser só água mesmo. – Joana se adiantou em direção a ela. – Mas eu posso pegar.
- Não precisa. Eu pego. Relaxa aí. E você, Marcinha? – Falou já indo em direção à cozinha, e dispensando Joana. Precisava ficar sozinha por um momento.
- Eu aceito um suco. Valeu Olívia.
- Pode chamar de Ollie. Estamos em família. – Guto provocou a irmã.
- E Gugu, vai chegar ao Bola hoje à noite. Imagina o que o Theo não vai fazer com isso. – Olívia respondeu.
- Ok. Não esta mais aqui quem falou.
Olívia entrou na pequena cozinha e se apoiou na bancada. Aquilo não podia estar acontecendo. Lembrava-se claramente da ultima vez me que tinha visto aqueles olhos. Lembrava da dor contida neles, e do que lhe causaram. Não podia acreditar que ela estava ali na sua sala. Coincidências não existem, mas então, o que aquilo significava? Sentiu uma vontade imensa de fugir. Precisava de tempo. Precisava de uma boa desculpa para deixar a casa. Mas precisava fazer isso direito. Não queria deixar furos e gerar perguntas, especialmente por parte do Guto. Mas principalmente, não queria que ela percebesse o quanto a estava perturbando.
Respirou fundo, pegou o copo d’água e o suco, e voltou para a sala. Entregou o suco para Marcinha, e a água para Joana. Mais uma vez, o toque involuntário da pele dela na sua, lhe percorreu o braço, até lhe causar arrepio na espinha. O que tornou muito mais difícil, soar natural, mas conseguiu.
- Guto, vocês estão pensando em fazer o que para o almoço? Vão sair? – Sentou-se em uma das cadeiras de ferro, o mais longe possível de Joana.
- Ainda não sei, mas pensei na Cantina da Flor. A comida lá é boa, e não é longe. As meninas viajaram a manhã toda, não fico a fim de pegar ônibus ou metro com elas hoje.
- Lógico. – Limitou-se a responder. E então completou. – Bom, eu tenho que sair. Vou encontrar com a Nina para almoçar em Botafogo, mas volto à noite.
- Jura? – Marcinha falou desapontada. – Achei que você iria almoçar com a gente.
- Desculpa Marcinha! Mas à noite a gente faz alguma coisa. Assim vocês descansam um pouco também, e Jô – se dirigiu a ela sem encara-la – Se quiser, pode descansar lá dentro. Com esses dois matando a saudade no quarto, vai ficar difícil pra você relaxar aqui na sala.
Joana sorriu. Talvez mais pela oferta de dormir no quarto e na cama de Olívia, do que com a provocação dela para com o casal. Ou isso era o que Olívia se pegou pensando. Logo se bateu internamente, esse tipo de fantasia era o pior que podia acontecer a ela agora.
Levantou-se e após pegar uma roupa no quarto, se dirigiu ao banheiro para um banho. Notou os olhares que Joana lhe lançava apesar de ela não dizer nada. Poderia estar paranóica, ou criando coisas na cabeça, mas também, não era possível que este reencontro só atingisse a ela. Flashes de momentos ao lado de Joana lhe invadiram sem pedir licença. Se assustou com a riqueza de detalhes que a sua mente guardou por tantos anos. Havia feito um esforço tão grande para bloquear aquelas lembranças, que nem sabia que ainda estavam ali. Lembrou-se de quando a beijou pela primeira vez.
Era uma festa americana na casa de um amigo do colégio. Elas tinham no maximo quinze anos na época. Sempre foram amigas inseparáveis e confidentes. Onde uma estava, invariavelmente, a outra estava também. Olívia ainda não tinha certezas quanto a sua orientação sexual, mas sentia uma atração enorme por Joana. Havia se tocado disso, quando Joana começou a namorar um menino da escola, Leandro. O ciúme que sentia, ia muito alem do ciúme de amiga, que tinha perdido a companhia diária. Até porque, as duas ainda se viam com freqüência, viviam dormindo uma na casa da outra, e Olívia não podia deixar de reparar, o quanto Joana havia amadurecido com o namoro. Estava sensual, menos inibida. As duas conversavam sobre garotos, e Olívia que não tinha qualquer experiência, com exceção de alguns beijos sem maiores emoções, escutava fascinada as historias de Joana.
Foi ao ver Joana e o namorado, agarrados atrás do estacionamento da escola, que Olívia teve a certeza de que queria ser ela no lugar do Leandro. Ela queria poder segurar Joana pela cintura e colar sua boca na dela. Nunca se sentira daquele jeito com relação a ninguém. Lhe doía ver os dois colados, as mãos dele passeando pelo corpo já repleto de curvas de Joana.
Na festa, não conseguiu se controlar. Tinha ido ao banheiro, e Joana veio logo atrás. Começara a falar que ela e o Leandro não iriam mais esperar. Que ela estava apaixonada e que iria transar com ele.
Olívia sentiu o gelo descer por suas costas ao imaginar a cena, e o sangue subir-lhe quente. Joana estava passando o batom, quando Olívia a segurou com força e a virou para ela. As duas se encararam e Olívia aproximou seu rosto do de Joana, sem soltar seus braços. Ela sabia que Joana poderia ter recuado, mas não o fez. Quando seus lábios se tocaram, a luta que vinham travando, cessou. Olívia desceu suas mãos pelas costas de Joana, enquanto sua língua invadia a boca que ela tão prontamente abriu. Foi um beijo intenso, repleto de desejo. Joana também traçava um padrão de movimento pelas costas de Olívia, e a empurrou contra a parede, pressionando seu corpo contra o dela. Olívia não conhecia o que era desejo, até aquele momento.
Separaram as bocas por apenas alguns segundos, e Olívia desceu com os lábios, pelo pescoço de Joana. As duas ofegavam, completamente entregues. Joana puxou o rosto de Olívia, e beijou-lhe os lábios com doçura, o beijo começou leve, uma sentindo a outra. A língua de Joana na sua, foi o gosto mais sublime que Olívia havia experimentado. O beijo se intensificou mais uma vez, tornou-se mais urgente, e Olívia desceu suas mãos pelo meio das pernas de Joana, e tocou-lhe o sexo. Sentiu o corpo dela estremecer, e um gemido subiu-lhe pela garganta. Quando cessaram o beijo mais uma vez, Joana olhou-a com espanto e desejo. Afastou-se devagar, sem desviar do olhar intenso que Olívia lhe dirigia e correu para fora do banheiro.
Olívia pode sentir o arrepio que esta lembrança lhe causava. Havia descoberto não apenas, que gostava de mulheres, mas especialmente, que amava aquela mulher. Sofreu pela primeira vez por amor. Mesmo que Joana tenha tentado deixar este momento para trás, não foi capaz de resistir por muito tempo. Ignorou o quanto pode, fazendo com que Olívia sofresse e se sentisse só. Mesmo acompanhando Joana, e fingindo que nada havia acontecido, as suas noites eram repletas de sonhos e desejos. Sentia amor e ódio ao mesmo tempo. Joana continuava seu namoro com Leandro, havia dormido com ele, e foi ao descobrir isso, que Olívia tomou coragem de confrontá-la.
Estavam na escola, e Olívia ainda se esforçava para não sentir o ciúme e a dor da perda que a sufocavam. Amava Joana, mas sabia que era um amor impossível. Para uma adolescente que não tinha idéia do que era ser lésbica então, apavorante. Mas como sempre fora a palhaça da turma, muito solta e um pouco rebelde, tentava não demonstrar a dor que lhe afligia. Continuava amiga de Joana e das outras meninas com quem andavam, mas percebia que Joana agora evitava ficar sozinha com ela. Durante uma aula de geografia, em que faziam um trabalho em grupo, se sentara ao lado dela, com seus braços quase se tocando, o que era um misto de prazer e tortura.
- Preciso falar com você. – Sussurrou ao pé do ouvido, e pode sentir, Joana se arrepiar.
- Sobre? – Perguntou sem olhar para ela.
- Preciso entregar uma pauta de reunião agora cada vez que quiser falar com você? – Perguntou indignada, mesmo que mantendo o tom de voz baixo.
- Ok. Depois da aula. – Respirou fundo e voltou ao seu trabalho.
Olívia podia estar louca, mas tinha quase certeza de que por mais que tentasse ser indiferente, a sua presença perturbava Joana, e não de uma forma negativa. Podia sentir a corrente elétrica que passava entre elas quando se tocavam, os olhares que às vezes sentia sobre si, e que Joana não conseguia disfarçar, não podia ser tudo fruto da sua imaginação, e mesmo que fosse, precisava ter certeza, não suportava mais sofrer em silencio.
Assim que a aula terminou, Olívia ficou esperando por Joana do lado de fora do colégio enquanto fumava um cigarro. Joana parou de frente pra ela, com o nariz empinado e tentando transparecer uma confiança que não sentia.
- Vamos? – Olívia disse secamente, e seguiu andando, com Joana atrás.
Não se falaram por todo o caminho. Olívia estaria sozinha em casa por todo final de semana. Sua mãe havia viajado para visitar sua avó, e levado Guto com ela. Insistiu para que Olívia ficasse com o pai, mas esta bateu o pé, até conseguir autorização para ficar sozinha.
Subiram, e já no elevador, Olívia podia sentir que Joana estava tensa, sem fingimentos, sem toda a proteção que havia colocado a volta dela na presença de Olívia. Chegaram, Olívia abriu a porta e esperou que Joana passasse. Quando entrou na sala, Joana estava parada a sua frente, ela olhava para o chão e tremia dos pés a cabeça.
- Não precisa ficar assim. Eu não vou te atacar. Ao contrário do que você pensa, eu ainda sou sua amiga. – Olívia falou com certa raiva na voz. Não conseguia acreditar que Joana sentisse medo dela.
Joana não se moveu, mas ergueu os olhos, aqueles lindos olhos castanhos, banhados de lagrimas, que ela tentava refrear, e encarou Olívia. As duas ficaram assim, por algum tempo. Olívia não queria ser a primeira a romper a conexão que haviam estabelecido com o olhar. Joana parecia travar uma luta interna, que perdeu ao cobrir o rosto e deixar as lagrimas caírem.
Olívia fez menção de ir até ela. Desejava abraça-la e conforta-la, mas sabia também que precisava ser paciente, que uma atitude precipitada, poderia assustá-la ainda mais.
Joana enxugou as lagrimas, deixou-se cair no sofá. Olívia andou até ela, e parando de frente, sentou-se na mesinha de centro. Não queria intimidá-la sentando-se ao lado dela.
Demorou um pouco, mas Joana enfim conseguiu encara-la. Olívia tinha medo de dizer qualquer coisa, mesmo que a tivesse chamado até ali para isso. Todo o seu discurso se perdera, ao olhar dentro dos olhos de Joana. Mesmo que ainda sentisse raiva, o amor que sentia era ainda maior, e a vontade de tomá-la em seus braços, era quase insuportável.
- Olie, eu tenho namorado. – Enfim Joana falou com voz embargada.
- Eu sei. – Olívia se limitou a responder.
- Eu não quero perder você, mas isso que aconteceu, é errado. Você é mulher, eu sou mulher...
- Eu sei. – Mais uma vez, foi só o que ela conseguiu dizer.
- Eu te adoro, Olie. Você é minha melhor amiga desde sempre. Será que não da pra gente esquecer o que aconteceu e continuar como era antes?
Olívia tentou absorver aquilo. Afinal, era o que ela tinha se proposto a fazer, mas pensar nisso, só pensar, já a deixava sem ar. Ela não conseguiria deixar pra trás. O esforço sobre humano que faria, não seria suficiente. Mirando os olhos de Joana, ela teve certeza disso.
- Eu gostaria de esquecer, Jô. Eu gostaria de não me sentir dessa maneira com relação a você. Eu gostaria de nunca ter te tocado... mas eu acho que esquecer vai ser impossível. Porque a vontade de te beijar nesse momento, é ainda maior do que eu tinha sentido antes. – Respirou fundo e olhou nos olhos de Joana. - Desculpa. – Disse por fim, após um suspiro.
Joana continuou parada. Olhava para Olívia como se a tivesse conhecido agora, nesse instante. Sem ironias, sem brincadeiras, sem dramatização... ela lhe parecia mais velha, madura. Como se viesse lutando com aquilo de forma intensa, mais intensa do que ela própria havia lutado. Até então, achava que aquele beijo, tinha sido mais um capricho da Olívia, mas ali percebeu que era muito mais serio do que isso.
- Quer saber? Te trazer até aqui foi loucura da minha cabeça. – disse se erguendo e andando pela sala. - Desculpa mesmo. Eu me afasto ok?! Eu fico longe de você, eu mudo de turma. Eu faço o que for preciso. – Olívia falou querendo acabar com aquele momento. Tinha se aberto, e Joana não reagira. Não havia mais como voltar atrás, e na verdade, nem queria. Só se achou na obrigação de deixar claro que conseguiria se comportar e se manter afastada, já que não tinha qualquer controle do seu sentimento.
- Você consegue? – Joana perguntou por fim. – Consegue imaginar ficar longe de mim?
Aquela pergunta, não era o que Olívia esperava. Ficou sem ação. As duas se fitaram por longos segundos, até que Joana levantou ainda um pouco insegura, e andou até Olívia. Mal respiravam. Chegando perto, Olívia sentiu o calor que emanava do corpo de Joana. Ainda a encarando, Joana pousou a mão direita no rosto dela. A corrente elétrica estava ali outra vez. Sem pensar, sem dizer uma palavra, Olívia a tomou em seus braços e a beijou com vontade. Não havia resistência alguma, Joana também se entregava ao beijo com todo o seu corpo. Ainda a beijando, Olívia a conduziu até o sofá, deitando-a e se colocando por sobre ela.
Deixou a boca de Joana, somente para explorar o pescoço, e desceu até o colo. Ouvia os suspiros e gemidos dela lhe dando permissão para continuar. Subiu com uma das mãos por dentro da blusa, e alcançou o seio por cima do sutiã. Joana também a tocava, com uma mão lhe pressionava as costas, e com a outra, tocou-lhe o seio.
A blusa de Olívia foi parar no chão, e ela levantava a camiseta de Joana, explorando a sua barriga, até chegar ao sutiã. A encarou, e viu nos seus olhos o quanto ela também a desejava. Tirou a camiseta dela em um movimento lento, sem desviar o olhar. Abriu também o sutiã, e se deparou com o lindo par de seios, com bicos duros, se movendo sob uma respiração arfante. Levou a boca até um deles e chupou, lambeu, beijou, arrancando gemidos ainda mais altos.
Voltou a beijar-lhe a boca, entrando com sua língua, e sendo sorvida pela língua dela. Desceu a mão até o sexo, que pulsava quente. A tocou como há muito desejava, e Joana a puxou para mais perto. Olívia abriu o botão da calça de Joana e entrou por dentro da calcinha, sentiu-a molhada, encharcada de desejo e prazer. Joana arqueou as costas, abriu mais as pernas e se deixou conduzir. Mesmo sem saber ao certo o que fazer, Olívia a tocava com delicadeza e destreza. Pode sentir o corpo de Joana tremer sob o seu, e seu gemido ainda mais alto, em meio à respiração ofegante, chegar ao ápice. Nunca havia sentido tanto prazer na vida, como sentiu conduzindo Joana ao orgasmo.
Ficaram abraçadas por um tempo, uma sentindo a respiração da outra. Joana a puxou para um beijo apaixonado, e Olívia correspondeu com todo o seu amor.
Saiu do banho, e podia sentir o seu sexo pulsar. O desejo quase irracional que sentia por Joana, voltou a lhe perturbar. Sabia que não sentia por essa Joana em sua sala, sentia por sua melhor amiga de adolescência. Esta Joana, ela nem ao menos conhecia, como poderia desejá-la? Precisava se concentrar nisso. Na verdade, precisava sair dali.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 3 - Um Fantasma
Deixou o apartamento, ainda perturbada pelas lembranças vividas de um tempo feliz e trágico, ou assim ela o havia classificado. O primeiro amor, a gente nunca esquece é o que dizem. A primeira decepção também não.
Andou até o bar do Bola, e o encontrou varrendo o salão. Bola havia começado a abrir para o almoço. Na verdade, isso era coisa do Tom, que como chef de cozinha, achava absurdo só servirem petiscos e uma vez ou outra, um jantar. Fazia uma comida caseira de primeira, e estavam aos poucos, conquistando um publico fiel.
- Minha flor de lis! – Bola exclamou ao ver Olívia descendo a rua em sua direção. – Não esta muito cedo pra você, não? Hoje é sábado. Foi chutada da cama?
Bola realmente a conhecia muito bem. Nunca a vira sair tão cedo de casa num sábado. Ela era uma criatura da noite, que se esforçava imensamente em se adequar aos hábitos diurnos do restante da humanidade.
- Quase isso, Bola. Quase isso. – Ela se aproximou e colocou um sorriso no rosto. Precisava evitar perguntas e também não queria se sentir fragilizada daquele jeito. – Vim pedir um favor.
- O que eu não faço por você, hein?! – Bola sorriu e a abraçou.
- Não vai prometendo sem antes escutar o pedido. Vai que eu peço pra você casar com uma mulher?!
- Só se essa mulher for você, meu bem. Até porque eu sei que não vai rolar sexo. Vai ser casamento só de fachada.
- Tá certo. – Olívia sorriu. – Preciso do seu carro emprestado. Juro que é jogo rápido, trago ele à tarde.
- Fique a vontade, querida. Mas você sabe como o Adoníades é temperamental, então, boa sorte. – Bola disse entregando a chave do seu fusca azul royal.
- Pode ficar tranqüilo! Eu sou Fred Flinstones. – Olívia piscou e guardou a chave. – Volto mais tarde. Dá um beijo no Tom por mim.
- Pode deixar. E não se preocupa com a hora. Não vou precisar dele hoje. E vê se aparece hoje à noite, karaokê, meu bem!
- Ok. Eu venho. Desde que você não me obrigue a cantar.
- Não posso prometer nada! – Gritou para Olívia que já atravessava a rua.
Ela entrou no carro, e depois da terceira tentativa, Adoníades ganhava as ruas da Lapa, atravessando os Arcos e indo em direção a Gloria. Em principio, Olívia dirigiu sem rumo. Precisava pensar, e dirigir era uma ótima válvula de escape.
Chegou ao Aterro do Flamengo, e só então se deu conta de para onde estava indo. Acelerou, e com os vidros abertos e ao som de Marisa Monte, voou até Botafogo. Entrou na São Clemente, e parou em frente a um prédio alto com fachada verde, a duas quadras da praia.
Estacionou em frente ao bar que ficava ao lado, desceu do carro, comprou algumas cervejas e se dirigiu a portaria. Subiu até o terceiro andar, e bateu na porta. Foi uma Marina muito descabelada, e vestindo somente uma camiseta branca e calcinha, que lhe recebeu a porta.
- O que você esta fazendo aqui num sábado de manha? – Vendo as sacolas nas mãos dela – e munida de álcool?
- Precisando da minha melhor amiga. – Olívia respondeu fazendo cara de culpada.
- Entra. – Nina abriu espaço para ela passar. – E é bom ser importante. Não, melhor, interessante, picante, surpreendente.
- Ok. – Olívia respondeu e se encaminhou para a cozinha. – Clarissa esta aí?
- Não – Resmungou uma nem um pouco humorada, Marina. – Ela foi ver os pais no final de semana.
- E como vocês estão?
- Mesma merda. – Marina se aproximou da geladeira, onde Olívia guardava as cervejas, e pegou uma para ela. – Nada como um café da manhã saudável.
- Saúde! – Olívia ofereceu a própria garrafa para um brinde.
- Saúde. – Brindaram e beberam. – Então! Pode começar a falar. Onde é o incêndio?
Olívia olhou para baixo. Não tinha certeza em como começar. Nunca havia mencionado a Joana para Nina. A única pessoa com quem conversara sobre isso, tinha sido a Paula. Quando percebeu que estava se apaixonando, abaixou a guarda e contou sua historia.
- Eu vi um fantasma! – Disse e encarou a amiga.
- Ok! Qual tipo? – Marina fazia o esforço de acompanhar. Conhecia bem Olívia para saber que muitas vezes dizer certas coisas, dependia de um esforço.
- Um que eu nunca pensei em reencontrar.
- Manu? – Perguntou em duvida.
- Não. A Manu eu ainda vejo, falo. Apesar da distancia, ainda considero minha amiga. Um fantasma bem mais antigo, e bem mais morto pra mim.
- Quem? – Nina ofereceu um amendoim a ela.
Indicando que não, com um movimento de cabeça, Olívia andou até a janela, e sem coragem de virar e encarar a amiga, falou.
- Joana. – Conseguiu soltar o nome que estava preso na garganta.
- Joana? Não me lembro de nenhuma Joana. – Nina disse já se dirigindo a sala, com outra cerveja, um pacote de amendoim, outro de castanha de caju nas mãos. – Traz as azeitonas e o queijo.
As duas sentaram no chão, em volta da mesinha de centro e colocaram os aperitivos ali em cima. Olívia também não havia comido nada, então as duas se entregaram ao pequeno lanche.
- Joana foi minha primeira.
- Uau! Jura? – Nina abriu um sorriso. - Eu nunca mais vi a minha primeira. Sonia! Ela era amiga da minha mãe, um mulherão.
- Foco, Nina! É a vez do meu fantasma. – Chamou a atenção da amiga, jogando-lhe uma azeitona.
- Certo. Me fala da Joana.
- Ok. – Respirou fundo antes de começar. - Joana era minha amiga de escola em Terê. Eu me apaixonei loucamente, nós vivemos uma relação escondida, turbulenta e cheia de altos e baixos, e ela trucidou o meu coração e jogou no lixo.
Nina a olhou surpresa. Nunca havia visto a Olívia admitir que alguém tivesse chegado tão perto a ponto de ser capaz de destruí-la. Em geral, quem quebrava os corações alheios, era ela. Talvez aí estivesse a explicação para isso.
- Bom saber que você deixou alguém chegar perto o bastante pra fazer um estrago.
- Ah, valeu! Muito obrigada por entender e analisar a minha dor. – Olívia se jogou para trás, recostando no sofá.
- Dor? Ainda dói, Li? – Nina se surpreendeu.
- Não. – Olívia respondeu rápido. – E sim. Eu não sei. Eu acho que estou assim porque fui pega totalmente de surpresa.
- Onde você encontrou essa criatura?
- Na minha casa!
- O que?
- É. Na minha sala, hoje de manhã. Ela amiga da Marcinha, namorado do Guto. Veio passar uns dias lá em casa. – Ah, a ironia estava ali. Olívia continuava a mesma. Mesmo em se tratando de um assunto que a tirava do eixo, não deixava cair à fortaleza que levara tanto tempo construindo.
- Você ta de sacanagem?! – Nina exclamou, deixando cair um pouco de cerveja no tapete. – Putz, amiga! Isso é que é destino.
- Que destino, Nina?! Coincidência infeliz, isso sim! – Olívia virou mais um pouco de cerveja pela garganta.
- Não mesmo, Li. Destino com certeza. Você tem alguma pendência com essa mulher pra ela aparecer dentro da sua casa assim. Karma, amiga! Não falha nunca.
Olívia sacudiu a cabeça em negação, mas não respondeu. Conhecia as superstições de Nina e sabia que não iria adiantar discutir.
- Ok. Sem karma então. – Nina se rendeu. Sabia que este não era o melhor caminho para chegar a Olívia. – Eu preciso de um pouco mais de informação se você quiser a minha ajuda.
- O que você quer saber? – Olívia perguntou, já sentindo receio do que viria a seguir. Tudo bem que já tinha aberto as feridas àquela manhã, quando se deixou inundar pelas lembranças desse amor, mas falar dele, falar parecia trazer pro concreto.
- Você disse que foi uma relação turbulenta. Por quê?
- Porque nós éramos jovens em uma cidade pequena e provinciana, onde a palavra lésbica, até hoje é sinônimo de doença infecciosa. – Olívia falou irritada. Era difícil pra ela voltar àquilo. A sua adolescência não foi fácil, e passou os anos seguintes todos, tentando curar os traumas de não se sentir aceita, de achar que não pertencia. Fazer o caminho de volta nas memórias, era mais duro do que ela pensava que seria.
- Eu entendo. Mesmo tendo crescido aqui, não foi fácil pra mim também. – Nina falou calmamente.
Olívia sabia disso. Conhecia a historia de Nina, tudo o que ela enfrentou ao se assumir. Ela não falava com os pais até hoje, tinha brigado com os irmãos, e acabou por fazer de seus amigos, sua família. E ao mesmo tempo, era uma das pessoas mais dóceis e bem resolvidas que Olívia conhecia. Talvez por isso também, a tenha procurado.
- Me fala mais. – Nina pediu após alguns minutos de silêncio. – O que aconteceu entre vocês?
Ainda de olhos fechados, com a cabeça encostada no sofá, Olívia contou como se deu conta de que estava apaixonada pela melhor amiga, a luta interna para aceitar isso como fato, e como se aproximou de Joana. Falou também, da resistência da mesma, dos medos partilhados, dos sonhos, das aventuras. Quase um ano vivendo um amor, que para elas, era proibido, até que foi descoberto.
- Eu não tinha medo. Eu acreditava que o que a gente sentia bastava. Eu era jovem e rebelde, e nada nem ninguém poderia ser capaz de nos separar.
- Mas não foi bem assim, foi? – Nina falou.
- Não, não foi. – Olívia respirou e encarou a amiga. Pegou o resto da cerveja, e virou. – O irmão mais velho dela nos pegou na cama. Nós abusávamos. Vivíamos uma na casa da outra, dormindo juntas e arriscando que descobrissem. Com tudo o que a gente vivia, eu mudei minha postura, eu sabia que as pessoas notavam a diferença em mim. A Jo não. Ela continuava sendo a filha perfeita, estudiosa, dedicada. Os pais dela não eram os maiores fãs da nossa proximidade. Eu aprontava no colégio, enfrentava meus pais. Fiz um discurso inflamado na escola, a favor da anarquia. Nesse dia eu achei que a Joana fosse ter um treco. Mas quando ela estava comigo, ela era forte. Tinha uma personalidade vibrante. Nós bancávamos as loucas e destemidas. Fugíamos as regras. Éramos mais que namoradas, éramos parceiras mesmo.
- Mas quando pegaram vocês, ela negou?
- Não no primeiro momento. Nós tínhamos decidido enfrentar as nossas famílias e a sociedade provinciana. Eu saí de casa, fui morar com uma tia minha que tinha um sitio nas proximidades, e era meio hippie e a Jo ficou comigo. Mas os pais dela pressionaram, e ela me deixou e voltou pra casa. Nós ainda tentamos ficar juntas, mas o medo de perder a família foi mais forte, e ela me deixou.
Marina a olhava, e Olívia podia sentir que ela estava procurando as palavras certas para não magoa-la. Ela diria que entendia a reação da Joana, e olhando de fora e friamente, ela também era capaz de entender. Sentir a perda é que não foi nada fácil. Ela se dispusera a enfrentar tudo para viver aquele amor, e não foi correspondida a altura. Isso ainda doía. Com o tempo, passou a aceitar e entender a atitude da Joana. Ela tinha uma família que ela não queria decepcionar. Ela perderia muito mais que Olívia, que há muito tempo havia decidido que a opinião dos seus pais, não era importante para ela.
Olívia abriu um sorriso ao ver a luta interna da amiga. Marina era extremamente lúcida e tinha o dom de ser capaz de ver sempre os dois lados de qualquer situação. Sabia que ela queria apaziguar a dor, mas também fazê-la enxergar.
- Está tudo bem, Nina. Eu também entendo que ela tenha me deixado. Mas isso não quer dizer que não tenha sido muito difícil. – Olívia falou se erguendo e indo em direção a cozinha.
- Eu imagino, Li. Já namorei mulher hetero que não queria se assumir, e é uma merda.
- É uma merda. – Olívia voltou com mais duas cervejas e entregou uma garrafa a Marina. – O que mais me revoltou, foi ter que enfrentar tudo sozinha. Eu estava disposta a enfrentar o mundo, mas ao lado dela. Esse era o plano...
- Esse era o plano. Eu sei. Vai ficar tudo bem, você vai ver. Você é uma mulher forte, independente, inteligente, linda. Não deixa a adolescente sofrida tomar conta de você. Ela deve ficar no passado onde pertence. Ela também fez você ser quem é. A dor e o sofrimento nos fazem maiores, mais fortes. Deixa a amargura de lado... tem gosto ruim.
Marina sorriu e a abraçou. Olívia se deixou abraçar, consolar. Já se sentia mais forte. Mais ela. Precisava ser tudo o que via nela mesma, para enfrentar esse momento. Rever a Joana abrira feridas que ela julgava esquecidas, mas na verdade, estiveram lá o tempo todo. Talvez Nina estivesse certa, talvez ela precisasse enfrentar esse fantasma do passado, para seguir livre no futuro.
As duas passaram a tarde juntas. Conversaram sobre tudo e mais um pouco, e Olívia se sentiu mal em ter trazido seus problemas para Nina. Ela e a Clarissa estavam passando por um momento muito delicado no relacionamento, e Olívia sabia o quanto isso estava doendo. Marina, assim como ela, tinha uma proteção forte. Não permitia que qualquer uma entrasse e bagunçasse a sua vida e o seu coração. Mas havia se apaixonado, e desse tipo de amor, não adianta fugir, ele se agarra em toda a essência, e derruba qualquer parede que tenha sido erguida.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
CAPÍTULO 4 - Reencontro
Something (George Harrison)
"Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me
I don't want to leave her now
You know I believe and how
Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me
I don't want to leave her now
You know I believe and how
You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know
Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me
I don't want to leave her now
You know I believe and how"
Quando já estava anoitecendo, Olívia convenceu Nina a acompanhá-la ao bar do Bola. Guto já havia ligado duas vezes atrás dela e querendo marcar um programa para a noite. Ele era jovem demais quando tudo aconteceu, e como na época, Olívia também, fez de tudo para proteger Joana, mesmo tendo sido deixada por ela, ele nunca soube quem havia sido o seu amor de adolescência, nem a razão para ela ter se assumido. Por tanto, ele também não via mal algum em uma reunião de amigos de longa data.
Por volta das vinte horas, elas chegaram ao bar do Bola. Olívia ficou aliviada ao constatar que seu irmão, a cunhada e a ex-namorada, ainda não haviam chegado. As duas se dirigiram a uma mesa de sinuca no fundo do bar, e Bola chegou trazendo as cervejas e os aperitivos. O bar ainda estava vazio, e Nina correu para escolher a seleção musical. Esta noite, rock anos oitenta. Olívia a encarou e balançou a cabeça. Aquilo não daria certo.
Já estavam na segunda partida, e Olívia estava mais uma vez ganhando, quando viu Joana entrar. Guto parara a porta, para apresentar a namorada ao Bola, e Joana seguiu em direção a Olívia. Marina não precisava perguntar pra saber de quem se tratava, e protetoramente, se posicionou ao lado da amiga.
Joana e Olívia se encararam. E agora, mais lúcida, ela pode ver que aquele momento era tão inusitado e difícil para Joana, quanto era para ela. Sentiu simpatia pela apreensão dela. Havia fugido mais cedo, e provavelmente isso provocara a turbulência que via nos olhos amendoados da morena. Abriu um sorriso sincero e se aproximou.
- Jo, essa aqui é a Nina, minha amiga. – Apresentou Marina, que logo estendeu a mão e com um sorriso cumprimentou Joana.
- Muito prazer! Bom conhecer uma amiga de infância da Olívia. Ela devia ser um terror quando era mais nova.
- Ela transparecia isso, mas na verdade, sempre foi muito doce. – Joana respondeu sorrindo, e olhando dentro dos olhos de Olívia, que certamente não esperava essa resposta.
- Ela é doce. Verdade. – Marina emendou após alguns segundos de silêncio, e segurou a mão da amiga.
Esse gesto não passou despercebido por Joana, que sem graça, mirou Olívia com questionamentos. Esta não percebeu a dúvida que pairou sobre sua antiga paixão, e com o mesmo sorriso com o qual a recebera, ofereceu-se para buscar uma cerveja para ela. Joana concordou e sentou-se a mesa assim que Guto e Marcinha se aproximaram.
- Nina! – Guto gritou entusiasmado, puxando a namorada pela mão. – Ainda bem que você veio. Essa é a Marcinha, minha namorada.
- Finalmente! – Nina exclamou e abraçou a menina. – Guto sempre fala muito em você, mas a verdade, é que nenhum de nós tinha certeza quanto a sua existência.
- Eu também queria muito te conhecer. Guto fala muito bem de você. – Marcinha retribuiu o abraço.
Os três acompanharam Joana, e sentaram-se a mesa. Do balcão, Olívia se pegou admirando a morena. O jeito como ela mexia nos cabelos, jogando os cachos para trás da orelha. O sorriso amplo, branco e luminoso que ela tanto gostava. Os olhos grandes e brilhantes, as mãos com dedos longos, e que agora carregavam anéis e pulseiras. As costas nuas, a pinta no queixo, a boca vermelha, o jeito que ela brincava com as mãos. Percebeu o quanto conhecia aquele corpo, suas reações, seus trejeitos. Joana continuava linda e hipnotizante, mas Olívia não a conhecia de fato. Ficou triste ao perceber que, apesar de lhe ser tão familiar, aquela mulher era um mistério para ela. Não sabia nem como falar com ela, ou como agir diante dela. Respirou fundo, pegou a bandeja com as garrafas e copos de cima do balcão, e se dirigiu à mesa.
- Querendo relembrar os tempos de bartender, Li? – Marina a provocou.
- Pois é. Estou até surpresa como ainda consigo equilibrar uma bandeja nas mãos. – Olívia respondeu enquanto servia a todos. – Mas não vão se acostumando não, que é só hoje.
- Bartender? – Joana perguntou assim que Olívia sentou-se ao seu lado na mesa.
- Sobrevivência. – Olívia respondeu com um sorriso, e seus olhos se encontraram. – Mas isso já faz tempo. Foi logo que eu cheguei ao Rio.
- Então você e a Nina se conhecem há muito tempo! – Joana falou, tentando manter o tom de voz natural e Olívia percebeu, ou achou que havia uma pitada de ciúmes ali. Ou não, logo pensou.
- Sim. Muito tempo. A Nina foi uma das primeiras amigas que eu fiz no Rio. – Disse carinhosa, olhando para a amiga. – E é uma das melhores pessoas que eu já conheci.
- Que bom! Fico feliz por vocês. – Era sincero. Desejava muito bem a ela, e Olívia pode sentir isso.
As duas foram interrompidas pela entrada escandalosa de Theo, que esta noite estava sozinho. Com os cabelos arrepiados, de um castanho para o abóbora, uma camisa lilás e uma calça jeans justa, ele já chegou abraçando o Guto por trás.
- Senti sua falta, amor! – Brincou com ele.
- Também senti a sua, meu bem! – Guto respondeu levantando para dar-lhe um abraço.
- Algo com o que eu deva me preocupar? – Marcinha perguntou em tom de brincadeira.
- Então essa é a minha rival? A mulher que te prende ao mundo hetero?! – Theo puxou Marcinha para um abraço. – Estava morrendo de curiosidade! Mas você é linda! Se eu gostasse de mulher, te roubava dele.
Theo abraçou a todos na mesa e sentou-se ao lado de Olívia. Estava uma pilha. Tinha terminado com o seu caso da semana anterior, e essa noite queria abafar em uma festa no Cine Ideal.
- Pelo amor de Deus, vocês têm que vir comigo! – Se dirigiu a Olívia e Marina.
- De jeito nenhum, bicha! Meu casamento pode estar por um fio, mas eu não vou ser a primeira a pular fora. – Marina se limitou a dizer. E Joana pareceu mais interessada na conversa.
- Please! – Ele se virou para Olívia.
- Theo! O Cine não vai dar. O mesmo povo de sempre, as mesmas cantadas, a mesma música. – Olívia se queixou.
- Olha aqui oh sapatão! Você me abandonou! Há quanto tempo você não sai na noite comigo pra dançar? Você é minha ultima esperança! Meus amigos viados, ou estão namorando, ou foram pra The Week, e você sabe o que eu acho daquele lugar. Só sobrou você!
Theo fez sua cara mais pidona que podia, mas Olívia, mesmo não querendo, estava muito consciente da presença e do olhar de Joana que recaía sobre ela. Não queria de fato ir para o Cine. Tinha cansado da noite gay, e de certa forma, não podia negar que não queria ir embora por causa da Joana. Era arriscado dar vazão a esse interesse, mas ainda se sentia no controle o bastante, e sabia que aquela era uma oportunidade única. A sua curiosidade para saber mais daquela linda mulher, que fora sua primeira e que estava ali ao seu lado, venceu.
- Não vai dar Theozinho. Liga pro Billy. Já está mais do que na hora de vocês dois se acertarem. Fora, que eu vou ser péssima companhia.
- E o que eu vou dizer a todas as suas seguidoras? – Ele fez seu tom mais trágico. – Vou ficar cercado de sapatões desesperadas, querendo saber onde você foi parar. Assim vai perder o posto, amiga.
- Já entreguei o posto há muito tempo, bicha. – Olívia disse, e não teve como controlar o seu olhar, que encontrou uma Joana muito séria, brincando com o copo de cerveja a sua frente.
- Entregou mesmo. Eu nem te reconheço mais. – Guto os intrometeu rindo. – Tinha um orgulho da minha irmã pegadora.
Olívia o repreendeu com o olhar, o que fez com que ele caísse na gargalhada, acompanhado por Marina e Theo. Mais uma vez, se pegou analisando as reações de Joana. Ela estava séria. Procurava disfarçar, mas Olívia achou que ela tinha ficado incomodada com a conversa, e não pode deixar de sentir as borboletas dentro do seu estomago ao constatar isso. Ela estava tão interessada quanto ela em saber quem Olívia havia se tornado.
Marina a encarou percebendo o interesse, e sorriu. Olívia não podia deixar de pensar que para a amiga, vê-la naquela situação, devia ser no mínimo divertido. Ela que nunca se importava com o que os outros pensavam, estava ali, tensa com o tipo de imagem que poderia estar passando para Joana. Percebeu que queria que ela soubesse quem tinha se tornado, mas também queria muito conhecê-la.
Theo deixou-os após fazer alguns telefonemas. Guto e Marcinha conversavam animados com Bola e Tom. Marina discutia com Clarissa ao telefone, e Olívia se viu sozinha com Joana pela primeira vez.
Pensou em várias formas de iniciar uma conversa. Mas uma parecia mais tola que a outra. Se pegou olhando para os cachos que caíam sobre os ombros dela, e bailavam sobre sua pele. Sentiu um desejo quase incontrolável de afastá-los e tomar aquele rosto em suas mãos. Ao invés disso, virou o copo de cerveja, e serviu um pouco mais a ela e a Joana.
- Então... aqui estamos. – Decidiu que não valia a pena fugir mais. Precisava transpor a barreira, e o fez. – Destino ou coincidência?
Joana a encarou, e viu o sorriso sincero estampado no rosto de Olívia.
- Não acredito em coincidências. – Foi a resposta que deu olhando profundamente nos olhos verdes de Olivia. – Fico então com destino. – Completou.
- Me desculpe por ter saído daquele jeito mais cedo de casa, mas o susto foi grande. Fiquei sem ação. – Falou assim que recobrou o ar. A resposta não era a que ela esperava. Na verdade, não a resposta, mas a intensidade do olhar que a acompanhou. A sinceridade transbordava dela. Viu as paredes cederem. Não queria meias verdades, e provavelmente não conseguiria impô-las. Negar que tinha ficado mexida, seria não só mentira, como algo incabível se queria sinceridade de Joana. – Nunca poderia esperar ver você na minha sala.
- Eu também não esperava te encontrar. Nunca poderia imaginar que o Guto, era o Gugu. – Joana sorriu. – O tempo passa rápido demais. Aquele menino pentelho que vivia pedindo para brincar com a gente, virou um homem. E um homem bom. A Marcinha não poderia estar mais apaixonada.
- Fico feliz em ouvir isso. O Guto é louco por ela. E sim, o tempo passa. – Não pode controlar o olhar que lançou para Joana. Havia desejo e uma profundidade quase triste.
Ficaram se encarando, se medindo, tentando obter respostas sem palavras. O silencio não lhes era incômodo, era cheio de perguntas e cumplicidade. Não se conheciam mais, isso era fato, mas se reconheciam.
Marina interrompeu o momento para se despedir. Clarissa havia voltado de viagem e estava em casa esperando para conversar. Olívia viu o temor e a determinação da amiga ao se despedirem. Pediu para que ligasse a qualquer hora se precisasse dela. Acompanhou-a com o olhar preocupado e só se deu conta disso, quando sentiu o toque de Joana, que lhe acariciava o braço. Se assustou com a eletricidade contida em um toque tão desinteressado conseguia provocar.
- Aconteceu alguma coisa? – Viu seu rosto preocupado refletido nos olhos de amêndoa.
- Só preocupada. A Nina esta passando por um momento difícil com a Clarissa. Ela é forte, mas esse tipo de decepção pode derrubá-la. – Só quando completou, percebeu o quanto essa verdade cabia ali.
- Decepção? A namorada dela a traiu?
- Ela não tem certeza. Mas se traiu ou não, não é bem a questão. Ela tem estado distante, e a Nina tem sofrido muito com isso.
Os olhares se cruzaram novamente, e Olívia sentiu o poder que aqueles olhos tinham sobre ela. Estendeu o braço por sobre a mesa, e com a ponta dos dedos, acariciou o braço de Joana. Sentiu o calor na ponta dos dedos, e viu os pêlos do braço dela, se arrepiarem com o contato.
- É confuso, mas bom te ver de novo, Jo. – Falou sem olhar para ela, ainda admirando a reação da pele dela a sua.
- Também acho. – Ela respondeu e virou o braço devagar, deixando claro que estava gostando do carinho. – Eu imaginei muitas vezes como seria te reencontrar. Juro que nunca pensei que seria assim.
As duas riram e Olívia parou de acariciá-la. Pegou a cerveja e bebeu mais um pouco. Joana a acompanhou. Sorrindo maliciosa, Olívia se ajeitou na cadeira, cruzou as pernas em cima dela e encarou Joana.
- Ok. Eu começo. Faculdade?
Joana entendendo a brincadeira de perguntas e respostas, também se virou na cadeira, ficando de frente para Olívia e sorriu.
- Historia.
- Hum! Eu achei que você faria Medicina no final das contas.
- Hey! Sem comentários. Minha vez de fazer a pergunta. – Joana a recriminou pelo comentário.
- Ok. Vai lá! – Olívia se rendeu.
- Além de bar tender, no que mais você já trabalhou?
- Pergunta difícil de responder.
- Eu ainda facilitei. Pode respondendo.
- Ok. Bartender, entregadora de pizza, secretária, organizadora de festas, mas esse durou muito pouco. Idéia louca do Theo pra tentar me ajudar. Vendedora de loja de roupas, de livraria, de sapataria, de papelaria. E eu fazia uns bicos durante a faculdade, escrevendo trabalhos para outras disciplinas de vários cursos. Hoje eu sou professora de português, literatura e redação do ensino médio.
- Você? Professora? – Joana caiu na gargalhada. – Inacreditável. Eu pensei que você não acreditasse nem um pouco no sistema de ensino.
- Eu não acredito. Mas eu faço o meu melhor.
- Juro que por essa eu não esperava.
- Eu imagino que não. –Fez uma pausa. – Eu mudei muito, Jô.
- Estou vendo. – Joana a olhou com admiração. – Eu também dou aulas. Terminei meu mestrado há dois anos, e estou tentando passar no concurso para dar aulas na Federal. Quero embarcar no doutorado ano que vem.
- Uau. Fico muito feliz por você, Jo. Mesmo. Eu jurava que você cederia e iria trabalhar com seu pai no consultório.
- É. Eu entendo porque você pensaria isso. – Joana abaixou a cabeça.
- Desculpa Jô. Não foi minha intenção te julgar, de forma alguma. – Olívia estendeu a mão, e tocou a perna de Joana, fazendo-a olhar para cima e encontrar com seus olhos. – Eu juro que não quis te ofender, ou te magoar. – parou por um instante, temendo o que diria a seguir, mas decidiu deixar fluir como tinha feito até então. – Eu só quero te conhecer. Desde o momento em que eu te vi hoje mais cedo, a curiosidade de saber quem você se tornou, vem me queimando por dentro.
Joana abriu um sorriso tímido, e sobrepôs à mão de Olívia com a sua. Sentiu quando esta virou a palma da mão pra cima, segurou firme a sua mão. Recebeu o carinho dela com o coração batendo forte.
Olívia tinha total consciência de que não sentia isso com mulher nenhuma há muito tempo, e foi mais essa descoberta, do que qualquer outra coisa, que a fez recuar. Tentou soltar a mão, mas Joana foi mais rápida e a segurou mais firme.
- Eu também quero muito te conhecer, Ollie. Eu andei pelo seu quarto hoje, e vendo seus livros, suas coisas, suas roupas, suas fotografias, eu me senti vazia e ao mesmo tempo preenchida, entende? Hoje foi quase como entrar numa máquina do tempo, e a verdade é que a minha vontade era voltar até nossa ultima conversa só pra poder fazer diferente. – Com os olhos marejados, Joana admitiu o que estava sentindo. Um pouco envergonhada, olhou para as mãos entrelaçadas, enquanto Olívia tentava absorver o que ela tinha dito. – Eu me culpo até hoje pela forma como lidei com a situação naquela época. A dor que eu sofri e a dor que eu sei que causei em você, me apertam o peito até hoje.
Olívia sentiu o ar lhe faltar mais uma vez naquela noite. Não sabia se agüentaria as emoções exacerbadas e a flor da pele que aquela mulher era capaz de provocar nela. Sentiu queimar no peito o amor que por tanto tempo buscou enterrar. Não sabia se era reflexo ou se era real, só sabia que o sentia arder dentro dela.
Podia ver nos olhos de Joana a confusão que a acometia. Queria abraçá-la. Segura-la bem firme em seus braços e dizer que ficaria tudo bem, como fez tantas vezes no passado. Queria sentir o cheiro que a deixava tonta ao respirar em seu pescoço. Queria saber se o sabor dos lábios, ainda era o mesmo que recordava.
Tentou e com muito esforço, conseguiu voltar ao momento presente. Viu seu irmão espiar para elas de longe e acenar enquanto deixava o bar acompanhado de Marcinha, que parecia não perceber o clima entre as duas.
- Temos que ir. O Bola daqui a pouco vai fechar o bar. – Olívia interrompeu os pensamentos de Joana que pareciam longínquos.
- Tudo bem. Vamos. – Joana se levantou em um movimento único e pegou a bolsa que estava pendurada nas costas da cadeira.
Se despediram do Bola prometendo voltar no dia seguinte para o almoço, e encontraram o Guto e a Marcinha do lado de fora conversando com o Tom. Olívia percebeu o olhar de Guto. Ele não disse nada no caminho de volta, mas ela tinha certeza de que ele havia percebido alguma coisa. O Guto a conhecia muito bem, mas estava procurando ser discreto, o que não era um dos seus pontos fortes.
Assim que chegaram a casa, Marcinha foi direto para o quarto deitar se despedindo de Joana e Olívia. Guto seguiu a irmã até o quarto, quando esta foi pegar uma roupa de cama para Joana dormir, e fechou a porta a suas costas.
- Pode começar a falar. O que tá pegando entre você e a Jo? – Ele foi direto ao ponto.
- Não tem nada pegando. Só estávamos colocando a conversa em dia. – Ela respondeu sem olhar para ele, ainda separando os lençóis da ultima gaveta da cômoda.
- Ollie! Eu não sou idiota. É a Jo, não é?! – Ele a virou para ele. – É ela a menina que você namorou no colégio, e que fez você se assumir e sair de casa.
Ele afirmava. Ele sabia. Olívia olhou dentro dos olhos tão verdes quanto os seus, e não teve coragem de mentir. Ela e Guto haviam estabelecido uma relação muito forte de confiança. Ele era a sua única família, na verdade. Merecia a verdade. Ela balançou a cabeça afirmativamente.
- Uau! – Foi só o que ele conseguiu dizer. – Inacreditável!
- É. Mas não fala nada pra Marcinha. Eu não sei se a Jô já contou qualquer coisa a ela, é muito provável que não.
- Ok. Eu não falo nada. Mas você deveria ter me dito isso hoje mais cedo. Eu não entendi nada da sua reação quando a viu. E muito menos porque você saiu daquele jeito de casa.
- Eu sei. Mas eu estava em choque ainda, ok?! Desculpa.
- Tudo bem. – Guto a puxou para um abraço. – Só quero que você saiba que eu to aqui. Precisando, é só chamar.
- Valeu mano. Mas eu estou bem. Relaxa e vai deitar. – Deu um beijo no rosto dele e o encaminhou até porta.
Guto desejou boa noite para Joana e se fechou no quarto com Marcinha. Olívia foi até o colchão do lado esquerdo da sala, e começou a arrumar a cama para ela dormir. Percebendo o que ela estava fazendo, Joana a ajudou.
Olívia estava pronta para ir deitar, quando Joana segurou seu braço. Se virou para ela, e pressentiu, antes que de fato acontecesse. Ela lhe abraçou forte, se aninhando em seu peito. O contato do corpo dela no seu, fez subir uma descarga elétrica por toda a sua coluna, deixando seu corpo formigando da cabeça aos pés.
A pressionou contra o seu peito e deslizou a mão pelas costas dela. Sentia o seu coração bater forte, assim como o dela, até não ter mais certeza de qual batida era sua, e qual era dela. No ritmo da respiração acelerada, encostou seu rosto nos cabelos dela e sentiu o cheiro que tanto ansiava. Joana mergulhou o rosto em seu pescoço, e Olívia recebeu os lábios doces e molhados na sua pele. O arrepio que sentiu percorrer seu corpo, a fez puxar Joana ainda mais pra perto.
Sem palavras, seus corpos assumiram o controle. Joana passava a língua devagar pelo pescoço de Olívia, descendo até seu colo. Olívia puxou o rosto dela para cima e encarou aqueles olhos amendoados que brilhavam de desejo, um desejo tão grande quanto o dela. Foi com delicadeza e urgência, que colou seus lábios nos dela. Sentiu a maciez e a doçura que tanto ansiara.
Joana abriu os lábios para que a língua de Olívia entrasse, invadisse. Com uma mão segurava os cabelos cacheados, com a outra desceu até os seios, e ficou feliz ao perceber que ainda cabiam na palma da sua mão. Joana a puxava pela cintura, e fez seu caminho até as nádegas, apertando-as primeiro de leve, para depois segura-las firmemente.
Pararam o beijo somente para buscar ar, e Olívia se satisfez com o gemido de prazer que saiu dos lábios de Joana quando a tocou entre as pernas por cima da calça jeans. Voltou a sorver dos seus lábios, enquanto sua mão percorria o sexo dela com a precisão de quem sabe onde tocar. Joana segurou o rosto dela e puxando seu ouvido até a boca, falou baixinho:
- Quero te sentir.
Olívia a soltou, e puxando-a pela mão, a conduziu até seu quarto. Joana parou no meio do cômodo, e Olívia avançou, tirando-lhe a blusa e sentindo a pele quente e macia com seus dedos. Logo as roupas estavam espalhadas pelo chão, e ainda abraçadas, caíram no colchão de casal.
Não conseguia nem ao menos raciocinar. Talvez se tivesse pensado antes, não estaria com o corpo lindo e bem feito de Joana, sob o seu. Mas tudo o que Olívia conseguia pensar, era em quanto a desejava. Beijando, mordendo, lambendo todo o corpo dela, chegou ao lugar que precisava revisitar. Quente, molhado, pulsante. Com os dedos a abriu, com a língua a sentiu. Joana gemeu baixinho, e Olívia explorou, sentindo cada pulsação na ponta da língua, sendo encorajada pelos gemidos abafados que Joana tentava em vão, controlar.
A penetrou. E de tão molhada que ela estava, entrou com facilidade. Entrou e saiu, sentindo-a se abrir ainda mais para ela. Parou de beijá-la, para poder olhar para o rosto contorcido de prazer da mulher que tanto amou. Voltou a chupar com ainda mais vontade, sentindo o clitóris crescer na sua boca, e ditou o ritmo da penetração, pela respiração ofegante de Joana.
Sentiu o corpo sob o seu estremecer e se entregar. Sentiu o gozo escorrer por seus dedos e dele bebeu. Joana a puxou para cima dela. Abraçadas, a respiração regularizando aos poucos, Olívia sentiu uma lagrima escorrer pelo rosto que ela delicadamente beijava. Afastou os lábios e olhou para aquele rosto tão perfeito. Não via dor. O brilho dos seus olhos indicava prazer. Beijou seus olhos, e secou as lagrimas dela com seus lábios.
- Arrependida? – Olívia externou o pensamento que a perturbava em uma voz rouca.
- Não. Feliz, talvez. Confusa. Triste. – Joana soltou as palavras, sem saber definir ao certo o que sentia. – Uma sensação estranha de que o tempo parou no momento em que fui mais feliz.
Puxou o rosto de Olívia, e beijou-lhe os lábios. Um beijo que começou suave, cheio de significados, repleto de carinho e saudade. Uma saudade que chegava a doer. Joana forçou a sua língua para ir de encontro à língua dela. O beijo cresceu, e com ele a excitação que ambas sentiam. Girando-a na cama, Joana se colocou por cima de Olívia. Esta, por sua vez, se espantou e se deliciou com a atitude dela. Nenhuma mulher, com raras exceções, tinha coragem de tomá-la na cama. Ela comandava sempre. Mas com Joana, ela estava entregue. Sentia um desejo tão intenso, que achava que não teria fim nunca. Sentiu os lábios de Joana percorrerem o seu corpo, sua língua circular seu mamilo, deixando-o duro, passar por sua barriga, na sua virilha. Sentiu quando se apoderou do seu sexo, lambendo devagar, tomando conhecimento da sua intimidade, sentiu também os dedos tatearem a entrada.
Olívia dificilmente permitia que a penetrassem. Tinha medo dessa entrega. Preferia dar prazer e sentia prazer dessa forma, mas deixar que a tomassem assim era muito difícil para ela. Mas ali, naquele momento, com Joana a reivindicando, se deliciando com seu gosto, sua textura. Abriu-se. Sentiu-a entrar, invadir. E gemeu. Sua respiração tornando-se mais ofegante a cada estocada, a excitação lhe provocando tremores a cada movimento da língua que a deflorava.
Pode sentir o gozo vindo. Sentiu o ápice próximo. Sussurrou em meio à respiração: “vou gozar”. Joana intensificou os movimentos e Olívia gozou como há muito tempo não fazia. Sentiu os espasmos tomarem conta do seu corpo, sentiu seu gozo escorrer e Joana sugá-lo com vontade. Olhou para aquela mulher em meio as suas pernas e sentiu que poderia gozar de novo só pelo prazer dessa visão.
Puxou Joana para si, agarrou-a com voracidade, e sem pedir licença, sentindo-a encharcada novamente, a penetrou. Não controlavam mais os gemidos. O prazer que sentiam pelo corpo uma da outra era forte demais. Beijos e gemidos, e toques e suor, e gozo, tudo misturado. Os corpos deslizando no contato contínuo e cada vez mais intenso. Olívia sentiu que chegaria ao ápice mais uma vez, e sentiu Joana tremer de baixo dela. Gozaram juntas, e abraçadas permaneceram sentindo a respiração acelerada e os corações que batiam a um só compasso. Os corpos juntos, se movendo, se sentindo.
Olívia não se lembrava da ultima vez em que se sentira tão completa ao lado de outra pessoa. Sentiu excitação e medo. Não planejara aquilo. Não esperava que fazer amor com Joana fosse ainda melhor e mais incrível do que ela lembrava. Teve certeza ali de que pertencia a ela e vice e versa. O temor tomou conta dela. Aquela entrega a apavorava. As sensações eram novas e velhas ao mesmo tempo. A primeira a lhe despertar, e talvez a única que de fato o fez, estava em seus braços novamente.
Se ergueu lentamente e pegou um cigarro no bolso de trás da calça jeans que estava no chão. Sentou-se próxima a janela, e o acendeu. Ficou olhando Joana dormir. Um sono leve, seu peito se elevava e contraia em uma coreografia ensaiada. Quantas vezes ficara deitada vendo-a dormir? Quantas vezes sonhara com aquele momento?
Apagou o cigarro e voltou para a cama. Assim que deitou, Joana se aconchegou a ela, e baixinho disse:
- Amo você, Ollie. – E voltou a dormir, deixando Olívia em êxtase e pavor.
Olívia a abraçou forte, e nos braços de seu primeiro amor, deixou o corpo relaxar. Dormiram juntas. E seus corpos se encaixavam perfeitamente, como sempre foi.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
CAPÍTULO 5 - Déjà vu
A manhã sempre trás novas sensações, e a mágica da noite, se quebra com o nascer do sol.
Olívia despertou assustada. Sentiu o sol que entrava cegar-lhe os olhos. O perfume inebriante de Joana tomava conta de todo o quarto, mas era mais forte ali, nos lençóis. Olívia se viu nua e sozinha na cama. Não a tinha visto levantar, e um aperto no peito, a fez sentar. Viu que sua roupa estava dobrada sobre a cadeira, mas era só.
Vestiu uma camiseta e uma bermuda e deixou o quarto. Na sala, também estava tudo arrumado. Nem sinal dos lençóis que cobriam o colchão inutilizado na noite anterior. A porta do quarto do Guto, ainda estava fechada, os dois deviam estar dormindo. Dirigiu-se ao banheiro, e ouviu o barulho do chuveiro. Não se conteve, e entrou.
Joana estava de baixo da água morna, e aquela visão era de tirar o fôlego. Joana ouviu quando a porta se abriu, e sorriu para a mulher com os cabelos bagunçados a sua frente. Olívia trancou a porta a suas costas, e andou até o box tirando a roupa, sem desgrudar os olhos verdes, dos de amêndoa.
Se apoderou do corpo molhado e quente da mulher que a fizera se reencontrar na noite anterior. Joana beijou-lhe, e sentindo a língua dela na sua, e o corpo dela no seu, a encostou na parede. Sem desgrudarem os lábios, Joana levantou a perna direita e enlaçou Olívia pela cintura. Sentindo o que ela queria, Olívia a penetrou. Começando devagar, mas logo aumentando o ritmo, de acordo com a excitação que sentiam. Não disseram nada, apenas sentiram uma a outra.
O gozo, misturado à água quente que caía sobre as costas, escorreu pelos seus dedos. Com as pernas bambas, Joana se segurou mais forte no pescoço de Olívia, que delicadamente beijava seu rosto.
Assim que se sentiu mais firme, Joana inverteu as posições, e foi a vez de Olívia se abrir para que ela entrasse. Nem tentou resistir. Joana lhe beijava e esfregava o seu corpo no dela com vontade e desejo. Sentiu assim que ela entrou, e ofegou de prazer. Ainda com seu corpo colado ao de Olívia, Joana se apoderava dela. Beijou-lhe a boca, e desta passou ao pescoço, se deteve um tempo nos seios pequenos e duros, impulsionada pelos gemidos roucos daquela mulher. Desceu com sua língua percorrendo todo o corpo de Olívia, até encontrar o seu sexo encharcado. A beijou devagar, e sugou, e passou a língua por toda extensão, sem tirar seus dedos de dentro dela.
Se apoiando com uma mão na parede, e a outra sobre a cabeça de Joana, Olívia sentia o seu corpo vibrar. Percebendo o seu desespero, Joana intensificou o movimento dos dedos e da língua, até sentir o corpo tremer e ceder, com o liquido quente que ela logo tratou de sorver.
Ergueu-se e tomou Olívia nos braços. Ficaram um tempo assim, abraçadas, encaixadas, e Olívia podia sentir o sexo de Joana molhado na sua coxa. Quente. Precisava senti-lo. A deitou no chão do pequeno box, e se posicionou entre suas pernas com um sorriso safado, cheio de desejo. Foi de encontro ao seu clitóris, já o sentindo grande e pulsante, e o tomou para si. Joana não demorou a gozar novamente.
Olívia deixou o banheiro, enrolada em uma toalha e correu para o quarto. Odiava ter que se esconder, mas de certa forma, tinha a sensação de estar fazendo algo muito errado. Sabia, bem no seu intimo, que estava arriscando demais seu coração, se envolvendo novamente com Joana. Não poderia nunca olhar para ela como uma mulher qualquer que tivesse acabado de conhecer. Sempre haveria um peso, uma historia por trás. E uma historia que nem sempre foi feliz.
Voltou para a sala, e Joana havia preparado um café da manhã para elas. Olívia achou engraçado, já que quase nunca comia em casa. Durante a semana estava sempre correndo, e nos finais de semana, ela e Guto pediam alguma coisa, ou saiam para comer fora.
- Onde você arrumou essas coisas? Nessa casa nunca tem nada! – Olívia exclamou assim que entrou no cômodo e viu a pequena mesa de centro arrumada, com pães, manteiga, queijos, frios, geléia, café e leite.
- Eu fui ao supermercado ontem com os dois. – Apontou para o quarto ainda fechado. - Tive que convencer o Guto, porque aparentemente, vocês não se alimentam em casa.
- Não mesmo! Eu passo o dia trabalhando e ele também. Quando estamos em casa, pedimos pizza. Basicamente é isso.
- Bom, eu preciso tomar café da manha antes de qualquer coisa na vida.
- Hei, eu não estou reclamando! Estava louca de fome! – Olívia sentou-se no chão de frente para ela.
- Larica pós sexo! – Joana falou com um sorriso no rosto.
Dividiram um sorriso cúmplice e cheio de significados. Olívia percebeu então, que a noite anterior, havia sido tão forte para Joana, quando foi para ela. Talvez não o mesmo nível de intensidade, ou o mesmo sentimento de pertencer que ela havia provado, mas não foi só uma experiência. Ainda tinha medos e reservas, pois sentia seu coração se entregar sem ter certeza, sem nem ao menos querer, mas era um alivio ver naqueles olhos, certa entrega também.
Tudo nela era novo e conhecido ao mesmo tempo. Olívia se pegou admirando o jeito dela de mexer no cabelo enquanto contava uma historia. O sorriso fácil que se abria iluminando seu rosto, as mãos delicadas e ágeis. As pausas na fala, a risada gostosa. Sentia o peito inflar com o perfume que exalava. Não queria estar se sentindo assim, mas também não tinha qualquer controle sobre isso.
- O que foi? – Joana interrompeu a historia que estava contando sobre seu irmão mais velho, ao perceber o olhar de Olívia.
- Nada. – Olívia sorriu sem graça. – Estava te olhando.
- Gosto do seu olhar, Ollie. – Se aproximou de Olívia. – Gosto do seu cheiro, do seu toque. Se aproximou ainda mais e falou baixinho no ouvido. – Do seu corpo. Da sua voz, seu gosto.
Olívia a puxou e beijou. Pressionou seu corpo contra o dela, e sentiu o calor lhe subir por entre as pernas. Já estava com a mão direita por dentro da calça dela, quando o barulho vindo do quarto em frente, as separou. Joana voltou para o outro lado da mesa, e as duas tentaram regularizar a respiração.
Guto saiu do quarto com os cabelos em pé a cara inchada. Acenou para as duas e entrou no banheiro. Joana olhou para Olívia, já prendendo o riso, e foi o que bastou para as duas caírem na gargalhada.
- Eu tenho que tomar cuidado quando estou perto de você – Olívia falou e bebeu um gole de suco. – Você é um perigo.
- O que vamos fazer hoje? – Joana perguntou erguendo uma sobrancelha e ignorando o comentário de Olívia.
- Você que manda. Eu posso pedir o Adoníades emprestado pro Bola hoje de novo, e podemos passear.
- Adoníades?
- O fusca dele.
- Ok. Podemos fazer isso.
- Só nós? – Olívia perguntou um pouco insegura.
- Só nós. Além do mais, aqueles dois devem ter planos para hoje.
- Provavelmente. Só nós então. – Olívia sorriu e recebeu o sorriso mais lindo do mundo de volta.
Guto e Marcinha estavam só sorrisos durante o café da manhã. Mesmo já tendo comido, as meninas ficaram na sala com eles. Guto olhava de uma pra outra, tentando identificar o que os sorrisos delas denunciavam, mas não fez nenhuma pergunta ou insinuação. Ele sabia ser discreto quando queria. Ou ao menos estava tentando ao maximo.
- Eu hoje quero passear! – Marcinha falou, já fazendo cara de cachorro sem dono para o namorado. – Tem muito tempo que eu não venho ao Rio, e quero tudo o que tenho direito. Corcovado, Jardim Botânico, praia...
- O que você quiser amor! – Guto respondeu romântico, e beijando de leve a namorada.
Olívia ficava feliz em ver o irmão tão apaixonado. Estava começando a compreender a fascinação dele por aquela menina, que apesar de bonita, não chamava muita atenção. Marcinha era simplesmente cativante. Tinha uma energia positiva e a transmitia. Era animada, engraçada, divertida. Guto havia acertado em cheio.
- E vocês? Vão fazer o que hoje? – Guto quis saber.
Ela poderia ter fuzilado ele com os olhos. Incluí-las no mesmo pacote, era quase declarar a relação das duas na frente da namorada, que aparentemente, de nada sabia sobre o passado delas.
Mas Joana foi mais rápida, e Olívia se surpreendeu quando a morena, calmamente respondeu:
- Vamos passear também. Mas eu não quero dar uma de turista como a Marcinha. Já conheço esse lado do Rio. A Ollie vai me levar a outros lugares, certo?
- Certo. – Olívia respondeu com um sorriso e um olhar que responderam a todas as perguntas do Guto, porque na mesma hora ele abriu um sorriso que Olívia conhecia bem.
- Ok então! – Exclamou Marcinha, já levantando do chão. – Vou me arrumar. Quero aproveitar bem o dia.
Assim que Marcinha entrou no banheiro, Guto se virou para as duas lindas e radiantes mulheres a sua frente.
- Ela já pode saber? – Foi a primeira coisa que ele disse. Se ele sabia ser discreto, sabia também ser extremamente direto.
Olívia fechou a cara para a indiscrição do irmão, mas mais uma vez Joana a surpreendeu assumindo controle da situação.
- Pode. Mas eu quero contar. – Joana se prontificou. – Mais tarde, pode ser?
- Fechado. – Guto apertou a mão de Joana e saiu da sala com um sorrisinho no rosto.
***
Às duas da tarde, Joana estava sentada no banco do carona, admirando Olívia conduzir o velho Adoníades pelas ruas da cidade. Haviam saído de casa antes de Guto e Marcinha, que aparentemente, tivera a mesma idéia da irmã, ao entrar no banheiro enquanto a namorada tomava banho. Olívia seguia rumo a Zona Sul, passaram pelo túnel e no radio, que milagrosamente ainda funcionava, podiam ouvir os acordes finais de “Desafinado” de Tom Jobim.
Não falavam muito, apenas amenidades. Incentivada por Joana, Olívia falava do trabalho e dos alunos. Gostava de entrar neste assunto. Tinha orgulho e prazer em sua voz, e Joana podia sentir isso fluir em cada palavra. Era incrível para ela ouvir aquela voz rouca. Aquela melodia que embalara sua adolescência. Estava ainda mais bonita e sedutora. Os cabelos desalinhados sobre os olhos, também faziam parte da figura por quem ela havia sido tão apaixonada um dia. Magra, longilínea, ainda curvava os ombros pra frente e abaixava a cabeça quando a olhava profundamente.
Joana sabia, tinha consciência de que as suas atitudes estavam sendo impulsivas. Do momento em que vira Olívia sair do quarto, um pouco despenteada, a cara de quem tinha dormido pouco, e a surpresa com a qual lhe fitou, todo o seu preparo para reencontrá-la lhe pareceu infantil e fraco. Assim que se deparara com Guto na rodoviária e soube que iria para a casa que ele dividia com a irmã, tentou de todas as formas se sentir forte e firme para o inevitável. Iria rever sua ex-namorada, alguém em quem seu pensamento ainda se refugiava, mas com quem nunca sonhara estar novamente. Em momento algum pensou que rever Olívia teria tamanho impacto em seu interior.
A atração foi imediata. O coração bombeava tão rápido, que o sangue parecia querer fugir das suas veias. Sentiu a umidade entre as pernas, no momento em que sua pele dourada, tocou a pele clara de Olívia. Usou todo o seu lado racional para afugentar tais sentimentos e sensações, mas estar perto de Olívia a fazia perder toda a razão. Percebeu o quanto a queria, quando no bar, achou que Nina fosse namorada dela. Sentiu ciúme, posse. Olívia havia sido sua muito antes e ela dela. Não resistiu. A queria demais.
Os pensamentos voltaram para o presente momento, quando o carro parou em uma rua arborizada do Jardim Botânico em frente a uma casa grande e envidraçada. Olívia desligou o motor e olhou para Joana.
- O quanto você é contra a invasão de propriedade privada? – Perguntou com um sorrisinho bailando nos lábios.
- Depende de quais as chances de eu ser presa por isso. – Respondeu desconfiada.
- Hum. Quase nulas. Eu conheço os donos, mas eles estão viajando e eu não tenho a chave.
- E como, exatamente, você planeja entrar? – Joana perguntou olhando o muro alto e repleto de hera.
- Você vai ter que confiar em mim. – Disse abrindo ainda mais o sorriso, e segurando a mão de Joana na sua.
Como um simples toque era capaz de provocar tamanho arrepio? Olívia estava tentando se acostumar com a sensação da pele de Joana, mas não era algo natural. Não conseguia toca-la de forma totalmente displicente. Até porque sentia o corpo da outra responder ao seu toque de forma quente.
Saíram do carro e pararam em frente ao muro.
- Vamos tentar fazer isso rápido. Não seria nada bom se um vizinho visse e chamasse a policia. Muitas horas pra explicar, e acabaria com a minha programação do dia.
Joana adorou ouvir isso. Olívia então tinha pensado em uma programação? Por mais natural que tentassem agir uma com a outra, ainda estavam tentando antecipar movimentos, perceber intenções em cada gesto ou palavra. Se mediam como oponentes antes de uma luta.
Seguiram pela lateral do muro, e Olívia encontrou a brecha que procurava. Ela e Danilo, seu amigo de faculdade, haviam invadido mais de uma vez aquela casa. Renato, o dono, era um escritor que dera um curso para eles, e de quem acabaram ficando amigos. Quer dizer, ela ficou amiga, enquanto Danilo começou um romance com o escritor. Já estavam juntos há mais de três anos, mas antes disso se concretizar, toda a vez que brigavam, Olívia ajudava Danilo com seus planos mirabolantes para reconquistá-lo. O que algumas vezes, culminou com os dois correndo dos cachorros de guarda da casa quando pulavam o muro. Assim que Danilo se mudou para lá, os cachorros foram para uma fazenda no interior do Estado.
Subiu na primeira pedra, e estendeu a mão para Joana, que já se arrependia de ter aceitado aquela loucura, mas que ao mesmo tempo, sentia prazer em estar em companhia da Olívia invadindo uma casa. Também não era a primeira vez delas.
Subiram para a outra pedra, e escalaram o restante do muro. Como Olívia bem sabia, o difícil não era subir e sim descer pelo outro lado. Advertindo Joana do perigo, passou o corpo para o lado de dentro do muro, e se segurando nas pontas dos dedos, deixou o corpo cair na grama fofa.
- Você acha mesmo que eu vou pular daqui de cima? – Joana falou olhando para Olívia já de pé do outro lado.
- Larga de ser medrosa. Se solta que eu te seguro.
- Até parece. Você pode até ser mais alta, mas é fraquinha! – Joana a provocou.
- Desce até aqui que eu te mostro quem é fraquinha. – E lançou um olhar que parecia queimar Joana por dentro.
Se segurando na beirada do muro, respirou fundo, e de olhos fechados, deixou o corpo cair.
Olívia realmente tentou segura-la, pois acabaram caindo juntas na grama rindo. Joana ainda estava por cima, e só de sentir aquele corpo debaixo do dela, já sentiu o fogo subir-lhe por entre as pernas.
- Falei que você não me agüentava. – o tom de voz era sedutor, assim como o olhar.
Se virando rapidamente, Olívia inverteu as posições, e prendeu os braços de Joana acima da cabeça, sentando-se por sobre a cintura dela.
- Não me provoca! – Disse aproximando seus lábios dos dela. – Que eu não resisto.
Sentindo o hálito próximo ao rosto, a lhe fazer cócegas e deixa-la toda arrepiada, Joana sussurrou:
- E quem disse que eu quero que você resista.
Os lábios de Olívia se prenderam aos dela com urgência. Mas não permitiu que Joana se soltasse. Segurava seus braços com força, enquanto descia com lábios e língua para o pescoço dela.
- Você não faz idéia, faz? – Olívia se aproximou do ouvido dela, provocando mais arrepios. – Do tesão que eu sinto por você.
E introduziu a sua língua no ouvido dela, sentindo o corpo todo, sob o seu, tremer. Percorreu mais uma vez o pescoço que se oferecia, e lambeu, chupou e mordeu, arrancando gemidos de Joana.
- Isso não fazia parte dos meus planos. – Sussurrou, enquanto encaixava a sua coxa no meio das pernas dela, e movia o seu corpo contra o dela. – Mas com você, eu perco a cabeça. – E mantendo a mão esquerda no alto, segurando os braços de Joana, que não mais resistia, desceu a mão direita pelo corpo escultural, se aproveitando de cada curva, oras segurando com força, outras delicadamente, causando arrepios pela pele da morena.
Desceu pela perna, passou pela bunda, e voltou pelo meio das coxas, somente para encontrar o sexo quente por cima da calça. Joana ofegou, e Olívia com agilidade, abriu o botão da calça jeans e enfiou a mão por dentro da calcinha.
O sexo molhado de Joana fez com que Olívia soltasse um gemido contra os lábios dela. Se deliciou com aquela umidade, antes de inserir seus dedos, e gemer junto com ela.
Joana jogou a cabeça pra trás, uma entrega. Nunca se sentira assim, tão entregue, com um desejo tão latente, como aquele que sentia na presença de Olívia. Nem mesmo quando a conheceu, anos antes, esse desejo era tão forte e pulsante.
Olhou para aquela mulher linda, com os cabelos desalinhados caindo sobre os olhos, a boca vermelha, e os profundos olhos verdes, ardendo com os dela. Sentiu os dedos abeis aumentarem o movimento, e como os braços ainda estavam presos, levou a boca de encontro ao ombro de Olívia e a mordeu antes sentir o corpo se entregar mais uma vez, em um gozo longo.
Sentindo os dedos presos dentro dela, naquele sexo que pulsava em torno deles, Olívia abriu os olhos, para ver o lindo rosto de Joana se contorcendo de prazer. Mais linda do que ela lembrava. E com um nó na garganta, e uma dor no peito, retirou sua mão de dentro dela, das calças e levantou em um movimento rápido.
Quando sentiu o peso deixar o seu corpo mole sobre a grama, Joana levantou os olhos e se assustou. Olívia estava distante e apavorada. Reunindo forças, que não sabia de onde tirar, se ergueu também.
- O que foi? – Perguntou se aproximando e vendo Olívia dar um passo para trás.
- Nada. – respondeu rapidamente, enquanto por dentro sentia um turbilhão de emoções.
A primeira reação de Joana foi querer se aproximar e toma-la nos braços. Mas sentiu mais do que pode ver a dor que transpassava os olhos de Olívia. Sabia que este momento chegaria. Sabia que teria que encarar o sofrimento que ela própria causou na mulher que tanto amou, e que na noite anterior, fez ascender nela outra vez a mesma paixão. Queria fugir, mas não podia. Devia e muito este momento a Olívia. E seria ainda pior do que antecipara, pois vira nos olhos dela a entrega que sentia.
- Ollie... – Esperou os olhos dela se erguerem e encontrarem os seus. – Arrependida? – Repetiu a pergunta que ela havia feito para Joana na noite anterior depois de fazerem amor.
Olívia voltou a sentir as extremidades do corpo, e a pergunta naquela voz doce, a despertou. Respirou fundo, e juntando todas as forças que conquistara nos últimos anos de vida, sorriu. Um sorriso triste, mas tão pacifico que em nada revelava o quanto estava mexida.
- Não. – Ampliou o sorriso. – Desculpa por antes. Dejavu. – Falou brincando, e Joana soube muito bem em que lembrança ela havia se perdido.
Era ultimo dia das férias de verão. Olívia e Joana estavam a dois meses namorando. Nenhum dos seus amigos entendia porque elas estavam ainda mais grudadas e nem porque quase nunca compareciam as festas americanas ou as idas a piscina do clube. Elas não se importavam. Estavam apaixonadas, e queriam passar cada segundo que podiam juntas.
Em uma tarde particularmente quente, Olívia estava deitada no chão do quarto, enquanto Joana arrumava a cama e as roupas espalhadas. Tinham dormido juntas, mas a cama no chão era o disfarce que precisavam.
- Tédio. E ta muito quente. – Olívia resmungou.
- Se você levantasse a bunda do chão, e me ajudasse a deixar o quarto em ordem, poderíamos ainda pegar uma piscina no clube. – Fingiu estar brava, mas no fundo gostava daquele jeitinho rebelde e meio moleque dela.
- Não quero ir pro clube. – Disse Olívia levantando. – Lá eu não posso fazer isso. –falou enquanto puxava Joana, e a beijava.
Mesmo sem querer, Joana deixou-se beijar. Não resistia a Olívia. Ainda achava errado o que estavam fazendo, mas não conseguia evitar, estava irremediavelmente apaixonada por sua melhor amiga.
- Então vamos pra outro lugar. Só não quero ficar aqui, e esperar a minha mãe chegar das compras cheia de insinuações e implicâncias. – Falou se soltando dos braços de Olívia.
- Certo.
Dito isso, Olívia se empenhou em ajudá-la, e logo estavam deixando a casa, vestindo somente short e camiseta e sandálias nos pés.
Pegaram um ônibus, e depois andaram alguns quilômetros até uma cachoeira. Joana nunca sabia como Olívia conhecia esses lugares, mas sempre a seguia. Tiraram as roupas e entraram de biquínis no pequeno lago que se formava em meio às pedras.
Se refrescaram, riram brincaram e se provocaram. Olívia nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida. Olhava para Joana e não acreditava que fosse capaz de amar tanto alguém como a amava. A admirou enquanto ela deixava a cachoeira para se estirar no gramado de baixo do sol quente. Não resistindo, saiu da água e deitou por cima dela.
- Ta me molhando toda e assim não consigo pegar sol. – Joana fingiu estar irritada.
- Veja pelo lado bom, vai ficar com uma marca gigantesca, do meu tamanho, no seu corpo. Como deve ser. – Olívia provocou beijando-lhe o pescoço nu.
- Você já esta marcada em mim. – Foi o que respondeu em um suspiro, com suas mãos arranhando as costas de Olívia.
Feliz e excitada ao ouvir essa declaração, Olívia começou a se movimentar em cima dela, a tocando entre as pernas, e se deliciando com o gemido provocado. Enfiou a mão esquerda em meio aos cabelos dela e desceu pela nuca, desfazendo o laço do biquíni. Rapidamente, sua língua já circulava o mamilo rígido e pequeno. O lambeu e encaixou em sua boca, sorvendo dele, e ouvindo Joana gemer ainda mais alto.
Com a mão direita, afastou a parte debaixo do biquíni, e tocou o sexo molhado que Joana tratou de oferecer, abrindo as pernas para ela entrar. Olívia introduziu o dedo, primeiro devagar, sentindo ela se fechar sobre ele e se abrir ainda mais. Acelerou o contato e Joana a puxou para um beijo cheio de paixão.
Retirou o dedo de dentro dela, e se concentrou em excitá-la, movendo a mão por todo o seu sexo, até se concentrar num só ponto. Joana se contorcia e gemia, e Olívia estava maravilhada com o prazer que sentia ao vê-la assim, tão entregue, tão menina e ao mesmo tempo, tão mulher.
Joana mordeu o lábio, e jogou a cabeça pra trás pedindo:
- Entra. Quero sentir você em mim...
No que foi prontamente atendida por Olívia, que não poderia estar mais excitada. Aumentou a velocidade do movimento ao sentir o corpo de Joana tremer, e só parou quando com um grito e um gemido, os espasmos tomaram conta dela.
Deixou-se ficar sobre ela, e Joana lhe acariciou o rosto e as costas. Depois puxou-a para um beijo apaixonado, e pela primeira vez, sussurrou em seu ouvido:
- Amo você, Ollie! Como minha namorada.
A felicidade completa. Este foi o pensamento de Olívia naquele momento. Talvez por isso não estivesse preparada para o fim que logo se aproximaria.
Ficaram se encarando. Olívia viu nos olhos dela, que a lembrança ainda existia, e se deliciou com isso. Tinha medo, desde o momento em que a reencontrara que as lembranças só fossem fortes ainda para ela. Mas o olhar de Joana lhe dizia que ainda estavam lá.
- A primeira vez que eu disse que te amava. – Passou as mãos pelos cabelos e sorriu. – Eu lutei muito tempo contra a vontade que eu tinha de te dizer isso.
- Eu sei. – Olívia devolveu o sorriso. – Quer dizer, hoje eu sei. Na época eu tinha vontade de te bater por você nunca corresponder quando eu dizia que te amava.
Os sorrisos se desfizeram tristes. Chegava enfim o momento de voltar ao passado. Ambas sabiam que não podiam continuar fingindo que ele não existira, e nem que não deixara marcas.
Olívia conduziu Joana para a porta de vidro na lateral da casa. A abriu e se viram dentro de uma enorme sala de paredes brancas e piso em madeira clara. Todos os móveis eram claros, e vários quadros de pinturas modernas, enfeitavam as paredes. Era um ambiente clean, Joana constatou seguindo Olívia até uma cozinha americana.
Pegando algumas cervejas e queijos de dentro da geladeira, Olívia começou a montar uma bandeja com o olhar interrogativo de Joana sobre ela.
- Eu vou repôr. – Respondeu com um sorriso. – Me ajuda a levar tudo pra varanda.
Indicou com a cabeça, a porta à frente. Elas carregaram tudo para o lado de fora, e Joana se encantou com o gramado cheio de arvores espaçadas que se abria a frente delas.
Sentaram-se a mesa de madeira, e abriram as cervejas.
- A um reencontro inesperado, mas feliz. – Olívia ergueu seu copo.
Joana estranhou o tom sarcástico. Não que não o conhecesse. No ano e meio que se seguiu após o trágico termino do namoro das duas, era nesse tom que Olívia se dirigia a ela e aos outros. Escondia bem o quanto estava magoada e passou a ser uma pessoa bem mais dura e fria do que a amiga doce e carinhosa que Joana tão bem conhecia. Se assumiu lésbica como forma de desafiar a todos. À sua família, à escola, os colegas, mas especialmente à Joana. Nunca falou sobre o namoro delas a ninguém e começou a sair com outras turmas. Ficava com várias meninas, e fez uma fama de pegadora na cidade. Joana se entristeceu ao reconhecer aquele mesmo tom na voz dela, mas nada disse.
Puxando um cigarro do bolso, Olívia a encarou. A dor de reviver um momento tão intenso da sua juventude com aquela mesma mulher, a fez levantar todos os muros de defesa de volta. Viu a vulnerabilidade do próprio coração, e não agüentou. Temeu por ele. Mas sentia a força voltar, e sob o olhar triste de Joana, viu-se relaxar aos poucos.
- Eu não quis ser rude antes. Foi só a força com que tudo voltou à memória. – Disse se desculpando.
- Voltou pra mim também. Cada uma delas. – Joana respondeu e baixou os olhos para esconder as lagrimas que teimavam e arder nos olhos procurando uma forma de escapar.
Colocando a mão sobre a de Joana, Olívia buscou a sua atenção de volta. Devagar, respirando fundo, Joana ergueu os olhos amendoados para enfim, encarar os verdes.
- Eu não te culpo. Não mais. – Olívia se ouviu dizendo, e ficou feliz em saber o quanto era verdadeiro. – Foi uma fase muito difícil da minha vida e está sendo doloroso reviver, só isso.
- Desculpa. – foi só o que Joana conseguiu sussurrar.
- Não. Eu não quero as suas desculpas, Jo. – Olivia falou carinhosamente. Quase como se falasse com um dos seus alunos. – Isto está no passado. Você foi minha primeira mulher, meu primeiro amor. Ele supostamente deve marcar a gente pra sempre, certo? E eu não te culpo por não ser o mesmo pra você que é pra mim. Eu estava me descobrindo também, teria sido complicado de qualquer jeito, com quem quer que fosse.
- Você também foi minha primeira mulher. E meu primeiro amor. – Joana falou abrindo um sorriso de leve. – E sim, foi tudo muito difícil. Mas também foi mágico, não foi?
- Foi. Foi mágico. – Respondeu a pergunta com um sorriso. – Um amor de verão como dever ser. Uma grande paixão, juras de amor eterno, e que chega ao fim com as primeiras folhas de outono.
Joana baixou os olhos mais uma vez. Era uma mania que tinha desde criança, e Olívia sentiu o sorriso vir aos lábios ao constatar isso. Do mesmo jeito que fazia quando conversavam sobre assuntos sérios quando eram mais novas, Joana se acuava e baixava os olhos.
Sem querer interromper os pensamentos dela, Olívia se concentrou em apagar o cigarro e ascender outro. O único som que chegava até elas, era o do vento e dos pássaros, e Olívia sentiu uma paz providencial lhe invadir. Sentia que as amarras estavam sendo desfeitas, e ficou feliz por isso.
Ainda sem erguer os olhos da mesa, Joana começou a falar. Sabia que se encarasse aqueles lindos olhos verdes, as lagrimas desceriam sem descanso. Sentia uma dor enorme no peito.
- Eu fui covarde. – Disse baixinho, mas trazendo Olívia imediatamente de volta ao momento. – Nunca fui tão corajosa quanto você. Eu me importava com o que a minha família pensava, tinha medo de perder meus amigos se a assumisse, e preferi fugir, por mais que isso me doesse. Ver você era uma tortura. Eu chorava todos os dias e achava que eu ia morrer de tristeza. Odiava te ver tão rígida, e principalmente, odiava te ver com outras meninas. Foi um alivio repleto de saudade e inveja até, o dia em que você foi embora da cidade. Eu sofri muito, mas me senti livre pra começar a minha vida do zero.
“Você foi a melhor coisa que já me aconteceu e a pior, na mesma proporção. A melhor porque eu nunca fui capaz de amar tão intensamente ninguém como eu te amei, e a pior porque eu te expulsei da minha vida por medo.”
Enfim Joana levantou os olhos já molhados pelas lagrimas que corriam livres por seu rosto.
- Eu te amei demais, Ollie, nunca pense que não. E ontem quando eu te vi e depois te senti nos meus braços novamente, eu pude sentir esse amor me queimar por dentro de forma avassaladora. – Respirou fundo, fungando um pouco. – Eu não to te pedindo nada. Nem posso. Só precisava que você soubesse o quanto foi importante pra mim.
Olívia não agüentou. Era demais pra ela. Nunca se permitiu esperar por uma declaração saindo daqueles lábios que tanto amava, mas não podia negar que desejou muito ouvir essas palavras. A constatação de que não tinha amado tão intensamente sozinha. Ergueu-se e puxou Joana para um abraço. A segurou firme em seus braços, e sentiu o perfume dela lhe invadir. Uma sensação de “voltar pra casa” fez com que se arrepiasse por inteira.
- Eu também te amei. Te amei até demais. – falou no ouvido dela. – e o pior é que acho que ainda amo. O quão doente é isso? – sorriu. – Pensei que iria querer me vingar de você no dia que você admitisse que também tinha me amado. Mas a verdade é que não tem espaço dentro de mim pra esse sentimento. Eu te quero tanto que dói.
Joana aproximou ainda mais o seu corpo do dela. Sentia-se frágil, quase esgotada pelas sensações e sentimentos que experimentara nesta manhã. Mas ainda tinha algo para dizer, e sabia que se ela se deixasse levar, faria amor novamente com Olívia ali mesmo, mas havia decidido que não deixaria nada subentendido, e que não fugiria daquele sentimento.
Afastou-se do abraço delicadamente, e mergulhou seus olhos nos dela. Se deixou perder no olhar faminto de Olívia, e seu corpo todo correspondeu à fome que havia neles. Queria mais que tudo, ser o banquete daquela mulher. Mas não queria somente mais uma vez, queria amanhã, e depois, indefinidamente, talvez para sempre.
Olívia aproximou seus lábios dos dela lentamente, e se espantou quando Joana recuou. Não esperava a rejeição. Virou-se rápido pra esconder o quanto a tinha magoado com aquele simples gesto.
- Espera. – Joana ao perceber a dor que mais uma vez tinha causado, a segurou pelo braço. – Eu quero esse beijo. Quero mais que tudo. Quero você toda, e quero ser sua.
Olívia se voltou para ela, e seus olhos ardiam de desejo novamente.
- Mas antes, tem mais uma coisa que eu preciso que você saiba.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
CAPÍTULO 6 - Tempo, tempo
Aquilo não era nada bom. Não poderia ser. Foi o pensamento que ocorreu a Olívia. Se afastando mais uma vez, pegou outro cigarro e o ascendeu, se preparando para a bomba que muito provavelmente iria estourar.
Joana passou as mãos pelos cabelos. Outro sinal do seu nervosismo. Mordeu o lábio inferior e encarou Olívia nos olhos tentando não fraquejar e se deixar tomar pelo desejo insano que sentia por aquela mulher.
- Ollie. – Olívia a encarou de volta. – Não existe forma fácil ou delicada de dizer isso, então eu vou só falar. Mas peço que você me escute até o final. – Olívia a analisou, e então concordou com um aceno de cabeça, já se jogando de volta a cadeira, e esperando que Joana também sentasse, mas ela não o fez. Pressionava uma mão na outra, e Olívia não podia deixar de achar esse nervosismo dela sexy. Alias tudo naquela mulher a seduzia.
“Eu já te falei um pouco sobre a minha vida profissional, agora preciso falar da pessoal. – Respirou fundo, e percebeu que Olívia não movia um músculo sequer. – Eu não posso dizer que nunca mais estive com outra mulher depois de você, porque estive, por mais insignificante que tenha sido. Foi um caso conturbado, e mais uma vez eu não fui capaz de assumir essa relação. Quando terminei com ela, há sete anos atrás, conheci um homem, André. Ele trabalha com o meu pai, é clinico geral. Um homem incrível, gentil, doce, carinhoso, extremamente paciente, que acabou se tornando meu melhor amigo. Eu o amo profundamente, mas não da mesma forma como ele me ama. O amo como amigo, mas acabei concordando em me casar com ele. Nos casamos há seis anos atrás e temos uma filha de cinco.”
Olívia já não respirava. Já ouvira aquilo inúmeras vezes, de muitas formas, e sinceramente, nunca se importou. Quando saía com qualquer mulher, muitas lhe contavam depois do sexo, que eram casadas, tinham filhos e etc. Como não procurava envolvimento algum com nenhuma delas, isso era algo que não a atingia. Às vezes achava até bom que fossem casadas e heteros convictas na vida social, assim não haveria cobranças para uma relação mais seria. Era apenas sexo, e tudo bem. Mas de Joana? Mais uma vez Joana? Que poder essa mulher exercia sobre ela que continuara a amando durante todos esses anos sem nem ao menos perceber? A queria. Percebia agora o quanto a queria para si. Mas é claro que ela não estava disponível para viver esse amor com ela. Não esteve antes, não estava agora.
- Não me julgue Ollie. Eu sei que eu errei ao me casar sem estar apaixonada, principalmente porque o André não merece isso. – Suspirou e enfim se deixou cair na cadeira. – Ele sabe de nós.
Foi essa frase, somente ela, que foi capaz de tirar Olívia de seus devaneios em torno do aperto que sentia no peito.
- Como assim sabe de nós? – Balbuciou seria.
- Eu contei a ele que havia amado muito uma pessoa quando era adolescente, e contei que tinha sido uma mulher. O André sempre me entendeu e respeitou muito. Já disse que somos amigos, é o que somos mais do que qualquer coisa. E antes que você pergunte, vou contar que te reencontrei. Só ainda não descobri como fazer isso sem magoá-lo profundamente. E ainda tem a Isabela, nossa filha. Preciso pensar nos dois antes de tomar qualquer atitude. – Olhou dentro dos olhos dela. - Mas estar com você, me fez perceber quanto tempo eu já perdi da minha vida por medo. Não quero mais ter medo, Ollie, eu quero você.
Olívia não sabia o que pensar. Ao mesmo tempo em que estava feliz por ouvir Joana dizer que a queria, e ver nos olhos dela que era verdade, não sabia se agüentaria outra decepção. O medo de arriscar o seu coração falou mais alto. Respirou profundamente antes de encarar os olhos de amêndoa.
- Jo, eu sei que foi intenso o nosso reencontro. Mexeu muito com nós duas. E não há como negar a atração que eu sinto por você, mas não sei se é mais que isso. Não sei se o amor que eu sinto é real ou sombra de um sentimento que já existiu. Você tem a sua vida e eu tenho a minha. Não vamos nos precipitar.
O efeito foi imediato. Um banho de água fria que Joana não esperava receber. Sentiu-se uma adolescente novamente, cheia de medos e assustada com o poder da mulher a sua frente. Olívia emanava um poder quase hipnotizaste. Sempre fora assim, e parecia só ter crescido com os anos, ganhado força.
Viu nos olhos de Joana que alcançara seu objetivo. A deixara insegura e era só o que precisava saber. Ela estava com medo, e apesar das palavras de amor e as promessas nelas implícitas, ela ainda era covarde demais para encarar uma decisão como esta. Lembrava do exata momento em que Joana lhe disse que não ficaria com ela.
Olívia já não sabia o que fazer para se acalmar. Joana pediu que ela a encontrasse depois da escola. Como tinha deixado a casa da mãe, e todos pareciam saber o motivo para tê-lo feito, não tinha ido mais a aula, e isso já fazia duas semanas. Tinha decidido enfrentar tudo e todos, mas ainda não se sentia pronta, estava apavorada, e mais apavorada ainda com o silencio de Joana.
Já fazia cinco dias que elas nem ao menos se falavam. Tentou ligar para a casa dela, mas a mãe de Joana havia deixado muito claro o quanto a queria longe da filha e de forma nada educada, que ela desistira de tentar. Mandou recado por um amigo em comum da escola, mas nada. Joana simplesmente não dera sinais de vida, até a noite anterior, quando por Guto, mandou o seguinte recado: “Me encontre no parque. Você sabe onde. Depois da escola, amanhã.” Seu coração parecia querer saltar do peito ao ver a letra bem desenhada no papel. Mal dormira a noite, contando as horas para o encontro à tarde.
Joana se aproximou de cabeça baixa, e Olívia correu ao seu encontro tomando-a nos braços, como tanto desejava. Ficaram assim por longos segundos, sem nada dizer, apenas matando a saudade. Olívia só se desgrudou o suficiente para puxar o rosto de Joana e beijar-lhe profundamente nos lábios que se renderam e se abriram para a sua língua entrar. Um beijo profundo que para Olívia tinha gosto doce de reencontro e para Joana o amargo da despedida.
Mesmo sentindo a excitação subir-lhe como um vulcão por entre as pernas, e talvez por isso mesmo, Joana a afastou. As lágrimas escorriam por seu rosto, e Olívia se sentindo totalmente impotente diante de tamanha tristeza, só fez as enxugar com delicadeza.
- Esta sendo difícil assim? – perguntou com a voz sussurrada e rouca que deixava Joana de pernas bambas. – Eu tentei ligar, mas sua mãe... – Deixou no ar.
Joana se deixou conduzir até o gramado pelos braços de Olívia, que a envolvia protetoramente. E isso só estava tornando tudo ainda mais difícil. Queria tanto poder ficar assim com ela pra sempre. Sentir suas mãos passearem por seu corpo, seu cheiro, seus beijos.
Sentadas uma de frente para outra, Olívia a olhava ansiosa, esperando que ela dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Mas Joana encarava os próprios pés e esfregava uma mão na outra chorando em silencio.
- Quer me matar do coração? Diz alguma coisa! – Olívia falou, buscando as mãos dela.
Sem levantar os olhos do chão, Joana respirou fundo tentando se acalmar e começou a falar baixinho:
- Eu não posso Ollie. Meus pais querem me mandar embora de Terê se eu continuar vendo você. Minha mãe disse que isso não é certo, que tem vergonha de mim. – E chorou ainda mais. – Falou que eu não posso querer namorar uma menina...
Olívia ouviu tentando controlar a raiva que o seu coração sentiu com aquelas palavras. A dor estava à espreita, mas ela não a viu chegar.
- E você deu ouvidos a ela? Quem manda no que a gente sente, somos nós! – Gritou.
- Mas é errado, Ollie. – Joana disse baixinho. – Eu não quero mais ter que me esconder, nem vou agüentar todo mundo me tratando mal, com nojo de mim.
Por mais que estivesse sofrendo, Joana havia pensado muito naquilo, chorara por dias tentando achar a melhor solução para aquela situação. Amava Olívia, amava tanto que doía, mas não se sentia pronta para perder os pais, os amigos. Sentia-se suja por amar tanto uma outra mulher, queria ser ‘normal’, namorar meninos e poder curtir isso tudo com suas amigas e com a sua família.
- Como pode ser errado, Jo? – Olívia perguntou após alguns minutos de silencio. As lagrimas escorriam por seu rosto, marcando a pele muito branca. – A gente se ama. Eu te amo! – Disse exigindo que Joana a olhasse levantando a cabeça dela com dedos em seu queixo. – Você não me ama, é isso?
Joana a encarou, e chorou ainda mais. Precisava mentir, sabia que Olívia era insistente e teimosa. Havia enfrentado tudo com tanta coragem, estava disposta a tudo, e se deixasse, ela a convenceria mais uma vez que podiam viver juntas na casa da tia dela e não teriam mais que se esconder, como tantas vezes disse antes. Mas Joana não queria sair de casa, não ia abandonar tudo.
- Não. – Sua voz saiu fraquinha. Um sussurro que poderia ter sido produzido pelo vento, mas Olívia ouviu claramente como se ela tivesse gritado em seu ouvido.
Ergueu-se de supetão e saiu pisando forte e rápido, até se transformar numa corrida. Sentia o vento no rosto e ar a lhe faltar nos pulmões. Correu o mais rápido que pôde até sentir as pernas formigarem com a dor do esforço. Qualquer dor era bem-vinda, nenhuma era maior que a dor que sentia no seu peito. Entendeu então o que os poetas diziam sobre coração partido, sentia o seu despedaçado.
Joana não levantou os olhos para vê-la partir. Pode sentir a dor que emanava dela com o silencio que se seguiu. Não tinha forças para se erguer, se deixou ficar no chão por mais algumas horas. Chorou muito, teve vontade de correr atrás dela, lhe beijar e dizer que a amava sim, que a queria mais que tudo no mundo, mas não tinha forças pra isso, e nem coragem. Já era noite quando conseguiu se mover, e resignada, voltou para casa.
- Eu sei. – Joana enfim falou. – Eu sei que isso tudo pode não passar de um eco do passado. E sei também que você tem a sua vida, e que não é culpa sua se eu nunca consegui sair do armário.
Olívia riu da expressão usada. Ela não era mais aquela menina assustada que negou o sentimento mais forte que já sentiu, por puro medo. Mas também não sabia se era a mulher corajosa que precisava ser para assumir Olívia, e também, esta não sabia ao certo se era isso que queria. Seria capaz de jurar amor eterno àquela mulher? Queria isso pra vida dela? Não, não queria responsabilidade pela decisão dela. Se ela quisesse enfim assumir que gostava de mulheres, a apoiaria, mas não sob a promessa de ficar com ela, por mais que a quisesse.
- De qualquer forma, reviver esse sentimento, me fez perceber que eu nunca vou ser feliz com o André, ou mesmo fazê-lo feliz. Não o amo dessa forma. – Completou sorrindo para Olívia. – Eu não quero bagunçar a sua vida. Já me disseram que você não gosta de compromisso, e eu não vou te cobrar isso, não se preocupe.
- Não estou preocupada. – Disse sinceramente. – Mas fico feliz que isto esteja mais claro pra você. Eu, particularmente, sempre soube que você gostava de buceta. – Disse rindo.
Pegando uma tampinha de garrafa de cima da mesa, a fez voar em direção a Olívia, que só fez rir mais, no que Joana logo a acompanhou. Olharam-se com cumplicidade, e Olívia a achou ainda mais linda. Bebendo mais um gole da cerveja, e fazendo careta, pois estava quente, Joana se ergueu e foi à cozinha buscar mais duas cervejas geladas. Entregou uma para Olívia, e abriu a sua própria. Brindaram, e sorriram uma para outra.
- Posso só pedir uma coisa? – Joana falou após um minuto de silencio.
- Hum?- Olívia se virou para ela.
- Será que você poderia só ficar comigo por mais essa semana? Estou adorando matar a saudade de você, do seu corpo, do seu cheiro... – Disse isso se erguendo e andando em direção a Olívia e sentando em seu colo. -... Da sua boca... – e a beijou com paixão, no que foi prontamente correspondida. Olívia não somente a beijou como deslizou suas mãos pelas costas dela, e apertou a bunda, a puxando contra o seu corpo. -... Da sua pele... – e desceu a boca pelo pescoço da Olívia, vendo-a se arrepiar com o contato -... Da sua buceta... – e a tocou entre as pernas.
Olívia já não suportando mais, começou a tirar a camiseta que Joana usava, e colocou a boca no seio pequeno e firme que se apresentou, já com o bico duro de prazer. Joana gemeu e começou a rebolar contra o corpo dela, fazendo Olívia ficar ainda mais excitada e molhada nos dedos de Joana que não deixavam o seu sexo, fazendo movimentos lentos, se deliciando com a umidade que aumentava.
Louca de desejo, Olívia buscou a boca dela, e desceu sua mão por dentro da calça da morena, mas Joana a impediu.
- Quero comer você primeiro. – falou rouca de desejo no ouvido dela. – Você está uma delícia. – E se moveu mais rápido dentro dela, fazendo com que Olívia ofegasse e gemesse ainda mais alto.
Saindo rápido do colo dela, Joana a fez levantar, sem deixar de tocá-la.
- Tira a roupa. – Pediu enquanto introduzia um dedo. – Tira pra mim.
Olívia não questionou, estava completamente rendida nas mãos de Joana. Tirou primeiro a blusa, e depois as calças e a calcinha, sem que em momento algum, Joana tirasse a mão dela.
Vendo-a completamente nua, linda, Joana a empurrou contra a mesa e a fez sentar com as pernas abertas para ela. Encaixou-se, e pressionou seu corpo contra o dela. Olívia abriu as calças de Joana e tirou também sua calcinha, mas quando tentou toca-la, Joana a impediu mais uma vez.
- Falei que quero te comer. – E introduziu outro dedo, fazendo Olívia gemer e abrir ainda mais as pernas.
- Você tá me comendo. Me comendo gostoso. Mas eu também te quero. – Tentou tocá-la e mais uma vez foi impedida.
- Vou ser sua. Vou deixar fazer o que quiser comigo. Mas agora eu quero me fartar de você.
E dito isso, Joana desceu com a língua pelo corpo de Olívia, começando pelo pescoço, passando pelos seios, barriga, até chegar à virilha, onde a provocou bastante antes de entrar.
Ao sentir a língua de Joana se movendo contra ela, Olívia jogou o corpo pra trás de tanto prazer. Chegou a pensar que nunca se cansaria de ser possuída por ela, assim como sempre iria querer possuí-la. Sentiu o gozo próximo, mas Joana desacelerou, a torturando mais um pouco, não permitindo que gozasse. Movia sua língua devagar, e enfiava os dedos com força, como se quisesse explorar, conhecer cada canto. Sentindo a respiração dela voltar ao normal, aumentava o movimento da língua contra o clitóris e dos dedos dentro dela, entrando e saindo. Olívia logo foi à loucura novamente. Não apenas gemia como dizia coisas obscenas que deixavam Joana louca de prazer, a comendo com mais voracidade ainda.
Olívia atingiu o orgasmo, e seu corpo tencionou e tremeu. Joana sugou o gozo que escorria pelas pernas dela, nas suas mãos e boca. Ficou movendo a língua, a sentindo e aos poucos foi retirando os dedos.
Olívia segurou Joana pelos cabelos, forçando-a deixar o seu sexo, e puxou-a para um beijo intenso. Sugou sua língua com força, colou o seu corpo no dela, até seus sexos se tocarem.
- Satisfeita? – perguntou com a voz rouca que tanto enlouquecia Joana.
- Eu nem comecei a me saciar de você. – foi a resposta dela, descendo a mão para o meio das pernas de Olívia.
- Ah, não – Olívia tirou a mão dela de lá. – Agora é a minha vez.
Rapidamente, desceu da mesa e segurou Joana por trás, esfregando seu sexo nas nádegas dela e afastando os cabelos cacheados, mordiscou e lambeu a nuca. Com a outra mão, fez com que Joana descesse o corpo e se apoiasse na mesa, ainda se esfregando nela, abriu-lhe as pernas, e com agilidade, introduziu dois dedos fazendo-a gemer alto.
Joana rebolou nos dedos dela, sentindo o sexo pulsante de Olívia, molhado contra a pele dela. Se esfregava e rebolava sobre aqueles dedos que não a deixavam um segundo. Tinha que se render, Olívia sempre soube como enlouquecê-la, e mesmo depois de tanto tempo, ainda era capaz de levá-la a loucura. Joana gemia e pedia mais.
- Não para! Mais forte! Adoro dar pra você assim! – Falava para Olívia, que se mexia dentro dela com a propriedade de quem descobriu aquele corpo, explorou e decorou cada detalhe. Sabia exatamente o que fazer para deixar Joana mais e mais excitada, e ficou feliz em constatar que ela ainda gostava daquela posição.
Enquanto mantinha seus dedos dentro dela, desceu sua outra mão para o clitóris de Joana, levando-a a gemer ainda mais, e fraquejar as pernas. Pressionou seu corpo contra o dela, mantendo-a de pé. Joana parecia não agüentar mais de tanto prazer. Olívia a tomava de um jeito que ninguém nunca foi capaz de fazer.
Olívia aumentou a velocidade em que entrava e saía dela, e provocava ainda mais o seu clitóris, fazendo com que Joana gozasse duas vezes seguidas, pois Olívia não a deixava, mesmo em meio à explosão. Sem agüentar mais, Joana se deixou cair, com as pernas fracas, tocou o chão. Abraçando-a por trás, Olívia a sentia tremer de prazer. Ficou abraçada a ela, até que a respiração de Joana regularizasse.
Sentindo as forças voltarem a suas pernas, Joana ainda no chão, se virou de frente para Olívia, e a beijou intensamente, colando seus corpos um no outro. O cheiro dela misturado ao cheiro de sexo que as rodeava, era inebriante e excitante, logo sentiu-se molhada novamente. Era inacreditável como aquela mulher a deixava. Sentiu a respiração de Olívia também mudar, em contato com a sua pele, desceu a mão até o seu sexo, e percebeu o quanto ela estava molhada.
- Isso tudo é por me comer? – Perguntou no ouvido dela.
- Tá me provocando? – Olívia respondeu já a tocando e sentindo-a encharcada. – Quero sentir seu gosto. – E com agilidade a deitou e levou sua boca ao sexo dela. Joana gemeu.
Puxou Olívia e a ajudou a virar e colocar o seu sexo na boca dela.
Sentiram-se e se tocaram mutuamente. Olívia achava difícil se concentrar sentindo a língua de Joana no seu clitóris, enquanto ela introduzia os dedos na sua vagina, assim como fazia com ela. Logo as duas chegaram ao ápice juntas mais uma vez.
Tomaram um longo banho. Olívia queria conseguir ser racional com relação à Joana, mas tendo-a assim em seus braços, era impossível não sentir o amor, a paixão que a assolavam. Estava decidida a não deixar esse sentimento vencer a sua determinação, e era ajudada por seu medo de se entregar. Nunca agradeceu tanto pelas barreiras que se impusera. Estava certa que se permitisse o seu coração a sentir tudo o que ele queria, teria que recolher os pedaços mais tarde, e não queria passar por isso novamente. Mas era incrivelmente bom estar com aquela mulher, não só pelo sexo, que era fantástico, mas porque estava encantada por quem ela era, Joana era ainda melhor do que ela se lembrava, era determinada, batalhadora, divertida, sincera, inteligente, carinhosa, doce e ao mesmo tempo forte. Uma mulher apaixonante, inebriante.
Estavam na cozinha preparando um almoço improvisado, e Joana falava animada da sua vida, das aulas que dava, do curso a distância que estava preparando, as expectativas com o doutorado e com o concurso, e Olívia se viu torcendo para que ela passasse e viesse para o Rio de vez. Falou muito também de Isabela, sua filha, e mostrou uma foto no celular. Olívia teve que rir, era a cara da Joana quando criança, os cabelos, apesar de mais claros, tinham os mesmos cachos nas pontas, e os olhos eram do mesmo formato e cor dos da mãe.
- Ela é a minha vida, - Joana falava emocionada e com um grande sorriso. – a criança mais linda do mundo. Muito arteira. Não pára um segundo e de alguma forma me lembra você.
- Como assim? – Olívia perguntou colocando a massa que preparava no forno.
- Tem um ar sério, de quem esta perdida em pensamentos profundos. Acho que era isso que mais me atraía em você, a sua intensidade. Mesmo quando éramos crianças, você tinha um ar de superioridade natural, mesmo sendo uma das pessoas mais humildes e atenciosas que eu já conheci, você sempre teve um ar de quem sabe algo além do que os meros mortais. Bela tem isso.
Olívia caiu na gargalhada. Era sim uma criança mais seria do que o normal, mas muito porque a sua cabeça vivia perdida em fantasias. Sonhava acordada quase que todo o tempo, o que na maioria das vezes, lhe causava problemas.
- Então ela deve ser incrível mesmo! – Olívia falou ainda rindo.
- Ela é! Quero muito que você a conheça. – Joana disse carinhosa. – Se você quiser, é claro. – Se corrigiu. Não queria pressionar Olívia a nada. Por mais que a quisesse em sua vida, sabia que não seria fácil.
- Claro que quero. Assim que você conseguir voltar ao Rio, traga ela com você. Vou levá-la para passear e contar tudo o que a mãe dela aprontava quando era pequena.
- Sei. Ela vai amar você, tenho certeza. – Joana falou docemente, e Olívia, para não se perder no olhar intenso e cheio de promessas de Joana, a abraçou e beijou.
Almoçaram do lado de fora, na varanda mesmo. O dia ia se transformando em noite, e o calor dava uma trégua. As duas conversaram sobre tudo, falavam sobre a vida, as pessoas que conheceram, Olívia descobriu que Joana havia ido a Europa logo que se formou e que foi lá que decidiu estudar historia. Que tinha tido apenas três relacionamentos sérios ao longo desse tempo, com um professor seu da faculdade que era casado e tinha, é claro, terminado mal, com a mulher que ela havia conhecido em um curso e que acabou terminando com ela, pois Joana não conseguia se assumir, e com André, com quem se casou e teve Isabela. Olívia percebia o carinho com o qual ela falava nele, e isso lhe provocava um ciúmes que tentava não demonstrar.
Contou por alto as suas inúmeras aventuras amorosas e sexuais, sem se ater a detalhes, pois viu Joana abaixar os olhos quando falou de Manu que tanto a tinha ajudado e de Paula, a quem tinha de fato amado. Falou também da escolha da profissão e dos seus sonhos de publicar seus livros. Falou de seus amigos, que tinham se tornado sua família, e da felicidade que era ter Guto na sua vida.
Ficaram assim por horas, até o céu escurecer por inteiro, e decidirem ir embora. Guto já havia ligado duas vezes e mandado uma mensagem mal criada para Olívia. Foram direto para o Bar do Bola, onde todos já estavam reunidos. Sem pensar, Joana tomou a mão de Olívia, que se deixou conduzir para dentro do bar. Este gesto não passou despercebido por Guto ou por Theo, que já vinha em sua direção.
- Eu sei que o dia deve ter sido ótimo, está escrito na cara de vocês, mas não precisavam abandonar os amigos, não é? Preciso dos seus conselhos sobre um carinha que eu conheci ontem.
- Ok. Já vou emprestar meus ouvidos para mais uma das suas historias e conquistas baratas, mas preciso devolver a chave do Adoníades pro Bola. – Soltou a mão de Joana, mas não sem antes chegar bem próxima ao seu ouvido, e falar baixinho. – Melhor você conversar logo com a Marcinha. Ela não é burra e meu irmão não é tão discreto quanto você pensa. E eu quero poder de te beijar hoje e te levar pro meu quarto, sem ter que me esconder.
- Era exatamente o que eu ia fazer. – Joana respondeu puxando Olívia para um beijo que esta não esperava. – Não quero nunca mais ter que me esconder de ninguém. – E Olívia entendeu a promessa, mas preferiu não responder. Não queria acreditar. Não queria criar esperanças. Mas querer, não quer dizer nada. Essa esperança já estava plantada em seu coração por mais que lutasse contra ela. – E quero fazer amor com você a noite toda, sem ter que sair de mansinho de manhã do seu quarto.
Dito isso, Joana se encaminhou para a mesa que Guto e Marcinha ocupavam no fundo do bar, e Olívia se dirigiu ao balcão com Theo na sua cola.
- Entendi perfeitamente porque você esnobou o meu convite ontem. Linda, sexy e intensa. O pacote completo. – Falou se divertindo com a cara de reprovação de Olívia para os comentários dele. – Não se preocupe, não quero detalhes.
- Como se eu fosse te dar detalhes. Pra que? Você passaria mal. O seu forte não são mulheres.
- Não mesmo! Então, me deixa falar do Rogério. Lindo, moreno, alto, trabalha no mercado financeiro, e com a melhor pegada do mundo.
- Você diz isso sobre todos, Theo. Você não tem padrão, esqueceu? – Olívia entrou e foi para trás do balcão, e pegou algumas cervejas no freezer, já que o Bola não estava à vista. – Mas e aí? Levou ele pra cama?
- Não. – Respondeu Theo. – Ao contrario de você, não transo no primeiro encontro.
- Até parece! - Olívia riu e passou uma cerveja para o amigo, abrindo uma para ela também. – Desde quando?
- Desde que resolvi que quero namorar. – Declarou ele solene.
- Você, namorando? Fala sério Theo! Você não consegue ficar com uma pessoa só. Em uma semana, se tanto, te bate um tédio, e você sai procurando outro.
- Eu sei. Mas eu me dei conta nos últimos tempos, que não tenho mais idade pra isso. Você já viu os meninos novinhos que estão freqüentando a noite gay? Eles são lindos, uma delicia, mas são dez anos mais novos que eu. Competição acirrada, amiga.
- Que eu me lembre você nunca encarou eles como competição, eram apenas aprendizes, você dizia. – Olívia bebeu um gole de cerveja, se divertindo com a cara do Theo. – O que foi, levou um fora de um desses menininhos?
- Não baby, apenas caiu a ficha de que eu não quero me tornar uma daquelas bichas velhas que freqüentam as boates e que precisam pagar por sexo. Quero um namorado, e algo me diz que o Rô, pode ser o cara certo.
- Tá bom. Vou fingir que acredito. Marcou alguma coisa com o Rô? – Falou sacaneando o jeito com que o amigo apelidou seu novo affair.
- Marquei. Vamos ao cinema na terça. E eu não tenho idéia de como fazer isso. – Confessou. – Eu sei conquistar para o momento, agora esse ritual de ir ao cinema, jantar fora, flertar discretamente, isso nunca foi o meu forte. Não sei nem por onde começar.
- E eu lá sou a pessoa certa pra te dar essas dicas, Theo?!
- Você já namorou. E a Paula era apaixonadíssima por você. – Ele rebateu.
- Sim, eu já namorei, mas nunca tive que me esforçar muito. Você sabe que sapatão adora namorar. Elas fazem todo o serviço. – Falou implicando com ele. – Mas eu sou viado, esqueceu?
- Não foi o que pareceu. – E indicou a mesa onde Joana conversava com Marcinha e Guto. – Mãos dadas e tudo... – Implicou com ela.
- Isso aí é outra historia. E eu não to namorando. Temos mais essa semana e ela vai embora. É só isso. – Falou, mas se sentiu triste ao constatar que era verdade. Teria apenas alguns dias com Joana, e percebeu o quanto queria mais. Mas não podia alimentar esse desejo. – Namorar dá trabalho. –Voltou ao seu discurso, que de tantas vezes proferido, era total e completamente crível para quem ouvisse. – Em geral começa com paixão, é ótimo nos primeiros dias. Sexo toda hora, você ainda não conhece os defeitos da pessoa, nem ela implica com os seus, mas com o tempo, isso acaba, e quando você vê, ela já esta tentando mudar tudo em você.
- Nossa! Deprimente falar com você.
- Te avisei. – Olívia falou pegando a bandeja com as cervejas para levar para a mesa. – Pergunta pra Nina, ela se rendeu à monogamia.
- Alias cadê aquela cachorra? – Theo olhou em volta.
- Provavelmente tendo uma DR desde ontem em casa. – Foi a resposta da Olívia, mas secretamente, estava preocupada com a amiga, e assim que voltou para a mesa, tentou ligar para ela, não obteve resposta.
Na mesa, Marcinha falava sem parar do dia maravilhoso que ela e Guto tinham tido. O passeio, os lugares, estava com o rosto iluminado, como uma criança que brincara o dia inteiro. Olívia divertiu-se com isso. Sabia que Joana ainda não tinha dito nada a Marcinha, então sentou-se o mais distante possível, apesar de estarem lado a lado. Joana lhe abriu um sorriso lindo, que ela se viu retribuindo sem antes pensar. Não queria sentir aquela felicidade toda só por estar ao lado dela, mas era um sentimento mais forte do que ela, mais forte do que sua própria determinação em não se entregar. Estava feliz. Irremediavelmente feliz como há muito tempo não se sentia.
- Marcinha, vem ao banheiro comigo, amiga? – Joana levantou já estendendo a mão para a amiga. Guto e Olívia se entreolharam quando as duas seguiram juntas para os fundos do bar.
- Ela vai falar agora? – Guto perguntou.
- Acredito que sim. – Foi só o que Olívia se limitou a dizer.
- Bom, é melhor mesmo. Porque do jeito que vocês estão se comendo com os olhos, e depois do beijo na entrada, que por sorte a Marcinha não viu, não ia demorar muito pra ela descobrir.
- Eu sei. – Olívia riu da expressão do irmão.
Os dois se encararam. Quer dizer, Guto a analisava, e ela mantinha a sua melhor cara de poker para não entregar nada. Mas alguma coisa no seu olhar deve ter sido captada por ele, e Guto abriu um sorriso vitorioso antes de concluir.
- Eu sabia que um dia isso iria acontecer.
- O que? – Ela se arriscou, fingindo indiferença.
- Sabia que você iria se apaixonar. Ta escrito na sua cara.
- Guto, não viaja ok?! – Se defendeu, mas sentiu o seu coração apertado, porque por mais que negasse, o sentimento estava ali, criando raízes, e ela estava apavorada.
- Ta sim! – Ele riu. – Mas não se preocupe, eu não vou te entregar a ninguém. Só estou feliz por você, mana.
Olívia tentou segurar, mas não se conteve, teve que rir da cara que ele fazia, quase orgulhoso, como se ela tivesse conquistado algum prêmio ou coisa parecida.
Não demorou muito, e as duas voltaram pra mesa. Sem comentar nada, Marcinha sentou-se ao lado do Guto e o abraçou. Olívia percebeu que ela tentava não olhar em direção a ela, falhando em alguns segundo, e esta pode ver certo ar de reprovação naquele olhar. Aquilo a atingiu em cheio. É claro que Marcinha não aprovaria o que estava acontecendo. Conhecia a fama de Olivia, e por mais que a respeitasse, não devia desejar isso para a amiga. Além é claro, de ela, ao contrario de Guto, saber que Joana era casada e tinha uma filha. Olivia por tanto, estava destruindo uma família.
Indiferente ao que se passava dentro da amada, Joana sentou-se próxima a Olivia, e tomou-lhe a mão. As duas se encararam e Olivia se perdeu naquele olhar cúmplice e que parecia entender o significado do silencio da outra.
- Não se preocupe. Com a Marcinha me entendo eu. – Falou baixinho ao ouvido dela.
Olívia confirmou com a cabeça, mas não teceu nenhum comentário. De qualquer forma, não pretendia intervir. Jamais se sentiu na obrigação de explicar, a quem quer que fosse suas atitudes. É claro que não desejava que a cunhada se virasse contra ela, especialmente por causa do Guto, mas também não iria abaixar a cabeça. Sabia que o que estava acontecendo não era certo, mas não pelos mesmos motivos que Marcinha poderia julgar.
A noite transcorreu tranqüila. Se Marcinha tinha suas reservas quanto envolvimento delas, guardou para si. Brincou e riu com todos, e não deixou de se dirigir a Olívia com o mesmo carinho de antes, mas as duas sabiam que isso era só uma fachada para não magoar o Guto.
Olívia deixou a mesa, e foi para o lado de fora do bar fumar. Joana logo se aproximou e a envolveu em um abraço apertado beijando-lhe o pescoço.
- Vai ficar com essa cara a noite inteira? – Perguntou.
- Desculpa. – Olívia falou se desfazendo do abraço. – O que a Marcinha falou? – Se viu obrigada a perguntar.
- Ela me acha louca. – Joana sorriu. – Ela conhece o Dé e gosta muito dele. Isso a faz ser um tanto parcial. Além do fato, é claro, de achar que você vai me magoar. Sua fama é realmente ruim, meu amor. – Disse rindo.
- E eu nunca escondi isso. – Olívia completou.
- Não. Não escondeu. – Joana se aproximou dela, e tocou-lhe o rosto. – Mas você esquece que eu te conheço como ninguém mais. Você pode ter uma fama de pegadora e que é justificável, mas eu já vi o seu coração, e eu sei do poder que ele tem. E mesmo que você fuja de mim, como eu vejo que você quer fugir, eu também sinto que você me quer tanto quanto eu te quero. – Joana aproximou seu corpo do dela.
- Não espere promessas, Jo. Porque eu não as farei. – Olívia tentou recuar, mas Joana a segurou mais firme.
- Não estou te pedindo nada... Mentira. – Se corrigiu com um sorriso. – Te pedi uma semana, e é só o que vou te pedir. – Falou já colando o seu corpo no de Olívia, que sentiu na mesma hora o calor lhe subir, incendiando o seu corpo inteiro.
- Uma semana. – Sussurrou no ouvido de Joana, e fechou seus braços em volta dela, tomando a sua boca num beijo ardente.
CAPÍTULO 7 – Despedida parte 1
Naquela noite, dormiram juntas no quarto de Olívia e se amaram até o amanhecer. Mal tinha fechado os olhos e enlaçado o corpo nu de Joana por trás, e Olívia já ouvia o despertador tocar. Remexeu-se e resmungou na cama, enfiando ainda mais o rosto nos cabelos de Joana, que riu da reação infantil dela.
- Levanta Ollie! Você tem que trabalhar. – Falou docemente, se virando na cama e ficando frente a frente com ela. – Eu prometo te deixar descansar hoje à noite. – Falou com um sorriso sedutor.
- Impossível descansar com você nos meus braços. – Olívia falou se rendendo e puxando o corpo de Joana até encaixá-lo no seu. – Como eu posso descansar, se tudo o que eu quero é passar o tempo todo te sentindo? – Falou com voz ainda mais enrouquecida pelo sono e desejo contido, provocando arrepios pelo corpo todo da morena.
Sentindo a respiração de Joana mudar com o simples toque das suas peles, Olívia foi para cima dela já tomando aquele corpo todo com suas mãos, seus lábios e sua língua. Chegaria atrasada para a primeira aula, mas como se importar com isso, quando cada segundo que passava com Joana lhe era precioso? Não queria que ela soubesse do efeito que tinha, mas era impossível para ela resistir a essa vontade crescente de estar com Joana.
Saiu correndo após uma rápida chuveirada, em que é claro, proibiu Joana de participar, e pegou o metrô para Botafogo.
A semana transcorreu da mesma forma como começou. Olívia lutando para não se apaixonar ainda mais por Joana, e falhando. Passavam os dias separadas, Olívia trabalhando e Joana estudando para o concurso com Marcinha, que também ficava sozinha já que Guto tinha a faculdade e novo emprego em uma loja de roupas para complemento do final de ano.
À noite, Joana e Olívia se entregavam a paixão que sentiam. Faziam amor por horas e conversavam sobre a vida. Se vendo cada vez mais encantada por aquela mulher, Olívia já não sentia forças para lutar contra o que estava sentindo. Ao aceitar passar mais essa semana ao lado dela, havia se aberto para essa possibilidade, mesmo pensando que teria controle sobre os seus sentimentos, de que viveriam plenamente aquele amor. Mas no fundo, ainda tinha uma voz que dizia para ela correr, mas correr muito, o mais distante possível daquela mulher que tanto mexia com ela.
Em contrapartida, Joana também se via cada vez mais apaixonada por Olívia. Havia decidido que seria capaz de compreender a resistência dela e lutaria com todas as forças para reconquistá-la. Tentava entender as nuances nas ações dela. Em muitos momentos, percebia uma entrega absoluta de Olívia, ela lhe falava coisas profundas, era carinhosa, sedutora, e apaixonada. Em outros, era a Olívia fria e distante que tentava aparentar ao mundo. Não se entregava e deixava mensagens no ar para interpretação de Joana. Não lhe prometia nada, e se afastava quando Joana, sem querer, falava de planos futuros.
Seguiram dessa forma até sexta-feira, e Olívia já sentia a separação eminente, o que lhe provocava um frio na barriga, e um aperto no peito. Arrependia-se profundamente por ter deixado a situação chegar onde estava. Mas como manter distância, quando Joana estava ali, sorrindo para ela que acabara de chegar do trabalho?
Ela estava ao telefone, mas andou até Olívia e beijou-lhe de leve nos lábios.
- Ta bom. Agora deixa eu falar com ela. – Joana prosseguia a falar com seu interlocutor. – Eu sei Dé. A gente conversa quando eu chegar. Me deixa dar um beijo de boa noite na Bela.
Olívia, ao perceber que ela falava com o marido, seguiu direto para o quarto e fechou a porta. Não era a primeira vez que presenciava um dialogo entre os dois, mas sempre lhe causava um embrulho no estômago. Era a prova de que o que estavam fazendo era errado. Queria Joana, a desejava, e mesmo procurando não pensar nisso, se imaginava ao lado dela, vivendo plenamente aquele amor. Mas como? Como, se Joana tinha uma vida que não a incluía? Uma vida da qual ela não podia fazer parte. Olívia nunca pensou em ter filhos, tinha medo de repetir as ações de seus pais. Se ficasse com Joana, que papel teria na vida da filha dela?
Estas eram questões que a atormentavam. Mesmo tendo deixado claro que não queria aquilo, que não esperava que Joana ficasse com ela, como poderia não pensar nessa possibilidade quando a tinha em seus braços todas as noites lhe falando de amor e de uma vida que elas poderiam construir? Ela via o esforço que a outra fazia para não falar nisso, mas a escapava, e Olívia se via sonhando com ela.
Ligou o pequeno aparelho de som que tinha no quarto e apertou play. “With Or Without You”, do U2 começou a tocar e ela aumentou o volume. Aquela foi uma das musicas que embalaram seus dias na adolescência, quando se viu sozinha, mais sozinha do que jamais se sentiu na vida, pensando em Joana e no amor imenso que sentia por ela.
Joana ouviu os acordes de “Whit os Whitout You” vindo do quarto. Sentiu a dor que Olívia tentava com tanta determinação esconder. Desligou o telefone, após se despedir mais uma vez de André, que ela sabia, tinha sentido o afastamento da mulher, levantou-se do sofá, e seguiu até a porta do quarto, rezando para que não estivesse trancada.
Não estava. Encontrou Olívia jogada na cama ainda vestida. O som da musica era ainda mais alto dentro do pequeno cômodo, e ela andou devagar até a mulher magra, cor de neve, cabelos negros, deitada sobre o colchão, tão linda. Linda demais, Joana pensou. Deitou-se ao lado dela, encostando a cabeça em seu peito.
Não sabem por quanto tempo ficaram assim, Joana contando a respiração de Olívia, e esta lhe acariciando os cabelos, e o rosto. Joana prendia o seu corpo cada vez mais próximo ao dela. Queria a certeza do sentimento que Olívia sentia por ela. Queria a força daquela que foi e ainda era, o seu porto seguro.
Olívia, por sua vez, tentava encontrar coragem para dizer adeus. Sabia, tinha a certeza dentro dela, de que jamais amaria alguém como amava Joana. Um sentimento que havia perdurado por tanto tempo, e que voltara com força total com o primeiro olhar trocado, não podia ser menosprezado como ela tanto queria poder fazer, mas sabia também que não estava pronta para vivê-lo, e mais do que isso, não acreditava que Joana estivesse.
O CD já havia acabado, e com ele veio o silêncio ensurdecedor das palavras não ditas. Joana sentia a angustia de Olívia, e tinha consciência de que este momento chegaria. Queria poder pedir, implorar para que Olívia acreditasse no amor que ela sentia, mas sabia também que era demais para pedir. Teria que provar, e isto, levaria ainda um tempo longo. Tinha questões sérias para resolver antes de poder se entregar por inteiro para a mulher que era dona do seu coração.
- Jo? Ta acordada? – Olívia perguntou com a voz rouca que tanto provocava os sentidos de Joana.
- To. – Falou baixinho, sem deixar o corpo de Olívia. A apertou mais forte nos braços, no que Olívia retribuiu, beijando-lhe os cabelos.
- Amanhã é o seu ultimo dia. Domingo já é a prova. O que você quer fazer? – Olívia, sem coragem de encerrar aquele momento pela falta que já sentia dela, desistiu de romper o que tinham vivido. Ainda tinha um dia, e queria aproveitá-lo.
- Quero ficar nessa cama com você. – Joana respondeu ainda baixinho e já passando a mão nos seios de Olívia por cima da camisa.
- Adoro que você seja tão safada. – Olívia disse em meio ao riso, mas já sentindo a mesma excitação que Joana sempre provocava nela. – Então dessa cama não vamos mais sair. – Puxou Joana para cima dela, e beijou-lhe profundamente. Joana sentiu a diferença do beijo, que apesar de estar cheio de desejo, tinha também um sabor a mais, o da saudade que ambas sentiriam dos lábios uma da outra. Era um beijo apaixonado, as línguas se buscavam, se sentiam sem pressa, degustando seus últimos momentos juntas.
Olívia passou a mão pela nuca de Joana e puxou-a pelos cabelos, fazendo gemer nos lábios dela. Se movia sob ela, devagar, provocante. Joana já rebolava, imprensando seu corpo no dela, descendo as mãos pelos seios, até alcançar o sexo.
Com pressa, necessidade de sentir aquele corpo nu junto ao seu, Olívia arrancou a pequena blusa que Joana usava, e abriu o botão do short. Tirou sua própria blusa e Joana a ajudou a tirar as calças e a calcinha. Nuas, voltaram a se sentir, dessa vez, Olívia por cima, já a excitando e se movendo com maior fulgor. Queria, desejava aquele corpo todo marcado no seu. Se esfregaram, e Olívia a penetrou, provocando um gemido. A sentiu por dentro, pulsando em torno do seu dedo, e com voracidade, introduziu outro dedo, aumentando a velocidade.
Joana já não agüentava mais, gemia e puxava Olívia contra o seu corpo, querendo senti-la perto, dentro dela. Beijou-lhe a boca e arranhou-lhe as costas. Olívia então saiu de cima dela, deixando-a com vontade.
- Onde você pensa que vai? – Joana reclamou ofegante. – Olha como me deixou! – Exclamou apontando para baixo.
- Deliciosa. – Foi a resposta de Olívia, olhando para aquele corpo perfeito, de pernas abertas para ela. – Tenho um presente. – Falou com os olhos vermelhos e lacrimosos de excitação. Foi até a mochila, e tirou lá de dentro um pacote. Começou a abrir.
- Hey! Se é presente, não era eu quem devia estar fazendo isso? – Joana perguntou, sentando-se na cama.
-Não! – Olívia falou. – Fica na posição em que estava. Toda gostosa e aberta pra mim.
Joana obedeceu, se excitando ainda mais com o jeito mandão de Olívia.
Esta tirou do pacote um dildo, e lentamente, fazendo tudo olhando para Joana, vestiu o suporte e prendeu o consolo nele. A Joana, faltava ar com aquela visão. Poderia ter se assustado, se Olívia não tivesse tornado aquele momento tão sexy.
- Quero te comer toda. Sempre quis te comer assim. – Falou enquanto se aproximava e montava em cima de Joana. – Se abre bem pra mim, vai. – Pediu no ouvido dela e depois a olhou dentro dos olhos.
Joana abriu as pernas a encarando. Nunca tinha feito sexo com outra mulher dessa forma. Sempre achou estranha a necessidade de ‘brinquedos’, mesmo quando Vânia, sua outra mulher, tinha insistido para que usassem. Mas com Olívia era diferente. A queria dentro dela de todas as formas, e se excitou com o novo acessório.
Olívia a penetrou devagar, dando tempo para que ela se acostumasse com o novo objeto. Começou então um movimento cadenciado, vendo Joana fechar os olhos e gemer.
- Ta doendo, gostosa? – Perguntou no ouvido dela, ainda se movendo.
- Não. Não pára! – Foi a resposta entrecortada pela respiração.
Aumentou o movimento ouvindo os gemidos que saiam por aquela boca vermelha. A beijou com paixão, estocando cada vez mais rápido, sentindo o corpo sob o seu rebolar e se entregar.
Gozou uma, duas vezes, ainda rebolando para que Olívia não parasse. Beijou-lhe a boca e arranhou-lhe as costas de tanto prazer. Com a respiração difícil, pediu que tirasse. Olívia obedeceu, caindo ao seu lado, suada, exausta, mas feliz.
- Nunca pensei que seria tão bom ser comida por você assim. – Joana falou se virando para ela. – Mas acho que com você, nunca nada poderia ser ruim. – A fala com diversos sentidos, foi ouvida por Olívia, que preferiu ignorar os outros, e se ater ao sexual.
- É porque você dá muito gostoso. – e a tocou entre as pernas.
- Pode parar. Ela não é de brinquedo. – Joana falou rindo. – Agora é a minha vez de te comer gostoso. Quero fazer você gozar pra mim, como eu gozei pra você. – E ela desprendia o suporte do corpo de Olívia.
- Opa! Não mesmo. – Olívia falou, tirando as mãos dela. – Meu bem, eu já deixo você me comer, e adoro dar pra você. Mas assim não.
- Por que não? – Joana perguntou sedutora. – Ta com medo de gostar?
- Jo, não força a barra.
- Vai me negar esse prazer? Eu adoro te comer e quero te comer com tudo que eu tenho direito.
Olívia escondeu o rosto com as mãos e balançou a cabeça.
- Ninguém nunca... – Deixou no ar, encarando Joana.
- Ninguém nunca tinha me comido assim também. E eu amei que tenha sido com você. – Falou docemente e voltou a retirar o dildo e então o suporte. – Se doer, eu paro. – Quase brincando e provocando Olívia.
- É serio Jo. Não quero. Não vai nem entrar.
Vendo o desespero nos olhos de Olívia, Joana desistiu de insistir, mas foi para cima dela e se esfregou devagar.
- Tudo bem, amor. Quando você estiver pronta. Mas um dia ainda te como com ele. – E beijou o pescoço branquinho de Olívia. – Porque você é uma delicia, e eu to louca pra te comer, te sentir por dentro. Quero você tremendo toda pra mim.
Deslizou a mão e encontrou o sexo de Olívia já seco com o pavor que tinha sentido. Passou a excitá-la. Lambia seu pescoço, enfiava a língua no ouvido e se movia contra ela falando obscenidades. Com os dedos, primeiro se concentrou no clitóris, a sentindo relaxar, depois introduziu um dedo dentro dela. Olívia gemeu. Tinha que admitir, ali estava uma mulher capaz de desarmá-la e fazer ela se entregar de um jeito que nunca ninguém foi capaz de fazer. Abriu mais as pernas e deixou que Joana a tomasse com vontade, e ela o fez. Desceu pelo corpo de Olívia beijando e lambendo, até se concentrar em seu clitóris. A chupou primeiro devagar, sentindo toda a extensão do sexo com a língua e lábios, depois voltou ao clitóris, e sentiu Olívia gozar, o liquido quente a inundá-la, e continuou chupando, sem tirar seus dedos de dentro dela.
Durante toda a noite tentaram saciar o desejo imenso que sentiam uma pela outra. Deixaram o quarto somente para usarem o banheiro e buscarem comida. Não havia nem sinal de Guto e Marcinha que deveriam ter saído para curtir a noite carioca.
O dia já despontava, quando exaustas, se abraçaram e relaxaram na cama. Joana estava em êxtase com a sensação daquele corpo grudado ao seu, a respiração em seu pescoço, a mão passeando por seu braço e cintura, deslizando até chegar às nádegas. Olívia a tocava encantada com a suavidade da pele, o perfume que se desprendia dela, se aconchegou mais a ela, apertando-a contra o seu corpo, ouvindo um suspiro de Joana.
- Assim vou querer começar tudo de novo, amor. E eu sinceramente não tenho mais forças. – Joana falou sonolenta.
- Só estava te sentindo. Parece uma perda de tempo dormir quando temos tão pouco tempo... – Falou tão baixo, que parecia falar para ela mesma.
A dor que cruzou o peito de Joana, o fez disparar, e como Olívia estava atenta a cada respiração e reação daquele corpo, pode perceber o que o seu comentário desencadeara. Apertou Joana ainda mais próxima, e beijou-lhe a nuca.
Nada disseram. Cada uma tinha um milhão de pensamentos contraditórios passando-lhes pela cabeça naquele momento, mas nenhuma das duas tinha qualquer intenção de compartilhá-los. Estavam apavoradas com o que sentiam. E mais ainda, queriam desesperadamente saber o que a outra sentia, mas não tinham coragem de perguntar.
Se virando na cama, Joana ficou de frente para Olívia, enlaçou-a com a perna direita, e aproximou o seu corpo ao maximo do dela. Seus rostos estavam tão juntos, que uma respirava a respiração da outra. Os olhos se perdiam, os verdes nos castanhos amêndoa e vice-versa. Olívia passou o braço pela cintura de Joana e a puxou para si, esta tocou-lhe o rosto com delicadeza e suspirou.
- Amo você. – Não suportava mais guardar aquele sentimento e aquelas palavras teimavam a todo o momento querer sair de sua boca. As soltou. Ao contrario do que imaginava, Olívia não se esquivou, nem mesmo piscou. Continuou a encará-la com a mesma expressão séria no rosto, ainda que serena.
Grudadas da forma em que estavam Joana fechou os olhos. Sua respiração foi se tornando cada vez mais profunda. Olívia ainda a observava. O rosto simétrico, tão perfeito quanto o corpo daquela mulher. A boca vermelha, carnuda. O nariz um pouco arrebitado, os cílios longos. Fechou os olhos sentindo o hálito dela varrer-lhe o rosto.
- E eu amo você. – Deixou sair em meio à respiração. Uma vontade imensa de que Joana não a tivesse escutado, e a esperança de que tivesse. Não iria saber, pois logo adormeceu nos braços dela.
*****
O dia seguinte amanheceu nublado, e virando-se na cama, Olívia viu Joana a observá-la. Estava de banho tomado e com um vestido florido curto, que não ocultava em nada suas lindas pernas torneadas. Ela abriu um sorriso lindo e estendeu a mão para acariciar-lhe o rosto.
- Dormiu bem? – Sua voz era doce e calma.
- Humhum! – Foi só o que Olívia foi capaz de expressar. Não era muito eloqüente logo que acordava.
- Então vai pro banho, que hoje quem tem planos para nós, sou eu. – Falou animada dando um beijo estalado nos lábios de Olívia.
Esta resmungou e virou a cara para o travesseiro, fazendo assim com que o lençol que a cobria, deslizasse para o chão revelando seu corpo nu.
- Assim já é maldade, Ollie! – Joana resmungou. Voltou pra cama e deitando por sobre ela. Beijou-lhe sensualmente a nuca e esfregou seu sexo contra as nádegas dela. – Desse jeito nunca vamos sair da cama.
- Você que esta provocando. – Olívia falou com um sorriso.
- Acha que eu sou de ferro? Ver você assim, nua, me tira toda e qualquer razão. – Se esfregava cada vez mais contra o corpo dela.
Olívia já sentia seu sexo molhado. A respiração de Joana no seu pescoço, os pequenos gemidos ao tocar seu corpo, causavam-lhe arrepios.
- Que bom que voltamos à programação de ontem. Não tenho nenhuma intenção de deixar essa cama hoje. – Olívia falou com seu corpo reagindo ao corpo de Joana.
Joana saiu de cima dela e tirou o vestido e a calcinha. Olívia havia se virado na cama para encará-la, querendo saber por que a havia deixado. Quando se deparou com aquele corpo bem feito, cheio de curvas e a pela morena, abriu um sorriso safado.
- Vem pra cá, vem. – Estendeu a mão para Joana que a segurou e montou em Olívia, sentando sobre seu ventre.
- Você é a minha perdição, sabia? Sempre foi. Esse desejo intenso que eu sinto por você não é normal. Nunca senti isso por ninguém. – Começou a rebolar sobre ela, e Olívia lhe tocou os seios e os levou a boca. Chupando, sugando. – Nunca, ninguém me deixou tão excitada. – Segurou a mão de Olívia, e guiou-a a seu sexo encharcado, comprovando assim o seu ponto de vista.
- Ah... – Olívia gemeu ao senti-la molhada e pulsante. – Você não faz idéia, faz? Do quanto você me enlouquece? – Olívia rosnou antes de introduzir dois dedos e fazer Joana gemer alto. – Rebola pra mim. – Pediu ainda com a voz rouca.
Joana rebolava sentindo Olívia dentro dela, molhando aquele corpo branquinho e magro, mas ao mesmo tempo forte que já se movia contra o dela. O verde dos olhos banhava em fogo e a incendiava. Não era só desejo, apesar de o ser, Joana via muito mais naqueles olhos que não desviavam dos dela.
E foi assim, mergulhada naquele olhar intenso, que Joana chegou ao ápice, tencionando o corpo e envolvendo os dedos de Olívia, para depois pulsar e relaxar, até cair por cima dela.
Ficaram abraçadas um tempo, recuperando a respiração. Olívia a envolvia em seus braços e desenhava padrões em suas costas com seus dedos longos. Esse contato sutil provocava arrepios na morena, que se aproveitando da posição em que estava, começou a passar os lábios e depois a língua na pele sensível do pescoço, subindo ao ouvido e voltando até o colo. Sentiu o corpo de Olívia responder e se incendiar.
Passou as mãos pelo tórax, barriga, pernas. E subindo por entre as coxas, encontrou o lugar desejado, tocando-a de leve. Olívia ofegou quando o contato se tornou mais intimo. Mais uma vez aquela mulher a dominava e mais uma vez ela se entregava.
Joana massageou o clitóris com delicadeza antes de introduzir dois dedos na cavidade de Olívia. Ainda montada sobre ela, começou a movimentar seu sexo contra a barriga dela, enquanto seus dedos se moviam dentro dela.
Logo, Olívia já acompanhava o ritmo de Joana e se pôs a tocá-la. Em geral, ela não permitia, mas desta vez também se abriu. E assim, tocando-se mutuamente, ambas gozaram uma nos braços da outra.
- Quero me encaixar em você e te sentir em mim. – Joana disse, ainda respirando com dificuldade.
Olívia sentou-se, e passou sua perna por cima da dela, até que seus sexos se tocassem plenamente. Era a sensação mais incrível do mundo. Os movimentos dos corpos eram involuntários. Uma explosão de sentidos de dois corpos que se encaixam, se completam.
Passaram o dia todo na cama. Entre carinhos e caricias, poucas palavras foram ditas. Na verdade, Olívia tinha medo de expor o que sentia e desta forma constatar de fato que estava amando aquela mesma mulher, e que mais uma vez teria que deixa-la ir embora. Tinha muito medo dos seus sentimentos, mas não conseguiu impedir a si mesma de se entregar. Entregou-se muito mais do que planejara. Muito mais até do que se achava capaz de se entregar.
Pensava nisso, enquanto encostada ao portal que dava acesso a cozinha, assistia Joana, vestindo apenas uma camiseta e uma calcinha, preparar um almoço para elas. Como podia ser tão linda? Era quase um sonho tê-la ali. Queria dizer tantas coisas. Queria compartilhar uma vida inteira com ela. Poder acordar todos os dias nos seus braços morenos e receber aquele sorriso lindo, iluminado. Estava presa entre dois sentimentos conflitantes. De um lado, uma felicidade imensa, borbulhante, uma sensação de formigamento pelo corpo, misturada ao frio na barriga de pular de pára-quedas, ou surfar em uma onda gigante. De outro o medo aterrador da perda. Joana não era sua. A sentira sua naqueles dias, mas ter um prazo para que o sonho chegasse ao fim, lhe provocava dores contínuas no peito, uma sensação de afogamento. Estava no limiar entre o êxtase e o vazio.
Lembrou-se claramente de quando começaram a namorar. Joana havia enfim cedido e se permitido ser de Olívia. Claro que não se expuseram nem assumiram a relação publicamente, mas sentiam-se juntas.
Já havia passado um mês desde a festa, e por conseqüência o primeiro beijo e a tarde em que, na casa de Olívia, haviam feito amor pela primeira vez. Após se entregarem uma à outra, Joana fora embora chorando e desde então, evitava Olívia em todos os lugares. Na escola, mesmo que tentasse manter as aparências de que nada havia acontecido, não se permitia ficar sozinha com Olívia. Continuou o seu namoro com Leonardo e fingia para todos e para si mesma que nada havia mudado.
Em princípio, Olívia tentou conversar com ela, mesmo que fosse para pôr um ponto final naquela historia, precisava ouvir de Joana que não havia significado nada, que ela dissesse que não sentia a mesma coisa, precisava desesperadamente, de qualquer sinal de que aquilo não era uma fantasia sua, que de fato tinha acontecido. Sofria ao ver Joana rindo e brincando entre os amigos e com o Leo ao seu lado. Preferiu se afastar de vez. Se Joana não a queria, não insistiria.
Em uma tarde, Olívia estava saindo da escola quando elas se cruzaram no portão. O coração acelerado e as mãos suadas denunciavam o nervosismo que Olívia sentia. Joana também estancou e nos seus olhos Olívia pode ver medo e de alguma forma, saudade.
Ficaram assim, a se encararem por alguns segundos. Logo Léo e um grupo de amigas das duas se aproximaram. Olívia desviou o olhar e já começava a se afastar, quando Lilian a chamou.
- Ei Olie. – Ela esperou que Olívia se virasse antes de prosseguir. – Te coloquei no nosso grupo para o trabalho de historia. Nós vamos nos reunir hoje na casa da Clara para começar o trabalho. Às sete e meia. Tudo bem pra você?
Olívia encarou Joana, mas esta desviou o olhar. Percebeu ali que era ela quem estava abrindo mão de tudo sozinha. Joana continuava vivendo a vida dela com os amigos, o namorado. Sentia falta das suas amigas. Não tanto quanto de Joana, mas sentia falta da vida que tinha antes daquilo tudo acontecer.
- Tudo bem. Eu levo as bebidas. – Respondeu marota, como era costume seu.
- Finalmente você esta de volta. – Exclamou Thais. – Achei que iria permanecer um zumbi para sempre.
Todos riram da brincadeira, menos Joana que continuava a encarar os próprios sapatos. Olívia se despediu de todos e seguiu para casa. Estava decidido, se Joana queria fingir que nada havia acontecido, ela também o faria. Estava cansada de se esconder e sofrer sozinha.
Naquela noite, seguiu para a casa de Clara sentido uma dor de estomago constante. Pensara em desistir inúmeras vezes enquanto se arrumava, mas então lembrou-se de quem era. Sempre fora descolada, atrevida, desinibida. Era conhecida por ser durona, o que na verdade era uma fachada para esconder suas dúvidas e medos, mas que lhe servia bem. Enfrentaria este momento de cabeça erguida e se isso incomodasse Joana, ainda melhor.
Como qualquer grupo de adolescentes que se reúne para fazer um trabalho de escola, em menos de vinte minutos elas nem ao menos sabiam do que se tratava a matéria. Estavam absortas em colocar a conversa em dia, fazer confidências e beber toda vodka que o pai da Clara tinha escondida em casa. Os pais dela estavam viajando, e a irmã mais velha, que deveria supervisioná-la, havia saído com o namorado, melhor para elas.
Mesmo ainda distantes Olívia e Joana participavam das conversas e brincadeiras. Não se olhavam ou ao menos dirigiam à palavra uma a outra, mas se divertiam e por alguns momentos, parecia de fato que nada havia acontecido.
Um pouco alteradas pela bebida, começaram uma brincadeira de verdade ou conseqüência incentivadas pela Thais. Ela era, com exceção da Joana, a amiga com quem Olívia tinha maior afinidade.
- Eu começo. – Gritou Thaís, girando a garrafa vazia no meio do grupo. – Há! Clara para mim. Pode mandar Clarinha. Estou preparada.
- Ok. Então, lá vai. Até onde você foi com o Cadu?
Todas as meninas riram da cara da Thais perante a pergunta.
- Com o Cadu? Bom, nós fizemos tudo. – Thais falou orgulhosa, mas ao mesmo tempo, corando intensamente.
- Quero detalhes. – pediu Clara.
- Ah, gente. Vocês sabem... tudo. Amasso, beijo e sexo.
- Hum... sexo. Tem certeza? – Clara incentivava e provocava ao mesmo tempo.
- Claro né! Eu hein.
- E como foi? – Lílian perguntou. Em geral ela era tímida, mas Olívia achou que a vodka já fazia efeito.
- Bom. Mas com o Rafa é melhor. – Thais respondeu encerrando. – Vamos ver quem vai ser a próxima vitima. – Girou novamente a garrafa e caiu de Lílian para Joana.
- Jo, e você e o Léo? Que vocês transaram, nós já sabemos, mas quero saber se você gozou?
- Meu Deus, isso daqui esta mais quente do que eu imaginava. – Thais falou rindo.
- Ah, que pergunta Lili. – Joana desconversou.
- Tem que responder, Jo. – Thais cobrou.
- Não. – Joana respondeu, e seu olhar cruzou com o da Olívia.
- Não?- Clara perguntou. – Então o Leo não sabe mesmo o que esta fazendo. – Todas riram, inclusive Joana, que mesmo sem graça não deixou de olhar intensamente para Olívia.
Continuaram a brincadeira e as perguntas se tornavam cada vez mais íntimas. Olívia conseguira escapar de algumas revelações com brincadeiras, em outras situações, simplesmente escolheu conseqüência e com isto, já havia bebido quase metade da outra garrafa de vodka que haviam aberto.
- Agora tem que responder Olie. Você já transou? – Era Clara perguntando. Ela estava afiadíssima e louca para fazer esta pergunta a Olívia.
- Já. – Respondeu simplesmente e evitou o olhar de Joana.
- Precisamos de mais, Olie. Quem, quando, onde, como? – Thais reclamou.
- Vocês perguntaram se eu já transei, eu respondi. Não adianta perguntar com quem, como foi, quais posições, porque eu não vou falar. – Disse ascendendo um cigarro.
- Transou nada. – Provocou Clara. – Pode admitir amiga. Ser virgem não é doença.
- Eu sou virgem. – Lílian falou rindo.
- Nós sabemos Lili, e vamos mudar isso em breve, certo? – Thais falou.
- Se Deus quiser e o Diabo baixar. – Lílian falou rindo.
- Mas é serio Olie, porque você não se abre com a gente. Eu já falei coisas muito íntimas hoje, porque eu sei que nunca sairão daqui. Pode falar amiga. – Thais pressionou.
- Que pressão gente. A Olie fala se quiser. Vamos continuar. – Joana interveio.
Olívia olhou na direção de Joana e por um momento seu coração parou. Joana estava com medo que ela entregasse o que aconteceu com elas? O ódio lhe atingiu em cheio no peito. Levantou e deixou a sala. Pode ouvir ao longe Thais perguntar: “O que deu nela?” e Clara responder: “Absolut”.
Andava de um lado para outro na varanda, sentindo o vento frio da noite e uma angustia gigante a lhe comprimir o peito. A expressão, “tem um elefante sentado em cima de mim”, enfim fez sentido.
Ouviu que alguém se aproximara, imaginando ser uma das suas amigas, continuou virada de costas para a porta. Foi a voz dela que a despertou.
- Desculpa Olie. Eu achei que você precisava de ajuda lá dentro. – Joana disse em um tom baixo de voz.
- Não. Você achou que eu iria falar alguma coisa. – Olívia rebateu dura, virando de frente para ela.
- Não, não achei. – Joana respondeu a encarando.
Ficaram neste desafio silencioso por alguns segundos. Joana foi a primeira a ceder, desviou o olhar e se virou em direção a casa.
- Você vai continuar me ignorando? – Olívia perguntou.
- Eu não to te ignorando. – Joana disse como um reflexo. Logo se arrependeu. – Você tem razão, eu to.
- Então fala o que você está pensando Jo. Esse silêncio esta me matando. – Olívia enfim soltou. – Se eu pudesse voltar atrás...
- O que? – Joana a interrompeu. – Se pudesse voltar atrás o que faria?
- Eu teria guardado o que eu estava sentindo pra mim. – Olívia disse com um nó na garganta. – Não teria tentado nada, dito nada, e talvez agora, pudéssemos estar lá dentro, rindo e brincando sem este peso entre a gente.
Vendo-a fragilizada, Joana se aproximou e tocou seu rosto delicadamente. Olívia estremeceu com o contato. Sentiu a respiração presa dentro do peito e a palma da mão quente de Joana em seu rosto. Fechou os olhos com um suspiro.
Em um impulso, Joana tomou-lhe os lábios com os seus em um beijo doce, mas repleto de significados. Surpresa com a atitude dela, Olívia simplesmente se deixou beijar.
- Desculpa. – Joana disse em meio às lagrimas que já teimavam em descer. – Eu tenho sido horrível com você.
Olívia a puxou para seus braços e ali a abrigou. Ficaram abraçadas durante um longo tempo sem nada dizer. A verdade é que as duas estavam sofrendo. Sofriam por não estarem juntas, sofriam pela possibilidade de ficarem, sofriam pelo o que aquilo significava na vida delas... Dores que pareciam se extinguir quando se sentiam próximas daquela forma.
- Eu não estou te cobrando nada Jo. Sinto sua falta. – Olívia quebrou o silêncio, mas não a soltou. Continuou fazendo carinho em suas costas e em seu cabelo.
- Também sinto a sua. – A voz de Joana saiu abafada, pois tinha seu rosto afundado no peito de Olívia. – Eu to com medo. – Confidenciou baixinho, fazendo com que Olívia a apertasse ainda mais forte em seus braços.
- Eu sei. – Disse por fim. – Mas também não consigo mudar como me sinto.
Joana se remexeu lentamente, somente o bastante para posicionar o seu rosto de frente para o de Olívia. A beijou novamente, e dessa vez o beijo foi profundo e repleto de desejo. Uma apertou a outra ainda mais forte contra si, colando os corpos, buscando tornar possível a fusão, a ocupação de dois corpos num mesmo espaço.
Pararam para tomar fôlego, e os olhos de amêndoa eram fogo. Olívia tocou o rosto que tanto amava com seus dedos trêmulos, Joana desceu os lábios pelo rosto e pescoço dela, lhe provocando arrepios.
- Quero ser sua Olie. – Confidenciou em seu ouvido.
- Então pára de fugir de mim. – Olívia pediu, passando os dedos pelo rosto dela.
Joana a abraçou mais forte, sentindo que ali poderia ficar para sempre. Sentia-se segura nos braços de Olívia, de uma forma que ninguém mais era capaz de fazê-la sentir. Podia não entender aquele sentimento, mas negar que ele era real se tornava a cada dia mais difícil.
Apertando-a em seus braços, Olívia passou os lábios pelo pescoço dela, saboreando o gosto salgado da pele. A amava tanto. Esperara tanto que ela admitisse que não lhe era indiferente. Beijou-lhe o pescoço, o rosto, a boca. E a entrega de Joana lhe deixou de pernas bambas.
- Eu não vou mais fugir. Prometo. – Joana disse olhando-a nos olhos. – Não consigo viver sem você, Olie.
- Nem eu sem você. – Olívia sorriu. – Mas também não quero te pressionar a nada.
- Você não esta me pressionando. Eu que não consigo mais fingir que não sinto um monte de coisas por você, que por mais confusas que sejam, eu não quero deixar de sentir. – Respirou fundo e fez um carinho no rosto de Olívia. – Você é linda, sabia?
- Não. Linda é você. – Olívia retrucou.
- Será que uma vez na vida, você pode receber um elogio e apenas agradecer? – Joana colocou as mãos na cintura, o que Olívia não poderia achar mais charmoso.
- Ok. Obrigada. – Olívia se rendeu. Ainda a encarando, perguntou o que vinha engasgado desde cedo. – E o Leo?
- Eu vou terminar com ele amanhã mesmo. – Falou segura.
- Tem certeza? – Olívia precisava saber.
- Absoluta. – Joana confirmou. – Não sinto por ele nem metade do que sinto por você. – Conseguiu tirar um sorriso lindo de Olívia com essa declaração. – E além do mais, quero ser sua namorada. Mesmo que ainda não possa contar pra todo mundo, é o que eu quero ser.
- Você é muito careta mesmo Jo. – Olívia falou rindo, mas imensamente feliz que assim ela quisesse. A queria sua. E não importava nem um pouco que só elas soubessem disso, bastava. – Então, você quer namorar comigo? – A proposta continha um coração na mão, que entregava a Joana sem medo, sem prudência, mas com toda a sua alma. E Joana pode ver isto em seus olhos. Emocionada, respondeu:
- Já sou sua. – Beijou Olívia para selar o momento, e juntas, voltaram para a casa.”.
Ao terminar de colocar os pequenos pães no forno, Joana se voltou para a porta e se deparou com Olívia a olhando profundamente. Estava linda, com a sua calcinha preta e larga característica, e uma camiseta regata branca. Sorriu, mesmo sem saber que sentimento a outra estava tentando lhe passar. O sorriso leve veio como resposta, fazendo com que Joana não resistisse, e vencesse a distancia entre elas, enlaçando Olívia pela cintura.
- Está aqui há muito tempo? – Perguntou sedutora.
- O bastante pra já te querer nua de novo em meus braços. – Foi a resposta sussurrada ao pé do ouvido que Joana recebeu.
- Não provoca Ollie. Fome esqueceu? – Joana se afastou tocando de leve seus lábios aos dela.
- Certo. – Olívia suspirou insatisfeita. – Uma fome de cada vez.
Joana riu e seguiu até a pia para terminar de preparar a salada.
CAPÍTULO 8 - Despedida parte 2
Almoçaram às quatro horas da tarde sentadas nas almofadas da sala. Olívia ainda se impressionava com a naturalidade daquela convivência após tantos anos. A sensação que tinha, era de que nunca haviam se separado. Existia, é claro, uma nuvem constante sobre elas. Ambas tinham seus medos e suas teorias do que estava acontecendo, mas não partilhavam. Olívia via aquele momento como um universo paralelo. Para ela, estavam vivendo intensamente a realização de um sonho, mas que a hora de acordar chegaria logo e deixaria um vazio imenso.
Para Joana, ela se reencontrava com ela mesma, mais do que encontrava o seu amor. Sabia que fizera Olívia sofrer muito em uma época, em que esta não tinha estrutura para isso, e que este fato deixara marcas. Mas cada vez que a olhava, ou que a ouvia falar, e tendo tido a oportunidade de conhecê-la novamente, mais se encantava por essa mulher firme, decidida, um pouco ainda rebelde como sempre fora, mas extremamente justa e responsável. Apaixonava-se cada dia mais, e tinha a certeza de que não era um reflexo do sentimento que um dia nutriu por ela, se apaixonava pela mulher a sua frente, mas sabia também que ainda não era o momento certo para viver aquele amor, e temia magoar Olívia mais uma vez se fizesse promessas que não poderia cumprir de imediato.
Após o almoço, tomaram um banho longo, em que mais uma vez se amaram. A sensação de despedida as acometia a todo instante, e um desejo de aproveitar cada segundo, se tornava latente.
À noite, seguiram até o bar do Bola para se encontrarem com Guto e Marcinha, que também haviam passado o dia em suas despedidas, já que as duas seguiriam de volta para Teresópolis logo após a prova no dia seguinte.
Olívia ficou surpresa ao ver Marina e Clarissa sentadas à mesa com o casal. E se chegou já indagando a amiga com os olhos. Em uma troca rápida de olhares, percebeu que ela não estava nada bem.
- Resolveram finalmente sair da cama? – Guto implicou abrindo um sorriso safado para as duas lindas mulheres, que se aproximavam de mãos dadas. E levando uma cutucada nada discreta da namorada.
- Não foi idéia minha sair da cama. – Olívia revidou como sempre faziam.
- Amor! Olha a indiscrição. – Joana falou com um sorriso tímido e escondendo o rosto no ombro de Olívia.
- Eu ouvi mesmo certo? ‘Amor’? – Theo falou já caindo na gargalhada. – Quem te viu quem te vê dona Olívia. Que eu saiba você não dá essas intimidades para as suas namoradas.
Olívia fechou a cara ao ver a expressão de Joana desmoronar. Não que ela logo não tenha se refeito, mas esteve ali, a decepção. Em um reflexo, segurou-lhe a mão. Percebeu que não queria decepcioná-la. Não queria que ela pensasse que era mais uma de suas tantas mulheres, seus casos. Ela era muito mais do que isso.
- Privilégio de poucas. – respondeu no mesmo tom brincalhão de Theo.
- É a primeira vez que eu escuto. – Ele continuou rindo sem perceber o clima que seu comentário criou. – Ou melhor, teve a Estela, mas foi falar uma vez só, que você terminou com ela no mesmo dia.
Olívia nem se deu ao trabalho de responder, e seguiu até o outro lado da mesa, onde a Joana já havia se sentado, e tomou o lugar ao lado dela.
- Às vezes eu me esqueço que você já foi de tantas. – Joana não controlou o ciúmes e nem o comentário. Mesmo que este tenha sido feito em baixo tom, apenas para Olívia ouvir.
As duas se encararam e demorou um tempo para que Olívia respondesse. Queria dizer que amor, só foi dela, mas achou melhor não arriscar ainda mais seu coração.
- Não, não fui. Sexo não é sinônimo de entrega, não se esqueça disso. – Dito isto, Olívia se levantou e seguiu para a porta, no que foi acompanhada por Nina, que até então havia apenas as cumprimentado.
- Você não tem jeito mesmo. – Nina já chegou falando. – Não disse nada pra ela, não é mesmo? – O olhar que dirigiu a Olívia, era afável. Uma repreenda em tom de brincadeira.
- Falei o que achei que devia. – Foi a resposta estourada, em meio a uma baforada do cigarro.
- Cabeça dura demais, você. – Nina encostou também na parede, e filou um cigarro da amiga. – Mas estão vivendo “in love”, não estão?
Olívia soltou o ar pesadamente, antes de encarar a amiga nos olhos e fazer um sinal positivo com a cabeça. Sim, estavam vivendo in love. Mais do que deveriam.
-Ah, amiga. Amor é coisa complicada. Às vezes eu me pergunto se vale mesmo a pena.
- Você e a Clau? – Não precisava dizer mais nada, para que a outra entendesse do que ela estava falando.
- Acabou. – Disse triste. – Conversamos muito e chegamos à conclusão de que era o fim. É triste, mas estou mais leve desde então.
- Ela te traiu?
- Ela diz que não, mas não nega a atração que sente por aquele merdinha. – Raiva. Ao menos isso, pensou Olívia. – Mas o importante não é ele. Ela não me ama mais como antes e esta se abrindo para novas possibilidades. Se me dói constatar isso? Muito. Mas a verdade é que com tudo isso, eu também não sei mais o que eu sinto por ela.
- E estão fazendo o que juntas aqui? – Olívia perguntou indignada.
- A convite do Guto. E está tudo bem. Nós somos adultas, e a Clarissa nem saiu da minha casa ainda.
- E da sua cama, ela já saiu?
- Já. Mas a minha cama e os meus braços, ela já havia deixado há muito tempo, Li.
Ficaram em silencio. Cada uma com seus pensamentos. Perdidas em divagações sobre suas próprias vidas. Olívia podia ver a dor que a amiga sentia, mas conhecia Marina muito bem para saber que ela lidaria com tudo isso de forma natural e sem perder o bom humor. Nunca fora mulher de se entregar às dificuldades da vida, não começaria agora.
- E então, amor vale à pena? – Saiu mais sarcástica do que ela pretendia.
Nina a encarou, vendo nos olhos dela o quanto estava resistindo ao sentimento que já estava fazendo morada dentro dela. Olívia amava Joana e isso era claro desde o dia em que lhe contara a historia das duas, mas estava ainda mais forte, mais presente neste momento. Após soltar a fumaça do cigarro no ar, desviando assim o olhar daquele verde intenso, Nina enfim respondeu serenamente:
- Vale minha amiga. O pior é que vale. – Diante da expressão incrédula da outra, continuou. – Toda a dor que eu estou sentindo agora, é recompensada por toda a felicidade vivida plenamente ao lado daquela mulher. – e apontou para dentro do bar. – Acredite em mim, não me arrependo de nada. E se acontecer de eu me apaixonar de novo, o que eu confesso desejo muito, vou viver tudo intensamente como se fosse à primeira vez.
- Quem é você e o que fez com a minha amiga? – Olívia não resistiu.
- Até as cachorras amam. – Nina respondeu em meio ao riso. – E nós somos as provas vivas disso.
De volta à mesa, Olívia se acomodou ao lado de Joana mais uma vez. Esta lhe lançou um olhar tristonho, mesmo que nos lábios, um sorriso tenha surgido, ainda que tímido, lindo.
Por de baixo da mesa, Olívia tocou-lhe a perna, repousando ali sua mão. Se encararam, e se entenderam. Não era momento para conversas mais profundas ou crises de ciúmes.
Aparentemente, ninguém mais sabia do rompimento de Marina e Clarissa, e Olívia deixou como estava. Tratou a ex-namorada da amiga o mais cordialmente possível, foi educada, mas deixou claro com a distância que impôs que sabia o que havia acontecido, e que não concordava com a atitude da loirinha.
Entre brincadeiras, principalmente partindo do Guto e do Theo, o clima estava descontraído. Em vários momentos, Joana e Olívia se tocavam. Um carinho no braço, na perna. Olhavam-se e sorriam uma para outra. Sem perceber, se portavam como um casal apaixonado.
Foi a chegada de um grupo de meninas ao bar que abalou o clima na mesa. Nina, antes mesmo de Olívia, anteviu o perigo. Ao menos três das meninas do grupo, já haviam passado pela cama de Olívia, mesmo que esta não tenho lhes dado mais do que algumas horas de prazer, todas, invariavelmente, se lembravam muito bem dela.
- Olívia, que prazer! – Uma mulher alta, loira, cabelos longos, vestido curto, olhos azuis e um corpo escultural, se aproximou sorrindo. – Não te vejo mais pela noite. Achei que tivesse acontecido algo grave com você.
- Oi, Vivian. – Olívia a cumprimentou com um sorriso sem graça.
- Nossa! Não ganho nem um beijo, um abraço? – A outra falou provocante e já um pouco alterada pela bebida.
Olívia a olhou sem graça e se voltou para Joana, que neste momento, já havia abaixado a cabeça como lhe era característico, e rodava uma tampinha entre os dedos. Marina resolveu intervir antes que a situação se tornasse ainda mais desconfortável.
- Ola, Vivi. – Se ergueu para cumprimentar a mulher. – Tudo bem com você?
- Nina! Está ainda mais linda do que eu me lembrava! – Falou graciosa, depositando dois beijos molhados no rosto de Marina.
Marina sorriu sedutora. Viu Clarissa se mexer ao seu lado na mesa, mas ignorou. Poderia estar sendo civilizada quanto ao término, mas isso não queria dizer que não tinha prazer ao constatar o ciúme da outra.
- Venha beber algo comigo. – Marina chamou, já pegando a loira pela mão. Esta olhou para Olívia e sorriu, e então seguiu Nina até o bar.
- Uau. Você e a Nina já pilotaram aquele avião? – Guto brincou.
- Guto! Lembra de mim? Marcinha, sua namorada. Muito prazer! – Ela estendeu a mão para ele com os olhos arregalados.
- Oh meu amor! Foi só uma brincadeira. Você é mil vezes mais linda e eu te amo! – Segurou as mãos da namorada, e beijou-lhe os lábios delicadamente. – Além do mais, não gosto desse tipinho. Acho vulgar. – Falou alfinetando Olívia, que não dava nenhuma atenção às provocações. Estava totalmente concentrada em Joana, que desde o ocorrido, havia ficado muda ao seu lado.
Não demorou muito, e Clarissa pediu licença e decidiu ir embora. Não sem antes passara ao lado de Marina, que conversava animadamente com Vivian no bar. Despediu-se dela e disse que a esperava em casa. Nina, não perdendo tempo, avisou que talvez não fosse para casa àquela noite. Estava dando o troco, e da forma mais baixa possível.
Quando Guto já enrolava a língua para falar, Marcinha resolveu leva-lo para casa com a ajuda de Theo, que apesar de ter bebido tanto quanto o amigo, ainda tinha controle dos seus movimentos. Joana se ofereceu para ajudar, e Olívia se foi com eles.
As duas não trocaram uma palavra por todo o caminho. Olívia e Theo iam à frente carregando Guto, que cantava animadamente, do que ela não poderia deixar de rir junto ao Theo. Alguns passos atrás, Marcinha deu o braço a amiga e sorriu para ela. Estava esperando o momento para enfim se meter naquela historia. Havia deixado Joana fazer o que queria, mas naquela noite, percebeu que não era apenas uma aventura, ela estava envolvida, profundamente envolvida com a sua cunhada.
- Jô, o que vocês estão fazendo? – Perguntou baixinho com uma tensão na voz.
- Eu não sei amiga. Eu achei que soubesse, mas na verdade, eu não sei. E duvido muito que a Olie saiba. – Respondeu triste.
- Você esta apaixonada por ela?
Joana não respondeu. Não sabia como dizer que amava Olívia sem soar completamente louca. Estava apaixonada. Ainda apaixonada por Olívia. Porque agora que estava ali ao lado dela e se dera conta do que sentia, percebeu que nunca deixou de sentir. Pode ter amado outras pessoas, mas não como a amava. Mas Olívia era inconstante, fechada em seu próprio mundo. Não permitia a entrada de Joana, com exceção de raros momentos em que abaixava a guarda, para logo em seguida, reergue-la.
- Está, não está? Eu tinha certeza! – Marcinha soltou. – Você enlouqueceu?
Joana a encarou assustada com o tom que ela usou, e ergueu uma sobrancelha para a amiga.
- Porque ela é mulher? – Joana a desafiou.
- Claro que não, né Jô?! Eu lá tenho esse tipo de preconceito?! – Se acalmou. – Mas a Olívia? Me desculpa, amiga, mas mesmo sendo a minha cunhada e eu gostando de verdade dela, que eu saiba ela nunca levou ninguém a serio. O Guto mesmo fala. Ele se preocupa com ela. Diz sempre que a Olívia vai terminar sozinha, porque usa as mulheres e joga fora.
- Eu sei. – Joana enfim deixou essa constatação entrar nela. – A Olie se fechou para as outras pessoas. Não permite a entrada de ninguém. E a culpa é em boa parte minha.
- Como assim sua Jô? Por que vocês foram namoradinhas na escola?! – Marcinha revidou. – Isso não justifica ela ser tão leviana com os sentimentos das pessoas. As mulheres se apaixonam por ela e ela simplesmente some da vida delas.
- Não, Marcinha. Porque ela foi meu primeiro amor e eu o dela. Eu a magoei muito, e agora ela não me permite entrar com medo que eu o faça de novo. – Suspirou. – E como eu posso garantir que não vou fazer? Eu não posso me esquecer que eu tenho a Bela e o Dé na minha vida. Ela não merece que eu a machuque de novo.
- E ela pode te machucar? – Segurou o braço da amiga e a fez se virar para ela. – Eu vi como você ficou hoje quando aquela mulher veio falar com ela. – Marcinha acariciou o rosto triste da Joana. – Que garantias você tem que ela vai ficar com você? Você vai arriscar tudo por ela?
Joana não respondeu. Estava se perguntando a mesma coisa a noite toda. Estaria disposta a jogar toda a sua vida pro alto pra viver aquele amor, sabendo que poderia não ser correspondida? Precisava de uma certeza de Olívia. Precisava da força dela.
Subiram as escadas com dificuldade. Olívia e Theo depositaram Guto na cama dele e voltaram para sala assim que Marcinha e Joana entravam também em casa.
- Preciso de uma cerveja bem gelada depois desse esforço! – Exclamou Theo se jogando no colchonete da sala.
- Precisamos. – Olívia fez coro e se dirigiu a cozinha.
- Ele apagou? – Marcinha perguntou entrando na cozinha logo atrás de Olívia.
- Apagou. – Pegou as duas latinhas para voltar para a sala. – E se eu bem conheço, só acorda amanhã agora.
- Olívia. – Marcinha falou após um segundo de silencio. – O que você sente pela Jô? – Foi direta como sempre.
- Eu... – Olívia apoiou as latas na pia e se virou para a cunhada. – Marcinha, eu sinceramente não pretendo ter essa conversa com você. Eu posso entender que a Jô é sua amiga e que você se preocupe com ela, mas isso é entre eu e ela.
- Você tem razão. – Marcinha admitiu. – Só te peço pra tomar cuidado. A Jô não é como as outras mulheres com quem você sai.
- Não, ela não é. – Olívia respondeu sem deixar margens para que Marcinha revidasse. Pegou as latinhas na pia e passou por ela, olhando-a dentro dos olhos.
Voltou para a sala, e Marcinha seguiu para o quarto do Guto com uma garrafa d’água.
- Aqui, Theo! – Entregou a latinha para ele e sentou-se ao seu lado. – Cadê a Jô? – Perguntou assim que notou a ausência da sua morena. “Sua”? Seria mesmo? Não, não era.
- Entrou no quarto. Disse que tinha que deixar as coisas prontas para amanhã. – Ele respondeu e fitou a amiga. – Li o que ta rolando entre você e essa gata? Nunca te vi tão comportada assim!
- Ah, Theo! Não torra! – Virou a cerveja.
- Ok. Foi mal! Mas que você ta estranha, isso ta. – Foi a resposta dele antes de levantar. – Bom, já fiz minha boa ação do dia. E juro que não me aproveitei do corpinho do seu irmão... só um pouquinho. Mas a culpa foi dele.
- Você não vale nada mesmo! – Olívia sorriu. – Muito obrigado, amigo!
- Disponha! – Ele riu e deu dois beijinhos nela antes de se dirigir a porta e sair.
Olívia ainda ficou um tempo na sala. Terminou de beber a sua cerveja e a do Theo e só então tomou coragem para entrar no quarto.
Encontrou Joana deitada na cama só de calcinha e camiseta. Os cabelos longos e com cachos nas pontas, caíam sobre o travesseiro formando uma moldura para o seu rosto. Ela estava de olhos fechados, mas Olívia duvidava muito que estivesse dormindo. Aproximou-se tirando os tênis, depois a bermuda e por fim a blusa, ficando só de calcinha.
Deitou-se ao lado dela em silencio e sem tocá-la. Ficou escutando a respiração entrar e sair, e não se arriscou a olhá-la. Sabia que não teria força para resistir.
Após uns dez minutos nessa posição, Olívia desistiu. Aproximou-se de Joana na cama se enlaçou junto ao corpo dela, enfiando o rosto no pescoço, e sentindo aquele perfume que a inebriava. Não sabia mais como seria capaz de sobreviver sem isso. Na verdade, não sabia mais como viveria sem ela.
Joana abriu os olhos e pensou nas milhares de coisas que gostaria de falar. Mas o gesto simples de Olívia a havia quebrado. Sentir o corpo dela tão próximo e aconchegado ao seu, era o que realmente queria e precisava naquele momento. Retribui a abraçando de volta.
Nesta noite, não transaram. Ficaram curtindo estarem uma ao lado da outra, o calor dos corpos, as respirações que se confundiam, os pequenos toques que arrepiavam a pele. Nada disseram apenas se olharam por horas e se acariciaram delicadamente. Dormiram juntas. Unidas. Fundidas. Não sabiam onde uma terminava e começava a outra.
**** X****
Joana acordou com o barulho insistente do despertador. Sentiu o corpo de Olívia às suas costas. O braço dela em volta da sua cintura, uma das pernas entre as suas, a respiração profunda, cadenciada, em sua nuca. Não queria ter que sair daquela posição. Não queria ter que se mover. Era a hora de dar adeus aquele momento de sonho, e ela não se sentia pronta.
Tentou esticar o braço para pegar o celular ao lado da cama, mas foi impedida por um abraço forte. Olívia a segurava junto ao seu corpo.
- Por favor. – Sussurrou. – Não sai daqui.
Ela tinha acabado de despertar e um aperto no peito lhe atingiu em cheio. Queria mais alguns minutos, horas, dias, anos... Queria o para sempre das historias infantis, dos contos de fadas.
- Ollie... – Joana disse fraca. Não queria sair dali.
- Eu sei. – Foi só o que a outra falou antes de afrouxar o braço.
Joana desativou o despertador, e se voltou de frente para ela. Olívia tinha os olhos marejados, deixando o verde ainda mais intenso e profundo. A encarava deixando transparecer toda a angustia que levava no peito.
Com os dedos trêmulos, Joana tocou o rosto pálido da mulher amada. Delicadamente o contornou, decorando cada linha, cada expressão. A observou fechar os olhos, com o indicador e o dedo médio, percorreu toda a face e se ateu aos lábios entreabertos que se ofereciam doces, macios. Aproximou o seu corpo do dela e tomou-lhe os lábios com os seus. Uma caricia leve que foi logo retribuída. Olívia a puxou para junto de si, e invadiu a sua boca com a língua quente, úmida.
Do beijo o fogo se acendeu. Joana montou sobre ela, esfregando seu corpo ardente, com desejo, necessidade, vontade. Sendo tocada com a mesma intensidade. Nada disseram, seus corpos eram muito mais eloqüentes naquele momento. Se desvencilharam das poucas peças de roupa que ainda impediam o contato direto de pele com pele.
Joana desceu com lábios, língua e mãos, pelo corpo de Olívia. Decorava a sua extensão como havia feito com o rosto, deixando uma marca de fogo na pele branca. Ao chegar aos pés voltou devagar, saboreando cada parte até alcançar o sexo molhado e nele se deleitar.
Chupou Olívia alternando entre lentos movimentos, sentindo cada parte com a ponta da língua, e rápidos, excitando, fazendo o clitóris crescer na sua boca e a molhar ainda mais, quando com um gemido profundo, Olívia tremeu e gozou.
Rapidamente voltou a tomar-lhe a boca. Colocou a coxa entre as pernas de Olívia, e sentiu-a encharcá-la, se esfregando ainda mais nela. Olívia a girou na cama e se colocou por cima dela. Seus olhos se encontraram, estavam repletos de desejo e luxuria, mas ainda presentes o amor e a doçura que Joana havia visto antes.
Se esfregando sobre sua amada, Olívia tocou-lhe entre as pernas. Joana pulsava em seus dedos, deliciosa. Beijou-lhe a boca ao introduzir seus dedos na cavidade molhada, e nos lábios de Joana se perdeu. Ficou olhando o rosto dela se contorcer em prazer ao massagear-lhe o clitóris com o dedão. Sentiu o corpo todo tremer, e aumentou o contato, Joana era linda gozando.
Os olhares se encontraram e elas recomeçaram. Olívia queria gozar com ela, então a virou em um sessenta e nove. Línguas e dedos as levaram a loucura ao mesmo tempo e na mesma intensidade, os gemidos antes contidos, ecoaram alto nas paredes do pequeno quarto.
Puxando-a para junto de si, Joana tomou-lhe em um beijo longo e repleto de significados. Sentiu as lagrimas escorrerem de seus olhos, mas não se importou. Estava se sentindo frágil demais para ampará-las ou impedi-las.
Olívia sentiu as lágrimas se misturarem a saliva, e aprofundou o beijo. Queria tanto que fosse capaz de jurar o amor que sentia transformando-o em palavras, mas não conseguiu. Demonstrou da forma que sabia fazer melhor, colou seu corpo ao de Joana e sem abrir os olhos, beijou-lhe todo o rosto, bebendo de suas lagrimas, descendo lentamente, como antes Joana havia feito com ela, querendo ter o gosto dela na boca como uma lembrança dos dias que passaram juntas.
Ao chegar ao sexo, a chupou devagar, com cuidado e delicadeza, saboreando as respostas involuntárias do corpo dela. Joana gemia baixinho a cada toque. A língua de Olívia em seu sexo era algo que ela jamais havia esquecido, e que nunca iria esquecer. Sentiu que iria gozar, então puxou Olívia para cima e olhou-a nos olhos. Tocou-lhe entre as pernas e se deliciou ao constatar o quanto estava molhada e excitada por aquele momento.
Entendo o que ela queria, Olívia se deixou entregar, e também a tocou. Gozaram juntas mais uma vez, e se mantiveram abraçadas. Os corpos suados e saciados. Os corações batendo juntos, a respiração começando a se amansar.
- Eu te amo! Não importa se você acredita ou não, nem te peço que sinta o mesmo, mas eu quero dizer, eu te amo. – Joana disse olhando-a nos olhos.
Olívia beijou-lhe os lábios com doçura antes de responder.
- Você sabe como eu me sinto Jo. – Falou mirando aqueles olhos amendoados. – Sempre soube. E mais uma vez, isso não basta.
Joana sentiu a derrota que já a assolava, duplicada. Olívia também se sentia derrotada e não havia nada que pudesse fazer para mudar este sentimento. Mais uma vez ela iria deixá-la e não importava que tivesse intenção de voltar correndo para ela, neste momento, não podia.
Abraçaram-se longamente antes de deixarem a cama. Joana foi direto para o chuveiro, e Olívia para a cozinha. Quando Joana deixou o banheiro, havia um café da manhã completo posto na mesa da sala.
- Inacreditável. – Soltou com um sorriso.
- Você precisa se alimentar bem antes da prova. – Olívia correspondeu ao sorriso.
Sentaram-se a volta da mesa para tomarem café. Logo Marcinha se juntou às duas. Estava com a expressão cansada, de quem não dormiu bem a noite, mas ao contrario do que as duas pensaram quando a viram, não tinha sido uma noite em claro cuidando de Guto. Ele saiu do quarto, também cansado, mas parecendo feliz. Pelo jeito elas não tinham sido as únicas que se despediram com sexo.
Durante o café, Marcinha pareceu querer deixar claro para Olívia que a pequena desavença tinha se esvaído. Não comentou nada quando as viu de mãos dadas, nem quando trocaram um beijo longo ao se despedirem a porta no momento que as duas deixavam o apartamento com suas malas.
- Eu sei que você me pediu para não fazer promessas... – Joana começou, mas Olívia a impediu.
- Não fala nada. O que importava de fato, já foi dito. Agora é com o tempo. As coisas vão acontecer se tiverem que acontecer, Jo.
Elas se olharam longamente em frente ao prédio.
- Bora, Jo! Ou vamos nos atrasar! – Marcinha gritou de dentro do táxi.
- Não me esquece. – Joana pediu ao ouvido de Olívia. – Eu te amo! – Repetiu.
- E eu você. – Olívia rebateu roubando-lhe um beijo que provavelmente escandalizou toda a sua vizinhança que passava pela rua naquele momento. – Agora vai. Boa prova.
Joana sorriu de dentro do táxi, antes do carro partir. Olívia voltou pelas escadas com Guto silencioso ao seu lado. Entraram juntos no apartamento, e ele se jogou no colchonete da sala.
- Você ta bem? - Perguntou ao ver a irmã parada, parecendo desnorteada, no meio da sala.
- To. Vou pro banho. – Falou sem olhá-lo nos olhos e seguiu para o banheiro. Ligou o chuveiro, tirou suas roupas e entrou de baixo da água, deixando que suas lágrimas se misturassem com ela. Sentiu o soluço que não foi capaz de silenciar, sair dolorido de seu peito. Saudade.
Capítulo 9 - A vida que segue
Logo, Olívia voltou a sua rotina. Trabalho na escola, seus livros em casa. Estava escrevendo mais do que nunca. Sabia que angustia e dor eram fortes fontes de inspiração, mas nunca havia sido tão produtivo. Em uma semana, seu livro estava nas mãos da editora e outro começava a se desenhar a sua frente.
Parou de digitar, e pegou um cigarro à mesa. Ascendeu-o e andou até a janela. Olhou a rua quase vazia e suspirou. Era uma terça-feira, e ela mais uma vez não conseguia dormir. Desde que Joana havia partido, suas noites pareciam intermináveis. Relutava em deitar na cama para sentir uma falta absurda do corpo dela ao lado do seu. Mesmo com o calor que fazia no Rio de Janeiro em dezembro, sentia a noite fria, solitária.
Soltou a fumaça e deixou a dor vir mais uma vez. Vinha travando essa luta diária, sentia a angustia vir, e a amparava trabalhando ou escrevendo, até ser vencida pelo cansaço.
Estava feliz por enfim ter algo mais em que pensar. Logo cedo Paula havia ligado pedindo para que fosse até a universidade conversar com ela sobre o mestrado. Sabia que havia passado, pois conhecia a ex-namorada e amiga bem demais, e por mais que Paula tenha tentado manter o suspense no ar, não resistiu e contou que seu projeto havia sido aceito pelo departamento de línguas. Este talvez tenha sido o momento decisivo para Olívia. Passara as ultimas duas semanas em um sofrimento velado, mas constante. A notícia do seu mestrado lhe puxou de volta ao foco de sua própria vida. Não tinha tido notícias de Joana até então, e precisava parar de esperar por qualquer contato. Não podia reduzir sua vida aquele sentimento, ou aquela mulher. Terminara seu livro e agora teria o mestrado todo pela frente para se ocupar. Seus planos futuros haviam voltado a ser o que eram antes de Joana retornar a sua vida. Agarrou-se a isso como se agarraria a uma corda durante uma escalada alta em que pisasse em falso e se visse caindo no abismo sem fim. Voltaria a subir por ela.
Apagou o cigarro no cinzeiro de latão que mantinha sempre em sua janela, e voltou para a mesa. O arquivo aberto já contava com sessenta paginas. Sessenta paginas em cinco dias. Olívia sabia que estava transpondo de uma obsessão à outra. Achou essa ao menos mais saudável. A nova historia não falava de amor, era sobre dor e solidão. Apropriado, pensou ao varrer o quarto vazio com os olhos. Aquela solidão que buscara, e agora a torturava, também precisava findar. Nunca foi mulher de sentar em casa sozinha sentindo pena de si mesma, era hora de retornar das cinzas.
Ok, ok. Estava sendo melodramática, e agradecia imensamente por ainda não terem inventado nenhum aparelho eletrônico, capaz de capturar pensamentos alheios.
No dia seguinte saiu cedo de casa, queria passar na universidade antes de ir para o conselho de classe na escola. As aulas haviam terminado e as provas também. Este era o momento hipócrita em que os professores se reuniam e decidiam o futuro dos seus alunos baseados em suas próprias crenças de merecimento. Em geral, ajudavam os alunos pelos quais sentiam simpatia, e reprovavam aqueles de quem não gostavam. Repugnante e infelizmente, imutável. Olívia não concordava com o sistema de notas e muito menos com a forma como puniam os alunos que tinham maior dificuldade ao invés de ajudá-los a superá-las. Mas, fazia parte da sua carreira acadêmica se adaptar o melhor possível, para depois tentar mudar o mundo.
Chegou ao quarto andar do Bloco B da Universidade Federal do Rio de Janeiro e se dirigiu diretamente ao corredor onde ficava a sala de Paula. Martha, a secretaria mirradinha de sessenta anos a atendeu lançando olhares de reprovação, desde a roupa, uma camiseta vermelha com desenhos psicodélicos, passando pelo jeans rasgado, ao tênis all star velho, chegando ao cabelo curto e desalinhado. Sim, ela havia tomado uma atitude quanto ao cabelo que crescia em desalinho. Voltara a cortá-lo repicado e curto, caídos sobre os intensos olhos verdes.
Elas já se conheciam, mas Martha fingia que não. Nunca aprovara a ‘amizade’ entre a Professora Paula Leite, e a estudante rebelde, Olívia Gurgel.
- Só um instante Olívia, a professora Paula esta em reunião na sala dela. – Se dirigiu a ela educadamente, mas sem deixar de transparecer seu desagrado ao vê-la ali novamente.
- Sem problemas. Eu espero. – Respondeu com um sorriso safado no rosto e uma piscadela que fez Martha fechar ainda mais o semblante. Sempre gostara de provocar Martha e tirar o sorriso cínico dos seus lábios. Paula pedia que ela não o fizesse, mas Olívia não resistia. Martha mal sabia, ou fingia que não sabia que suas incontáveis reuniões com a Paula naquela sala durante a sua graduação, eram encontros sexuais, que sem duvida, não eram propriamente abafados pelas paredes finas que separavam a sala, daquela pequena ante-sala. Aí o ar de reprovação constante na presença de Olívia.
Demorou uns vinte minutos para que a porta se abrisse. Primeiro saiu uma jovem alta, cabelos longos cor de mel, corpo bem feito, vestindo uma calça jeans e uma blusa de alcinhas amarela. Logo em seguida, Paula, um pouco mais baixa, cabelos longos castanhos, presos em um coque solto. Ela vestia uma calça social preta e uma camisa branca delicada e muito feminina. As duas se despediram com um sorriso, e Olívia teve que rir, a Paula parecia ter encontrado outra estudante.
Paula viu Olívia praticamente jogada na poltrona, as pernas abertas e o sorriso moleque que ela tanto conhecia e adorava. Sorriu para ela, o que a outra não deixou passar despercebido. Encarou Olívia a medindo. Esta lhe sorria divertida.
- Li! Que bom te ver! – Paula disse se encaminhando até a amiga que se ergueu para abraçá-la. – Achei que fosse ter que te arrastar até aqui.
- A Nina exagera. – Olívia respondeu, já deixando claro que sabia que Nina e Paula tinham andado se falando sobre a depressão dela. – Eu estou bem.
- Ok. – Paula olhou-a nos olhos antes de se virar para a moça parada um pouco atrás. – Camila, esta é Olívia, uma grande amiga minha. Olívia, esta é a Camila, minha aluna do curso de pós-graduação.
- Muito prazer, Camila! – Olívia a cumprimentou divertida, o que Paula não deixou de perceber.
- Prazer. – A outra respondeu com um sorriso incerto. – Eu preciso ir. Depois nos falamos Paula.
Saiu andando provocante e Olívia teve uma pequena crise de riso sob o olhar acusador de Martha.
- Vamos entrar. – Paula a puxou pelo braço.
Entraram na sala e Olívia se jogou na cadeira de frente para a mesa de Paula. Era uma sala pequena, com uma mesa de madeira no centro, uma estante de livros ao fundo, uma cadeira por de trás da mesa, e duas à frente. E do outro lado, um pequeno sofá de dois lugares.
- Hum, gatinha! – Olívia provocou Paula.
- Não enche Li! – Paula retrucou sem entusiasmo. Andou até a sua cadeira, e também se sentou, encarando Olívia. – Como você está? De verdade.
- Bem... Mesmo! – Respondeu sem coragem de encará-la nos olhos. Paula sempre teria esse poder sobre ela, era irritante. Talvez fosse a pessoa mais próxima de uma figura materna que ela teve em sua vida. Parece nojento pensando pelo prisma de terem sido namoradas, mas a relação de amizade e cumplicidade que construíram assim se definia. Paula cuidava de Olívia, se preocupava, a escutava e a colocava nos eixos, como ela mesma dizia. Tinha um senso de responsabilidade com relação a ela muito forte, da mesma forma como Olívia jamais queria desapontá-la.
- Mentira. Bem você não está. – Paula ascendeu um cigarro e ofereceu o maço a Olívia, que aceitou. Sempre filara os cigarros de Paula, principalmente porque na época em que namoravam, não tinha dinheiro pra bancar o próprio vicio, até que Paula começou a impor que ela arrumasse um emprego melhor e se virasse pra comprar o próprio cigarro. – Essa menina voltou virando você do avesso. – Completou soltando a fumaça no ar.
- Não é assim, Paula. Eu não vou negar que mexeu comigo, mas eu to bem. Eu sabia que seria só isso. – Falou encarando a própria mão, antes de erguer a cabeça e encará-la. – Você sentiria o mesmo se a Fátima aparecesse hoje na sua vida.
Paula sustentou o olhar, pois sabia que Olívia não tinha intenção de agredi-la, apesar de cutucar a ferida. Fátima havia sido seu grande amor, que a deixara porque não queria deixar o marido e os filhos para viver com ela.
- Ao menos você admite que ela é o grande amor da sua vida. – Permaneceu mergulhada no verde intenso dos olhos dela. Não era uma pergunta, mas uma constatação, e antes que Olívia pudesse formular qualquer resposta, Paula emendou. – Você se lembra do dia em que te questionei sobre o seu passado?
Olívia sinalizou que sim.
- Eu queria morrer. Eu estava completamente apaixonada por você. Era a primeira vez que eu deixava alguém entrar de forma tão arrebatadora dentro de mim depois da Fátima. Mas ali eu soube que você nunca seria capaz de se entregar a mim, ou a quem quer que fosse. Seu coração ainda pertencia a sua primeira namorada, e até que você fosse capaz de resolver essa questão dentro de você, não permitiria que ninguém mais entrasse. Eu soube ali, que nós não ficaríamos juntas.
- Eu te amei muito, Paula. Você sabe disso, não sabe? – Olívia se preocupou com a tristeza que viu no olhar de Paula. – Você é uma das pessoas mais importantes da minha vida, e como minha mulher, foi com quem eu tive a relação mais completa, inteira... eu quis viver tudo com você.
- Eu sei disso, Olívia. Não duvido que você tenha me amado, e sei bem da importância que temos uma na vida da outra. Mas o lugar que essa mulher ocupa no seu coração, não permite que mais ninguém entre por completo.
Olívia não falou nada, e Paula não esperava que ela o fizesse. Disse o que tinha de dizer. Não gostava de ver o sofrimento naqueles olhos verdes que tanto amava, mas sabia também que Olívia nunca admitiria a dimensão daquele sentimento.
- Certo. Desde que você saiba que eu estarei sempre aqui pra você, vou respeitar os seus silêncios. – Paula falou com um sorriso singelo, no que fui correspondida. – Vamos ao seu mestrado.
- Passei mesmo? – Olívia perguntou ansiosa e feliz pela mudança no assunto.
- Claro que passou. Tinha alguma duvida? - Sem esperar resposta, continuou. – Pela linha que você decidiu seguir, a pessoa mais indicada para te orientar, é a Claudia Tavares. – Viu o desgosto no rosto de Olívia. Como uma criança, era assim que se portava diante dela muitas vezes. – Eu sei que você não gosta dela, mas é a sua melhor opção. E ela é uma excelente profissional, então não faz essa cara. Eu tenho aqui uma lista com a bibliografia sugerida por ela. Vocês se reunirão assim que passarem as festas de final de ano. Ela teve que viajar um pouco antes, mas me pediu para deixar tudo encaminhado com você.
- Ela vai é me fazer sofrer, isso sim. Odiava as aulas dela, o jeito superior com o qual ela me olhava. Odeio gente arrogante, e Claudia Tavares, é uma das mulheres mais arrogantes que eu já conheci.
- Hum, esse discurso esta me parecendo tesão enrustido, Olívia.
- Que tesão, Paulinha? Aquela mulher é frígida!
As duas caíram na gargalhada. Apesar de possuir uma beleza exuberante, com seu metro e setenta, pele morena, olhos azuis, cabelos castanhos claros, um rosto perfeito, Claudia era rígida na postura assim como na forma de se vestir. Inteligentíssima, fazia discursos inflamados sobre a história da literatura e a contribuição desta nas grandes revoluções da humanidade, mas só era capaz de se mostrar assim enquanto ensinava, ao final da aula, era a mesma pessoa fria e distante. Olívia tinha uma implicância absurda com ela.
- Bom, vai ter que engolir, sinto muito. Ela é chefe do departamento e escolheu seus orientandos.
- Quer me torturar, então! Ok. Eu encaro. – Falou desdenhando.
- Quer almoçar comigo? – Paula mudou completamente de assunto.
- Depende, a aluna gostosinha não vai se importar? – Olívia implicou.
- Não, a Camila não é ciumenta. E além do mais, é só um casinho. Não vou investir. Muito bonitinha, mas novinha e deslumbrada demais pra minha cabeça. – Paula pegou a bolsa e estendeu a mão para Olívia.
- Alguém já te disse que você não presta Paulinha? – Segurou o riso.
- Eu não estou enganando ninguém.
- É, essa parte eu aprendi com você. Faz, mas avisa que esta fazendo. – Completou rindo.
- Exatamente. Não te poupa da dor de cabeça depois, mas é bom saber que você agiu certo. – Piscou para Olívia, antes de carregá-la para fora da sala.
À tarde, Olívia se dirigiu a escola onde lecionava. Passou pelo conselho de classe se esforçando para se manter calada e não retrucar cada observação feita pelos outros professores. Defendeu muitos alunos os quais estavam sendo destinados à recuperação e outros a reprovação. Acreditava em dar chances a todos, contanto que não fossem ser prejudicados com isso.
Saiu sentindo-se desgastada, e preferiu não ir direto para casa. O tempo ocioso a estava enlouquecendo. Cada segundo que passava sem uma atividade especifica, era levada de volta a Joana. Fosse com lembranças dos seus momentos juntas, fosse com suposições sobre como ela estaria agora, e a saudade. Uma saudade constante que lhe doía no peito. Para não pensar, precisava de companhia. Ligou para Nina e descobriu que ela estava trabalhando em uma exposição no centro da cidade. Saltou no metrô da Carioca e se dirigiu a pequena galeria.
O movimento no centro era intenso e Olívia se viu tragada pelas grandes construções que tanto adorava. Aquela era uma parte da cidade das quais mais gostava. Imponente e bela, o centro antigo lhe dava a sensação de ser transportada para uma época diferente.
A galeria ficava em uma rua transversal a Avenida Rio Branco. Andou admirando a arquitetura, até parar em frente a um prédio com a fachada clara e recém reformada, mas que mantinha a estrutura original da década de 20. A porta em madeira pesada estava entreaberta, e uma musica clássica saía baixa lá de dentro.
Entrou mantendo a porta encostada. O hall de entrada já tinha placas referentes à exposição. A artista, Verônica Guedes, era uma grande amiga da Marina e tinha um talento especial retratando as relações humanas em um trabalho de luz e sombra. Suas pinturas pareciam fotografias em preto e branco. Eram delicadas e muito bem trabalhadas. Olívia já havia ido a algumas exposições dela e sempre se surpreendia com a veracidade com que os personagens eram tratados. Pois sim, os via como personagens. Cada quadro era uma historia sendo contada.
Virou à direita e se viu no salão principal, onde muitas obras já se encontravam dispostas. O trabalho da Marina era propiciar um ambiente agradável e estruturado para a admiração das peças. Apesar de preferir os cenários de teatro, sempre dedicou um carinho especial às exposições, especialmente da Verônica, de quem também era fã incondicional.
Um dos quadros na parede oposta à entrada chamou a atenção de Olívia assim que varreu a sala com os olhos. Andou até ele e à distancia de um metro, parou. A pintura retratava duas mulheres nuas enlaçadas contra um fundo negro. Não era o primeiro quadro com duas mulheres que Verônica pintava. Gay assumida, muitos dos seus retratos tratavam desta temática, assim como o fazia com homens se amando e homens e mulheres. Mas este era diferente. Havia entre elas um sentimento forte. A forma como se tocavam, demonstrava o conforto que uma tinha nos braços da outra.
Demorou-se admirando as pequenas nuances que as curvas daqueles corpos compreendiam. Em sua mente, criava historias possíveis para aquele enlace. Mas mais forte que qualquer outra coisa, foi o sentimento profundo que lhe abateu. Só era capaz de ver o amor ali presente, quem estivesse amando tão profundamente. Ou talvez ela o visse dessa forma, porque estava irremediavelmente apaixonada.
Saiu do seu estado de contemplação, assim que ouviu passos no salão próximos a ela. Olhou para o lado e se deparou com os olhos escuros, quase negros de Verônica. Com os cabelos cacheados e cheios presos com um nó sobre a cabeça, e vestindo uma bata indiana verde água, ela parecia uma fada, etérea e distante. Postou-se ao lado de Olívia e admirou a obra.
- Amor e dor. – Disse no seu tom de voz baixo característico.
- Dá pra sentir. – Olívia respondeu sem tirar seus olhos da pintura.
- Só quem já amou pode sentir.
Ficaram um tempo em silêncio admirando aquele amor e dor, como Verônica havia falado. Com um sorriso sincero com os dentes de cima da frente um pouco separados, Verônica abraçou Olívia.
- Já estava me perguntando quando a veria. – Disse se soltando do abraço.
- Mais uma vez você conseguiu se superar. São lindos, Verônica. – Olívia abrangeu o espaço com o olhar.
- Fico feliz que tenha gostado. Especialmente deste aqui. – Apontou para o quadro.
- É fantástico. – Olívia retribuiu.
Marina entrou no salão vestindo shorts jeans e camiseta preta. Estava coberta em poeira de madeira e suada, usando os cabelos presos em um rabo de cavalo um pouco acima da nuca.
- Achei que não viesse mais! – Exclamou ao ver Olívia parada no meio do salão. – Não são lindos?
- Lindos. – Abraçou a amiga apesar dos protestos da mesma dizendo que estava suada.
- Vamos tomar um chopp? – Marina se dirigiu às duas.
- Eu não posso, Nina. Mas vão vocês. – Verônica respondeu. – Tenho ainda algumas coisas para organizar por aqui e a Giselle chega hoje à noite.
- Hum! Então você tem coisa melhor a fazer hoje do que beber com duas solteiras convictas. Está mais do que certa. – Nina provocou.
Despediram-se de Verônica, e seguiram descendo a rua em direção a um boteco do centro mesmo. Esperariam o transito melhorar para irem para casa, e Olívia não tinha qualquer intenção de apressar este momento.
Sentaram-se a uma mesa na calçada e pediram uma cerveja de garrafa e pasteis. Nina falou sobre a exposição e Olívia ficou feliz ao ver a amiga tão entusiasmada. Fazia agora mais de um mês que Clarissa a deixara e somente o trabalho parecia resgatá-la daquele sofrimento.
- A Verônica se superou dessa vez. E eu quero que você veja a ambientação do salão do segundo andar. O jogo de luz ficou incrível. O Dinho foi espetacular. – Falava com empolgação. Seria contagiante, se não fosse o nó constante que Olívia carregava no peito.
Após o silencio que se formou, Nina segurou a mão da amiga entre as suas e olhou no fundo dos seus olhos verdes.
- Vai passar. – Disse contundente. – Como tudo na vida. Você é uma guerreira, Olívia. Uma mulher forte e determinada. Não se deixe consumir por essa dor.
Olívia nada respondeu. Sabia que a amiga estava certa. A dor que sentia agora era consciente, tão diferente daquela sentida quando ainda era uma menina. A saudade iria se perpetuar, mas ficaria cada dia mais leve, mais distante dos seus pensamentos. A esperança, esta também a deixaria em algum momento, pois por mais que negasse para si mesma, ainda nutria esperanças de que Joana ligasse, reaparecesse e ainda a quisesse.
- Eu sei Nina. Vai passar. Já esta passando.
- Bom. – Nina observou-a antes de continuar. – Eu e você somos duas fraudes.
- Somos? Por quê? – Perguntou sem dar muita atenção.
- Porque passamos essa imagem de fodonas, quando no fundo somos mais sensíveis e frágeis que todas as mulheres com quem ficamos e que se apaixonam por nós.
Olívia caiu na gargalhada, no que foi seguida por Nina. Ela tinha razão. Olívia sempre lidou com seus pequenos casos amorosos como se nada a atingisse. Sem se envolver, sem sofrer, mas principalmente, sem sentir. Mas quando sentia, era muito mais intenso do que era capaz de suportar.
Ainda ficaram horas conversando e bebendo. De certa forma, ambas lidavam com o vazio que só a dor de amor é capaz de provocar. Não tocaram nos nomes de Joana e Clarissa, ainda não era o momento de mexer nas feridas. Era preciso deixar cicatrizar. Mas nessa conversa descontraída com Nina, Olivia conseguiu se sentir mais como ela mesma. Não morreria desse amor, mesmo que não pudesse viver dele como ainda desejava.
Voltou pra casa depois da meia noite e encontrou Guto esparramado no futon como sempre.
- Finalmente! Estava pegando quem? – Ergueu os olhos do filme que passava na televisão, mas que assistia sem muito interesse.
- Pegando ninguém. Estava tomando um chopp com a Nina. – Sentou-se ao lado do irmão.
- Você fez algum voto de castidade? – Brincou.
- Não. Só não estou no clima para flertes e noitadas. E o mestrado vai começar logo, preciso de foco.
Pode sentir os olhos de Guto presos a ela. Sabia que ele tinha muitas coisas a dizer referentes a seu romance com Joana, mas ela ainda não havia permitido. Todas as vezes que ele tentava iniciar uma conversa, ela o cortava. Imaginava que ele era a sua fonte mais segura e informada de noticias da mulher que era dona do seu coração, e até por isso, preferia não falar ou ouvir o que ele tinha a dizer.
Esta noite, ou pelo efeito do álcool, ou pela conversa com a Nina, sentia-se entorpecida, mas também um pouco mais forte. Previu que ele logo faria a investida, mas não o impediu.
- Eu sei que você não quer falar sobre o assunto e eu entendo, mas você não pode se fechar assim, Ollie. – A pausa foi de uma respiração. Guto esperou que ela se virasse para ele ou que revidasse de alguma forma, mas ela se manteve em silencio e virada em direção a TV, mesmo que não a assistisse. – Eu não gosto de te ver assim, me dói. Por que você não liga...
Olívia não o deixou terminar a pergunta. Com um olhar de gelar a alma, levantou de uma vez só do futon e seguiu em direção ao quarto.
Guto a alcançou antes que pudesse bater a porta.
- Olívia. Eu sou teu irmão, porra. To aqui pra você pro que der e vier e você sabe disso. Eu não agüento te ver assim. – Respirou fundo antes de continuar. – Fala comigo.
Olivia encarou os olhos que espelhavam os seus tal a intensidade do verde e da força que tinham e recuou, mas não o impediu de entrar. Jogou-se na cadeira e mirou os próprios pés.
- Ollie... se você a ama assim, tem que lutar por ela. – Ele se agachou de frente para ela e segurou suas mãos entre as suas. – Se você não correr o risco, nunca vai saber se valeria à pena.
- Ela sabe o que eu sinto. Eu já arrisquei Guto, mais do que você pode imaginar. – Ergueu os olhos para encontrar os dele, e sorriu tristemente. – Eu vou ficar bem. Decepções fazem parte da vida. Eu já estou me reerguendo, não se preocupe.
Guto não acreditou. Olívia não estava bem. Mas ela se fechou há tanto tempo e de uma maneira que ele sabia que ninguém conseguiria entrar. Só a vira vulnerável uma vez na vida, e foi quando Joana a deixou há mais ou menos quinze dias. Nem quando ela deixou a casa dos pais ele a viu assim. Talvez por ser jovem demais na época, não saberia dizer, mas sempre a admirou por sua força e determinação, mas agora não conseguia ver a fortaleza. Pela primeira vez sentiu vir dela um medo que nem ela admitia.
Olívia sorriu para ele soltando suas mãos e erguendo-se. Antes que ela pudesse se afastar novamente, ele a puxou para um abraço.
- Eu to aqui, não esquece disso.
- Eu sei mano. – Ela correspondeu o abraço, mas o dispensou.
Guto deixou o quarto da irmã ainda mais angustiado do que havia entrado. Assim que ele saiu, Olívia tirou a roupa e deitou-se nua sobre a cama. A noite sempre era mais difícil. A falta que sentia de Joana lhe doía e corroia por dentro. Era uma dor física que não conseguia controlar. Sentia-se fraca e odiava se sentir assim. Socou o travesseiro descontando a raiva que nutria por si mesma. Como podia ter se deixado levar dessa forma? Como permitira que Joana a invadisse novamente e dilacerasse seu coração? Como pode não prever que a historia se repetiria? Não podia nem ao menos odiá-la. A amava demais para isso. Odiava a si mesma. Pedira que não fizessem promessas, que deixassem rolar, que não se comprometessem. O fez por medo dessa dor que agora pulsava em seu peito. E de que adiantara?
***X***
O tempo em sua imensurável benevolência, passou rapidamente e quase indolor. Olivia direcionou todas as suas energias para o mestrado e seus livros. As férias escolares lhe proporcionavam um tempo que não tinha durante o ano letivo. Colocou a leitura em dia e encaminhou um novo rascunho para a sua editora. Seu primeiro livro seria lançado em março e todos os preparativos estavam sendo feitos.
O Natal veio e com ele um saudosismo que não lhe era comum. Talvez a presença de Guto tenha desencadeado esse sentimentalismo. Lembrou-se dos natais de quando era criança, com toda a família reunida, seus pais, avós, tios e primos.
Este ano, fizeram uma grande ceia no Bar do Bola. Eram uma família. Olívia, Marina, Bola, Tom, Theo e Guto, que neste ano decidiu ficar com a irmã para as festas.
Assim veio também o novo ano, festejado com muito entusiasmo nas areias de Copacabana. Foi a primeira vez que Olívia encontrou com a Marcinha depois que ela e Joana deixaram o Rio. Em um entendimento silencioso, evitaram tocar no assunto da ultima visita da cunhada. Olívia guardou para si todas as perguntas que gostaria de fazer sobre a sua amada, e Marcinha respeitou o desejo dela.
Com janeiro, vieram também as responsabilidades com o mestrado. Era o momento de colocar em prática suas teorias. Precisava definir o que iria estudar e sobre o que iria escrever sua dissertação.
Acordou cedo com o corpo suado e dolorido de mais uma noite mal dormida. Havia saído com o Theo para uma festa e bebido demais. Lembrava-se também de uma loira e um banheiro, mas não importava. Sexo sem compromisso e de preferência sem nomes era o remédio que ela melhor conhecia para ajudar o tempo a passar mais rápido e levar as lembranças embora.
Deixou a cama e a luz do dia ainda não se fazia presente. Tomou um banho rápido e frio para acordar, vestiu uma calça jeans, uma camiseta e tênis. Arrumou a mochila e saiu para um dia de céu azul claro. O sol ainda não invadira as ruas da Lapa e somente os resquícios da noite eram vistos espalhados e manchando a beleza da manhã. Muitas latas, garrafas e sujeira próximas aos Arcos.
O trajeto longo e em geral engarrafado foi feito em menos de cinqüenta minutos, um recorde. Chegou à universidade e havia pouco movimento por ali àquela hora. Dirigiu-se direto ao setor de Letras e procurou um lugar para sentar em que estivesse mais fresco. Encostada em uma pilastra e sentada sobre o piso frio, abriu um livro e esperou. Aquele era o primeiro dia de sua orientação e decidiu que não importavam os seus sentimentos controversos contra a sua orientadora, se dedicaria como nunca.
Ouviu o som metálico de saltos pisando firmes sobre o piso de pedra. Olhou por cima do livro em suas mãos e uma mulher alta, dona de um corpo magro, mas forte e com um porte invejável enfiada em um terninho azul escuro, veio em sua direção.
Os óculos escuros escondiam os olhos azuis e penetrantes que Olívia já conhecia. Um sorriso brincou em seus lábios rosados sobre a pele clara. Ela tinha uma imponência que Olivia ao mesmo tempo em que admirava, também odiava. Provocava-lhe uma reação de desafio muito parecida com a que sentia por seu pai, concluiu.
- Bom dia Olívia. Que bom que chegou cedo. Vamos até a minha sala. – A voz grave de Claudia combinava bem com sua postura rígida.
Recolheu seus pertences devolvendo-os a mochila e seguiu os passos firmes de Claudia até o final do corredor.
Claudia destrancou a porta para um escritório parecido com o de Paula, mas mais espaçoso e seco do que da sua ex-namorada, Olívia constatou. Sem retratos de familiares ou amigos, apenas a mesa, as cadeiras e muitos livros cobriam as paredes. Um único quadro cobria a parede branca. Era uma pintura abstrata e colorida que Olívia se pegou admirando.
Após deixar sua bolsa sobre a mesa e ligar o computador, Claudia se voltou para a jovem a sua frente. Apesar de Olívia ter quase trinta anos completos, seu modo de vestir e seu corpo bem feito, lhe davam um ar de menina. O corte de cabelo rebelde e o ar travesso contribuíam para passar este impressão.
- Pode sentar-se aqui Olívia. – Claudia apontou para a cadeira de frente para a sua mesa. – Vamos descobrir quais matérias serão mais propícias para a sua formação e de que forma faremos a sua orientação.
Olívia deixou-se cair sobre a cadeira e abriu sua mochila. Os óculos de grau que usava para leitura de perto já estavam à mão, assim como um caderno antigo e uma caneta BIC. Claudia sorriu para os itens simplórios.
- Nada de computador? – Arqueou a sobrancelha.
- Não. Não me arriscaria com ele em um ônibus para cá. Fora que não vejo necessidade.
- Simplifica a vida. – Claudia respondeu, sentando-se em sua cadeira de couro. – Mas você tem razão, não é necessário.
Olivia sorriu de lado e abriu o caderno.
- Bom, o seu projeto está muito bem escrito e estruturado. Acredito que deseja prosseguir nesta mesma linha? – Terminou com uma pergunta, no que Olivia apenas sinalizou como positivo. – Isso simplifica e muito o nosso trabalho aqui hoje. Vamos partir então para a parte prática. Eu tenho algumas sugestões de autores que eu gostaria que você pesquisasse e algumas aulas que gostaria que você assistisse além das pré-requeridas pelo programa. - Olívia concordou mais uma vez.
Num todo, o encontro com sua orientadora foi mais agradável do que poderia esperar. Talvez fosse bom que não caísse nas mãos de Paula para esta etapa da sua educação. A intimidade entre as duas causaria problemas. Olivia precisava de alguém distante, mas que a conduzisse e desafiasse.
Saiu de lá com seu novo horário, que felizmente não era pesado, só exigindo que ela comparecesse duas vezes por semana a universidade e a lista de livros que precisaria comprar, mais da metade ela já havia lido e sabia que da outra metade, muitos conseguiria com Paula. O que a surpreendeu mesmo, foram as aulas extras que Claudia lhe pediu para assistir. Uma de literatura no teatro no curso de artes dramáticas e outra de fotografia artística, uma eletiva muito concorrida do curso de belas artes. Ao menos estas duas no primeiro semestre. Decidiriam as próximas quando o semestre seguinte começasse.
Passou pela sala de Paula e a buscou para almoçar. Esta estava entusiasmada pela amiga e já começou a fazer sugestões antes mesmo de chegarem ao restaurante.
- Isso vai pirar a sua cabeça. O que eu gosto na Claudia, é que ela não fica no pensamento formal. A pose dela é só fachada. – Ia dizendo Paula enquanto se serviam no refeitório. – Você vai amar literatura no teatro. O Fernando Arela, que leciona esta matéria, é um dramaturgo fantástico. As peças dele são belíssimas e muitas adaptações que você vê por aí da literatura para o teatro, são dele.
- Ok. Quer fazer essa aula por mim? – Olivia implicou com a exaltação da outra. – Se eu não soubesse que você gosta, e muito de mulher, diria que tem uma queda pelo Arela.
- Engraçada você. – Levaram os pratos até a mesa. – Mas e então, está animada?
- Estou. Acho que vai ser ótimo assistir a estas disciplinas. Ao menos eu saio um pouco da área comum que estudei por tantos anos.
- É isso aí. O mestrado te dá a chance de olhar para tudo por um outro prisma.
- E até que a Claudia foi razoável. Ela parece ter sinceramente gostado da minha proposta e já veio cheia de idéias interessantes. Isso me dá mais ânimo. Imagina se ela quisesse mudar tudo? Eu ia socar a cara dela.
- Até parece, Li. Você só tem pose de durona, no fundo tem um coração gigante.
- Não espalha isso por aí, ok? – Olivia brincou. – E você? Como está a vida?
- A vida está bem. Tenho algumas novas turmas este ano e finalmente comprei um cachorro.
- Jura? – Olívia sabia o quanto Paula sempre quis ter um cachorro, mas sempre adiou os planos, pois não tinha muito tempo para cuidar de um filhote e o bicho acabaria morrendo. – Que coisa boa.
- Não é? A Filó é linda.
- Filó, Paula? Não me diz que o nome da cachorra é Filomena?
- Não, é só Filó. É uma York Shire pretinha. Muita linda. Você vai amar.
- Tenho certeza disso. – Olhou com mais atenção para a ex-namorada. – O que aconteceu? Tem mais alguma coisa aí que eu sei. Pode ir falando Paulinha.
- Tem. Mas não é pra você fazer conjecturas, nem me fazer criar expectativas, ok?
- Manda. – Olívia largou os talheres sobre a mesa e cruzou os braços em expectativa.
- Eu conheci alguém. – Ruborizou ao dizer isso o que fez com que ficasse ainda mais bonita. Quando namoravam, Olívia adorava deixá-la sem graça para ver o rosto dela se iluminar daquele jeito.
- Quando você diz alguém... – Deixou no ar.
- Sim. Acho que estou me apaixonando, Li.
- Não acredito! – Exclamou feliz. – Sério Paulinha? Quem é essa mulher que te deixou assim?
- O nome dela é Lara, e ela é advogada. – O sorriso em seu rosto era algo que Olívia nunca pensou que veria novamente. Conhecia cada expressão daquele rosto, e aquele sorriso era algo raro e precioso.
- Eu preciso de mais informações meu amor. Como você a conheceu? Quando? Quantos anos ela tem? Qual o time de futebol, o signo, o prato predileto?
- Nunca te tomei como uma pessoa curiosa Olívia. – Paula brincou.
- Não é curiosidade, é preocupação. Ou você acha mesmo que eu vou deixar qualquer uma entrar na sua vida assim? Sem um inquérito?
- Inquérito? Tá bom.
- É serio Paula. Você é uma das pessoas mais importantes no mundo pra mim. E se alguém conseguiu botar esse sorriso no seu rosto e fazer seus olhos brilharem desse jeito, eu quero detalhes. – disse séria.
- Também te amo Li. – fez uma pausa e acariciou de leve o rosto da amiga. – Respondendo ao inquérito, eu a conheci em uma festa de ano novo na casa de um amigo na Barra. O Fred, você deve lembrar dele. – Olívia assentiu. Lembrava bem do Fred. Um médico renomado e uma das melhores pessoas que Olivia já conhecera. Festeiro inveterado, vivia em busca de paixões fulminantes e amores avassaladores. Tinha um entusiasmo pela vida invejável. – Então. O Lucas, namorado do Fred foi quem me apresentou a Lara. Eles são amigos de faculdade, e ela estava morando na Inglaterra há uns três anos mais ou menos. Nós conversamos durante horas e trocamos telefones. Na semana seguinte saímos juntas e quando eu vi já estávamos namorando. Ela é aquariana, torce pelo Fluminense, o que é um problema, e gosta de comida japonesa. Respondido?
- Quase. – Olivia brincou. – Preciso conhecer logo essa mulher.
- É bom você nem tentar, ouviu Olívia?
- Paula! – exclamou indignada. - Você acha mesmo que eu daria em cima de uma namorada sua?
- Não. Você não faria isso. Mas sem charme e sem flerte, que eu bem te conheço.
- Isso é natural. Não posso mudar. – começou a rir. – Mas agora falando serio, eu estou muito feliz por você, Paulinha. Não existe no mundo pessoa que mereça mais a felicidade do que você.
- Nossa! Nunca te ouvi falar assim. Achei que felicidade fosse curtição de momento, não?
- Às vezes é. Mas não se restringe a isso.
Querendo ou não, Olivia transparecia a tristeza que ainda carregava dentro do peito. Por mais que tivesse retomado a sua vida e isso incluísse novas mulheres, de preferência uma por noite, sabia hoje que isso não a faria feliz. De certa forma, preferia a ignorância à sabedoria que lhe fazia não apreciar mais tanto suas pequenas aventuras. Acordava no dia seguinte com a ressaca por companhia e um vazio ainda maior ocupando-lhe o peito.
Paula decidiu não comentar a sombra que perpassou o olhar de Olívia. A amava demais e não suportava vê-la assim. Percebia o esforço que ela fazia para estar bem diante de todos, mas conhecia o coração que batia ali dentro e o som solitário era mais difícil de ignorar quando já se tinha ouvido uma bateria fazendo seu dueto. Paula conhecia este sentimento. Conhecia o eco do vazio. O vivera. E a sua frente estava a pessoa que a ajudara a enfrentar, assim como lhe provara que a vida não é feita de um amor só. Como ser humano, era capaz de amar diferentes pessoas, de formas distintas e intensidades incomparáveis.
- Há esperança, minha querida. – Paula disse com um sorriso e sabia que não requeria maiores explicações. A relação que criara com Olívia, mesmo após a separação, era de entendimento sem palavras. Sabia que ela preferiria assim.
Naquela noite voltou para casa com um novo questionamento. Será que seria capaz de se apaixonar novamente por outra pessoa? Nunca buscou o amor. Não depois de tê-lo perdido. E ele se apresentara para ela na forma de uma única mulher. Nunca questionou o fato de que amava Joana. Esta sempre foi sua certeza. Amava, mesmo sabendo que ela nunca seria sua. Mas e a possibilidade de um novo amor? Onde se encaixava na sua historia? Deveria, como disse Paula, nutrir essa esperança? Ou isso seria somente uma maneira de se enganar?
A resposta parecia esperá-la em casa. Assim que abriu a porta, deu de cara com Guto e Marcinha assistindo televisão. Nem ao menos sabia da visita da cunhada, mas ficou feliz ao vê-la. As duas pareciam ter finalmente se entendido e isso fazia Olívia extremamente feliz. Não queria guardar reservas com relação à cunhada. Sabia da intenção do irmão em se casar com ela, o que ela acreditava ser uma convenção retrograda, mas que apoiava, pois sabia que o faria feliz.
- Ollie! – Marcinha exclamou puxando-a para um abraço apertado.
- Hey! O Guto não me disse que você viria. Que surpresa boa! – Falou com sinceridade, e Marcinha pareceu de fato perceber isso.
- Eu sei. Não avisei que viria. – Se voltou para o namorado. – Consegui uma folga de ultima hora, e queria contar ao Guto e a você pessoalmente que eu passei no concurso! – Gritou a ultima parte.
Olívia sorriu sincera e abraçou acunhada mais uma vez.
- Isso sim é boa notícia! Quando você se muda pra cá?
Marcinha ficou surpresa, assim como o próprio Guto, mas este conhecia bem a irmã para saber que a oferta era de coração. Ela de fato abriria a sua casa para que a mulher dele viesse dividir o apartamento com eles.
- Eu não sei ainda quando virei de vez para o Rio, mas eu certamente não pretendo invadir o espaço de vocês.
- Por que não? Se vocês não quiserem morar juntos ainda, eu entendo, mas você pode ficar aqui o tempo que for necessário até encontrar um canto. A casa á sua. Sério.
Marcinha sorriu e abraçou Olívia mais uma vez. Guto olhou para a irmã e agradeceu com um sorriso.
- Comemoração no Bola? – Guto propôs entusiasmado.
- Claro. Eu vou só tomar um banho rápido e nós vamos. – Olivia falou já se dirigindo ao banheiro.
O Bar do Bola estava mais cheio que o habitual. Muitas pessoas sentadas às mesas e outras em pé por toda extensão do bar e a frente do mesmo. Uma roda se samba ao fundo empolgava a clientela.
Olívia tomou a frente, e os três rumaram para o bar, onde puderam avistar o Bola andando de um lado para o outro tentando atender a todos os pedidos.
- Noite agitada, não? – Olívia perguntou provocando com um sorriso no rosto.
- Não é? – Bola respondeu cansado, mas parecendo realmente animado. – Um amigo pediu um lugar para fazer a roda de samba semanal, e eu aceitei. – Saiu para atender um rapaz na outra ponta.
- Nossa, nunca vi o Bola tão cheio. – Exclamou Guto, se referindo ao bar.
- Realmente. – Olívia olhou em volta. – Procurem um lugar para sentar, vou dar uma mão para o Bola.
Guto e Marcinha partiram para o meio do bar, e Olívia passou para a parte de trás do balcão. Encontrou um avental, um bloco e uma caneta. Como trabalhara por um tempo ali, conhecia bem o lugar e o procedimento. Já estava atendendo quando o Bola se deu conta de que ela estava ali.
- Muitíssimo obrigado. Prometo que a gorjeta é sua.
- Não precisa Bola. Prefere que eu fique aqui, ou que parta para as mesas?
- As mesas. Não consegui chegar lá ainda. – Falou com um sorriso.
Assim, Olívia tomou uma bandeja nas mãos e partiu para atender aos pedidos. Achou graça em quanto lhe pareceu natural voltar a sua antiga função. Mesmo com o local cheio e muitos pedidos a serem atendidos, se virou facilmente.
Theo chegou ao bar, e teve a mesma surpresa que eles. Encontrou Olívia atendendo uma mesa logo a entrada.
- Uau. O que aconteceu aqui? – a interpelou.
- Noite de samba. – Disse simplesmente. – O Guto e a Marcinha estão mais lá pra dentro.
E partiu para a próxima mesa, onde um grupo de meninas conversava animadamente. Não percebeu logo de cara quem eram, mas ao se aproximar, se deparou com Sara, um caso antigo.
- Vocês vão querer o que? – Falou com um sorriso discreto no rosto.
Uma ruiva sentada à cabeceira da mesa olhou para cima e abriu um sorriso no mínimo sacana, no que foi prontamente correspondida por Olivia. Força do habito talvez, mas lhe saía natural, fácil.
- Você. – A ruiva falou já um pouco alta pela bebida. – Pode ser?
- Não estou no cardápio, mas agradeço. – Brincou. Estava flertando abertamente, fazendo com que Sara fechasse a cara por um instante apenas, se recompondo em seguida.
- Então, mais uma rodada de chopp. – Sara devolveu com um sorriso de tirar o fôlego.
- Certo. – Olivia anotou o pedido no bloco que trazia no bolso do avental. – Eu já volto com o chopp.
Fingiu abertamente que não reconhecera Sara, mesmo podendo sentir o olhar dela cravado em seu rosto. Ignorar era a melhor jogada. Provavelmente, isto faria com que Sara viesse atrás dela em algum momento e aí então, seria simpática, mas a cortaria. Não gostava de alimentar esperanças e mesmo que a outra lhe dissesse que entendia e que só o que queria era sexo, ainda assim, sabia do risco que era retomar qualquer contato. Em geral, mesmo dizendo que não queria compromisso, que não estava interessada, a maioria das mulheres queria sim ter uma nova chance e conquistar Olívia. Conhecia bem demais as regras do jogo para cair numa dessas.
Saiu andando em direção ao bar com um sorriso no rosto. Gostava do jogo. Por um curto tempo havia esquecido o quanto gostava de flertar e de ir à caça. Havia um prazer nisso que o sentimento por Joana nublara. Pensar em Joana lhe provocou a já conhecida dor. Uma pontada no peito que lhe tirava o ar. Empurrou a dor para o lado. Lidaria com ela mais tarde, sozinha e de preferência debaixo do chuveiro gelado.
A noite transcorreu tranquilamente. Sara a procurou e jogou seu charme. Era uma mulher bonita e definitivamente boa de cama, mas era problema, por tanto Olívia muito delicadamente, a dispensou. Já a ruiva, Thaís era o nome dela, esta ela levou para a parte de trás do bar. Sexo rápido e sem culpa.
Voltou para de trás do balcão e tirou o avental se espreguiçando. A roda de samba havia terminado o seu show, e com isso o bar fora esvaziado rapidamente. As poucas mesas ainda ocupadas, incluía um grupo de amigos um pouco bêbados e a mesa ao fundo com Guto, Marcinha e Theo que conversavam animadamente.
- A noite foi um sucesso Bolinha! – Tom abraçou o namorado por trás. – Deveríamos tornar uma constante aqui no bar.
- Definitivamente. – Bola sorriu cansado. – Mas vou precisar contratar ajuda. Não é Olívia?
- Contrate. Eu sou boazinha, mas não é pra tanto. No próximo samba, quero curtir e não trabalhar. – Implicou, mas sorriu para os amigos.
- Você é um anjo, minha querida. – Bola a abraçou. - Mas não pense que eu não vi você e a ruiva no meu estoque. – Cochichou ao seu ouvido.
Olívia abriu um sorriso de quem se desculpa, mas sem vergonha e foi puxada por Tom para um abraço.
Jogou-se em uma cadeira ao lado de Theo e logo Bola e Tom entraram no salão com travessas e pratos. Serviram um jantar com o que Tom conseguiu reunir na sua cozinha e que parecia delicioso. Sentaram-se todos a volta da mesa para comemorar.
- Ao samba do Bola! – Gritou Guto erguendo seu copo.
- Ao samba do Bola! – Repetiram todos em uníssono, brindando ao amigo.
- E a Marcinha que passou no concurso! – Emendou Theo.
- À Marcinha! – Todos brindaram.
A refeição se deu em um clima descontração total. Theo e Marcinha passaram a maior parte do tempo implicando com o namorado da menina. Guto ficara feliz com a aproximação dos dois, tinha em Theo o seu melhor amigo no Rio de Janeiro, o que deixava Olívia muito feliz, pois tinha o amigo como a um irmão, e ver os dois tão próximos era muito bom.
Bola se derretia pelo marido em elogios. Era reconfortante ver uma relação de tanto tempo que perdurava com tamanho carinho e admiração por ambas as partes. Olívia só sentia uma falta imensa de Marina naquele momento. Com a ausência dela, a família não se fazia completa. A amiga andava evitando qualquer contato, o que levava Olívia a crer que ou a amiga encontrara uma nova diversão, ou voltara para a anterior. Sabia que Clarissa tentara uma reaproximação logo que o caso com o residente em seu hospital desandou, mas Marina fora irredutível na época. Olívia conhecia bem a amiga para saber também que seria quase impossível para ela resistir. Por mais magoada que estivesse, ainda era apaixonada pela loirinha e conhecia na pele o quanto era difícil resistir quando um sentimento tão forte ainda as unia.
Estava ajudando o Bola a fechar o bar, quando Marcinha se aproximou e puxou a porta de ferro com ela.
- Foi uma ótima forma de comemorar. – Marcinha disse com um sorriso no rosto. – Me sinto em casa entre vocês. Espero de fato um dia fazer parte desta família.
- Você já faz Marcinha. De verdade. – Olívia falou com sinceridade.
- Obrigada Olívia. – A menina corou. – Pra mim é muito mais importante a aceitação e a acolhida de vocês, do que da família do Guto. Com exceção de você, é claro.
Olívia a olhou por alguns instantes sem responder, fazendo com que Marcinha se sentisse ainda mais envergonhada, se retificando rapidamente.
- Desculpa Ollie. Não foi minha intenção falar mal dos seus pais de forma alguma. – Se enrolou. – É que sei o quanto Guto a estima e o quanto a sua opinião pesa para ele, mais do que a de qualquer outra pessoa.
- Não precisa se desculpar, Marcinha. Entendo isso perfeitamente. – disse ainda com a mesma expressão. – É somente estranho pensar na minha família de nascença. Esta me é tão mais presente e por tanto, importante atualmente, que me esqueço que meus pais ainda fazem parte das nossas vidas, ou ao menos da do Guto. – Completou triste.
- Eu sinto muito. – Foi só o que Marcinha conseguiu dizer. Sabia da relação turbulenta de Olívia com os pais. Guto havia lhe contado, mas nunca ouvira da própria, qualquer menção aos pais.
- Não sinta. Já faz tanto tempo que é somente estranho.
- Ainda te dói? – Perguntou sem pensar e logo se arrependeu. – Desculpa. Fui inconveniente de novo. Se eu disser que a culpa é da cerveja, você acredita?
- Para de se desculpar, Marcinha. – Olivia falou delicadamente. – Não precisa pisar em ovos comigo. – Parou, respirou e prosseguiu. – Não sei se dói. Eu apenas não penso muito nisso. Acho que acabei abstraindo o fato de eles não me aceitarem. A culpa também é minha, mas quando amadureci o bastante pra me dar conta disso, já era tarde demais. Não existe mais nada para resgatar. Isso é triste. Tenho minhas magoas, mas tenho também boas lembranças da infância. Sinto pelo Guto. Acho que boa parte do que faz a relação dele com nossos pais tão estranha, é também um reflexo da decepção que eu provoquei neles.
- Não acho. – Marcinha disse após ponderar por alguns segundos. – O Guto tem os próprios problemas com os pais. Nenhum deles tem qualquer ligação com você.
Olívia sorriu para a cunhada. Aprendia a gostar cada vez mais daquela menina. O jeito meigo e um pouco tímido às vezes, escondiam na verdade uma força e uma determinação muito grande. Ela tinha uma maturidade que escondia por de trás daquele semblante angelical e a forma doce com a qual cativava. O senso de humor afiado e a percepção que era capaz de ter de tudo e todos a sua volta somente comprovava isso.
- Eu to te enrolando. – Marcinha disse por fim.
- Me enrolando? – Olívia perguntou achando graça.
- É. Tenho uma tarefa que não sei ainda se devo executar. – Falou devagar, como se pesasse o efeito das suas palavras, mesmo que enigmáticas.
Olívia logo percebeu do que se tratava, e da confusão, sua expressão se fechou em entendimento e rigidez. Respirou fundo. Sabia. De uma forma ou de outra, em algum momento sabia que Marcinha lhe procuraria para falar de Joana.
- O que ela pediu que me dissesse? – Perguntou enfim.
- Nada. Ela mesma quis dizer. – E Marcinha tirou do bolso da calça um pedaço de papel, que Olívia logo percebeu ser uma carta.
- Eu sei que o interurbano anda caro, mas ela não poderia ter ligado? – Perguntou irritada pegando o papel que a outra lhe estendia.
- Acho que não teve coragem de falar. Mas posso também estar redondamente enganada. Nós quase não temos nos falado. Ela vem me evitando. – Disse por fim.
- Tudo bem. – Olívia soltou o ar pesadamente. – Você não tem nada com isso. Obrigada, Marcinha.
A maneira com que falou, encerrava o assunto e Marcinha entendendo que a cunhada gostaria de ficar sozinha, pediu licença e voltou para dentro do bar.
Olívia olhou para o papel em suas mãos e fechou os olhos. Não conhecia o conteúdo da carta, mas era capaz de imaginar muitas coisas ao mesmo tempo. Explicações, desculpas, muito provavelmente um adeus. É claro que seu coração lhe traiu e criou esperanças infundadas. Uma declaração de amor. Um pedido para que a esperasse, uma confissão de que sentia exatamente o que ela Olívia, sentia. Afastou esses pensamentos mais rápido do que lhe ocorreram. Era melhor estar pronta para o pior.
Capítulo 10 - A carta
Andou pelas ruas sabendo que Marcinha explicaria a sua ausência. Ascendeu um cigarro e se afastou indo em direção ao seu prédio, passando diretamente por ele. Conhecia aquelas ruas como ninguém, e mesmo sabendo que seria imprudente andar por ali a noite sozinha, seguiu adiante. Sentou-se no chão contra o muro de uma casa, e tendo apenas a iluminação de um poste um pouco a frente, abriu a carta e segurou em suas mãos as páginas que poderiam mudar tudo novamente em sua vida.
“Minha querida Olívia.
Talvez neste momento você me odeie por ter mantido distância, por não ter te ligado, por não ter feito qualquer contato. Ou talvez simplesmente já tenha me esquecido. Gostaria que fosse assim, por mais que me doa.
O que vivemos foi tão lindo e tão intenso, que mesmo agora estando longe, posso sentir suas mãos sobre a minha pele, e seus lábios a me cobrirem de beijos. Seus sussurros roucos em meu ouvido ainda me assaltam, e me arrepio inteira só com a lembrança da sua voz. Das palavras de carinho, dos gemidos de prazer, de amor.
Quero que antes de tudo saiba que eu te amo. Te amo ainda com a mesma intensidade que amei a menina que me ensinou o que era amor, o que era felicidade quando ainda era tão imatura para compreender a dimensão desses sentimentos.
Privei - me de vivê-lo e me dói fazê-lo novamente. E mais uma vez não posso culpar ninguém, a não ser a mim mesma por essa decisão. É uma escolha dura. Uma escolha impossível. Viver plenamente o nosso amor mesmo com todas as incertezas, ou ficar perto da minha filha.
Não entrarei em detalhes porque de certa forma sei que no final somente a minha decisão impera. Tenho uma vida estruturada ao lado do André e não me acho no direito de machucá-lo dessa forma. Ele é o pai da minha filha, o homem que ficou ao meu lado em momentos difíceis, que me aceitou do jeito que eu sou e que me ama incondicionalmente. Estou sendo covarde, eu sei, mas é muito para abrir mão.
Enquanto estava nos seus braços, vivendo o sonho e a fantasia de poder viver uma vida inteira te amando e sendo amada por você, achei que seria capaz de tomar as atitudes necessárias com relação a minha vida aqui. Mas a verdade é que a realidade é tão mais complicada que não tive coragem de nem ao menos falar com você.
Não é justo que eu prejudique a minha filha. Nem mesmo é justo que eu machuque o André. Eu o amo. De uma forma totalmente diferente de como amo você, mas o amo e querendo ou não, construí uma vida ao lado dele, tive uma filha linda com ele.
Sei que é injusto com você até mesmo te contar essas coisas. Não existe obrigação alguma sua em me entender ou mesmo de ainda me amar. Estou mais uma vez te deixando por medo. Um medo diferente daquele que me fez te deixar ir embora da primeira vez, mas ainda assim medo. Medo de perder a minha filha, medo do sofrimento que poderei causar a ela. Não é justo que ela pague por algo que não é nem ao menos capaz de entender.
Afastar-me de você é defesa. Mesmo que nem por um segundo eu seja capaz de te esquecer, a distância e o tempo vão cicatrizando as feridas e assim eu me protejo. Não posso viver plenamente o nosso amor neste momento e te peço perdão por ter dito que o faria. Se ainda é meu desejo? De todo o meu coração. Não há nada no mundo que eu queira mais do que ficar ao seu lado, te amar todos os dias, cuidar de você e dormir nos seus braços. Mas não posso. Eu te amo tanto, mas a Isabela é a minha existência. Eu não poderia ser feliz vivendo longe dela, mesmo que ao seu lado.
Eu sei que deveria ter dito tudo isso cara a cara, mas seria difícil demais, fui covarde. Não resistiria a você e seria ainda mais doloroso deixá-la outra vez.
Eu só posso desejar que você seja muito feliz. Mesmo de longe, torço por você sempre. Você é uma pessoa incrível. Generosa, amiga, batalhadora, inteligente, criativa e merece toda a felicidade do mundo.
Você é a dona do meu coração. Meu amor será sempre seu. Te amo.
Um beijo. Um ultimo beijo.
Joana”
Baixou a carta com as mãos tremulas. As lágrimas escorriam por sua pele branca marcando-a. Sentiu o ar arder por sua traquéia e pulmão ao respirar. Sentia-se sufocar. Mesmo que esperasse por isso, esperasse a rejeição, tê-la confirmada era quase insuportável. A suportaria, sabia. Jamais pediria que Joana a escolhesse entre ela e a filha. Mas isso não diminuía a dor.
Chorou por um tempo que não foi capaz de mensurar. Sentiu a dor ir embora e voltar. Esperou voltar a ter sensibilidade nas pernas, para levantar e assim que o fez, sentiu-se tonta. Mas precisava andar. Precisava se movimentar. Precisava se libertar.
Cruzou as ruas e o ar frio da madrugada fez aumentar a sua angustia. A carta guardada no bolso lhe pesava. Teve raiva de Joana por sua covardia ao lhe escrever, por seu egoísmo, por lhe deixar. Sentiu saudade. Sentiu-se impotente diante da situação. Pela primeira vez na vida sentia um amor tão grande. Pela primeira vez na vida, teve vontade de vivê-lo plenamente, mesmo com seus medos, receios e duvidas, queria se jogar e viver intensamente esse sentimento. Queria ser para Joana a pessoa que ela via. E aí residia a ironia da vida. Quando se deu conta do quanto a queria, já a havia perdido. Pegou-se pensando nas infinitas possibilidades desta historia. Talvez se tivesse demonstrado claramente o quanto a queria, Joana teria tido mais força para lutar por ela. Talvez se tivesse tentado uma aproximação nos últimos meses, poderia ajudá-la a lutar. Talvez... talvez.
Os sentimentos eram múltiplos e todos tiveram o seu momento de predominância em seu coração. O ar da manhã também lhe trouxe clareza. O tempo passava, ela o sofresse ou não. Agora a escolha era dela.
Chegou em casa as sete da manhã. Pelo silencio, Guto e Marcinha ainda dormiam. Tomou um banho rápido e vestiu a primeira roupa que encontrou. Desceu para tomar café da manhã na padaria e de lá pegou um ônibus que a levou para a rodoviária Novo Rio.
A estrada estava tranqüila àquela hora, e Olivia se percebeu emocionada por fazer aquele caminho. Lembranças que em geral bloqueava lhe voltaram, mas sem a intensidade que pensou que teriam no dia que voltasse. O que a movia era tão mais forte que todo o resto que apenas as percebeu ali presentes, como pequenas sombras, sem forças para lhe preencher.
Desceu no centro e a cidade já se movimentava. Buscou o celular dentro do bolso da calça jeans e discou o numero que tantas vezes procurou nos últimos meses, mas para o qual nunca de fato ligou. Esperou o telefone chamar e no terceiro toque, pode ouvir a voz dela.
- Alo. – Era suave e delicada como lembrava. Doce.
- Joana. – Disse após uma pequena pausa para se recuperar.
- Ollie? – perguntou hesitante.
- Eu preciso falar com você. – Engoliu com dificuldade. Precisava se manter firme. Havia sido impulsiva sim, mas não sem pensar muito bem no que precisava dizer.
- Ollie eu... – a sua voz soava pesarosa. Dolorida. – Perdão pela carta. Eu não devia ter mandado.
- Mas mandou. E eu acredito que mereço um pouco da sua consideração. A que horas pode me encontrar?
- Ollie eu não posso ir ao Rio. Ainda mais agora. Se pudesse teria ido.
- Não, não teria. – Foi seca. – Mas também não há necessidade. Estou em Teresópolis.
- Você está aqui? – Joana se surpreendeu com essa informação. Olívia não ia a Teresópolis há anos. Depois que fora embora, nunca mais voltara.
- Eu vou te esperar na casa da minha tia. Ainda lembra onde fica?
- Claro que eu lembro. Mas a casa está vazia. – Nada daquilo fazia sentido para ela. E ouvir a voz de Olivia, mesmo que tão dura, era desconcertante.
- Eu sei. Por isso estou marcando lá. Não pretendo passar mais tempo do que o necessário aqui e prefiro não ficar vagando pela cidade. Vou direto pra lá e te esperarei. Qual o melhor horário para você? Prometo não tomar muito o seu tempo. – Completou.
- Eu vou deixar a Bela no Colégio às onze e meia e te encontro lá depois disso. – Respondeu no mesmo tom.
- Certo. Até lá. – Olívia desligou o telefone com uma dor que lhe apertava o peito.
Do outro lado da linha, Joana ainda segurava o aparelho nas mãos. Não conseguia acreditar que Olívia estivesse ali, tão perto. Mesmo com o tom de voz indicando que sentia raiva dela, ainda assim não pode deixar de sentir um formigamento pelo corpo. Não se sentia preparada para encará-la. Tinha pensado muito no que dizer, em como dizer... acabou escrevendo a carta. Tentou ser sincera em todos os sentidos. Não tinha a menor intenção de magoar a mulher que amava, mas sabia que não importava muito como o fizesse, a magoaria. Mas nunca, em momento algum, imaginou que ela iria atrás dela em Teresópolis. Conhecia Olivia bem demais e sabia que a primeira reação dela seria se esquivar de qualquer forma de embate. Não lutaria por elas, não buscaria maiores explicações, tocaria a sua vida como vinha fazendo desde que Joana deixara o Rio de Janeiro. Na verdade, contava com isso.
Contava com o jeito arredio e individualista de Olívia para conseguir prosseguir com seus planos. Não desistira dela. Nunca desistiria, mas por hora era o que precisava fazer. Não queria iludi-la, não queria prendê-la a ela quando sabia que a sua luta estava apenas começando. Precisava se manter distante da Olívia até que tudo se resolvesse. E ao mesmo tempo precisava saber que Olívia estava feliz e para isso deveria libertá-la. Lutara muito contra aquilo. Queria pedir que ela a esperasse, mas sabia que seria injusto. Mas e agora? O que ela faria quando estivesse cara a cara com ela?
A casa continuava a mesma, talvez um pouco deteriorada pelo tempo, mas as paredes brancas e as jardineiras sob a janela ainda estavam ali, mesmo que sem o seu colorido. Encontrou a chave onde sabia que estaria, debaixo da madeira solta da varanda do lado direito. Aquela casa fora mais seu lar do que a casa dos pais.
Girou a chave na maçaneta e abriu a porta que emperrara um pouco pelo tempo que permanecera fechada. Hesitou por um instante. A escuridão lá dentro era mórbida, e esperou que seus olhos se acostumassem com a falta de luz antes de dar o primeiro passo. Andou até a janela mais próxima e forçando-a, a abriu. A claridade iluminou o aposento e Olívia se deparou com a antiga sala de sua tia, empoeirada e com os moveis cobertos por lençóis.
Sentiu as lagrimas se formarem e bufou. Estava se tornando sentimental demais. Bom, na verdade estava sensível demais. Precisava fechar a comporta que fazia com que aqueles sentimentos aflorassem a todo o momento lhe desestabilizando.
Andou pela casa e a cada cômodo por que passava, abria as janelas e deixava o sol entrar. Lembrou-se de muitos momentos que passara ali, dos mais felizes da sua infância, aos seus dias mais triste de adolescente, quando se deu conta da sua sexualidade e fora expulsa de casa, indo morar com a tia.
Queria ter podido estar lá quando esta veio a falecer. A amava muito e sabia ser recíproco. Por não ter tido filhos, depositava todo o seu carinho em Olívia e Guto, e estes retribuíam felizes.
O quarto da tia foi o ultimo aposento no qual entrou. Era ainda o mesmo. É claro, que como o resto da casa, lhe parecia menor, mas ainda assim se sentiu uma menina travessa ao adentrá-lo. Tia Gigi não gostava que brincassem em seu quarto. Era o único lugar da casa que lhes era restrito, o que é claro, aguçava a curiosidade. Sentou-se ao lado da cama e abriu a gaveta do criado mudo. Estava vazia. Já imaginava isso. Mesmo que os moveis tenham sido deixados para trás, ou ao menos a maioria deles, seu pai, assim como os seus tios, deviam ter feito uma limpa na casa após a morte da irmã. Olívia não se ressentia, sabia que a tia pouco ligava para este tipo de coisa. Era um espírito livre.
Ouviu o barulho dos pneus em contato com a terra e soube que Joana havia chegado. Havia passado os últimos minutos sentada na cozinha, à mesa de madeira e fazia um pequeno lanche que tinha comprado na padaria antes de se dirigir a casa.
Ergue-se e caminhou lentamente até a entrada.
A viu deixar o carro e seu coração, em uma contração involuntária, disparou. Puxou o ar para os pulmões para acalmá-lo. Ela estava linda. Trajava um vestido branco fino e com pequenos detalhes em renda. Era leve para a estação. Os cabelos cheios e com cachos nas pontas, brilhavam a luz do sol fazendo Olívia se perder em devaneios e vontades. Sentia aquele frio característico no baixo ventre que resolveu interpretar como um nervoso por antecipação pela conversa que teria com ela, mas sabia no fundo que estava excitada pela visão daquela linda mulher.
Parou ainda sobre a varanda e a encarou. Os olhos de amêndoa eram cobertos pelos óculos escuros. Não era capaz de interpretar a sua expressão, mas estava seria. Percebeu o quanto desejava um sorriso, mas talvez fosse melhor assim, concluiu.
- Você realmente veio. – Joana soltou em um suspiro.
Olívia não respondeu. Por um tempo, apenas se encararam. Esperou que Joana tomasse a iniciativa e andasse até ela, e em um determinado momento, ela o fez. Andou lentamente, deixando que o vento brincasse com os seus cabelos, e revirasse seu vestido, marcando ponto a ponto as curvas do seu corpo.
Parou próxima a Olívia, tão próxima que uma podia sentir o calor que emanava do corpo da outra. Não planejara se colocar tão perto. Preferia a distância, era mais segura. Como um imã que encontra a sua polaridade invertida, sentia-se compelida a se aproximar. Agradeceu intimamente pelos óculos escuros encobrirem a emoção que certamente seus olhos entregariam. O olhar de Olívia era uma pedra de gelo. O verde, sem o brilho habitual, era duro, apagado. Era como olhar para as profundezas de um poço à noite.
Sentir a respiração de Joana tão próxima ao seu rosto era intoxicante. Não conseguia formular nada para dizer, não encontrava forças para se afastar. Usou toda a sua concentração em não tocá-la. Não poderia ceder. Não queria ceder.
Joana foi a primeira a interromper o momento. Ver a frieza em Olívia lhe doía. Sabia exatamente qual era a proporção com que a magoara mais uma vez. A culpa a assolava e também a enrijecia.
- Você pode falar Ollie. Eu estou aqui. – Foi o mais seca e impessoal que conseguiu ser. E surtiu efeito.
Olívia enfim foi capaz de se afastar e a convidou para entrar. Seguiram até a cozinha que era o local mais limpo, no caso, menos empoeirado da casa e tomando uma distancia segura, sentaram-se a mesa, uma de frente para a outra e se encararam.
Os segundos passavam e Joana começava a achar difícil respirar. O seu olhar fora capturado por Olívia, que ela poderia jurar, se sentia tão desconfortável quanto ela. Nada disseram e durante este tempo, apenas mergulharam, uma no olhar da outra e Joana pode ver nitidamente o gelo derreter a sua frente. Nada na expressão de Olívia seria capaz de entregar o que ela sentia, muito menos a mudança que ocorria, mas Joana podia detectar em seus olhos. O olhar que ela lhe dirigia, mesmo que ainda repleto de magoa, também denotava amor. Reconheceria aquele olhar em milhões, mesmo sob a nevoa que agora o cobria.
Sem nada dizer, Joana deixou sua cadeira lentamente. Sabia que qualquer movimento brusco poderia quebrar o momento. Olívia não desviou o olhar do dela, e Joana caminhou lentamente em direção a ela.
Com o coração acelerado Olívia percebia a movimentação da amada. Toda a sua raiva e toda a sua dor não eram páreo para o sentimento maior que a acometia. Amava aquela mulher com todos os seus sentidos. Via dentro dos seus olhos de amêndoa o mesmo amor. Não poderia se enganar tanto. Poderia?
Chegando em frente a Olívia, Joana sentou-se em seu colo. Ainda com movimentos lentos se permitiu sentir o corpo que tanto amava e desejava. Com as pontas dos dedos tocou a pele clara do seu rosto e desenhou sobre a pele cada marca, cada traço.
Olívia fechou os olhos ao sentir o toque das mãos dela, mesmo que um pouco tremulas, precisas. Sentiu os dedos lhe marcarem como fogo e suspirou. No próximo instante contornou o corpo de Joana com os dois braços e passou suas mãos levemente pelas costas dela, a puxando mais para perto.
O abraço foi inevitável. Estava premeditado a acontecer desde que se viram a entrada da casa. Nada era mais importante do que se sentirem, uma nos braços da outra. Se entregaram a esta sensação, acolheram o amor e a dor que cada uma carregava em si. Sem palavras, sem explicações... se permitiram sentir.
Por alguns minutos, isso foi tudo o que fizeram. Olívia procurava dentro de si as razões que a levaram até ali. A carta, e a dor que esta provocara foi à lembrança que lhe permitiu romper com o contato. Desvencilhou os braços de Joana que a envolviam e retesou o corpo. Joana percebendo a mudança, a encarou. O olhar gelado a repeliu e se ergueu, virando de costas para Olívia para poder se recompor.
- Desculpa. – Joana disse ainda de costas.
- Pelo o que? – O sarcasmo que empregou a pergunta, fez o seu papel.
- Acho que você se cansou das minhas desculpas. – Joana se voltou para encará-la em tom de desafio.
- Eu não vim te julgar ou mesmo brigar com você, eu vim perguntar por quê? – Olívia falou seria.
- Por quê? - Joana indagou.
- É, por que. Por que você voltou pra minha vida se a sua intenção não era ficar? Por que disse que me amava e me queria, se você claramente não estava nem disponível, nem pronta para viver isso? Por que me mandar àquela carta, se o seu silencio já demarcava o fim? – Em cada pergunta a sua dor se fazia presente. Sentia-se a mesma menina que fora rejeita pela mesma mulher que agora a encarava.
- Você não tem o direito de me julgar, ou julgar meus sentimentos por você Olívia. Eu sei que te magoei, mas eu não menti quando disse que te amava.
Olívia não permitiu que ela continuasse e se moveu em direção a ela como uma leoa.
- Não mentiu? – Parou em frente a Joana, a olhando de cima. – Eu não te pedi promessas ou explicações, mas você me deu. Você me fez acreditar que me amava. Me fez desejar um futuro com você. Me fez sonhar os seus sonhos como se fossem meus também. Pra que? Uma espécie de sadismo?
O tapa veio quente, forte e preciso sobre a face esquerda de Olívia. E num segundo movimento, Joana repetia o gesto, quando Olívia segurou-a pelo pulso com força.
- Quem deveria desferir esse golpe era eu. – Olívia disse ainda segurando o braço direito de Joana. – Você se faz de mártir pra que? Quer que eu sinta pena de você?
- Você não faz idéia, faz? – Joana disse trincando os dentes em uma tentativa inútil de conter as lagrimas. – Você não faz a menor idéia do quanto isso esta sendo difícil pra mim.
- Difícil pra você? Me explica o quanto isso é difícil pra você?
Olívia não arredou um milímetro e a proximidade estava deixando Joana sem ar. Deu um passo para trás e baixou os olhos. Respirou fundo antes de encarar aqueles olhos verdes tão intensos de um sentimento que ela reconhecia. Decepção. Não era a raiva das palavras proferidas, não era a frieza com que a tratava, era a profunda magoa que a estava matando.
- Eu não tenho o direito, mas eu te amo. Eu não posso, mas tudo o que eu mais quero é ficar do seu lado. E não, não foi uma aventura. Foram os dias mais lindos da minha vida em muito tempo, com a exceção do nascimento da Bia, é claro. – Respirou fundo, ganhando força. – Você pode me odiar, Olívia. Este é um direito seu e você tem razão, te mandar aquela carta foi covarde, mesquinho, imprudente... – Andou pela cozinha, enquanto Olívia se jogava de volta em sua cadeira. – Eu deveria ter ligado. Ou talvez eu não devesse ter feito nada. Poderia ter deixado as coisas como estavam, já que, como eu te disse pela carta, a escolha está sendo minha. – Parou e esperou Olívia erguer os olhos e encará-la. – Mas que saber? Eu sou egoísta sim. Por que se aquela carta te trouxe ate aqui, então valeu a pena.
Sem esperar que ela continuasse, sem querer ouvir as respostas que fora ali buscar, Olívia avançou para ela, mas desta vez, não com ódio ou raiva, mas com desejo, um desejo ardente que lhe ardia na pele. Segurou-a em seus braços e tomou-lhe a boca a força. Foi um beijo violento. Ambas tentavam se consumir nele. Mordiam, exploravam, invadiam, saciavam.
Com um gemido de dor e prazer, Olívia afastou o rosto apenas o necessário para olhar nos olhos de Joana. Seu lábio ardia, provavelmente estava sangrando, mas não se importava, não sentia. Arrancou a própria blusa e desceu as alças do vestido de Joana com a mesma vontade com que a havia beijado.
Foi correspondida em todos os sentidos. Joana lhe mordia o ombro enquanto suas mãos a puxavam para si. Ia além da vontade, era necessidade. Precisava sentir Olívia mais uma vez. Precisava se despedir do corpo dela. E por ter consciência de que esta poderia ser a ultima vez que se amavam, se entregava com voracidade e paixão.
Na cozinha, deixaram as roupas e, por alguns momentos, as magoas. Sem se soltarem, rumaram para o quarto, e por um momento Olívia pensou que seria sacrilégio fazer sexo no quarto da tia, mas o pensamento não permaneceu por muito tempo. Mal era capaz de raciocinar, quando Joana a penetrou antes mesmo de seus corpos caírem sobro o colchão.
Se permitiu ser amada e tocada de todas as formas. Se entregou ao prazer que somente aquela mulher era capaz de lhe proporcionar. Se abriu para que ela lhe invadisse com os dedos, a língua e seu corpo todo em uma sintonia perfeita, correspondia.
Perderam a noção do tempo, uma nos braços da outra, como deveria ser. E gozaram diversas vezes, uma para a outra, colocando em gemidos e na pele, no suor, nas palavras desconexas de prazer, todas as declarações de amor que gostariam de fazer. Sem palavras desnecessárias, faziam juras de amor eterno. Sim, se amariam para sempre, esta era uma certeza. Mesmo que nunca mais se vissem, mesmo que conhecessem outras pessoas, mesmo assim, se amariam, e nunca nenhum outro amor, seria tão forte e tão arrebatador.
A doçura do olhar que Joana desferiu em direção a ela, derreteu Olívia. Sentiu-se fraca. A raiva a estava sustentando mais do que qualquer outra coisa, e ela havia perdido a força diante daquela mulher linda e que ela tanto amava. E diante do desejo que sentia. Sentiu raiva de si mesma por ser tão fraca, tão vulnerável, tão suscetível a qualquer coisa que dizia respeito ao seu amor.
Joana sentia a dor de saber que aquele era o fim. Sabia agora, que não poderia mais lutar. Sabia que a estava perdendo.
Vestiram-se sem pressa e em silencio. Fora quase impossível deixarem uma o corpo da outra e o dia lá fora já findava. Não queria dizer adeus, mas não sabiam como não dizer. Protelariam o inevitável? Isto não aplacaria a dor. Joana foi a primeira a quebrar o silencio. Sabia que não teria outra oportunidade.
- Olie?
Olívia se virou, e mal conseguia distingui-la nas sombras. A casa, é claro, não tinha energia elétrica, e o sol já estava se pondo.
- Eu não quero abrir mão de você. Eu não quero te perder mais uma vez, e fazer isso esta me matando. Mas que direito eu tenho de te pedir para esperar por mim enquanto eu resolvo a minha vida? – As lagrimas corriam soltas pelo rosto moreno. – Mais do que tudo, eu quero que você seja feliz, Olie. – Se aproximou dela. – E eu queria muito ser a pessoa capaz de te fazer a mulher mais feliz do mundo.
Olívia mergulhou naquele olhar e deixou as lagrimas escorrerem por seu rosto e molharem a sua blusa. Não conseguia pensar em nada, não conseguia dizer nada, não se sentia capaz de se mover. A dor latente lhe acometia com fúria. Castigava o seu peito já tão acostumado a sofrê-la.
- Me perdoa. - Joana quebrou o momento, e tocou o rosto da sua amada. – Eu não queria nunca ser a causadora dessa dor. Eu queria provocar cada sorriso seu, cada arrepio. Queria ser catalisadora do seu êxtase, da sua alegria, da sua paixão e do seu amor.
Sentindo o aperto em seu peito se intensificar, Olívia puxou Joana para os seus braços, e em seu ombro pranteou a sua dor.
Joana a consolou para se consolar. Chorou junto e sentiu ela se acalmar em seus braços e desejou para sempre poder tomá-la desta forma. Queria ser o alento para a sua amada. Beijou-lhe o rosto todo e colheu com os lábios cada lagrima. A segurava firme em seus braços e o perfume dela lhe invadia os poros.
Sentindo a sua respiração voltar ao normal, Olívia se afastou somente o bastante, para poder encarar os olhos de amêndoa. A amava tanto que lhe doía. A amava e admirava. Acreditava na dor que via naqueles olhos. Acreditava, por tanto também, no amor que ela sentia. E era insuportável saber, que mesmo amando e sendo correspondida, não poderia vivê-lo plenamente. Definitivamente, isso não era pra ela. Chegava a ser irônico, a vida inteira maldisse as relações e as paixões. Nunca quis acreditar de fato em grandes amores, que quando se deparou com um grande amor na sua vida, fosse impedida de vivê-lo.
Tomou aquele rosto entre as mãos e lentamente aproximou seus lábios. Foi retribuída intensamente e a entrega de Joana era mais uma dor que se via fadada a carregar.
- Não consigo me despedir de você. – Joana admitiu quando deixaram a casa. – Você vai embora essa noite?
- Pretendo. – Foi seca e mais uma vez se arrependeu. – Desculpa, Jo. Reflexo. Eu estou cansada e também não consigo dizer adeus, mas não quero ficar enrolando, se nós duas sabemos que é inevitável.
Joana baixou a cabeça concordando.
- Eu te levo até a rodoviária.
- Obrigada. – Foi tudo que Olívia conseguiu responder.
Entraram no carro, e o silêncio se fez mais uma vez presente entre elas. Estavam esgotadas. Com a testa encostada no vidro do carro, Olívia mirava a paisagem, sem realmente vê-la. Sentia-se derrotada e era morada de uma tristeza melancólica.
Joana olhou para o lado, e mais uma vez pensou que seu coração fosse parar. Como queria poder dividir suas angustias com aquela mulher. Queria ser capaz de partilhar com ela a sua vida, mas sabia também que não seria justo arrastá-la para os seus problemas. A sua vida já estava difícil o bastante, sem envolvê-la.
Estacionou em frente à rodoviária, e nenhuma das duas foi capaz de se mover. Contrariando tudo o que planejara, Joana a puxou para os seus braços, e Olívia se deixou abraçar. Sentia-se vazia. Seus gestos eram mecânicos, sem sentido.
Se olharam uma ultima vez, e com um beijo delicado, suave, se despediram. Olívia deixou o carro, e andou até a plataforma, sentindo o olhar de Joana cravado em suas costas, mas não foi capaz de olhar para trás. Se o fizesse, sentia que poderia se perder ali mais uma vez, e nunca seria capaz de ir embora.
Dentro do carro, Joana deixou as lagrimas rolarem livres. A vontade de gritar, chamar por ela. Pedir, implorar que ficasse ao seu lado, estava queimando a sua garganta. Respirou fundo algumas vezes para se recompor. Foi a lembrança da sua filha, que a fez ligar o carro e partir. Bela precisava dela, e era nisso que se apoiaria.
Ao chegar na cidade maravilhosa, Olívia se jogou na noite. Foi direto para uma boate no centro. Bebeu e dançou até as luzes se ascenderem. Não falou com ninguém, ignorou todas as cantadas, e deixou o seu corpo se habituar a bebida e a falta que sentia de Joana. Não queria sentir nada, e não sentiu.
Pegou um ônibus e foi parar nas areias de Copacabana. O dia já se anunciava e alguns transeuntes começavam a tomar conta das ruas. Ficou admirando o vai e vem das ondas e mirou no infinito do mar. Era hora de esquecer. Mesmo em meio à dor, sentiu a brisa que a liberdade lhe trazia. Não estava mais presa àquele sentimento angustiante da espera. Sabia que levaria um tempo para se recuperar totalmente, a dor de amor não existe remédio imediato, mas sabia também que ficaria bem. Não era a sua primeira vez.
Com essa certeza, deixou para trás a areia e voltou para casa. Um novo dia raiava e da mesma forma outros viriam. A raiva também passaria. Amava demais aquela mulher para odiá-la. E a tristeza, esta faria morada em seu coração, mas a expurgaria de alguma forma. Viu-se tendo uma nova chance de recomeçar, e com este sentimento, mesmo que fugidio, entrou no apartamento que dividia com o irmão.
Capítulo 11 - Um novo começo
Marcinha logo teve que voltar para Teresópolis, a mudança definitiva seria feita em algumas semanas, quando tivesse que se apresentar no novo emprego. Mesmo que não dissesse, Olívia sabia que Guto estava ansioso por isso. Por um lado, a oportunidade de viver a relação deles sem a distancia o animava, ao mesmo tempo em que o apavorava, mas a felicidade era o sentimento predominante.
Quanto a Olívia, a decisão de esquecer Joana não tornara mais fácil seguir em frente. Ainda se pegava lembrando de detalhes e sonhando com algo que não havia sido e que não tinha a possibilidade de ser. Bloqueava ao maximo cada pensamento que a remetesse à morena, mas não era capaz de controlar seus sonhos, e noite após noite, acordava enrolada ao lençol, com o corpo suado e o coração na boca.
Não dividira o conteúdo da carta com ninguém. Alguns sabiam da sua existência, mas não insistiam em pedir detalhes. Marina foi quem chegou mais perto de arrancar de Olívia as palavras que sepultaram aquele amor, mas esta havia decidido manter-se alerta a estas investidas. Compartilhar, com quem quer que fosse, só tornaria mais real e por tanto, mais doloroso.
Sobre a sua ida a Teresópolis, também nada disse. Ao ser interpelada por Guto sobre a sua ausência àquele dia, disse apenas que havia saído para pensar. Como sua postura enigmática, não era novidade para nenhum de seus amigos, conseguiu fazer cessar os questionamentos.
As aulas na escola em que lecionava, já haviam começado e Olívia se dedicou ao trabalho com afinco, como lhe era característico. Novos alunos, novas descobertas, novos objetivos, era tudo o que ela precisava naquele momento para lhe tirar do torpor em que se encontrava. Adorava o início de ano. Era um recomeço, uma chance de fazer diferente. Era o mesmo que queria para a sua vida, e procurou disseminar este sentimento em todos os outros aspectos do seu dia a dia.
Na universidade, ela começava uma nova fase da vida, enfim o mestrado. Nada era novidade de fato, mas a quantidade de exigências era muito maior do que a da graduação. Vislumbrava muitas noites em claro tentando colocar a leitura em dia. Agradecia imensamente a facilidade que sempre tivera em absorver diversos conteúdos ao mesmo tempo, e manter a mente ocupada, era uma benção.
A disciplina de Fotografia artística proposta por sua orientadora, fora a que Olívia mais gostara. Sempre se interessara por fotografia, mas nunca tivera tempo ou vontade de se dedicar, mesmo como hobby. Sua vida sempre fora corrida e mesmo quando se dava ao luxo de gastar o dinheiro do pai, nada lhe interessava o bastante naquela época para que lhe desse a devida atenção. Mas agora que tinha esta oportunidade, se viu motivada a ir adiante.
Na segunda semana de aula, levou consigo a câmera semi-profissional que Paula lhe dera de presente. Assim que comentou com a amiga que tinha gostado das aulas, Paula lhe ofereceu a própria câmera que guardava em sua casa, mas que quase nunca usava.
Entrou em uma sala azulejada com cinco bancadas dispostas em filas e cobertas com mármore branco. Cada bancada continha um pia e três recipientes de aço, que pareciam com formas retangulares de bolo. Na parte de baixo, alguns tubos plásticos contendo substâncias de cores variadas.
Como fora uma das ultimas a chegar, e não era aluna do curso de graduação, ficou na ultima bancada onde outros três alunos já se posicionavam dois meninos e uma menina. E sim, eram crianças.
Um dos rapazes que estava mais próximo a ela, era alto, magro, o rosto ainda tinha marcas da adolescência espinhosa, e uns óculos de aros finos emolduravam seus olhos intensamente azuis, inocentes, pensou Olívia. Do outro lado, o outro rapaz, um pouco mais baixo que o primeiro, e um pouco mais encorpado também, tinha os cabelos cor de palha e olhos miúdos bem escuros. Um ar de divertimento brincava em seu rosto. Não era bonito, mas Olívia não saberia dizer o porquê, o achou simpático.
E por ultimo, a menina. Não se lembrava dela das duas ultimas aulas, mas ela parecia conhecer o restante da turma. Tinha uma postura descontraída, mas não abusada ou tímida. Os cabelos cor de fogo continham mexas louras e negras em contraste. Sua pele era tão clara quanto à de Olívia, e pintinhas lhe cobriam o rosto delicado. O seu rosto era lindo. Nem mesmo os olhos com delineador carregado, lhe tiravam a beleza clássica. Os olhos azuis, a boca rosada, o nariz pequeno e bem feito. O corpo era magro, mas com curvas discretas. Não muito alta, não muito magra, certamente não se destacava. Usava uma camiseta preta com a gola cortada com a logo da banda “The Who”. Calça jeans clara e um pouco larga, tênis all star azul. Olívia não precisava do seu gaydar para sacá-la de longe.
- Para aqueles que estão começando hoje, sejam muito bem-vindos. Perderam a parte teórica, e os seus colegas, muito provavelmente dirão que não perderam nada. - A turma riu da brincadeira do professor. Olívia respirou fundo para não se irritar. – Bom, vamos começar então com a prática. Este será o nosso local de trabalho de agora em diante. Será aqui que vocês aprenderão a revelar as suas próprias fotografias. Para isto, é claro, vocês precisam tirar algumas fotografias. – mais uma leva de risinhos sem graça e Olívia olhou para o lado, reparando que nenhum de seus colegas de bancada estavam compartilhando deste momento piada do professor, sentiu alívio.
Após mais algumas explanações, o professor, de quem Olívia recordava chamar-se Sergio, distribuiu tarefas por grupos. Com os três colegas de bancada, ela deveria fotografar paisagens urbanas para a aula seguinte. Ele ainda explicou o processo de revelação, a importância do enquadramento, os diversos recursos que uma câmera profissional disponibilizava e etc.
Ao final da aula, Olívia se viu em uma situação que lhe fez sorrir por dentro. Estava em meio a três colegas que não conhecia, precisando marcar um trabalho em grupo. Aquilo parecia ensino médio.
- Bom, precisamos marcar um dia e hora para tirar as fotos. – Falou a menina olhando para os três, e Olívia percebeu que ela evitava olhar para ela com mais atenção. Achou graça.
- E um local. – O rapaz alto e de óculos complementou.
- Nada mais urbano que o centro da cidade. – Olívia ouviu o terceiro falar. Ele parecia querer parecer displicente, mas seus olhares para a menina eram óbvios.
- Concordo Julinho. – A menina falou. – Que tal marcarmos em frente ao Teatro municipal e partirmos dali?
Todos concordaram inclusive Olívia, que encostada à bancada, parecia alheia a tudo que ocorria a sua volta. Percebendo isto a menina abriu um sorriso e se aproximou.
- Eu sou Emilia. Estes são Julinho e Gago. – Apresentou o garoto com cabelo de palha e o alto de óculos respectivamente.
- Olívia. – Se limitou a dizer.
- Certo, Olívia. Tudo bem pra você se nos encontrarmos amanhã? – Emilia insistiu.
- Claro. Estarei lá. – Olívia respondeu lançando um sorriso sedutor calculado para intimidar a menina, e saiu da sala sabendo que estava sendo observada com interesse.
No dia seguinte, acordou cedo, vestiu um short e uma camiseta, pegou a mochila e estava pronta para sair, quando Guto deixou o banheiro.
- Onde é que você vai tão cedo? Achei que não trabalhasse hoje.
- Eu não trabalho. – Mostrou a máquina fotográfica. – trabalhinho de faculdade em grupo. – falou sarcástica, arrancando, como previsto, uma gargalhada do irmão.
- Boa sorte. – Disse ainda rindo, quando Olívia deixou o apartamento.
Pegou um ônibus e logo se viu em frente ao Teatro Municipal. Amava aquela construção. Não apenas pela beleza arquitetônica, que era emocionantemente linda, mas pela história que aquelas paredes guardavam. Pegou-se criando uma cena, um enredo, uma historia. Como sempre que isto lhe acontecia, Olívia sacou da mochila um caderno e uma caneta, e sentada nas escadarias, traçou uma seqüência de fatos. Partiu da cena que vislumbrava, pontuando alguns diálogos, para logo depois construir um perfil dos personagens envolvidos na trama. Estava tão absorta em seu momento de criação, que não percebeu a aproximação de Emilia.
Somente quando esta fez sombra sobre o seu caderno, foi que olhou para cima e deu de cara com um sorriso maroto encantador.
- Desculpa. Não pretendia te atrapalhar. – Se desculpou calmamente, mas sem deixar de lançar um olhar provocante.
- Esta tudo bem. Só estava anotando algumas idéias soltas. – Olívia sorriu de volta.
Emilia tomou o lugar ao seu lado nas escadas e pegou um cigarro de dentro da bolsa transpassada que carregava. Olívia mirou o perfil daquela menina, e à luz do dia, ela era ainda mais bonita. Os fios dourados e avermelhados dos cabelos brilhavam intensamente sob o sol. A boca rosada e as sardas em contraste com a pele branca, eram ainda mais evidentes. Os óculos escuros cobriam seus olhos azuis, mas Olívia a achou sexy desta forma. Mais mulher, logo concluiu.
- Você não está no curso de artes, está? – Emilia quebrou o silencio.
- Não. Fotografia é uma das minhas eletivas do mestrado. – Respondeu.
- Esta fazendo mestrado em que? – Emilia se virou de frente para ela.
- Letras. – Olívia também ascendeu um cigarro. – Literatura, para ser mais exata.
- Impressionante. – A outra disse com um sorriso de canto de boca. – Você não faz o tipo.
- Como assim? – Olívia riu. – Existe um tipo especifico?
- Não sei dizer, mas sempre achei o pessoal de letras mais careta, e você está longe disso. – Era impressão da Olívia ou a menina estava flertando com ela?
- Bom, existe muita gente careta em diversos cursos, generalizar te torna tão careta quantos os que você julga. – Olívia desafiou.
- Você tem razão. Estou sendo preconceituosa. – Emilia admitiu. – Saiu totalmente errado. Eu só esperava que você respondesse, sei lá... cinema, publicidade, teatro.
- Entendi. – Olívia riu. – Então você já fez conjecturas a meu respeito? – Adorava deixar as pessoas sem graça, mas não é que a menina era interessante.
- Algumas. – Gostou ainda mais quando recebeu uma resposta atrevida e franca. – Mas você está se provando ainda mais interessante. – Emilia completou sedutora.
- Você também. – Olívia rebateu devolvendo no mesmo tom. – Me fala de você. Por que artes plásticas?
- Porque é só o que eu de fato sei fazer da vida. – Sorriu. – Mas a serio? Comecei Direito e parei. Tentei psicologia e percebi que a loucura alheia não me atraía tanto assim, com exceção de algumas. Depois parti para publicidade e foi lá que me dei conta de que o que queria mesmo era fazer artes. Sempre curti desenhar, e fotografia acabou se tornando outra das minhas paixões.
- Os caminhos nem sempre são fáceis, mas um dia a gente se encontra. O que também não garante que tudo não possa mudar novamente. – Olívia apagou o cigarro.
- E letras? – Emilia perguntou.
- Eu escrevo. É o que eu faço e em geral, o que eu sou. – Olívia constatou. – Gosto de contar historias, e na época em que decidi fazer faculdade, parecia ser o caminho mais óbvio. Hoje não tenho mais esta certeza, mas confesso que acabei me apaixonando pela profissão. Adoro ensinar, mesmo que não concorde com a burocracia dos meios de ensino, quando estou frente a frente com os meus alunos, é mágico.
- Uau. Realmente surpreendente. – Emilia provocou, o que lhe rendeu uma cutucada de Olívia. – Mas serio. Ontem quando te conheci, você estava fazendo uma cara de deboche...
- Te deixei intrigada, hã?! – Olívia ficou surpresa em o quanto estava gostando daquele jogo. Sim, era um jogo. Mas ao mesmo tempo, sentia-se a vontade ao lado de Emilia. Talvez pelo carisma e jeito direto com que ela lhe abordara, ou talvez fosse simplesmente aquela atração que em geral não requer explicação lógica, ela simplesmente existe.
- Interessada, seria o mais correto. – Pronto. Emilia jogou a cartada que faltava. Deixou as meias palavras e fez Olívia corar e sorrir.
Foram interrompidas pela chegada dos meninos. Julinho e Gago se aproximaram das duas, que se ergueram, ainda inebriadas pela conversa que estavam tendo, para recebê-los.
- Foi mal, mas eu perdi a hora. – Julinho chegou se desculpando. – Vocês estão aqui há muito tempo?
- Não muito. – Olívia respondeu e olhou de lado para Emilia que lhe sorriu.
- Então vamos. – Emilia os chamou.
Passaram a manhã fotografando várias ruas, prédios, pessoas. Realmente Emilia sabia o que estava fazendo, e Olívia passou a admirá-la ainda mais quando percebeu a seriedade dela com aquele projeto. Ela se envolvia, pensava na luz, no ângulo. Tinha um olhar ao mesmo tempo técnico, sem perder o envolvimento emocional com a imagem.
Descobriu também que os meninos eram bastante divertidos. Pelo jeito o Julinho, só fazia pose de marrento, era na verdade muito engraçado e divertido depois que relaxava. Eles eram amigos desde o primeiro período, mas em nenhum momento deixaram Olívia se sentir desconfortável por conta disso. Sempre que podia, Emilia a interava das piadas internas, e logo Gago se tornou um aliado.
Gago queria ser cineasta. Aquela cadeira, também era uma eletiva para ele, mas já conhecia o Julinho desde muito tempo. Ele tinha uma sensibilidade que Olívia podia sentir só de ouvi-lo falar sobre os seus projetos. Era um jovem extremamente doce e sonhador. Logo estavam os dois a combinar de embarcarem em um projeto juntos. Olívia assinando o roteiro e ele a direção. Emilia seria a diretora de arte e Julinho, após muitos protestos dos demais, conseguiu convencê-los de que daria um excelente cenógrafo. Como Emilia gostava de dizer, ele fora fazer arte, mas queria mesmo era cursar moda.
Almoçaram em Santa Teresa, pois com tantas andanças, acabaram optando por tirar algumas fotos de lá. Olívia era assumidamente apaixonada pelo bairro, e logo ela e Emilia convenceram os outros dois a subirem com elas.
O clima estava descontraído a mesa. Gago contava sobre o seu ultimo caso, e todos na mesa riam da sua historia:
- É serio! A menina virou pra mim, na cama, e disse que gostava de sexo violento. Masoquista mesmo. E eu fiquei como? Totalmente sem ação. Minha gagueira voltou com força total e eu acabei a minha noite trancado dentro do banheiro esperando ela ir embora.
- Só você Gago! Onde você arruma essas figuras? – Emilia perguntou ainda rindo muito.
- Esta eu conheci na faculdade. E eu juro que olhando de longe, você não diz.
- Essas são as piores. – Olívia comentou.
- Mesmo? – Emilia se mostrou interessada.
- Mesmo. – Olívia lhe sorriu de volta.
- Experiência própria? – Emilia perguntou.
- Algumas sim. – Olívia respondeu olhando dentro dos olhos dela. – Mas eu nunca me escondi no banheiro. – completou. Estava provocando e adorando a reação que Emilia estava tendo.
- Eu imagino que não. Não esperaria nada diferente de você. – Emilia rebateu.
- Mas também não curto masoquismo. Entre quatro paredes, quase tudo é válido. Este é um dos poucos limites.
- Concordo plenamente. – Emilia sorriu enviesado novamente, e Olívia se pegou gostando muito daquele traço no rosto dela. Era sedutor e travesso ao mesmo tempo. Completamente encantadora.
- Eu perdi alguma coisa aqui? – Gago perguntou olhando de uma para a outra.
- Fica quietinho, fica. - Julio deu uma cotovelada nada discreta no amigo.
- Autch! Por que isso? – Gago insistiu.
- É muito tapado mesmo. É por isso que você só arruma umas mulheres loucas. Não entende nada. – Julio concluiu o que fez com que as meninas rissem também.
- Não se preocupe Gago, nada que você precise entender. – Emilia respondeu ainda rindo. Seu olhar cruzou com o de Olívia, e esta lhe sorriu, dando a entender que o interesse era mutuo.
À tarde, se despediram. Olívia convidou Emilia para tomar uma cerveja com ela, mas este declinou justificando que tinha marcado um compromisso com a mãe. Olívia não saberia dizer se era verdade, ou se ela apenas havia puxado o freio de mão. De uma forma ou de outra, estava encantada, Emilia se tornava cada vez mais interessante. Trocaram telefones e Emilia prometeu ligar no dia seguinte para marcarem algo.
Olívia estava dentro do ônibus, voltando para casa, quando recebeu uma mensagem de texto no celular: “Só pra não deixar duvidas. Te ligo amanhã.” Era simples, mas lhe arrancou um sorriso que percebeu, veio fácil. Alias, aquele dia todo, ao lado de pessoas que ela mal conhecia, sentiu-se leve. Divertira-se como há muito tempo não fazia, e quase não pensara em Joana. Bom, este mérito era de uma certa ruivinha espevitada e convencida. Sorriu novamente com a lembrança, e releu a mensagem. Estava mesmo ficando mole.
Como prometido, no dia seguinte Emilia ligou. Marcaram um chopp na “Tasca do Edgar” em Laranjeiras, pois era próximo ao apartamento de Emilia, e ela chegaria tarde do trabalho. Olívia havia descoberto que a ruiva tirava fotos para algumas campanhas publicitárias. Era uma forma de arcar com os seus custos, sem abrir mão da arte. Ao menos foi esta a explicação que recebeu.
Saltou do ônibus na Pinheiro Machado, e subiu a rua lentamente. Sempre gostara daquele bairro, tinha um ar boêmio diferente dos bairros nobres da Zona Sul. Era um pouco mais jovem e arrojado. Mais escuro e Underground.
Chegou primeiro ao bar e sentou-se a uma mesa no canto, próxima a saída já que ambas fumavam. Pediu uma cerveja de garrafa, e estava no segundo copo quando avistou a ruiva entrando no bar. Ela estava linda com uma calça verde exercito larga, uma camiseta regata justa branca e um par de sandálias rasteiras marrom. Os cabelos soltos eram chamas vivas e convidativas. Mas nada tirou Olívia mais do sério, do que aquele sorriso luminoso que recebeu.
Ergueu-se e a cumprimentou com um abraço rápido, mas que lhe permitiu sentir a respiração da ruiva no seu pescoço a levando a loucura. Aspirou o cheiro floral antes de se desfazer do abraço e dar-lhe um beijo demorado no rosto. Se olharam e ali havia fogo.
Sentaram-se uma de frente para a outra e Olívia pediu mais uma cerveja e Emilia pediu bolinho de bacalhau.
- Estou sem almoçar. – Se justificou.
- Trabalhou muito? – Olívia perguntou.
- Um pouco. E você?
- Não muito. – Olívia sentia uma vontade louca de beijar aqueles lábios que se ofereciam emoldurando um sorriso sedutor. – Foram duas aulas na escola e o restante do dia eu passei escrevendo.
- Quero ler algo seu. – Emilia disse sincera.
- Eu te mando algumas coisas. – Olívia foi displicente. Em geral não sabia lidar muito bem com a atenção dos outros em volta dos seus trabalhos. Escrevia porque amava e por não ser capaz de não fazê-lo, mas ainda lhe era estranho quando outros falavam sobre isso.
- Você é mesmo modesta? Não me pareceu. – Emilia exalava charme e sedução por todos os poros. Olívia não via forma de resistir, e nem queria. Aquela menina lhe fazia muito bem.
- Não é modéstia, mas eu não posso dizer se você irá gostar de algo, até que você experimente. – Disse provocante.
Trocaram um sorriso que dizia claramente que aquela noite não findaria ali. Olívia sentia a excitação do flerte, do desconhecido. Se viu pela primeira vez pensando seriamente se não seria capaz de se apaixonar novamente e talvez Emilia pudesse vir a ser esta mulher. A achava a cada instante mais interessante, e mesmo sentindo a dor constante que seu coração já conhecia tão bem, ela estava totalmente sob controle, no fundo da mente, uma leve lembrança.
Passaram algumas horas bebendo e conversando. Falaram sobre tudo: família, trabalho, amigos, interesses em comum até chegarem à ex-namoradas e Olívia travar. Não mencionou Joana. Falou de Manuela, Paula e outras conquistas menos importantes, mas não conseguiu tocar no nome do seu grande amor.
Emilia havia tido vários romances passageiros, assim como ela. Dois grandes amores que ficaram para trás. Era uma mulher decidida, forte e ao mesmo tempo doce e divertida. Tinha um sorriso fácil e honesto que encantava Olívia cada vez mais.
Deixaram o bar e seguiram para o apartamento da ruiva na subida da Rua Alice. Era um prédio antigo e sem elevador. Subiram as escadas até o terceiro andar e Olívia se encantou com o espaço em que ela morava. Era um cômodo grande e espaçoso, com uma cozinha americana, um banheiro e um mezanino que servia de quarto. Todo o lugar transpirava arte. Muitos quadros nas paredes e alguns inacabados a um canto junto ao cavalete. Um sofá confortável coberto por tecidos indianos, uma pequena televisão e um radio. No mezanino, um colchão de casal sobre o chão de madeira, uma caixa de verduras virada para baixo que servia como mesa de cabeceira e um abajur.
- Meu canto. – Emilia abriu os braços abrangendo todo o espaço.
- É lindo. – Olívia disse sincera. – Assim como a dona. – Se aproximou de vagar. Um andar predador que Emilia achou extremamente sedutor e irresistível.
Olívia a tomou em seus braços e aproximou sua boca da dela. Emilia lhe sorriu e passou os braços pelo corpo magro, mas forte da morena. As bocas se tocaram de leve, e as duas de olhos abertos acompanhavam cada movimento. Um beijo doce. O gosto da boca da ruiva era ainda melhor do que Olívia imaginara. Sentiu primeiro os lábios, para então introduzir a língua devagar na boca rosada. Foi recebida pela língua quente de Emilia, que ditou um ritmo intenso em sua boca, sorvendo a sua saliva com vontade.
Beijaram-se intensamente, e Olívia podia sentir seu corpo ferver com o contato. Puxou a ruiva ainda mais para perto e a encostou na parede de tijolos. Desceu suas mãos pelo corpo bem feito, e tocou-lhe entre as pernas por cima da roupa. O gemido que saiu em meio ao beijo, a incendiou ainda mais.
- Eu sabia que seria bom. Desde que eu te vi pela primeira vez, sabia que a sua boca era deliciosa. – Emilia disse com a respiração entrecortada.
- Imagina o que a minha boca não pode fazer com você. – Olívia disse provocante, já descendo os lábios pelo pescoço branquinho e repleto de sardas. – Quero te provar inteira. – Falou perto do ouvido e pode sentir o corpo da outra estremecer de prazer.
Subiram as escadas que dava acesso à cama, com dificuldade. Enquanto subiam, iam tirando peça por peça das suas roupas. Quando atingiram o colchão, restavam apenas as roupas íntimas, que logo foram jogadas longe.
Olívia fez como prometera, provou cada pedacinho de pele do corpo da ruiva com devoção. Lambeu, chupou, mordeu, até se ater ao órgão pulsante que se apresentava para ela.
Emilia gemeu no primeiro contato, e Olívia se deliciou com a entrega dela. Se concentrou em dar o maximo de prazer a linda mulher que ali se oferecia. Pode senti-la tremendo em sua boca e introduziu dois dedos na cavidade quente e molhada. Viu um sorriso lindo brotar naqueles lábios, e a escalou até tomar-lhe a boca em um beijo ardente.
Se amaram por horas, mas Olívia não permitiu ser tocada. Emilia não insistira, mas ela sabia que a ruiva ficara frustrada. Tentou compensar dando todo o prazer que podia e como há muito tempo não fazia, dormiu por algumas horas agarrada a outro corpo.
Quando Olívia acordou com a luminosidade do dia entrando pela janela, deu-se conta de onde estava e se assustou. Emilia dormia lindamente sobre a cama ao seu lado. Ela tinha o corpo descoberto e era mais linda ainda a luz do dia. Mas Olívia sentiu-se vazia e a dor que atravessou seu peito, roubou-lhe o ar. Havia abaixado a guarda.
Ergueu-se em silencio para não acordar Emilia, recolheu suas roupas e saiu do apartamento. Mais tarde ligaria para a ruiva, mas agora não se sentia capaz de explicar nada, precisava simplesmente sair dali. Ganhou as ruas e o dia estava recém começando. Tomou um café forte na padaria da esquina, fumou um cigarro e tomou o ônibus que a levaria de volta para casa.
Por todo o trajeto, Olívia podia sentir uma angustia constante. Com Emilia não havia sido somente sexo como com as outras mulheres que teve depois que Joana a deixou. Com Emilia, houve um envolvimento, um desejo mutuo, uma sensação boa de estar com alguém. Olívia sabia que o preço seria mais alto.
Passou da dor ao ódio antes mesmo descer no ponto de ônibus. Sentiu raiva de Joana, mas principalmente, sentiu raiva de si mesma por permitir que ela criasse raízes em seu peito de forma tão avassaladora. Sentiu-se desnorteada. A noite havia sido incrível. Emilia era uma mulher incrível. Precisava esquecer Joana e se focar no seu futuro. Talvez nunca fosse capaz de amar ninguém como amara Joana, mas poderia viver com aquele sentimento quente que Emilia despertava nela. Aquela sensação gostosa que vai alem da atração puramente física.
Assim que chegou em casa, se refugiou no quarto e buscou o celular no bolso de trás da calça. Pressionou “send” e esperou.
- Oi fujona. – Uma voz sonolenta a atendeu divertida. Se Emilia havia ficado chateada com a sua saída pela manha, não demonstrou.
- Desculpa ter saído assim minha linda, eu tinha que passar em casa antes de uma reunião com a minha editora. E você estava dormindo tão linda, que eu não tive coragem de te acordar. – Falou tudo com a voz quente. Não estava jogando, não completamente, realmente queria se desculpar, queria mais uma chance de estar com a ruiva.
- Está desculpada. Mas da próxima vez, me acorda. Queria um beijo seu quando acordei. – Emilia disse travessa. – E talvez um pouco mais. – Sedutora, e Olívia estava adorando aquilo.
- Nunca mais vou deixar a sua cama sem antes beijar você inteira. – Prometeu.
- Vou cobrar. – Emilia disse rindo.
- Eu tenho que ir linda. Alguma chance de eu te ver hoje mais tarde? – Precisava se esforçar. Precisava sair daquele buraco, e Emilia estava jogando a corda, Olívia a agarraria com todas as forças.
- Pode ser. – Emilia falou displicente. – Talvez no bar que você fala tanto.
- Bar do Bola. – Olívia completou. – Então está marcado. Bar do Bola as dez? Tudo bem pra você?
- Ótimo. Te vejo mais tarde. Beijo. – Emilia se despediu.
- Beijo. – Ela já havia desligado.
Olívia achava graça na maneira como Emilia a tratava. Estava tão acostumada às mulheres a seguindo e cobrando e enlouquecendo, pedindo por atenção, que ter esta mulher linda e independente interessada nela, mas deixando Olívia com vontade, a estava surpreendendo de uma maneira completamente positiva.
Olívia foi à reunião com sua editora. Letícia estava entusiasmada com o lançamento do livro. Aparentemente, um dos donos da Editora, havia lido alguns projetos dos seus funcionários e um deles fora o livro de Olívia. Ele se apaixonara e providenciou que o livro entrasse no circuito da FLIP, assim como a autora. Olívia ficou imensamente feliz com a notícia. Sempre sonhara em participar de uma Feira do Livro de Paraty, mas nunca poderia imaginar que isto fosse acontecer tão rápido.
Passou toda a manhã e metade da tarde, envolvida com os preparativos para o lançamento. Com exceção da parte burocrática, decidir fonte, imagem da capa e outros pequenos detalhes para enviar para impressão, foram gratificantes.
Voltou para casa quando o dia já findava. Guto ainda não havia chegado do trabalho, e após ligar o aparelho de som no ultimo volume, Olívia foi tomar um banho. Sua cabeça estava a mil. Esta aproximação com Emilia estava sendo ótima, mas também lhe fazia lembrar de Joana com maior freqüência. Não havia gozado enquanto transava com Emilia, e no momento que chegou mais perto disso, foi em Joana que pensou. Optou por bloquear as imagens que lhe vinham a mente, mas elas agora voltavam com força.
“Desde que Joana decidira parar de fugir do que sentia por Olívia, as duas tentavam ao maximo serem cautelosas sobre o que ocorria entre elas. Na escola, se reaproximaram, mas mantinham a fachada da amizade, que era verdadeira o bastante para não transparecer que havia algo mais. Como o relacionamento entre mulheres ainda era tido como tabu, ninguém de fato pensava nisto quando via duas meninas andando juntas, ou partilhando momentos de carinho.
Estavam encontrando dificuldade era de terem momentos a sós. A família de Joana, nunca fora grande fã da relação da filha com Olívia. Sempre achara aquela menina muito rebelde para ser um bom exemplo. Já na casa de Olívia, era o padrasto da menina que criava caso. Como ele também tinha filhos e estes passavam o final de semana com ele a cada quinze dias, Olívia passara a dividir o quarto com o irmão mais novo.
Após três semanas de desencontros, Olívia tivera a idéia de levar Joana para a casa da tia. A casa ficava em um sítio um pouco afastado da cidade, mas a tia prometeu busca-las na escola para passarem o final de semana.
Joana se animou, mas sentia-se nervosa. Era a primeira vez que iriam dormir juntas como namoradas, e isto era completamente diferente do que haviam vivido até então.
Na sexta-feira, como combinado, tia Gigi estacionou em frente à escola a espera das meninas. Mas antes que pudessem entrar no carro, Léo as interceptou, segurando Joana pelo braço.
- Eu preciso falar com você. – Ele disse duro. Desde o termino do namoro, Joana se afastara do ex-namorado completamente. Ele estava com raiva por ter sido largado e como ainda gostava dela, queria uma segunda chance.
- Eu não tenho nada pra falar com você Léo. – Joana disse, tentando soltar o braço que ele apertava com força.
- Tem sim! – Ele disse irritado. – Você não pode simplesmente dizer que acabou e achar que esta tudo bem.
- Posso sim. Acabou Léo. – Joana tentou se soltar novamente. – Me solta Leonardo, você esta me machucando.
- Solta ela agora Léo. – Olívia se enfiou no meio dos dois e segurou o braço dele.
- Não se mete Olívia. Tenho certeza que isso tem dedo seu. – A acusou.
- Não Léo, o problema é que você não aceita o fato de que a Joana não te quer mais. – Ela o desafiou.
- Se você não fosse mulher... – Ele deixou no ar.
- O que? Você iria me bater? Bate então. – Olívia o desafiou e a esta altura, boa parte da escola já estava posicionada em volta dos três.
- Eu to te avisando Olívia! – Leo ameaçou.
- Chega Léo. – Foi a vez de Joana, que enfim conseguira se soltar, gritar. – Eu não tenho mais nada com você. Deixa a gente ir em paz.
Joana se posicionou a frente de Olívia num gesto protetor, fazendo com que Léo ficasse ainda mais furioso. O que o impediu de agir, foi à aproximação de um funcionário da escola, que percebendo o pequeno tumulto que ameaçava se iniciar na porta do colégio, chegou dispersando os alunos.
Olívia tomou a mão de Joana entre as suas e a puxou em direção ao carro da tia alguns passos além da entrada do colégio. Entraram no carro pelo banco de trás e tia Gigi olhou para a cara culpada das duas.
- Vocês estavam metidas naquela confusão? – Perguntou.
- Só um pouco tia, mas não fomos nós que iniciamos. – Respondeu Olívia com um sorriso culpado no rosto.
- Sei. Te conheço Olie. – A tia disse divertida, antes de dar partida com o carro.
Chegaram ao sitio e foram levar as mochilas para o quarto que iriam dividir. Havia duas camas de solteiro, era o quarto que Olívia sempre dividira com o irmão quando iam passar a noite com a tia.
Assim que entraram no quarto, ainda empolgada com a confusão, mas principalmente com o fato de que enfim poderia dormir uma noite inteira com a namorada, Olívia fechou a porta e tomou Joana nos braços, lhe dando um beijo que provocou milhares de sensações em ambas.
- Sua tia. – Joana disse ofegante, ainda derretida nos braços da amiga.
- Ela não vai entrar. – Olívia falou confiante, retirando uma mexa de cabelo do rosto de Joana. – E eu estava louca de vontade de te beijar.
Joana encarou aqueles lindos e brilhantes olhos verdes e ali se perdeu. Sentia um formigamento no baixo ventre e as mãos suadas. Não podia mais fugir. Não queria mais fugir. Tomou os lábios de Olívia em um beijo intenso e cheio de promessas. Apertou o corpo magro e esguio, puxando-o em direção ao seu e sentindo o coração de Olívia bater mais rápido com a aproximação. As mãos pareciam ter vida própria, e passaram a percorrer as costas de Olívia e se detiveram na nuca. O simples toque a levou a loucura. Olívia também a tocava com cada vez mais vontade e ousadia e Joana sentia seu corpo arder.
- OK. Agora sim... minha tia. – Olívia separou os lábios, mas não se afastou dela nem um centímetro. – Vamos para a cozinha. Nós teremos todo o tempo do mundo mais tarde.
As promessas naqueles olhos cinzentos sugavam Joana para uma outra dimensão. A desejava tanto que doía. Tocou o rosto de Olívia com delicadeza, fazendo com que esta fechasse os olhos com prazer.
- Mais tarde. – Disse num sussurro.
Olívia beijou-lhe os lábios com delicadeza e a puxou para fora do quarto. Entraram na cozinha e a tia colocava a mesa para um café da tarde com direito a leite quente, café, pão feito em casa, bolo de laranja, bolo de cenoura, mel, geléia de goiaba, manteiga e queijo minas.
- Hum tia! Está com uma cara ótima. – Olívia elogiou já se esparramando na cadeira e pegando um pedaço de bolo.
- Come com calma menina. Não vai queimar a língua. – A tia ralhou, mas sorrindo. Gigi amava a sobrinha como se fosse sua filha. Sempre se identificou mais com Olívia do que com qualquer outro sobrinho. Como nunca tivera filhos, acabou criando um laço muito forte com os filhos de seus irmãos.
- Está tudo realmente muito bom tia Gigi. – Joana reforçou. Era amiga da Olívia há bastante tempo para saber que Gilda gostava de ser chamada de tia pelos amigos de seus sobrinhos.
- Que bom que vocês gostaram. – Ela sorriu. – E então, qual das duas vai me dizer o porquê daquela confusão na escola hoje mais cedo?
Olívia e Joana se entreolharam antes que Olívia respirasse fundo, e falasse.
- O ex-namorado da Jo queria tirar satisfação com ela. – Falou com desagrado. Não importava que Joana agora estivesse com ela, ainda sentia ciúmes do Léo.
- Foi besteira Tia Gigi. – Joana tentou amenizar. – O Léo que fica insistindo para voltar, mas eu não quero.
- E não quer porque menina? – Tia Gigi perguntou inocentemente.
- Porque eu gosto de outra pessoa. – Joana disse isso olhando nos olhos de Olívia que abriu o sorriso mais lindo que ela já tinha visto na vida.
- Homens. –Tia Gigi, que nada havia percebido, resmungou. – Eles não gostam é de perder.
Após o café, ficaram horas sentadas na varanda conversando com a tia, que sempre tinha muitas historias para contar. Vez ou outra se olhavam profundamente, e mesmo quando a tia contou uma historia realmente embaraçosa da infância de Olívia e esta tenha ficado completamente roxa de vergonha, ainda assim o olhar que Joana lhe lançava era quente, apaixonado.
Mas somente quando a tia deu por encerrado o dia, foi que as duas conseguiram enfim, ficar a sós. Olívia entrou no quarto e com muito cuidado tratou de trancar a porta. Quando se virou de frente, viu Joana parada próxima à cama com a expressão de quem não sabe o que fazer. Nenhuma das duas sabia ao certo. Aquela era uma situação nova, esperada, mas nem por isso mais simples.
Sem tirar os olhos dos dela, Olívia se aproximou devagar, contando cada respiração, sentindo o corpo tremulo e o coração palpitante.
- Diz alguma coisa. – Joana implorou sem graça.
Funcionou, as duas começaram a rir da situação e lembraram que antes de qualquer coisa, eram amigas e que aquele constrangimento, não fazia na verdade nenhum sentido.
- Alguma coisa? – E riram ainda mais. Olívia se aproximou e a abraçou. – Não tem porque ter medo. Eu to aqui. – Disse baixinho no ouvido de Joana, que retribuiu o abraço.
O clima mudou instantaneamente. Olívia acariciava as costas de Joana e esta lhe dava pequenos beijos no pescoço. Não agüentando mais, Olívia tomou-lhe os lábios em um beijo urgente, sendo prontamente correspondida. Ainda beijando, deixaram-se cair na cama, os corpos se sentiam, e as bocas invadiam com língua, saliva e dentes.
Quando o beijo suavizou, Olívia rolou de lado e Joana se virou pra ela. Estavam próximas, ainda podiam sentir o calor do corpo da outra, e se olhavam.
- Se você esta com medo Jo, nós não precisamos fazer nada. – Olívia disse temerosa, mas ao mesmo tempo querendo passar segurança para a sua namorada. – Só de estar aqui com você, eu já estou feliz. – Disse afagando o rosto que tanto amava.
- Eu sei. – Um sorriso brotou nos lábios de Joana. – Eu não estou com medo Olie. Eu só quero que seja perfeito.
- Já é perfeito. – Olivia rebateu. – Somos eu e você.
Joana se aninhou nos braços de Olivia e afundou seu rosto no colo dela, sentindo o perfume da pele da sua branquinha. Deslizou a perna e enganchou no quadril de Olivia, aproximando ainda mais os corpos. Passou os lábios e então a língua pela pele do pescoço e subiu até o ouvido.
- Me toca. – Pediu. Mal sabia ela o quão sedutora era esta frase e o que fez com Olivia.
O sangue ferveu nas veias dela, e suas mãos passaram a explorar o corpo da morena saciando toda a curiosidade que estas tinham de conhecer e decorar cada curva, cada pinta, cada reação que o seu toque fosse capaz de provocar.
Lentamente foram se livrando das roupas. Se olhavam o tempo todo, com carinho, com desejo. Quando viu Joana completamente nua deitada na cama pela primeira vez, Olívia se emocionou. Ela era tão linda. Tudo nela era perfeito, as pernas grossas, a barriga lisinha, os seios médios. Tirou o que restava da própria roupa e percebeu o olhar desejoso de Joana sobre seu corpo.
Joana ergueu a mão e tocou o seio de Olívia. Era uma sensação tão nova para ela, mas ao mesmo tempo parecia tão natural. Olívia deitou sobre ela e sentiram o corpo uma da outra. Era a explosão de sentidos quando as peles se sentiram como um todo.
Olívia começou a dança por sobre o corpo da morena. Rebolava sobre ela sentindo ela entrar no ritmo e esfregar seu corpo no dela. Tomou-lhe a boca em um beijo profundo, intenso, muito diferente de qualquer beijo que tivessem trocado antes. Podia sentir os corpos se ascenderem, e deslizando a mão por toda a extensão da coluna dela, desceu pela bunda e contornou pela frente. Quando alcançou o sexo, senti-o molhado. Introduziu um dedo e ouviu Joana arfar ainda em sua boca. Começou um movimento lento de vai e vem sentindo a mulher em seus braços se derreter ainda mais. O corpo todo de Joana implorava por mais. Ela rebolava para sentir o dedo da sua amada dentro dela. Olívia introduziu mais um dedo e acompanhou o rebolado dela, que ficava cada vez mais ousado e estimulante. Olívia podia sentir o próprio liquido descer pelas pernas. E no rosto de Joana a expressão mais linda que já vira na vida, e que sabia, dedicaria o resto dos seus dias para vê-la novamente. Com um grito abafado, Joana gozou.
Ficaram abraçadas por alguns minutos esperando a respiração voltar ao normal. Olívia não se cansava de olhar para o rosto da morena e sorrir. A felicidade que ela sentia por ter Joana em seus braços era maior do que ela poderia imaginar que um dia sentiria na vida.
Joana sorriu para ela, sentindo-se plena, mas não saciada. Subiu sobre o corpo de Olívia e a beijou. Começou a se mover sobre ela, imitando os movimentos que Olívia havia feito. Desceu sua mão pelo corpo dela, passando pelo seio, barriga, ventre, até tocar-lhe o sexo. Sentiu a respiração da amada mudar. Passou os dedos por toda a extensão da vulva, até encontrar a cavidade que a esperava pulsante. Quando entrou em Olivia e ouviu seu gemido, sentiu-se completa.
Olívia nunca havia feito sexo com homens ou mesmo mulheres antes, não desta forma. Nunca havia sido tocada. Seu corpo todo reagiu quando sentiu Joana dentro dela. Foi tomada por espasmos imediatos de prazer. Um gozo forte, intenso. Provocou-lhe lagrimas.
Joana, vendo-a chorar, retirou a mão devagar e a abraçou.
- Te machuquei? Desculpa meu amor. – Disse afagando-lhe o rosto.
- Não. – Olívia conseguiu dizer por entre as lagrimas. – Foi incrível. – Completou, provocando um sorriso tímido no rosto da morena.
Se abraçaram e beijaram. Ficaram deitadas nuas, uma nos braços da outra com os corações batendo a mil. A emoção que sentiam era tão grande, que não cabiam palavras para explicar, só queriam sentir. E desta forma adormeceram, sabendo que estavam onde pertenciam. Não restava duvidas, haviam encontrado a sua outra metade.”
Olívia saiu do banho e se enrolou em uma toalha. Aquela lembrança lhe era sagrada. A primeira vez que entendeu o que era amar alguém fisicamente. A lembrança do primeiro toque, do primeiro orgasmo, ainda lhe era intensa. Sentiu saudade daquela mulher capaz de transformar o seu mundo e fazê-la se entregar sem reservas. Lembrou-se também, que foi a mesma que lhe feriu mais profundamente e por duas vezes.
Andou até o quarto e vestiu uma camiseta e uma calça jeans. Precisava se desvencilhar de todas as lembranças, de todos os vestígios da existência de Joana em sua vida. Queria poder sentir-se livre daquele sentimento que a corroia por dentro. Não queria mais sentir saudade.
Lembrou-se de Emilia e da forma como a fazia sentir. Precisava tentar. Emilia era uma mulher com quem ela conseguia ver futuro. Ela era diferente de todas as outras que passaram pela sua cama. Dar-se-ia a oportunidade de conhecer e quem sabe se apaixonar outra vez.
Capítulo 12 - Emilia
Chegou ao bar do Bola as dez da noite acompanhada de Guto, que já sabia que iria conhecer o novo affair da irmã. Ele brincou, fez piada, mas no fundo estava extremamente feliz por ela. Pode sentir pela forma como ela se referia a Emilia, que está era diferente, e ele não poderia desejar nada melhor para a sua irmã. Vinha acompanhando o sofrimento dela por causa da Joana e sabia que somente um novo amor, ou ao menos algo próximo disso, poderia curá-la.
Assim que colocaram os pés dentro do bar, foram recepcionados pelo Bola que andava animado entre as mesas. Após abraços e brincadeiras, ele apontou para o fundo do bar onde Theo e Marina tomavam uma cerveja e riam.
- Resolveu deixar a toca Nina? – Olívia provocou a amiga que se ergueu para abraçá-la.
- Conheço as suas teorias Li, e você errou em todas. – A desafiou.
- Mesmo? Nada de mulher? – A cutucou. – Quem te conhece que te compre.
- Ei! – Theo exclamou. – Para de implicar com a minha amiga. – Falou fazendo pose de segurança de shopping.
- Vai dar uma de macho pra cima de mim, Theo? Vê se te enxerga. – Olívia brincou e abraçou o amigo.
- Então? Quem é a gata que você vai nos apresentar hoje? – Nina perguntou maliciosa.
- Guto! – Se virou para o irmão.
- Eu não disse nada demais. – Ele fez cara de inocente. – Só disse que você traria uma “amiga”. – Demonstrou as aspas com as mãos ao falar.
- Muito engraçadinho você.
- Mas fala logo sapatão. Eu fiquei curioso. – o Theo a interrompeu.
- Ela é aluna do curso de artes da universidade. Estou fazendo a cadeira de fotografia artística com a turma dela. – Olívia se limitou a dizer.
- E a esta traçando? – Nina implicou.
- Não é bem assim Nina. Você vai conhecer. A menina é gente boa.
- Menina? Então é pirralha? – Nina estava inspirada, o que tirava Olívia do sério.
- Eu juro que eu não sei por que ainda me dou ao trabalho de explicar alguma coisa a vocês. Todos já tiraram suas próprias conclusões mesmo. – Olívia reclamou se fazendo de ofendida.
- Desculpa amiga. – Nina a abraçou por trás. – Você sabe que nós te amamos e torcemos por você sempre. – Beijou-lhe o rosto. – Qual o nome dela?
- Emilia.
- A boneca de pano? – Theo riu. – Adorei. Vou querer ir conhecer a Dona Benta e o Pedrinho.
Olívia teve que rir. Eles não iriam mesmo parar de provocar.
- Você a conheceu onde? No recreio? – Foi a vez de Marina implicar.
- Alias, ela tem permissão para sair tão tarde sozinha de casa? Não precisa do acompanhamento dos pais? Ou talvez o Barnabé vá trazê-la. – Theo completou.
- Já vou logo avisando que não comprarei bebidas alcoólicas pra cunhadinha. Ela que arrume uma carteira de identidade falsa. – Guto entrou na brincadeira.
- Você sabe que fazer sexo com menores dá cadeia, não sabe? – Theo perguntou.
- Você saberia. – Olívia revidou. – E podem parar com as piadinhas. A Emilia não é nenhuma criancinha.
Neste momento Emilia entrou no bar e avistou Olívia. Abriu aquele sorriso que a cativara e Olívia levantou da cadeira para recebê-la. Deu-lhe um selinho e sorriu.
- Que bom que você veio. – Falou no ouvido dela.
- Eu disse que viria. – Emilia respondeu. – Pra falar a verdade, eu até pensei em dar o troco por hoje de manhã, mas eu não resisti. Se você prometer me chupar daquele jeito que fez ontem, eu sou bem capaz de nunca resistir a você. – Falou sedutora, acendendo Olívia por inteiro.
- Bom, - Olívia pigarreou para se recompor. – Deixa eu te apresentar a minha família. – Apontou para a mesa. – Este é o Guto, meu irmão caçula.
- Não tão caçula assim. – Ele disse provocando risos nos demais. – Muito prazer Emilia. – Ele se adiantou e a abraçou.
- Esta é a Nina e aquele é o Theo. – Olívia continuou as apresentações, fingindo não ter entendido a piada do irmão.
- Oi Emilia. – Nina se adiantou dando dois beijinhos na ruiva.
- Emilia! Adorei seu nome. – Theo a abraçou. – Me desculpe por referências futuras à turma do sítio. – Falou rindo, para irritação de Olívia.
- À vontade. Mas vou logo avisando que o Pedrinho é gay sim, mas muito novinho pra você. – Emilia respondeu.
- Ok. Já aprovei Li. Ela tem senso de humor. – Theo falou para a amiga.
- Certo. – Olívia disse apenas e puxou Emilia para sentar a lado dela na mesa.
Aos poucos Emilia foi encantando a todos. O jeito direto que tanto cativara Olívia, conseguiu conquistar até mesmo Nina, que em geral era a mais difícil de se quebrar. Olívia sorria ao lado da sua menina, que a cada instante provava ser uma mulher incrível. As trocas de carinho entre elas, se tornavam mais evidentes a cada hora que passava, e Guto sorria ao ver a irmã tão solta e aberta para esta nova possibilidade que se descortinava a sua frente.
Voltaram para a casa de Olívia por volta das duas da manhã. A esta altura, Theo, Guto e Nina já estavam apaixonados pela ruiva. E Olívia percebeu que para ela, isto também poderia se tornar uma realidade. Pensava que nunca mais levaria uma mulher novamente para a sua cama, mas quando percebeu, já a havia convidado para passar a noite com ela na sua própria cama.
Chegaram ao pequeno apartamento e Guto se despediu das duas, se enfiando em seu quarto e caindo sobre a cama. Olívia guiou Emilia até seu quarto e se surpreendeu com a voracidade da ruiva naquela noite. A puxou para o colchão antes mesmo que ela pudesse dizer qualquer coisa.
- Assim vou achar que você só me quer pelo sexo?! – Falou brincando, enquanto a ruiva arrancava a própria camiseta.
- E quem disse que não é?! – Abriu um sorriso sedutor.
- Tudo bem pra mim. – Olívia respondeu a puxando para si.
Retirou o sutiã, e se deliciou com os seios pequenos e alvos, com a aureola rosada, e repletos de pintinhas, assim como toda a pele daquela menina. Ela era linda, e o sorriso safado que bailava em seus lábios, e o gemido ferino que saiu da sua garganta, quando Olívia a tocou entre as pernas ainda por cima da calcinha, fizeram a escritora sorrir.
Logo Olívia já a havia despido completamente, e demorou um tempo a apreciando. Ela era linda. Sensual demais. Uma menina tão mulher.
Retirou a própria roupa, e nua, deitou-se por sobre ela. A dança começou lenta. Um esfregar de pele com pele, os lábios deixando marcas quentes no rosto, pescoço, ombro, boca. Se sentiam sem pressa, apesar da ruiva estar mais afoita, deixou-se levar pelo embalo da outra.
Quando Olívia a penetrou, sentiu-a quente, molhada, e um gemido subiu por sua garganta, excitando Emilia ainda mais. Não existia mais a calma de antes. A busca frenética por sentir e dar prazer, tomou conta de todos os sentidos das duas, e Emilia, sem reservas, sem pudores, explodiu em um gozo que Olívia achou lindo e poético, como muitas outras coisas naquela menina.
Emilia tentou tocá-la como na noite anterior, mas mais uma vez, Olívia recuou diante das investidas. Queria permitir-se, mas não conseguia. Não gozou. Até sentiu que poderia, mas sua mente teimava em lhe levar para os braços de uma certa morena cada vez que tentava.
A ruiva dormiu em seus braços e Olívia a achou linda. Como queria ser capaz de se entregar a ela de corpo e alma. Não estava pronta para desistir ainda, mas sabia que se aquilo continuasse e se tornasse algo serio, em algum momento teria que se deixar levar, nem que fosse um pouco, nem que fosse apenas fisicamente a principio, e mesmo esta possibilidade, a assustava.
As semanas passavam e com elas Olívia se via cada vez mais envolvida com Emilia. As duas agora se viam quase todos os dias e dormiam juntas praticamente todas as noites, tanto na casa de Olívia, quanto na de Emilia. Não classificavam a relação que tinham, não cobravam e tentavam manter o ‘namoro’, na fase inicial enquanto fosse possível. Aquele período em que ambas as partes ainda estão se conhecendo e ainda acham os defeitos do outro, interessantes. Para Olívia, estava ótimo assim. Não conseguira se entregar por inteiro a Emilia como gostaria e sabia que esta merecia, mas gostava demais da companhia dela e procurava deixar isto sempre claro.
As aulas na faculdade estavam ficando cada vez mais interessantes e Olívia entregara uma parte da sua dissertação para sua orientadora. Claudia estava se saindo melhor do que Olívia poderia pressupor. Acabou descobrindo que por de baixo daquela aparente frieza, existia uma mulher apaixonada e cativante. Ela e Olívia passavam horas durante as suas reuniões semanais, conversando sobre tudo. Arte, cinema, livros, vida. Olívia descobrira que Claudia era divorciada e tinha dois filhos, o rapaz era medico e a menina estudante de Educação física. Era uma amizade ainda estranha, Claudia impunha um distanciamento entre elas, mas Olívia preferia assim. Não queria se sentir confortável demais, não enquanto Claudia era a sua orientadora, precisava que alguém a forçasse a escrever, especialmente quando requeria tanto estudo.
Marcinha enfim se mudara para o Rio de Janeiro e estava morando temporariamente com eles. Ela e Emilia se deram bem de cara, o que não era surpresa alguma, já que Emilia conseguira conquistar a todos com tanta facilidade. Passavam boa parte do tempo os quatro juntos, fazendo o que Olívia nunca se imaginou, programas de casais. Saíam juntos para irem ao cinema, jantar, show ao vivo, exposições, já que Emilia era rata de galerias, peças teatrais e etc. Olívia não pensava, apenas agia.
Em uma noite particularmente fria que anunciava o outono, saíram os quatro para uma ida ao cinema. O filme era de longe o que Olívia teria escolhido, mas como Marcinha havia se proposto a comprar os ingressos, foi junto.
Após a tortura de duas horas tendo que assistir uma comedia romântica totalmente sem graça e sem noção, voltaram para a Lapa indo parar no Bar do Bola, como de costume. Olívia sentiu um alivio imenso ao adentrar o seu habitat. Encontrou com Nina logo na porta, e após os cumprimentos, os outros três se dirigiram a uma mesa e ela ficou com a desculpa de fumar um cigarro com a amiga.
- Eu ainda estou tentando me acostumar a nova ‘você’. – Nina provocou.
- Então somos duas. – Olívia falou mal humorada.
- Então você consegue perceber o quanto é estranho te ver domesticada assim? – Nina sorriu condescendente.
- Eu acabei de sair de duas horas com Jennifer Aniston em uma comedia ridícula. Você acha que eu não sei o quanto isso é bizarro?! – Reclamou.
- Então porque, Li?
- Porque eu preciso disso Nina. Essa estabilidade provinciana e burguesa. – Olívia admitiu.
- Ainda a Joana? – Nina a encarou.
Olívia estremeceu diante do nome. Ainda era assaltada por lembranças a todo momento. Sentia falta da voz, do sorriso, das pequenas brincadeiras, do jeito meio desligado, da risada, do cheiro, do gosto. Sentia falta de tudo. Passava horas tentando entender o que havia acontecido. Diferente do que sentiu quando recebeu a carta que decretara o fim do romance delas, Olívia se pegava agora tentando entender o que havia acontecido, onde havia quebrado. Antes de ir embora do Rio, Joana disse que voltaria para ela. O que havia mudado? Esta e outras tantas dúvidas pairavam diante dela todos os dias.
- Na verdade sou eu. – Olívia admitiu triste. – Eu que não consigo parar de pensar nela. Não consigo deixar de sentir saudade.
- Li! – Nina a olhou com pena. – Eu jurava que você estava superando. Ainda que fosse vivendo esta realidade paralela de boa moça.
- Eu estou tentando Nina. E acredite, eu realmente gosto da Emilia, ela é uma mulher incrível, mas meu coração continua me traindo. Meu corpo, minha mente... Eu não posso me deixar perder o controle por um segundo, que eles se entregam à saudade que eu sinto dela.
Marina a olhou com preocupação. Sabia que a dor de amor podia deixar qualquer um perdido, sentira isso na pele mais de uma vez, e ainda sentia falta de Clarissa, mas nada parecido com aquilo. A dor da Olívia era palpável, angustiante, e ela como amiga, se via na obrigação de intervir.
- Vai atrás dela Li. – Falou após alguns segundos de silencio.
- O que? – Olívia demorou para processar a informação. Estava concentrada em suas lembranças mais uma vez.
- Vai atrás dela. – Repetiu. – Você precisa de um fechamento para essa historia e claramente aquela maldita carta não fez o serviço.
Olívia não respondeu nada em principio. Não havia contado a amiga, nem a mais ninguém, sobre a sua ida a Teresópolis. Todos ainda pensavam que ela havia deixado tudo como estava após a carta, que apesar de mais ninguém ter lido, sabiam do que se tratava.
- Eu fui atrás dela Nina. – Olívia precisava falar.
- O que? Quando? – Nina se surpreendeu.
- Após receber a carta. Eu não passei o dia andando pela cidade. – Olívia olhou para as próprias mãos. – Eu peguei um ônibus e fui até Teresópolis vê-la.
- E? – Nina a indagava com o olhar?
– Ela deixou bem claro que não quer ficar comigo. – Disse magoada. – Eu nem deveria ter ido até lá para início de conversa. Só ficou mais claro que nada do que eu fizesse, iria mudar a decisão dela. Ao menos disso eu sei. Eu sou burra, mas também sou orgulhosa.
- Burra duas vezes. – Nina sentenciou. – Você nunca vai ser capaz de estar de fato com a Emilia enquanto a Joana morar aí dentro. – Apontou para o peito da amiga. – E honestamente, a Emilia merece mais que isso.
- Eu sei. – Disse entre os dentes. – Se eu não precisasse tanto da força dela, já teria terminado tudo. Ela merece bem mais do que posso dar. – Confessou. – Eu sou egoísta mesmo.
- Egoísta e infantil. - Respirou fundo. – Eu te amo Li. Eu vou sempre ficar do seu lado pro que der e vier, mas ou você resolve essa questão logo, ou você vai se magoar ainda mais e pior, vai quebrar o coração daquela linda ruiva lá dentro. Pensa bem no que você esta fazendo.
- Você acha que eu faço alguma outra coisa além de pensar e tentar esquecer a Joana? – Olívia perguntou revoltada.
- Eu não estou duvidando da sua vontade, Li. – Marina afagou o rosto da amiga. – É a sua determinação em ir contra o que você sente que me preocupa.
Marina a deixou sozinha com seus pensamentos. Olívia espiou para dentro do bar e viu Emilia rindo e conversando com seu irmão e sua cunhada. Até mesmo o Bola e o Tom estavam à volta, todos rendidos aos encantos daquela menina linda. Olívia sentiu um aperto dentro do peito, porque ela não conseguia ser enfeitiçada? Queria tanto estar apaixonada por Emilia que se pegava fantasiando um sentimento que não existia.
Lembrou-se de uma tarde fria em Teresópolis muitos anos antes.
“Joana estava deitada de costas sobre o tapete do quarto. Ela e Olívia estavam passando mais um final de semana na casa da tia Gigi. Olívia tinha quase certeza de que a tia desconfiava de algo, mas como ela nunca disse nada, a sobrinha preferiu deixar as coisas como estavam. Não que ela não pensasse em se assumir de vez, mas sabia o quanto isso seria difícil de encarar e sabia que se o fizesse, estaria obrigando Joana a fazer o mesmo. Ela não estava preparada, e Olívia esperaria que ela estivesse.
- Chega. Não consigo fazer isso. – Joana jogou o lápis no chão e sentou. – Eu não tenho QI para física! – Exclamou.
- Ah tem sim. – Olívia revidou sedutora. – Você entende muito bem de física. – Se aproximou e deitou sobre o corpo de Joana, forçando-a a deitar sobre o tapete novamente.
- Alguém já disse que você é muito safada? – Joana riu.
- Não. Porque eu só sou safada com você. – Olívia disse rindo e beijando o pescoço da namorada.
- Acho bom. – Joana sorriu. – E vai ser só minha pra sempre.
- Pra sempre. – Olívia jurou. – Eu amo você.
- E eu amo você. – Joana repetiu beijando-lhe os lábios. – E vou amar pra todo o sempre.
Olívia adorava ouvi-la dizer que a amava. Ia ao céu e voltava cada vez que Joana se declarava. Tomou-lhe os lábios em um beijo doce. Queria ser capaz de dizer tudo o que sentia, mas como não encontrava palavras, deixou que o seu beijo carinhoso e calmo fizesse o discurso por ela.
- Às vezes eu acho que você jogou um feitiço em mim. – Joana disse com um sorriso nos lábios, acariciando o rosto da namorada.
- Eu que fui enfeitiçada por esses olhos de amêndoa. – Declarou.
- Amêndoa? – Joana riu.
- É, amêndoa. Eles são lindos meu amor.
- Os seus são como o mar em dia de chuva. Um verde escuro poderoso e intenso. Eu amo mergulhar nos seus olhos Olie. – Passou os dedos pelo rosto amado. – Eu nunca pensei que poderia ser tão feliz assim.
Olívia sabia do que ela estava falando. Nunca havia imaginado que a felicidade para ela viria dessa forma. Sempre achou que nunca iria se apaixonar. Achava piegas e em geral que o amor não valia mesmo a pena. Via sua mãe com o idiota do seu padrasto e a achava ridícula. As historias de amor no cinema também eram repletas de clichês e situações absurdas. Mas ali estava ela, amando pela primeira e sabendo que seria a única.
- Nem eu. – Respondeu depois de um tempo.
- Eu só queria poder dizer pra todo mundo que eu te amo. – Joana soou triste. – Como é que algo tão bom pode ser errado?
- Eu não sei Jo. As pessoas não entendem essa forma de amor. – Queria tirar aquela expressão triste do rosto do seu amor. – Mas isso não quer dizer que seja errado.
- Aposto como a minha mãe sempre vai achar errado. – Joana suspirou com essa constatação.
- Talvez. – Olívia disse. – Mas você acha errado?
- Não sei Olie. – Aquela resposta feriu Olívia de uma forma insuportável. Ela perdeu o ar e girou o corpo, deixando-se cair ao lado de Joana no chão. – Olie! – Joana a chamou. – Quando eu estou com você, eu não penso em certo e errado. No meu coração é certo, porque eu te amar assim não pode ser errado, nem feio. Mas eu tenho medo do que os outros podem pensar ou dizer, ou até fazer com a gente por causa disso.
Olívia nada respondeu. Sentiu uma dor tão grande no peito que não conseguia encontrar sua voz para falar qualquer coisa. Não era a primeira vez que desejava do fundo do coração poder ser um homem para que ela e Joana pudessem andar de mãos dadas pela rua sem que ninguém olhasse torto. Queria poder pedir a mão dela em casamento, e namorar em casa como qualquer garoto poderia fazer. Claro que não disse isso a Joana. Sempre buscava ser forte perto dela, sabia que se fraquejasse, talvez Joana se assustasse ainda mais.
- Olie, olha pra mim. – Joana pediu se virando para ela.
Olívia virou o rosto e se deparou com o rosto belo da sua namorada. Aqueles olhos que tanto a fascinavam e tentou sorrir.
- Eu queria poder dizer que com a gente vai ser diferente, mas é mentira Jo. Me desculpa. Se eu não tivesse feito nada com o que eu sentia, você não estaria tendo que nem pensar nessas coisas.
- Olívia Gurgel. – Sempre que Joana dizia o seu nome inteiro assim, ela sabia que ela falava serio. – Se você nunca tivesse me agarrado naquele banheiro, eu seria a pessoa mais infeliz do mundo, portanto não diga isso nunca mais.
Olívia a tomou para si em um abraço apertado. As duas caíram no chão abraçadas e riram.
- Eu te agarrei sim, mas quem me imprensou contra a parede foi você. – Olívia disse em meio ao riso, já passando a mão pelo corpo bem feito da morena.
- Você me enlouquece, sabia? – Joana sorriu. – E eu te amo por isso. A minha vida não tinha a menor graça sem você. E pode admitindo, foi feitiço. Eu sempre soube que você era meio bruxa.
Ainda rindo elas começaram a se tocar. O que começou como um carinho, uma brincadeira, logo se tornou algo quente e excitante. Fizeram amor no chão, entre sussurros e juras de amor eterno.”
Ignorando a dor que mais uma vez a assolava, Olívia entrou no bar. Emilia a recebeu com seu sorriso característico e um beijo que poderia fazê-la esquecer do mundo, não fossem aqueles olhos de amêndoa que não a deixavam em paz.
Ao voltarem para o apartamento, Olívia se jogou sobre o colchão e Emilia a encarou.
- O que foi hein? Que você fica melancólica às vezes, eu já sei, mas hoje está mais do que o seu normal. – Emilia sentou-se na ponta do colchão.
- Não é nada minha linda. Só um pouco de dor de cabeça. – Olívia sorriu.
- Olívia... – Emilia se interrompeu.
- O que? – Olívia perguntou com medo do que poderia ouvir.
- Eu respeito que você não goste de falar sobre as suas coisas, mas se nos vamos de fato levar isso adiante, eu preciso de algum feedback. – Ela foi doce, sem cobranças, o que quebrou Olívia. Ela sabia que Emilia tinha razão, não poderia continuar levando as coisas daquela forma. Não era justo.
- Você tem razão. Não é justo que eu me feche e te deixe de fora. – Disse por fim e sentou puxando um cigarro de dentro do maço o ascendendo. – Eu estou adorando tudo o que nos estamos vivendo Emilia, mas eu tenho algumas pontas soltas na minha vida amorosa que eu preciso acertar e não estou conseguindo. – Falou olhando para as próprias mãos.
- Joana, certo? – Emilia soltou.
- Quem te falou? – Olívia perguntou desconfiada.
- Ninguém. – Parou por um segundo. – Você, na verdade.
- Quando? – Olívia não se lembrava de ter mencionado Joana para ela.
- Uma noite que você bebeu um pouco a mais há algumas semanas atrás. – Emilia admitiu. – Você me chamou de Joana quando me deitei ao seu lado. E acredite, não foi o ponto alto da minha vida.
Olívia foi até ela e abraçou.
- Desculpa Emi. Mil desculpas. – Sentiu vergonha pelo lapso. – Eu juro que nunca quis fazer você passar por isso.
- Esta tudo bem Olívia. – Disse. – Eu entendo.
- Não deveria. – Respondeu se afastando. – Eu não sei nem o que dizer Emilia.
- Não precisa dizer nada. – Emilia se ergueu. – Você ainda a ama, não ama?
- Não tem nada pra amar. – Olívia se defendeu.
- Eu não sei o que aconteceu. Eu não conheço a história de vocês, mas eu posso ver que você ainda sofre por ela. E eu não quero e nem tenho o poder pra consertar isso.
Olívia baixou a cabeça e cruzou os braços, abraçando as pernas. Sentiu-se tão frágil naquele momento, que como há muito não fazia, chorou. Isso, mais do que qualquer coisa que pudesse vir a ser dita, fez com que Emilia se aproximasse e a abraçasse. Deixou que Olívia chorasse com o rosto colado em seu peito pelo o que pareceram horas. Quando esta se acalmou, Emilia levantou e foi até a cozinha, voltou de lá com um copo de água para ela.
- Esta se sentindo melhor? – Perguntou ao afagar-lhe os cabelos curtos e desordenados.
Olívia apenas fez sinal que sim com a cabeça. Sentia-se ridícula por chorar daquele jeito, mas não conseguiu se controlar. Não queria que Emilia a deixasse, mas sabia que seria injusto pedi-la para ficar.
- Eu só quero o seu bem Li. – Emilia disse, sentando-se de frente para ela. – E infelizmente para mim, eu me apaixonei por você.
Olívia se assustou com a declaração, tentou dizer algo, dar algum sinal de que ouvira o que foi dito, mas a única coisa que conseguiu foi encará-la surpresa.
- Não precisa dizer nada. – Emilia sorriu. – Eu sabia no que eu estava me metendo.
- Eu deveria ter te dito alguma coisa. Te avisado que eu era essa confusão em forma de pessoa. Eu deveria ter me afastado de você. – Olívia sabia, no fundo sabia, que estava sendo melodramática, coisa que odiava, mas nada daquilo se parecia com ela ou com o que ela acreditava, nada daquilo, na verdade, fazia qualquer sentido.
- Você nunca precisou dizer. – Emilia segurou a suas mãos. – Eu sabia. – Abriu um sorriso que foi prontamente correspondido.
- Eu quero que dê certo entre a gente Emilia. – Acariciou o rosto de menina dela. – É o que eu mais quero, de verdade. Você é uma mulher maravilhosa, e que mexe muito comigo. Eu sei que é pedir muito, mas não desiste da gente, não ainda. Me deixa tentar ser melhor pra você.
- Li... Eu quero ficar com você, mas ficar na sombra de outra mulher, não é algo que me agrade nem um pouco.
- Eu não vou te deixar na sombra. – Olívia disse tentando convencer a si mesma. – O que eu sinto pela Joana, não me faz bem. Eu não quero mais me sentir assim. Ela desistiu de mim, eu não quero desistir de você. Deixa eu te conquistar?
- Hum, dessa proposta eu gosto um pouco mais. – Um sorriso sedutor brotou em seus lábios. – Mas a serio Olívia, eu quero mais do que você pode me oferecer agora. Não é justo que você dê mais do que tem para dar, e que eu receba migalhas do que preciso de você.
- Não, não é justo. – Olívia reconheceu.
Elas se fitaram por alguns momentos. Dentro de Olívia, dois sentimentos conflitantes brigavam por espaço. Uma parte dela queria que Emilia fosse embora e a deixasse. Assim ela poderia se entregar a sua dor, não precisaria lutar contra os seus sentimentos por Joana e ficaria livre das obrigações de um relacionamento. Por outro lado, não queria que Emilia a deixasse. Não queria ficar sozinha. Precisava da força dela, para sair da letargia em que Joana a deixou. Queria mudar a sua vida, e Emilia lhe havia oferecido esta saída.
- Vamos deitar. – Emilia falou de repente. – Nós não precisamos decidir isso agora. Eu estou fragilizada, você esta fragilizada. Vamos dormir que amanhã é um novo dia. Talvez as coisas fiquem mais claras.
Olívia sorriu e a abraçou. Elas tiraram as roupas e deitaram nuas lado a lado. Olívia a puxou para perto e abraçou, sentindo o cheiro da pele clara invadir-lhe. Ficaram por um longo tempo acordadas, apenas acariciando uma a outra. Dormiram coladas, cada uma perdida nos seus próprios pensamentos, mas buscando a segurança nos braços alheios.
Nos dias que se seguiram, Olívia cumpriu o prometido. Dedicou-se a Emilia como nunca havia feito por mulher nenhuma, com exceção de Joana, é claro. Ela sabia que não era o bastante, mas se dedicar a isso, a estava mantendo longe das lembranças, e esta era uma vitoria.
Emilia parecia fingir que acreditava naquela mudança, o que provocava culpa em Olívia. Elas viviam uma mentira, mas que era tão bem interpretada por ambas, que elas eram capazes de acreditar, nem que fosse por alguns momentos, que viviam uma relação completa.
É claro, que vez ou outra, a verdade vinha à tona. O confronto com a realidade fazia com que cutucassem feridas, gerando brigas, ou momentos de confissão. De um modo geral, eram os momentos em que se conheciam melhor. Olívia acabara por contar toda a sua historia com Joana, o que Emilia ouviu com o coração na mão, mas constatou que não queria se afastar. Estava irremediavelmente apaixonada por Olívia e queria acreditar que poderia fazê-la se apaixonar por ela. Olívia, por sua vez, queria tanto acreditar nisso, que em muitos momentos se via dizendo que amava Emilia. E talvez amasse. Um amor mais fraternal do que gostaria de sentir, mas era amor.
Capítulo 13 - Mensagem
Quase um segundo (Cazuza)
Comp. Hebert Vianna
"Eu queria ver no escuro do mundo
Aonde está o que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores e as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa?
Ás vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
Tudo que não me deixa em paz
Quais são as cores e as coisas pra te prender?
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa?"
Com o final de maio, veio o momento que Olívia tanto esperou. Seu livro seria lançado, e Letícia havia programado para ela algumas viagens para fazer a publicidade do livro.
Na noite de autógrafos, a primeira de tantas outras que viriam, Olívia se viu sentada atrás de uma mesa em uma das livrarias que mais gostava na Zona Sul do Rio. Um coquetel era servido, e vários convidados já se encontravam presentes.
Ela vestia um terninho preto com uma camisa branca por baixo. Seus amigos estavam todos presentes, e sua linda ruiva, trajando um vestido azul marinho, sorria do outro lado da livraria.
A emoção que Olívia sentiu ao assinar cada exemplar era indescritível. Há muito tempo não sentia uma felicidade tão genuína.
No final da noite, quando restavam apenas as pessoas mais próximas, ela relaxou e com um sorriso contagiante, brindou a sua vitoria mais do que merecida.
- Eu nunca tive tanto orgulho de você. – Guto revelou emocionado ao seu ouvido, dando-lhe um abraço apertado.
- Nem eu maninho. – Olívia sorriu e beijou-lhe o rosto. – Surreal.
Os dois sorriram um para o outro e Marcinha puxou a cunhada para um abraço apertado.
- Finalmente vou ler algo seu. – Declarou sorrindo.
Letícia se aproximou e elogiou o sucesso da noite. Ela trabalhava a cinco anos na mesma editora, e este havia sido sem duvidas, o seu trabalho mais gratificante. Sentia um carinho especial pelo livro e pela a autora. Um carinho que por vezes até pensou poder ser algo mais, mas que mantinha guardado a sete chaves. Era casada com um homem e nunca se imaginou estando com outra mulher, até conhecer Olívia. Mas no final, havia concluído que este era o efeito que Olívia provocava nas pessoas, não merecia ser levado a serio.
Da livraria, a festa foi transferida para o bar do Bola, que havia mantido o estabelecimento fechado em homenagem a amiga. Até porque, ele e Tom, não perderiam este momento por nada.
Emilia estava radiante ao lado da namorada, e Olívia não poderia estar se sentindo mais feliz por tê-la ao ali consigo como sentia naquele momento. Ela lhe dera apoio, segurança e espaço para curtir aquela noite tão esperada. Assim que chegaram ao bar, Olívia a puxou de lado e abraçou a ruiva.
- Obrigada por tudo, Emi. Eu te amo, sabia? – Disse no ouvido dela. – Estou muito feliz por te ter ao meu lado esta noite. – Confessou.
- E eu estou muito orgulhosa de você, Li. – A ruiva admitiu emocionada, beijando os lábios que tanto amava. – Você estava ainda mais linda e sexy. Se é que isso é possível.
- Você gostou, é? – Falou provocante. – Eu posso fazer uma sessão de autógrafos só pra você em casa.
- Eu vou cobrar. – Emilia a beijou com devoção. Não era capaz de resistir a Olívia.
- Chega com essa pegação. – Nina se aproximou das duas. – Vamos entrar que a festa lá dentro não é a mesma sem a convidada especial.
As duas sorriram para a amiga e entraram no bar sob os aplausos dos amigos e convidados que já haviam tomado conta das mesas.
Paula estava ao lado da sua nova namorada, Lara. Olívia ainda estava avaliando se aprovava de fato o novo amor da sua ex, mas estava feliz por vê-la radiante daquele jeito. Em outra mesa, avistou Theo com Hugo. A cada semana ele lhe apresentava o amor da sua vida, e ela desistira de discutir. Na verdade Theo não conseguia se prender a ninguém, mas lutava contra isso diariamente.
Guto e Marcinha dividiam a mesa com Bola, Tom e Nina. Letícia e o marido, um homem bonito, mas que Olívia sempre achara sem graça, também estavam presentes.
- OK. Hora do discurso. – Guto gritou, no que foi acompanhado por todos os outros.
Olívia tentou fugir, mas Emilia segurou sua mão e a incentivou. Por fim, subiu em uma cadeira de frente para as mesas do bar, e encarou o seu pequeno publico.
- Vocês poderiam ao menos ter esperado eu beber um pouquinho antes disso. – Brincou. Ela respirou fundo e encarou os rostos daquelas pessoas que significavam tudo para ela, e deixou a emoção fluir. – Hoje foi uma das noites mais bonitas da minha vida. A celebração de uma conquista que não é só minha. – Sorriu para os presentes, e continuou. - É do Guto, por me aturar nos dias em que me enfio no quarto e não falo com ninguém. Da Letícia que nunca desistiu de mim, mesmo quando eu desistia. Da Paula, que foi a primeira pessoa a ler algo escrito por mim e de fato acreditar que eu era capaz, muito antes de mim. Nina, que é a personificação de melhor ser humano no mundo que eu conheço. Bola, Tom... O que seria da alma dessa escritora sem vocês? – Todos riram. – E de você, minha linda. – Falou olhando para Emilia. – Por estar ao meu lado durante este processo final e por me fazer tão feliz. Obrigado a todos vocês meus amigos. Sem vocês eu nada seria. – Ela desceu da cadeira, e voltou a subir. – Ah, ao Theo. Meu companheiro para todas as horas e a maior inspiração para criar o Carlos, meu personagem mais controverso e amado.
Em meio ao riso dos amigos e aplausos, Olívia foi juntar-se a eles nas mesas. Sentia que tudo estava perfeito. Todos riam e se divertiam. Saiu para fumar um cigarro, deixando Emilia em meio a uma discussão sobre arte moderna com Theo, que sempre achava que era entendido em qualquer assunto.
Tirou o maço do bolso, e com ele o celular. Percebeu que havia algumas mensagens de ligações perdidas e outras mensagens de texto. A primeira era da Manu lhe parabenizando. A tinha convidado para o lançamento, mas ela não pode ir. E logo abaixo, uma mensagem de um remetente com número de Teresópolis. Não o reconheceu, mas o frio na barriga lhe indicou de quem poderia ser.
Lá estava. Pensara nela a noite toda. Tentou mantê-la longe da sua mente, mas seu coração a todo o momento a traía, e logo se via lembrando dela, imaginando o que ela diria e em como seria tê-la ali ao seu lado.
A mensagem era curta, mas efetiva: “Eu sempre soube que este dia iria chegar. O topo do mundo é seu. Daria tudo para compartilhá-lo com você. Te amo!” Não, ela não precisava assinar. Olívia sentiu a saudade comprimir-lhe o peito. Vinha lutando com todos os sentimentos, pensamentos, lembranças, mas sua guarda estava baixa, e a enxurrada de sensações que a invadiram, poderiam destruir uma cidade.
“Fazia calor. Um dia atípico de primavera. No fundo de uma sala de aula vazia do segundo andar, e em meio a cadeiras, armários e mesas antigas, Duas meninas saboreavam o prazer de matar aula.
Olívia vestia a blusa do uniforme que Joana havia arrancado na pressa de sentir o corpo da namorada junto ao seu. Elas haviam faltado à aula dupla de educação física para namorar. Não conseguiam um momento só para elas há algumas semanas, e a saudade já extrapolava as suas medidas de segurança quando estavam em meio a outras pessoas. Viviam procurando uma desculpa para sentarem perto uma da outra, pequenas trocas de caricias e os olhares que se tornavam cada vez mais indecentes.
- Você tem certeza que trancou a porta, né? – Joana perguntou, enquanto abotoava a calça jeans.
- Sim, eu tenho. E você só pensou nisso agora? – Olívia sorriu. – Eu adoro quando você esta com esse fogo todo. – Se aproximou da namorada, e tomou-lhe os lábios em um beijo ardente.
- A saudade estava me matando. – Admitiu, deitando a cabeça no ombro da sua namorada e afundando o nariz no pescoço dela. – Não agüento ficar sem te tocar.
- Não fala assim... – Olívia sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. – Você acha que eu agüento?
- Não vejo a hora de terminar o colégio e ir embora com você pra bem longe. – Joana disse se desvencilhando do abraço e recolhendo o restante das suas roupas pelo chão. – Não ter que dar satisfação pra ninguém e poder te amar toda hora.
- Nós vamos ter tudo o que a gente quiser Jo. – Olívia a abraçou por trás. – Eu prometo.
- Eu sei que a gente vai. – Joana se virou sem sair dos braços dela. – Até porque você ainda vai ser muito famosa. Vai publicar vários livros e nós vamos morar um uma casa linda, com um jardim grande e cheio de arvores.
- É? – Olivia beijou-lhe a ponta do nariz.
- É. – Joana retribuiu. – Você escreve muito bem, Olie. Vai chegar ao topo do mundo.
- Você falando assim eu vou até fingir que acredito. – Olívia disse com o rosto vermelho.
- É a mais pura verdade, amor. – Joana a puxou mais pra perto. – E eu vou estar lá pra te aplaudir de pé.
- Eu te amo, sabia? – Olívia se derreteu naquele olhar.
- Eu amo mais. – Joana respondeu com os lábios colados nos dela.”
Não era justo. Olívia pensou quando conseguiu respirar novamente. Não era justo que ela se fizesse presente em um momento como aquele. Sentiu raiva. Por que ela não a deixava em paz?
Fumou outro cigarro tentando se acalmar, e quando voltou para dentro do bar, foi direto a mesa onde seu irmão estava sentado com a namorada.
- Marcinha, será que eu posso falar com você? – Olívia tentou disfarçar a turbulência que ocorria dentro dela, mas não foi tão eficaz. Marcinha concordou e se ergueu de imediato, tentando entender o que se passava na cabeça da cunhada. Guto fez menção de segui-las, mas Olívia o impediu. – A gente já volta.
Marcinha a seguiu até o lado de fora do bar e se virou esperando que Olívia lhe dissesse o que estava acontecendo, mas ela apenas se encostou à parede do lado de fora e parecia ter dificuldade para respirar. Marcinha se preocupou.
- Olie? Esta tudo bem? – Se aproximou tocando-lhe o ombro.
- Não. – Conseguiu dizer com dificuldade. Sentia a onda que queria atravessá-la e tentava refrear. – Só um segundo. – Pediu abaixando a cabeça e se deixando cair até sentar no meio-fio. Marcinha se acomodou ao lado dela acariciando-lhe os cabelos.
- Você quer que eu chame alguém? – Marcinha estava tensa. Olívia parecia passar mal e ela não sabia o que fazer.
- Não. – Olívia gemeu. – É com você que eu preciso falar.
- Ok. – Marcinha concordou e esperou.
Olívia voltou a sentir sensibilidade nas extremidades do corpo e sua respiração retornou ao normal. Antes de dizer qualquer coisa, mostrou a mensagem para Marcinha que apenas suspirou. Ela não parecia surpresa.
- Você contou pra ela que era hoje? – Perguntou tentando se manter sob controle.
- Contei. – Olhou Olívia nos olhos e percebeu o ódio que ela sentia. – Desculpa Olie. Eu nunca imaginei que ela faria isso.
- Por quê? Por que você contou? – Estava irada.
- Ela perguntou. – Marcinha disse enfim. – Eu nunca imaginei que ela iria tentar falar com você. Ela prometeu que não o faria.
- Você anda mantendo ela informada sobre a minha vida? É isso? – Olívia não podia acreditar naquilo. Sentiu-se traída.
- Olie... eu juro que nunca tive a intenção de me meter na historia de vocês. Eu fui arrastada pra isso.
- Jura? – Olívia se ergueu, mas Marcinha não a acompanhou. – E isso não é se meter? Eu estou finalmente dando um rumo pra minha vida. Pela primeira estou me sentindo bem desde que... – se interrompeu. – E aí isso?
Marcinha não sabia o que dizer. Na verdade sabia, mas não podia. Olhou com pena para a cunhada, o que deixou Olívia ainda mais irritada.
- Pra que? O que ela quer com isso? Ela me deixou. – Bradou. Sentia-se humilhada, envergonhada por se sentir daquele jeito. Por não ser capaz de controlar aquele sentimento absurdo que ainda nutria por Joana.
- Os motivos dela, são os motivos dela. – Marcinha disse se erguendo. – Mas você tem razão, eu não deveria ter dito nada.
- Isso não faz nenhum sentido. – Olívia levou as mãos à cabeça. – Ela vai embora dizendo que me ama e que quer ficar comigo. Aí me deixa no escuro por mais de um mês, manda uma carta pra dizer que não quer mais, mas continua querendo saber da minha vida e agora isso? – Apontou para o celular. – O que ela quer? Me enlouquecer? Isso é doentio. Se ela não me quer, porque não me deixa em paz? – Perguntou mais para si mesma do que para Marcinha que assistia ao desabafo de Olívia sentindo o coração apertado. Aprendera a amar a cunhada e não queria vê-la sofrendo daquele jeito.
Olívia andou de um lado para o outro da rua. Sentia uma dor dilacerante no peito, que se juntava ao ódio que ela sabia bem, ser o espelho do amor que sentia por Joana.
Em silencio, Marcinha esperou ela se acalmar, mas quando Olívia parou de andar, foi um soluço sofrido que deixou o seu peito. O choro não pediu licença, não se anunciou. Apenas se desprendeu. Necessidade física. Era o contrario de respirar, precisava deixar fluir.
Sem saber como agir, e com medo que alguém visse Olívia daquele jeito, puxou a cunhada até a outra esquina, onde a uma mesa do bar vizinho ao Bola, a sentou e deixou chorar. Afagou-lhe os cabelos e pediu uma coca-cola para as duas. Fez com que Olívia bebesse um pouco e esperou. Sabia que teria que contar um segredo que vinha guardando a sete chaves, mas não era justo que Olívia sofresse daquele jeito, e ela era a única que naquele momento poderia aplacar um pouco daquela dor. Joana teria que perdoá-la, mas a verdade, é que ela pedira por aquilo, por mais que falasse o contrario. E para ser sincera, Marcinha acreditava que era um direito da Olívia saber todos os fatos, por mais que Joana negasse e justificasse dizendo que a estava protegendo.
- Esta se sentindo melhor? – Perguntou quando Olívia ergueu o rosto molhado de lagrimas.
- Um pouco. – Respondeu fracamente. – Preciso voltar pra lá.
- Eu sei, mas antes eu preciso te contar algo. – Marcinha disse nervosa.
- Marcinha, se é sobre a Joana... eu entendo. Vocês são amigas e eu não quero me meter nisso. Só pede pra ela me deixar em paz, ok?!
- Na verdade é sobre a Jo, mas é sobre você também. E se eu não falar agora, não vou ter coragem depois.
Olívia a encarou e aquela menina doce e sorridente estava mais seria do que o normal. Não queria ouvir, e ao mesmo tempo, era o que mais queria. Qualquer coisa relacionada à Joana lhe interessava intensamente. Jogando para o alto toda a cautela que vinha construindo nos últimos meses, fez sinal para que Marcinha continuasse.
- Eu queria ter te contado tudo desde o princípio. Bom, talvez não na época, porque de certa forma entendia os motivos dela, mas quando te vi sofrendo desse jeito, eu pedi que ela viesse falar com você, que te explicasse, ela não quis. Ela acha que é melhor para você que ela simplesmente fique longe. Eu discordo. E hoje, bom hoje ela me deu mais do que motivos para abrir o jogo.
- Fala Marcinha. Você esta me enrolando de novo. – Olívia tentou fazer graça, mas nada daquilo era engraçado.
- Quando nós voltamos para Terê depois daquela semana, a Jo recebeu uma notícia que a deixou completamente desnorteada. – Marcinha fez uma pausa para beber mais um gole da coca. – O André estava esperando por ela na rodoviária, e eu nunca o vi tão abalado. Isabela, a filha deles, havia tido o que eles acreditavam ser uma gripe mais forte um pouco antes de nós virmos para o Rio. A Jo quase deixou de fazer a prova, mas como a Bela tinha melhorado e o Andre insistiu, pois sabia da importância do concurso para ela, Joana acabou vindo.
“Bom, por ser médico, e Graças a Deus, paranóico, André fez todos os tipos de exames e testes para saber o que a Bela tinha tido. Ele descobriu enquanto a Jo estava aqui, que a Bela estava com câncer. Leucemia para ser mais exata.”
Olívia sentiu o mundo girar. Não precisava de mais nenhuma explicação para o que Joana havia feito. Sentiu dor pela dor dela. Não tinha filhos, mas só de imaginar a mulher que ela amava passando por uma provação como esta, seu corpo todo reagiu. Queria protegê-la. Queria poder abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Olhou para Marcinha e viu que ela também estava emocionada.
- Porque ela não me disse nada? – A voz saiu embargada, presa.
- Porque ela não se achou no direito de te colocar no meio dessa historia. – Acariciou a mão da cunhada, que retribuiu apertando os seus dedos entre os seus. – Ela ficou completamente perdida. Demorou duas semanas para me contar e só o fez porque eu a peguei chorando no banheiro da escola.
- Como ela esta? A Isabela? Já começou o tratamento? – Olívia sentia-se frágil e completamente perdida com essa noticia.
- Já. Ela foi diagnosticada bem no início e já fez duas sessões de quimioterapia. Eles estão torcendo pra que ela não precise do transplante, e parece que tudo caminha para isso. – Marcinha a tranqüilizou. – O que você precisa entender Olie, é que a Jo não tinha condições de resolver nada na vida dela. Ela entrou em pânico quando soube da doença da filha e vem lutando contra isso da melhor forma possível. E mesmo que ela sofra com a distância entre vocês, porque ela sofre e sofre por saber que você esta sofrendo, ela meteu na cabeça que não tinha o direito de te arrastar para a vida dela agora.
- Ela tinha que ter me falado Marcinha. – Olívia disse. – Ela achou que eu não entenderia? Que eu não ficaria do lado dela? Porque eu ficaria. Eu daria tudo para estar ao lado dela neste momento. Alias, eu ficaria ao lado dela pra sempre, se ela me deixasse.
Marcinha a olhou emocionada. Já fazia um tempo que ela tinha se dado conta da pessoa maravilhosa que Olívia era. Era generosa, apaixonada, e tudo o mais que o Guto sempre dissera que ela era, mas que Olívia tentava tanto esconder, que Marcinha não conseguia enxergar.
- Eu sei Olie. Mas ainda assim, a Jo não queria bagunçar a sua vida. Ela e o Dé não estão mais juntos, mas ainda vivem na mesma casa por causa da Bela. Ele é um bom homem Olívia. E um excelente pai. – Olivia apenas concordou. – Ela sentiu que não tinha nada para te oferecer. Ela diz que fica feliz por você estar bem, mas eu vejo o quanto ela sofre por não poder estar com você.
Olívia não sabia o que pensar, ou o que sentir. Entendia o que Joana havia feito, ainda que não concordasse. E a sensação de saber que o seu amor era recíproco, era como se enfim seu coração parasse de orbitar em volta dos outros órgãos do seu corpo, e se encaixasse na caixa torácica, tendo os pulmões por companhia.
- Eu preciso vê-la. – Olívia falou se levantando.
- Olie. – Marcinha a chamou. – Desculpa dizer isso assim, mas a Emilia esta te esperando aqui ao lado. Não só ela, mas todos os seus amigos.
Olívia levou um banho de água fria. Pensar em Joana e saber que ela sentia o mesmo que ela e que também sofria estando longe, a tinha feito esquecer de todo o resto. Sim, tinha Emilia. Emilia que ficara ao lado dela apesar de todos os seus rompantes e momentos de depressão. Emilia, a quem ela havia prometido aprender a amar e fazer feliz. Ela não podia simplesmente deixá-la ali e ir atrás de Joana.
Respirando fundo, Olívia acendeu mais um cigarro. Marcinha, por fim, filou um cigarro da cunhada.
- Eu te mato se você contar para o Guto. – Ameaçou.
Olívia sorriu. E como era bom poder sorrir sentindo seu coração mais calmo.
- Você tem razão. Eu não posso fazer isso com a Emilia, mas eu preciso falar com ela. – Pegou o celular. – Você me cobre por alguns minutos? – Pediu.
- Claro. Vai lá. – Marcinha sorriu para ela.
Olívia se afastou com o celular na mão e o coração palpitando dentro do peito. Parou um pouco adiante de onde ainda via Marcinha sentada a mesa do pequeno bar. Discou os números e esperou.
Joana estava arrumando a sala. Bela havia demorado para dormir. Estava agitada por causa de uma apresentação na qual havia participado na escola. Ficava feliz em ver a filha encarando tudo com tanta leveza. Sempre fora uma criança alegre, e isso não mudara. Mesmo tendo perdido os lindos cabelos castanhos, se divertia com os chapéus que Joana e André haviam comprado para ela.
Estava terminando de colocar os brinquedos dentro do baú que ficava na sala, quando ouviu seu celular tocar. Era tarde e não esperava nenhuma ligação, por isso quando viu o numero ali registrado, seu coração parou. Pensara nela todos os dias e horas desde que se separaram, e mais intensamente ainda naquela noite. Estava orgulhosa dela e com uma saudade imensa. Demorou ainda alguns segundos para atender, mas enfim o fez.
O silêncio pairou assim que Olívia ouviu a respiração do outro lado. Queria ter certeza de que era ela na linha antes de falar qualquer coisa. Mesmo Marcinha tendo dito que ela o marido não estavam mais juntos, eles ainda viviam sob o mesmo teto. Não queria correr o risco de ser ele a atendê-la.
- Oi. – Joana disse por fim. As lagrimas já corriam pelo seu rosto. Não resistira ao mandar a mensagem, por mais que imaginasse que Olívia estivesse com ódio dela, ela tinha ligado. Precisava ouvir a voz rouca mais uma vez.
- Oi. – Olívia disse com o coração na mão.
- Parabéns por hoje. Eu sabia que você iria conseguir. – Joana falou. Tinha tanto medo do que poderia ouvir, mas precisava ouvir mais.
- Obrigada. – Olívia disse com a voz embargada. Pela segunda vez naquela noite, sentia as lagrimas deixarem seus olhos. – Recebi sua mensagem.
- Desculpa. Eu queria tanto ter estado aí. – Joana admitiu. Sentia-se vulnerável. A queria tanto. A amava tanto.
- Eu queria você aqui. – Falou emocionada.
- Olie... – as lagrimas já se perdiam pelo seu pescoço, roupa. Sentou-se no sofá. – Eu sinto tanto...
- Eu também, minha linda.
Joana soube então que ela sabia. Marcinha havia contado. Olívia era orgulhosa demais para ligar assim. Ela sabia. Joana não sabia se ficava irada com a amiga ou agradecia. Como era bom falar com ela.
- Você sabe. – Não foi uma pergunta. Era uma constatação.
- Sei. E em defesa da Marcinha, eu pirei quando recebi a sua mensagem. Ela só quis ajudar. – Explicou e esperou pela reação da Joana.
- Eu vou matar aquela baixinha. – Falou carinhosa. – Desculpa não ter te dito nada.
- Você devia ter me contado Jo.
- Eu não pude. – Joana chorava sem parar.
- Não chora meu amor. – Olívia sentia-se impotente. Queria estar ao lado dela, tomá-la em seus braços e nunca mais soltar. – Como ela esta?
- A Bela? Ela esta bem. Esta superando. – Falou com um sorriso na voz que deixou Olívia de pernas bambas.
- Eu queria ter estado ao seu lado, amor. Você não precisava ter passado por isso sozinha.
- Eu precisava Olie. – Discordou Joana. – Você tem a sua vida e este é um problema meu.
- Jo, você é problema meu. – Olívia disse carinhosa. – Quando é que você vai entender que eu te amo?
- Não fala assim. – Joana pediu com a voz pequena, tímida, abafada pela dor da saudade e o medo de se deixar levar.
- Falo porque é verdade. – Olívia sentia a mesma dor. – Preciso te ver. – Falou de súbito.
Joana nada respondeu. Não sabia como dizer que não podia. Queria tanto. Sentia tanta falta dela, mas este certamente não era o melhor momento. Estava perdida no som da respiração de Olívia que esperava por alguma resposta sua, que se assustou quando ouviu os passos na sala. André esfregava os olhos e parou em frente a ela.
- Quem é a esta hora amor? – Perguntou sonolento.
- Ninguém. Eu já vou deitar. – Respondeu, tentando tampar o bocal, mas não adiantou. Olívia já tinha ouvido e desligado.
Joana olhou para o aparelho em sua mão e sentiu o peito a se rasgar. Tinha feito Olívia sofrer mais uma vez. Parecia ser a única coisa da qual era capaz. A mulher que amava, o seu único amor, e ela só a machucava.
Capítulo 14 - "... mas com você, dá certo."
Olívia sentiu o mundo ruir ao seu redor. Fechou o celular e o jogou longe. Como podia ter sido tão estúpida? Como poderia acreditar em qualquer coisa que viesse de Joana? É claro que a historia de ter se separado do marido era mentira. Ela devia ter dito isso a Marcinha para conseguir mais informações sobre a vida dela. Era sádico o prazer que a Joana parecia ter de destruí-la.
Andou até o bar do Bola, e o olhar dela cruzou com a da Marcinha, que já havia voltado para o lado do Guto. Nada foi dito, mas pelo jeito que Olívia agia, a conversa não havia sido boa. Marcinha bufou. Nunca vira duas pessoas mais cabeças duras para o amor do que aquelas duas. Por que elas não se acertavam de vez?
- Uma gelada Bolinha. – Olívia pediu sentando-se em um banco no bar.
- Uma gelada saindo. – Bola lhe sorriu e serviu um copo para ela e outro para ele. Como a festa era fechada, ele bebia junto com os convidados. – Onde a senhorita se meteu, hein? Não vai me dizer que estava com outra do outro lado da rua?! Cuidado menina, assim você vai acabar sozinha. – Ele lhe repreendeu divertido.
- Nada disso Bola. – Mentiu. Porque a verdade é que estava do outro lado da rua colocando o seu coração nas mãos de outra mais uma vez. – Só retornando algumas ligações de amigos que não puderam ir hoje.
- A Emilia perguntou por você. – Apontou para a ruiva que vinha agora em direção a eles com um sorriso, mas que Olívia conhecia bem para saber que mascarava uma desconfiança.
- Estava onde, amor? – Ela perguntou. E foi a forma como a chamou que lhe atingiu. Como ela podia julgar Joana tão duramente quando também não estava sozinha. Bom, era bem diferente, pensou.
- Telefone. – E lembrou-se que o havia isolado. – Que eu perdi. – Concluiu.
- Como assim? – Emilia indagou se aproximando e deixando-se abraçar por Olívia que inventou uma historia mirabolante sobre estar ao telefone com a sua orientadora e ter sido roubada por um pivete assim que desligara.
Emilia fingiu acreditar e Olívia percebeu, mas não tentou convencê-la. Sua cabeça estava cheia, precisava urgentemente ficar sozinha, mas àquela noite não seria possível.
Quando todos foram embora, Olívia decidiu parar de beber. Tinha bebido muito, mas não estava nem um terço tão tonta como tentou convencer a todos. Deixou-se ser carregada para casa pelo irmão, fingindo estar mais alterada do que realmente estava. Guto a depositou na cama e Emilia a ajudou a se trocar. Caiu na cama deixou a outra acreditar que dormia profundamente. Não conseguiria olhar para ela inventar mais mentiras. Era mais fácil assim.
Os dias que se seguiram foram um martírio a parte. Lutava contra a vontade de ligar para Joana e tirar satisfações, com o restinho de amor próprio que ainda possuía. Marcinha ficara chocada quando Olívia a abordou e contou o que tinha acontecido durante a conversa dela com Joana.
- Eu juro que não sabia que eles tinham se entendido. Você tem certeza, Olie? – Ela disse na tarde, em que estando sozinhas somente as duas em casa, Olívia decidiu lhe contar tudo.
- Claro que eu tenho Marcinha. Estou me sentindo uma imbecil por achar que ela não amava o marido. – Suspirou. – Mas isso não importa mais. Eu cansei das porradas consecutivas. Vou recolher o que me resta de orgulho e seguir em frente como eu vinha fazendo. A verdade é que a Joana tem o dom de me deixar por baixo. Como eu posso amar alguém assim?
- Eu tenho certeza que existe uma explicação pra isso, Olie. – Marcinha ainda tentou convencê-la. – E vamos combinar, você não tem mais nem um celular para ela falar com você.
- Isso não é desculpa. Se ela quisesse falar comigo, teria ligado pra você. – Olívia deixou claro que já havia coberto todas as possibilidades e que estava mais do que convencida de que amava sozinha e que não tinha vocação para mártir.
Se Emilia tinha estranhado o comportamento da namorada na noite do lançamento do livro, não dissera nada. As duas mantinham a relação como antes, apesar de Olívia ter se tornado um pouco mais distante nos dias que se seguiram, Emilia tentava não pensar no que poderia ter ocasionado tal mudança. Olívia ainda estava ali com ela, e por mais incrível que pudesse parecer, isso bastava.
Na noite que antecedeu a ida de Olívia para São Paulo, Guto e Emilia decidiram fazer uma festa de despedida, já que esta seria apenas a primeira parada da escritora, na divulgação do seu livro.
Pensaram em armar a festa no Bar do Bola, mas por fim, decidiram fazer uma pequena reunião no apartamento dos dois, desta forma, Olívia não desconfiaria de nada.
Por volta das oito da noite, a sala estava arrumada com mesas e cadeiras de bar que o Bola havia emprestado, faixas de cartazes produzidos por Nina e Theo, e a geladeira repleta de cerveja gelada, e aperitivos espalhados pela cozinha, uma cortesia do Tom.
Na parede principal, um mural montado por Emilia, com fotografias das cidades por onde ela iria passar, a capa do livro, assim como o convite da noite de autógrafos, um flyer e fotografias de Olívia desde pequena com a família e os amigos.
Assim que adentrou o apartamento, e se deparou com a surpresa, Olívia ficou estática, seu primeiro pensamento foi, como poderia escapar dali? Não que logo não tenha sido substituído, por um sentimento bom, quente, de felicidade, de amor. Aquelas pessoas ali reunidas, estavam entre as mais importantes da sua vida. Seus amigos poderiam não ser muitos, mais eram os melhores.
Se deixou ser abraçada por cada um deles, e um sorriso emocionado, sincero, se prendeu em seu rosto, ainda que os olhos espiassem desconfiados, como estando em busca de uma saída, um refugio. Ansiava pela solidão que vislumbrava a frente. Teria tempo para pensar. Juntar as peças que pareciam faltar naquele tabuleiro.
- Vou sentir sua falta. – Guto disse, anormalmente sério, ao ouvido da irmã em meio ao abraço.
- Também mano. – Respondeu carinhosa. Sabia que a mudança de Marcinha para o Rio, estava mexendo com ele. Não de uma maneira ruim, apenas nova, e queria estar perto para apoiá-lo. – Skype. Sempre que precisar, ou apenas quiser falar besteiras.
- Eu sei. – Ele sorriu e a soltou. – Isso serve pra você também.
Olívia concordou com um menear de cabeça, sem conseguir encará-lo. Não, ela não pediria ajuda.
Os abraços que se seguiram, carinhosos, com palavras de incentivo, ela aceitava de peito aberto. Era reconfortante saber que não estava sozinha, que eles estariam sempre lá para apoiá-la. Era a ajuda voluntária, sem cobranças que ela tanto precisava.
Emilia foi a ultima. Tentando parecer displicente, mas Olívia podia perceber, o esforço que ela fazia para tornar tudo natural, quando estavam longe disso, quando a distancia já havia feito sua marca, como um abismo que se abre, repleto de questionamentos e dúvidas de ambas as partes.
- Não queria que você fosse embora sem uma despedida apropriada. – A ruiva lhe sorriu, daquele jeito moleque, livre, que tanto a havia encantado quando se conheceram.
- Eu amei. – Disse sabendo que era verdadeiro. – Obrigada.
Se olharam por apenas alguns segundos. Vontade de dizer, medo de ouvir. Um duelo silencioso que travavam com elas mesmas, e que foi interrompido pela voz do Theo.
- Eu quero propor um brinde, - todos se voltaram em direção a ele. – À minha amiga, irmã emprestada, alma gêmea assexuada, - todos riram. – eu só gostaria de dizer, o quanto eu sinto orgulho de você, mas quero você de volta o mais rápido possível, porque esse viado aqui, não consegue viver sem você.
- Eu volto Theo. – Olívia respondeu sorrindo para o amigo. – Mas eu tenho certeza que você sobrevive sem mim. Seja com o Caio, o Beto, o Hugo, o Marção, o Breno de Madureira, ou o Zeca da Farme, você se vira bem.
Ele a olhou com uma expressão ofendida, até transformá-la em um deboche, e rindo revidou:
- Você brinca, mas a sua situação é muito pior. Você vai viajar comprometida, e sem a namorada. Quero ver você se virar com essa! – Brincou, sem perceber o quanto aquilo também pesava.
Olívia sentiu o olhar de Emilia sobre ela, e se calou com um sorriso forçado e uma expressão despreocupada, e que de tão acostumada a usar, lhe saiu fácil. Se voltou para a cunhada, que havia se aproximado dela entregando-lhe uma cerveja, e decidiu prorrogar o embate que via se tornar ainda mais necessário, com a ruiva.
Durante toda a noite, ambas se evitaram, nada drástico, ninguém parecia perceber de fato, com exceção de Marina talvez, Olívia não saberia dizer, a amiga parecia sempre perceber tudo o que ocorria a sua volta, mas que lhes era incomodo.
Parou pela primeira vez, para reparar no mural que Emilia havia feito. Era lindo, e a fazia sentir ainda mais culpada com relação à namorada. A delicadeza, o bom gosto, o jeito solto e alegre, que Emilia esbanjava, o seu olhar sobre as coisas, tanto artisticamente, como humano, sensível, tudo isso gritava amor, de uma forma que assustava Olívia, a fazia se questionar sobre cada ação, cada pensamento, tudo o que vinha fazendo de errado com aquela menina.
Passando os olhos pelas fotografias, se deparou com uma imagem dela com talvez, dezesseis anos, não saberia precisar, em que ela estava abraçada a Joana e a Ligia, com Clara e Thais a volta. Lembrava bem do dia em que estava foto havia sido tirada.
As aulas chegavam ao fim, e como todos os anos, um churrasco era feito pelos alunos da turma, uma espécie de comemoração pelo ano que findava e as provas que haviam acabado. Se tinham passado de ano ou não, isso pouco importava, era o recesso que eles tinham, e precisava ser comemorado.
Clara, como sempre, levara bebida escondida sob a roupa, o que Olívia tentava entender. Seria fisicamente impossível que ela tivesse conseguido este feito, já que munida de uma blusa justa, e com a barriga de fora, e uma saia jeans apertada e curta, não havia espaço para uma garrafa de vodka passar despercebida.
De uma forma ou de outra, estavam as cinco reunidas, brindando com um pouco mais do que apenas refrigerante, o ano que findara, e as férias que estavam para começar.
Joana e Olívia estavam dando os primeiros passos naquela relação, e tudo ainda era novo e excitante. Se perdiam por horas uma nos olhos da outra, travando uma batalha perdida. Querendo muito mais do que eram capazes de verbalizar, e descobrindo a cada dia, uma nova face, um novo detalhe, um sentimento, um sentido uma da outra.
A certa altura da noite, Joana a puxou para perto de um galpão onde guardavam as bebidas. Contornando o espaço, a prensou contra a parede, colando seu corpo junto ao dela.
- Você enlouqueceu? – Olívia perguntou baixinho, se recobrando do susto, e começando a achar graça na atitude da outra.
- Não resisti. – Joana confessou, conseguindo ser ao mesmo tempo tímida, e incrivelmente sedutora. – Precisava de um beijo seu.
Sem demora, colou a sua boca na de Olívia, que correspondeu com toda a vontade que tinha dela, invertendo a posição dos corpos, e a imprensando contra a parede, deslizou seu joelho por entre as pernas dela, até atingir seu sexo, fazendo com que um gemido brotasse dos lábios da morena.
- Jo, eu não vou conseguir ficar apenas com um beijo. – Disse sem ar, quando as bocas se separaram.
- Eu sei Olie. – A puxou para perto novamente. – Saudade de dormir com você. – disse vermelha pela declaração, que naquele momento, julgou ousada.
- Dorme lá em casa hoje. – Olívia propôs, se agarrando aquela declaração que fez seu coração bater mais rápido. –O Guto está na casa do meu pai, eu tenho o quarto só pra mim.
- Minha mãe não vai deixar. – Joana abaixou a cabeça.
- E eu dormir lá com você? – Perguntou sem jeito, quase sem coragem, num impulso que sabia ser responsabilidade dos seus hormônios descontrolados. Nunca dormira na casa dela. Não na condição de namorada. Como amigas, também já fazia um tempo, e só posteriormente na vida, Olívia se deu conta que ela que se afastara, quando não suportou mais estar tão perto, querê-la tanto, e não poder.
- Eu posso perguntar. – Joana se animou. – Isso é bem mais provável de ela deixar.
Olívia sorriu ao perceber a ingenuidade de Joana ao aceitar a sua proposta. Lhe foi natural, como algo que já deveria ter sido feito. Sentiu o medo se dissipar, e somente a sensação gostosa de tê-la ali a preencheu.
Olívia voltou a grudar o seu corpo no dela, e descendo a mão pela nuca, agarrou os seus cabelos, e a puxou para um beijo intenso, que apesar de surpresa, Joana retribuiu a altura, se enroscando ainda mais a ela, e deixando que as mãos, explorassem o corpo junto ao seu.
Não resistindo, Olívia desceu a mão por sobre o sexo de Joana, que arfou, tremeu. Seu sexo pulsante nas mãos de Olívia, a levava ao delírio. Sentindo que a permissão havia sido dada, Olívia abriu o botão da calça dela, e colocou a mão por cima da calcinha, fazendo com que Joana amolecesse nos seus braços, sem para de se mover, Olívia afastou a calcinha dela de lado, e a tocou, sem penetrar, apenas a excitando, deixando ela ainda mais molhada, a lhe morder o ombro, em uma tentativa de controlar os gemidos, abafá-los.
Olívia se sentia encharcada, com o gozo eminente, assim como a sua morena. Pegou uma das mãos dela, e levou ao seu sexo, por cima da calça, e Joana a entendendo, abriu o botão da calça de Olívia, e sem cerimônias, adentrou a calcinha, sentindo o sexo encharcado em sua mão, aumentando ainda mais o prazer que já sentia.
Juntas, chegaram ao gozo, sentindo um prazer imenso, com os corpos colados, as respirações arfantes, os sentidos embaralhados e sensíveis. Se beijaram com paixão, querendo eternizar cada segundo, cada sensação, sabendo que eram as primeiras de muitas que estavam por vir, e queriam saborear cada uma delas.
Só pararam, porque o barulho a sua volta, as trouxe de volta a realidade. Entre sorrisos cúmplices, mãos suadas, e a excitação a flor da pele, voltaram para a festa, sem serem capazes de reprimir os sorrisos, olhares, e rostos em chamas pelo desejo contido.
A primeira noite na casa de Joana foi preenchida por sussurros, gemidos abafados pelo edredom e travesseiros, corpos suados, se descobrindo, explorando, com mãos, língua, lábios, cada pedaço do corpo cobiçado, amado. O gozo foi conseqüência do prazer da descoberta, a respiração partilhada, os toques, o carinho que veio depois, isso era o que importava àqueles corações, que pela primeira vez, descobriam a intensidade de amar.”
Olívia reprimiu o efeito que a lembrança deixara, e sorriu para a foto. Era uma doce lembrança, de uma época em que amar, parecia tão mais fácil. Ou então ela só era capaz de perceber isso agora por já ter vivido tudo o que viveu. Certamente, nada no amor nunca foi fácil.
Como todos sabiam que Olívia precisaria viajar cedo, pela meia noite, a festa se deu por encerrada. Guto e Marcinha, com a intenção de dar maior privacidade para as duas, decidiram sair para dançar com Theo em uma casa de samba. Como era um dia de semana, o Theo não se importou em abrir mão da caça, deixaria isso para o sábado.
Assim que todos saíram, Olívia se viu sozinha com Emilia, e um olhar foi tudo o que precisaram. Ao mesmo tempo, com uma sintonia incrível, pelo pouco tempo de convivência, se aproximaram, e em um abraço diminuíram a distancia, tentavam selar o abismo entre elas.
O clima tenso que as acompanhava há dias, havia se intensificado com a eminência da separação. E chegara o momento deixar que viesse tudo a tona. Era o certo a se fazer, e Olívia respirou fundo para começar, mas Emilia se adiantou.
- O que está acontecendo Li? – Perguntou dócil, mas visivelmente triste. – É o livro? A viagem? Sou eu? O que aconteceu pra te deixar assim?
- Não foi nada específico Em, eu só estou passando uma daquelas minhas fases estranhas, mas vai passar. – Não teve coragem de falar sobre o telefonema para Joana. – Essa viagem veio em boa hora. Eu vou ter um tempo para colocar as idéias no lugar.
- E como é que nós ficamos? – Perguntou calmamente, como se nada do que fosse dito, pudesse atingi-la.
- Como assim? – Olívia se fez de desentendida.
- Li, nós estamos começando algo, eu não sei se devemos manter uma relação a distancia enquanto você viaja. – Disse com firmeza, mas delicadamente. – Você precisa de um tempo, e eu também. Deixemos assim, e quando você voltar, a gente conversa.
- Simples assim? – Olívia perguntou.
- Complicar pra que? – Emilia sorriu. – Olie, você não me assusta, como pensa que o faz. Eu não estou com medo de você, ou de estar com você, mas eu quero mais.
Olívia abaixou a cabeça diante da sinceridade de Emilia. Mesmo a conhecendo e sabendo das suas variadas qualidades, aquela menina ainda a surpreendia, sendo extremamente sensata, e muito mais madura do que ela vinha sendo.
A abraçou fortemente nos braços, antes de dizer qualquer coisa. Beijou-lhe a testa, o nariz, e enfim os lábios. Delicadamente, com doçura e carinho.
- Você merece muito mais. – Disse por fim. – E isso, mais do que tudo, é o que me faz concordar com você. – Acariciou o rosto sapeca e repleto de pintinhas. – Mas eu quero a conversa da volta. Não importa se você estiver com outra pessoa, ou se já me esqueceu, ou descobriu que me odeia, - Emilia sorriu. – eu quero uma chance de falar e ouvir, de decidir, o que tiver que ser.
- Fechado. – Emilia sorriu de lado, e lhe estendeu a mão para um cumprimento de cavalheiros.
Olívia apertou a mão dela, e a puxou para seus braços.
- Dorme comigo hoje? – Perguntou um pouco insegura.
- Isso estava fora das negociações. – Respondeu sedutora. – Ou você acha que eu perderia a chance de dar bem gostoso pra você.
Bastou essa frase, e Olívia ascendeu inteira. A puxou para si com força, com Emilia correspondendo com o mesmo ímpeto, arranhando-lhe as costas, e esfregando seu corpo no dela.
E meio aos beijos, mordidas, mãos por toda a extensão dos corpos, chegaram ao quarto. Olívia a empurrou de encontro à cama, e se ajoelhou por sobre ela.
- Tira a roupa pra mim. – Pediu sedutora.
- Primeiro você. – Emilia retribuiu o olhar quente, ardente que lhe foi lançado.
Com um sorriso, entre divertido e contrariado, Olívia começou a se despir. A sua sensualidade, residia na simplicidade com que fazia isso, ainda que olhando diretamente nos olhos de Emilia, fazendo a ruiva perder o ar pela visão.
Completamente nua, Olívia a encarou e desafiou. Sorrindo, Emilia, se pôs de pé sobre a cama, e dançando, ao ritmo da musica que vinha da rua, “Não vá embora”, Marisa Monte, começou a tirar peça por peça. Sentou Olívia por sobre o colchão, e dançou para ela.
A letra dizia muito mais do que elas seriam capazes de confessar. Por mais diferentes que fossem as interpretações, aquela letra fazia o dialogo a ser travado, num misto de saudade, vontade e sensualidade em cada movimento que a ruiva fazia, gerando nelas um sentimento gostoso de estarem juntas.
Emilia se desfez de cada peça sem parar de dançar, ou de olhar nos olhos de Olívia. Restando somente a calcinha, se aproximou de Olívia, e sussurrando em seu ouvido, provocando arrepios por toda pele da escritora, pediu:
- Eu prefiro que você tire. – E deitou o corpo por sobre o dela. – Com a boca.
Não precisou pedir outra vez, e Olívia já a girava por sobre o colchão, colocando seu corpo sobre o dela, e com a língua, desceu a saboreando lentamente, primeiro os seios, em que acariciou lentamente, em movimentos circulares, antes de tomá-lo na boca. Partiu para o abdômen, indo em direção ao umbigo, e parando somente ao se deparar com o minúsculo pedaço de pano.
Lentamente, o puxou com os dentes, e deslizou pelas pernas, até chegar aos pés. Voltou a subir, saboreando as curvas da sua menina, como havia feito com os seios e a barriga, a excitando de uma forma nova, paciente, sem amarras, sem culpas, sem medos.
Ao chegar a seu sexo, Olívia a saboreou devagar, passou a língua, a provando, sentindo o gosto, bebendo do liquido que sorvia de sua cavidade convidativa, a levando a penetrá-la com a língua, antes de voltar ao clitóris, e penetre-la com os dedos, em uma cadencia lenta, a sentindo por dentro, pulsando, tremendo sob ela.
Um gemido rouco, longo, apenas confirmou o que Olívia já sentira, Emilia gozava lindamente, com o semblante refletindo puro prazer, em uma entrega que mexeu com o coração de Olívia. Apesar de todo o discurso, da racionalidade por trás das decisões, podia senti-la sua. Emilia não reprimia o seu sentimento intenso, puro, implorando para ser correspondido, e a escritora, queria ser capaz de corresponder.
Escalou seu corpo, e entregou-lhe na boca o seu próprio gosto misturado a saliva. Emilia se prendeu a ela tentando controlar a respiração e compasso apressado do seu coração. A amava tanto que lhe doía.
Ficaram abraçadas por um longo tempo, entre beijos doces, sorrisos compartilhados, olhares que diziam com todas as letras, que aquela história ainda não tinha acabado, e Olívia percebeu que sentia alívio nesta constatação. Dizer adeus a Emilia lhe parecia impossível naquele momento, e com este sentimento de perda, se agarrou ainda mais a ruiva, e foi assim, completamente coladas, que dormiram, na incerteza do que lhes aguardava o futuro.
Não vá embora (Marisa Monte)
“E no meio de tanta gente eu encontrei você
Entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio
E eu que pensava que não ia me apaixonar
Nunca mais na vida
Eu podia ficar feio só perdido
Mas com você eu fico muito mais bonito
Mais esperto
E podia estar tudo agora dando errado pra mim
Mas com você dá certo
Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais
Eu podia estar sofrendo caído por aí
Mas com você eu fico muito mais feliz
Mais desperto
Eu podia estar agora sem você
Mas eu não quero, não quero
Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais (2x)”
Capítulo 15 - Bem vindas a Terra do nunca
O dia amanheceu nublado, e Olívia deixou os braços da ruiva sentindo o coração comprimido no peito. Seriam seis semanas indo de uma cidade a outra e isto não poderia ter acontecido em momento mais propício. Ainda assim, sabia do que poderia estar abrindo mão.
A primeira parada, São Paulo. Em uma das mais conhecidas avenidas do país, uma livraria a recepcionou na primeira noite de divulgação. Era estranho para Olívia estar ali, passeando por entre as pessoas, participando de conversas que pouco a interessavam, e tendo que responder a perguntas sobre o seu livro, algo que ainda lhe era tão íntimo. Como a única pessoa que conhecia, era Letícia, e esta estava entretida com possíveis distribuidores dos livros, Olívia se refugiou do lado de fora, saindo pela porta lateral, por onde passavam os funcionários.
Ascendeu um cigarro, e procurou relaxar. A noite mal havia começado, e aquela era a primeira de uma seqüência que levaria mais de um mês. Querendo ou não, teria que se acostumar.
Uma mulher alta, com os cabelos negros e cortados de forma elegante, vestindo um vestido preto discreto, e um sapato de salto fino prata, se aproximou dela, e parando ao seu lado, também ascendeu um cigarro.
- Você é a autora, não é? – Perguntou sem olhá-la nos olhos.
- Sou. – Olívia respondeu olhando-a de lado.
- Meus parabéns. É um belo trabalho. – Comentou ainda sem fitá-la.
- Obrigada. – Olívia respondeu educadamente, e se voltou para o outro lado da rua, fingindo interesse em qualquer coisa, menos na mulher ao seu lado.
- Uma escritora monossilábica? Por essa eu não esperava. – Ela virou e sorriu para Olívia, que se deu conta que a mulher tinha um rosto ainda mais belo que o corpo. – Eu sou Helena Laskin, jornalista do Estado de São Paulo. – Se apresentou.
- Muito prazer. Olívia. – Disse simplesmente, mas a encarando.
- Eu sei. – Mais um sorriso. – Se incomodaria de me conceder uma entrevista?
- É sempre assim que aborda os seus entrevistados? – Olívia a provocou, e percebeu o seu reflexo. Para ela, flertar era tão natural quanto respirar.
- Alguns. Os que me interessam de fato ao menos. – Respondeu entrando no jogo. – Eu li o seu livro. Confesso que me surpreendi.
- Se surpreendeu? Esperava o que? – Olívia se virou de frente para ela.
- Mais do mesmo, eu acho. – Lançou um olhar que fez com que Olívia se arrepiasse. – Recebo muitos releases de livros por semana. São poucos aos que me dou ao trabalho de ler. O seu foi um deles, e não me arrependi.
- Então eu devo ficar lisonjeada? – Olívia sorriu.
- Não precisa. – Helena se aproximou. – Eu mal comecei a tecer os elogios.
Ponto para ela, Olívia contou na cabeça. Não sentia a menor vontade de levar aquilo adiante. Havia entrado no jogo por habito, quase sem querer. De fato, não queria. Não sabia se por ainda sentir no corpo as marcas da noite intensa que passara com Emilia, ou simplesmente não era capaz de ver mais nenhum sentido naquele prazer momentâneo que sabia que teria, para enfim acordar sentindo-se ainda mais sozinha.
- De qualquer forma, agradeço. – Olívia tomou uma postura mais profissional. – E quanto à entrevista, talvez em outro momento mais oportuno. – Lhe sorriu, e se afastou, voltando para o coquetel.
Após ler uma passagem do livro, sentou-se atrás de uma mesa e começou a autografar os exemplares. Tentou manter no rosto uma expressão serena e sorriu para cada um que se aproximou. Aquele era mais um dos personagens que representava. Não se sentia ela mesma, e talvez estar em meio a estranhos lhe desse permissão para fingir abertamente.
Avistou Helena ao longe, e está lhe deu uma piscadela, mas não se dirigiu a ela pelo resto da noite. Ela era uma caçadora, e como Olívia, não perderia tempo insistindo. Demonstrara o seu interesse, e agora deixaria para a presa o próximo passo. Mas Olívia nada faria, tinha certeza. Apesar de ter desejado estar solteira para voltar ao jogo, naquele momento, percebeu que não era disso que sentia falta, sentia falta da pessoa que era antes da Joana voltar a sua vida. Sentia falta da ignorância quanto à seus sentimentos. Ela havia mudado, e esta mudança, era irreversível.
O mês passou voando. Olívia estava se sentindo cada vez mais a vontade nas noites de autógrafos que se seguiram. Letícia esteve ao seu lado quase todo o tempo, exceto na parte final da viagem, em que Olívia se viu sozinha em cidades desconhecidas.
Foi um momento importante para ela de autoconhecimento. Ainda falava com Emilia quase todos os dias por telefone, e estava feliz por saber que ela estava bem e conquistando suas próprias vitórias profissionais. Teria uma exposição de jovens fotógrafos em agosto, e ela havia sido convidada a participar.
Quanto mais pensava, mais Olívia se via convencida de que Emilia era a companheira perfeita para ela, e nas ultimas conversas que tiveram, tentou deixar isso cada vez mais claro. Mesmo que elas evitassem falar da relação e de como ficaria dali pra frente, Olívia estava mais carinhosa e querendo ou não, isso enchia Emilia de esperanças.
Não havia mais falado com Joana. Ainda sentia uma falta absurda da ex-namorada. Eram muitas as noites em que acordava com o coração a mil, e a saudade a lhe doer o peito, mas resistia. Se Joana não era capaz de tomar uma decisão definitiva com relação a elas, ela o faria. Não podia mais esperar que Joana resolvesse procurá-la, mesmo que ainda sonhasse com isso, precisava enterrar aquele sentimento de vez, e vinha fazendo progresso neste sentido, ao menos na maior parte do tempo. Bastava parar de vigiar cada pensamento, para que se refugiasse nela, na sensação sublime que era estar em seus braços.
Acordou em uma madrugada fria na cidade de Curitiba, e sentiu seu corpo inteiro formigar. Mais uma vez seus sonhos a haviam levado longe, para uma sensação de êxtase vivida anos atrás. Não foi capaz de conter a enxurrada que lhe acometeu.
“Olívia estava sentada em um banco da cantina da escola, quando Thaís chegou se jogando ao lado dela.
- E aí? Vai hoje pra casa da Clarinha? – Perguntou roubando um pedaço do chocolate que Olívia segurava.
- Se a Clara parar de palhaçada, vou. – Respondeu irritada.
- Ainda aquela briga infantil por causa do Edu? – Thaís bufou. – A Clara é muito sem noção mesmo.
- Sem noção é pouco. O Edu é meu amigo. Além do mais, eu lá tenho cara de quem fica com namorado de amiga minha?Se a Clara não aprender a controlar esses ciúmes, ela vai acabar sozinha. – Olívia falou séria.
Estava realmente chateada com aquela briga. Ela e Clara sempre foram muito parecidas, ambas tinham um temperamento forte, apesar de expressarem suas opiniões de formas diferentes, Olívia era mais contida, esperava o momento certo, e sempre procurava convencer com um discurso coerente, ainda que apaixonado. Já Clara, explodia. Não pensava nas conseqüências, se tornava inflexível, e apesar de paciente, em muitos momentos Olívia perdia a cabeça e revidava.
- Ela vai voltar atrás. – Thaís falou. – Sempre volta.
Esta era outra verdade sobre Clara, ela podia armar um escândalo, jurar a qualquer um de morte, que em alguns dias, às vezes menos, parecia que nada havia acontecido. Ela se desculpava, como alguém se desculpa à um estranho por ter esbarrado na rua, e a mágica estava feita.
Olívia apenas concordou com um sorriso de lado, e um balançar de cabeça. Thaís sorriu para a amiga, e se afastou, passando por Joana no caminho. As duas trocaram algumas poucas palavras, e Thaís sumiu por entre os outros alunos.
Joana sentou ao lado dela, e olhando para o perfil de Olívia, acariciou a sua mão, e falou docemente:
- Você não precisa ir se não quiser.
Olívia se virou para ela, e perguntou:
- Não quer que eu vá?
- Você enlouqueceu? – Joana revidou. – É claro que eu quero que você vá. Só estou dizendo que eu te conheço. Eu sei o quanto você é orgulhosa, e sei que tem razão em estar puta com a Clara, por isso eu estou propondo que a gente faça outra coisa hoje. Você pode ir dormir lá em casa comigo, ou eu na sua.
O olhar doce que Joana lhe dirigiu, a quebrou. Sorriu para a morena, e acariciou os seus dedos levemente. Se perdeu nos olhos dela. Joana a tinha na palma da mão. A conhecia de uma forma que nem ela mesma era capaz de entender. Suspirou:
- Não se preocupe. Eu vou estar lá. – Olívia baixou os olhos antes de continuar. – Com a Clara eu me entendo.
Joana estendeu os braços, e a puxou. Se abraçaram por um tempo curto demais para o tanto que desejavam os braços uma da outra. Sorriram, e Joana lhe acariciou o rosto e se aproximou devagar do seu rosto, deixando Olívia sem ar. Ela desviou da boca, e parou com o rosto roçando no dela, com os lábios próximos ao ouvido.
- Eu te amo, sabia? – Sussurrou provocando arrepios em Olívia. – E estou louca pra te beijar. – disse isso, e beijou o lóbulo da orelha da namorada, a deixando literalmente molhada.
- Isso não se faz. – Olívia sorriu de lado. – Eu não tenho tanto autocontrole quanto você.
Partilharam um sorriso e um olhar completamente apaixonados, além de um pensamento em comum: não entendiam como eram capazes de amar tanto alguém dessa forma. Era completamente diferente de tudo que haviam sentido na vida. Aquele frio constante no baixo ventre, aquela dor no peito, o medo de perder, medo de não ser capaz de respirar se privada da convivência. Um desejo latente que não conseguiam controlar se espalhava pelo corpo todo, não deixando escolha.
Foram interrompidos pela aproximação de Clara que vinha acompanhada de Ligia, a única que tinha uma paciência ainda maior que a de Olívia, e que sempre ficava para tentar fazer Clara perceber as besteiras que havia dito e feito. Era o seu super poder, um dia Joana havia brincado, ser paciente o bastante para lidar com os ataques da Clara.
- Oi. – Clara começou.
- Oi. – Olívia respondeu, e receberam um revirar de olhos de Thaís que havia se juntado a elas.
- Eu não devia ter desconfiado de você. – Clara falou rápido. – Desculpa.
E Olívia sabia que seria isso que conseguiria naquele momento. Se tentasse conversar sobre o assunto, provavelmente entrariam novamente em uma discussão interminável, e não era disso que Olívia precisava. Engolindo o seu orgulho, e recebendo um sorriso de entendimento de Joana, sorriu para a amiga e respondeu.
- Ok. Desculpas aceitas. – Surpreendendo até mesmo Thais, que esperava que depois daquele discurso todo, ela a enfrentaria. – E eu jamais nem mesmo olharia para o namorado de uma amiga.
Neste momento, Joana precisou cobrir a boca com as mãos para não cair na gargalhada em frente às amigas. Olívia evitou olhar para a namorada, e conseguiu manter a expressão tranqüila. Clara se virou para ela e sorriu.
- Eu sei. – Abraçou Olívia. – Você vai lá pra casa hoje. – Afirmou. – Não teria a mesma graça sem você.
Olívia confirmou, e elas voltaram todas juntas para a sala de aula. Olívia e Joana não se viam capazes de disfarçar os olhares, ou mesmo os leves roçar de pele, enquanto caminhavam juntas pelo corredor da escola.
À noite, as cinco amigas se viram jogadas pela sala, falando besteiras e experimentando pela primeira vez, um cigarro diferente, como Ligia chamara o cigarro de maconha.
Thaís havia conseguido com o novo namorado, um rapaz mais velho, que fazia curso de inglês na sala dela. Dinho era divertido, engraçado, e havia conquistado as amigas da namorada logo de cara. Olívia gostara dele na hora, e os dois continuariam amigos, mesmo quando o namoro dele com Thaís já tivesse ido pelos ares, como sempre acabava por acontecer.
- E como eu vou ficar se fumar isso? – Ligia quis saber, provocando risos nas demais.
- Talvez uma versão mais divertida sua. – Thais respondeu ainda rindo. – Relaxa Lili, se você não quiser, não precisava fumar.
- Mas eu quero. – Ela se apressou em dizer, e as meninas voltaram a rir.
Thaís ascendeu o cigarro, e logo o cheiro da erva queimada já se espalhava pelo ambiente. Ela tentou explicar para as meninas como deveriam tragar, o que Olívia já sabia, mas que para as outras em um desafio a parte.
- Sejam bem vindas a terra do nunca. – Thaís exclamou.
O cigarro mágico, nome dado por Joana após fumar a primeira vez, e que acabou pegando entre elas, circulou pelas mãos de cada uma. Clara não conseguia tragar, e sempre terminava tossindo, o que em determinado momento, passou a ser engraçado. Ligia as surpreendeu, se soltando completamente, e passando a ser a diversão da noite.
Apesar dos olhos vermelhos, e o riso solto, Olívia não pode detectar nenhuma outra mudança em Joana. Ela estava relaxada, mas contida. Em diversos momentos Olívia teve o ímpeto de ir até ela e beijá-la ignorando completamente a presença das amigas, mas Joana a mantinha sob controle, mesmo que lançando olhares provocativos em direção a namorada.
- Eu preciso contar uma coisa. – Ligia falou voltando da cozinha, munida de refrigerante e uma travessa de salgadinhos que a mãe de Clara havia deixado preparado para elas.
- Hum, sessão revelações! – Exclamou Thais. – Adoro esses momentos.
Todas olharam curiosas para a loirinha parada em frente a elas. Ligia colocou os itens sobre a mesa, e olhou sem graça para as meninas.
- Não é nada não. – Disse tímida, sentando-se no chão, ao lado de Thaís.
- Ah, agora você vai falar. – Clara provocou. – Não pode jogar a bomba e sair correndo. Pode ir falando.
- Você fala se quiser Lili. – Olívia interrompeu.
- Por que você sempre defende a Lili? – Clara colocou as mãos na cintura. – Ela sabe que pode confiar na gente.
- Mesmo assim, a escolha é dela. – Olívia revidou.
- Tá bom, eu falo. – Ligia as interrompeu, quando Clara se preparava para falar.
Olívia bufou para Clara, mas nada comentou. Joana cruzou o pequeno espaço que havia entre elas, e sentou ao lado de Olívia, tomando às mãos dela, nas suas. Se olharam, e a vontade que antes era grande, se tornou insuportável. Olívia respirou fundo algumas vezes para se controlar.
- Vai em frente Lili, pode falar. Somos todas ouvidos. – Thais disse, sentando em posição de lótus, bem de frente para a loirinha que esfregava uma mão na outra, e não conseguia olhar para as amigas.
- Eu transei com o Luiz semana passada. – Falou de uma vez só. – Pronto, falei!
As quatro a olharam surpresa, e nos lábios de Olívia surgiu um sorriso pela timidez da amiga, mas Joana foi a primeira a se dirigir a menina.
- E aí? Como foi? – Perguntou delicadamente, a encorajando.
- Ah, sei lá Jo. Foi bom. Rápido. Estranho. – Falou tudo pausadamente. – Não sei direito.
- É assim mesmo sua boba. – Clara abraçou a amiga. – A primeira vez sempre é estranha.
- A minha não foi. – Olívia disse no ouvido de Joana, para que somente ela ouvisse. – Na verdade, foi perfeita.
Joana a olhou emocionada e sorriu. Ficaram se encarando por um tempo imensurável. Se permitindo com o olhar se tocarem, se sentirem, falarem tudo o que tinham vontade de dizer naquele momento, e que se viam impedidas.
- Adorei o seu momento revelação. – Thais falou sorrindo. – Foi o melhor dos ultimo tempos. E relaxa, com o tempo melhora bastante.
- Você saberia, não?! – Clara a provocou.
- Eu gosto de experimentar coisas novas, ué. – Thais deu de ombros. – E você não é nenhuma santa Clarinha.
- Não, eu não sou. – A outra disse rindo bobamente. – Olívia é a única santa entre nós. – Completou, e Joana se retesou.
- Santa não. – Olívia respondeu calmamente. – Sou apenas seletiva. Nesse corpinho aqui, não é qualquer um que vai colocar a mão. – Falou passando as mãos pelo corpo todo e rindo, descontraindo o clima que se instaurara.
As brincadeiras vararam a noite, e o relógio da cozinha já marcava quatro horas da manhã, quando decidiram ir dormir. Ligia já havia apagado no sofá, e Joana ressonava com a cabeça no colo de Olívia.
- Vocês se incomodam de dormir no quarto da minha irmã? – Perguntou para Olívia abrangendo a ela e Joana. – A Tata já desmaiou na minha cama.
- Claro que não. – Olívia respondeu.
- Boa noite meninas. – Clara se despediu, colocando uma coberta sobre a Ligia.
- Boa noite. – Olívia respondeu, vendo-a sumir pelo corredor.
Se vendo praticamente sozinha com Joana, já que Ligia dormia a sono solto, Olívia se abaixou e beijou os lábios da morena, passando as mãos despudoradamente, pelo corpo dela.
- Acorda Bela adormecida. Vem pra cama comigo. – Olívia falou provocante, e um sorriso surgiu nos lábios de Joana, antes mesmo que ela abrisse os olhos.
- Você é muito safada Olívia Gurgel. – Falou se erguendo. – E eu quero saber em detalhes o que você quis dizer com ser seletiva.
- Hum. Eu escolhi você. Isso basta. – Declarou apaixonada, acariciando o rosto da namorada e se inclinando em direção a boca dela.
- Aqui não amor. – Joana a impediu. – Vamos para o quarto.
Ela não precisou repetir, Olívia levantou e a puxou pela mão. Entre risos e sussurros se dirigiram a segunda porta do lado direito do longo corredor.
Sem nem ao menos esperar, assim que Olívia trancou a porta às suas costas, Joana a empurrou em direção a cama, e colocou seu corpo por cima do dela.
- Estava louca pra fazer isso. – Sussurrou antes de tomar os lábios dela em um beijo intenso, forte, instigante.
Do beijo, passaram a carícias mais profundas, e as mãos de Olívia tomavam o corpo da morena, a puxando para perto, mais perto, como se fosse humanamente possível, fundir dois corpos, tamanha era a sua necessidade de tê-la em seus braços.
Joana deixou os lábios dela, apenas para explorar o queixo, e então o pescoço, com leves mordidas, e um roçar de língua que deixou Olívia completamente aturdida e excitada. As mãos de Joana passaram a explorar o corpo de Olívia por de baixo da blusa, e encontraram os seios intumescidos. Sem ser capaz de controlar, Olívia gemeu alto, e Joana tratou de abafar com os próprios lábios.
- Amor! – Exclamou sorrindo. – Assim você acorda a casa inteira.
- Desculpa. – Olívia falou com a respiração entrecortada. – Mas você me enlouquece. – Disse ferina, de um jeito que nem sabia ser capaz de se expressar, e inverteu a posição dos corpos, se encaixando entre as pernas de Joana, ao mesmo tempo que se desfazia da blusa da morena.
- Tira a roupa. – Joana pediu com a voz rouca, enquanto auxiliava Olívia, arrancando a própria calça. – Quero sentir o seu corpo todo no meu.
Nus, os corpos voltaram a se encontraram, e a sensação sublime de ter a umidade de Joana em sua coxa, sentindo o seu próprio liquido escorrer pelas pernas dela, fez Olívia aumentar o ritmo do movimento antes cadenciado, que fazia sobre o corpo da namorada.
Sem penetração, apenas sentindo a excitação produzida por aquele contato intimo, Joana tremeu debaixo dela, fazendo com que Olívia se visse presa em uma espiral de prazer nunca antes experimentada. Gozou longamente por sobre ela, e afundou o rosto em seu pescoço.
Durante alguns minutos, ficaram abraçadas, ainda na mesma posição. Encantadas com a entrega dos corpos, com o calor gostoso de estarem perdidas, uma nos braços da outra.
Foi Joana quem interrompeu o contato. Delicadamente, empurrou Olívia para o lado, e subiu em cima dela. Com os lábios, foi tecendo um caminho de prazer, que já havia percorrido, mas que nunca havia feito desta forma, com calma, em uma provocação lenta e gostosa. O objetivo, não era o gozo, mas o prazer de sentir cada célula do corpo sob o seu, explodir.
Se saciou na pele, no suor, sentindo as vibrações quando tocava alguma parte mais sensível, fosse com os lábios, língua, ou mãos. Uma redescoberta do corpo amado, amando a entrega de Olívia, que apenas suspirava e gemia baixinho, aprovando aquela excursão.
O sexo encharcado de Olívia a recebeu pulsante, como se implorasse em cada reação involuntária, por um contato maior. Joana a olhou nos olhos, antes de mergulhar com a língua entre as pernas dela.
Olívia ofegou. Não acreditava que pudesse existir prazer maior do que já havia tido com a sua morena, mas ali estava ela, provando que o prazer era algo mutável, sempre existia alguma sensação nova a ser descoberta, uma forma diferente de sentir, e se entregou aos toques ousados e ao mesmo tempo, delicados, da menina que amava.
O gozo, apenas reflexo de algo infinitamente maior, mas que foi provado como uma recompensa pelos ávidos lábios de Joana, veio de forma sublime. Uma explosão de sentidos, que reverberou por todo o corpo de Olívia, que precisou cobrir a boca com um travesseiro, quando o gemido irrompeu de sua boca.
Calmamente, Joana se colocou ao lado dela, e acariciou o rosto da sua amada. Esperou calmamente que a respiração dela se abrandasse, para enfim, beijar-lhe os lábios, e com uma simplicidade desconcertante, dizer.
- Amo você. – Sorriu singela. – Você é tão linda. – Parecia lhe doer tal constatação.
- Linda é você amor. – Olívia revidou.
- Adoro quando você me chama assim. – Joana confessou com o rosto vermelho.
- Eu queria poder te chamar assim sempre. – Respondeu triste.
- Eu sei. – Resignada. – Eu também.
Joana se aconchegou nos braços dela, e Olívia passou a lhe acariciar as costas lentamente. Após mais alguns minutos de silencio, em que cada uma se perdeu nos seus próprios pensamentos, Joana riu.
- E a Clara acha que você é santa. Se ela soubesse... – Deixou no ar, e Olívia riu.
- Se ela soubesse o quanto eu esperei por você, diria que eu deveria ser canonizada ainda hoje. – Olívia bufou.
- Preferia não ter esperado? – Joana a provocou, ainda que com um tremor na voz. Tinha pânico de que Olívia quisesse conhecer outras mulheres, mais experientes, mais interessantes que ela.
- Nunca. – Olívia buscou os olhos dela. – Você é a única que eu quero. Eu não preciso de mais ninguém, só você. – Reafirmou.
- Acho bom. – Joana sorriu, e estreitou o contato entre elas.
- Quer que eu prove? – Olívia falou safada, já enroscando as suas pernas nas dela. – Vou mostrar o quanto eu te amo.
- É? – Joana provocou de volta. – E vai fazer o que?
- Te levar às estrelas. – Foi a resposta ousada que Olívia se permitiu dar.
Sem dar qualquer chance para resposta, Olívia a beijou, e tocou-lhe entre as pernas, provocando um arrepio por todo o corpo de Joana.
Percorrendo o mesmo caminho que a morena fizera por todo o seu corpo, Olívia saboreou a sua menina com ansiedade e devoção. Não se atendo a pequenos espaços, como a outra fizera, mas partindo imediatamente para o seu sexo. Tinha pressa, vontade, saudade do gosto dela em sua boca.
Explorou, instigou, lambeu, chupou, penetrou com a língua ereta, e depois com os dedos, estabelecendo um ritmo novo, alucinante, em uma busca por dar prazer, que não media esforços, não poupava, e quanto mais Joana tentava controlar os gemidos, mais Olívia abusava, ora passando a língua lentamente por toda extensão da vulva, ora a enlouquecendo com movimentos rápidos, que os dedos dentro da morena imitavam, fazendo-a se contorcer, e rebolar para ela.
Não foi apenas uma vez, mas duas, três, incontáveis espasmos de prazer que percorreram os corpos entregues aquela dança sensual, pois logo Joana também exigia tocar, chupar, provar mais, em uma sincronia perfeita que aos poucos elas conquistavam. Sem pudores, seguindo apenas a necessidade de conhecer, conquistar, e marcar para sempre os corpos com aquelas sensações arrebatadoras.”
O corpo de Olívia tombou sobre o colchão. Suado, tremulo, insaciável. Seu coração em um compasso agitado, bombeava o sangue pelas veias com força, como se fosse capaz de romper aqueles caminhos tão frágeis dentro dela.
A sensação do gozo melando as suas pernas e o lençol, a deixou atônita. Havia muito tempo desde a ultima vez em que se masturbara daquela forma. Sempre buscou em outros corpos a sensação fácil e rápida de saciar aquela necessidade latente, ainda que buscasse sempre na mesma pessoa, a inspiração para aquela explosão.
Virou-se na cama, e buscou a carteira de cigarro por sobre o criado mudo. O ascendeu, e encarou o teto, que a luz do posto do lado de fora, tratava de iluminar no formato da janela.
Não queria pensar em nada. Não queria ter que explicar a si mesma o que estava acontecendo dentro dela. A presença de Joana era tão forte, que era capaz de sentir o cheiro doce da pele entranhado em suas narinas, assim como o gosto, tão dela, na língua. O tempo não apagara qualquer vestígio da morena dentro dela. E isso lhe era assustador.
Pensou em Emilia, e no quanto aquela menina abria espaço nas suas defesas, e começava a ocupar um lugar, que Olívia nem sabia existir dentro dela antes. A ruiva o criara com seu jeito livre de ser, apaixonado, inteligente, quase despreocupado, que tanto a encantava.
A sua escolha estava feita. Não queria e nem poderia voltar atrás. O medo da decisão escorregou frio pela sua coluna, deixando toda sua pele arrepiada. Puxou o edredom por cima do seu corpo, e se encolheu em posição fetal, em uma tentativa inútil de se proteger, como se fosse de fora que a ameaça viesse, como se os seus sentimentos tivessem se expandido e tomado conta de todo o quarto.
Os dias que se seguiram, foram talvez os mais difíceis daquela viagem. Buscava se concentrar no trabalho, passando noites em claro escrevendo, isto quando não estava divulgando o livro.
A falta que sentia da sua família a comprimia, e nem as longas conversas ao telefone com Marina, tinham o efeito calmante e sensato que ela esperava. A amiga que sempre soubera ampará-la e ajudá-la a entender os próprios sentimentos, não conseguia aliviar a sensação de desamparo de Olívia. Talvez por ela não ter sido capaz de discorrer sobre tudo o que lhe afligia, ou simplesmente pela distância que tornava tudo tão irreal e fugidio. Não saberia dizer.
Emilia talvez fosse a que chegasse mais perto de entendê-la. Nas conversas, ainda que lacônica que teve com a ruiva, Olívia se viu desnuda em frente a ela. Completamente desarmada, e aberta a aceitar o apoio e o calor que a outra lhe oferecia. Por que sim, Emilia tinha o dom de aquecê-la por dentro, confortando-a.
Se sentia mais próxima a ela do que nunca. E isto, também a assustava. Tanto, que Olívia se permitiu fugir, apenas por um momento, ainda que só tenha se dado conta disso, após o ocorrido.
Foi em uma noite Porto Alegrense, que conheceu Cacá, uma loira com os cabelos longos e repicados, uma maquiagem carregada nos olhos, e um senso de humor invejável.
Havia saído com um rapaz que conhecera no hotel na tarde daquele dia. Dado era paulista, e Olívia não precisou nem recorrer ao seu gaydar para ter certeza. Reconheceram-se como iguais no primeiro olhar. Uma confusão com os quartos dos dois os aproximou, e após uma conversa descontraída no bar do hotel, decidiram dividir o quarto disponível pelos dois dias em que ficariam na cidade.
E Olívia não se arrependeu. Dado se mostrava a cada instante, uma companhia melhor. Era divertido, engraçado, e com uma animação contagiante. E foi assim, que convencera Olívia a colocar uma calça Jeans, um pulôver preto, e uma jaqueta de couro e sair pela noite gaucha.
Chegaram à boate e Olívia sentiu um arrepio de antecipação pelo corpo. Uma sensação conhecida, a energia da noite, da caça. Respirou fundo e se dirigiu ao bar.
- Olha mona, - Dado se virou para ela. – Eu sei que você não veio se divertir nos lençóis da luxuria, mas eu pretendo sair daqui acompanhado de um gauchinho gostoso.
- Não quero te impedir. – Olívia sorriu para ele. – Estarei aqui no bar se precisar de socorro.
- Adoro gente com sistema SOS embutido. – Ele respondeu rindo. – Vê se consegue se divertir um pouco. Você esta precisando.
- Vou tentar Dado. – Olívia lhe sorriu e se voltou para a sua bebida enquanto assistia Dado caminhar em direção a pista de dança, já lançando olhares a volta em busca da presa.
Cacá se aproximou dela logo no início da noite. Com uma confiança que disfarçava a sua insegurança, ela agiu como predadora, e Olívia se reconheceu na hora. Sorriu para a menina.
- Oi. – Ela falou se aproximando para ser ouvida. – Tu não és daqui, é?
- Não. – Olívia sorriu. – Carioca.
- Hum, vou adorar te ouvir chiando no meu ouvido. – Cacá falou sedutora, provocando uma gargalhada em Olívia.
- Direta. – Olívia sorriu para ela. – E ao menos para mim, inovadora. Esta eu nunca tinha escutado.
- Foi péssima, não foi? – Sorriu sem graça para Olívia. – Eu juro que tenho melhores, mas foi o primeiro pensamento que me ocorreu na hora. – Completou. - Bom ninguém pode dizer que eu não tentei. – Fez uma pose, que Olívia achou fofa.
- Não mesmo. – Olívia confirmou. – Olívia. – Estendeu a mão para ela.
- Cacá. – Respondeu sorrindo. – E o prazer é todo meu.
Olívia riu do jeito marrentinho da menina. Ela era abusada, e encantadora. Linda com uma calça jeans desbotada e uma camiseta preta com a logo do “The Clash”, cortada para fazer um efeito despojado, sobre um top preto.
- Cacá, é realmente um prazer. – Lhe sorriu, flertando de volta, ainda que sem intenção alguma de levar aquilo adiante.
- Quer dançar? – Cacá lhe perguntou sorrindo. – Prometo não te agarrar na pista. – Completou provocante.
- Claro. – Olívia respondeu a olhando nos olhos.
Foram para a pista, e Olívia ficou encantada com o jeito livre com que ela dançava a sua frente. Completamente sedutor, sem de forma alguma ser vulgar. Não resistiu, e colou seu corpo junto ao dela em uma dança sensual.
Ficaram por um tempo somente curtindo a proximidade dos corpos, os leves toques involuntários ou não, já fazendo com que uma corrente elétrica se estabelecesse entre elas. Olívia conhecia muito bem a sensação, e sabia que não sentiria absolutamente nada depois.
Cacá se virou de frente para ela e sorriu, ainda esfregando o corpo no de Olívia. A troca de olhares foi inevitável. Era apenas desejo, luxuria como Dado havia chamado, e Olívia se viu retribuindo por puro reflexo. Não impediu o beijo que se seguiu, e nem se martirizou. Era um beijo doce, macio, sem qualquer compromisso ou drama, e isso era reconfortante.
Terminaram a noite no quarto de hotel que Olívia dividia com Dado. Este tinha se arrumado com um moreno alto, e saíra da boate acompanhado do seu “bofe”, como o chamou ao se despedir de Olívia, que tinha Cacá ao seu lado.
A menina se tornava a cada instante, ainda mais interessante a seus olhos. Ela era engraçada e espirituosa. Após se separarem de mais um beijo na saída do elevador, cochichou em seu ouvido:
- Eu não te agarrei. – Mordeu o lóbulo da orelha dela. – Mas se tu continuar deixando, eu quero te lamber inteira.
Olívia sorriu, e a levou até a porta do quarto. A abriu, e puxou Cacá para dentro.
Após algumas horas de sexo, em que Olívia sentia-se cada vez mais fora de orbita, ergueu-se, e foi direto para o chuveiro. Queria tirar do seu corpo o suor e as marcas que a pura e simples satisfação da carne haviam deixado. Definitivamente, não era mais a mesma pessoa.
Voltou para o quarto, e encontrou Cacá já vestida, fumando um cigarro próxima a janela.
- Só estava te esperando sair do banho. – Disse se voltando para Olívia. – Eu já vou indo.
- Não precisa ir embora Cacá. – Olívia falou sem graça. – Dorme um pouco. – Apontou para a cama.
- Já vai amanhecer. Prefiro dormir na minha cama. – A loira lhe sorriu. – E não se preocupe, quem quer que ela seja, ela deve saber bem o que está perdendo. – Disse sedutora, mais uma vez arrancando um riso solto de Olívia.
- Talvez. – Olívia respondeu, não sabendo em quem pensar, se em Joana, ou Emilia. – Isso não muda os fatos. – Suspirou, puxando um cigarro, e sentando-se na poltrona.
- Mulheres são complicadas. – Cacá falou como se tivesse muita experiência no assunto, e Olívia lhe sorriu. – Por isso eu procuro não me envolver.
- Gostaria de ainda ter essa opção. – Falou rindo. – Quantos anos você tem Cacá?
- Vinte e um.
- Meu Deus, eu posso ser presa? – Olívia falou rindo.
- Não vai dizer que eu tenho idade pra ser tua filha. – Cacá fez pose.
- Filha talvez não, mas quem sabe irmãzinha mais nova. – Olívia balançou a cabeça. – De qualquer forma, foi muito bom te conhecer.
- Eu posso dizer o mesmo. – Cacá lhe sorriu e beijou-lhe os lábios delicadamente. – Eu nunca me apaixonei, mas se eu sentisse o que tu sentes, eu não perderia por nada. Lutaria até o fim.
E deixando Olívia, completamente confusa quanto aos seus sentimentos, Cacá fechou a porta do quarto às suas costas. Afinal, o que estava sentindo? Vinha pensando em Emilia mais do que poderia imaginar algum dia, e mesmo assim, Joana ainda era o seu primeiro e ultimo pensamento a cada nascer e pôr do sol.
Capítulo 16 - De volta pra casa
Quando retornou para casa em meados de Julho, Olívia foi recepcionada por uma festa na casa da Marina, que fora buscá-la no aeroporto levando-a direto para Botafogo.
Seus amigos estavam todos presentes, e ao ver seu irmão, a cunhada, Bola e Tom e Theo, foi que se deu conta da falta que eles faziam em sua vida.
- Achei que você não ia mais voltar. – Guto fez bico, que Olívia tratou de desmanchar o cobrindo de beijos.
- Pra que? Pra limpar seu bumbum e servir leitinho de madrugada? É pra isso que você tem a Marcinha. Desculpa cunhada. – Falou ao virar-se para a mulher baixinha e sorridente ao seu lado.
Marcinha lhe deu um abraço apertado. As duas acabaram se tornado boas amigas e muitas das ligações que Olívia fizera para casa durante a viagem, haviam sido para falar com a cunhada. Não mais apenas a conexão direta para o seu amor, mas alguém com quem ela criara uma simbiose, um entendimento profundo pelo qual não esperava. Marcinha se tornara essencial a sua existência.
- Ele precisa de você. E eu também. – A menina confidenciou a mantendo em seus braços.
- E eu de vocês. – Olívia respondeu doce, dando um beijo no rosto de boneca.
- Eu juro que na próxima turnê, eu vou com você. – Theo resmungou ao puxá-la para um abraço. – Minha vida não tem a menor graça sem você.
- Nem a minha sem você viado. – Olívia retribuiu o abraço.
- O Theo só fez reclamar enquanto você estava fora. – Bola entregou. – Mas você realmente fez muita falta.
- E perdeu a inauguração do novo espaço do Bola. – Tom completou, dando-lhe um beijo estalado na bochecha.
- Pois é, eu soube. Bar do Bola agora na Zona Sul. Vocês estão muito chics. – Implicou com os amigos.
- Não é? – Bola falou com um sorriso enorme no rosto. – Eu tenho purpurina pra dar e vender, minha querida. Bar LGBT agora em Laranjeiras. – Falou orgulhoso.
Guto a havia informado que eles tinham mudado de espaço. Estavam agora com novo endereço e em um bar estilizado na Rua das Laranjeiras, próximo ao Largo do Machado.
- Já que estão todos contando as novidades, eu também tenho uma. – Marina chamou a atenção de todos.
- Jura amiga? E não me contou nada nas ultimas quinhentas e sessenta e cinco ligações, por quê? – Olívia se fez de ofendida.
- Porque assim tem mais graça. – Disse simplesmente. – Então, eu fui chamada para fazer a cenografia de um filme do Walter Salles.
- Você esta brincando?! – Olívia exclamou levantando a amiga do chão. – Eu não acredito, Nina!
- Pode acreditar. – Falou com um sorriso largo no rosto quando a amiga lhe soltou. – Recebi a ligação na segunda-feira e a ficha ainda não caiu.
- Isso é incrível. – Theo disse, também abraçando a amiga. – Eu quero saber quando eu vou ficar chic assim! Uma lança um livro e sai em turnê, esses dois abriram um novo bar, você trabalhando pro Waltinho, e eu? A bicha aqui não merece nada, não?
- Você esqueceu esses dois aqui. – Falou o Guto, levando um cutucão da namorada.
- Vocês o que? – Olívia perguntou se voltando para o irmão e a cunhada.
Guto olhou para a namorada, como que pedindo permissão para falar, que ela concedeu com um sorriso e um movimento de cabeça. Ele segurou a mão dela e anunciou.
- Nós decidimos nos casar.
Olívia não se conteve e os abraçou emocionada. Se fosse há um tempo atrás, os sacanearia, dizendo que casamento era uma instituição falida, mas com tudo o que passara nos últimos tempos, não poderia ficar mais feliz pelos dois. Se eles tiveram a sorte de se encontrarem e se queriam passar o resto dos seus dias juntos, quem era ela para julgar?
- Eu só espero ter sido cogitada como madrinha. – Brincou com o irmão.
- A discussão foi se você seria minha madrinha, ou dela. – Ele falou rindo.
- Serei dos dois. – Olívia os abraçou novamente.
- Não to falando?! – Theo exclamou dramaticamente. – Só comigo que nada acontece.
- Ah, Theo. – Marina passou a mão na cabeça dele. – É só andar colado na gente. A sorte está no ar querido, respira fundo.
Todos riram da expressão indignada do Theo para Marina. E enfim a festa teve início. Mesmo estando cansada da viagem, Olívia não poderia estar mais feliz. Com exceção da Paula, que estava fora da cidade com a namorada, a sua família estava ali, e o mais importante, todos vivendo um momento feliz.
Passados dois dias que Olívia havia regressado, e após um descanso merecido, ela e Emilia decidiram se encontrar. Não que Olívia não a tivesse procurado antes, mas Emilia se fez de difícil, o que Olívia achou sedutor.
Marcaram na Tasca do Edgar, local onde havia ocorrido o primeiro encontro das duas. Olívia a esperava, sentada na mesma mesa que da outra vez, vestindo uma calça social cinza chumbo e uma camisa branca, pois havia acabado de deixar uma reunião com os donos da Editora. Os cabelos castanhos estavam um pouco mais longos, mas não menos rebeldes, e os olhos pintados ficavam ainda mais belos e intensos.
Estava nervosa, do que achou graça. Há quanto tempo não sentia essa palpitação no peito? Seria um sinal? Acreditava que sim. A decisão tomada, já não pesava como antes. Era o melhor a fazer, e estava feliz por isso.
Emilia entrou vestindo uma camiseta do David Bowie, o que Olívia achou extremamente charmoso e uma calça jeans rasgada. Ela parecia a menina que ela havia conhecido na faculdade, e um frio na barriga lhe indicou que estava fazendo o certo. Desejava Emilia. A queria ao seu lado.
- Oi. – Olívia falou ao se erguer para recebê-la com um sorriso.
- Oi. – Emilia repetiu se lançando para um abraço apertado. – Senti sua falta.
- E eu a sua. – Olívia falou entre os cabelos cor de fogo. – Muita falta.
Sentaram-se a mesa e Olívia já havia pedido outra cerveja e a porção de bolinho de bacalhau, fazendo com que Emilia sorrisse com a lembrança.
- Se tudo correr bem, eu te levo pra minha casa, não é? – Perguntou erguendo a sobrancelha.
- Se tudo correr bem, muito em breve eu espero que tenhamos a nossa casa. – Olívia disse lançando um olhar quente, apaixonado. Olhar que Emilia nunca tinha recebido desta e que fez seu coração vacilar.
- Não brinca com coisa seria Olívia, você pode se arrepender. – Emilia a alertou.
- Que bom então que eu não esteja brincando. – Olívia rebateu, buscando a mão dela por sobre a mesa. – Eu pensei muito sobre isso Emi. E por tudo o que nós temos conversado por telefone, você não deveria parecer tão surpresa.
- Uma coisa de cada vez, ok? – Emilia falou. – Hoje eu quero você na minha cama. Depois a gente pensa sobre as outras noites.
Olívia sorriu condescendente. Sabia que não poderia exigir nada de Emilia, especialmente que acreditasse nela depois de todos os altos e baixos pelos quais elas haviam passado, todos eles em sua conta, diga-se de passagem.
Terminaram o chopp e os bolinhos de bacalhau, e seguiram para a casa de Emilia. Elas mal haviam passado pela porta, e Olívia já a puxara para um beijo de tirar o fôlego. Um beijo repleto de saudade e desejo.
- Assim você não me deixa escolha. – Emilia falou assim que as bocas se afastaram para buscar por ar. – Vou te fazer pagar por cada dia em que ficou longe.
- Isso é uma ameaça? Soa mais como uma promessa. – Olívia já começava a despi-la, mas Emilia a impediu.
- Hoje quem manda aqui sou eu. – Se afastou um pouco. – Senta nessa cadeira pra mim. – Mandou e Olívia obedeceu.
Uma cadeira posicionada no meio do cômodo, em uma atmosfera totalmente diferente da que Olívia esperava. Emilia havia se preparado para aquele momento. Contara que ali acabariam a noite, e isto deixou a escritora, ainda mais excitada.
Emilia se aproximou devagar e Olívia tentou puxá-la para o seu colo, mas a ruiva não deixou. Pegou um pano e cobriu os olhos de Olívia.
- O que você esta fazendo? – Olívia perguntou, tentando impedi-la de cobrir-lhe os olhos. – Eu quero te ver.
- Você vai. Mas não agora. – Emilia terminou de vendá-la.
Olívia estava excitada. Emilia colocou uma musica de fundo. Era um house que Olívia não conhecia. Estranhou um pouco, pois sabia que a namorada preferia rock alternativo, ou clássico, mas não musica eletrônica e suas variações.
Quando sentiu Emilia próxima mais uma vez, esta começou a despi-la lentamente, tocando-lhe em cada parte do corpo que ficava descoberta. Olívia apenas ofegava e gemia sob o contato.
Quando faltava apenas a calcinha para ser retirada, Emilia sentou no colo de Olívia de frente para ela e passou a beijar-lhe o pescoço, passando a língua devagar sobre a pele, provocando arrepios.
- Estava com saudade do seu gosto. – Falou no ouvido dela, antes de introduzir a sua língua, a levando a loucura.
Olívia passou a mão nas pernas dela, mas mais uma vez foi impedida.
- Sem tocar. – Disse sensual, descendo as suas mãos por sobre os seios de Olívia.
- Isso é tortura. – Olívia reclamou.
- Você vai ser recompensada. – Emilia soou sacana em seu ouvido, antes de descer com a boca até os seus seios.
Emilia lambia e chupava o corpo de Olívia, ao mesmo tempo em que suas mãos também passeavam por sobre a pele branquinha. Mesmo achando aquilo tudo excitante, ainda era difícil para Olívia não ter o controle da situação. Queria mais do que tudo, se sentir preparada para se entregar a Emilia, e havia decidido que aquele seria o dia, mas quanto mais perto chegava disso, maior era o seu pânico.
Tentou novamente tocá-la, mas Emilia parecia decidida a dominá-la, e foi retirando a sua calcinha devagar, deixando-a completamente nua e a sua mercê.
Abriu os joelhos de Olívia até deixar o sexo que tanto desejava e que há tanto tempo almejava ter para si, exposto. Tocou-lhe levemente, e percebeu o arrepio que provocou no corpo dela.
Olívia tentava relaxar e aproveitar. Sentiu o toque leve, e logo pode sentir que Emilia descia pelo seu corpo, e em cada ponto em que passava, deixava um rastro quente com a língua. Quando atingiu seu sexo, Olívia gemeu, levando-a ao delírio.
Se abriu para ela e deixou-se dominar. Desde a ultima noite em que passara nos braços de Joana, nunca mais havia sido tocada, a sensação era maravilhosa, mas não se conteve e pensou na ex-namorada. Lembrou-se da sensação de tê-la entre as suas pernas a levando a loucura.
“Já havia passado da meia noite, e Olívia grudou o ouvido mais uma vez na porta do quarto. Ela esperava a mãe ir dormir, mas o som da televisão na sala continuava na mesma altura.
Joana, deitada sobre a cama a chamou:
- Nada ainda?
- Não. – Olívia voltou para a cama. – Isso já está ficando ridículo. Ela sempre dorme cedo! – Reclamou.
- Você fica linda irritadinha. – Joana implicou.
Olívia bufou como resposta.
- É serio. Adoro essa ruguinha na sua testa quando você esta mal humorada. – Continuou.
- Eu não estou mal humorada. Só irritada. – Olívia resmungou. –Nós nunca conseguimos dormir juntas, e logo hoje que meu irmão esta na casa do meu pai, minha mãe inventa de beber um vinho e ficar vendo filme até tarde.
Joana sentou-se e puxou Olívia para perto dela. Passou os dedos pela pele branca e delicada do rosto e mirou os lábios vermelhos, convidativos. Quando voltou seu olhar para os olhos, o verde intenso a recebeu incandescente.
- Você é linda. – Joana constatou com a voz cheia de desejo. – Quero sentir você. – Foi um pedido, uma suplica.
- E eu quero você. – Olívia disse aproximando seus lábios dos dela.
Do beijo repleto de paixão, passaram ao toque tão esperado. Olívia sentia o desejo arder por todo o seu corpo. Era sempre forte e intenso quando estava com Joana. Cada toque, cada beijo, cada nova sensação que experimentava, a libertava a fazia sentir-se mais viva. E ela queria tudo. Queria o mundo todo em um segundo.
Joana cobriu o seu corpo com o dela, arrancou-lhe a blusa e se perdeu nos seus seios pequenos e alvos. Os chupou e lambeu, provocando arrepios. Ela lançou-lhe um olhar que Olívia conhecia, mas que sempre a surpreendia. Era amor, paixão, desejo, tesão, tudo isso banhando em um mar de fogo.
Era a primeira vez que a morena tomava a iniciativa. Olívia sempre se via na obrigação de avançar os primeiros sinais, até que Joana relaxasse e a imitasse. Mas não dessa vez. Ela parecia mais confiante, ansiosa pelo contato dos corpos, e agindo com uma precisão que deixou Olívia completamente rendida.
Ao sentir Joana por sobre ela, esfregando seu corpo no dela, sentindo os lábios úmidos a marcarem sua pele em brasa, até alcançarem seu sexo sedento, pulsante, perdeu o fôlego, era a sensação mais sublime que já experimentara. A visão mais bela já presenciada. Ver o rosto da mulher amada entre as suas pernas, a sugar-lhe o néctar, lhe arrancando gemidos e por fim o gozo mais intenso que já sentira na vida, foi a experiência mais marcante da sua adolescência. Até aquele momento, nunca havia sentido os lábios e a língua da sua morena a tocar-lhe tão intimamente.
Quando abriu os olhos, com a respiração alterada e o coração acelerado, viu um sorriso lindo, luminoso no rosto do seu amor. Era um misto de felicidade, que ela compartilhava, de orgulho e desejo.
- Você consegue ficar ainda mais linda gozando. – Joana disse, enquanto escalava seu corpo, até chegar aos lábios. – Eu te amo tanto, que a minha vontade é passar o resto da vida te fazendo gozar, só pra ver esse brilho nos seus olhos.
- Eu amei gozar na sua boca. – Olívia falou próxima aos lábios dela. – Você me surpreende cada vez mais, Jo.
- Eu aprendi com a melhor. – Falou em meio ao riso. – E depois você diz que eu também sou sua primeira.
- Você é. E eu sou a sua. – Tocou-lhe entre as pernas, fazendo-a ofegar. – Dizem que sexo é instinto, mas com a gente, é amor. Eu quero descobrir muito mais com você. Quero descobrir tudo. Quero te dar muito prazer.
- Idem. – Joana disse em meio a um gemido. Estava ficando difícil se concentrar, com Olívia massageando seu clitóris e a penetrando.”#
Olívia pode sentir o gozo vindo. De olhos vendados, sentiu os espasmos pelo corpo e com um gemido rouco se entregou. Emilia retirou a venda dos seus olhos e lhe sorriu. Olívia sentiu-se culpada. Queria que aquele gozo fosse dela. Queria poder oferecer isto a ela, mas ainda não era. Todo o seu amor, todo o seu prazer, ainda eram de Joana. Ela mudaria isso.
Puxou Emilia para o seu colo, e beijou-lhe os lábios com ternura. Sentiu o corpo da ruiva, quente em suas mãos. Deslizou os dedos pelas pernas dela, subiu pelas costas e começou a tirar-lhe o espartilho.
- Não mesmo. – Emilia disse se erguendo.
- Então é tortura mesmo? – Olívia perguntou fingindo indignação.
- Só mais um pouquinho. – Um sorriso sedutor brotou nos lábios cor de rosa. – Prometo que você não vai se arrepender.
Aumentando o som, Emilia começou a dançar sensualmente. Ela era linda, sexy, com uma personalidade forte, tanto que enquanto assistia aquela mulher se despir para ela, Olívia só conseguia pensar no quanto gostaria de estar apaixonada por ela.
Cada peça de roupa retirada, deixava Olívia ainda mais ansiosa por sentir aquele corpo junto ao seu. O desejo que sentia por Emilia parecia ter crescido nos meses que passaram distantes. Sentiu saudade do cheiro e do gosto da ruiva que tanto a enlouquecia.
Quando Emilia estava completamente nua, Olívia se ergueu e foi até ela, enlaçou-lhe a cintura, e tomou-lhe os lábios com fervor. Suas mãos passeavam livremente pela pele exposta, até encontrarem o sexo molhado e ali se aterem.
- Cansei de esperar. Quero você. – Disse no ouvido de Emilia, introduzindo dois dedos em seu sexo.
- Então me toma. – Emilia disse provocante, a empurrando para o sofá.
Olívia caiu de costas e Emilia se posicionou por sobre ela. Ela rebolava sobre os dedos de Olívia e gemia. Os corpos quentes, excitados e sedentos, ditavam o ritmo cada vez mais forte. Quando sentiu que Emilia iria gozar, Olívia a abraçou fortemente em seus braços e olhou-a nos olhos. Ela era linda.
Incansáveis, os corpos se amaram por horas. Na falta das palavras, nas promessas que não poderiam ser feitas, Olívia buscava entregar o que tinha, o que era seu para dar. Seus sentidos, seu desejo, seu carinho, sua amizade. Dedicou toda a sua vontade, a estar o mais próxima possível de Emilia. Poderia ser feliz ao lado dela, e desejava, mais do que tudo, fazê-la feliz.
Guto achava graça. Sua irmã, sempre tão alheia as relações convencionais, a calmaria que a monogamia poderia proporcionar, estava entregue àquela rotina e parecia feliz com ela.
Como Marcinha e Guto planejavam casar até o final do ano, Olívia achou que era hora de eles terem um lugar só para eles. Após muitas tentativas frustradas, ela enfim convenceu Emilia a morar com ela. Desta forma, elas se mudaram para um apartamento no Flamengo. Juntando o salário, mais os contratos dos dois livros, Olívia tinha uma renda maior e pode pagar por um lugar melhor para morar. O apartamento na Rua Paissandu tinha dois quartos e um quarto de empregada. O quarto maior era a suíte das duas, o menor, escritório da Olívia, e o de empregada, virou o ateliê da Emilia. Por ser próximo a área de serviço, ela tinha bastante espaço para espalhar as suas telas. A sala ganhou um sofá confortável e uma estante para a televisão e o aparelho de som. Era a primeira casa em que Olívia não tinha moveis montados a partir de sucata. Ela fizera questão de comprar tudo novo. É claro que tinha a cara delas, repleto de objetos de arte e com paredes temáticas pintadas por Emilia.
Olívia estava animada com o rumo que sua vida tomava. Estava escrevendo mais, as suas aulas do mestrado a estavam inspirando em novo projeto junto a uma ONG especializada em Educação de jovens e adultos, e as aulas na escola se tornaram mais produtivas.
Guto e Marcinha também resolveram deixar o apartamento na Lapa, e foram morar na Tijuca. Lá puderam alugar um apartamento maior, mas não tão caro quanto os da Zona Sul. Os dois vinham juntando dinheiro para o casamento e Guto finalmente chegava ao semestre final em uma faculdade. Olívia sabia que arquitetura não era a paixão do irmão, mas ficava feliz ao percebê-lo mais responsável com a própria vida.
Marcinha trabalhava na UERJ, e conseguira algumas cadeiras em duas Universidades particulares, a Gama Filho e Estácio. Com o que ela ganhava, e com o novo estagio de Guto em um novo escritório, eles enfim marcaram uma data.
A saída barulhenta dos alunos de suas aulas no final da manhã, foi o que despertou Olívia. Ela estava tão concentrada escrevendo na sala dos professoras, que nem havia se dado conta da hora.
Recolheu seu material, guardou o notebook na mochila e deixou a escola. Do lado de fora, enquanto se dirigia ao seu carro, sim, ela havia enfim conseguido comprar um carro, ela avistou Marina parada junto ao portão.
- Eu não acredito! – Exclamou, correndo para abraçar a amiga. – quando você chegou?
- Hoje mesmo. – Marina respondeu com um sorriso enorme no rosto. – Sentiu minha falta?
- Você esta brincando? – Olívia sentia-se radiante. Marina havia viajado para as filmagens do longa em que trabalhara ao lado do Walter Salles, e isso já fazia quatro meses. Ela havia partido logo após a chegada de Olívia da turnê do livro. – Eu estava morrendo de saudade de você.
- Que bom. Porque eu achei que eu nunca mais fosse conseguir voltar. – Abraçou a amiga novamente. – Almoça comigo?
- Claro! - Olívia olhou a volta. – Como você veio?
- Taxi. Agora a minha amiga é motorizada, ela pode me deixar em casa mais tarde. E além do mais, meu carro esta há tanto tempo parado, que eu achei melhor não arriscar. Não sem levá-lo para revisão antes.
- Quando foi que nós nos tornamos tão prudentes? – Olívia riu. – Responsáveis até?
- Eu sei. – Marina exclamou. – Também não entendo. Acho que é a idade.
- Sempre tive medo que esse dia chegasse. – Olívia balançou a cabeça. – Vamos?
- Vamos. – Marina parou. – Ei, cadê a sua esposa?
- Ela tinha umas fotos para tirar hoje. Só vai pra casa mais tarde. – Olívia respondeu.
-Uau. Você esta casada mesmo! Nunca imaginei este dia chegando. – Marina fingiu surpresa.
- Quer parar de implicar e andar comigo?
- Mas é serio Li. – Ela a seguiu até o carro. – Você era a ultima lésbica no planeta, que eu imaginaria casando. Todas as outras fazem isso repetidamente, mas você...
- Haha. – Olívia abriu o carro e entrou pelo lado do motorista. – Sabe que eu estou até gostando de morar com ela? – Disse assim que Marina também entrou no carro e fechou a porta.
- Serio? – Marina não controlou o riso.
- Serio. – Falou, dando um tapa no braço da outra. – A Emilia é ótima companhia. Nós nos damos bem, sabe? É fácil.
Marina preferiu não dizer nada. A amiga queria se enganar? Ela deixaria. Até porque, gostava de vê-la tocando a sua vida de forma centrada. A Olívia melancólica, não fazia bem a si própria.
- Aonde você quer ir? – Olívia fingiu não perceber o que Marina estava pensando. Como se ela própria não pensasse nisso diversas vezes ao dia.
- Sua casa. – Marina abriu um sorriso.
- Ok. Mas vou logo avisando, casar não me concedeu dotes culinários. Vamos ter que pedir comida em casa.
- E você acha mesmo que eu comeria qualquer coisa feita por você?! Por favor! Eu tenho amor à vida. Sou muito nova pra morrer envenenada. – Brincou, o que lhe rendeu outro tapa.
Marina e Olívia passaram a tarde na casa da escritora. O tempo que passou longe, rendeu boas historias a Nina. Ela havia adorado a vida nos sets de filmagem, mas confessou sentir muita saudade de casa. Já tinha outro projeto encaminhado. Faria a cenografia de um curta que o diretor de fotografia do filme estava dirigindo.
Havia também conhecido uma mulher da produção, com quem mantivera um caso por quase todo o tempo que passara fora. O nome dela era Ingrid, e Marina admitiu que gostara dela, mas que não levaria adiante.
- Você ainda pensa na Clarissa? – Olívia perguntou a certa altura da noite.
- Às vezes. – Marina parou para pensar. – Eu sinto falta do que eu tinha com ela. Eu tenho que admitir, eu gostava da vida de casada.
- E aí vem me criticar. – Olívia ergueu-se. – E falta dela como mulher, você sente?
- Não. – Respondeu após ponderar por alguns instantes. – Não mais. Hoje já consigo me lembrar das coisas boas, sem sentir que o meu peito esta sendo rasgado e jogado no lixo.
- Certo. – Olívia disse virando-se para ir até a cozinha.
- Porque o interesse? – Marina teve que elevar a voz para se fazer ouvir.
- Por nada. – Olívia disse, ao voltar para a sala com outra garrafa de vinho. Era a terceira do dia.
- Ahã. A quem você pensa que engana? Pode ir falando. – Marina aceitou o vinho que Olívia lhe entregava.
- Eu não sei. – Olívia suspirou e voltou a sentar no chão, ao lado da amiga. – Às vezes eu queria entender esse sentimento.
- Amor? – Marina a encarou com um sorriso compreensivo.
- É. – Olívia franziu a testa. – Ou não. Eu confesso que não sei mais classificar o amor. Acho que desaprendi.
Marina a encarou e tentou encontrar a melhor maneira de começar. Não queria remexer no passado, pois sabia que a amiga vinha fugindo dele com muito esforço, mas percebeu também que ela precisava falar alguma coisa que a estava angustiando, então bebeu mais um pouco do vinho, e com muito tato perguntou.
- O que você sente pela a Emilia?
Olívia a encarou confusa. O que ela sentia pela Emilia? Se perguntava isso com maior freqüência do que pensava ser normal para alguém que dividia a vida com outrem. Ela escolhera Emilia como sua companheira, mas as circunstâncias que a levaram a tomar tal decisão, nunca foram ideais.
- Eu a amo. – Concluiu em voz alta.
- Nossa! Que entusiasmo. Eu quase acreditei – Marina foi sarcástica.
- De verdade, Nina. É um amor diferente do que eu pensei já ter vivenciado. É um amor calmo, sem sobressaltos, com uma dose imensa de carinho e cumplicidade. Ela faz com que eu me sinta bem, sabe? Amada, desejada. Além de ser uma mulher incrível, que eu admiro profundamente, ela é linda, e sexy. – Sorriu. – Eu nunca pensei que o amor poderia ser tão tranqüilo e sem dramas, sabe?! Tirando a primeira fase da nossa relação, que não poderia ter sido mais conturbada, mas hoje, hoje eu sou capaz de respirar perto dela. Não sinto angustia, ou medo. É saudável.
- Uau. Isso foi para mim, ou você esta tentando convencer a si mesma que tomou a melhor decisão ficando com a Emilia?
- Você sabe ser má quando quer. – Olívia virou o que restava de vinho em sua taça. – Porque eu não sou capaz de amar alguém que me faz tão bem? – Disse por fim. – É o que eu mais quero Nina. Eu quero amar a Emilia loucamente. Eu quero sentir esse sentimento arder aqui dentro. – apontou para o peito. – Mas eu acho que não é possível condicionar os sentimentos, certo?
- Não completamente. – Marina falou docemente. – Você pode até tentar se sentir apaixonada por alguém, e irão haver momentos em que você será capaz de sentir isso, mas é só você relaxar, que ele se mostra o que realmente é.
- É. Isso é um fato. – Olívia se serviu de mais vinho. – Sabe o que é pior? Eu minto bem. Eu aprendi a dizer ‘eu te amo’, ainda que não sinta. E eu me sinto tão culpada quando vejo nos olhos dela, que ela de fato sente quando se declara. Eu sou uma pessoa horrível. – Concluiu.
- Não é não amiga. – Marina lhe olhou com ternura. – Você apenas esta fazendo o que muitas pessoas fazem. Escolhem o conforto de uma relação em que elas não amam profundamente, não aquele amor arrebatador, que te tira o chão e faz você se sentir a mulher maravilha ou o super homem, e ficam com a pessoa que as amam mais. Isso é mais comum do que você poderia imaginar.
- Mas é mesquinho e injusto. – Olívia olhou a volta, vendo todos os detalhes que faziam daquela casa, o canto da Emilia. – A Emilia merece muito mais do que isso.
- Ela sabe. – Marina disse.
- Sabe o que? – Olívia a olhou confusa.
- Sabe que ela te ama muito mais do que você a ela. Sabe que você talvez nunca venha a sentir isso por ela. A escolha também é dela. Ela não quer te perder, então ela aceita o pouco que você pode dar. Ela aceita o teu carinho e admiração, e em troca pode devotar o sentimento dela a pessoa amada, no caso você.
- Então é um acordo silencioso em que ambas as partes sabem que a relação é na verdade, uma farsa, e tudo bem?
- Não. Um dia uma de vocês vai pirar. Talvez você se dê conta de que isso é muito pouco e que viver em segurança não é o mesmo que viver. Ou ela passe a perceber que isso não é o bastante para ela, e aí ela vai te deixar, por mais que doa, mas vai deixar.
- Então é uma relação fada ao fracasso, é isso?
- Desculpa amiga, isso são teorias que eu fui construindo, baseadas em vivencias. – Nina virou o conteúdo do seu próprio copo. – Eu já tive os dois. Eu tive grandes amores e vivi relações vazias. As duas tiveram o seu papel, mas se você quer mesmo saber, todas terminaram, então... Eu ainda estou esperando pelo grande amor. Eu ainda acredito que ele virá e que vai virar a minha cabeça e que eu vou amar e ser amada dentro das mesmas proporções. Talvez isso seja um condicionamento que ficou embutido em mim desde criança, quando eu lia historias infantis de amores eternos, ou os romances da minha adolescência. Até hoje, eu espero. Então, talvez você esteja fazendo o certo.
As duas se calaram, perdidas em seus próprios pensamentos e conjecturas. A verdade era que Olívia sentia falta de sentir-se completamente apaixonada por alguém, ainda que sem ser correspondida, e ao mesmo tempo, sentia falta das pequenas aventuras. A segurança que Emilia dava a ela, às vezes a sufocava. Em alguns momentos bastava, mas não era sempre. Mas não se sentia pronta para perder aquilo. Gostava de tê-la ao seu lado. Ainda se divertiam juntas. Se entendiam na cama. Tinham um carinho imenso uma pela outra, e quem disse que isso não era amor? Amor não precisava ser pautado em um sentimento que corrói, que bagunça tudo o que esta a volta, que torna tudo tão intenso e ao mesmo tempo tão confuso.
Marina foi embora um pouco antes das dez, e Olívia aproveitou que estava sozinha em casa, para escrever um pouco. Fazia mais de uma semana que não se dedicava ao seu livro, mas não foi este o arquivo que abriu ao sentar-se de frente para o computador. Vinha escrevendo uma outra historia, um romance que começara a se desenrolar em sua mente algumas semanas antes, quando após sair do banho, sentou-se sozinha em seu escritório e começou a escrever.
Era uma historia de amor, melosa demais para seus próprios parâmetros, mas decidiu por não se censurar. E depois da conversa que tivera com Nina, algumas questões voltaram a ficar em aberto. A historia narrava a trajetória de um casal, começando pela maturidade, e voltando ao tempo em que se conheceram. Era um conceito de tempo que Olívia sempre gostara, mas que nunca tinha conseguido colocar no papel. Escrevia sem uma linha de tempo concreta, o momento que surgia em sua mente, era ao qual se dedicava, não impondo uma ordem ‘correta’ aos acontecimentos.
Estava perdida em seu universo paralelo, que era para onde ia quando escrevia, quando percebeu alguém parado a porta. Emilia sorria para ela docemente.
- Pode continuar. Você fica sexy concentrada assim. – A ruiva falou sedutora.
- Hum, se é assim. – Olívia se virou de volta para o computador e fingiu estar concentrada no trabalho.
- Assim é até maldade, gostosa. – Emilia andou até ela, abraçando-a por trás e beijando-lhe a nuca. – Senti falta do seu cheiro. – A voz sussurrada em seu ouvido, deixou Olívia excitada na hora.
- Também senti sua falta, minha linda. – Olívia puxou-a para o seu colo, e beijou-lhe os lábios. – Como foi a sessão de fotos?
- Cansativa, mas proveitosa. – Emilia começou a acariciar o pescoço branquinho dela. – E o seu dia, como foi?
- Foi bom. – Olívia começava a perder a concentração. – A Nina voltou de viagem e nós passamos o dia colocando a conversa em dia.
- Mesmo? Que bom. Estou com saudade dela. – Emilia passou a mão por de baixo da blusa de Olívia e tocou os seios dela. – Temos que marcar uma reunião logo.
- Ahã. – Foi só o que Olívia foi capaz de responder. Ela puxou o rosto de Emilia de encontro ao seu, segurando-a pela nuca. – Você é deliciosa. – Disse com a voz rouca, antes de tomar os lábios rosados com os seus.
O sexo foi diferente aquela noite. Olívia se dedicou a olhar para Emilia, prestando atenção em cada expressão do seu rosto, cada movimento involuntário do corpo, fazendo amor com calma e uma devoção carinhosa.
Emilia dormiu em seus braços quase que imediatamente, e Olívia ainda passou um longo tempo a admirá-la. O sentimento confortante de tê-la em seus braços, não parecia bastar, e uma angustia crescente a levava a querer escapar.
Deixou a cama tomando cuidado para não acordar a namorada, e foi para a pequena varanda tomar um ar. Esta era a parte que ela mais gostava naquele apartamento, a varanda. Abriu uma garrafa de vinho, serviu uma taça, e sentou-se na varanda sentindo o vento frio da noite.
Queria ser capaz de absorver a calma da brisa noturna na primavera. O cheiro das arvores era um calmante natural para a turbulência que sentia, queria começar dentro do seu peito. Lembrou-se de uma noite como aquela alguns anos atrás. Ela e Joana estavam separadas há duas semanas, e Olívia estava refugiada na casa da tia Gigi desde então.
“O sol se punha por de trás da montanha, e uma adolescente, vestindo calças de moleton e um casaco grande de mais, se encontrava sentada nos degraus da varanda assistindo ao espetáculo do sol a se esconder no horizonte.
Já fazia dias que Olívia nem ao menos saía de casa. Passava horas deitada sobre o colchão do quarto que ocupava na casa da tia. Mal se alimentava, mal falava, a única coisa que usava para se distrair, eram os livros da biblioteca da tia. Já finalizara dois romances de Machado de Assis, lera Jorge Amado, o que lhe tirara do sério, e se encantara por Zélia Gattai. Agora se entregava, não sem alguma dificuldade, aos “Cem anos de Solidão”, do Gabriel Garcia Marquez.
Pode ouvir os passos tímidos da tia ao se aproximar vindo da sala. Tia Gigi vinha sendo ainda mais incrível do que Olívia poderia esperar. Em nenhum momento perguntou o que acontecia, mesmo quando a garota aparecera na porta da casa dela com uma mochila nas costas, alegando que havia fugido de casa porque seus pais descobriram que ela gostava de meninas, e nem mesmo, quando em uma tarde como aquela, ela aparecera com os olhos inchados e se trancara no quarto. O máximo que fazia era insistir que Olívia comesse alguma coisa durante o dia.
- Vai chover amanhã. – A tia disse a suas costas. – Sente o cheiro?
Olívia respirou fundo, e sentiu o cheiro forte da grama que se estendia como um imenso tapete a sua frente.
- Eu fiz um bolo de laranja. Aproveita enquanto está quentinho. – a tia lhe estendeu um prato com um pedaço de bolo. Olívia o aceitou lhe oferecendo um sorriso tímido. Era o primeiro em muitos dias. – Isso vai passar minha querida. – Tia Gigi disse docemente.
Sentando-se ao lado da sobrinha, voltou a ficar em silencio, fitando o mesmo céu que se tingia de vermelho. Após alguns minutos, Olívia enfim mordeu um pedaço do bolo e suspirou.
- Eu vou precisar de uma carona amanhã. – A tia apenas confirmou com a cabeça sem olhar para ela. – Tenho uma prova no colégio.
- Claro minha querida. – Tia Gigi afagou-lhe o braço.
Olívia sentiu uma lagrima teimosa tentando descer pelos seus olhos, e a espantou antes que outras a seguissem. Já não sentia mais necessidade de chorar. Não que a dor tivesse diminuído, pois não tinha, mas vinha sentindo-se mais forte nos últimos dias. Sabia que não seria fácil voltar à antiga rotina, mas passaria por seu ultimo ano na escola antes de poder ir embora da cidade. Não falara com os pais desde que tudo acontecera, mas sabia que eles não se negariam a pagar pelo restante da sua educação, e depois disso, poderia deixar tudo pra trás.
Deu um beijo na tia antes de se erguer. Desceu os degraus restantes e saiu andando pelo jardim. A brisa leve da noite que caía, a acalentava. Sentia-se sob controle de seu corpo novamente. Podia sentir a mente mais clara. Talvez a raiva que passara a nutrir, a estivesse impulsionando, mas não importava. Se isto a levasse a seguir adiante, se alimentaria dela.
Olhou para o céu escuro e quase sem estrelas, e sentiu que a anestesia já não tinha mais efeito. Sentia a dor que seu peito carregava, mas era capaz de identificá-la e guardá-la dentro de si. Era uma pessoa bem diferente daquela que há vinte dias estava disposta a enfrentar o mundo pelo seu amor por Joana. O enfrentaria agora, por si mesma. E por menos nobres que pudessem ser suas motivações, elas voltaram a existir, e isso bastava, pelo menos naquele momento, bastava.”
De volta a sua realidade, Olívia serviu-se de um pouco mais de vinho. Já não era mais aquela adolescente conturbada, não poderia se esconder dos seus problemas como fizera antes. Sentia-se inquieta, e lembrou-se de uma frase de Érico Veríssimo: “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.” Eram os ventos da mudança, podia sentir. Havia mudado a sua vida tantas vezes, que já não lembrava como chegara até ali. O fato era, eles sopravam mais uma vez, e ela queria ser aquela que construía os moinhos de vento. Era tempo de dar um novo rumo a sua vida, ainda que isso causasse sofrimento, não somente a ela, mas a outros.
Terminou o seu vinho, fechou a porta que dava acesso a varanda, e pensou em ir deitar ao lado de Emilia, mas ao passar pelo escritório, decidiu entrar e escrever. Antes que seus dedos tocassem o teclado, abriu a gaveta da sua escrivaninha, e do fundo pegou um livro, onde dentro guardava antigas fotos, dentre elas, algumas dela e de Joana quando jovens. Elas sorriam das fotografias, e Olívia sorriu de volta. Quando no passado, as coisas tomam novas proporções, tomam novas dimensões, por isso ao passado pertencem e lá devem permanecer. Voltou a guardar o livro na gaveta, e encarou o seu presente, o texto ao qual vinha se dedicando e que a cada momento tomava contornos mais interessantes para ela.
Capítulo 17 - Um amor incondicional
Novembro chegou, e com ele um calor insuportável se abateu sobre a cidade maravilhosa. O verão se anunciava nos dias mais longos e no vapor que saía do asfalto ao meio dia.
Olívia detestava o verão. Mesmo vivendo no Rio de Janeiro toda a sua vida adulta, ainda se pegava sonhando com um clima mais ameno, e invernos mais longos. Sorriu para o ar condicionado do seu escritório no apartamento do Flamengo sem muito entusiasmo. Agradecia pelo frescor que ele possibilitava, quando o mundo lá fora parecia pegar fogo, mesmo que não gostasse do ar artificial. Gostaria de poder abrir as janelas e sentir uma brisa refrescante, ao invés do clima frio que se fazia completamente parado ali dentro.
Ouviu a campainha, e deixou a cadeira, que por mais confortável que fosse, estava matando a sua coluna pelas horas que passara ali sentada. Ao abrir a porta, o mormaço que tomava conta do restante da casa, a aqueceu, e ela fechou a cara.
- Eu preciso da sua ajuda. – foi o cumprimento que recebeu de Marcinha assim que abriu a porta. Ela passou por Olívia com sacolas penduradas nos braços pequenos, e o cabelo cheio, domado em um coque no alto da cabeça.
- Oi pra você também. – Olívia disse emburrada, tratando de fechar a porta atrás de si.
- Oi cunhadinha. – A outra lhe abriu um sorriso tenso. – Eu estou pirando.
Olívia sorriu. Marcinha vinha pirando há quase um mês, e tudo por conta da festa de casamento. Ela e Guto, que até então estavam decididos a fazer uma cerimônia simples, haviam sido persuadidos pelos pais de ambos, a darem uma grande festa em comemoração, com direito a casamento na Igreja Matriz de Teresópolis e recepção no clube Caiçaras, o maior da cidade.
- Minha mãe agora quer colocar uma fonte no meio do jardim de inverno do clube. – Reclamou. – E a sua mãe, quer enfeitar o salão todo com rosas. Como se eu gostasse de rosas. – Resmungou.
Olívia não conteve o riso.
- Se você disser: “Eu te avisei”, eu corto relações. – Marcinha atirou uma almofada na cunhada.
- Eu não vou dizer nada. – Olívia tentou conter o riso. – Mas o que você queria Marcinha? Honestamente? Você realmente achou que elas não fossem se meter no casamento de vocês? E de verdade, minha mãe está me surpreendendo. Ela nunca foi do tipo materna, mas esse casamento mexeu com ela.
- E eu não sei? Ela liga para o Guto quase todos os dias. – Marcinha falou desanimada. – Eu não sei o que fazer...
- Relaxa. – Este comentário lhe rendeu um olhar fulminante da cunhada. – É serio. Deixa as duas planejarem o casamento dos sonhos pra vocês. Você é filha única, então a sua mãe deve estar nas nuvens, e a minha, bom a minha mãe nunca pensou em planejar um casamento pra mim, então está se realizando através de você. Desculpa. – Olívia sorriu.
- Eu queria algo simples. – Marcinha sentou no sofá, no que Olívia a acompanhou. – Talvez um lual.
- Bastante hippie da sua parte. – Olívia comentou rindo.
- Você está se divertindo demais com isso, não esta?! – Marcinha a olhou enfurecida.
- Só um pouquinho. – Olívia riu. – Marcinha, você e o Guto vão se casar, isso é o que importa. Como, onde, isso é o de menos.
- Talvez seja o de menos, mas será que nem no meu próprio casamento eu posso dar opinião?
- Claro que pode. Mas pra isso, você precisa se impor.
- Eu sei. Mas aquelas duas separadas já são difíceis, juntas então...
- Desculpa linda. Adoraria poder ajudar, mas está fora do meu alcance.
- Na verdade você pode. – Marcinha fez cara de culpada.
- Como assim? – Olívia perguntou desconfiada.
- Sua mãe está vindo para o Rio neste final de semana e pediu para jantar com todos nós. Ela inclusive pediu que seu irmão te chamasse.
- Não mesmo. – Olívia deixou o sofá.
- Por favor, Olie. Se ela pediu pra te convidar, é porque ela realmente quer te ver.
- Nem começa Marcinha. Eu já vou ao casamento, e essa, é a minha parte nisso. – Olívia disse concluindo o assunto.
- Por favor. – Marcinha pediu mais uma vez.
- Não. – Olívia disse. – E nada do que você disser vai mudar a minha decisão.
Marcinha foi embora desapontada, mas isso não encerrou o assunto. À noite, foi a vez de Guto aparecer no apartamento sem avisar. Olívia estava deitada no quarto com Emilia assistindo a um filme, quando a campainha soou.
Emilia levantou depositando um beijo nos lábios da namorada e em menos de um minuto voltou acompanhada de Guto.
- Mano, por melhor que seja te ver, não precisa nem começar. Eu não vou. – Olívia disse assim que o viu entrar.
- Ah, vai sim. – Guto falou decidido.
- E quem vai me obrigar? – O desafiou.
- Olívia, eu não te peço muitas coisas...
- Ah, pede sim. – Ela o interrompeu.
- Isso é serio, ok? – Guto sentou ao lado dela na cama. – Eu não pediria pra você falar novamente com a mamãe se eu de fato não acreditasse que ela esta tentando.
Olívia emburrou, mas não revidou, dando a chance que Guto precisava para convencê-la.
- Ela pergunta por você sempre que me liga. Não é a primeira vez que ela pede para que eu marque alguma coisa para vocês se verem. – Guto tocou a perna dela, fazendo-a olhar para ele. – Por favor. Isso não é sobre o casamento, apesar de está ser a desculpa, isso é sobre nós como família. Faz isso por mim. Dá uma chance de a mamãe tentar ao menos.
Os dois se encararam por alguns instantes, e Emilia permaneceu parada a um canto para não interromper. Enfim, Olívia sinalizou com a cabeça que aceitava o convite do almoço.
- Obrigado. – Guto disse e abraçou.
- Mas isso não quer dizer que ela tem permissão de se intrometer na minha vida. – Olívia deixou claro.
- Claro que não. – Guto confirmou.
- E eu vou levar a Emilia. – Olhou para a namorada. – E se ela tiver qualquer problema quanto a isso, o acordo está desfeito.
- Sem problemas. – Guto sorriu. – Eu disse a ela que você estava vivendo com a Emilia. Ela também foi convidada.
- Ok. – Olívia disse, achando aquilo tudo muito estranho. – Quando e onde?
- Sábado à noite, na minha casa.
- Ok. – Olívia falou já sentindo as borboletas ganharem vida em seu estomago. Não via a mãe há muitos anos, e os últimos encontros foram, de forma geral, conturbados.
- Eu tenho que ir. A Marcinha está me esperando lá embaixo.
- Por que ela não subiu? – Emilia quis saber.
- Ela está com medo da Olie. – Ele respondeu com um sorriso.
- Amor! O que você fez com ela? – Emilia perguntou.
- Nada. – Olívia fingiu inocência. – Ela que se assusta com facilidade.
- Sei. – Guto disse com um sorriso. – É só porque ela ainda não aprendeu a lidar com esse seu ladinho revoltado.
Guto deu um beijo na irmã e na cunhada e foi embora. Quando Emilia voltou para o quarto, encontrou Olívia sentada olhando para o nada.
- O que foi minha linda? – Emilia a abraçou.
- Nada. Só essa historia de jantar com a minha mãe que não me desse muito bem. – Olívia a abraçou de volta. – Mas com você lá, eu vou ficar bem.
- Vai mesmo. – Emilia beijou a bochecha dela. – Se ela de alguma forma te atacar, eu viro uma leoa. Não tenho medo de sogras. – Fingiu-se de valente.
- É por isso que eu te amo. – Olívia sorriu e a puxou para sentar em seu colo. – Posso ser domadora de leões então? – Falou provocante.
- Só se for agora. – Emilia a beijou com voracidade.
No sábado pela manhã, Olívia levantou cedo da cama, o que era um milagre, até porque tinha ficado escrevendo até mais tarde, já que Emilia vinha trabalhado em um projeto que levou toda a noite e a madrugada também. Já passava das cinco da manhã, quando as duas foram deitar.
Deixou Emilia dormindo, e foi tomar um banho. Não podia negar que estava ansiosa pelo jantar àquela noite. Queria agir de forma casual, mas não vinha obtendo grande sucesso. A todo o momento lhe abatia uma apreensão e ansiedade, que tinha dificuldade em lidar.
Preparou um café da manhã completo, e levou ao quarto. Posicionou a bandeja sobre a mesinha de cabeceira, e deitou sobre o corpo nu da namorada. Cobriu seu rosto com beijos longos e delicados, sentindo-a despertar aos poucos. Sem nem mesmo abrir os olhos, o corpo de Emilia começou a responder ao seu. Ela se prendeu a Olívia, e fazia movimentos lentos, mas ritmados, sob o corpo dela.
- Bom dia. – Olívia falou baixinho no ouvido dela, antes de tomar o lóbulo direito de Emilia entre seus lábios, revezando entre beijos molhados e pequenas mordidas, fazendo com que a pele da outra se arrepiasse.
- Me acordar assim é até covardia. – Emilia gemeu, virando-se para ficar cara a cara com sua mulher. – Que horas são?
- Dez. – Olívia respondeu com cara de culpa. – Desculpa, não queria ficar sozinha, e me deu uma saudade de te beijar... – falou sedutora, já tomando os lábios rosados entre os seus, passando a língua de leve por sobre eles.
- Eu só não vou brigar com você, porque isso está gostoso demais. – Emilia sorriu e a beijou longamente, deslizando as mãos por de baixo da camiseta de Olívia.
Olívia soltou um suspiro satisfeito, antes de avançar sobre o colo de Emilia, lhe ajudando a se despir.
- Quero você dentro de mim. – Emilia ofegou quando Olívia a tocou entre as pernas.
Com um cuidado carinhoso, Olívia a penetrou com um dedo, e começou um movimento circular, que foi aumentando gradativamente, de acordo com os gemidos e suspiros de Emilia.
Fizeram amor por algumas horas, de jeito calmo, harmonioso, repleto de carinho e suspiros. Cada vez que se amavam, Olívia tinha uma confirmação que lhe tirava o sono. Ainda desejava outro corpo junto ao dela. Por mais que tivesse uma sintonia quase perfeita com Emilia, não era a perfeição. Não era o casamento explosivo entre dois corpos. Isto, ela só sentira uma vez, e a perspectiva de nunca mais ser capaz de se sentir assim com alguém, era frustrante.
Passou horas tentando escrever sem conseguir se concentrar, fechou todos os arquivos que mantinha aberto, e desligou o computador.
Uma hora antes do previsto para deixar o apartamento, já estava arrumada. Teve que rir de si própria e do seu nervosismo. Parecia até que estava se produzindo para um encontro amoroso. Como todas as tentativas que fizera para se acalmar, não haviam produzido qualquer efeito, decidiu partir para o mais lógico e básico, uma dose de tequila, e uma cerveja gelada. Não era a sua intenção chegar ao jantar embriagada, mas também não pretendia passar por aquela experiência, completamente sóbria.
Emilia chegou a casa, e foi deixando tudo pelo caminho, bolsa, pasta, maleta, chaves.
- Desculpa, desculpa, desculpa! – Foi gritando para Olívia, enquanto se despia e ligava o chuveiro. – A reunião demorou mais do que o esperado, mas eu juro que vou ser rápida.
Assim que deixou o banheiro, encontrou Olívia sentada à beira da cama, com uma garrafa de cerveja na mão, a expressão fechada.
- Amor, me perdoa. – Emilia falou doce, roubando um beijo da namorada.
- Esta tudo bem, Em. – Ela disse baixinho, retribuindo o carinho.
- Mesmo? Porque você não me parece bem.
- É besteira. – Olívia tentou desconversar.
- Fala amor. – Emilia começou a se vestir, mas sem deixar de prestar atenção em Olívia.
- É estranho saber que vou encontrar com a minha mãe. – Confessou. – Eu não sei como vou me portar. Me sinto com dezesseis anos novamente.
Emilia sorriu condescendente, e caminhou até ela. Afagou-lhe os cabelos, que mesmo longos, se mantinham desarrumados, e tomou uma de suas mãos entre as suas.
- Li. – Fez com que Olívia a encarasse, puxando seu rosto para cima com delicadeza. – Você não tem mais dezesseis anos. Você é uma mulher adulta, bem sucedida e livre. Eu sei que sempre importa o que nossos pais pensam da gente e que passamos a vida toda em busca da aprovação deles, e sim, eu estudei psicologia, - se interrompeu sorrindo. - mas você abriu mão disso há muito tempo. E mesmo que se sinta insegura, saiba que não deveria. – Acariciou o rosto da namorada. – Você é uma mulher incrível, admirável, generosa, talentosa, linda... e muito, muito amada. Não só por mim, mas por todos que te cercam. E acredite, todos nós temos muito orgulho de você. – a beijou.
- Obrigada minha linda. – Olívia a fitou emocionada. – Eu estava precisando disso. Mesmo que você tenha exagerado um pouco. – Um sorriso tímido, mas um pouco mais aliviado, brotou em seu rosto. – Eu te amo, sabia? – disse docemente, arrancando um sorriso enorme dos lábios de Emilia.
- Eu sei, mas é sempre bom ouvir. – Emilia respondeu, e mesmo sabendo que não fora intencional, Olívia sentiu uma pitada de amargura no tom que ela usou. – E eu amo você.
Beijaram-se longamente. Os lábios de Emilia lhe traziam conforto, segurança. A confiança em saber que era amada, era algo com o qual Olívia nunca se acostumaria. Mesmo que acreditasse ser uma mulher resolvida, algumas coisas marcam para sempre, e deste medo, ela só se veria livre no dia em que fechasse os olhos, e confiasse plenamente a sua vida e o seu coração novamente a alguém. Este ainda não era o caso ali.
Chegaram à casa de Guto e Marcinha por volta das oito e meia da noite. Olívia respirava com dificuldade, e Emilia lhe estendeu a mão ao saírem do carro. De mãos dadas se dirigiram a portaria do prédio. Milhares de imagens passavam pela mente de Olívia, mas nenhuma ficava tempo o bastante para ela se prender. Lembrou-se de momentos da infância em que a mãe costumava fazer bolo de chocolate nas tardes chuvosas e sentava com os filhos sobre o chão da sala para comê-lo. As idas a cachoeira nos finais de semana, enquanto seus pais ainda eram casados. Lembrou-se de quando teve catapora, e a mãe não deixou a cabeceira da sua cama um só segundo, lhe fazendo carinho e lhe trazendo sopa.
Nem todas as lembranças eram positivas, mas haviam muitas delas. Subiam pelo elevador, quando a lembrança mais dolorosa que tinha da mãe, lhe atingiu como uma bola de canhão no centro do peito, como se tivesse acertado o alvo certo. A decepção com que encarou os olhos verdes de Olívia na noite em que descobriu que a filha era lésbica e mantinha um caso com uma colega da escola, ainda lhe queimava.
“Quem poderia imaginar que em uma tarde ensolarada como aquela, o mundo de duas jovens, vivendo os dias mais felizes de suas vidas, iria ruir estrondosamente? Não aquelas almas apaixonadas, que devotavam sorrisos e cari]ícias entre palavras de amor eterno.
Quanto dura a eternidade? Qual a sua dimensão exata? Estas eram apenas algumas das questões que Olívia carregava, com passos lentos e sofridos, em sua volta para a casa.
A imagem dos olhos de Paulo, irmão mais velho de Joana, parado junto a porta do quarto ao flagrá-las seminuas sobre a cama, com seus corpos envolvidos, fundidos no ato sagrado do amor, iria atormentar as suas noites de sono, por muitos anos.
Não adiantou negar, nem o choro compulsivo de Joana sensibilizara o irmão, que logo se dirigiu aos pais, contando com detalhes tudo o que havia visto. Olívia quis ficar ao lado da namorada. Quis defendê-la da dor que sabia, ela agora agonizava. Argumentou, fingindo uma coragem que de fato não possuía, ouviu os insultos destinados principalmente a ela, com firmeza aparente, ainda que por dentro, pudesse sentir o coração descompassado e o tremor que seu corpo não era capaz de controlar.
Fora escorraçada da forma mais humilhante que pudesse imaginar. Chutada como um cão sarnento, sob juras de morte, e palavras de ódio, pelo pai da mulher amada. Não julgou a inércia de Joana, apesar de tê-la machucado, entendia a situação em que esta se encontrava, e se compadecia.
Mas somente ao abrir a porta da frente do seu apartamento, foi que teve real dimensão do acontecido. A um canto, sua mãe chorava compulsivamente, enquanto seu pai, que desde a separação, evitava estar no mesmo ambiente em que a ex-mulher, andava de um lado a outro, com uma raiva reprimida, capaz de ser sentida por qualquer um que estivesse a raios de distancia.
Sem saber como agir, sem ter idéia do que eles sabiam, apesar das ameaças claras de sua sogra de que contaria aos seus pais o acontecido, não sabia se ainda tinha forças para aquela luta, havia extinguido toda a sua coragem na casa da namorada. Sentia-se anestesiada até.
O que aconteceu a seguir, ainda era um borrão na mente de Olívia. Não tinha certeza de qual dos dois notara a sua presença primeiro, mas o olhar da sua mãe, ao cruzar com o seu, era a lembrança mais forte que tinha daquele momento. Decepção e nojo? Não saberia precisar. Mas não era nem de perto, o olhar que estava acostumada a receber de sua progenitora.
Seu pai a alcançou antes que se desse conta, e apertando seus braços finos com suas mãos grandes, lhe forçou a olhar para seus olhos. Ódio e incompreensão. Uma dor forte atravessou seu peito, ainda que não demonstrasse, foi capaz de sentir.
- É verdade? – Seu pai perguntou entre dentes, a sacudindo com força.
Olívia nada respondeu, sentia o choro que teimava em forçar passagem por seu peito e garganta, e que ela inutilmente esforçava-se para segurar. Travou uma batalha com o olhar raivoso do pai, tentando reconhecer qualquer vestígio do olhar amoroso que ele por vezes lhe dedicara. Foi o soluço de sua mãe que a despertou, e pode tomar consciência do seu corpo tremulo e da dor que sentia nos braços onde o pai ainda a segurava.
- Me diz que é mentira! – Seu pai pediu. – Diz que a minha filha não anda fazendo essas nojeiras por aí.
Com a ultima frase do pai, lhe subiu o ódio. Como alguém poderia julgar o seu sentimento por Joana, como nojeira? O encarou e desafiou com o olhar. Esquecendo-se da dor no braço, da angustia por sua amada, da decepção da mãe, do ódio do pai e do quão maior que ela, ele era, e respondeu com a voz tremula, mas não mais pelo choro, pela raiva.
- Não é mentira. Joana é minha namorada. – o enfrentou.
- Mentira! - Seu pai gritou, e com um movimento rápido, que Olívia, apesar da obviedade, não previu, um forte tapa que ele desferiu em seu rosto, fazendo-a cambalear e cair sentada no chão junto a porta.
Otavio Gurgel se assustou com o próprio ato, mas não ajudou a filha a se levantar, apenas se afastou sentindo culpa em meio à raiva. Olívia olhou timidamente para a mãe, e viu que ela escondia o rosto entre as mãos. Na verdade não podia esperar muito mais dela, apesar de ansiar por seu abraço.
Ergueu-se lentamente, e saiu andando em direção ao corredor. Assim que o atingiu, correu para o seu quarto, e antes de sequer pensar, começou a recolher seus pertences. Preparou uma mochila com algumas roupas e objetos pessoais, que incluíam seus diários, uma foto sua com Joana que mantinha dentro da gaveta de calcinhas, e algumas fitas k7 com suas musicas prediletas gravadas. Saiu pela porta da cozinha e esta foi a ultima vez que ali pisou.
Nos próximos meses viria a morar com a tia. Mesmo tendo voltado a ter relação com os pais gradativamente, nunca mais voltou a morar com nenhum deles. O que havia se quebrado ali aquela noite, nunca mais pode ser reconstruído. Eles passaram a ignorar a ‘condição’ da filha, e ela decidiu fingir que não se importava com o que eles pensavam.”
O elevador parou no quarto andar, e Emilia a tirou de seus pensamentos com um afago na mão que ela ainda segurava. Lhe dirigiu um sorriso inseguro e abriu a porta do elevador.
A distância que a separava do apartamento do irmão, foi vencida lentamente, e ainda assim, não lenta o bastante para acalmar seu coração. A adulta e a adolescente nela, ainda brigavam por espaço. E a mulher que ela havia se tornado, estava levando uma surra.
- Vai dar tudo certo. – Emilia sussurrou em seu ouvido antes de tocar a campainha. – Respira.
Olívia apenas confirmou que a ouvia com um menear de cabeça. Encarou a porta, que logo foi escancarada por sua cunhada, que sorria abertamente e puxou-a para um abraço apertado.
- Que bom que vocês chegaram. – Falou sincera. – E bem na hora, o jantar está quase pronto.
Ao fundo, Olívia avistou o irmão, e em seguida a mãe. Seu coração entrou em descompasso, e apertando ainda mais a mão da namorada na sua, entrou na casa.
Os passos que a levaram até a mulher que ela tanto amava, e a quem devia o fato de estar viva, foram incertos e temerosos. Fitou-a longamente antes, vendo em seu olhar a mesma apreensão e saudade que sentia.
- Minha filha. – Raquel deu o primeiro passo em sua direção, e tomou-a em seus braços. Olívia hesitou por um instante, antes de se entregar por inteiro aquele contato. Sentiu vontade de chorar, mas se conteve.
- Mãe. – Disse simplesmente, ainda abraçada a ela.
Ao desfazerem o abraço, não se separaram por completo. Olhavam-se, com sorrisos bobos dançando no rosto, e esperando que naquele momento, isso bastasse. A necessidade de palavras, já não existia, o que dizer afinal? Nada mudaria o que passou, nem para o bem, nem para o mal.
- Vamos jantar. – Guto chamou, e assim que Olívia e a mãe se soltaram, puxou a irmã para seus braços. – Estou imensamente feliz que você tenha vindo.
- Eu também. – Respondeu sinceramente, e ainda abraçados, os dois seguiram para a mesa de jantar que Marcinha prepara a um canto da sala.
O apartamento deles, apesar de pequeno, era extremamente aconchegante. Os moveis díspares, os quadros na parede que não seguiam uma lógica premeditada, assim como os panos que cobriam o sofá antigo, davam um charme especial a casa.
O jantar transcorreu de forma tranqüila. Falavam de amenidades, e aos poucos Olívia começou a relaxar, ou talvez fosse o vinho que começava a fazer efeito. O que importava é que cada vez mais conseguia participar da conversa sendo ela mesma, ou ao menos uma versão próxima do que ela acreditava ser.
Emilia fora extremamente simpática o tempo todo, e como acontecera com todos os seus amigos, logo ela parecia também conseguir conquistar a sua mãe. O clima leve parecia irreal em meio a tanta magoa passada, mas não poderia ser melhor.
Após todos terminarem de comer e esvaziar as taças de vinho, Marcinha deixou a mesa para buscar a sobremesa, e Olívia aproveitou a deixa para ir até a área de serviço fumar, único local onde isto era permitido na casa.
Ascendeu o cigarro, e tragou profundamente sentindo o efeito imediato que ele produzia. Estava tão concentrada no ato de fumar após mais de uma hora sentindo a abstinência da nicotina em momentos de tensão, que nem percebeu que outra pessoa se juntara a ela.
- Você ainda fuma? – Raquel perguntou sem qualquer repreenda, ascendendo o próprio cigarro.
- Assim como você. – Olívia respondeu com um sorriso no canto dos lábios.
- Sim. Algumas coisas não mudaram, não é? – Sua mãe a encarou profundamente.
- Poucas. – Olívia rebateu.
- Poucas. – Raquel suspirou, dando outro trago no cigarro. – Você está ainda mais bonita. Se é que isso é possível. – Disse emocionada.
Olívia não soube o que responder. Algo se moveu em seu peito, e uma vontade quase infantil de ser acolhida no colo materno, a inundou. A amava profundamente, e nem mesmo os desentendimentos, a distancia e a magoa passada, eram capazes de mudar este sentimento.
- Eu sinto tanto, filha. Por tudo. – Uma lagrima desceu pelo rosto claro da mulher. – Eu odeio não fazer parte da sua vida, apesar de saber que a culpa por isso é inteiramente minha. – Confessou. – E sei também que é tarde demais para arrependimentos. – Disse triste, o que parecia ser um discurso há muito ensaiado.
- Mãe... – Olívia disse com o coração na mão. Não queria fazê-la sofrer. Lhe doía profundamente causar qualquer dor que fosse a sua mãe. – Isso é passado.
- Eu sei. Eu sei. – Raquel forçou um sorriso. – Estou ficando velha, isso sim.
- Jamais. Você continua linda dona Raquel. – Olívia lhe sorriu. – E não é tarde. Estamos as duas aqui, não estamos?
Olívia percebeu que apesar de toda a dor que carregava no peito por todos os anos de distancia, e a rejeição que lhe fizera tanto mal por tanto tempo, eram pequenas perto da oportunidade de estar com sua mãe novamente.
Raquel se aproximou timidamente e abraçou a filha. Ficaram assim por longos minutos, matando uma saudade que não cabia em palavras, que não poderia nunca ser medida, ou quantificada, apenas existia, e começava enfim a ser sanada.
- Eu te amo tanto minha filha. – Raquel confidenciou ao ouvido da filha.
- Eu também te amo mãe. Mais do que você pode imaginar. – Olívia respondeu sentindo as lagrimas deixarem seus olhos. Mas estas, estas eram lagrimas de felicidade, tão diferentes das ultimas dedicadas aquela mulher.
- Sua namorada é linda. Além de ser extremamente simpática. – Raquel disse com um sorriso no rosto, ao se separar da filha.
- A Emilia é muito especial mesmo. – Olívia disse com um sorriso, sabendo que aquela era a forma que a mãe havia encontrado de lhe dizer que aceitava a homossexualidade da filha, e percebeu também o quanto esperou por isso.
Voltaram para a sala, onde os outros três conversavam animadamente. Raquel sentou no sofá ao lado de Guto, e reivindicou que Olívia se juntasse a eles. A mulher e a adolescente dentro dela, fizeram enfim as pazes, satisfeitas por igual com aquele momento de felicidade plena.
Na volta para a casa, Olívia sentia o coração mais leve do que sentira em anos. Sabia que aquele tinha sido apenas o primeiro passo, mas ele havia sido dado. Um aperto em seu peito lhe indicou que para tornar aquele momento perfeito, faltava uma coisa, algo que não havia identificado em principio, mas que logo tornou-se claro. Queria dividi-lo com Joana. Não pensava nela há muito tempo, ou ao menos vinha conseguindo se policiar quanto a isso, e a saudade que sentiu lhe apertou o coração.
Sabia que milhares de pessoas eram capazes de compreender o que ela sentia naquele momento. Certamente Marina vibraria com ela, assim que compartilhasse aquele sentimento com a amiga. A própria Emilia a brindava com um olhar orgulhoso, ao mesmo tempo que terno. Mas ninguém, ninguém era capaz de medir o que aquilo significava para ela, quanto a sua companheira adolescente. Alguém que vira de perto o seu sofrimento, que a segurara em seus braços e secara as suas lágrimas. É claro que isto antes de dar a facada final em seu coração já machucado. Por mais incrível que pudesse parecer, isso não parecia importar naquele momento.
“O dia seguinte, logo após os pais tanto dela, quanto de Joana descobrirem sobre o envolvimento das duas, foi um dos mais difíceis para elas. Não conseguiam se falar, ou mesmo se ver. E o medo e a angustia que sentiam, pareciam que nunca teriam fim.
Fora Joana quem escapara da sua “prisão domiciliar”, para ir ao encontro da namorada na casa da Tia Gigi, onde Guto lhe confidenciara que Olívia estava após a briga com os pais. O menino Gugu daquela época, não fazia idéia do ocorrido. Sabia apenas que a irmã havia brigado com os pais e saído de casa, sem entender de fato as razões que a levaram a isso.
A morena batera a porta da casa que por tantas vezes as abrigara, com o coração acelerado, um medo latente em seu peito, e a saudade ainda maior. Precisava ter certeza de que Olívia estava bem.
Tia Gigi apareceu à porta, e lhe sorriu docemente, aliviando um pouco da pressão que a menina sentia. Ou ela não sabia de nada, ou mais provavelmente, sabia, e aceitava. Isto era algo novo para ela.
- A Olie está aqui? – Perguntou gaguejando, esfregando uma mão na outra, ansiosa.
- Está sim Jo. – Tia Gigi lhe sorriu. – Ela está no quarto. – E abriu passagem para a menina entrar. – Acho que fará bem a ela te ver. – Completou, no que Joana apenas aquiesceu. Não tinha tanta certeza quanto a isso. Sabia que a magoara não partindo em sua defesa no dia anterior, e sentia o peito se rasgar por causa disso.
Andou lentamente até a porta do quarto. Toda a pressa em chegar, a ansiedade em vê-la, se esvaindo do seu corpo, quando outro sentimento se tornava predominante. O medo da rejeição.
Bateu a porta, e entrou. Avistou Olívia deitada de costas na cama, e com a cabeça virada na direção oposta, como se olhasse para o nada. Respirou fundo, fechou a porta às suas costas, e caminhou em direção a cama.
Nada disse. Tirou os tênis, e subiu na colcha colorida, deitando-se ao lado dela sem tocá-la. Por um tempo, foi tudo o que fizeram, até que Olívia se virou em sua direção, os olhos marejados do choro que a acompanhara por toda a noite, e se fitaram, se perdendo longamente uma nos olhos da outra.
As lagrimas silenciosas, eram as únicas companheiras delas naquele momento. Era difícil compreender como haviam chegado até ali. No dia anterior, estavam se amando como se o mundo a volta delas simplesmente não existisse. Eram apenas dois corações apaixonados se entregando de corpo e alma ao amor. E agora, pareciam duas estranhas. Como se uma vida inteira tivesse se passado em menos de vinte e quatro horas.
Olívia foi a primeira a quebrar aquele dialogo silencioso. Esticou o braço em direção a sua amada, e tocou-lhe o rosto. Joana suspirou e fechou os olhos. A delicadeza do gesto, a emocionando. Se moveu em direção a Olívia, e nela se agarrou. Um abraço sufocado, apreensivo, e ao mesmo tempo, completamente entregue.
Ficaram deitadas, abraçadas, unidas, com medo de proferirem qualquer palavra que as trouxesse de volta a realidade difícil em que estavam inseridas. Se refugiavam mais uma vez, ao pequeno conto de fadas em que viviam. Se permitiram esquecer por algumas horas, que o mundo lá fora desabava sobre as suas cabeças.
O beijo, desejo de ambas, aconteceu naturalmente, sem pressa, apenas com devoção. Um pedido de desculpa, um “sinto muito”, um medo compartilhado, um desejo dividido. Se amavam e não restava duvidas, mas até que ponto?
Segurando Joana, com as duas mãos em seus quadris, Olívia a puxou para cima dela, e aprofundou o beijo. O movimento dos corpos foi instantâneo, incontrolável. Precisavam sentir na pele aquele fogo que ardia dentro do peito.
Joana rebolava por sobre ela, roçava seu sexo no dela, e com as mãos explorava o corpo debaixo do seu. O destino das roupas, foi o chão. Pouco a pouco se livravam daqueles empecilhos, desejando que este ato fosse capaz de livrá-las de tantos outros que agora se impunham entre o amor delas.
O toque com a mão direita, entre as pernas da morena, libertou o primeiro gemido. Outros se seguiram, enquanto Olívia a fazia rebolar em seus dedos. As bocas não se separavam um segundo, com medo de estarem sozinhas, e assim se perderem.
Descendo a mão pelo corpo alvo sob o seu, Joana a tocou, fazendo Olívia se incendiar de dentro para fora. Os movimentos se tornaram mais intensos, e os corpos vertiam suor e escorregavam um em direção ao outro. Rolaram pela cama, se buscando, tocando, entrando. As bocas colavam na pele, num desejo mutuo de serem capazes de se engolir, marcar, pertencer.
Olívia procurou os olhos da sua morena quando sentiu que iria gozar. Joana entendeu o pedido para que fossem juntas, e intensificou os movimentos dos dedos e quadris, levando-as a loucura.
Os tremores pelos corpos encaixados ainda não haviam passado, quando Olívia a virou e colou sua boca no sexo molhado de Joana. A morena ofegou sentindo aquela língua quente no seu clitóris já sensível.
- Olie. – Pediu com a respiração entrecortada. – Vira pra mim.
Olívia a olhou, e obedeceu, virando o corpo em um sessenta e nove perfeito. Sentiu a língua de Joana a explorando, ao mesmo tempo em que se deliciava com o seu gozo. Se penetraram simultaneamente, e gozaram, uma na boca da outra, sentindo o corpo enfim saciado, ao menos naquele momento.
Olívia deitou ao lado dela na cama, e a puxou para os seus braços. Mais uma vez chorava. Um vazio imenso tomou conta do seu coração, e os braços da sua morena a envolvendo, era tudo o que precisava para liberar aquela dor contida.
- Shh – Joana sussurrou em seu ouvido. – Calma amor. – Falava, enquanto as suas próprias lagrimas voltavam a rolar pelo rosto. – Eu te amo tanto. – Disse com a voz embargada, quando um soluço subiu pela sua garganta.
- O jeito como ela me olhou. – Olívia disse enfim. – Ela nunca vai me perdoar.
Joana não precisava perguntar para saber de quem Olívia estava falando. Mesmo conturbada, a relação dela com a mãe era seu alicerce. Ela sempre dizia que no dia em que contasse que estava apaixonada por Joana, a mãe era a única pessoa que ela acreditava que iria entender. Perder a confiança nisso, a estava destruindo.
- Ela vai sim. – Joana disse mais para acalmá-la, do que de fato acreditando em suas próprias palavras. – Ela só precisa de um tempo, só isso.
- E como ficaram as coisas na sua casa? – Olívia perguntou temerosa.
- Piores impossível. – Joana soltou um suspiro. – Meus pais não quiseram nem me ouvir. E eu estou de castigo pelo resto da vida.
- Eu sinto muito Jo. Se eu não tivesse ido a sua casa... – Olívia começou, mas Joana a interrompeu.
- Uma hora iria acontecer amor. – Colocou as mãos no rosto dela. – Só nunca pensei que seria tão difícil.
- Eu não quero te perder. – Olívia confessou com a voz abafada.
- Você não vai me perder Olie. – Joana afirmou. – Eu te amo.
Olívia abriu um sorriso triste para ela, e a cobriu de beijos. Sabia que Joana fingia uma força e confiança que ela não tinha, mas queria tanto acreditar naquilo, que elas enfrentariam tudo juntas, que não deu ouvidos ao seu coração, quando este a avisou que o conto de fadas estava chegando ao fim. A ignorância era o seu lugar feliz.
Voltaram a se abraçar, e Olívia puxou o edredom por sobre os corpos nus. A aconchegou em seu ombro, e se perdeu no carinho delicado que ela fazia em sua barriga. Aquela proximidade, aquele calor que do corpo dela emanava, a embalou, e enfim ela foi capaz de descansar daquela dor.”
Chegando em casa, após Emilia ir dormir, Olívia deixou a cama que dividiam e foi se refugiar na varanda da sala. Com um cigarro em uma das mãos e o celular na outra, discou o numero que havia apagado do aparelho, mas que infelizmente ou não, havia memorizado.
O telefone chamou duas vezes, e ela o desligou. O que estava fazendo? Para que retomar qualquer forma de comunicação com uma mulher que não a queria mais? Sabia que as lembranças daquela noite a tinham levado de volta a um tempo em que Joana significava o mundo para ela, mas ainda assim não podia ser tão masoquista. Como queria ouvir a voz dela. Como queria dividir a sua vida com ela.
Estava imersa em seus próprios questionamentos, que se assustou com o toque do celular em sua mão. No visor, o numero que conhecia tão bem. Demorou alguns segundos para decidir se atenderia ou não. Pressionou, por fim, o botão do send, e levou o aparelho ao ouvido.
- Olie. – A voz que a saudou fez seu coração pular, como se fosse acordado após meses em um coma induzido. – É você? Aconteceu alguma coisa?
- Oi Jo. – Olívia enfim respondeu. – Eu não queria te assustar.
- Está tudo bem. – Joana disse ansiosa. – É muito bom ouvir a sua voz.
Olívia não sabia o que dizer. Dizer o que? Que estava morrendo de saudade dela? Que ainda a amava loucamente? Que por mais que tentasse, não era capaz de esquecê-la?
- Você está bem? – Joana perguntou diante do silencio da outra. Por mais que ouvir a respiração de Olívia do outro lado da linha preenchesse seu coração, precisava da voz rouca dela em seu ouvido.
- Estou. – Fez uma pausa enquanto decidia o que dizer em seguida. – Vi a minha mãe hoje à noite. – Disse por fim.
- Jura?! – Exclamou surpresa. - E como foi? – Joana parecia realmente interessada.
- Foi ... – suspirou. – surpreendentemente bom. Muito bom na verdade.
- Ah Olie. Você não avalia o quanto eu fico feliz em ouvir isso. – Ela era sincera e Olívia podia perceber. – Eu sei o quanto foi duro pra você viver afastada dela todos esses anos.
- Foi, mas hoje, só o que eu senti foi uma paz imensa. Como se enfim eu fosse capaz de fechar um ciclo em aberto há muito tempo na minha vida.
Joana congelou. O que aquilo significava? Olívia tentava dizer que a tinha esquecido? Que não a queria mais? Sentiu um pavor tão grande, que não conseguiu dizer nada.
- E eu queria que você soubesse. – Olívia concluiu com um suspiro triste.
- Que bom Olie. Eu sempre torci muito para que você se acertasse com a sua mãe, e eu sei que para a Raquel isso também foi importante. – Tentou a todo o custo disfarçar o tremor na sua voz.
- É. – Olívia se limitou a dizer, sentindo o efeito que a voz de Joana provocava em seu corpo.
O silencio caiu mais uma vez entre elas. Queriam dizer tantas coisas uma à outra, mas faltava coragem. Nenhuma das duas sabia como continuar o dialogo, e muito menos desejavam finda-lo.
- Como está a Bela? – Olívia achou que este era um assunto seguro, e ao mesmo tempo realmente se preocupava com a filha de Joana, ainda que não a conhecesse.
- A cada dia melhor. – Pode perceber o sorriso na voz do seu amor. – E ela é tão valente. Tão mais valente que eu.
- Que bom Jo. Eu tenho certeza de que ela vai ficar bem. Nem você, nem seu marido mereciam passar por isso. – Sim, ela não teve qualquer controle sobre o seu ciúmes.
- Olie... – Joana falou.
- Desculpa Jo. Eu não deveria ter dito nada. – Olívia respirou fundo antes de continuar. – Eu realmente fico feliz que a sua filha esteja bem. Eu só desejo boas coisas pra você sempre.
- Eu sei. Desejo o mesmo pra você. - Joana pensou em mencionar que sabia que Olívia estava vivendo com outra mulher, mas no fundo sabia que não tinha qualquer direito.
- Bom, era isso. – Olívia decidiu encerrar aquela ligação antes que perdesse o que lhe restava de controle, e admitisse que a queria mais que qualquer coisa no mundo e que somente ela a faria feliz de fato. – Desculpa ter ligado tão tarde.
- Você pode me ligar sempre que quiser. – Joana não resistiu.
- Não, não posso. – Olívia respondeu triste. – Não deveria ter ligado. – Admitiu. – Mas por alguma razão, me peguei desejando compartilhar isso com você.
- Eu estou muito feliz que você tenha me ligado. – Joana baixou a guarda. – Tenho vontade de te ligar todos os dias. – O silencio que se seguiu fez com que Joana se arrependesse de ter se deixado levar. Não era o momento de se abrir.
- Por quê? – Olívia perguntou com a voz fraca, após mais um momento de silencio entre elas.
- Porque, com exceção da Bela, você é a pessoa mais importante no mundo pra mim. – Quando se deu conta, já havia falado demais.
- É isso que eu não entendo Jo. – Olívia se viu perdendo o controle. – Se é assim, por que você me afastou da sua vida novamente?
Joana nada respondeu, embora Olívia pudesse ouvir um lamento em sua respiração. Diante do silencio da outra, Olívia voltou a falar.
- Eu cansei de tentar entender Jo. – Olívia falou resignada. – Te ligar foi um erro.
Se preparava para desligar, quando a outra se manifestou.
- Não desliga. – Ela chorava? Olívia não tinha certeza.
- É melhor nós pararmos por aqui. – Falou triste. – Nós duas sabemos que nada do que for dito pode mudar o que passou. Fica bem.
Olívia desligou sem maiores delongas. O aparelho queimava em sua mão. Sentiu que iria chorar mais uma vez àquela noite, e se impacientou consigo mesma. Despertara um sentimento que há tanto tempo tentava manter sob controle. Havia sido imprudente com seu coração novamente. Cada vez que buscava por Joana, seu coração se partia em mais um milhão de fragmentos, e todo o trabalho que tivera para colar os cacos antes partidos, era perdido.
Capítulo 18 - E mais uma vez, acreditar...
Todo amor que houver nessa vida
(Cazuza)
"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
Que ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio pra dar alegria"
O casamento de Guto e Marcinha se aproximava na mesma velocidade em que o tempo esquentava. Com as aulas da escola entrando em recesso de final de ano, Olívia se viu com maior tempo livre e acabou cedendo as suplicas da cunhada para que se envolvesse com maior afinco na cerimônia de casamento.
Desde o jantar na casa de Guto, ela e a mãe passaram a se falar com maior regularidade, e Olívia via crescer uma admiração mutua entre elas que a fazia imensamente feliz.
Com Emilia, acontecia o contrário. Distanciavam-se cada dia mais. Olívia sabia ser em maior parte por culpa sua. Não era capaz de continuar mentindo sobre o que sentia de verdade, e parou de fingir que o que havia entre elas, era mais do que uma amizade colorida que tomara proporções grandes demais.
Sem o seu empenho, a relação vinha morrendo aos poucos sem que qualquer uma das duas sequer tocasse no assunto. Emilia trabalhava em diversos projetos ao mesmo tempo, e usava isso como desculpa pelo abismo que se abrira entre ela e a namorada. Já Olívia, simplesmente cessara suas demonstrações explicitas de carinho e pequenas declarações. Continuavam juntas apesar de tudo, mas ambas tinham consciência, ainda que com sentimentos completamente diferentes referentes a isto, de que o fim estava próximo.
Na semana que antecedeu ao casamento, Marcinha viajou para Teresópolis para fazer os ajustes finais. Chegando lá, a primeira ligação que fez foi para a sua amiga, e madrinha. Marcaram de se encontrar na casa de Joana na mesma tarde.
Quando a campainha tocou, a morena largou o livro em que estava mergulhada, e recebeu a amiga com um sorriso e um abraço apertado.
- Eu não acredito que você esta aqui. – Joana confidenciou. – Estava morrendo de saudade.
- Eu também, amiga. – Marcinha disse sorrindo. – Você talvez seja a pessoa de quem eu sinto mais falta. Tirando meus pais, é claro.
- Nem me fala Marcinha. A vida aqui sem você não tem a menor graça.
Sorriram uma para a outra, e Joana fechou a porta acompanhando Marcinha até o sofá.
- Onde esta a minha afilhada mais linda do mundo?
- Na casa do pai. – Joana respondeu. – Ela está começando a se habituar em ter duas casas e dois quartos. Acho até que ela esta gostando bastante disso.
- Que bom Jo. Fico feliz que vocês enfim conseguiram resolver as coisas. – Marcinha foi sincera.
- Estamos caminhando para isso. Ainda tem toda a questão da sociedade do André com o meu pai, por isso ainda não contei a eles sobre a separação, mas a situação aqui estava insustentável, tanto pra mim, como pra ele.
- Eu imagino. – Marcinha a olhou triste. – Oh amiga, a sua vida está bastante complicada, não é?
- Muito. – Joana suspirou. – Mas graças a Deus a Bela esta melhorando, e isso é o que mais importa.
Seguiu-se um silencio em que elas apenas se encararam. A expressão triste de Joana, mexia com Marcinha. Tinha um carinho mais que especial pela amiga, e odiava vê-la naquela situação.
Joana suspirou querendo criar coragem para tocar no assunto que mais a angustiara nos últimos dias, seu telefonema para Olívia. Tinha medo de perguntar, mas sabia que não suportaria ficar sem ter noticias.
- Como ela esta? – Perguntou por fim. Sem precisar dizer a quem se referia, esta pergunta era recorrente nas conversas entre as duas.
- Jo, esquece a Olie. – Marcinha respondeu cansada. – Eu nunca vi duas pessoas mais cabeças duras em toda a minha vida. Você sofrendo por ela, ela por você. Toma uma atitude amiga!
- Ela ainda fala em mim? – Perguntou esperançosa, ignorando a bronca da amiga.
- Não. – Marcinha respondeu. – E você pode culpá-la? Quanto tempo ela passou esperando por um sinal seu? Quantas tentativas ela fez que você não correspondeu? – Joana fez menção de justificar. – Eu sei. Eu sei que pra você não tem sido nada fácil. Mas sinceramente Jo, isso não justificava a sua atitude com relação a ela. A Olívia teria te dado apoio em todo esse processo. A opção de afastar ela da sua vida, foi inteiramente sua. Eu sei que a Olie não é fácil, e eu sei que ela te deixa insegura, mas está mais do que claro o que ela sente por você. Ou ao menos sentia. – Parou como que tomando coragem. - Ela está com uma pessoa maravilhosa agora. Ela está retomando a vida dela. Não é justo que você queira interferir nisso.
Joana baixou os olhos. Sabia que a amiga tinha razão. A opção havia sido sua. Mas a verdade é que a Olívia ainda era um mistério para ela. Acreditava na sinceridade dela quando dizia que a amava, mas isso nem sempre bastava. Ela realmente acreditou que o que fazia, era o melhor para todos. Se envolver com Olívia naquele momento, só complicaria as coisas para Bela. Mas a queria. Como a queria.
- Ela me ligou. – Disse enfim.
- Quando?
- Na noite em que reencontrou a Raquel. – Joana disse triste. – Foi praticamente impossível não dizer tudo o que eu sinto por ela. Mas como você disse, eu sei que seria injusto.
- Eu não tinha idéia que ela havia ligado pra você. A Olie não é de se abrir facilmente. Acho que só me contou coisas da vida de vocês, porque estava realmente desesperada.
- Eu sei. Ela sempre foi discreta. Especialmente quanto aos seus sentimentos. Essa é uma das coisas que eu amo sobre ela. E pensar que isso já me irritou tantas vezes. – Joana sorriu ao lembrar. – Mas quando ela se declarava, era como assistir o sol nascer pulando sem pára-quedas do topo do mundo.
Marcinha afagou a mão da amiga. Queria mais que tudo, poder fazer algo por aquelas duas, mas elas haviam se magoado tanto e de tantas formas, que não via possibilidade alguma delas se acertarem.
- Você sabe que ela estará aqui para o casamento, não sabe? – Marcinha interrompeu os pensamentos de Joana. – E virá com a mulher dela.
- Eu sei. – Joana controlou a dor e a raiva que este pensamento lhe despertava. – E eu prometo respeitar o seu momento e ser civilizada. E eu sei que a Olívia vai agir da mesma forma.
- Bom. – Marcinha disse simplesmente. – Agora vamos as suas tarefas como minha madrinha. – Disse com um sorriso divertido.
- Ok, vamos lá. – Joana sorriu de volta. Estava realmente feliz pela amiga. Marcinha encontrara um homem que a amava mais que tudo no mundo, e aquilo era o que mais importava.
Almoçaram juntas, e passaram a tarde envolvidas com os planos do casamento. Havia ainda muita coisa a ser feita, e por mais que tanto a mãe quanto a sogra, houvessem se empenhado em deixar tudo organizado, existiam coisas que dependiam da aprovação da Marcinha, e outras que não dividira com as mulheres mais velhas, que era onde colocaria o seu jeito e do Guto na cerimônia.
No Rio de Janeiro, Olívia saía de mais uma reunião com sua orientadora. Claudia, mesmo com sua postura rígida, havia sido somente elogios a sua orientanda. Olívia era uma de suas alunas mais aplicadas e talentosas. Aprendera não somente a admirá-la, mas cultivava um carinho que poucas vezes era capaz de demonstrar.
- Mais dois semestres, e você será mestre em Literatura. – Claudia falou ao deixarem sua sala. – Não são muitos os orientandos para quem posso falar isso.
Olívia sorriu. Sabia que aquilo era o mais próximo que chegaria de receber um elogio, mas bastava. Com tudo o que acontecia em sua vida naquele momento, se dedicar ao mestrado parecia impossível, mas ela encontrou na atividade didática, uma válvula de escape bastante eficiente. Estava com o trabalho adiantado, e já cumprira boa parte do currículo exigido. Entraria de férias tendo alguma folga, mas como se conhecia bem, provavelmente se enterraria no trabalho para não ter que lidar com todo o resto.
- Bom, eu espero que você aproveite este tempo para descansar, mas se por um acaso decidir mexer na sua dissertação, pode me ligar a hora que for. Devo viajar alguns dias, próximo as festas de final de ano, mas no restante do tempo estarei pelo Rio mesmo. Não hesite em ligar, certo?
- Obrigada Claudia. – Olívia lhe sorriu. – Eu provavelmente irei te ligar.
Claudia sorriu em retorno. Aquela jovem de aparência por vezes desleixada, e até mesmo um pouco arrogante, se mostrara uma pessoa extremamente interessante. Se cumprimentaram com um aperto de mãos e Claudia seguiu decidida pelo corredor.
Se Olívia não estivesse tão enrolada com a sua vida amorosa, investiria em Claudia, pensou. Ela era uma mulher fascinante, além de possuir uma beleza exótica que a deixava ainda mais sensual.
Sacudiu a cabeça para retirar este pensamento, e foi com um sorriso nada inocente que adentrou a sala de Paula.
- O que você aprontou? – Paula perguntou assim que viu Olívia entrar fazendo aquela cara de criança que fez arte.
- Nada. Eu hein?! – Olívia desconversou. – Vim te buscar pra almoçar.
Paula se virou sem graça para ela.
- Eu meio que já tenho planos. – Falou culpada. – Desculpa Li.
- Com a Lara? – Olívia perguntou sabendo qual era a resposta.
- É. – Paula mordeu o lábio.
- Isso está mesmo ficando serio. – Comentou divertida.
- Está. – Paula prendeu a respiração. – Nós vamos morar juntas. – Soltou rápido, e olhou apreensiva para a ex-namorada.
- Bom, isso estava mais do que obvio. – Olívia constatou. – Você esta feliz?
- Muito. – Paula abriu um sorriso aliviado. – Eu não moro com outra mulher, desde você. Acho que estou um pouco ansiosa, só isso.
- Não precisa Paulinha. – Olívia se aproximou e a abraçou. – Vai dar tudo certo. E se não der, eu ainda estarei por perto pra te consolar.
- Eu sei disso. Mas é sempre bom ter essa confirmação. – Paula falou emocionada, aconchegando-se ao corpo de Olívia.
- E para sexo por vingança, ou por carência, ou por diversão. – Olívia falou. – Não importa o motivo, eu estarei sempre aberta para sexo com você.
Este comentário lhe rendeu um tapa forte no braço, para então as duas caírem na gargalhada.
- Você esta casada! – Paula acusou. – E eu sou uma mulher séria.
- Sei. – Olívia abriu um sorriso sedutor. – Isso nunca impediu nenhuma de nós.
- Não, não impediu. – Paula falou rindo. – Mas eu gosto de pensar que nós amadurecemos ao menos um pouquinho.
- Maturidade é superestimada. – Olívia reclamou. – Não me trouxe, nem mais sabedoria, nem mais diversão. – Se virou para Paula. – E vamos combinar que o sexo entre a gente, sempre foi incrível.
- Verdade. – Paula concordou. – E apesar de eu continuar te achando extremamente atraente, não sinto vontade alguma de ir pra cama com você.
- Aucht! – Olívia se fez de ofendida. – Eu sei que o meu ego é grande, mas você não precisava dar essa porrada.
- Até parece Li. – Paula riu. – Por que você não vem almoçar conosco? É realmente importante pra mim que você e a Lara se conheçam melhor.
- Se eu não for atrapalhar. Também quero conhecê-la melhor. – respondeu um pouco insegura.
- Claro que não atrapalha. – Paula lhe estendeu a mão e um sorriso. – Só tenta controlar os comentários sarcásticos, ok? E sem referencias sexuais que envolvam nós duas. A Lara tem a mente aberta, mas mulher nenhuma é grande fã de ex-namoradas.
- Hum. Então a senhorita perfeição não vai com a minha cara. – Declarou divertida. – Bom saber.
- Eu não disse isso. – Paula defendeu. – Ela só não te conhece direito, mas sabe da sua importância na minha vida.
- Vocês conversaram sobre ex-namoradas? – Olívia a repreendeu. – Você não sabe que isso é um tiro no pé?
- Como se lésbicas conseguissem controlar isso? – Paula a cutucou. – Vai dizer que você nunca falou das suas exs para a Emilia?
- É... – Ela resmungou. – Eu detesto ser tão mulherzinha quando estou envolvida. Ficamos idiotas e cavamos a nossa própria cova.
- Ok, mais um assunto proibido. – Paula falou enquanto pegava a própria bolsa de sobre o sofá e se encaminhava para a porta.
- Mais alguma proibição? – Olívia sacaneou. – Desse jeito é melhor você nem me levar. Eu posso acabar deixando alguma coisa vazar.
- Ai de você. – Paula lhe deu outro tapa no braço.
- Ai. Você anda violenta. Isso na cama deve ser uma delicia. - O olhar que Paula lhe dirigiu, foi fulminante, e Olívia caiu na gargalhada. – Estou apenas gastando as minhas gracinhas com você, já que no almoço vou ter que fingir que sou séria e comportada.
Paula apenas balançou a cabeça em uma negativa divertida, e puxou Olívia para fora da sala.
Lara as aguardava em um restaurante não muito distante do campus da universidade. Por tanto decidiram ir ambas no carro de Olívia, já que esta seguiria para a zona sul após o almoço, e Paula ainda teria que voltar para a faculdade e poderia ser levada pela namorada.
Desceram do carro, e atravessaram o hall de entrada do restaurante. Lara estava sentada a uma mesa no fundo do salão. Havia um copo de água gaseificada sobre a mesa e ela revisava alguns papeis.
- Oi amor. – Paula disse assim que se aproximaram da mesa.
- Oi meu bem. – Lara ergueu-se para cumprimentar a namorada com um beijo leve nos lábios. – Como vai Olívia? – Se virou para a convidada.
- Tudo bem. E você Lara? – Olívia estendeu-lhe a mão, que foi prontamente apertada pela outra em um gesto cordial.
- Já pediu? – Paula perguntou assim que se acomodou em uma cadeira ao lado de Lara, enquanto Olívia sentava-se de frente para elas.
- Ainda não. – Lara respondeu ao sentar-se. – Estava analisando alguns pontos de um caso que chegou hoje para mim, e acabei me distraindo.
- Sobre o que? – Olívia perguntou se dirigindo a advogada. – Se você não se importar, é claro.
- Não, não me importo. – Lara apanhou os papeis e guardou-os na pasta. – Uma jovem que entrou com uma ação contra o pai. Ela alega abandono afetivo e financeiro. O tipo de caso complicado para se provar qualquer coisa. Acaba tudo se tornando subjetivo e dependendo do juiz que vier a julgar o caso.
- Uau. Imagina se eu tivesse feito isso? – Olívia comentou. – Teria tirado um dinheiro grande do meu pai.
Como não a conhecia, Lara ficou apenas sem graça, enquanto Paula ria do sarcasmo de Olívia.
- Eu estou brincando. – Ela se adiantou a dizer para Lara. – Eu jamais faria isso. A culpa não foi dele, eu que dei o fora e não aceitei ajuda. – Se justificou.
- Não liga Lara. A Olívia não leva nada muito a serio. – Paula falou, repreendendo a ex-namorada com o olhar.
- Eu levo sim. – Olívia se defendeu. – Desculpa a brincadeira, Lara.
- Não se desculpe. – Lara falou seria. – Eu já pensei nisso. Meu pai é um político safado que também abandonou o lar como tantos outros. Teria herdado uma fortuna com uma ação como essa.
Desta vez foi Olívia quem ficou sem graça. Mas logo percebeu que Lara sorria, e relaxou. Elas acabaram se divertindo durante todo o almoço, que durou mais de duas horas. Entre brincadeiras e conversas serias, logo Olívia e Lara pareciam se conhecer há anos, e Paula, que nunca imaginou as duas se dando bem, estava surpresa com a fluidez com que aquela amizade começava a tomar forma. Olívia foi ela mesma, apesar dos pedidos da ex-namorada. E Lara que também tinha um senso de humor afiado, logo se identificou com a jovem escritora a sua frente.
Quando deixaram o restaurante, já haviam combinado um chopp no novo bar do Bola e do Tom, que agora se chamava ‘O Pônei Saltitante’. O nome era uma referencia direta a hospedaria em que os personagens do Livro “O Senhor dos Anéis”, um dos prediletos de Tom, se encontravam no inicio da historia, e como dizia Bola, nada poderia ser mais gay, o que Olívia não pode deixar de concordar.
Entrou no apartamento, e foi com alívio, que se viu sozinha. Vinha evitando encontrar com Emilia durante o dia, o que não estava sendo difícil. A namorada trabalhava o dia todo, e voltava tão tarde para casa, que elas mal se falavam antes desta ir dormir, e Olívia voltar aos seus livros.
Decidiu tomar um banho antes de voltar ao trabalho. Escrever dois livros simultaneamente, além da dissertação do mestrado, era exaustivo. Sua mente era povoada por personagens distintos, com personalidades fortes e características tão peculiares a cada um, que ela precisava de algumas horas de sanidade por dia. Fosse uma caminhada na lagoa, ou um chopp com os amigos. Outras vezes, apenas se permitia mergulhar em uma historia que não a pertencesse, fosse em um filme, fosse em um livro, mas nem sempre isso bastava.
Sempre que se permitia relaxar, uma nova situação começava a tomar forma em sua mente. Uma cena especifica, ou uma reviravolta completa na qual ela nunca havia pensado. Por isso a sensação constante de que não era ela quem criava as historias, ou talvez até as criasse. Mas só era capaz de dar o ponta pé inicial, pois assim que começava a tomar forma, ela ganhava vida por si só, Olívia sentia-se apenas um veiculo para colocá-las no papel.
Ela estava mergulhada em uma cena que começava a ganhar contornos em sua mente enquanto deixava que a água quente do chuveiro massageasse as suas costas, que não havia percebido a presença de outra pessoa no banheiro. Quando se virou, avistou Emilia parada ao batente da porta com um sorriso tímido no rosto, mas não menos encantador.
- Chegou há muito tempo? – Olívia precisou pigarrear para fazer com que a voz se soltasse da garganta.
- Não muito. – Emilia lhe pareceu cansada, mas ao mesmo tempo, serena. – Cancelaram as ultimas sessões por causa da luz. – Ela não se movera. Continuava mirando Olívia intensamente.
- Que bom. Você anda precisando mesmo de um descanso. – Olívia emendou sentindo-se inadequada, era como se elas não se conhecessem mais. Duas estranhas dividindo o mesmo teto.
- Uhum. – A ruiva se limitou a responder.
Olívia abriu a porta do boxe e se deparou com o olhar de Emilia sobre o seu corpo. Puxou a toalha e começou a se secar. Por mais incrível que pudesse parecer, não fazia idéia de como agir.
- Eu almocei com a Paula e com a mulher dela, a Lara hoje. – Olívia procurou qualquer assunto. – Sabe que a advogada é bem legal?
- Mesmo? - Emilia nem ao menos disfarçou a sua falta de interesse, e com um andar felino, deu um passo em direção a Olívia.
Seu corpo reagiu na mesma hora ao olhar faminto da outra. Não conseguia processar nenhum pensamento coerente ao perceber a intenção da ruiva. Se aproximando lentamente, como um animal que testa se sua presa irá fugir antes de dar o bote.
- Como foi o seu dia? – Olívia tentou quebrar o clima novamente. Se sentia profundamente inadequada naquela situação.
- Foi bom. – Mais uma vez, Emilia foi monossilábica, e deixou escorregar um sorriso sedutor nos lábios.
Quando Emilia estava a um palmo de distancia, Olívia já não era capaz de respirar. Seu corpo ardia e ansiava pelo contato. Não transavam há mais de um mês, e por mais que acreditasse estar certa sobre a distância que estabelecera, ainda sentia-se atraída por ela.
Emilia tocou o rosto de Olívia delicadamente, diante da aceitação desta, aproximou seu rosto do dela, até poder sentir a respiração sendo compartilhada. Poderia sucumbir diante desta sensação. Sentia tanta saudade da namorada, da cumplicidade que tinham, do braço dela em volta da sua cintura enquanto dormiam. Levantou os olhos, antes concentrados em mirar os lábios entreabertos de Olívia, e fitou seus olhos verdes.
Desta vez foi Olívia quem tomou o controle. Desceu seus lábios sobre os dela com vontade, mordendo, invadindo, lambendo, sugando. Sentiu seu corpo ser imprensado contra a parede do banheiro, quando Emilia revidou.
A luta que agora travavam, era a mais bela das danças. Buscavam uma o corpo da outra, e logo Emilia se desfez da toalha que cobria o corpo da amada. Olívia tentava tirar a blusa que Emilia vestia, mas esta não permitia. Apalpava, apertava, mordia e marcava a pele branca da sua mulher. Olívia a segurou pela nuca, forçando seu rosto para cima, e capturou novamente seus lábios, que já exploravam o colo desnudo.
Emilia retribuiu o beijo com desejo, pressa, voracidade, descendo suas mãos pelo corpo dela, que ainda era forçado contra a parede, com o seu. A tocou entre as pernas e gemeu ao senti-la molhada. Adorava possuir aquele corpo, e sentiu-se ainda mais excitada quando sentiu o corpo de Olívia se contrair.
Ditando um ritmo enlouquecedor, Emilia deixou Olívia desarmada. Ela se apoiava na parede lateral e sobre os ombros da namorada. Sentiu o tremor tomar conta de todo o seu corpo, as pernas bambearam, e se Emilia não a segurasse, teria ido ao chão.
Ficaram abraçadas até que a respiração das duas fosse regularizada, Emilia beijava o rosto de Olívia levemente, e tinha um sorriso vitorioso no rosto. Olívia sorriu-lhe de volta, acariciou-lhe a face com delicadeza, e beijou-lhe os lábios.
- Acho que eu preciso sentar. – Olívia falou sorrindo.
- Vem. Eu te levo até o quarto. – Emilia a puxou.
Olívia se jogou sobre a cama e puxou Emilia com força para junto dela. Se aproveitando da surpresa da namorada, a girou na cama, se posicionando por sobre ela.
- Agora é a minha vez. – Olívia falou sedutora.
- Então me toma. – Emilia rebateu.
Começou a tirar a roupa da Emilia lentamente, a cada peça retirada, cobria a pele sardenta com seus lábios e língua. Se demorou nos seios intumescidos, provocando um gemido de Emilia. Arrancou-lhe a calça, e a calcinha, e se posicionou por sobre ela. Começou uma dança excitante sobre o corpo dela, sentindo o sexo molhado de encontro ao seu.
- Me come. –Emilia falou em seu ouvido.
Olívia abriu um sorriso antes de tocá-la entre as pernas. Mas antes de penetrá-la, sentiu-a como um todo com a ponta dos dedos, levando-a a loucura. Emilia pedia, implorava para que ela parasse de torturá-la, mas Olívia continuou provocando, sentindo um prazer imenso em ver Emilia se contorcer debaixo do seu corpo.
- Li... – Ela pediu novamente. – Quero você dentro de mim. – As palavras saíam entrecortadas.
- Assim? – Olívia perguntou quando com dois dedos, a penetrou.
Como resposta, Emilia soltou um gemido alto. Olívia aumentou o ritmo, levando a ruiva à loucura. Não demorou muito para que Emilia gozasse com um grito alto no ouvido de Olívia.
Demoraram para se mover. Olívia ainda cobria o corpo dela com o seu, e Emilia a prendia a si com braços e pernas. Os corpos suados, colados, se sentiam.
- Estava morrendo de saudade. – Emilia confessou.
- Também. – Olívia falou sinceramente. Sentira saudades dela. Havia se esquecido do quanto era bom o sexo entre elas. – Adorei ser surpreendida assim.
- Juro que não foi planejado. – Disse rindo. – Mas quando eu te vi nua naquele chuveiro, eu não resisti. – Falou no ouvido dela.
Olívia se ascendeu inteira, e percebendo isso, Emilia posicionou o braço entre os corpos e a tocou.
- Quero sentir o seu gosto. – Sussurrou, antes de virá-la na cama e descer pelo seu corpo até alcançar seu objetivo.
Passaram horas em uma entrega física intensa como há muito tempo não faziam. Em nada pensavam, apenas se sentiam. E era bom. Existia uma conexão muito forte entre elas que parecia esquecida, mas que voltava a ser sentida por ambas.
Pegaram no sono uma nos braços da outra, em um acordo velado de tentar um recomeço, cada uma por seus próprios motivos, sem certezas, sem promessas vazias, apenas um entendimento de que era disso que precisavam naquele momento.
Na quinta-feira à noite, Olívia, Emilia, Guto, Theo, Marina, Paula e Lara, se reuniram no Pônei Saltitante para festejar a despedida de solteiro do Guto. Ele havia chamado o Theo para ser o seu padrinho, e este queria marcar uma festa grande em uma boate, mas foi dissuadido pelo próprio Guto, que preferia apenas passar a noite entre amigos.
Olívia e Emilia foram as primeiras a chegar, e foram logo ocupando a maior mesa do bar. O espaço era menor do que o bar do Bola na Lapa, mas com muito mais estilo. Marina os havia ajudado na escolha dos moveis, cor das paredes, decoração, tornando o lugar uma replica de uma taberna, que era como Tom imaginava que seria o Pônei Saltitante. É claro que tinha um estilo próprio, com mesas em madeira no andar de baixo e mesas de sinuca com um bar, no andar de cima.
A cozinha do Tom ficava no primeiro andar, e o cardápio havia ganhado maior diversidade. O negocio ainda estava conquistando espaço, mas os dois estavam entusiasmados com as novas perspectivas.
Logo chegaram Paula e Lara, e em seguida Marina com o Theo. Guto foi o ultimo a aparecer, e a sua chegada foi celebrada com entusiasmo por todos. Theo abraçou o amigo, e foi logo soltando:
- Eu não me conformo. Todos os bons partidos estão se casando. – Reclamou.
- Meu querido, você precisa começar a se apaixonar por homens gays. – Marina brincou com o amigo. – Já é difícil quando eles gostam da fruta, quando não gostam, é quase impossível.
- O Theo só esta deprimido porque o Cássio, sua ultima conquista, resolveu voltar para a mulher. – Guto informou. – Eu nunca vi ninguém tão propenso a escolher erroneamente como você, meu amigo.
- Mas eu vou dar a volta por cima. – Anunciou Theo. – Afinal, o que melhor que um casamento careta para encontrar diversos enrustidos louquinhos por uma nova experiência na terra de Bambi. – disse afetado, provocando risos em toda a mesa.
- Guto, você avisou aos nossos pais que não importa o quanto eles tentem, o seu casamento jamais será convencional? – Olívia se divertiu com a cara de espanto do irmão diante a declaração de Theo.
- Nah... é melhor no susto mesmo. – Bola se meteu. – Foi assim com os meus pais. Mas neste caso, ao menos não será o filho deles, um jovem e promissor judeu, que chegou ao aniversário da bisavó, acompanhado do namorado metido a roqueiro heavy metal.
Mais risadas, e Tom chegou com os petiscos.
- Eu ouvi Bolinha. – Repreendeu o namorado. – Vamos ver quão judeu promissor você é mais tarde.
A festa continuou entre brincadeiras e muitas risadas. Olívia sentia-se mais leve naquela noite do que em muito tempo. Além da felicidade que sentia pelo irmão mais novo, a nova fase que vivia com Emilia estava lhe fazendo muito bem. Desde a tarde em que a namorada a agarrara no banheiro, elas estavam mais próximas, mais carinhosas uma com a outra.
Marcinha, que por estar cuidando dos últimos preparativos para a cerimônia no sábado, não pode estar presente, ligou para o celular da cunhada para saber como estavam as coisas por lá.
- Não, ele não bebeu demais. – Olívia riu com a pergunta dela. – Relaxa. Seu noivo está bem, feliz e saudável. Bom, ao menos aqui ele esta comendo comida de verdade, nos outros dias em que ficou sozinho, provavelmente se alimentou de pizza.
- E você acha que eu não sei. – Marcinha disse carinhosa. – Já estou louca de saudade dele.
- E ele de você. Não se preocupe, amanha estaremos aí. – Olívia a tranqüilizou. – E como está a sua despedida de solteira?
- Esta ótima! – Marcinha se limitou a dizer.
- Marcinha, eu sei que a Jo é sua madrinha e que foi quem organizou a sua festa. – Falou condescendente. – Pode me contar. Eu adoraria poder estar nas duas despedidas. Você é como se fosse minha irmãzinha caçula, bem pequenininha. – Implicou.
- Também te considero dessa forma. – Respondeu emocionada. – E a festa esta mesmo ótima. A Jo chamou vários amigos meus do meu antigo trabalho e outros com quem estudei. Estou adorando rever a todos.
- Que bom lindinha. Fico muito feliz por você.
- E você e a Emilia, está tudo bem?
- Tudo ótimo. – Respondeu com um sorriso. – Ela esta mandando beijos. Alias, todos estão mandando mil beijos e loucos de saudade de você.
- Ah, manda um beijão pra todos! E agora me deixa falar com meu homem. – Exigiu de brincadeira.
- Sim senhora. Tenho até pena do meu irmão se é assim que você o trata na cama.
Olívia entregou o telefone para um Guto que fazia cara feia, antes que Marcinha pudesse revidar.
Assim que Marcinha desligou o celular, percebeu que Joana entrava na cozinha com algumas bandejas.
- Eles estão no novo bar do Bola. – Disse sorrindo. Havia avisado a amiga que iria ligar para o Rio.
- Que bom. – Joana sorriu. – Eles vêem amanha? – Tentou parecer desinteressada, mas sem obter muito sucesso.
- Vem. E Jo, - virou a amiga em sua direção – não alimente esperanças.
Não era preciso maiores explicações. Joana apenas concordou com um movimento rápido de cabeça, e um sorriso morno. Marcinha voltou para a sala, e Joana abaixou os olhos, perdida em seus próprios pensamentos. Estava ansiosa demais por ver Olívia, e ao mesmo tempo, fazia um trabalho mental para se manter sob controle. A veria acompanhada da mulher. Sabia que seria muito mais difícil do que apenas saber da existência da mesma, mas sabia também, que precisava se manter firme.
Olívia levantou para ir ao banheiro, e Paula a acompanhou, sob o olhar preocupado de Emilia, mas que ela soube disfarçar muito bem.
- O que foi? – Paula que a conhecia bem demais, perguntou.
- Nada. Só estava pensando em algumas coisas. – Olívia disse sem querer dar maiores explicações. A verdade é que sentia um frio na barriga constante diante da perspectiva de reencontrar Joana.
- Mesmo? – Paula perguntou desconfiada. – Eu te conheço Li.
- Mesmo. – Tentou passar confiança, e mesmo que não tenha conseguido convencer Paula, ela a respeitou.
Entrou no banheiro, e se olhou no espelho. O olhar perdido que a encarou de volta, era a imagem perfeita de como se sentia. Não queria, mas ansiava por ver Joana. Negava, mas contava os segundos para aquele momento. Estava apavorada por saber que ela estaria lá acompanhada do marido, e provavelmente linda no seu vestido de gala.
“Festa de aniversario da Clara. Como todos os anos, os pais dela haviam caprichado na decoração da casa e principalmente, da área da piscina. Com balões brancos e verdes, mesas com toalhas de linho por todo o jardim, com flores brancas e velas acesas. Parecia um conto de fadas.
Olívia estava no quarto da amiga esperando ela terminar de se arrumar. Como nunca gostara de vestidos, trajava uma calça social preta e uma bata em tons de azul. Clara já havia experimentado cinco vestidos diferentes, e Olívia apenas ria da indecisão da amiga, já ansiosa para sair dali e se encontrar com Joana.
- Você está linda Clarinha. Vai com esse. – Olívia disse impaciente quando a amiga se virou para mostrar o vestido amarelo com rendas no busto. – Desse jeito, quando conseguirmos sair daqui, a festa já terá terminado.
- Olie, você é a ultima pessoa que eu deveria ter chamado para estar aqui comigo. Nunca vi ninguém mais sem noção de moda do que você.
- Eu nunca disse que entendia de moda, mas sinceramente, são todos lindos. Qualquer um que você colocar, vai ficar deslumbrante. – Disse sincera. – Você é linda amiga.
Clara lhe sorriu, mas não resistiu e retirou o vestido amarelo, voltando a experimentar o roxo. Olívia suspirou, e se jogou sobre a cama. Aquela seria uma noite longa e torturante.
Assim que desceram, se depararam com uma pequena platéia as aguardando. Na verdade, esperando pela aniversariante, e Olívia tentou a todo custo se esquivar dos olhares que recaíam por sobre elas.
Deixou que Clara descesse a sua frente, e somente quando ela já cumprimentava alguns dos convidados, foi que se dirigiu para o salão. Andou em meio às pessoas, e seus olhos buscavam somente uma.
E lá estava ela. Linda, com um vestido creme tomara que caia na altura dos joelhos. Os cabelos cheios, presos em um coque solto que lhe caía pelas costas desnudas. Assim que ela se virou, seus olhos foram captados pelos verdes, e ela abriu um sorriso lindo, de tirar o fôlego.
Olívia andou até ela sem desviar o olhar. Era incapaz de ver qualquer outra coisa ou pessoa a sua volta, era como se os olhos cor de amêndoa a prendessem, a puxassem para ela.
Chegou perto o bastante para ser inebriada pelo perfume de Joana, e a abraçou longamente, mergulhando o rosto no seu pescoço, roçando os lábios por sobre a pele sensível, sentiu Joana se arrepiar.
- Não faz assim amor. – Joana pediu em seu ouvido, mas sem se soltar dela. – Já está sendo difícil não te agarrar com essa calça justa, você fazendo assim, eu não vou resistir.
Olívia sorriu antes de se desfazer do abraço. A Joana via nela uma sensualidade, que para ela era algo impossível. Nunca conseguiria ser feminina e vaidosa como todas as amigas eram. E certamente, era a única mulher que não usava um vestido aquela noite, e mesmo assim, Joana a olhava como se fosse a mais bela. Esse olhar quente que ela lhe lançava, era algo com o qual nunca se acostumaria.
- Você está linda Jo. – Se derreteu para a sua morena. – Mais linda ainda, se é que isso é possível.
- Pra você. – Joana deu um giro com o vestido, e as duas caíram na gargalhada.
- Isso está parecendo um filme antigo. A qualquer momento eu vou puxar um charuto e pedir uma dose de whisky.
- Hum, te imaginei com um smoking agora. Linda. – Joana lhe sorriu. – Mas você tem razão, parece um filme antigo de máfia.
Sorriram uma para a outra, e se prenderam naquele olhar repleto de desejo que compartilhavam. A voz aguda de Thais a anunciou, e a amiga se jogou nos braços de Olívia a cobrindo de beijos.
- Você me salvou! – Exclamou. – A Clara queria ajuda para escolher o vestido, e eu juro que tentei chegar a tempo. Mas do jeito que ela é, deve ter trocado de roupa umas quinhentas vezes antes de decidir qual vestir.
- Quinhentas? Mil seria mais exato. – Olívia riu. – Nunca vi alguém tão indeciso.
- Se para ir ao cinema ela leva horas se arrumando, imagina para a sua festa de aniversario? – Thais brincou. – Eu vou lá falar com ela e já volto. – Saiu andando pela festa com o seu jeito maroto de sempre.
- Então você ajudou a Clara a se vestir? – Joana a provocou.
- Ciúmes? – Olívia devolveu sedutora.
- De você ficar olhando a Clara tirar a roupa? Não. Imagina. – Joana bufou.
Olívia sorriu e voltou a puxá-la para seus braços, e quando Joana ameaçou se desvencilhar, Olívia a prendeu mais junto a si e falou em seu ouvido.
- Preferia mil vezes ter assistido você tirando a roupa. Apesar que desse jeito, eu não teria deixado você vestir nada. Te agarraria e arrancaria o resto, te deixando nua pra mim.
Os corpos se incendiaram, e foi preciso um autocontrole além do normal, para se soltarem. Joana respirou fundo algumas vezes, e pegou um copo de refrigerante de uma bandeja quando o garçom passou.
Por toda a noite, flertaram. Às vezes apenas olhares mais quentes, provocativos, em outras, pequenos toques, abraços, e beijos no pescoço que passavam despercebidos por todos. Não se desgrudaram a noite toda, o que para os outros, parecia natural, já que a todo o momento tinham a companhia de Thais, Ligia e até mesmo de Clara.
Um pouco antes de cantarem os parabéns, Joana anunciou que iria ao banheiro, e olhando significativamente para Olívia, pediu que ela a acompanhasse. Sem pestanejar, fizeram o trajeto até o interior da casa, vez ou outra parando para falar com algum colega, mas sem se desgrudarem.
Joana abriu a porta do banheiro que ficava na suíte de Clara, e por tanto ela sabia, estaria vazia, e puxou Olívia com ela. A Empurrou de encontro a parede, e parou a sua frente. Nada precisou ser dito, Olívia segurou em sua cintura com as duas mãos, e a trouxe para perto de si. A sua boca faminta, tomou a dela com sofreguidão, fazendo com que Joana soltasse um gemido de encontro a seus lábios.
O beijo, repleto de desejo, apenas confirmou o que ela já sabiam, precisavam se sentir. Precisavam matar a sede na saliva, como diria Cazuza.
Olívia aprofundou o beijo, e suas mãos passaram a percorrer o corpo da sua morena com força. Precisava senti-la. Com uma das mãos a segurou pela nuca, e a fez olhar nos seus olhos, com a outra, desceu pela lateral do seu corpo, contornou as pernas, e por debaixo do vestido, a tocou por sobre a calcinha.
- Ai amor. – Joana gemeu. – Olha o que você faz comigo.
Olívia sorriu e voltou a beijá-la, sentindo um prazer imenso ao tocar-lhe e senti-la toda molhada. Escorregou os dedos pela lateral da calcinha, e sentiu a umidade pulsantes e desejosa da sua amada.
Percorreu toda a extensão da vulva antes de penetrá-la. Joana arqueou as costas e ofegou. Ela gemina baixinho no ouvido de Olívia, enquanto esta aumentava o ritmo das estocadas.
Não demorou muito para que o corpo junto ao seu fosse tomado por tremores involuntários, e com um gemido rouco, Joana deixou seu gozo escorrer pelos dedos da sua namorada.
Olívia a apoiou com um dos braços, e retirou sua mão de dentro da calcinha dela. Levou os dedos melados até a boca, e os chupou sensualmente. Joana pensou que fosse gozar novamente somente de vê-la tão excitada por fazê-la sua. Sem demora, Joana se agachou de frente para ela, e abriu a calça de Olívia.
- Não amor. – Olívia protestou. – Alguém pode vir nos procurar.
- Eu não vou demorar. Só quero o seu gozo na minha boca. – E abaixou também a calcinha, ficando encantada com a visão da boceta de Olívia. – Relaxa amor.
Olívia não conseguiu responder, Joana já abria seus grandes lábios, e passava a língua pelo seu sexo quente, molhado, a fazendo estremecer.
Após explorar o sexo de Olívia com a ponta da língua, se concentrou no clitóris que crescia à medida que aumentava o movimento. A penetrou com um dos dedos, sentindo-a por dentro. Continuou passando a língua por sobre o clitóris, e pode senti-la contrair os músculos, fazendo-a aumentar ainda mais o ritmo dos movimentos.
O gozo veio forte, acompanhado de um grito abafado de Olívia, e Joana se deliciou, chupando cada gota, sentindo o sexo pulsante na sua boca, na língua, nos lábios. Dar prazer a Olívia era algo inexplicável. O prazer que sentia vendo-a gozar era indescritível.
Levantou e colou o seu corpo ao dela, sentindo a respiração ofegante da sua amada em seu pescoço. A beijou profundamente, sentindo a excitação voltar com tudo, como se não tivessem acabado de gozar.
- Eu continuo te querendo. – Olívia confessou. – Mas é melhor a gente voltar pra festa.
- Eu sei. – Joana concordou. – Só de te provar, já foi uma delicia.
- Não fala assim Jo. Estou morrendo de vontade de te chupar toda. – Disse rouca no ouvido da sua menina.
- Ai Olie. – Joana deu um passo atrás. – Chega. Ou eu nunca mais saio desse banheiro.
Olívia sorriu para ela, e levantou a calça e a calcinha. Ambas lavaram o rosto e ajeitaram as roupas e os cabelos. Com um ultimo beijo, deixaram o banheiro. ”
Lavou o rosto com a água fria que saía da torneira. Precisava voltar. Lembrar de Joana e da forma como ela a fazia se sentir, era uma tortura desnecessária. Era a festa do seu irmão, sua mulher a esperava. Uma mulher que a amava, que lhe dava segurança, que provara mais de uma vez que estava ali pra ela.
Voltou para a mesa, tomou a mão de Emilia entra as suas, e lhe sorriu. Emilia se virou para ela e devolveu o sorriso. Era um entendimento. Olívia tomou-lhe os lábios entre os seus em um beijo doce, calmo, mas que continha todo o seu desejo de estar ao lado daquela mulher que lhe fazia tão bem.
Capítulo 19 - O mundo de Joana
No dia seguinte logo cedo, saíram em caravana para Teresópolis. Olívia ia em seu carro com Emilia e Guto, e Theo e Marina seguiam no carro da cenógrafa. Bola e Tom não puderam acompanhá-los, mas iriam subir a serra no dia seguinte para o casamento.
Marina havia entregado um walkie-talkie para Olívia assim que se encontraram pela manhã.
- Para podermos nos comunicar na estrada. Até porque, com o Theo no carro, talvez eu precise que você me convença a não jogá-lo para fora da estrada. – Marina explicou. Ela e Theo viviam implicando um com o outro, mas nutriam uma amizade linda. Eram como irmãos, e talvez por isso brigassem tanto.
O dia estava claro e sem nuvens. Uma típica manhã de dezembro, ou seja, um inferno. Mas dentro do carro, com o ar condicionado ligado, e o som alto, os três nem pareciam perceber que no asfalto era possível se fritar um ovo.
Olívia levara o seu mp3 para a viagem, e o plugara ao som do carro. Logo a voz de Roger Daltrey, já arranhava os ouvidos deles. Olívia e Guto cantavam a plenos pulmões, enquanto Emilia se divertia com as interpretações que eles faziam das musicas, e registrava tudo com sua maquina fotográfica.
Ela estaria ocupada durante estes dias. Havia prometido aos noivos, como presente de casamento, fazer as fotos de todo o evento, incluindo o que eles chamavam de bastidores.
- Você esta achando que seu casamento é um concerto de rock, certo? – Olívia brincou com o irmão em uma tarde em que os quatro estavam reunidos no apartamento do flamengo.
- Mais ou menos isso. – Marcinha respondeu.
- Vocês não viram nada ainda. – Ele ameaçou.
- Eu to achando melhor filmar tudo. – Emilia provocou. – Não vamos querer perder estes momentos. Os seus filhos vão precisar saber quem é o pai deles.
- Não. Eu prefiro fotos. – Guto falou. – Fotografia te da a oportunidade de reinterpretar os momentos.
- É disso que eu tenho medo. – Marcinha abraçou o noivo. – Imagina quais não serão as historias que os nossos filhos irão ouvir?
- Eu posso ajudar com isso. – Olívia disse e cumprimentou o irmão batendo as mãos no alto, um high Five.
Chegaram a Teresópolis um pouco antes do meio dia, e foram direto para o hotel onde ficariam hospedados. Apesar da insistência da Raquel em receber seus filhos e amigos em sua casa, Olívia achou melhor eles terem alguma liberdade, alem do fato de achar cedo para dar aquele passo.
Por fim, sua mãe aceitou, e correu atrás de um bom hotel para os seus filhos se hospedarem, exigindo apenas, que comparecessem para um almoço em sua casa.
Após deixarem as bagagens em seus quartos, seguiram para o atual apartamento da mãe. Ela já não morava no mesmo lugar, o que foi um alívio para a escritora. Não acreditava que teria estomago para voltar a sua antiga casa. O faria se necessário fosse, mas sabia que seria uma viagem no tempo nada bem vinda.
Andar por aquelas ruas era estranho para ela. Reconhecia alguns lugares, e outros lhe eram completamente novos. Se pegou sorrindo com pequenas lembranças, e Emilia se aconchegou a ela.
- O que foi amor? – Perguntou baixinho.
- Nada. É só estranho estar de volta. – Disse sorrindo.
- Estranho bom, ou estranho ruim? – Quis saber a ruiva.
- Por enquanto, um estranho bom. – sorriu.
Estacionaram em uma rua próxima ao prédio. Olívia ainda resmungou por conta do transito. “Desde quando existe engarrafamento em Terê?” “Muitos carros, ruas estreitas, e monte de adolescente que não sabem dirigir.” – Foi a resposta que recebeu de Guto.
Entraram no prédio, e assim que tocaram a campainha, foram recebidos com muitos abraços e beijos. Raquel e Marcinha os esperavam ansiosas.
- Como foi a viagem? – Raquel se adiantou, pegando as bolsas e casacos dos seus convidados.
- Mãe, relaxa. – Olívia pediu. – Aqui é todo mundo de casa.
Raquel sorriu e deixou os casacos que tinha nas mãos, por sobre a poltrona do canto, tomou a filha em seus braços, e sentiu um alívio imenso ao receber um abraço apertado. Temera que após o primeiro contato, Olívia voltasse a tratá-la friamente, mas isso não aconteceu, ela continuava sendo doce com a mãe, emocionando-a.
- Para de chorar mãe. – Guto a abraçou. – Este é um momento de felicidade.
- Eu estou feliz. – Ela se apressou em dizer. – Imensamente feliz. Meu filho se casando, minha filha casada e o mais importante, os dois felizes. O que mais uma mãe pode querer?
Guto trocou um olhar significativo com a irmã, aquele era um momento único que viviam em família após tantos anos, era especial e todos ali sentiam.
- Cunhadinha! – Marcinha se jogou em cima de Olívia que havia tomado um lugar no sofá, enquanto Emilia e Theo auxiliavam a sua mãe na cozinha, e Marina conversava com Guto na pequena varanda. – Muito, muito obrigada por você ter vindo.
- Como eu poderia perder isso? – Olívia sorriu. – Como andam os preparativos?
- Tudo mais ou menos no lugar. – Marcinha falou ansiosa. – Mas quer saber? Decidi hoje que vou parar de me preocupar. Se sair algo errado, que saia. Eu não me importo.
- Ahã. – Olívia implicou, recebendo um cutucão por conta disso. – Não vai dar nada errado. O que de pior pode acontecer?
- Bom, pior mesmo, o noivo não aparecer. - Olívia abriu um sorriso. –Fora isso, acho que nada vai me tirar completamente do serio. Ando tomando Cannabis.
- Oi? – Olívia perguntou assustada.
- É homeopatia Olie. – Tentou tranqüilizar a cunhada.
- Homeopatia com base em qual erva? – Começava a achar graça.
- Essa mesma. – Respondeu piscando para ela. – Mas é só um calmante. O efeito é bem diferente.
- Sei. Se você diz. Quero experimentar. – Olívia pediu.
- Isso não é pra curtição Olie. Pra isso eu te arrumo um #beck# de verdade.
- Você? Jura? – Agora sim se surpreendeu.
- Eu não curto muito, mas as minhas primas de São Paulo fumam todos os dias. – Se explicou.
- Vou aceitar a oferta. – Respondeu quando viu sua mãe entrar na sala com um prato quente de lasanha, e foi em direção a ela. – Vocês querem ajuda?
- Não se preocupa filha, está tudo pronto. –Raquel beijou-lhe a face.
- Você? Na cozinha? – Theo passou por ela rindo. – Tá bom!
- Eu não me ofereci pra cozinhar. Só para servir a mesa. – Olívia se fez de ofendida.
- Mesmo assim amor, melhor não. – Emilia implicou com a namorada.
- Ok. Vou me preocupar somente em comer então. – Cruzou os braços.
- Sem manha Olie. – Theo lhe entregou uma garrafa de vinho. – Isso você faz bem.
Olívia saiu com a garrafa em busca de um saca-rolha, deixando os três rindo na cozinha.
Guto, Marcinha e Marina, conversavam a um canto, e Olívia se aproximou.
- Eu to falando serio. – Marina continuou já com o rosto vermelho de tanto rir. – A menina me olhou, e disse: “Espero que tenha sido satisfatório.”
Guto se dobrou de tanto rir sendo acompanhado por Marcinha, que tinha lagrimas nos olhos. Olhando de um para outro, Olívia ergueu as sobrancelhas, interrogativa.
- Só estava falando de uma atriz da peça em que estou trabalhando. – Marina explicou.
- Que você levou pra cama e depois fez o seu discurso sobre misturar trabalho e prazer? – Olívia que conhecia bem demais as jogadas da amiga quando se tratava de seduzir, inquiriu.
- Eu não tenho culpa se elas acham que existe algo além de sexo! – Se defendeu a amiga.
- Eu não estou julgando. – Olívia ergueu as mãos. – Longe de mim.
- Até porque, vamos combinar maninha, que moral você teria? – Guto continuava rindo.
- Exatamente. – Olívia concordou antes de continuar. – Mas você sabe que é confusão na certa transar com pessoas do trabalho, Nina. Eu esperava um pouco mais de você.
- Olha quem fala?! – Marina se defendeu. – E só para constar: um metro e setenta e dois, cinqüenta e nove quilos, pele morena de sol, olhos azuis, cabelos longos e loiros, e um sorriso de parar o transito.
Os três caíram na gargalhada da cara que ela fez.
- Meu Deus! – Marcinha falou. – E eu que pensava que somente os homens viam as mulheres dessa forma.
- Minha querida, esta é a grande hipocrisia feminina. As mulheres, heteros eu quero dizer, podem olhar para os homens como objetos sexuais. Os chamam de filé, pedaço de mau caminho, tanquinho e outros atributos mais, mas quando os homens se referem às mulheres como gostosas, delicia e etc, estão sendo desrespeitosos. Por isso eu acredito que o homossexualismo veio para mudar isso também. Homens falam assim com homens, que não se ofendem. Da mesma forma que se eu falar para uma mulher o quanto ela é gostosa, sem ser em tom pejorativo, mas sedutor, ela certamente não irá se ofender, e provavelmente, terminará a noite nos meus braços.
Guto chegou a aplaudir. Aquela não era a primeira vez que Marina fazia este discurso, mas ele estava a cada dia mais elaborado. Ela era a favor de toda a forma de expressão, especialmente quando dizia respeito ao desejo carnal. Acreditava que sexo era a forma como o ser humano manifestava melhor as suas ânsias mais profundas e secretas.
Mesmo que não concordasse com ela em todos os aspectos, Olívia se divertia e até mesmo, já jogara seguindo aquela cartilha. Também não concordava com os padrões sociais que ditavam as regras das interações humanas, mas não gostava quando esta liberdade tomava formas vulgares e virava libertinagem. Era grande fã do jogo da sedução, e talvez por isso, acatasse certos limites da conquista.
- Eu só queria que a mamãe tivesse ouvido isso. – Guto cochichou ao ouvido da irmã, quando se encaminhavam para a mesa.
- Pra ela morrer do coração um dia antes do seu casamento?
O almoço estava uma delicia. Em homenagem aos filhos, Raquel fez o prato que os dois mais gostavam na infância, lasanha a bolonhesa. Tinha anos que não cozinhava aquele prato, e estava feliz por enfim ter motivos para fazê-lo.
E Guto e Olívia realmente, pareciam duas crianças a mesa. Em meio a brincadeiras infantis e historias do passado, reviviam algumas lembranças da infância que ainda poderiam ser chamadas de felizes.
Theo não os poupou de suas historias e anedotas durante toda a refeição, no que foi prontamente acompanhado por Marina, que Olívia não entendia o porquê, estava inspirada àquela tarde.
Deixaram o apartamento de Raquel por volta das oito da noite. Guto, que havia prometido dormir por lá, acabou ficando para trás, após se despedir três vezes da namorada.
Olívia e Emilia seguiram para o hotel, e em um acordo velado, Marina e Theo foram levar Marcinha até a casa da Joana, onde ela iria dormir, já que a sua casa estava repleta de parentes que haviam vindo para o casamento.
Já no quarto, Emilia saiu do banheiro vestindo um roupão fornecido pelo hotel. Olívia estava sentada no pequeno sofá de dois lugares da ante-sala onde, muito concentrada, escrevia em seu notebook.
- Eu já disse o quanto você fica sexy quando está escrevendo? – Emilia sussurrou em seu ouvido ao se aproximar da namorada por trás.
- Já. – Olívia respondeu sorrindo. – Mas é sempre bom ouvir.
Pode sentir os lábios dela em sua nuca provocando arrepios por todo o corpo, depois a língua, que subiu pelo seu pescoço, até alcançar o ouvido. Olívia não resistiu, e em um movimento rápido, tomou o rosto de Emilia entre as mãos, e roubou-lhe um beijo apressado.
- Você gosta de me provocar, não é? – Perguntou quando as bocas se separaram.
Sem solta-la, Olívia a acomodou em seu colo, de frente para ela, e abriu o roupão, para descobrir o corpo nu da ruiva, ardendo de desejo.
Beijou-lhe primeiro o pescoço, e foi descendo pelo colo, até alcançar os seios. Passou a língua devagar pela aureola, sentindo o corpo todo dela se contorcer. Agarrou-lhe pelas nádegas, e com ela presa ao seu corpo, a levou para o tapete, colocando-se por cima do seu corpo.
Não demorou muito para que as roupas de Olívia também fossem retiradas. Emilia se contorcia, enquanto Olívia descia pelo seu corpo, beijando e mordendo com carinho. Chegou ao sexo encharcado da sua mulher, e o tomou para si, não demorando a provocar-lhe um orgasmo.
Quando a respiração de Emilia voltava a se regularizar, ela acariciou o rosto da esposa, lhe tirando um sorriso lindo. Quando Olívia sorria assim para ela, todas as dúvidas pareciam deixar de existir. Beijou-lhe os lábios com paixão, tentava dizer naquele beijo o quanto a amava, e o quanto precisava dela ao seu lado.
Olívia não se permitiu ser tocada. Com delicadeza, disse estar cansada e que precisava de banho e cama. Emilia sabia não se tratar de cansaço, mas não contestou. Sabia que o processo para reconquistar a sua mulher seria lento desde o dia em que decidira ficar naquele casamento.
Sabendo que sua negativa havia sido compreendida como uma desculpa, Olívia se culpou, deixando que a água do chuveiro lhe açoitasse as costas. Cada vez que acreditava estar próxima de sentir um amor verdadeiro por Emilia, seu coração a impedia. Lhe dizia claramente que não estava desocupado e nem aberto para que um novo sentimento criasse raízes ali. Não importava o quanto sua mente tentasse condicioná-lo a isso, ele tinha vontade própria, e sua única vontade, ainda era Joana.
Assim que parou o carro em frente ao prédio indicado por Marcinha, Marina avistou o grande amor de sua melhor amiga. Joana estava encostada ao muro, com o olhar perdido em algum ponto no final da rua. Ela continuava linda como esta se lembrava. Um pouco mais magra e abatida, mas ainda assim, provocava admiração por seus atributos físicos.
Não sabia ao certo se queria descer e cumprimentá-la, ou apenas deixaria que Marcinha saísse, dando uma desculpa. Era o que havia planejado, mas não contava que a morena fosse estar à porta esperando por elas. Seu olhar cruzou com o do Theo pelo espelho retrovisor. Ele provavelmente pensara o mesmo. Ambos acompanharam toda a trajetória de Olívia para se livrar daquele fantasma, como ela mesma havia se referido a Joana, e agora estavam ali, diante dele, mais vivo que nunca.
Marcinha, sem perceber nada, ou apenas fingindo não ver o desconforto no semblante dos amigos, os chamou para saírem do carro, enquanto ela mesma já se adiantava, chamando a atenção da amiga.
- Jo! – Acenou caminhando até ela.
- La vem a noiva. – Joana brincou, a abraçando. – Como foi o almoço?
- Foi tudo bem. – Marcinha falava, mas Joana já tinha seus olhos voltados para as duas figuras que timidamente, se aproximavam.
- Oi Joana. – Marina a cumprimentou quase formalmente.
- Oi Nina. – Joana tentou ser mais calorosa, estampando um sorriso em seu rosto. – Theo. - Aproximou-se dos dois, e os abraçou. – Como vocês estão?
- Bem. – Theo respondeu. – Cansados da viagem.
- Eu imagino. Não é longe, mas ainda assim cansativo. – Joana comentou.
Logo viram uma figurinha pequena vir em direção a eles, pedalando uma bicicleta com rodinhas. Trajava uma camiseta amarela, e uma bermuda jeans. O sorriso e os olhos amendoados entregaram de quem se tratava. Para Marina, nem foi necessário ouvir o grito da criança.
- Mamãe! Você viu como eu voltei rápido? – Tinha um sorriso sapeca no rostinho suado. – Você viu?
- Claro que eu vi. – Joana fingiu-se de brava. – E vi também o quão longe a senhorita foi.
- Desculpa mamãe, mas fui só até a esquina. – A criança tentou se justificar.
- E qual era o combinado, Bela? – Joana arrumava o boné na cabeça dela.
- Só até a casa da Tia Clara. – Falou baixinho, abaixando os olhos.
- Hum. – Joana murmurou. – Vem cá, quero te apresentar a uns amigos do Rio.
Só então, Bela pareceu perceber a presença dos visitantes. Olhou a volta e viu Marcinha próxima ao portão sorrindo para ela e piscando. Piscou de volta, antes de se voltar para os outros dois.
- Estes são o Theo e a Marina. – Se virou para eles. – Esta é a Bela, minha filha.
Tanto Marina quanto Theo, abriram um sorriso sincero para a criança e a cumprimentaram. Mesmo tímida, Bela foi muito simpática com os dois. Mas assim que terminaram os cumprimentos, ela correu para Marcinha.
- Dinda! – Gritou, se jogando no colo dela, e deixando assim que o boné caísse de sua cabeça, revelando os cabelos castanhos claros que começavam a crescer em sua cabeça.
- Oi pestinha. – Marcinha a abraçou forte nos braços.
- A pestinha agora precisa pegar a mochila lá dentro, não é Bela? – Joana interrompeu as duas. – Seu pai vai chegar já, já.
Bela saiu correndo em direção ao prédio.
- Devagar! Assim você cai menina. – Joana gritou.
- Posso mostrar a minha tiara pra minha dinda? – Gritou já da entrada, onde parara derrapando.
- Pode. – Joana afirmou. – Mas rápido.
- É pra ir rápido, ou não correr? – Bela perguntou com as mãos na cintura, provocando risos nos adultos a volta.
- Rápido, sem correr. – Joana falou tentando manter a expressão seria.
- Ela é linda, Jo. – Marina não conteve o comentário.
- E uma peste. – Joana emendou rindo. – Que bom que vocês estão aqui. – disse sincera.
- Não perderíamos por nada esse casório. – Theo falou olhando para Marcinha, que abriu um sorriso largo. – Até porque na hora em que o padre perguntar se existe alguém contra o casamento, eu preciso me pronunciar. O Guto era pra ser meu. – Piscou para Marcinha que somente meneou a cabeça.
Bela voltou correndo e parou em frente a eles com a tiara nas mãos. Estendeu-a para a mãe, que se apressou em prendê-la na cabeça da filha.
- E então, dinda? – Perguntou com um sorriso para Marcinha.
- Está linda. Parece uma princesa. – Marcinha falou emocionada, abraçando Bela mais uma vez.
- Posso ficar com ela até o papai chegar? Quero mostrar pra ele também. – Pediu suplicante para a mãe.
- Pode. Mas só até seu pai chegar. Depois a mamãe tem que guardar pra você usar amanhã. E cadê a mochila, pequena? – Foi a vez de Joana colocar as mãos na cintura, deixando claro com quem Bela aprendera o gesto.
- Certo. – Bela concordou. Voltando para o prédio para buscar a sua mochila.
Falavam sobre amenidades, ouvindo principalmente Bela contar suas historias, quando outro carro parou em frente ao prédio e um homem, trajando uma camisa branca e calças jeans, desceu do carro e estendeu os braços para a pequena, que com os olhos brilhando, correu em direção ao pai.
- Papai! – Exclamou.
Em uma avaliação rápida, Andre era um homem bonito, mas claramente hetero, Theo comentou mais tarde com Marina. Ele veio em direção a eles com Bela pendurada em seu pescoço.
- Desculpa o atraso. – Falou para Joana, depositando um beijo em seu rosto. – E essa menina? – Falou olhando para Marcinha. – Colega sua do colégio, Bela? – Brincou, recebendo um tapa fraquinho de Marcinha.
Andre desceu Bela de seu colo e abraçou Marcinha.
- Estava sentindo sua falta, sabia? – Andre falou para ela. – Preparada pro grande dia?
- Preparadíssima. – Marcinha respondeu com um sorriso radiante.
- Que bom. Estou muito feliz por vocês. – Andre falou sincero.
- Dé, estes são Theo e Marina. Amigos do Guto e da Marcinha. – Joana fez as apresentações.
- Oi, tudo bem? – Andre os cumprimentando com um sorriso.
- Vamos logo papai. Quero brincar com o Dan. – Bela puxou a camisa do pai.
- Estamos indo meu amor. Já pegou tudo?
- Já. – Mostrou a mochila.
- Então dá um beijo na sua mãe, e vamos embora. – Se virou para Joana. – Eu trago a Bela pela manhã.
- Certo. Manda um beijo pra Renata e pro Dan. – Joana falou se despedindo e pegando a filha no colo. – E você comporte-se, ouviu?
- Pode deixar. – Prestou continência.
- Eu não sei onde ela aprende essas coisas. – Joana comentou rindo.
- O Dan. Ele anda fissurado em um desenho que tem um general e seus soldados. – Andre explicou e logo se voltou para os outros três. – Vejo vocês amanhã no casório. Você vai ser dama de honra, certo? – Implicou com a Marcinha.
- Há-há. – Ela respondeu lhe abraçando.
- Foi um prazer. – Apertou a mão do Theo e da Marina. - Tomou a mão da filha e foi em direção ao carro.
Assim que os dois partiram, Joana convidou Theo e Marina para entrarem. Eles foram relutantes, mas por insistência das duas, acabaram as acompanhando.
Quando entrou na sala, Marina simpatizou com a casa de Joana de cara. Era bem arejada, com as paredes em branco, com diversos quadros e pôsteres nas paredes, tanto de filmes, como de bandas antigas. Uma estante grande com patina em tons azuis, abrigava uma enorme coleção de livros, DVDs e CDs. Logo em frente, um sofá branco bastante confortável, e duas pequenas cadeiras como as de diretores de cinema.
- Meu hobbie. – Explicou a morena. – Vicio antigo.
Os dois sorriram e continuaram explorando o cômodo. Havia diversas fotografias da Bela e outras de Joana entre familiares e amigos. Em um porta retrato perto da janela, Marina identificou uma foto de Joana com Olívia quando as duas não deveriam ter mais do que quinze anos. Logo abaixo outra foto delas, mas em meio a outras três meninas. E no alto da estante, uma fotografia recente das duas no Rio.
Marina sentiu-se estranha, como se invadisse um espaço que não era seu e nem lhe era permitido entrar. Assim que se virou, se deparou com o olhar de Joana. Theo seguia Marcinha até a cozinha, atrás de um copo d’água e Joana se aproximou de Marina.
- Recordações. – Disse triste. – Eu sei que deve ser estranho para vocês estarem aqui, ou até mesmo falarem comigo, mas eu quero que você saiba Nina, que eu tenho um carinho verdadeiro por vocês.
- Eu sei. – Nina tentou dizer.
- Não. Tudo bem. – Joana respirou fundo. – Eu não dei motivo algum para que vocês confiassem ou até mesmo gostassem de mim. Eu sei disso, e está tudo bem. Eu não vou me justificar. – Disse firmemente.
- A Bela está melhor? – Perguntou, deixando claro que sabia sobre a doença da menina.
- Bem melhor. A ultima sessão de quimioterapia foi há dois meses e ela está animada com o cabelo voltando a crescer. – Joana disse ternamente. – E ela voltou a ser a criança alegre e encapetada de antes. – Riu. – Mas eu não vou usar a doença da minha filha como desculpa.
- Eu não quis dizer isso. – Marina se adiantou. – Eu nem deveria ter falado nada.
- Não quanto a isso Nina. Não é nenhum segredo, nem motivo de vergonha. Só não justifica o que eu fiz com a Olie. Uma pena que levou um tempo longo demais para que eu percebesse isso.
Marina queria dizer milhares de coisas, fazer outras tantas perguntas, mas se conteve. E quando começou a falar, Theo e Marcinha voltaram rindo da cozinha com duas garrafas de cerveja e quatro copos.
- Tomei a liberdade amiga. Estou precisando. – Marcinha entregou um copo a cada uma delas e Theo as serviu.
- Um brinde. – Disse ele. – A Marcinha e ao Guto. Que eles façam um ao outro felizes por toda a eternidade.
- Saúde. – Disseram em uníssono.
- Nunca te imaginei como um cara romântico. – Marcinha disse rindo.
- Mas eu sou. – Theo se empertigou. – Só os homens que não percebem isso.
Sentaram-se em volta da pequena mesa de centro, e Joana serviu aperitivos e em um clima mais descontraído ao som de Joni Mitchel, foram todos relaxando. Marcinha estava acelerada, o que era compreensível, mas isso só a tornava mais engraçada, e ajudou a quebrar o gelo bem rápido entre eles.
Mais para o final da noite, Marina se viu sozinha mais uma vez com Joana, que estava parada próxima a janela com um cigarro entre os dedos.
- Não sabia que você fumava. – Também acendeu um cigarro.
- Voltei. Havia parado há seis anos. – Disse com um sorriso torto.
- Bom, eu não sou a melhor pessoa para falar sobre tabagismo. Adoro fumar.
- Eu também. Isso é que é o pior. – Joana soltou outra baforada. – E a sua vida, como anda?
- Tudo bem. Trabalhando bastante em vários projetos. Está tudo bem.
- Eu soube do filme com o Walter Salles. Parabéns. Ele é o meu diretor predileto no cinema nacional.
- Meu também. – Marina concordou. – E depois de trabalhar ao lado dele, gosto ainda mais.
- Muito bom. E vida pessoal? Alguém em especial?
- Nada. – As duas riram. – Ah, sei lá. – Marina suspirou. – Eu ando repelindo mulheres que querem compromisso. Mesmo que eu negue até a morte, e aqui já deixo avisado que se você algum dia abrir a boca estou disposta a cometer assassinato, mas eu não superei a Clarissa ainda.
- Oh, Nina. – Joana colocou a mão no ombro dela. – Disso, eu entendo.
As duas voltaram a rir. Não sabiam se por causa da bebida, ou apenas uma conexão que de fato se estabelecia, mas sentiam-se próximas.
- Você ainda ama a Olívia, não ama? – Marina enfim fez a pergunta que vinha lhe martelando na cabeça desde a hora em que entrara naquela casa.
- Amo. – Joana admitiu. – Não adianta negar. – Bebeu um gole da sua cerveja, e sentiu o gosto amargo da bebida quente. – Mas eu tenho consciência de que a perdi, não se preocupe.
- Não estou preocupada. Eu só fico triste por vocês. – Marina devolveu o afago recebido anteriormente. – A historia de vocês beira a novela mexicana.
Esse comentário provocou uma nova onda de risos nas duas.
- Fato. – Joana se viu obrigada a concordar. – O pior é saber que a burra fui eu. Eu tive tanto medo da rejeição dela, e estava tão fragilizada, que não arrisquei. Eu simplesmente aceitei como fato que ela não estava pronta pra mim. A Olívia tem cicatrizes profundas de machucados que eu provoquei, e essa culpa ainda me atormenta.
- Você tem razão. Você é realmente burra. – Marina a encarou indignada. – Você não percebe que a Olívia ainda é a mesma adolescente que você conheceu anos atrás? Aquela segurança toda é pura fachada. Ela morre de medo de se envolver, e culpa o que aconteceu com vocês anos atrás por isso, mas acredite, ela sabe que esta errada.
- Nós somos o acumulo das nossas experiências, Nina. E a Olívia só me associa a uma péssima experiência. Como eu posso acreditar em um amor pautado nisso? E se ela ficasse comigo e percebesse que aquele amor que ela acreditava existir, nada mais era que um desejo infantil de viver algo do qual ela foi privada? Eu cometi muito erros ao longo dos anos, mas se tem uma coisa que eu aprendi, é que nenhum amor baseado em sentimentos escusos, pode dar certo. E no final das contas, como ter certeza de que vai dar certo?
- Se você acha que algum dia terá esta resposta por antecipação, você nunca irá viver nada Jo. – Marina foi dura como lhe era de costume. – Eu entendo o seu lado, até porque você não esta sozinha nessa, você tem a Bela, mas você só vai saber o que de fato existe entre você e a Olívia, no dia em que tentar. Em que estiver disposta a entregar o seu coração a ela, e viver plenamente esse sentimento. Sem garantias, sem certezas, apenas esperança. Esse é o único sentimento que a gente leva para uma relação, esperança de que possamos ser felizes ao lado daquela pessoa.
Joana limpou a lagrima teimosa que desceu pelo seu rosto. Marina a puxou para um abraço, e no peito de uma quase entranha, Joana se permitiu chorar, ao mesmo tempo em que uma nova determinação lhe ocupava o coração. Se sentiria da mesma forma pela manhã? Não sabia, mas mesmo sem nada dizer, Marina parecia lhe dar o aval de que ela precisava para tentar, e ela o faria.
- O que esta acontecendo aqui? – Theo perguntou entrando na sala. – Eu consolo uma chorona no quarto, e você outra na sala?
- A Marcinha está bem? – Joana se adiantou.
- Está. Foi lavar o rosto, mas já vem.
- E o que deu nela? – Foi a vez de Marina perguntar.
- Nada. Nervosismo pré-casamento. Mas já passou. – Serviu as duas de mais cerveja. – E você? Está bem? – Se dirigiu a Joana.
- To bem sim. – Ela sorriu para ele. – O que vocês acham de uma festa do pijama?
- Não, não mesmo. – Marina a interrompeu. – Nós temos que voltar para o hotel.
- Pra que? Amanha vocês vão até lá e pegam as malas.
- Muito obrigada Jo, mas é melhor nos irmos mesmo. – Marina foi firme, mas delicada. – Pensa sobre o que a gente conversou.
Joana confirmou sorrindo. Se abraçaram, e assim que Marcinha retornou a sala, com os olhos inchados, mas com o mesmo bom humor de antes, eles se despediram, e foram embora.
- E você, cama! Amanhã você precisa estar linda, e uma noite mal dormida, não há maquiagem no mundo que acoberte. – Marcinha riu do jeito ‘ mamãe’ que Joana usou.
Dormiram juntas no quarto da Joana como sempre faziam. Enquanto Marcinha logo se entregou ao sono, Joana passou algumas horas ainda remoendo a conversa que tivera com Marina. Ainda haveria uma chance para ela e Olívia? Somente pensar nessa possibilidade, e seu coração já reagia com violência. Quando enfim adormeceu, foi com um par de olhos verdes que sonhou.
CAPÍTULO 20 - O casamento parte 1
O céu azul, os pássaros cantando e o sol, receberam a todos naquela manhã. Uma paisagem perfeita para a realização de um sonho.
Olívia acordara há alguns minutos, mas permaneceu deitada, sentindo o corpo pesado. Como quando estava no colégio, e por algum motivo temia ir à aula, a sua vontade era inventar uma doença e escapar daquele dia. Não podia. Passou os próximos vinte minutos convencendo a si mesma a organizar as suas prioridades. Aquele dia não era sobre ela. Era o dia mais especial na vida do seu irmão, e este deveria ser seu único significado. Todo o resto deveria ser irrelevante.
Fácil falar, difícil fazer. A perspectiva de estar frente a frente com Joana novamente, provocava um tomento dentro dela. Sentia o ar lhe faltar, um frio que percorria a espinha, e a sua barriga parecia morada de milhares de borboletas ensandecidas.
Levantou tomando cuidado para não acordar Emilia. Sabia que a ruiva estava fazendo um esforço sobre-humano para estar ali com ela e respeitar seus silêncios e atitudes que apenas confirmavam a sua instabilidade naquela relação. Culpa.
Após uma chuveirada rápida, vestiu um short e uma camiseta, e desceu para o salão onde seria servido o café da manhã. Um Buffet fora montado a um canto, e alguns poucos hospedes já ocupavam algumas mesas. Serviu-se de café preto, e foi sentar-se em uma mesa da varanda. Logo que parou a porta, avistou Marina sentada a um canto com um jornal em mãos, uma xícara de café ao lado, e um prato com alguns pães e pedaços de bolo.
- Acordou cedo. – Surpreendeu a outra, tomando o lugar a sua frente. – O Theo chuta muito a noite?
- Não. Eu dormi no sofá. O Theo se espalha a noite. – Respondeu com um sorriso mal humorado. – E você? A Emilia chuta?
- Não. Apenas acordei. – Olívia disse pegando um pedaço do pão da outra que havia sobrado. – Vocês voltaram muito tarde ontem?
- Pelas duas. – Marina se esforçou para parecer displicente.
- E ficaram fazendo o que nessa cidade até as duas da manhã? Que eu me lembre a vida noturna daqui não é para o nosso bico.
- Ficamos na casa da Joana com a Marcinha. – Esperou pela explosão, mas a primeira reação da Olívia foi confusão, para então, bufar.
- Mesmo? – Cortou o pão com raiva. – Não sabia que vocês eram amigos da Joana.
- Isso te incomoda? – Marina tinha o dom de tirá-la do sério.
- De forma alguma. Só fiquei surpresa. – Pausou tentando puxar o ar para preencher os pulmões e acalmar os nervos. Mas não funcionou. – Isso é inacreditável Nina! Essa mulher faz da minha vida um inferno, e você melhor do que ninguém sabe disso, e você fica amiguinha dela?! Você iria gostar se eu me aproximasse da Clarissa?
Marina respirou fundo antes de revidar. Previra aquele ataque, e se preparara para ele. Na verdade, estava saindo melhor do que ela esperava.
- Em primeiro lugar, eu nunca te proibi de manter contato com a Clarissa. – Olívia fez menção de falar algo, mas com um movimento de mão, Marina a calou. – Segundo, eu não planejei ir parar na casa da Joana, o fiz como um favor a você. – Mais uma vez Olívia quis revidar, mas Marina impediu. – Em terceiro... sim, eu gosto da Joana. Ela é uma mulher admirável em muitos sentidos, mas isso não vem ao caso. O fato é que você, por ser no fundo uma criança mimada, prefere continuar colocando toda a culpa do fracasso da relação de vocês, sobre ela. E não se dá nem ao trabalho de olhar os seus próprios erros nessa historia.
- Honestamente Marina, vai se fuder. – Olívia levantou, deixando cair o guardanapo no chão, mas não voltou para recolhê-lo.
- Vê se cresce Olívia! – Gritou.
- Que isso gente? – Theo perguntou, quando Olívia passou por ele como um foguete, o fazendo se desequilibrar e se apoiar na parede para não cair. – O que deu nela? – Perguntou a Marina.
- Pirraça. Mas vai passar. – Marina bebeu mais um gole do seu café, e Theo preferiu não perguntar mais nada.
Olívia estava a meio caminho do seu quarto quando lembrou que Emilia ainda estava lá dentro. Voltou pela escada, e saiu pela porta da frente para não ter que encarar Marina mais uma vez.
Estava tão irritada, que andava rápido pelas ruas, até seus passos se tornarem uma corrida. Não tinha idéia de para onde estava indo, apenas corria sem rumo.
Quando uma dor do lado esquerdo do corpo dificultou sua respiração, parou e apoiou as mãos nos joelhos. Quem a Marina pensava que era para falar assim com ela? Como ela podia se achar no direito de se meter na sua vida daquela forma?
Assim que se acalmou um pouco, olhou a volta e percebeu que estava parada diante da sua antiga escola. Não percebera que corria para lá, não pensara. Olhou para a fachada, e apesar de haverem pequenas mudanças no prédio, a estrutura ainda era a mesma que se lembrava.
Foi obrigada a rir. Até inconscientemente, buscava Joana. Sentou-se na mureta que circundava o pequeno jardim da entrada, e olhou a sua volta. As imagens lhe vieram nítidas, até mesmo o cheiro lhe parecia familiar. Mergulhou.
“Era noite de festa junina na escola, e a comissão de formatura do terceiro ano decidira que uma barraca do beijo e uma de salsichão, eram o que eles precisavam para arrecadar dinheiro para a grande festa no final do ano.
Gabriel e Clara, amiga da Olívia e da Joana, haviam sido os encarregados da barraca do beijo, o que rendera muitas piadas durante a noite. E para as meninas, restaram duas horas no turno da barraca de salsichão.
Após dançarem a quadrilha com o restante da turma, Joana puxou Olívia para um canto da escola ao lado da entrada lateral. Elas haviam passado a noite toda longe uma da outra. Não que isso tenha impedido as trocas de olhares entre as duas, mas a saudade que sentiam, era palpável.
- O que você está fazendo? Eu não terminei meu turno na barraca. Ainda tenho quinze minutos de trabalho escravo. Uma pequena previa do que será minha vida ano que vem provavelmente. – Olívia resmungou.
- Eu só queria tirar uma casquinha da mulher mais gata da festa. – Joana acariciou o rosto dela. – Posso?
Olívia não tinha forças, e na verdade nem queria resistir, beijou-a com vontade, saudade. Passara a festa inteira desejando estar ao lado dela, poder abraçá-la como via outros casais fazerem, beijá-la sempre que lhe desse vontade ou simplesmente, andar de mãos dadas, algo tão simples, e tão impossível para elas.
- Você estava linda dançando a quadrilha. Adorei a camisa xadrez. – Joana continuou provocante. – Quase roubei um beijo seu no meio da dança.
- Não me entenda mal, eu estou adorando essa versão safada de você, mas nós temos que voltar pra festa. Meu irmão esta aqui, seu irmão esta aqui e o pior: seus pais estão aqui. – Olívia acariciou o rosto dela. – Sem bandeiras, lembra?
- Eu sei. Só precisava te beijar pra agüentar até o final da noite. – Joana se desvencilhou. – Quero dormir com você hoje.
- Eu também amor. – Olívia a puxou para si e beijou-lhe novamente os lábios. – Mas sua mãe foi bastante clara quando disse ‘não’ mais cedo. Aliás, alto e claro, pra falar a verdade. O “não” mais sonoro que já recebi na vida. Se ela já me odeia hoje, imagina se soubesse que estamos namorando?
- Eu sei. Mas vou tentar de novo. Ela e o meu pai beberam um pouco do ponche batizado, que eu vi. Quem sabe? – Abriu um sorriso irresistível.
- Ok, você tenta isso, que eu prometo te beijar até o dia amanhecer. – Olívia a olhou com devoção. Era o olhar que geralmente dedicava a ela, mas que nunca percebia, pois o olhar que recebia, tinha a mesma intensidade.
- Isso sim é perfeição. – Joana disse, retomando o assunto da aula que tiveram mais cedo, em que a professora de filosofia pediu que eles explicassem o que era perfeição. – Você nua na minha cama. Eu não quero mais nada da vida.
- Você é perfeita. – Olívia declarou, deslizando a mão pelo ombro e braço da sua namorada e segurando a sua mão.
- Não, não sou! – A outra negou fazendo careta.
- Você tem razão. Perfeita você não é. Ninguém perfeito seria tão implicante. – Olívia brincou. – Você é perfeita pra mim. – Declarou perto do ouvido de Joana.
- É porque eu te amo demais. – Sorriu.
Trocaram um beijo repleto de paixão e desejo, e Joana escorregou as mãos pelo corpo da namorada, se atendo aos seios, e então desceu pela barriga, erguendo a camisa que ela usava, e tocando-lhe a pele.
Olívia sentiu o ar lhe faltar, prendeu Joana mais junto a seu corpo, e gemeu quando esta lhe tocou entre as pernas por cima da calça.
- Amor... para. – Pediu fraca.
- Saudade dela. – Joana rebateu, aumentando a intensidade do toque.
Sem dar qualquer chance pra Olívia fugir, Joana abriu a calça da namorada, e colocou sua mão por dentro da calcinha sentindo a umidade dela na ponta dos dedos. Um gemido rouco saiu de sua boca, e Olívia ofegou. Ela tinha um poder sobre ela irresistível, delicioso, e ao mesmo tempo, apaixonante.
- Jo. Por favor. – Olívia pediu num sussurro. Como se fosse capaz de controlar a excitação que sentia. –Alguém pode chegar.
- Relaxa amor. – Joana disse a beijando novamente. – Goza pra mim.
Dito isto, Joana a invadiu com dois dedos. Olívia não viu mais nada, não pensou em mais nada, estava completamente entregue nas mãos do seu amor. Gemia baixinho em seu ouvido, levando Joana a loucura. Ela aumentou o ritmo do movimento, entrando e saindo de dentro dela, até que se voltou para o clitóris. O provocou, massageou, e logo Olívia já estremecia em seus braços, e de sua cavidade, o liquido escorria, molhando toda a sua calcinha.
- Estava louca pra te sentir. – Joana suspirou em seu ouvido, e a abraçou fortemente. – Eu te amo cada vez mais.
- Viu? Perfeito? – Olívia rebateu ainda ofegante. – Vontade de você. – Gemeu baixinho, deslizando as mãos pelas pernas de Joana e subindo por dentro do seu vestido.
- Achei que tínhamos que ir. – Joana a provou, ao mesmo tempo que se abria, facilitando o contato. Implorando por ele com todo o seu corpo.
Os olhos se encontraram, e havia fogo. Com as mãos hábeis, Olívia passou os dedos pelas coxas dela antes de afastar a calcinha pela lateral, e sentir o quanto ela estava molhada. Suspirou e então entrou. A penetrou com os dedos, enquanto sua boca se degustava com o gosto da pele do pescoço, colo, queixo, boca, e recebia a respiração cada vez mais descontrolada de Joana em seu rosto.
A segurou firmemente e aumentou o movimento dentro dela. Joana rebolava e gemia sem controle. Olívia colou sua boca na dela, e mais uma vez os olhares se encontraram. Quentes, apaixonados, brasa pura.
O gozo veio, e Joana amoleceu em seus braços. Seu corpo tomado por espasmos, e um sorriso lindo no rosto. Olívia sorriu de volta e a abraçou. Assim ficaram por alguns minutos, apenas sentindo o calor gostoso dos corpo colados, as respirações misturadas, olhares cheios de amor. O beijo que se seguiu, foi calmo, doce, sem a necessidade latente que antes as dominava. Era uma caricia leve, gostosa. Os lábios se tocavam, as línguas se sentiam. Uma felicidade genuína as invadiu.
Assim que se soltaram, Olívia acariciou o rosto de Joana com as pontas dos dedos, recebendo um sorriso lindo em retribuição.
- Sério. A gente precisa voltar.
- Eu sei. – Joana falou resignada.
- Não faz essa carinha de cachorro que caiu da mudança. Se sua mãe não liberar, eu pulo a janela. – Disse com um sorriso divertido no rosto.
- O pior é que eu sei que você é bem capaz de fazer isso mesmo. – Joana riu.
- Eu faço. Por você, tudo! – Disse com a certeza de que sempre seria assim.
Elas andaram até o local da festa, ainda rindo e brincando. Chegando ao meio dos amigos, Joana apenas tocou a mão da namorada, e foi em direção aos pais, deixando Olívia com um sorriso bobo no rosto.
- Viu o passarinho verde?- Lígia parou ao lado dela.
- Não. Só estou cansada. – Olívia tentou se refazer.
- Sei. – Ligia disse desconfiada. – É o Nando, não é?
O Nando, ou melhor Fernando Luiz, era um colega de classe delas que tinha uma queda pela Olívia desde a oitava série. Era um bom amigo, mas nunca passaria disso, é claro. Além de amar Joana, Olívia estava cada dia mais certa de que nunca seria capaz de se apaixonar por um homem na vida.
- Claro que não! – Olívia riu.
- Tadinho. Você deveria dar uma chance a ele, sabia? - Parou para olhar a amiga. – Namorar te faria bem.
- O que? – Olívia riu sem graça, sentindo-se totalmente desconfortável com o rumo daquela conversa.
- Ah, qual é Olie?! Você é linda amiga. Eu juro que não te entendo. Nunca te vi com ninguém. Vai virar freira, é?
- Lógico que não. – Olívia a empurrou de brincadeira. – Só acho esses garotos do colégio uns idiotas.
- É, eles são. Mas fazer o que? Até que a gente vá para a faculdade, é o que nos resta. Eles servem para ganhar experiência.
- Você é cruel, Lili. E eu que te achava a mais santa de todas nós.
- As pessoas mudam, Olie. Você mudou muito. – Constatou a outra.
- Mudei como Lili?- Olívia achou graça.
- Sei lá, está mais confiante. – A outra respondeu a analisando. – E se eu não soubesse melhor, diria que você está apaixonada.
- Até parece. – Olívia desconversou.
Ligia riu da amiga, e foi andando para o meio da festa. Olívia olhou a volta e viu Joana conversando com os pais. A achava tão linda às vezes, que doía. Ela que nunca acreditara no amor, se via fazendo planos futuros, e todos eles incluíam Joana como sua mulher para sempre. Mesmo que nunca reconhecessem o casamento gay, mesmo que olhassem torto para elas na rua, sabia que nada disso importaria, o amor delas bastava.”
Passou as mãos pelos cabelos, e suspirou. Aquele lugar lhe trazia tantas recordações, tanto boas quanto ruins, mas definitivamente fortes. Fechou os olhos e buscou acalmar seu coração, mas por mais que tentasse bloquear, as palavras de Marina insistiam em lhe voltar a mente. Não era como se ela não soubesse que tinha errado com Joana também, pois sabia. Mas também deixara claro mais de uma vez, que a amava e a queria, ou não deixara?
Lembrou-se de cada momento em que estiveram juntas ou se falaram naquele ultimo ano, e as palavras estavam lá, admitira o seu amor, mas com que relutância? Joana também disse que a amava, e o que ela fizera com isso? No fundo, era claro que ambas haviam errado e muito, não souberam se comunicar direito, ou eram simplesmente incapazes de compreender o que a outra dizia.
Compreender. Isso realmente importava? Definir quem errara mais, quem fugira por medo e em que momento, quem carregava a maior culpa, era realmente tão importante assim? E ainda que fosse capaz de perceber cada desvio no caminho que ambas trilhavam desde que se conheceram, de que adiantaria?
Passado. Aquela história pertencia ao passado, e lá deveria permanecer. Estava cansada de sentir aquele incomodo constante cada vez que pensava em Joana. Não poderia dar a ela todo esse poder sobre si. Ela dominava seus pensamentos, seus sentidos, sentimentos. Na verdade, Joana era uma ilusão que a própria Olívia criara em sua mente. Uma forma de se proteger dos outros. O sentimento que nutria por ela, a impedia de se apaixonar por qualquer outra mulher, e isso ela sabia, era culpa sua.
A sua volta para hotel foi mais tranqüila. Caminhou lentamente começando a sentir o efeito do sol quente em sua pele branca. Foi direto para o quarto, e agradeceu por Emilia não estar lá esperando por ela. Não seria capaz de encará-la naquele momento. Não quando seu corpo estava ardendo de desejo por outra mulher.
A água gelada não somente aliviou o ardido em sua pele, como lhe deu uma sensação de limpeza mais profunda. Precisava estar refeita para o dia que teria pela frente, e precisava especialmente, dedicá-lo ao irmão e a cunhada, que nada tinham a ver com seus dramas amorosos. Resolveria seus próprios problemas em outro momento. A tarde e a noite, seriam dedicados a celebrar a felicidade de duas pessoas importantíssimas na sua vida, e era sobre que isso que deveria ser.
**X**
O casamento estava marcado para aquela tarde, por volta das cinco e meia. Guto e Marcinha decidiram que se casariam ao pôr-do-sol no jardim do clube. Queriam fazer a cerimônia no mesmo local onde dariam a festa.
O lugar estava todo decorado com flores de diversas cores, com predominância do branco. Fitas amarradas às arvores, também davam um toque efêmero, um casamento no país das fadas, como Marcinha o chamara.
- Está tudo lindo mano. –Olívia passou o braço por sobre o ombro do irmão enquanto ambos miravam o jardim.
- Está tudo perfeito. – Ele balbuciou emocionado.
Olívia o apertou ainda mais forte em seus braços, e assim seguiram para a sala que havia sido reservada para o noivo, e onde Raquel já os aguardava.
Theo havia ido para a casa de Joana a pedido de Marcinha. A mulher que faria a sua maquiagem não havia comparecido, e Joana ligara para o amigo para que ele viesse salvar a pátria, o que ele fez com gosto.
Marina tinha ido a rodoviária buscar Bola e Tom que estavam subindo de ônibus, já que Adoniades não suportaria uma viagem tão longa. Ela e Olívia haviam entrado em um acordo silencioso de não mencionar o ocorrido àquela manhã. Mesmo ainda estando magoada com a amiga, Olívia tinha consciência de que ela não tivera a intenção de feri-la, mas apenas de lhe abrir os olhos, ainda que não estivesse disposta a admitir isso ainda.
Por volta das três e meia da tarde, Joana parou o carro no estacionamento do clube. Theo estava ao seu lado, e Marcinha e Bela no banco de trás.
- Vamos? – Chamou-os.
Os quatro seguiram pelo jardim, com Bela correndo à frente deles, e Theo carregando os vestidos delas que estavam dispostos em cabides. Foram direto para a sala que Marcinha havia reservado para se arrumar, e que ficava do lado oposto da sala em que Guto se encontrava. Os dois haviam se falado por diversas vezes por telefone, mas não se viam desde o dia anterior.
- Será que é muito cedo? – Marcinha sentou-se a cadeira que ficava de frente para o espelho.
- Não. Assim temos tempo de nos arrumarmos com calma. – Theo respondeu. – Eu quero estar lindo.
Joana e Marcinha riram para ele.
- Mamãe, posso ir brincar lá fora? – Bela estava impaciente.
Joana olhou para o rosto ansioso da filha, e dela para Marcinha.
- Vai lá amiga. Minha mãe e a minha tia já estão chegando. E o Theo fica comigo, não fica Theo?
- Claro. Eu sou praticamente um pagem e estou adorando. – Falou orgulhoso.
- Ok. Eu já volto. – Joana garantiu. – Vamos meu amor, vamos brincar lá fora.
Olívia deixou a sala em que se encontrava em companhia da mãe e do irmão, e seguiu para o jardim. Precisava urgentemente de um cigarro. Emilia ligara mais cedo para informar que só iria mais tarde, acometida de uma dor de cabeça, decidira ficar no hotel. Mesmo se oferecendo para voltar para lá e ficar ao lado dela, Emilia insistira para que ela não fosse. Sabia que o seu sumiço da manhã teria um preço, e sentia-se péssima por deixá-la tão insegura.
Ascendeu o cigarro e respirou fundo. O sol ainda estava forte e brilhante, por isso se deteu próxima a uma marquise que fazia sombra sobre o jardim. Foi quando avistou uma criança passar correndo pelo gramado.
- Bela, não vai pra longe. – Ouviu então a voz que fez seu coração dar um looping. Logo depois da criança, uma mulher vinha caminhando pelo jardim, olhando a criança que corria e pulava.
Olhou com cuidado, e sentiu um formigamento por todo o corpo. Joana estava ainda mais linda do que ela lembrava. Vestia-se de forma simples, com um short de pano xadrez, e uma camiseta branca, óculos escuros, mas seus cabelos estavam diferentes, presos no alto em um penteado moderno, todo ondulado e com fios soltos.
Ainda a admirava, quando esta se virou para onde ela estava. Quis se esconder, mas não se moveu. Joana estancou, e ergueu os óculos do rosto revelando seus lindos olhos castanhos.
Não saberia precisar quanto tempo passaram apenas se olhando, até que Joana baixou os olhos e então voltou a encará-la andando em sua direção. Olívia não sabia como agir. Não esperava encontrá-la tão cedo naquele dia. Sabia que seria inevitável, uma vez que ambas estariam no altar àquela tarde, mas não pensou que a veria assim, sem preparo algum.
Joana se aproximou até estar a poucos metros de onde Olívia se encontrava. Continuaram se olhando, como se buscassem decifrar o que se passava na cabeça da outra. Foi o chamado da criança que as despertou.
- Mamãe! Posso ir até o lago? – Bela gritou para ser ouvida.
Joana se virou para a filha, e Olívia a admirou antes de se voltar para a forma pequena que corria em direção a elas.
- Posso mamãe? – Bela pulou no pescoço dela.
- O lago não, meu amor. Eu disse que você podia brincar no jardim. – Joana estava com a voz um pouco presa. Por mais que tentasse soar natural para a filha, seu coração batendo forte no peito, não permitia.
- Mas no lago tem peixinhos. – Justificou a menina.
- Eu sei pequena. Mas por enquanto, só o jardim, certo? – Joana beijou-lhe a ponta do nariz.
- Tá bom. – Falou resignada.
- Bela, esta é Olívia. – Joana disse se virando lentamente para a mulher a sua frente. – Olie, esta é a minha filha, Bela.
- Oi. – A criança disse tímida.
- Oi. – Olívia respondeu, e após pigarrear para clarear a garganta. – É um prazer te conhecer, Bela.
- Ela é irmã do tio Guto. – Joana explicou.
Bela abriu um sorriso para Olívia, e ela pode ver os traços da sua amada naquele rostinho pequeno e sapeca. O sorriso era o mesmo, assim como os olhos. Olívia não resistiu e sorriu de volta.
- É a moça da fotografia, não é? – Bela perguntou a mãe, reconhecendo Olívia das fotos que tinha espalhadas pela casa delas.
- É sim meu amor, esta é a moça das fotos. – Joana lançou um olhar intenso na direção de Olívia, ao mesmo tempo sentindo-se sem graça, como se tivesse sido pega em flagrante fazendo algo errado.
- Que fotos? - Olívia perguntou curiosa.
Antes que Joana pudesse falar qualquer coisa, Bela se adiantou.
- A mamãe tem um monte de fotos na sala, e têm algumas com você. – Disse como se fosse a coisa mais simples do mundo. – E têm um monte de fotos minhas também, né mamãe?
- Claro que tem. – Joana acariciou a cabeça da filha. - Agora vai brincar. Mas sem sair de perto de mim, certo? – Joana a soltou.
- Certo. – Respondeu sorrindo e então saiu correndo para perto das arvores.
Joana e Olívia voltaram a se encarar. Ambas com milhares de coisas que gostariam de dizer, mas que não sabiam como. Apenas se miravam longamente. Uma forma de matar a saudade que o olhar sentia das feições da outra, dos traços delicados, da forma dos lábios, do brilho dos olhos. Ao poucos a respiração se tornou ofegante, e Olívia buscou o ar com força, provocando um sorriso tímido de Joana.
- Ela é linda Jo. – Olívia falou, tentando recobrar algum equilíbrio.
- Obrigada. – Joana agradeceu, e lançou um olhar doce para a filha, antes de voltar seus olhos para a mulher a sua frente.
- Então quer dizer que você tem fotos minhas? – Olívia perguntou sorrindo.
- Sim. – Joana baixou a cabeça.
- De quando? – Olívia quis saber.
- Quando você for a minha casa, eu te mostro. – A encarou de volta.
Olívia ficou completamente sem ação diante daquele olhar. Sentiu o desejo arder como fogo em seu peito. Queria beijar os lábios doces dela. Era uma vontade tão forte, que não sabia como iria controlar.
– Posso te dar um abraço? – Joana pediu desejosa. Precisava daquele contato para tornar a presença dela ali real.
Olívia suspirou, e andou até ela. Lentamente a tomou em seus braços, e seus corpos se tocaram. Uma descarga elétrica passava livremente entre eles, e elas estreitaram o contato. Joana pousou a cabeça no ombro de Olívia, e esta a puxou mais pra perto. O perfume inebriante que se desprendia dela, a deixava tonta, subiu uma das mãos, até encontrar a nuca livre.
Joana a apertou mais forte. Não queria nunca mais solta-la. Não queria nunca mais ter que dizer adeus. Seu coração batia alegre dentro do peito, como se tivesse encontrado o que lhe dava força para pulsar.
Sem solta-la, Olívia afastou o rosto e Joana a encarou. Passou os dedos trêmulos pela pele do rosto da sua morena delicadamente, sentindo a textura que ainda era a que e lembrava. Joana fez o mesmo, como um reconhecimento. Quando se deram conta do que faziam, soltaram-se. Olívia deu um passo atrás, e Joana, que teve o impulso de puxá-la de volta, apenas assistiu sua amada recuar.
- Desculpa. – Pediu Olívia sem encará-la.
- Não foi nada. – Joana se apressou em dizer.
- Ok.
Ficaram um tempo em silencio, esperando que seus corações retomassem um ritmo normal, ou ao menos mais lento, pois normal jamais seria enquanto estivessem uma na presença da outra.
- Como está o Guto? – Joana decidiu por interromper o silencio que a deixava mais insegura ainda.
- Está bem. Feliz e ansioso ao mesmo tempo. – Olívia falou carinhosa.
- Vai dar tudo certo. – Joana garantiu – Esse dois tem algo raro.
- E a Marcinha? Não a vejo desde ontem. – Olívia disse após concordar.
- Bem também. O Theo tem o dom de distraí-la quando ela começa a surtar. – Joana falou divertida.
- O Theo tem esse dom, verdade. – Olívia sorriu, e Joana se perdeu naquele sorriso, sem se dar conta de que a encarava, sem nem ao menos ter prestado atenção ao que ela havia dito.
Olívia captou o olhar da outra, e abriu um sorriso ainda mais largo. Se preparava para falar, quando seu telefone tocou, olhou para o visor e era Emilia, precisava atender. Não se viam desde a noite anterior.
- Oi Emi. – Falou e viu Joana abaixar a cabeça. – Não, já estou no clube. – Joana desviava o olhar. – Tá certo. Te vejo mais tarde. Um beijo. – Desligou.
- Sua mulher? – Joana perguntou, tentando parecer cordial.
- É. – Olívia não sabia o que mais dizer.
- Ela vem?
- Está no hotel. – Respondeu.
- Hum. – Joana tinha no rosto um tom púrpura que Olívia conhecia bem. Já a vira irritada um numero significativo de vezes, para reconhecer.
- Seu marido vem? – Olívia queria deixar claro que se ela estava casada, Joana não ficava para trás, não tinha o direito de ter ciúmes.
- O André vem. – Joana respondeu olhando-a nos olhos, desafiando-a. – Com a mulher dele e o filho dela.
Olívia não soube o que dizer, e viu Joana sentir-se vitoriosa. Uma reação quase infantil, mas que ela achou divertida. Quando novas, ter razão sobre qualquer assunto, era uma questão de horna para Joana. Muitas vezes as brigas se tornavam infinitas, se Olívia não desse um basta. Mas bastavam cinco minutos para que a Joana voltasse pedindo desculpa, e dizendo que ela tinha razão. Outras vezes, resolviam este impasse na cama. Ia comentar o fato, quando Bela as interrompeu.
- Mamãe. Banheiro! – Chegou falando, enquanto apertava a bexiga com as mãos.
- Vamos entrar então. – Falou sorrindo para a filha. – A gente se vê mais tarde. – Falou para Olívia que apenas concordou balançando a cabeça.
- Tchau tia. – Bela falou para Olívia que lhe sorriu.
- Tchau Bela. Te vejo no casamento. – Respondeu.
- Eu sou dama de honra. – Ela falou orgulhosa.
- Tenho certeza de que será a mais linda dama de honra do mundo. – Este comentário carinhoso, lhe rendeu um sorriso luminoso da menina, que se apressou a entrar na frente da mãe.
Joana, ao passar ao lado de Olívia, trocou um olhar profundo, cheio de significados para as duas, e tocou de leve a sua mão, no que Olívia correspondeu sem pestanejar. Não havia como negar, aquela mulher mexia com ela de uma maneira que nenhuma outra jamais seria capaz de fazer.
Ficou assistindo-as entrar, e somente quando sumiram pelo corredor, foi que se voltou para fora e ascendeu outro cigarro. Um sorriso que ela nem se deu conta, brotou em seus lábios, nada parecia importar no mundo. Sempre fora assim quando Joana estava ao seu lado, nada mais no mundo tinha qualquer relevância. E ela estava livre. O que isso significava, não poderia dizer, mas sentiu um alivio imenso ao constatar este fato.
CAPÍTULO 21 - Blue Moon - O casamento parte 2
Às cinco da tarde, Guto já estava vestido e ansioso dentro da sala preparada para ele. Bebera litros de café, o que somente serviu para deixá-lo ainda mais agitado. Parou de andar por um momento, e se olhou no espelho.
- Eu to suando. – Reclamou para a irmã, que estava jogada sobre a poltrona, já trajando o seu terninho preto. – É normal ficar tão nervoso assim? Acho que eu preciso de um cigarro.
- Relaxa Guto. Você não está indo pra forca. – Olívia saiu do seu transe. – Você vai casar com a mulher da sua vida.
- Ok. – Ele sorriu nervoso. – Você tem razão. Será que ela está surtando também?
- Se eu bem conheço aquele pingo de gente, sim! Deve estar enlouquecendo a cabeça da Jo. – Falou sem pensar.
- A Jo? – Guto se virou para a irmã. – Desde quando ela voltou a ser a Jo? Você falou com ela não falou?
- Ei! – Olívia o interrompeu. – Pirou? Me erra Guto!
- Olie, não importa o que você faça, a vida é sua e eu não vou me meter, mas não magoa a Emilia. Ela não merece. Se quiser ficar com a Jo, termina com ela antes. É mais digno. – Guto a repreendeu.
- Quem falou em ficar com a Jo? – Olívia se irritou. – Se não fosse seu casamento, te dava uns cascudos.
- É obvio que você quer a Joana. Todo mundo sabe disso, até mesmo a Emilia. – Guto continuou. – Então para de fingir que isso não existe.
- Eu não estou fingindo. Estou dizendo que não existe absolutamente nada entre a Joana e eu. – Olívia tentou ser incisiva, mas o tremor na sua voz, e o desvio do olhar, lhe entregaram.
- Mesmo? Você vai continuar mentindo pra você mesma? – Ele parou diante dela com a expressão seria. – Diz que você não sente nada por ela?
- Claro que não. – Olívia mentiu.
- Negar não vai mudar os fatos. – Guto concluiu baixinho, pois Raquel acabara de abrir a porta e sorria para os dois filhos.
- Vocês estão lindos! – Limpou uma lagrima antes que caísse e estragasse a maquiagem leve.
Guto sorriu e caminhou até a mãe, abraçando-a. Olívia a mirou e forçou um sorriso, sentindo ainda o peso das palavras do irmão. O que queriam com ela? Já não bastava a turbulência que sentia? Tanto ele como Marina a intimavam a tomar uma atitude referente à Joana, mas como fazê-lo sem que se perdesse novamente no processo?
- Está tudo pronto. – Raquel falou orgulhosa. - Vim buscar o noivo.
Respirando fundo, Guto tentou arrumar pela milésima vez a gravata, sendo prontamente socorrido pela mãe. Buscou os olhos da irmã, e esta acenou com um sorriso brando. Tomando as duas mulheres pelos braços, Raquel do lado direito e Olívia do esquerdo, caminhou para fora da sala.
A banda contratada para tocar durante a cerimônia, já estava a postos com seus músicos. Assim que avistaram o noivo, começaram os acordes de “All i want is you” do U2. Todos os presentes se levantaram, e Olívia logo avistou Emilia fotografando cada momento. Não haviam se visto àquele dia, e a culpa se espreitou pelo seu peito.
Nas primeiras fileiras, Marina, Bola e Tom sorriam abertamente para eles. Os familiares deles também estavam ali, mas Olívia não deteve seu olhar em nenhum deles, nem mesmo o pai, que ocupava a cadeira da ponta da primeira fileira do lado direito.
Depositando um beijo na bochecha do irmão, ela seguiu para o que seria o seu lugar no altar, que nada mais era do que um pequeno palanque de madeira. Guto ajeitou o terno e virou-se para o corredor da entrada. A musica ouvida agora era “Blue Moon”, Lorenz Hart e Richard Rodgers, e ao fundo Olívia se emocionou ao ver Joana entrando com um vestido verde escuro. Sentiu seu coração bater mais rápido diante daquela visão, e ainda mais forte ao perceber que Joana olhava fixo para ela. Não desviou o olhar um só segundo. Andou diretamente até ela e sorriu, antes de tomar seu lugar ao lado oposto em que Olívia se encontrava.
“Festa de formatura do terceiro ano do 2º grau, como era chamado na época.
Olívia vestira um terno preto, com uma camisa branca por de baixo. Sua intenção era chocar os presentes, e cumpriu sua determinação. Todas as suas colegas trajavam vestidos de cores diversas, com exceção dela. Entrou no salão com Fred, um rapaz de cabelos negros e pele branca como a neve, talvez mais branca que a dela, e que havia se tornado um bom amigo nos seus últimos meses de escola.
Fred, assim como ela, era homossexual. Mesmo sem ter se assumido publicamente como ela fizera, não havia uma viva alma capaz de duvidar que ele era gay. Apesar disso, Fred causava uma ótima impressão por onde passava. Era alto, magro e extremamente bonito, ainda que tímido. Ele e Olívia se aproximaram assim que ela retornou a escola após o fatídico dia em que sua vida desmoronou. Ele foi um dos poucos a lhe estender a mão, e ela aceitou de bom grado. Acabaram se tornando melhores amigos, e Olívia lamentou muito quando se separaram. Fred acabara passando para engenharia na USP, e se mudou para São Paulo. Tentaram manter contato nos primeiros anos, mas logo estes se tornaram rarefeitos, e por fim, acabaram.
De qualquer forma, àquela noite, era ele que estava ao lado dela. Ambos um pouco embriagados, o que lhes dera coragem, já que ele trajava um terno preto como o dela, mas com uma blusa preta de gola role por baixo, e um cachecol colorido em volta do pescoço.
Ao chegar a sua cadeira a frente do publico presente, composto em sua maioria por familiares dos formandos, Olívia avistou Joana entrando de braços dados com Leo, que voltara a ocupar o posto de seu namorado. Ela estava linda. Lhe lembrava uma fada, com um vestido azul meia noite de cetim, os cabelos presos em um coque, mas com alguns fios soltos nas laterais, e um par de saltos altos na mesma cor do vestido.
Mesmo parecendo simples, ela tinha um brilho próprio que Olívia sabia, não era a única capaz de captar.
Tentou controlar a dor que parecia arranhar as paredes internas do seu peito, como se seu coração procurasse espaço para escapar. A garganta secou, e seus olhos lacrimejaram. Engoliu em seco para segurar o coração, e as lagrimas que insistiam em brotar nos seus olhos.
Quando os olhares se cruzaram, Joana não desviou como sempre fazia na escola. Ela sustentou o olhar intenso que Olívia dirigia a ela, e sorriu triste antes de tomar o seu lugar ao lado do namorado.
Após a colação e a entrega dos diplomas, todos os jovens partiram para o clube da cidade, onde ocorreria a grande festa.
Olívia e Fred chegaram por ultimo, ou ao menos foram uns dos últimos a adentrar o salão que já fervia. Um DJ tocava as musicas da moda, e os corpos se movimentavam em meio ao salão.
Pararam próximos ao bar, e como Olívia já havia completado dezoito anos, e Fred não, ela comprava as bebidas para os dois, que se divertiam separados do restante do grupo.
Avistou Joana dançando entre as suas amigas, Ligia, Thais e Clara. Olívia sentiu raiva e saudade, mas não percebeu a saudade naquela época. Era apenas raiva. Ela perdera tudo outra vez. Joana voltara a ter a vidinha ‘perfeita’ de antes, enquanto ela era tratada com um ser estranho, uma aberração.
Leo também estava junto, e para Olívia, ele parecia ainda mais idiota que antes. Teve vontade de ir até lá e provocar, mas se conteve.
Fred acabou por encontrar um garçom muito interessado em sua coleção de Guerra nas Estrelas, e sumiu com ele durante a noite. Sozinha e um pouco bêbada, Olívia cruzou o salão em direção ao banheiro. Alguns casais estavam aos amassos em toda a extensão da parede que dava acesso a parte externa do casarão, fazendo com que ela apertasse o passo ao perceber que um dos casais era o seu amor e o namorado.
Não se conteve, e esbarrou com força nele antes de entrar chutando a porta do banheiro. Queria quebrar tudo o que estava a sua volta, mas se conteve, se atendo a esmurrar a porta de uma das cabines, assustando as três meninas ali presentes, que fizeram questão de sair o mais rápido possível.
Se olhou no espelho e pode ver a dor que sentia refletida em seus olhos manchados de rímel. Estava chorando e nem havia percebido.
Ouviu a porta se abrir, e sem nem ao menos se virar para ver quem tinha entrado, gritou:
- Sai daqui se não quiser apanhar! – Nunca fora violenta, mas sentia que poderia entrar em uma briga naquela noite. Apanhar lhe parecia uma ótima alternativa para a dor que sentia.
- Eu vim conversar. – Joana disse reunindo coragem para se aproximar. Olívia lhe lembrava um bicho enjaulado, acuado. – Olie...
- Não me chama assim. – Olívia rosnou sem se virar para ela. – Some daqui, ou eu bato em você.
Joana se aproximou devagar, e Olívia sentiu o toque leve em seu ombro. O mundo parecia prestes a desmoronar novamente. A respiração de Joana perto da sua nuca, a desestabilizava, lhe feria como vapor de chaleira quando a água fervia, assim como a mão que alcançou a sua, lhe queimava como brasa.
- Deixa eu ver a sua mão. Você se cortou. – Joana falou carinhosa, segurando a mão dela com delicadeza.
- Joana, sai daqui. – Olívia disse com um fio de voz. As lagrimas ainda escorriam por todo o seu rosto, e sua garganta estava completamente fechada.
Joana apertou o toque em seu ombro e encostou seu corpo nas costas dela, encostando seus lábios na nuca desnuda, já que Olívia havia cortado o cabelo bem curto.
- Você esta ainda mais linda hoje. – Joana suspirou em seu pescoço, e o beijou.
- Não faz isso. Por favor. – Olívia pediu em meio ao choro. – Não vê que você só me machuca mais?! Como se já não tivesse feito o bastante. – Olívia tentou impor agressividade, mas sua voz saía entrecortada.
- Me perdoa. – Joana pediu após alguns minutos, em que ficou ali parada, apenas sentindo o corpo da mulher amada.
Olívia se virou para ela com a intenção de empurrá-la para longe, mas os olhos de amêndoa estavam molhados, e em meio a raiva, sentiu o amor pulsar dentro do seu peito. E não era só amor, era desejo. A segurou, e como na primeira vez, a beijou em um banheiro durante uma festa.
Foi um beijo longo, saudoso, úmido pela saliva que buscava o gosto da boca amada, como pelas lagrimas que ambas deixavam cair entre elas. Olívia a apertou contra o seu corpo, e Joana estreitou o contato, segurando-lhe pela nuca com a mão esquerda, enquanto a direita lhe acariciava as costas por dentro do paletó.
Os segundos se tornaram minutos, e nenhuma das duas queria interromper aquele beijo. Sabiam que no momento que isso acontecesse, tudo acabaria. Seria como se não tivesse acontecido. Nada teria mudado. E foi ao tomar consciência disso, que Olívia descolou seus lábios dos dela, beijou-lhe as pálpebras que ela mantinha fechada, e soltou-se sem que houvesse qualquer resistência.
Deixou o banheiro, e passou por Leo sem nem olhá-lo. Ganhou a noite, e andando sem rumo pelas ruas, foi se despedindo da sua vida ali. Deixava uma parte importante sua para trás. Deixava a sua alma nos lábios da sua morena.”
Se assustou com a clareza dos detalhes. Bloqueara aquela lembrança com tanto afinco e por tantos anos, que pensava estar completamente perdida. Um arrepio lhe subiu pela espinha, e seu olhar para a Joana se tornou frio, magoado. A morena a conhecia bem demais para não perceber a mudança, e sentiu-se frágil. Lembrara-se daquele dia repetidamente na ultima semana. Quis morrer por estar longe de Olívia naquele momento. Tantos planos haviam sido feitos por elas para a formatura. Tantos sonhos para o que viria depois. A tão sonhada liberdade. E na verdade, se viu ainda mais aprisionada a uma vida que não desejava, que lhe era imposta, e o pior, longe do amor da sua vida.
Só pararam de se encarar, quando perceberam que Marcinha entrava acompanhada do pai, e com Bela à frente, jogando pétalas de flores pelo chão. A menina fez tudo corretamente, e com um sorriso lindo no rosto.
Marcinha estava linda. O vestido branco era simples e delicado, assim como ela. Os olhos azuis brilhavam intensamente, e ao tomar a mão do Guto na sua, Olívia pode sentir o amor profundo que eles compartilhavam. Emocionados, eles se viraram para o celebrante.
A cerimônia foi simples e rápida, e durante toda ela, Olívia não foi capaz de disfarçar os olhares trocados com Joana. Um olhar que foi amansando à medida em que a cerimônia avançava. Nenhuma das duas, sequer tentava disfarçar. Compartilhavam sorrisos doces, e uma cumplicidade que somente dois amantes são capazes de possuir, os olhares pegavam fogo dentro delas ainda que buscassem resistir. Sem palavras, assumiam aquele sentimento quente que as invadia.
Após o beijo que selava o casamento, e a chuva de arroz, a festa começou. A banda estava preparada no palco ao lado, e começou a tocar “If i fell” dos Beatles assim que os noivos deram as mãos para deixarem o altar. As mesas para os convidados já estavam preparadas por todo o jardim, e as cadeiras que serviram para aqueles que assistiam a cerimônia, foram retiradas por funcionários do clube sem maiores transtornos.
Olívia olhou a volta, mas Joana não estava mais no altar. Procurou por ela com os olhos, mas foi impedida por Nina, que a puxou para um abraço emocionado.
- Nunca vi um casamento tão bonito. – Falou à amiga sinceramente.
- Uau, nunca pensei que houvesse algo capaz de te deixar assim. – Olívia implicou.
- Eu ando romântica, e a culpa é do Theo. – Nina revidou.
- Alias, cadê ele? – Olívia olhou a volta.
- Está lá atrás. Ele ficou com a Marcinha até ela entrar. Virou o personal dela. – Disse rindo.
- Ele deve estar orgulhoso. – Olívia olhou a volta procurando por Joana, mas os olhos que a encaravam não eram os de amêndoa, e sim os azuis de Emilia. Decepção.
Olívia andou até ela, que recuava pelos jardins, e precisou correr para alcançá-la. Puxou-a e se deparou com as lagrimas que corriam soltas pelo rosto bonito da ruiva.
- Me solta Olívia. – Ela falou entre dentes. – Eu não quero fazer isso aqui. Volta pra festa e nós conversaremos no Rio.
- Você está indo embora? – Olívia perguntou surpresa.
Emilia a encarou antes de responder, e sorriu friamente.
- Você é inacreditável. – Falou com raiva.
- Emi... – tentou começar, mas a outra a cortou.
- Não diz nada. Qualquer coisa que você disser, qualquer explicação furada, e até mesmo a verdade, só vão fazer com que eu me sinta pior. – Emilia despejou. – Eu sabia que era um erro vir com você. Eu sabia que me sentiria assim quando visse o seu “grande amor”, – ironizou - mas eu confesso, esperava mais respeito da sua parte.
- Emilia, se acalma. – Olívia pediu. – Vamos entrar e conversar lá dentro, longe de tudo.
- Pra que? Pra você dizer que não há nada entre vocês?
- Não existe nada entre a Joana e eu. – Olívia falou, se batendo por saber que aquilo nunca seria inteiramente verdade. – Não vai embora assim.
- Disso tudo, sabe o que mais me indigna? Você ter permitido que eu tentasse. Enquanto você me dava um gelo, eu conseguia te respeitar, mas você me permitiu entrar de novo na sua vida, me fez acreditar que eu tinha uma chance que eu nunca tive.
- Eu também acreditei. – Olívia falou baixinho. – Eu te amo Emilia.
- Esse amor eu não quero. – Emilia enxugou mais lagrimas que caíam sobre o seu colo. – Você pode até me amar, mas não como eu preciso ser amada pela mulher da minha vida.
Olívia não soube o que dizer. Tinha um limite para as mentiras que contava para ela e para os outros. O amor que Emilia queria, e que tinha direito à receber, ela não tinha pra dar, nunca teve.
- Fala pro Guto e para a Marcinha que eu mando as fotos depois. – Começou a se afastar.
- Emilia! Espera. – Olívia foi atrás dela. – Não faz assim.
- Estou te poupando o trabalho de terminar comigo. – disse seria. – Isso já foi longe demais Olívia. Eu já me machuquei demais. Pra mim chega.
Voltou a andar, deixando uma Olívia desnorteada para trás. Tinha sido tão covarde com a Emilia, tão cruel. Pensou em correr atrás dela, pedir perdão, mas pra que? Não se perdoaria pelo o que fez a ela, não podia exigir isso dela.
Olhou para o jardim a suas costas, e viu as luzes se ascenderem para abrigar a festa. A noite caía rapidamente e o sol se punha atrás das montanhas. Era hora do crepúsculo. Era o momento do dia que ela mais gostava, mas naquele momento só era capaz de sentir uma tristeza imensa. Como se com o sol, toda a cor que Emilia trouxera para a sua vida, também se extinguisse, e a escuridão da sua culpa, tomasse conta de tudo.
Quando voltou para a festa, diversos convidados já tomavam conta da pista de dança. Ela avistou Guto e Marcinha entre eles, e aqueles sorrisos eram um alento. Marina estava ao lado do bar conversando com uma mulher que Olívia não foi capaz de reconhecer. Theo se esbanjava na pista, e Olívia se viu obrigada a sorrir. Ao longe, próxima as arvores, Joana conversava com duas pessoas que Olívia simplesmente abominava, os pais da morena.
Ficou surpresa com o desprezo que sentiu ao vê-los. Antes de descobrirem sobre elas, ao menos eram cordiais, mas nunca de fato gostaram dela. Após o ocorrido, não apenas a escorraçaram, como deixaram claro que ela havia sido a responsável por tudo o que acontecera. Se havia duas pessoas no mundo que ela gostaria de nunca mais ter precisado ver, eram aqueles dois.
Se preparava para ir ao encontro de Marina, quando uma mão tocou o seu braço. Virando-se rapidamente para a pessoa, se deparou com a terceira pessoa que ela menos gostava no mundo, seu pai.
- Não ia nem ao menos falar comigo? – Ele a questionou.
Apesar dos anos, Otavio Gurgel permanecia praticamente o mesmo. Os cabelos castanhos escuros podiam estar mais escassos, mas ainda se faziam presentes. Os olhos verdes intensos que ela herdara, também ainda eram os mesmos. Respirou fundo, e tentando deixar claro que não tinha qualquer intenção de prolongar aquela conversa, falou.
- Boa noite Otavio.
- “Pai” é pedir muito, não é? – Ele foi delicado.
- Bastante. – Respondeu.
- Tudo bem. Eu entendo.
- Entende? Bom. – Foi fria e se preparava para deixá-lo, quando ele falou.
- Não existe nada no mundo que eu me arrependa mais do que a forma como tratei você. – Olívia parou de andar, mas permaneceu de costas. – Se algum dia você achar que pode me perdoar pelo o que eu te fiz, por favor, me procure.
Não o viu se afastar. Continuou parada no mesmo lugar por mais alguns minutos, sentindo-se a pior pessoa do mundo. Não pelo seu pai, mas por todas as pessoas que magoou. Triste por Emilia, por tê-la feito sofrer daquela forma. Vê-la ir embora cortou seu coração. Estava ainda perdida em pensamentos, quando sentiu o perfume que seria capaz de reconhecer em qualquer lugar no mundo. Virou-se, e Joana lhe sorria.
- Estava te procurando. – Disse timidamente.
- Estava resolvendo algumas coisas. – Respondeu seria.
- O que foi? – Joana se aproximou, erguendo a mão para tocar em seu rosto, mas interrompeu o gesto. – Aconteceu alguma coisa Olie?
- Muitas. – Deixou que um sorriso triste se abrisse em seu rosto. – Mas não quero falar disso.
- Certo. – Joana sorriu de volta. – Vim te chamar pra dançar comigo. – Disse decidida, e Olívia percebeu que ela se preparara para fazer aquele convite.
- Acho melhor não. – Olívia respondeu.
Joana ficou sem graça e escondeu o rosto com as mãos.
- Desculpa. – Pediu com um sorriso envergonhado. – Eu não devia ter proposto isso.
- Não, Jo! – Olívia se apressou a dizer, e foi a sua vez de se interromper em meio a um gesto para tocá-la. – Eu agradeço, de verdade. Só não estou no clima para dançar.
- E para beber? – Joana emendou. Havia decidido que tentaria, que iria reconquistar Olívia e não estava pronta para desistir ainda.
- Beber pode ser bom. – Sorriu.
Joana seguiu a frente, e Olívia a acompanhou. Temia aquela proximidade, mas não se sentia capaz de simplesmente se afastar. Chegaram ao bar, e Olívia pediu uma dose whisky, o que fez como que Joana a interpelasse erguendo as sobrancelhas.
- Só uma dose. – Respondeu, e virou o copo assim que estendido a ela. Sentiu o gosto amargo descer queimando por sua garganta, e logo pediu outro. Não queria precisar pensar em nada, queria simplesmente não existir naquele momento.
- Vai com calma Olie. – Joana disse docemente, tocando seu braço.
O arrepio que sentiu, foi apenas a confirmação de que precisava se afastar imediatamente da morena antes que fizesse algo que pudesse se arrepender. Bebeu mais um pouco do liquido em seu copo, e tentou sorrir.
- A fraca para bebida sempre foi você, não eu. – Foi sarcástica.
- Isso é verdade. – Joana respondeu, pedindo uma marguerita ao garçom. A atitude ríspida de Olívia a magoava, mas não queria admitir. – Mas eu fiquei mais forte com o tempo.
- Tenho certeza disso. – Olívia concordou, e buscou a terceira dose.
Saiu andando sem nada dizer a Joana, que apenas assistiu o afastamento do seu amor. Achou melhor não forçar a barra. Havia prometido a Marcinha que se controlaria por ela, e decidiu fazê-lo. Não era uma desistência, apenas um recuo, disse a si mesma. Ficou a observá-la de longe.
Olívia andou pela festa, vez ou outra cumprimentando algum conhecido, mas evitando qualquer contato com quem quer que fosse. Sentia-se tão covarde e cruel pelo o que havia feito a Emilia, que sua vontade era se esconder em um canto escuro e esperar por aquela noite passar.
Buscou uma mesa mais afastada da pista, e sentou-se sozinha com outra dose. Não gostava de whisky, e talvez por isso o tenha escolhido como companheiro. Uma forma de punir a si mesma. Fora que sabia o efeito que a bebida logo teria sobre ela. Anestesiaria todos os seus sentidos, e assim seria mais fácil passar pela dor. A todo o momento, a imagem de decepção nos olhos de Emilia a acometia, e ela sentia uma pontada forte no peito.
Pegou o celular e tentou falar com a ruiva, mas esta havia desligado o aparelho, o que não era nenhuma surpresa. Ligou então para o hotel, só para descobrir que ela havia saído de lá com as malas e passado a conta do quarto para o nome de Olívia, após pagar a primeira noite. Era orgulhosa. E disso Olívia sabia bem.
Mais uma dose, e seu mundo já parecia diferente. O formigamento pelo corpo era um bom sinal, sinal de que logo viria a sensação pela qual ansiava, e todas as preocupações a deixariam por algumas horas.
Do outro lado da pista de dança, Joana continuava a observar cada movimento do seu amor. Foi tirada de seus pensamentos por Marina, que animada, veio chamá-la para dançar.
- Vamos! O Theo está fora de controle vai ser divertido. – disse apontando para o amigo.
- Talvez mais tarde. – Joana respondeu sorrindo para Nina.
- Você está olhando o que? – Procurou com os olhos o ponto em que ela se fixava. – Ah. Entendi. – Provocou. – E não foi até lá ainda por quê?
- Eu tentei, mas ela me cortou e se afastou. – Respondeu séria. – E está bebendo demais.
- Olívia? Ela não tem mais fígado, não se preocupe. – Marina, que já estava alegrinha, brincou.
- Ainda assim. – Joana estava preocupada, e tentava com isso, mascarar a dor que se formava em seu peito.
- Ok. Se você está preocupada, porque não vamos até lá? – Marina começou a andar.
Joana relutou por um instante, mas acabou seguindo a amiga. Estava com uma angustia se formando em seu peito. Primeiro, por ter visto de quem se tratava a mulher de Olívia, e a ruiva era estonteante, isso não fez nada bem para o seu ego. E segundo, porque Olívia bebia sozinha, e Joana não vira nem sinal da ruiva na festa. Ficou entre conjecturas, em nenhuma delas se via tendo uma chance de aproximação. Ou Emilia fora buscar algo, ou resolver alguma coisa e já voltaria e Olívia bebia esperando a namorada. Ou elas haviam brigado, e Olívia bebia por causa dela. Nas duas, Emilia era importante demais para a sua amada, e isso era um sinal de que ela deveria se controlar e se afastar. Havia decidido reconquistá-la, mas apenas se soubesse que ela não estava feliz com a mulher dela.
- Ei?! Está fazendo o que jogada aqui neste canto? – Marina chegou perguntando, e Joana se manteve afastada, apenas assistindo.
- Me escondendo. – Olívia respondeu com a voz já pastosa.
- De quem? – Marina, puxou uma cadeira e sentou-se de frente pra ela.
- Todo mundo. – Disse simplesmente.
- Todo mundo quem?
Sim, era papo de bêbado, e Joana se irritou.
- Aconteceu alguma coisa, Olie? – Ela perguntou serena.
Olívia a olhou com desagrado, desafiando-a. Nada respondeu, e voltou a beber do seu copo.
- Serio amiga, aconteceu alguma coisa? – Marina se preocupou.
- Nada que não estivesse previsto que iria acontecer. – Respondeu displicente. – Todo mundo me avisou, mas eu me achava fodona demais pra acreditar.
- Não estou acompanhando... – Marina declarou.
- Simples. A Emilia terminou comigo porque eu sou uma filha da puta insensível e sem coração. – Voltou a beber.
- E cadê ela? – Marina passou por cima da declaração, quando se deu conta que não mais havia visto a ruiva.
- Foi embora. – Disse baixinho, os olhos tristes.
Joana lutava com dois sentimentos muito fortes. Por um lado, sentia-se péssima por ver Olívia sofrendo por outra mulher. Por outro lado, sentia péssima simplesmente por vê-la sofrer. Queria se aproximar, mas não sabia como esta reagiria. Agiu então por impulso, e se abaixou ao lado de Olívia.
- Quer alguma coisa? Quer ir embora? – Perguntou tocando-lhe a mão.
Olívia sentiu a descarga elétrica novamente, mas isto, apenas a lembrou de que Joana era o motivo de Emilia estar sofrendo tanto, portanto, afastou o braço.
- Quero. – Disse sem encará-la. – Quero você bem longe. – Foi ríspida.
Joana pode sentir os olhos se encherem d’água, mas segurou as lagrimas. Encarou Olívia, mas esta não desviou os olhos fixos no copo sobre a mesa. Lentamente, Joana se ergueu do chão, e sem olhar para trás, saiu andando.
O seu coração passando por um turbilhão de sentimentos dos quais ela não tinha qualquer controle. A dor, a dor da rejeição era predominante. Sabia que não conseguiria fingir que não sofria com a rispidez de Olívia, e talvez merecesse, pensou. Não por aquele momento especifico, mas por tantos outros.
Andou rápido por entre os convidados, até encontrar a porta do clube e se refugiar na sala em que Marcinha havia se arrumado mais cedo. Não podia simplesmente ir embora, não faria isso com a amiga, e ainda que soubesse que a filha poderia ser levada pelo André para casa, não gostaria de deixá-la sem nada dizer. Sentou-se em uma das cadeiras, e chorou.
Olívia esperou até ter certeza de que Joana não estava por perto, para erguer os olhos. Pode vê-la se afastar em meio às pessoas. Andava apressada, e Olívia sentiu uma dor dilacerante que nem mesmo o álcool foi capaz de aplacar. Acabara de ferir a mulher que amava. Agora eram duas pessoas por quem ela nutria o melhor sentimento do mundo, ainda que de formas diferentes, a quem ela machucara.
- Precisava ser tão dura? – Marina a recriminou.
Nada respondeu. Com dificuldade, deixou a cadeira, e afastou-se da amiga. A ultima coisa que precisava agora, era uma lição de moral. Andou cambaleante até o bar, e pediu mais uma dose. Levou o copo a boca, e quase cuspiu todo o conteúdo. Não tinha idéia do quanto havia bebido, mas certamente fora muito.
Sentiu uma mão pousar sobre seu ombro, e olhou para cima. Sua mãe a mirava com preocupação, e Olívia sentiu vontade de rir. Era tudo tão ridículo, tudo tão confuso, e seu humor negro tomou conta.
- Não me olha como se você se importasse. – Soltou um sorriso amargo.
- O que aconteceu pra você estar nesse estado, Olívia? – Sua mãe foi firme, ainda que doce.
- Eu não valho suas rugas de preocupação e nem os seus cabelos brancos. – Disse enrolado.
- Filha. – Raquel se aproximou e pegou-a pela mão.
- Me solta. – Olívia puxou a mão e encarou a mulher a sua frente. Vergonha.
Andou pelo meio da festa com um sorriso cínico, bobo, que bailava em seu rosto. Os olhos injetados, e os movimentos lentos e descoordenados, eram percebidos e criticados, ou era assim que ela percebia. Se divertia com a expressão de espanto de alguns, e de reprovação de outros. Passou a flertar com algumas mulheres pelas quais passava, mesmo as acompanhadas, mas estava tão fora de si, que não se incomodava com os insultos, ou que não surtisse efeito.
Uma loira muito bonita estava parada próxima ao som, e Olívia seguiu diretamente à ela. Lhe parecia familiar, mas ao mesmo tempo não tinha idéia se realmente a conhecia. Chegou perto o bastante, e se apoiou para falar-lhe ao ouvido.
- Quer sair dessa festa chata comigo? – Tentou usar o seu tom mais sedutor, o que num final de balada poderia até dar certo, mas não ali.
- Olívia, você esta fedendo a álcool. – A mulher respondeu.
- A gente se conhece? – Olívia perguntou intrigada, mas querendo ser sensual.
- Você está mal mesmo. – A loira sorriu. – Não lembra mesmo de mim?
- Você deve estar me confundindo. – Falou bobamente. – Se a gente se conhecesse, eu me lembraria. – Piscou para ela que apenas riu.
- Sou eu, Ligia. Lembra? – A loira sorriu para ela. – Não nos vemos há mais de quinze anos, mas não pensei que você tivesse se esquecido de mim. – Brincou.
- Ligia? Uau! – Olhou-a de cima em baixo. – Você ficou gostosa!
- Eu não sei se agradeço, ou te mando ir pastar. – A loira respondeu divertida. – E eu continuo gostando de homens. – Concluiu.
- Que pena. Mas aposto que uma noite comigo, e você mudaria de idéia. – Já estava começando a achar graça naquela conversa. Ligia fora sua grande amiga na escola, mas assim como todos os outros, também se afastou quando ela se assumiu gay. Era no mínimo um reencontro inusitado.
- Já tive a minha experiência homossexual, e acredite, foi ótima. Mas não o bastante para me fazer mudar de time. – A loira disse com um sorriso maroto, que fez com que se parecesse muito com a menina que Olívia costumava conhecer. – E vamos combinar, neste estado você não vai dar conta.
- Eu dou conta até dormindo. – Olívia provocou.
Ligia apenas riu, e olhou docemente pra ela.
- Ok, já chega. – Guto se aproximou calmamente. – Vem Olie. – Segurou a irmã.
- Guto! – Ela exclamou se jogando nos ombros dele. – Eu estou tão feliz por você. A Marcinha talvez seja a ultima mulher confiável no mundo. Você deu sorte. Eu não confio nem em mim.
- É, eu sei. – Guto falou a apoiando. – Agora vem.
- Tchau Olívia. Bom te ver. – Ligia se despediu com um sorriso.
- Quando quiser uma foda de verdade, me procura. – Olívia piscou para ela, enquanto o irmão a puxava para fora da pista de dança.
Joana secou as lagrimas e lavou o rosto no banheiro adjacente à sala. Arrumou os cabelos, e respirou fundo. Precisava sair dali. Precisava enfrentar o que estivesse pela frente, aí sim poderia embora.
Chegou ao lado de fora do prédio, e viu que a festa continuava animada. Avistou o ex-marido com a namorada e as crianças, e andou até eles. Bela, assim que a viu, correu para os seus braços.
- Mãe! Você me viu dançando? – Pulou em seu colo.
- Não pequena, desculpa. Você dançou bastante? – Disse a apertando em seus braços.
- Dancei. Estou exausta. – a menina falou fazendo cena, o que provocou risos nos adultos.
- Ela estava a mil. – André falou carinhoso.
- Você a leva pra casa? – Joana perguntou.
- Claro. Já estamos indo. Estava só esperando pra falar com você.
- Obrigado Dé. – Joana agradeceu, e se voltou para a filha. – Vai com o papai, e amanhã eu te busco, certo?
- Certo. – Bela lhe deu um beijo no rosto, e foi para junto do Dani.
- Você está bem? – André perguntou a ex-mulher, ao perceber seu rosto vermelho pelo choro.
- Estou. Não se preocupe. – Andou até ele e o abraçou.
Guto carregava Olívia, acompanhado da mãe e de Marina, que assim que viram o estado em que ela se encontrava, o haviam alertado. Por mais triste que Raquel estivesse, sabia que a filha não estava bem, e não a deixaria se expor ainda mais.
Sentia-se tonta, as pernas não obedeciam. Sabia que não andava sozinha. O braço do irmão em volta de sua cintura era o seu epicentro. Deixava-se conduzir, queria que assim fosse pra sempre. Ter alguém que decidisse por ela, que a levasse. Foi neste momento que ergueu a cabeça e avistou Joana a alguns metros, abraçada a um homem. Seu sangue ferveu.
Liberou-se do braço do irmão, que não havia percebido a movimentação, e seguiu em direção a ex-namorada.
- Eu sabia que você não prestava. – Gritou.
Ao ouvir a voz de Olívia, Joana se soltou de André e se deparou com a fúria nos olhos verdes tão amados.
- Você é a razão de tudo que dá errado na minha vida. – Olívia continuou, mesmo que Guto tentasse contê-la.
- Chega Olie. – Ele falou em seu ouvido.
- Não Guto. Ela precisa me ouvir. – Ela continuou.
- André, leva a Bela daqui. – Joana pediu antes de se virar. - Preciso ouvir o que Olívia? – Joana também se enfureceu.
- Você destruiu a minha vida. – A acusou. – Disse que me amava, mas sempre foi mentira, não foi?
- Olívia! Chega. – Raquel disse firme. – Você passou de todos os limites!
- Eu nem comecei. – Se virou para a mãe com ódio. – Todo mundo me culpou por ter levado essa daí pro mau caminho. Ninguém nunca questionou. Vocês não fazem idéia do que eu passei. – As lagrimas embaçavam a sua visão sem que ela permitisse. – Eu queria te dar o mundo, mas você nunca quis. Porque continuar com essa farsa depois de tanto tempo? Eu não posso ser tão burra assim. Você flertou comigo ainda hoje. – Disse magoada. – E agora está aí, de abraços com o seu maridinho. Você não vale nada. É uma piranha mesmo.
André que pedira para Renata levar as crianças para o carro, se empertigou.
- Você não tem o direito de falar assim com ela. – Ele se dirigiu a Olívia.
- Dé... – Joana pediu.
- Esta é a mulher da sua vida? – Ele concluiu, olhando magoado para Joana, que apenas o olhou triste antes de se voltar para Olívia. – Eu te levo pra casa Jo, vem. – Estendeu a mão para a ex-mulher, mas Joana não se moveu. Continuava presa aos olhos verdes que a encaravam deixando extravasar toda a dor que sentia.
Contrariando tudo o que poderiam esperar dela, Joana foi em direção a Olívia, e tocou-lhe o rosto com delicadeza. Ela se deixou tocar, e sem perceber, as lagrimas deixaram os seus olhos, marcando seu rosto. Joana a abraçou, e ela se deixou abraçar, enquanto caía em um choro compulsivo.
- Calma amor. – Joana falava em seu ouvido, voltando a chorar, sentindo o seu amor tão frágil. – Calma. Eu to aqui.
A amparava em seus braços, e Olívia se entregava àquele afago. Não conseguia mais organizar os pensamentos, nem tinha idéia do que estava sentindo naquele momento, a única coisa da qual tinha consciência, era dos braços de Joana em volta do seu corpo, o perfume dela a invadindo, a sensação de ser protegida, e nada mais a volta fazia qualquer sentido, apenas Joana.
- Jo. – Marina chamou. – Eu vou levá-la para o hotel. O Guto vai me dar uma mão.
- Não Nina. –Joana se adiantou ainda abraçada a Olívia. – Eu a levo pra minha casa. Os meninos ainda estão na festa, e não tem porque ninguém mais se envolver. Eu cuido dela. – Disse com firmeza, o que lhe rendeu um sorriso, mesmo que discreto da Marina.
- Eu vou com você. – Raquel se adiantou.
- Não precisa Raquel. – Joana sorriu triste para ela. – É o casamento do seu filho. Fica aqui, e não se preocupe, eu dou noticias. – Se virando para o ex-marido. – Dé, me ajuda a colocá-la no meu carro?
Mesmo contrariado, ele acatou o pedido da ex-mulher, e apoiou Olívia em seu ombro, enquanto Joana a segurou pelo outro lado. Andaram lentamente até o estacionamento sob os olhares preocupados de Guto, Raquel e Marina.
Chegando ao carro de Joana, esta o abriu e ajudou André a colocá-la no banco da frente, e afivelar o cinto. Olívia estava indo e voltando. Não tinha noção exata dos acontecimentos, mas ainda sentia o perfume que a confortava, bastava.
- Você tem certeza de que quer fazer isso, Jo? – André perguntou visivelmente chateado com o ocorrido.
- Tenho. – Ela confirmou. – Isso é problema meu e de mais ninguém.
- Eu não concordo. – André falou serio.
- Eu sei.
André a mirou sério. Estava com uma raiva imensa a lhe corroer. Não sabia se era ciúmes, até porque estava de fato apaixonado pela Renata, mas ver Joana ser carinhosa e protetora com a mulher que havia sido a razão da separação deles, o tirava do sério. Respirou fundo antes de voltar a falar.
- Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, me liga que em dois minutos eu estou lá. – Ele garantiu.
- Obrigado. – Joana o abraçou e entrou no carro.
Ainda se virou para olhá-la, e Olívia estava de olhos fechados. Tão frágil, tão machucada, que Joana sentiu um aperto no peito. Acariciou o seu rosto, e ligou o carro partindo logo em seguida.
"Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me
I don't want to leave her now
You know I believe and how
Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me
I don't want to leave her now
You know I believe and how
You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know
Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me
I don't want to leave her now
You know I believe and how"
Quando já estava anoitecendo, Olívia convenceu Nina a acompanhá-la ao bar do Bola. Guto já havia ligado duas vezes atrás dela e querendo marcar um programa para a noite. Ele era jovem demais quando tudo aconteceu, e como na época, Olívia também, fez de tudo para proteger Joana, mesmo tendo sido deixada por ela, ele nunca soube quem havia sido o seu amor de adolescência, nem a razão para ela ter se assumido. Por tanto, ele também não via mal algum em uma reunião de amigos de longa data.
Por volta das vinte horas, elas chegaram ao bar do Bola. Olívia ficou aliviada ao constatar que seu irmão, a cunhada e a ex-namorada, ainda não haviam chegado. As duas se dirigiram a uma mesa de sinuca no fundo do bar, e Bola chegou trazendo as cervejas e os aperitivos. O bar ainda estava vazio, e Nina correu para escolher a seleção musical. Esta noite, rock anos oitenta. Olívia a encarou e balançou a cabeça. Aquilo não daria certo.
Já estavam na segunda partida, e Olívia estava mais uma vez ganhando, quando viu Joana entrar. Guto parara a porta, para apresentar a namorada ao Bola, e Joana seguiu em direção a Olívia. Marina não precisava perguntar pra saber de quem se tratava, e protetoramente, se posicionou ao lado da amiga.
Joana e Olívia se encararam. E agora, mais lúcida, ela pode ver que aquele momento era tão inusitado e difícil para Joana, quanto era para ela. Sentiu simpatia pela apreensão dela. Havia fugido mais cedo, e provavelmente isso provocara a turbulência que via nos olhos amendoados da morena. Abriu um sorriso sincero e se aproximou.
- Jo, essa aqui é a Nina, minha amiga. – Apresentou Marina, que logo estendeu a mão e com um sorriso cumprimentou Joana.
- Muito prazer! Bom conhecer uma amiga de infância da Olívia. Ela devia ser um terror quando era mais nova.
- Ela transparecia isso, mas na verdade, sempre foi muito doce. – Joana respondeu sorrindo, e olhando dentro dos olhos de Olívia, que certamente não esperava essa resposta.
- Ela é doce. Verdade. – Marina emendou após alguns segundos de silêncio, e segurou a mão da amiga.
Esse gesto não passou despercebido por Joana, que sem graça, mirou Olívia com questionamentos. Esta não percebeu a dúvida que pairou sobre sua antiga paixão, e com o mesmo sorriso com o qual a recebera, ofereceu-se para buscar uma cerveja para ela. Joana concordou e sentou-se a mesa assim que Guto e Marcinha se aproximaram.
- Nina! – Guto gritou entusiasmado, puxando a namorada pela mão. – Ainda bem que você veio. Essa é a Marcinha, minha namorada.
- Finalmente! – Nina exclamou e abraçou a menina. – Guto sempre fala muito em você, mas a verdade, é que nenhum de nós tinha certeza quanto a sua existência.
- Eu também queria muito te conhecer. Guto fala muito bem de você. – Marcinha retribuiu o abraço.
Os três acompanharam Joana, e sentaram-se a mesa. Do balcão, Olívia se pegou admirando a morena. O jeito como ela mexia nos cabelos, jogando os cachos para trás da orelha. O sorriso amplo, branco e luminoso que ela tanto gostava. Os olhos grandes e brilhantes, as mãos com dedos longos, e que agora carregavam anéis e pulseiras. As costas nuas, a pinta no queixo, a boca vermelha, o jeito que ela brincava com as mãos. Percebeu o quanto conhecia aquele corpo, suas reações, seus trejeitos. Joana continuava linda e hipnotizante, mas Olívia não a conhecia de fato. Ficou triste ao perceber que, apesar de lhe ser tão familiar, aquela mulher era um mistério para ela. Não sabia nem como falar com ela, ou como agir diante dela. Respirou fundo, pegou a bandeja com as garrafas e copos de cima do balcão, e se dirigiu à mesa.
- Querendo relembrar os tempos de bartender, Li? – Marina a provocou.
- Pois é. Estou até surpresa como ainda consigo equilibrar uma bandeja nas mãos. – Olívia respondeu enquanto servia a todos. – Mas não vão se acostumando não, que é só hoje.
- Bartender? – Joana perguntou assim que Olívia sentou-se ao seu lado na mesa.
- Sobrevivência. – Olívia respondeu com um sorriso, e seus olhos se encontraram. – Mas isso já faz tempo. Foi logo que eu cheguei ao Rio.
- Então você e a Nina se conhecem há muito tempo! – Joana falou, tentando manter o tom de voz natural e Olívia percebeu, ou achou que havia uma pitada de ciúmes ali. Ou não, logo pensou.
- Sim. Muito tempo. A Nina foi uma das primeiras amigas que eu fiz no Rio. – Disse carinhosa, olhando para a amiga. – E é uma das melhores pessoas que eu já conheci.
- Que bom! Fico feliz por vocês. – Era sincero. Desejava muito bem a ela, e Olívia pode sentir isso.
As duas foram interrompidas pela entrada escandalosa de Theo, que esta noite estava sozinho. Com os cabelos arrepiados, de um castanho para o abóbora, uma camisa lilás e uma calça jeans justa, ele já chegou abraçando o Guto por trás.
- Senti sua falta, amor! – Brincou com ele.
- Também senti a sua, meu bem! – Guto respondeu levantando para dar-lhe um abraço.
- Algo com o que eu deva me preocupar? – Marcinha perguntou em tom de brincadeira.
- Então essa é a minha rival? A mulher que te prende ao mundo hetero?! – Theo puxou Marcinha para um abraço. – Estava morrendo de curiosidade! Mas você é linda! Se eu gostasse de mulher, te roubava dele.
Theo abraçou a todos na mesa e sentou-se ao lado de Olívia. Estava uma pilha. Tinha terminado com o seu caso da semana anterior, e essa noite queria abafar em uma festa no Cine Ideal.
- Pelo amor de Deus, vocês têm que vir comigo! – Se dirigiu a Olívia e Marina.
- De jeito nenhum, bicha! Meu casamento pode estar por um fio, mas eu não vou ser a primeira a pular fora. – Marina se limitou a dizer. E Joana pareceu mais interessada na conversa.
- Please! – Ele se virou para Olívia.
- Theo! O Cine não vai dar. O mesmo povo de sempre, as mesmas cantadas, a mesma música. – Olívia se queixou.
- Olha aqui oh sapatão! Você me abandonou! Há quanto tempo você não sai na noite comigo pra dançar? Você é minha ultima esperança! Meus amigos viados, ou estão namorando, ou foram pra The Week, e você sabe o que eu acho daquele lugar. Só sobrou você!
Theo fez sua cara mais pidona que podia, mas Olívia, mesmo não querendo, estava muito consciente da presença e do olhar de Joana que recaía sobre ela. Não queria de fato ir para o Cine. Tinha cansado da noite gay, e de certa forma, não podia negar que não queria ir embora por causa da Joana. Era arriscado dar vazão a esse interesse, mas ainda se sentia no controle o bastante, e sabia que aquela era uma oportunidade única. A sua curiosidade para saber mais daquela linda mulher, que fora sua primeira e que estava ali ao seu lado, venceu.
- Não vai dar Theozinho. Liga pro Billy. Já está mais do que na hora de vocês dois se acertarem. Fora, que eu vou ser péssima companhia.
- E o que eu vou dizer a todas as suas seguidoras? – Ele fez seu tom mais trágico. – Vou ficar cercado de sapatões desesperadas, querendo saber onde você foi parar. Assim vai perder o posto, amiga.
- Já entreguei o posto há muito tempo, bicha. – Olívia disse, e não teve como controlar o seu olhar, que encontrou uma Joana muito séria, brincando com o copo de cerveja a sua frente.
- Entregou mesmo. Eu nem te reconheço mais. – Guto os intrometeu rindo. – Tinha um orgulho da minha irmã pegadora.
Olívia o repreendeu com o olhar, o que fez com que ele caísse na gargalhada, acompanhado por Marina e Theo. Mais uma vez, se pegou analisando as reações de Joana. Ela estava séria. Procurava disfarçar, mas Olívia achou que ela tinha ficado incomodada com a conversa, e não pode deixar de sentir as borboletas dentro do seu estomago ao constatar isso. Ela estava tão interessada quanto ela em saber quem Olívia havia se tornado.
Marina a encarou percebendo o interesse, e sorriu. Olívia não podia deixar de pensar que para a amiga, vê-la naquela situação, devia ser no mínimo divertido. Ela que nunca se importava com o que os outros pensavam, estava ali, tensa com o tipo de imagem que poderia estar passando para Joana. Percebeu que queria que ela soubesse quem tinha se tornado, mas também queria muito conhecê-la.
Theo deixou-os após fazer alguns telefonemas. Guto e Marcinha conversavam animados com Bola e Tom. Marina discutia com Clarissa ao telefone, e Olívia se viu sozinha com Joana pela primeira vez.
Pensou em várias formas de iniciar uma conversa. Mas uma parecia mais tola que a outra. Se pegou olhando para os cachos que caíam sobre os ombros dela, e bailavam sobre sua pele. Sentiu um desejo quase incontrolável de afastá-los e tomar aquele rosto em suas mãos. Ao invés disso, virou o copo de cerveja, e serviu um pouco mais a ela e a Joana.
- Então... aqui estamos. – Decidiu que não valia a pena fugir mais. Precisava transpor a barreira, e o fez. – Destino ou coincidência?
Joana a encarou, e viu o sorriso sincero estampado no rosto de Olívia.
- Não acredito em coincidências. – Foi a resposta que deu olhando profundamente nos olhos verdes de Olivia. – Fico então com destino. – Completou.
- Me desculpe por ter saído daquele jeito mais cedo de casa, mas o susto foi grande. Fiquei sem ação. – Falou assim que recobrou o ar. A resposta não era a que ela esperava. Na verdade, não a resposta, mas a intensidade do olhar que a acompanhou. A sinceridade transbordava dela. Viu as paredes cederem. Não queria meias verdades, e provavelmente não conseguiria impô-las. Negar que tinha ficado mexida, seria não só mentira, como algo incabível se queria sinceridade de Joana. – Nunca poderia esperar ver você na minha sala.
- Eu também não esperava te encontrar. Nunca poderia imaginar que o Guto, era o Gugu. – Joana sorriu. – O tempo passa rápido demais. Aquele menino pentelho que vivia pedindo para brincar com a gente, virou um homem. E um homem bom. A Marcinha não poderia estar mais apaixonada.
- Fico feliz em ouvir isso. O Guto é louco por ela. E sim, o tempo passa. – Não pode controlar o olhar que lançou para Joana. Havia desejo e uma profundidade quase triste.
Ficaram se encarando, se medindo, tentando obter respostas sem palavras. O silencio não lhes era incômodo, era cheio de perguntas e cumplicidade. Não se conheciam mais, isso era fato, mas se reconheciam.
Marina interrompeu o momento para se despedir. Clarissa havia voltado de viagem e estava em casa esperando para conversar. Olívia viu o temor e a determinação da amiga ao se despedirem. Pediu para que ligasse a qualquer hora se precisasse dela. Acompanhou-a com o olhar preocupado e só se deu conta disso, quando sentiu o toque de Joana, que lhe acariciava o braço. Se assustou com a eletricidade contida em um toque tão desinteressado conseguia provocar.
- Aconteceu alguma coisa? – Viu seu rosto preocupado refletido nos olhos de amêndoa.
- Só preocupada. A Nina esta passando por um momento difícil com a Clarissa. Ela é forte, mas esse tipo de decepção pode derrubá-la. – Só quando completou, percebeu o quanto essa verdade cabia ali.
- Decepção? A namorada dela a traiu?
- Ela não tem certeza. Mas se traiu ou não, não é bem a questão. Ela tem estado distante, e a Nina tem sofrido muito com isso.
Os olhares se cruzaram novamente, e Olívia sentiu o poder que aqueles olhos tinham sobre ela. Estendeu o braço por sobre a mesa, e com a ponta dos dedos, acariciou o braço de Joana. Sentiu o calor na ponta dos dedos, e viu os pêlos do braço dela, se arrepiarem com o contato.
- É confuso, mas bom te ver de novo, Jo. – Falou sem olhar para ela, ainda admirando a reação da pele dela a sua.
- Também acho. – Ela respondeu e virou o braço devagar, deixando claro que estava gostando do carinho. – Eu imaginei muitas vezes como seria te reencontrar. Juro que nunca pensei que seria assim.
As duas riram e Olívia parou de acariciá-la. Pegou a cerveja e bebeu mais um pouco. Joana a acompanhou. Sorrindo maliciosa, Olívia se ajeitou na cadeira, cruzou as pernas em cima dela e encarou Joana.
- Ok. Eu começo. Faculdade?
Joana entendendo a brincadeira de perguntas e respostas, também se virou na cadeira, ficando de frente para Olívia e sorriu.
- Historia.
- Hum! Eu achei que você faria Medicina no final das contas.
- Hey! Sem comentários. Minha vez de fazer a pergunta. – Joana a recriminou pelo comentário.
- Ok. Vai lá! – Olívia se rendeu.
- Além de bar tender, no que mais você já trabalhou?
- Pergunta difícil de responder.
- Eu ainda facilitei. Pode respondendo.
- Ok. Bartender, entregadora de pizza, secretária, organizadora de festas, mas esse durou muito pouco. Idéia louca do Theo pra tentar me ajudar. Vendedora de loja de roupas, de livraria, de sapataria, de papelaria. E eu fazia uns bicos durante a faculdade, escrevendo trabalhos para outras disciplinas de vários cursos. Hoje eu sou professora de português, literatura e redação do ensino médio.
- Você? Professora? – Joana caiu na gargalhada. – Inacreditável. Eu pensei que você não acreditasse nem um pouco no sistema de ensino.
- Eu não acredito. Mas eu faço o meu melhor.
- Juro que por essa eu não esperava.
- Eu imagino que não. –Fez uma pausa. – Eu mudei muito, Jô.
- Estou vendo. – Joana a olhou com admiração. – Eu também dou aulas. Terminei meu mestrado há dois anos, e estou tentando passar no concurso para dar aulas na Federal. Quero embarcar no doutorado ano que vem.
- Uau. Fico muito feliz por você, Jo. Mesmo. Eu jurava que você cederia e iria trabalhar com seu pai no consultório.
- É. Eu entendo porque você pensaria isso. – Joana abaixou a cabeça.
- Desculpa Jô. Não foi minha intenção te julgar, de forma alguma. – Olívia estendeu a mão, e tocou a perna de Joana, fazendo-a olhar para cima e encontrar com seus olhos. – Eu juro que não quis te ofender, ou te magoar. – parou por um instante, temendo o que diria a seguir, mas decidiu deixar fluir como tinha feito até então. – Eu só quero te conhecer. Desde o momento em que eu te vi hoje mais cedo, a curiosidade de saber quem você se tornou, vem me queimando por dentro.
Joana abriu um sorriso tímido, e sobrepôs à mão de Olívia com a sua. Sentiu quando esta virou a palma da mão pra cima, segurou firme a sua mão. Recebeu o carinho dela com o coração batendo forte.
Olívia tinha total consciência de que não sentia isso com mulher nenhuma há muito tempo, e foi mais essa descoberta, do que qualquer outra coisa, que a fez recuar. Tentou soltar a mão, mas Joana foi mais rápida e a segurou mais firme.
- Eu também quero muito te conhecer, Ollie. Eu andei pelo seu quarto hoje, e vendo seus livros, suas coisas, suas roupas, suas fotografias, eu me senti vazia e ao mesmo tempo preenchida, entende? Hoje foi quase como entrar numa máquina do tempo, e a verdade é que a minha vontade era voltar até nossa ultima conversa só pra poder fazer diferente. – Com os olhos marejados, Joana admitiu o que estava sentindo. Um pouco envergonhada, olhou para as mãos entrelaçadas, enquanto Olívia tentava absorver o que ela tinha dito. – Eu me culpo até hoje pela forma como lidei com a situação naquela época. A dor que eu sofri e a dor que eu sei que causei em você, me apertam o peito até hoje.
Olívia sentiu o ar lhe faltar mais uma vez naquela noite. Não sabia se agüentaria as emoções exacerbadas e a flor da pele que aquela mulher era capaz de provocar nela. Sentiu queimar no peito o amor que por tanto tempo buscou enterrar. Não sabia se era reflexo ou se era real, só sabia que o sentia arder dentro dela.
Podia ver nos olhos de Joana a confusão que a acometia. Queria abraçá-la. Segura-la bem firme em seus braços e dizer que ficaria tudo bem, como fez tantas vezes no passado. Queria sentir o cheiro que a deixava tonta ao respirar em seu pescoço. Queria saber se o sabor dos lábios, ainda era o mesmo que recordava.
Tentou e com muito esforço, conseguiu voltar ao momento presente. Viu seu irmão espiar para elas de longe e acenar enquanto deixava o bar acompanhado de Marcinha, que parecia não perceber o clima entre as duas.
- Temos que ir. O Bola daqui a pouco vai fechar o bar. – Olívia interrompeu os pensamentos de Joana que pareciam longínquos.
- Tudo bem. Vamos. – Joana se levantou em um movimento único e pegou a bolsa que estava pendurada nas costas da cadeira.
Se despediram do Bola prometendo voltar no dia seguinte para o almoço, e encontraram o Guto e a Marcinha do lado de fora conversando com o Tom. Olívia percebeu o olhar de Guto. Ele não disse nada no caminho de volta, mas ela tinha certeza de que ele havia percebido alguma coisa. O Guto a conhecia muito bem, mas estava procurando ser discreto, o que não era um dos seus pontos fortes.
Assim que chegaram a casa, Marcinha foi direto para o quarto deitar se despedindo de Joana e Olívia. Guto seguiu a irmã até o quarto, quando esta foi pegar uma roupa de cama para Joana dormir, e fechou a porta a suas costas.
- Pode começar a falar. O que tá pegando entre você e a Jo? – Ele foi direto ao ponto.
- Não tem nada pegando. Só estávamos colocando a conversa em dia. – Ela respondeu sem olhar para ele, ainda separando os lençóis da ultima gaveta da cômoda.
- Ollie! Eu não sou idiota. É a Jo, não é?! – Ele a virou para ele. – É ela a menina que você namorou no colégio, e que fez você se assumir e sair de casa.
Ele afirmava. Ele sabia. Olívia olhou dentro dos olhos tão verdes quanto os seus, e não teve coragem de mentir. Ela e Guto haviam estabelecido uma relação muito forte de confiança. Ele era a sua única família, na verdade. Merecia a verdade. Ela balançou a cabeça afirmativamente.
- Uau! – Foi só o que ele conseguiu dizer. – Inacreditável!
- É. Mas não fala nada pra Marcinha. Eu não sei se a Jô já contou qualquer coisa a ela, é muito provável que não.
- Ok. Eu não falo nada. Mas você deveria ter me dito isso hoje mais cedo. Eu não entendi nada da sua reação quando a viu. E muito menos porque você saiu daquele jeito de casa.
- Eu sei. Mas eu estava em choque ainda, ok?! Desculpa.
- Tudo bem. – Guto a puxou para um abraço. – Só quero que você saiba que eu to aqui. Precisando, é só chamar.
- Valeu mano. Mas eu estou bem. Relaxa e vai deitar. – Deu um beijo no rosto dele e o encaminhou até porta.
Guto desejou boa noite para Joana e se fechou no quarto com Marcinha. Olívia foi até o colchão do lado esquerdo da sala, e começou a arrumar a cama para ela dormir. Percebendo o que ela estava fazendo, Joana a ajudou.
Olívia estava pronta para ir deitar, quando Joana segurou seu braço. Se virou para ela, e pressentiu, antes que de fato acontecesse. Ela lhe abraçou forte, se aninhando em seu peito. O contato do corpo dela no seu, fez subir uma descarga elétrica por toda a sua coluna, deixando seu corpo formigando da cabeça aos pés.
A pressionou contra o seu peito e deslizou a mão pelas costas dela. Sentia o seu coração bater forte, assim como o dela, até não ter mais certeza de qual batida era sua, e qual era dela. No ritmo da respiração acelerada, encostou seu rosto nos cabelos dela e sentiu o cheiro que tanto ansiava. Joana mergulhou o rosto em seu pescoço, e Olívia recebeu os lábios doces e molhados na sua pele. O arrepio que sentiu percorrer seu corpo, a fez puxar Joana ainda mais pra perto.
Sem palavras, seus corpos assumiram o controle. Joana passava a língua devagar pelo pescoço de Olívia, descendo até seu colo. Olívia puxou o rosto dela para cima e encarou aqueles olhos amendoados que brilhavam de desejo, um desejo tão grande quanto o dela. Foi com delicadeza e urgência, que colou seus lábios nos dela. Sentiu a maciez e a doçura que tanto ansiara.
Joana abriu os lábios para que a língua de Olívia entrasse, invadisse. Com uma mão segurava os cabelos cacheados, com a outra desceu até os seios, e ficou feliz ao perceber que ainda cabiam na palma da sua mão. Joana a puxava pela cintura, e fez seu caminho até as nádegas, apertando-as primeiro de leve, para depois segura-las firmemente.
Pararam o beijo somente para buscar ar, e Olívia se satisfez com o gemido de prazer que saiu dos lábios de Joana quando a tocou entre as pernas por cima da calça jeans. Voltou a sorver dos seus lábios, enquanto sua mão percorria o sexo dela com a precisão de quem sabe onde tocar. Joana segurou o rosto dela e puxando seu ouvido até a boca, falou baixinho:
- Quero te sentir.
Olívia a soltou, e puxando-a pela mão, a conduziu até seu quarto. Joana parou no meio do cômodo, e Olívia avançou, tirando-lhe a blusa e sentindo a pele quente e macia com seus dedos. Logo as roupas estavam espalhadas pelo chão, e ainda abraçadas, caíram no colchão de casal.
Não conseguia nem ao menos raciocinar. Talvez se tivesse pensado antes, não estaria com o corpo lindo e bem feito de Joana, sob o seu. Mas tudo o que Olívia conseguia pensar, era em quanto a desejava. Beijando, mordendo, lambendo todo o corpo dela, chegou ao lugar que precisava revisitar. Quente, molhado, pulsante. Com os dedos a abriu, com a língua a sentiu. Joana gemeu baixinho, e Olívia explorou, sentindo cada pulsação na ponta da língua, sendo encorajada pelos gemidos abafados que Joana tentava em vão, controlar.
A penetrou. E de tão molhada que ela estava, entrou com facilidade. Entrou e saiu, sentindo-a se abrir ainda mais para ela. Parou de beijá-la, para poder olhar para o rosto contorcido de prazer da mulher que tanto amou. Voltou a chupar com ainda mais vontade, sentindo o clitóris crescer na sua boca, e ditou o ritmo da penetração, pela respiração ofegante de Joana.
Sentiu o corpo sob o seu estremecer e se entregar. Sentiu o gozo escorrer por seus dedos e dele bebeu. Joana a puxou para cima dela. Abraçadas, a respiração regularizando aos poucos, Olívia sentiu uma lagrima escorrer pelo rosto que ela delicadamente beijava. Afastou os lábios e olhou para aquele rosto tão perfeito. Não via dor. O brilho dos seus olhos indicava prazer. Beijou seus olhos, e secou as lagrimas dela com seus lábios.
- Arrependida? – Olívia externou o pensamento que a perturbava em uma voz rouca.
- Não. Feliz, talvez. Confusa. Triste. – Joana soltou as palavras, sem saber definir ao certo o que sentia. – Uma sensação estranha de que o tempo parou no momento em que fui mais feliz.
Puxou o rosto de Olívia, e beijou-lhe os lábios. Um beijo que começou suave, cheio de significados, repleto de carinho e saudade. Uma saudade que chegava a doer. Joana forçou a sua língua para ir de encontro à língua dela. O beijo cresceu, e com ele a excitação que ambas sentiam. Girando-a na cama, Joana se colocou por cima de Olívia. Esta, por sua vez, se espantou e se deliciou com a atitude dela. Nenhuma mulher, com raras exceções, tinha coragem de tomá-la na cama. Ela comandava sempre. Mas com Joana, ela estava entregue. Sentia um desejo tão intenso, que achava que não teria fim nunca. Sentiu os lábios de Joana percorrerem o seu corpo, sua língua circular seu mamilo, deixando-o duro, passar por sua barriga, na sua virilha. Sentiu quando se apoderou do seu sexo, lambendo devagar, tomando conhecimento da sua intimidade, sentiu também os dedos tatearem a entrada.
Olívia dificilmente permitia que a penetrassem. Tinha medo dessa entrega. Preferia dar prazer e sentia prazer dessa forma, mas deixar que a tomassem assim era muito difícil para ela. Mas ali, naquele momento, com Joana a reivindicando, se deliciando com seu gosto, sua textura. Abriu-se. Sentiu-a entrar, invadir. E gemeu. Sua respiração tornando-se mais ofegante a cada estocada, a excitação lhe provocando tremores a cada movimento da língua que a deflorava.
Pode sentir o gozo vindo. Sentiu o ápice próximo. Sussurrou em meio à respiração: “vou gozar”. Joana intensificou os movimentos e Olívia gozou como há muito tempo não fazia. Sentiu os espasmos tomarem conta do seu corpo, sentiu seu gozo escorrer e Joana sugá-lo com vontade. Olhou para aquela mulher em meio as suas pernas e sentiu que poderia gozar de novo só pelo prazer dessa visão.
Puxou Joana para si, agarrou-a com voracidade, e sem pedir licença, sentindo-a encharcada novamente, a penetrou. Não controlavam mais os gemidos. O prazer que sentiam pelo corpo uma da outra era forte demais. Beijos e gemidos, e toques e suor, e gozo, tudo misturado. Os corpos deslizando no contato contínuo e cada vez mais intenso. Olívia sentiu que chegaria ao ápice mais uma vez, e sentiu Joana tremer de baixo dela. Gozaram juntas, e abraçadas permaneceram sentindo a respiração acelerada e os corações que batiam a um só compasso. Os corpos juntos, se movendo, se sentindo.
Olívia não se lembrava da ultima vez em que se sentira tão completa ao lado de outra pessoa. Sentiu excitação e medo. Não planejara aquilo. Não esperava que fazer amor com Joana fosse ainda melhor e mais incrível do que ela lembrava. Teve certeza ali de que pertencia a ela e vice e versa. O temor tomou conta dela. Aquela entrega a apavorava. As sensações eram novas e velhas ao mesmo tempo. A primeira a lhe despertar, e talvez a única que de fato o fez, estava em seus braços novamente.
Se ergueu lentamente e pegou um cigarro no bolso de trás da calça jeans que estava no chão. Sentou-se próxima a janela, e o acendeu. Ficou olhando Joana dormir. Um sono leve, seu peito se elevava e contraia em uma coreografia ensaiada. Quantas vezes ficara deitada vendo-a dormir? Quantas vezes sonhara com aquele momento?
Apagou o cigarro e voltou para a cama. Assim que deitou, Joana se aconchegou a ela, e baixinho disse:
- Amo você, Ollie. – E voltou a dormir, deixando Olívia em êxtase e pavor.
Olívia a abraçou forte, e nos braços de seu primeiro amor, deixou o corpo relaxar. Dormiram juntas. E seus corpos se encaixavam perfeitamente, como sempre foi.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
CAPÍTULO 5 - Déjà vu
A manhã sempre trás novas sensações, e a mágica da noite, se quebra com o nascer do sol.
Olívia despertou assustada. Sentiu o sol que entrava cegar-lhe os olhos. O perfume inebriante de Joana tomava conta de todo o quarto, mas era mais forte ali, nos lençóis. Olívia se viu nua e sozinha na cama. Não a tinha visto levantar, e um aperto no peito, a fez sentar. Viu que sua roupa estava dobrada sobre a cadeira, mas era só.
Vestiu uma camiseta e uma bermuda e deixou o quarto. Na sala, também estava tudo arrumado. Nem sinal dos lençóis que cobriam o colchão inutilizado na noite anterior. A porta do quarto do Guto, ainda estava fechada, os dois deviam estar dormindo. Dirigiu-se ao banheiro, e ouviu o barulho do chuveiro. Não se conteve, e entrou.
Joana estava de baixo da água morna, e aquela visão era de tirar o fôlego. Joana ouviu quando a porta se abriu, e sorriu para a mulher com os cabelos bagunçados a sua frente. Olívia trancou a porta a suas costas, e andou até o box tirando a roupa, sem desgrudar os olhos verdes, dos de amêndoa.
Se apoderou do corpo molhado e quente da mulher que a fizera se reencontrar na noite anterior. Joana beijou-lhe, e sentindo a língua dela na sua, e o corpo dela no seu, a encostou na parede. Sem desgrudarem os lábios, Joana levantou a perna direita e enlaçou Olívia pela cintura. Sentindo o que ela queria, Olívia a penetrou. Começando devagar, mas logo aumentando o ritmo, de acordo com a excitação que sentiam. Não disseram nada, apenas sentiram uma a outra.
O gozo, misturado à água quente que caía sobre as costas, escorreu pelos seus dedos. Com as pernas bambas, Joana se segurou mais forte no pescoço de Olívia, que delicadamente beijava seu rosto.
Assim que se sentiu mais firme, Joana inverteu as posições, e foi a vez de Olívia se abrir para que ela entrasse. Nem tentou resistir. Joana lhe beijava e esfregava o seu corpo no dela com vontade e desejo. Sentiu assim que ela entrou, e ofegou de prazer. Ainda com seu corpo colado ao de Olívia, Joana se apoderava dela. Beijou-lhe a boca, e desta passou ao pescoço, se deteve um tempo nos seios pequenos e duros, impulsionada pelos gemidos roucos daquela mulher. Desceu com sua língua percorrendo todo o corpo de Olívia, até encontrar o seu sexo encharcado. A beijou devagar, e sugou, e passou a língua por toda extensão, sem tirar seus dedos de dentro dela.
Se apoiando com uma mão na parede, e a outra sobre a cabeça de Joana, Olívia sentia o seu corpo vibrar. Percebendo o seu desespero, Joana intensificou o movimento dos dedos e da língua, até sentir o corpo tremer e ceder, com o liquido quente que ela logo tratou de sorver.
Ergueu-se e tomou Olívia nos braços. Ficaram um tempo assim, abraçadas, encaixadas, e Olívia podia sentir o sexo de Joana molhado na sua coxa. Quente. Precisava senti-lo. A deitou no chão do pequeno box, e se posicionou entre suas pernas com um sorriso safado, cheio de desejo. Foi de encontro ao seu clitóris, já o sentindo grande e pulsante, e o tomou para si. Joana não demorou a gozar novamente.
Olívia deixou o banheiro, enrolada em uma toalha e correu para o quarto. Odiava ter que se esconder, mas de certa forma, tinha a sensação de estar fazendo algo muito errado. Sabia, bem no seu intimo, que estava arriscando demais seu coração, se envolvendo novamente com Joana. Não poderia nunca olhar para ela como uma mulher qualquer que tivesse acabado de conhecer. Sempre haveria um peso, uma historia por trás. E uma historia que nem sempre foi feliz.
Voltou para a sala, e Joana havia preparado um café da manhã para elas. Olívia achou engraçado, já que quase nunca comia em casa. Durante a semana estava sempre correndo, e nos finais de semana, ela e Guto pediam alguma coisa, ou saiam para comer fora.
- Onde você arrumou essas coisas? Nessa casa nunca tem nada! – Olívia exclamou assim que entrou no cômodo e viu a pequena mesa de centro arrumada, com pães, manteiga, queijos, frios, geléia, café e leite.
- Eu fui ao supermercado ontem com os dois. – Apontou para o quarto ainda fechado. - Tive que convencer o Guto, porque aparentemente, vocês não se alimentam em casa.
- Não mesmo! Eu passo o dia trabalhando e ele também. Quando estamos em casa, pedimos pizza. Basicamente é isso.
- Bom, eu preciso tomar café da manha antes de qualquer coisa na vida.
- Hei, eu não estou reclamando! Estava louca de fome! – Olívia sentou-se no chão de frente para ela.
- Larica pós sexo! – Joana falou com um sorriso no rosto.
Dividiram um sorriso cúmplice e cheio de significados. Olívia percebeu então, que a noite anterior, havia sido tão forte para Joana, quando foi para ela. Talvez não o mesmo nível de intensidade, ou o mesmo sentimento de pertencer que ela havia provado, mas não foi só uma experiência. Ainda tinha medos e reservas, pois sentia seu coração se entregar sem ter certeza, sem nem ao menos querer, mas era um alivio ver naqueles olhos, certa entrega também.
Tudo nela era novo e conhecido ao mesmo tempo. Olívia se pegou admirando o jeito dela de mexer no cabelo enquanto contava uma historia. O sorriso fácil que se abria iluminando seu rosto, as mãos delicadas e ágeis. As pausas na fala, a risada gostosa. Sentia o peito inflar com o perfume que exalava. Não queria estar se sentindo assim, mas também não tinha qualquer controle sobre isso.
- O que foi? – Joana interrompeu a historia que estava contando sobre seu irmão mais velho, ao perceber o olhar de Olívia.
- Nada. – Olívia sorriu sem graça. – Estava te olhando.
- Gosto do seu olhar, Ollie. – Se aproximou de Olívia. – Gosto do seu cheiro, do seu toque. Se aproximou ainda mais e falou baixinho no ouvido. – Do seu corpo. Da sua voz, seu gosto.
Olívia a puxou e beijou. Pressionou seu corpo contra o dela, e sentiu o calor lhe subir por entre as pernas. Já estava com a mão direita por dentro da calça dela, quando o barulho vindo do quarto em frente, as separou. Joana voltou para o outro lado da mesa, e as duas tentaram regularizar a respiração.
Guto saiu do quarto com os cabelos em pé a cara inchada. Acenou para as duas e entrou no banheiro. Joana olhou para Olívia, já prendendo o riso, e foi o que bastou para as duas caírem na gargalhada.
- Eu tenho que tomar cuidado quando estou perto de você – Olívia falou e bebeu um gole de suco. – Você é um perigo.
- O que vamos fazer hoje? – Joana perguntou erguendo uma sobrancelha e ignorando o comentário de Olívia.
- Você que manda. Eu posso pedir o Adoníades emprestado pro Bola hoje de novo, e podemos passear.
- Adoníades?
- O fusca dele.
- Ok. Podemos fazer isso.
- Só nós? – Olívia perguntou um pouco insegura.
- Só nós. Além do mais, aqueles dois devem ter planos para hoje.
- Provavelmente. Só nós então. – Olívia sorriu e recebeu o sorriso mais lindo do mundo de volta.
Guto e Marcinha estavam só sorrisos durante o café da manhã. Mesmo já tendo comido, as meninas ficaram na sala com eles. Guto olhava de uma pra outra, tentando identificar o que os sorrisos delas denunciavam, mas não fez nenhuma pergunta ou insinuação. Ele sabia ser discreto quando queria. Ou ao menos estava tentando ao maximo.
- Eu hoje quero passear! – Marcinha falou, já fazendo cara de cachorro sem dono para o namorado. – Tem muito tempo que eu não venho ao Rio, e quero tudo o que tenho direito. Corcovado, Jardim Botânico, praia...
- O que você quiser amor! – Guto respondeu romântico, e beijando de leve a namorada.
Olívia ficava feliz em ver o irmão tão apaixonado. Estava começando a compreender a fascinação dele por aquela menina, que apesar de bonita, não chamava muita atenção. Marcinha era simplesmente cativante. Tinha uma energia positiva e a transmitia. Era animada, engraçada, divertida. Guto havia acertado em cheio.
- E vocês? Vão fazer o que hoje? – Guto quis saber.
Ela poderia ter fuzilado ele com os olhos. Incluí-las no mesmo pacote, era quase declarar a relação das duas na frente da namorada, que aparentemente, de nada sabia sobre o passado delas.
Mas Joana foi mais rápida, e Olívia se surpreendeu quando a morena, calmamente respondeu:
- Vamos passear também. Mas eu não quero dar uma de turista como a Marcinha. Já conheço esse lado do Rio. A Ollie vai me levar a outros lugares, certo?
- Certo. – Olívia respondeu com um sorriso e um olhar que responderam a todas as perguntas do Guto, porque na mesma hora ele abriu um sorriso que Olívia conhecia bem.
- Ok então! – Exclamou Marcinha, já levantando do chão. – Vou me arrumar. Quero aproveitar bem o dia.
Assim que Marcinha entrou no banheiro, Guto se virou para as duas lindas e radiantes mulheres a sua frente.
- Ela já pode saber? – Foi a primeira coisa que ele disse. Se ele sabia ser discreto, sabia também ser extremamente direto.
Olívia fechou a cara para a indiscrição do irmão, mas mais uma vez Joana a surpreendeu assumindo controle da situação.
- Pode. Mas eu quero contar. – Joana se prontificou. – Mais tarde, pode ser?
- Fechado. – Guto apertou a mão de Joana e saiu da sala com um sorrisinho no rosto.
***
Às duas da tarde, Joana estava sentada no banco do carona, admirando Olívia conduzir o velho Adoníades pelas ruas da cidade. Haviam saído de casa antes de Guto e Marcinha, que aparentemente, tivera a mesma idéia da irmã, ao entrar no banheiro enquanto a namorada tomava banho. Olívia seguia rumo a Zona Sul, passaram pelo túnel e no radio, que milagrosamente ainda funcionava, podiam ouvir os acordes finais de “Desafinado” de Tom Jobim.
Não falavam muito, apenas amenidades. Incentivada por Joana, Olívia falava do trabalho e dos alunos. Gostava de entrar neste assunto. Tinha orgulho e prazer em sua voz, e Joana podia sentir isso fluir em cada palavra. Era incrível para ela ouvir aquela voz rouca. Aquela melodia que embalara sua adolescência. Estava ainda mais bonita e sedutora. Os cabelos desalinhados sobre os olhos, também faziam parte da figura por quem ela havia sido tão apaixonada um dia. Magra, longilínea, ainda curvava os ombros pra frente e abaixava a cabeça quando a olhava profundamente.
Joana sabia, tinha consciência de que as suas atitudes estavam sendo impulsivas. Do momento em que vira Olívia sair do quarto, um pouco despenteada, a cara de quem tinha dormido pouco, e a surpresa com a qual lhe fitou, todo o seu preparo para reencontrá-la lhe pareceu infantil e fraco. Assim que se deparara com Guto na rodoviária e soube que iria para a casa que ele dividia com a irmã, tentou de todas as formas se sentir forte e firme para o inevitável. Iria rever sua ex-namorada, alguém em quem seu pensamento ainda se refugiava, mas com quem nunca sonhara estar novamente. Em momento algum pensou que rever Olívia teria tamanho impacto em seu interior.
A atração foi imediata. O coração bombeava tão rápido, que o sangue parecia querer fugir das suas veias. Sentiu a umidade entre as pernas, no momento em que sua pele dourada, tocou a pele clara de Olívia. Usou todo o seu lado racional para afugentar tais sentimentos e sensações, mas estar perto de Olívia a fazia perder toda a razão. Percebeu o quanto a queria, quando no bar, achou que Nina fosse namorada dela. Sentiu ciúme, posse. Olívia havia sido sua muito antes e ela dela. Não resistiu. A queria demais.
Os pensamentos voltaram para o presente momento, quando o carro parou em uma rua arborizada do Jardim Botânico em frente a uma casa grande e envidraçada. Olívia desligou o motor e olhou para Joana.
- O quanto você é contra a invasão de propriedade privada? – Perguntou com um sorrisinho bailando nos lábios.
- Depende de quais as chances de eu ser presa por isso. – Respondeu desconfiada.
- Hum. Quase nulas. Eu conheço os donos, mas eles estão viajando e eu não tenho a chave.
- E como, exatamente, você planeja entrar? – Joana perguntou olhando o muro alto e repleto de hera.
- Você vai ter que confiar em mim. – Disse abrindo ainda mais o sorriso, e segurando a mão de Joana na sua.
Como um simples toque era capaz de provocar tamanho arrepio? Olívia estava tentando se acostumar com a sensação da pele de Joana, mas não era algo natural. Não conseguia toca-la de forma totalmente displicente. Até porque sentia o corpo da outra responder ao seu toque de forma quente.
Saíram do carro e pararam em frente ao muro.
- Vamos tentar fazer isso rápido. Não seria nada bom se um vizinho visse e chamasse a policia. Muitas horas pra explicar, e acabaria com a minha programação do dia.
Joana adorou ouvir isso. Olívia então tinha pensado em uma programação? Por mais natural que tentassem agir uma com a outra, ainda estavam tentando antecipar movimentos, perceber intenções em cada gesto ou palavra. Se mediam como oponentes antes de uma luta.
Seguiram pela lateral do muro, e Olívia encontrou a brecha que procurava. Ela e Danilo, seu amigo de faculdade, haviam invadido mais de uma vez aquela casa. Renato, o dono, era um escritor que dera um curso para eles, e de quem acabaram ficando amigos. Quer dizer, ela ficou amiga, enquanto Danilo começou um romance com o escritor. Já estavam juntos há mais de três anos, mas antes disso se concretizar, toda a vez que brigavam, Olívia ajudava Danilo com seus planos mirabolantes para reconquistá-lo. O que algumas vezes, culminou com os dois correndo dos cachorros de guarda da casa quando pulavam o muro. Assim que Danilo se mudou para lá, os cachorros foram para uma fazenda no interior do Estado.
Subiu na primeira pedra, e estendeu a mão para Joana, que já se arrependia de ter aceitado aquela loucura, mas que ao mesmo tempo, sentia prazer em estar em companhia da Olívia invadindo uma casa. Também não era a primeira vez delas.
Subiram para a outra pedra, e escalaram o restante do muro. Como Olívia bem sabia, o difícil não era subir e sim descer pelo outro lado. Advertindo Joana do perigo, passou o corpo para o lado de dentro do muro, e se segurando nas pontas dos dedos, deixou o corpo cair na grama fofa.
- Você acha mesmo que eu vou pular daqui de cima? – Joana falou olhando para Olívia já de pé do outro lado.
- Larga de ser medrosa. Se solta que eu te seguro.
- Até parece. Você pode até ser mais alta, mas é fraquinha! – Joana a provocou.
- Desce até aqui que eu te mostro quem é fraquinha. – E lançou um olhar que parecia queimar Joana por dentro.
Se segurando na beirada do muro, respirou fundo, e de olhos fechados, deixou o corpo cair.
Olívia realmente tentou segura-la, pois acabaram caindo juntas na grama rindo. Joana ainda estava por cima, e só de sentir aquele corpo debaixo do dela, já sentiu o fogo subir-lhe por entre as pernas.
- Falei que você não me agüentava. – o tom de voz era sedutor, assim como o olhar.
Se virando rapidamente, Olívia inverteu as posições, e prendeu os braços de Joana acima da cabeça, sentando-se por sobre a cintura dela.
- Não me provoca! – Disse aproximando seus lábios dos dela. – Que eu não resisto.
Sentindo o hálito próximo ao rosto, a lhe fazer cócegas e deixa-la toda arrepiada, Joana sussurrou:
- E quem disse que eu quero que você resista.
Os lábios de Olívia se prenderam aos dela com urgência. Mas não permitiu que Joana se soltasse. Segurava seus braços com força, enquanto descia com lábios e língua para o pescoço dela.
- Você não faz idéia, faz? – Olívia se aproximou do ouvido dela, provocando mais arrepios. – Do tesão que eu sinto por você.
E introduziu a sua língua no ouvido dela, sentindo o corpo todo, sob o seu, tremer. Percorreu mais uma vez o pescoço que se oferecia, e lambeu, chupou e mordeu, arrancando gemidos de Joana.
- Isso não fazia parte dos meus planos. – Sussurrou, enquanto encaixava a sua coxa no meio das pernas dela, e movia o seu corpo contra o dela. – Mas com você, eu perco a cabeça. – E mantendo a mão esquerda no alto, segurando os braços de Joana, que não mais resistia, desceu a mão direita pelo corpo escultural, se aproveitando de cada curva, oras segurando com força, outras delicadamente, causando arrepios pela pele da morena.
Desceu pela perna, passou pela bunda, e voltou pelo meio das coxas, somente para encontrar o sexo quente por cima da calça. Joana ofegou, e Olívia com agilidade, abriu o botão da calça jeans e enfiou a mão por dentro da calcinha.
O sexo molhado de Joana fez com que Olívia soltasse um gemido contra os lábios dela. Se deliciou com aquela umidade, antes de inserir seus dedos, e gemer junto com ela.
Joana jogou a cabeça pra trás, uma entrega. Nunca se sentira assim, tão entregue, com um desejo tão latente, como aquele que sentia na presença de Olívia. Nem mesmo quando a conheceu, anos antes, esse desejo era tão forte e pulsante.
Olhou para aquela mulher linda, com os cabelos desalinhados caindo sobre os olhos, a boca vermelha, e os profundos olhos verdes, ardendo com os dela. Sentiu os dedos abeis aumentarem o movimento, e como os braços ainda estavam presos, levou a boca de encontro ao ombro de Olívia e a mordeu antes sentir o corpo se entregar mais uma vez, em um gozo longo.
Sentindo os dedos presos dentro dela, naquele sexo que pulsava em torno deles, Olívia abriu os olhos, para ver o lindo rosto de Joana se contorcendo de prazer. Mais linda do que ela lembrava. E com um nó na garganta, e uma dor no peito, retirou sua mão de dentro dela, das calças e levantou em um movimento rápido.
Quando sentiu o peso deixar o seu corpo mole sobre a grama, Joana levantou os olhos e se assustou. Olívia estava distante e apavorada. Reunindo forças, que não sabia de onde tirar, se ergueu também.
- O que foi? – Perguntou se aproximando e vendo Olívia dar um passo para trás.
- Nada. – respondeu rapidamente, enquanto por dentro sentia um turbilhão de emoções.
A primeira reação de Joana foi querer se aproximar e toma-la nos braços. Mas sentiu mais do que pode ver a dor que transpassava os olhos de Olívia. Sabia que este momento chegaria. Sabia que teria que encarar o sofrimento que ela própria causou na mulher que tanto amou, e que na noite anterior, fez ascender nela outra vez a mesma paixão. Queria fugir, mas não podia. Devia e muito este momento a Olívia. E seria ainda pior do que antecipara, pois vira nos olhos dela a entrega que sentia.
- Ollie... – Esperou os olhos dela se erguerem e encontrarem os seus. – Arrependida? – Repetiu a pergunta que ela havia feito para Joana na noite anterior depois de fazerem amor.
Olívia voltou a sentir as extremidades do corpo, e a pergunta naquela voz doce, a despertou. Respirou fundo, e juntando todas as forças que conquistara nos últimos anos de vida, sorriu. Um sorriso triste, mas tão pacifico que em nada revelava o quanto estava mexida.
- Não. – Ampliou o sorriso. – Desculpa por antes. Dejavu. – Falou brincando, e Joana soube muito bem em que lembrança ela havia se perdido.
Era ultimo dia das férias de verão. Olívia e Joana estavam a dois meses namorando. Nenhum dos seus amigos entendia porque elas estavam ainda mais grudadas e nem porque quase nunca compareciam as festas americanas ou as idas a piscina do clube. Elas não se importavam. Estavam apaixonadas, e queriam passar cada segundo que podiam juntas.
Em uma tarde particularmente quente, Olívia estava deitada no chão do quarto, enquanto Joana arrumava a cama e as roupas espalhadas. Tinham dormido juntas, mas a cama no chão era o disfarce que precisavam.
- Tédio. E ta muito quente. – Olívia resmungou.
- Se você levantasse a bunda do chão, e me ajudasse a deixar o quarto em ordem, poderíamos ainda pegar uma piscina no clube. – Fingiu estar brava, mas no fundo gostava daquele jeitinho rebelde e meio moleque dela.
- Não quero ir pro clube. – Disse Olívia levantando. – Lá eu não posso fazer isso. –falou enquanto puxava Joana, e a beijava.
Mesmo sem querer, Joana deixou-se beijar. Não resistia a Olívia. Ainda achava errado o que estavam fazendo, mas não conseguia evitar, estava irremediavelmente apaixonada por sua melhor amiga.
- Então vamos pra outro lugar. Só não quero ficar aqui, e esperar a minha mãe chegar das compras cheia de insinuações e implicâncias. – Falou se soltando dos braços de Olívia.
- Certo.
Dito isso, Olívia se empenhou em ajudá-la, e logo estavam deixando a casa, vestindo somente short e camiseta e sandálias nos pés.
Pegaram um ônibus, e depois andaram alguns quilômetros até uma cachoeira. Joana nunca sabia como Olívia conhecia esses lugares, mas sempre a seguia. Tiraram as roupas e entraram de biquínis no pequeno lago que se formava em meio às pedras.
Se refrescaram, riram brincaram e se provocaram. Olívia nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida. Olhava para Joana e não acreditava que fosse capaz de amar tanto alguém como a amava. A admirou enquanto ela deixava a cachoeira para se estirar no gramado de baixo do sol quente. Não resistindo, saiu da água e deitou por cima dela.
- Ta me molhando toda e assim não consigo pegar sol. – Joana fingiu estar irritada.
- Veja pelo lado bom, vai ficar com uma marca gigantesca, do meu tamanho, no seu corpo. Como deve ser. – Olívia provocou beijando-lhe o pescoço nu.
- Você já esta marcada em mim. – Foi o que respondeu em um suspiro, com suas mãos arranhando as costas de Olívia.
Feliz e excitada ao ouvir essa declaração, Olívia começou a se movimentar em cima dela, a tocando entre as pernas, e se deliciando com o gemido provocado. Enfiou a mão esquerda em meio aos cabelos dela e desceu pela nuca, desfazendo o laço do biquíni. Rapidamente, sua língua já circulava o mamilo rígido e pequeno. O lambeu e encaixou em sua boca, sorvendo dele, e ouvindo Joana gemer ainda mais alto.
Com a mão direita, afastou a parte debaixo do biquíni, e tocou o sexo molhado que Joana tratou de oferecer, abrindo as pernas para ela entrar. Olívia introduziu o dedo, primeiro devagar, sentindo ela se fechar sobre ele e se abrir ainda mais. Acelerou o contato e Joana a puxou para um beijo cheio de paixão.
Retirou o dedo de dentro dela, e se concentrou em excitá-la, movendo a mão por todo o seu sexo, até se concentrar num só ponto. Joana se contorcia e gemia, e Olívia estava maravilhada com o prazer que sentia ao vê-la assim, tão entregue, tão menina e ao mesmo tempo, tão mulher.
Joana mordeu o lábio, e jogou a cabeça pra trás pedindo:
- Entra. Quero sentir você em mim...
No que foi prontamente atendida por Olívia, que não poderia estar mais excitada. Aumentou a velocidade do movimento ao sentir o corpo de Joana tremer, e só parou quando com um grito e um gemido, os espasmos tomaram conta dela.
Deixou-se ficar sobre ela, e Joana lhe acariciou o rosto e as costas. Depois puxou-a para um beijo apaixonado, e pela primeira vez, sussurrou em seu ouvido:
- Amo você, Ollie! Como minha namorada.
A felicidade completa. Este foi o pensamento de Olívia naquele momento. Talvez por isso não estivesse preparada para o fim que logo se aproximaria.
Ficaram se encarando. Olívia viu nos olhos dela, que a lembrança ainda existia, e se deliciou com isso. Tinha medo, desde o momento em que a reencontrara que as lembranças só fossem fortes ainda para ela. Mas o olhar de Joana lhe dizia que ainda estavam lá.
- A primeira vez que eu disse que te amava. – Passou as mãos pelos cabelos e sorriu. – Eu lutei muito tempo contra a vontade que eu tinha de te dizer isso.
- Eu sei. – Olívia devolveu o sorriso. – Quer dizer, hoje eu sei. Na época eu tinha vontade de te bater por você nunca corresponder quando eu dizia que te amava.
Os sorrisos se desfizeram tristes. Chegava enfim o momento de voltar ao passado. Ambas sabiam que não podiam continuar fingindo que ele não existira, e nem que não deixara marcas.
Olívia conduziu Joana para a porta de vidro na lateral da casa. A abriu e se viram dentro de uma enorme sala de paredes brancas e piso em madeira clara. Todos os móveis eram claros, e vários quadros de pinturas modernas, enfeitavam as paredes. Era um ambiente clean, Joana constatou seguindo Olívia até uma cozinha americana.
Pegando algumas cervejas e queijos de dentro da geladeira, Olívia começou a montar uma bandeja com o olhar interrogativo de Joana sobre ela.
- Eu vou repôr. – Respondeu com um sorriso. – Me ajuda a levar tudo pra varanda.
Indicou com a cabeça, a porta à frente. Elas carregaram tudo para o lado de fora, e Joana se encantou com o gramado cheio de arvores espaçadas que se abria a frente delas.
Sentaram-se a mesa de madeira, e abriram as cervejas.
- A um reencontro inesperado, mas feliz. – Olívia ergueu seu copo.
Joana estranhou o tom sarcástico. Não que não o conhecesse. No ano e meio que se seguiu após o trágico termino do namoro das duas, era nesse tom que Olívia se dirigia a ela e aos outros. Escondia bem o quanto estava magoada e passou a ser uma pessoa bem mais dura e fria do que a amiga doce e carinhosa que Joana tão bem conhecia. Se assumiu lésbica como forma de desafiar a todos. À sua família, à escola, os colegas, mas especialmente à Joana. Nunca falou sobre o namoro delas a ninguém e começou a sair com outras turmas. Ficava com várias meninas, e fez uma fama de pegadora na cidade. Joana se entristeceu ao reconhecer aquele mesmo tom na voz dela, mas nada disse.
Puxando um cigarro do bolso, Olívia a encarou. A dor de reviver um momento tão intenso da sua juventude com aquela mesma mulher, a fez levantar todos os muros de defesa de volta. Viu a vulnerabilidade do próprio coração, e não agüentou. Temeu por ele. Mas sentia a força voltar, e sob o olhar triste de Joana, viu-se relaxar aos poucos.
- Eu não quis ser rude antes. Foi só a força com que tudo voltou à memória. – Disse se desculpando.
- Voltou pra mim também. Cada uma delas. – Joana respondeu e baixou os olhos para esconder as lagrimas que teimavam e arder nos olhos procurando uma forma de escapar.
Colocando a mão sobre a de Joana, Olívia buscou a sua atenção de volta. Devagar, respirando fundo, Joana ergueu os olhos amendoados para enfim, encarar os verdes.
- Eu não te culpo. Não mais. – Olívia se ouviu dizendo, e ficou feliz em saber o quanto era verdadeiro. – Foi uma fase muito difícil da minha vida e está sendo doloroso reviver, só isso.
- Desculpa. – foi só o que Joana conseguiu sussurrar.
- Não. Eu não quero as suas desculpas, Jo. – Olivia falou carinhosamente. Quase como se falasse com um dos seus alunos. – Isto está no passado. Você foi minha primeira mulher, meu primeiro amor. Ele supostamente deve marcar a gente pra sempre, certo? E eu não te culpo por não ser o mesmo pra você que é pra mim. Eu estava me descobrindo também, teria sido complicado de qualquer jeito, com quem quer que fosse.
- Você também foi minha primeira mulher. E meu primeiro amor. – Joana falou abrindo um sorriso de leve. – E sim, foi tudo muito difícil. Mas também foi mágico, não foi?
- Foi. Foi mágico. – Respondeu a pergunta com um sorriso. – Um amor de verão como dever ser. Uma grande paixão, juras de amor eterno, e que chega ao fim com as primeiras folhas de outono.
Joana baixou os olhos mais uma vez. Era uma mania que tinha desde criança, e Olívia sentiu o sorriso vir aos lábios ao constatar isso. Do mesmo jeito que fazia quando conversavam sobre assuntos sérios quando eram mais novas, Joana se acuava e baixava os olhos.
Sem querer interromper os pensamentos dela, Olívia se concentrou em apagar o cigarro e ascender outro. O único som que chegava até elas, era o do vento e dos pássaros, e Olívia sentiu uma paz providencial lhe invadir. Sentia que as amarras estavam sendo desfeitas, e ficou feliz por isso.
Ainda sem erguer os olhos da mesa, Joana começou a falar. Sabia que se encarasse aqueles lindos olhos verdes, as lagrimas desceriam sem descanso. Sentia uma dor enorme no peito.
- Eu fui covarde. – Disse baixinho, mas trazendo Olívia imediatamente de volta ao momento. – Nunca fui tão corajosa quanto você. Eu me importava com o que a minha família pensava, tinha medo de perder meus amigos se a assumisse, e preferi fugir, por mais que isso me doesse. Ver você era uma tortura. Eu chorava todos os dias e achava que eu ia morrer de tristeza. Odiava te ver tão rígida, e principalmente, odiava te ver com outras meninas. Foi um alivio repleto de saudade e inveja até, o dia em que você foi embora da cidade. Eu sofri muito, mas me senti livre pra começar a minha vida do zero.
“Você foi a melhor coisa que já me aconteceu e a pior, na mesma proporção. A melhor porque eu nunca fui capaz de amar tão intensamente ninguém como eu te amei, e a pior porque eu te expulsei da minha vida por medo.”
Enfim Joana levantou os olhos já molhados pelas lagrimas que corriam livres por seu rosto.
- Eu te amei demais, Ollie, nunca pense que não. E ontem quando eu te vi e depois te senti nos meus braços novamente, eu pude sentir esse amor me queimar por dentro de forma avassaladora. – Respirou fundo, fungando um pouco. – Eu não to te pedindo nada. Nem posso. Só precisava que você soubesse o quanto foi importante pra mim.
Olívia não agüentou. Era demais pra ela. Nunca se permitiu esperar por uma declaração saindo daqueles lábios que tanto amava, mas não podia negar que desejou muito ouvir essas palavras. A constatação de que não tinha amado tão intensamente sozinha. Ergueu-se e puxou Joana para um abraço. A segurou firme em seus braços, e sentiu o perfume dela lhe invadir. Uma sensação de “voltar pra casa” fez com que se arrepiasse por inteira.
- Eu também te amei. Te amei até demais. – falou no ouvido dela. – e o pior é que acho que ainda amo. O quão doente é isso? – sorriu. – Pensei que iria querer me vingar de você no dia que você admitisse que também tinha me amado. Mas a verdade é que não tem espaço dentro de mim pra esse sentimento. Eu te quero tanto que dói.
Joana aproximou ainda mais o seu corpo do dela. Sentia-se frágil, quase esgotada pelas sensações e sentimentos que experimentara nesta manhã. Mas ainda tinha algo para dizer, e sabia que se ela se deixasse levar, faria amor novamente com Olívia ali mesmo, mas havia decidido que não deixaria nada subentendido, e que não fugiria daquele sentimento.
Afastou-se do abraço delicadamente, e mergulhou seus olhos nos dela. Se deixou perder no olhar faminto de Olívia, e seu corpo todo correspondeu à fome que havia neles. Queria mais que tudo, ser o banquete daquela mulher. Mas não queria somente mais uma vez, queria amanhã, e depois, indefinidamente, talvez para sempre.
Olívia aproximou seus lábios dos dela lentamente, e se espantou quando Joana recuou. Não esperava a rejeição. Virou-se rápido pra esconder o quanto a tinha magoado com aquele simples gesto.
- Espera. – Joana ao perceber a dor que mais uma vez tinha causado, a segurou pelo braço. – Eu quero esse beijo. Quero mais que tudo. Quero você toda, e quero ser sua.
Olívia se voltou para ela, e seus olhos ardiam de desejo novamente.
- Mas antes, tem mais uma coisa que eu preciso que você saiba.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
CAPÍTULO 6 - Tempo, tempo
Aquilo não era nada bom. Não poderia ser. Foi o pensamento que ocorreu a Olívia. Se afastando mais uma vez, pegou outro cigarro e o ascendeu, se preparando para a bomba que muito provavelmente iria estourar.
Joana passou as mãos pelos cabelos. Outro sinal do seu nervosismo. Mordeu o lábio inferior e encarou Olívia nos olhos tentando não fraquejar e se deixar tomar pelo desejo insano que sentia por aquela mulher.
- Ollie. – Olívia a encarou de volta. – Não existe forma fácil ou delicada de dizer isso, então eu vou só falar. Mas peço que você me escute até o final. – Olívia a analisou, e então concordou com um aceno de cabeça, já se jogando de volta a cadeira, e esperando que Joana também sentasse, mas ela não o fez. Pressionava uma mão na outra, e Olívia não podia deixar de achar esse nervosismo dela sexy. Alias tudo naquela mulher a seduzia.
“Eu já te falei um pouco sobre a minha vida profissional, agora preciso falar da pessoal. – Respirou fundo, e percebeu que Olívia não movia um músculo sequer. – Eu não posso dizer que nunca mais estive com outra mulher depois de você, porque estive, por mais insignificante que tenha sido. Foi um caso conturbado, e mais uma vez eu não fui capaz de assumir essa relação. Quando terminei com ela, há sete anos atrás, conheci um homem, André. Ele trabalha com o meu pai, é clinico geral. Um homem incrível, gentil, doce, carinhoso, extremamente paciente, que acabou se tornando meu melhor amigo. Eu o amo profundamente, mas não da mesma forma como ele me ama. O amo como amigo, mas acabei concordando em me casar com ele. Nos casamos há seis anos atrás e temos uma filha de cinco.”
Olívia já não respirava. Já ouvira aquilo inúmeras vezes, de muitas formas, e sinceramente, nunca se importou. Quando saía com qualquer mulher, muitas lhe contavam depois do sexo, que eram casadas, tinham filhos e etc. Como não procurava envolvimento algum com nenhuma delas, isso era algo que não a atingia. Às vezes achava até bom que fossem casadas e heteros convictas na vida social, assim não haveria cobranças para uma relação mais seria. Era apenas sexo, e tudo bem. Mas de Joana? Mais uma vez Joana? Que poder essa mulher exercia sobre ela que continuara a amando durante todos esses anos sem nem ao menos perceber? A queria. Percebia agora o quanto a queria para si. Mas é claro que ela não estava disponível para viver esse amor com ela. Não esteve antes, não estava agora.
- Não me julgue Ollie. Eu sei que eu errei ao me casar sem estar apaixonada, principalmente porque o André não merece isso. – Suspirou e enfim se deixou cair na cadeira. – Ele sabe de nós.
Foi essa frase, somente ela, que foi capaz de tirar Olívia de seus devaneios em torno do aperto que sentia no peito.
- Como assim sabe de nós? – Balbuciou seria.
- Eu contei a ele que havia amado muito uma pessoa quando era adolescente, e contei que tinha sido uma mulher. O André sempre me entendeu e respeitou muito. Já disse que somos amigos, é o que somos mais do que qualquer coisa. E antes que você pergunte, vou contar que te reencontrei. Só ainda não descobri como fazer isso sem magoá-lo profundamente. E ainda tem a Isabela, nossa filha. Preciso pensar nos dois antes de tomar qualquer atitude. – Olhou dentro dos olhos dela. - Mas estar com você, me fez perceber quanto tempo eu já perdi da minha vida por medo. Não quero mais ter medo, Ollie, eu quero você.
Olívia não sabia o que pensar. Ao mesmo tempo em que estava feliz por ouvir Joana dizer que a queria, e ver nos olhos dela que era verdade, não sabia se agüentaria outra decepção. O medo de arriscar o seu coração falou mais alto. Respirou profundamente antes de encarar os olhos de amêndoa.
- Jo, eu sei que foi intenso o nosso reencontro. Mexeu muito com nós duas. E não há como negar a atração que eu sinto por você, mas não sei se é mais que isso. Não sei se o amor que eu sinto é real ou sombra de um sentimento que já existiu. Você tem a sua vida e eu tenho a minha. Não vamos nos precipitar.
O efeito foi imediato. Um banho de água fria que Joana não esperava receber. Sentiu-se uma adolescente novamente, cheia de medos e assustada com o poder da mulher a sua frente. Olívia emanava um poder quase hipnotizaste. Sempre fora assim, e parecia só ter crescido com os anos, ganhado força.
Viu nos olhos de Joana que alcançara seu objetivo. A deixara insegura e era só o que precisava saber. Ela estava com medo, e apesar das palavras de amor e as promessas nelas implícitas, ela ainda era covarde demais para encarar uma decisão como esta. Lembrava do exata momento em que Joana lhe disse que não ficaria com ela.
Olívia já não sabia o que fazer para se acalmar. Joana pediu que ela a encontrasse depois da escola. Como tinha deixado a casa da mãe, e todos pareciam saber o motivo para tê-lo feito, não tinha ido mais a aula, e isso já fazia duas semanas. Tinha decidido enfrentar tudo e todos, mas ainda não se sentia pronta, estava apavorada, e mais apavorada ainda com o silencio de Joana.
Já fazia cinco dias que elas nem ao menos se falavam. Tentou ligar para a casa dela, mas a mãe de Joana havia deixado muito claro o quanto a queria longe da filha e de forma nada educada, que ela desistira de tentar. Mandou recado por um amigo em comum da escola, mas nada. Joana simplesmente não dera sinais de vida, até a noite anterior, quando por Guto, mandou o seguinte recado: “Me encontre no parque. Você sabe onde. Depois da escola, amanhã.” Seu coração parecia querer saltar do peito ao ver a letra bem desenhada no papel. Mal dormira a noite, contando as horas para o encontro à tarde.
Joana se aproximou de cabeça baixa, e Olívia correu ao seu encontro tomando-a nos braços, como tanto desejava. Ficaram assim por longos segundos, sem nada dizer, apenas matando a saudade. Olívia só se desgrudou o suficiente para puxar o rosto de Joana e beijar-lhe profundamente nos lábios que se renderam e se abriram para a sua língua entrar. Um beijo profundo que para Olívia tinha gosto doce de reencontro e para Joana o amargo da despedida.
Mesmo sentindo a excitação subir-lhe como um vulcão por entre as pernas, e talvez por isso mesmo, Joana a afastou. As lágrimas escorriam por seu rosto, e Olívia se sentindo totalmente impotente diante de tamanha tristeza, só fez as enxugar com delicadeza.
- Esta sendo difícil assim? – perguntou com a voz sussurrada e rouca que deixava Joana de pernas bambas. – Eu tentei ligar, mas sua mãe... – Deixou no ar.
Joana se deixou conduzir até o gramado pelos braços de Olívia, que a envolvia protetoramente. E isso só estava tornando tudo ainda mais difícil. Queria tanto poder ficar assim com ela pra sempre. Sentir suas mãos passearem por seu corpo, seu cheiro, seus beijos.
Sentadas uma de frente para outra, Olívia a olhava ansiosa, esperando que ela dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Mas Joana encarava os próprios pés e esfregava uma mão na outra chorando em silencio.
- Quer me matar do coração? Diz alguma coisa! – Olívia falou, buscando as mãos dela.
Sem levantar os olhos do chão, Joana respirou fundo tentando se acalmar e começou a falar baixinho:
- Eu não posso Ollie. Meus pais querem me mandar embora de Terê se eu continuar vendo você. Minha mãe disse que isso não é certo, que tem vergonha de mim. – E chorou ainda mais. – Falou que eu não posso querer namorar uma menina...
Olívia ouviu tentando controlar a raiva que o seu coração sentiu com aquelas palavras. A dor estava à espreita, mas ela não a viu chegar.
- E você deu ouvidos a ela? Quem manda no que a gente sente, somos nós! – Gritou.
- Mas é errado, Ollie. – Joana disse baixinho. – Eu não quero mais ter que me esconder, nem vou agüentar todo mundo me tratando mal, com nojo de mim.
Por mais que estivesse sofrendo, Joana havia pensado muito naquilo, chorara por dias tentando achar a melhor solução para aquela situação. Amava Olívia, amava tanto que doía, mas não se sentia pronta para perder os pais, os amigos. Sentia-se suja por amar tanto uma outra mulher, queria ser ‘normal’, namorar meninos e poder curtir isso tudo com suas amigas e com a sua família.
- Como pode ser errado, Jo? – Olívia perguntou após alguns minutos de silencio. As lagrimas escorriam por seu rosto, marcando a pele muito branca. – A gente se ama. Eu te amo! – Disse exigindo que Joana a olhasse levantando a cabeça dela com dedos em seu queixo. – Você não me ama, é isso?
Joana a encarou, e chorou ainda mais. Precisava mentir, sabia que Olívia era insistente e teimosa. Havia enfrentado tudo com tanta coragem, estava disposta a tudo, e se deixasse, ela a convenceria mais uma vez que podiam viver juntas na casa da tia dela e não teriam mais que se esconder, como tantas vezes disse antes. Mas Joana não queria sair de casa, não ia abandonar tudo.
- Não. – Sua voz saiu fraquinha. Um sussurro que poderia ter sido produzido pelo vento, mas Olívia ouviu claramente como se ela tivesse gritado em seu ouvido.
Ergueu-se de supetão e saiu pisando forte e rápido, até se transformar numa corrida. Sentia o vento no rosto e ar a lhe faltar nos pulmões. Correu o mais rápido que pôde até sentir as pernas formigarem com a dor do esforço. Qualquer dor era bem-vinda, nenhuma era maior que a dor que sentia no seu peito. Entendeu então o que os poetas diziam sobre coração partido, sentia o seu despedaçado.
Joana não levantou os olhos para vê-la partir. Pode sentir a dor que emanava dela com o silencio que se seguiu. Não tinha forças para se erguer, se deixou ficar no chão por mais algumas horas. Chorou muito, teve vontade de correr atrás dela, lhe beijar e dizer que a amava sim, que a queria mais que tudo no mundo, mas não tinha forças pra isso, e nem coragem. Já era noite quando conseguiu se mover, e resignada, voltou para casa.
- Eu sei. – Joana enfim falou. – Eu sei que isso tudo pode não passar de um eco do passado. E sei também que você tem a sua vida, e que não é culpa sua se eu nunca consegui sair do armário.
Olívia riu da expressão usada. Ela não era mais aquela menina assustada que negou o sentimento mais forte que já sentiu, por puro medo. Mas também não sabia se era a mulher corajosa que precisava ser para assumir Olívia, e também, esta não sabia ao certo se era isso que queria. Seria capaz de jurar amor eterno àquela mulher? Queria isso pra vida dela? Não, não queria responsabilidade pela decisão dela. Se ela quisesse enfim assumir que gostava de mulheres, a apoiaria, mas não sob a promessa de ficar com ela, por mais que a quisesse.
- De qualquer forma, reviver esse sentimento, me fez perceber que eu nunca vou ser feliz com o André, ou mesmo fazê-lo feliz. Não o amo dessa forma. – Completou sorrindo para Olívia. – Eu não quero bagunçar a sua vida. Já me disseram que você não gosta de compromisso, e eu não vou te cobrar isso, não se preocupe.
- Não estou preocupada. – Disse sinceramente. – Mas fico feliz que isto esteja mais claro pra você. Eu, particularmente, sempre soube que você gostava de buceta. – Disse rindo.
Pegando uma tampinha de garrafa de cima da mesa, a fez voar em direção a Olívia, que só fez rir mais, no que Joana logo a acompanhou. Olharam-se com cumplicidade, e Olívia a achou ainda mais linda. Bebendo mais um gole da cerveja, e fazendo careta, pois estava quente, Joana se ergueu e foi à cozinha buscar mais duas cervejas geladas. Entregou uma para Olívia, e abriu a sua própria. Brindaram, e sorriram uma para outra.
- Posso só pedir uma coisa? – Joana falou após um minuto de silencio.
- Hum?- Olívia se virou para ela.
- Será que você poderia só ficar comigo por mais essa semana? Estou adorando matar a saudade de você, do seu corpo, do seu cheiro... – Disse isso se erguendo e andando em direção a Olívia e sentando em seu colo. -... Da sua boca... – e a beijou com paixão, no que foi prontamente correspondida. Olívia não somente a beijou como deslizou suas mãos pelas costas dela, e apertou a bunda, a puxando contra o seu corpo. -... Da sua pele... – e desceu a boca pelo pescoço da Olívia, vendo-a se arrepiar com o contato -... Da sua buceta... – e a tocou entre as pernas.
Olívia já não suportando mais, começou a tirar a camiseta que Joana usava, e colocou a boca no seio pequeno e firme que se apresentou, já com o bico duro de prazer. Joana gemeu e começou a rebolar contra o corpo dela, fazendo Olívia ficar ainda mais excitada e molhada nos dedos de Joana que não deixavam o seu sexo, fazendo movimentos lentos, se deliciando com a umidade que aumentava.
Louca de desejo, Olívia buscou a boca dela, e desceu sua mão por dentro da calça da morena, mas Joana a impediu.
- Quero comer você primeiro. – falou rouca de desejo no ouvido dela. – Você está uma delícia. – E se moveu mais rápido dentro dela, fazendo com que Olívia ofegasse e gemesse ainda mais alto.
Saindo rápido do colo dela, Joana a fez levantar, sem deixar de tocá-la.
- Tira a roupa. – Pediu enquanto introduzia um dedo. – Tira pra mim.
Olívia não questionou, estava completamente rendida nas mãos de Joana. Tirou primeiro a blusa, e depois as calças e a calcinha, sem que em momento algum, Joana tirasse a mão dela.
Vendo-a completamente nua, linda, Joana a empurrou contra a mesa e a fez sentar com as pernas abertas para ela. Encaixou-se, e pressionou seu corpo contra o dela. Olívia abriu as calças de Joana e tirou também sua calcinha, mas quando tentou toca-la, Joana a impediu mais uma vez.
- Falei que quero te comer. – E introduziu outro dedo, fazendo Olívia gemer e abrir ainda mais as pernas.
- Você tá me comendo. Me comendo gostoso. Mas eu também te quero. – Tentou tocá-la e mais uma vez foi impedida.
- Vou ser sua. Vou deixar fazer o que quiser comigo. Mas agora eu quero me fartar de você.
E dito isso, Joana desceu com a língua pelo corpo de Olívia, começando pelo pescoço, passando pelos seios, barriga, até chegar à virilha, onde a provocou bastante antes de entrar.
Ao sentir a língua de Joana se movendo contra ela, Olívia jogou o corpo pra trás de tanto prazer. Chegou a pensar que nunca se cansaria de ser possuída por ela, assim como sempre iria querer possuí-la. Sentiu o gozo próximo, mas Joana desacelerou, a torturando mais um pouco, não permitindo que gozasse. Movia sua língua devagar, e enfiava os dedos com força, como se quisesse explorar, conhecer cada canto. Sentindo a respiração dela voltar ao normal, aumentava o movimento da língua contra o clitóris e dos dedos dentro dela, entrando e saindo. Olívia logo foi à loucura novamente. Não apenas gemia como dizia coisas obscenas que deixavam Joana louca de prazer, a comendo com mais voracidade ainda.
Olívia atingiu o orgasmo, e seu corpo tencionou e tremeu. Joana sugou o gozo que escorria pelas pernas dela, nas suas mãos e boca. Ficou movendo a língua, a sentindo e aos poucos foi retirando os dedos.
Olívia segurou Joana pelos cabelos, forçando-a deixar o seu sexo, e puxou-a para um beijo intenso. Sugou sua língua com força, colou o seu corpo no dela, até seus sexos se tocarem.
- Satisfeita? – perguntou com a voz rouca que tanto enlouquecia Joana.
- Eu nem comecei a me saciar de você. – foi a resposta dela, descendo a mão para o meio das pernas de Olívia.
- Ah, não – Olívia tirou a mão dela de lá. – Agora é a minha vez.
Rapidamente, desceu da mesa e segurou Joana por trás, esfregando seu sexo nas nádegas dela e afastando os cabelos cacheados, mordiscou e lambeu a nuca. Com a outra mão, fez com que Joana descesse o corpo e se apoiasse na mesa, ainda se esfregando nela, abriu-lhe as pernas, e com agilidade, introduziu dois dedos fazendo-a gemer alto.
Joana rebolou nos dedos dela, sentindo o sexo pulsante de Olívia, molhado contra a pele dela. Se esfregava e rebolava sobre aqueles dedos que não a deixavam um segundo. Tinha que se render, Olívia sempre soube como enlouquecê-la, e mesmo depois de tanto tempo, ainda era capaz de levá-la a loucura. Joana gemia e pedia mais.
- Não para! Mais forte! Adoro dar pra você assim! – Falava para Olívia, que se mexia dentro dela com a propriedade de quem descobriu aquele corpo, explorou e decorou cada detalhe. Sabia exatamente o que fazer para deixar Joana mais e mais excitada, e ficou feliz em constatar que ela ainda gostava daquela posição.
Enquanto mantinha seus dedos dentro dela, desceu sua outra mão para o clitóris de Joana, levando-a a gemer ainda mais, e fraquejar as pernas. Pressionou seu corpo contra o dela, mantendo-a de pé. Joana parecia não agüentar mais de tanto prazer. Olívia a tomava de um jeito que ninguém nunca foi capaz de fazer.
Olívia aumentou a velocidade em que entrava e saía dela, e provocava ainda mais o seu clitóris, fazendo com que Joana gozasse duas vezes seguidas, pois Olívia não a deixava, mesmo em meio à explosão. Sem agüentar mais, Joana se deixou cair, com as pernas fracas, tocou o chão. Abraçando-a por trás, Olívia a sentia tremer de prazer. Ficou abraçada a ela, até que a respiração de Joana regularizasse.
Sentindo as forças voltarem a suas pernas, Joana ainda no chão, se virou de frente para Olívia, e a beijou intensamente, colando seus corpos um no outro. O cheiro dela misturado ao cheiro de sexo que as rodeava, era inebriante e excitante, logo sentiu-se molhada novamente. Era inacreditável como aquela mulher a deixava. Sentiu a respiração de Olívia também mudar, em contato com a sua pele, desceu a mão até o seu sexo, e percebeu o quanto ela estava molhada.
- Isso tudo é por me comer? – Perguntou no ouvido dela.
- Tá me provocando? – Olívia respondeu já a tocando e sentindo-a encharcada. – Quero sentir seu gosto. – E com agilidade a deitou e levou sua boca ao sexo dela. Joana gemeu.
Puxou Olívia e a ajudou a virar e colocar o seu sexo na boca dela.
Sentiram-se e se tocaram mutuamente. Olívia achava difícil se concentrar sentindo a língua de Joana no seu clitóris, enquanto ela introduzia os dedos na sua vagina, assim como fazia com ela. Logo as duas chegaram ao ápice juntas mais uma vez.
Tomaram um longo banho. Olívia queria conseguir ser racional com relação à Joana, mas tendo-a assim em seus braços, era impossível não sentir o amor, a paixão que a assolavam. Estava decidida a não deixar esse sentimento vencer a sua determinação, e era ajudada por seu medo de se entregar. Nunca agradeceu tanto pelas barreiras que se impusera. Estava certa que se permitisse o seu coração a sentir tudo o que ele queria, teria que recolher os pedaços mais tarde, e não queria passar por isso novamente. Mas era incrivelmente bom estar com aquela mulher, não só pelo sexo, que era fantástico, mas porque estava encantada por quem ela era, Joana era ainda melhor do que ela se lembrava, era determinada, batalhadora, divertida, sincera, inteligente, carinhosa, doce e ao mesmo tempo forte. Uma mulher apaixonante, inebriante.
Estavam na cozinha preparando um almoço improvisado, e Joana falava animada da sua vida, das aulas que dava, do curso a distância que estava preparando, as expectativas com o doutorado e com o concurso, e Olívia se viu torcendo para que ela passasse e viesse para o Rio de vez. Falou muito também de Isabela, sua filha, e mostrou uma foto no celular. Olívia teve que rir, era a cara da Joana quando criança, os cabelos, apesar de mais claros, tinham os mesmos cachos nas pontas, e os olhos eram do mesmo formato e cor dos da mãe.
- Ela é a minha vida, - Joana falava emocionada e com um grande sorriso. – a criança mais linda do mundo. Muito arteira. Não pára um segundo e de alguma forma me lembra você.
- Como assim? – Olívia perguntou colocando a massa que preparava no forno.
- Tem um ar sério, de quem esta perdida em pensamentos profundos. Acho que era isso que mais me atraía em você, a sua intensidade. Mesmo quando éramos crianças, você tinha um ar de superioridade natural, mesmo sendo uma das pessoas mais humildes e atenciosas que eu já conheci, você sempre teve um ar de quem sabe algo além do que os meros mortais. Bela tem isso.
Olívia caiu na gargalhada. Era sim uma criança mais seria do que o normal, mas muito porque a sua cabeça vivia perdida em fantasias. Sonhava acordada quase que todo o tempo, o que na maioria das vezes, lhe causava problemas.
- Então ela deve ser incrível mesmo! – Olívia falou ainda rindo.
- Ela é! Quero muito que você a conheça. – Joana disse carinhosa. – Se você quiser, é claro. – Se corrigiu. Não queria pressionar Olívia a nada. Por mais que a quisesse em sua vida, sabia que não seria fácil.
- Claro que quero. Assim que você conseguir voltar ao Rio, traga ela com você. Vou levá-la para passear e contar tudo o que a mãe dela aprontava quando era pequena.
- Sei. Ela vai amar você, tenho certeza. – Joana falou docemente, e Olívia, para não se perder no olhar intenso e cheio de promessas de Joana, a abraçou e beijou.
Almoçaram do lado de fora, na varanda mesmo. O dia ia se transformando em noite, e o calor dava uma trégua. As duas conversaram sobre tudo, falavam sobre a vida, as pessoas que conheceram, Olívia descobriu que Joana havia ido a Europa logo que se formou e que foi lá que decidiu estudar historia. Que tinha tido apenas três relacionamentos sérios ao longo desse tempo, com um professor seu da faculdade que era casado e tinha, é claro, terminado mal, com a mulher que ela havia conhecido em um curso e que acabou terminando com ela, pois Joana não conseguia se assumir, e com André, com quem se casou e teve Isabela. Olívia percebia o carinho com o qual ela falava nele, e isso lhe provocava um ciúmes que tentava não demonstrar.
Contou por alto as suas inúmeras aventuras amorosas e sexuais, sem se ater a detalhes, pois viu Joana abaixar os olhos quando falou de Manu que tanto a tinha ajudado e de Paula, a quem tinha de fato amado. Falou também da escolha da profissão e dos seus sonhos de publicar seus livros. Falou de seus amigos, que tinham se tornado sua família, e da felicidade que era ter Guto na sua vida.
Ficaram assim por horas, até o céu escurecer por inteiro, e decidirem ir embora. Guto já havia ligado duas vezes e mandado uma mensagem mal criada para Olívia. Foram direto para o Bar do Bola, onde todos já estavam reunidos. Sem pensar, Joana tomou a mão de Olívia, que se deixou conduzir para dentro do bar. Este gesto não passou despercebido por Guto ou por Theo, que já vinha em sua direção.
- Eu sei que o dia deve ter sido ótimo, está escrito na cara de vocês, mas não precisavam abandonar os amigos, não é? Preciso dos seus conselhos sobre um carinha que eu conheci ontem.
- Ok. Já vou emprestar meus ouvidos para mais uma das suas historias e conquistas baratas, mas preciso devolver a chave do Adoníades pro Bola. – Soltou a mão de Joana, mas não sem antes chegar bem próxima ao seu ouvido, e falar baixinho. – Melhor você conversar logo com a Marcinha. Ela não é burra e meu irmão não é tão discreto quanto você pensa. E eu quero poder de te beijar hoje e te levar pro meu quarto, sem ter que me esconder.
- Era exatamente o que eu ia fazer. – Joana respondeu puxando Olívia para um beijo que esta não esperava. – Não quero nunca mais ter que me esconder de ninguém. – E Olívia entendeu a promessa, mas preferiu não responder. Não queria acreditar. Não queria criar esperanças. Mas querer, não quer dizer nada. Essa esperança já estava plantada em seu coração por mais que lutasse contra ela. – E quero fazer amor com você a noite toda, sem ter que sair de mansinho de manhã do seu quarto.
Dito isso, Joana se encaminhou para a mesa que Guto e Marcinha ocupavam no fundo do bar, e Olívia se dirigiu ao balcão com Theo na sua cola.
- Entendi perfeitamente porque você esnobou o meu convite ontem. Linda, sexy e intensa. O pacote completo. – Falou se divertindo com a cara de reprovação de Olívia para os comentários dele. – Não se preocupe, não quero detalhes.
- Como se eu fosse te dar detalhes. Pra que? Você passaria mal. O seu forte não são mulheres.
- Não mesmo! Então, me deixa falar do Rogério. Lindo, moreno, alto, trabalha no mercado financeiro, e com a melhor pegada do mundo.
- Você diz isso sobre todos, Theo. Você não tem padrão, esqueceu? – Olívia entrou e foi para trás do balcão, e pegou algumas cervejas no freezer, já que o Bola não estava à vista. – Mas e aí? Levou ele pra cama?
- Não. – Respondeu Theo. – Ao contrario de você, não transo no primeiro encontro.
- Até parece! - Olívia riu e passou uma cerveja para o amigo, abrindo uma para ela também. – Desde quando?
- Desde que resolvi que quero namorar. – Declarou ele solene.
- Você, namorando? Fala sério Theo! Você não consegue ficar com uma pessoa só. Em uma semana, se tanto, te bate um tédio, e você sai procurando outro.
- Eu sei. Mas eu me dei conta nos últimos tempos, que não tenho mais idade pra isso. Você já viu os meninos novinhos que estão freqüentando a noite gay? Eles são lindos, uma delicia, mas são dez anos mais novos que eu. Competição acirrada, amiga.
- Que eu me lembre você nunca encarou eles como competição, eram apenas aprendizes, você dizia. – Olívia bebeu um gole de cerveja, se divertindo com a cara do Theo. – O que foi, levou um fora de um desses menininhos?
- Não baby, apenas caiu a ficha de que eu não quero me tornar uma daquelas bichas velhas que freqüentam as boates e que precisam pagar por sexo. Quero um namorado, e algo me diz que o Rô, pode ser o cara certo.
- Tá bom. Vou fingir que acredito. Marcou alguma coisa com o Rô? – Falou sacaneando o jeito com que o amigo apelidou seu novo affair.
- Marquei. Vamos ao cinema na terça. E eu não tenho idéia de como fazer isso. – Confessou. – Eu sei conquistar para o momento, agora esse ritual de ir ao cinema, jantar fora, flertar discretamente, isso nunca foi o meu forte. Não sei nem por onde começar.
- E eu lá sou a pessoa certa pra te dar essas dicas, Theo?!
- Você já namorou. E a Paula era apaixonadíssima por você. – Ele rebateu.
- Sim, eu já namorei, mas nunca tive que me esforçar muito. Você sabe que sapatão adora namorar. Elas fazem todo o serviço. – Falou implicando com ele. – Mas eu sou viado, esqueceu?
- Não foi o que pareceu. – E indicou a mesa onde Joana conversava com Marcinha e Guto. – Mãos dadas e tudo... – Implicou com ela.
- Isso aí é outra historia. E eu não to namorando. Temos mais essa semana e ela vai embora. É só isso. – Falou, mas se sentiu triste ao constatar que era verdade. Teria apenas alguns dias com Joana, e percebeu o quanto queria mais. Mas não podia alimentar esse desejo. – Namorar dá trabalho. –Voltou ao seu discurso, que de tantas vezes proferido, era total e completamente crível para quem ouvisse. – Em geral começa com paixão, é ótimo nos primeiros dias. Sexo toda hora, você ainda não conhece os defeitos da pessoa, nem ela implica com os seus, mas com o tempo, isso acaba, e quando você vê, ela já esta tentando mudar tudo em você.
- Nossa! Deprimente falar com você.
- Te avisei. – Olívia falou pegando a bandeja com as cervejas para levar para a mesa. – Pergunta pra Nina, ela se rendeu à monogamia.
- Alias cadê aquela cachorra? – Theo olhou em volta.
- Provavelmente tendo uma DR desde ontem em casa. – Foi a resposta da Olívia, mas secretamente, estava preocupada com a amiga, e assim que voltou para a mesa, tentou ligar para ela, não obteve resposta.
Na mesa, Marcinha falava sem parar do dia maravilhoso que ela e Guto tinham tido. O passeio, os lugares, estava com o rosto iluminado, como uma criança que brincara o dia inteiro. Olívia divertiu-se com isso. Sabia que Joana ainda não tinha dito nada a Marcinha, então sentou-se o mais distante possível, apesar de estarem lado a lado. Joana lhe abriu um sorriso lindo, que ela se viu retribuindo sem antes pensar. Não queria sentir aquela felicidade toda só por estar ao lado dela, mas era um sentimento mais forte do que ela, mais forte do que sua própria determinação em não se entregar. Estava feliz. Irremediavelmente feliz como há muito tempo não se sentia.
- Marcinha, vem ao banheiro comigo, amiga? – Joana levantou já estendendo a mão para a amiga. Guto e Olívia se entreolharam quando as duas seguiram juntas para os fundos do bar.
- Ela vai falar agora? – Guto perguntou.
- Acredito que sim. – Foi só o que Olívia se limitou a dizer.
- Bom, é melhor mesmo. Porque do jeito que vocês estão se comendo com os olhos, e depois do beijo na entrada, que por sorte a Marcinha não viu, não ia demorar muito pra ela descobrir.
- Eu sei. – Olívia riu da expressão do irmão.
Os dois se encararam. Quer dizer, Guto a analisava, e ela mantinha a sua melhor cara de poker para não entregar nada. Mas alguma coisa no seu olhar deve ter sido captada por ele, e Guto abriu um sorriso vitorioso antes de concluir.
- Eu sabia que um dia isso iria acontecer.
- O que? – Ela se arriscou, fingindo indiferença.
- Sabia que você iria se apaixonar. Ta escrito na sua cara.
- Guto, não viaja ok?! – Se defendeu, mas sentiu o seu coração apertado, porque por mais que negasse, o sentimento estava ali, criando raízes, e ela estava apavorada.
- Ta sim! – Ele riu. – Mas não se preocupe, eu não vou te entregar a ninguém. Só estou feliz por você, mana.
Olívia tentou segurar, mas não se conteve, teve que rir da cara que ele fazia, quase orgulhoso, como se ela tivesse conquistado algum prêmio ou coisa parecida.
Não demorou muito, e as duas voltaram pra mesa. Sem comentar nada, Marcinha sentou-se ao lado do Guto e o abraçou. Olívia percebeu que ela tentava não olhar em direção a ela, falhando em alguns segundo, e esta pode ver certo ar de reprovação naquele olhar. Aquilo a atingiu em cheio. É claro que Marcinha não aprovaria o que estava acontecendo. Conhecia a fama de Olivia, e por mais que a respeitasse, não devia desejar isso para a amiga. Além é claro, de ela, ao contrario de Guto, saber que Joana era casada e tinha uma filha. Olivia por tanto, estava destruindo uma família.
Indiferente ao que se passava dentro da amada, Joana sentou-se próxima a Olivia, e tomou-lhe a mão. As duas se encararam e Olivia se perdeu naquele olhar cúmplice e que parecia entender o significado do silencio da outra.
- Não se preocupe. Com a Marcinha me entendo eu. – Falou baixinho ao ouvido dela.
Olívia confirmou com a cabeça, mas não teceu nenhum comentário. De qualquer forma, não pretendia intervir. Jamais se sentiu na obrigação de explicar, a quem quer que fosse suas atitudes. É claro que não desejava que a cunhada se virasse contra ela, especialmente por causa do Guto, mas também não iria abaixar a cabeça. Sabia que o que estava acontecendo não era certo, mas não pelos mesmos motivos que Marcinha poderia julgar.
A noite transcorreu tranqüila. Se Marcinha tinha suas reservas quanto envolvimento delas, guardou para si. Brincou e riu com todos, e não deixou de se dirigir a Olívia com o mesmo carinho de antes, mas as duas sabiam que isso era só uma fachada para não magoar o Guto.
Olívia deixou a mesa, e foi para o lado de fora do bar fumar. Joana logo se aproximou e a envolveu em um abraço apertado beijando-lhe o pescoço.
- Vai ficar com essa cara a noite inteira? – Perguntou.
- Desculpa. – Olívia falou se desfazendo do abraço. – O que a Marcinha falou? – Se viu obrigada a perguntar.
- Ela me acha louca. – Joana sorriu. – Ela conhece o Dé e gosta muito dele. Isso a faz ser um tanto parcial. Além do fato, é claro, de achar que você vai me magoar. Sua fama é realmente ruim, meu amor. – Disse rindo.
- E eu nunca escondi isso. – Olívia completou.
- Não. Não escondeu. – Joana se aproximou dela, e tocou-lhe o rosto. – Mas você esquece que eu te conheço como ninguém mais. Você pode ter uma fama de pegadora e que é justificável, mas eu já vi o seu coração, e eu sei do poder que ele tem. E mesmo que você fuja de mim, como eu vejo que você quer fugir, eu também sinto que você me quer tanto quanto eu te quero. – Joana aproximou seu corpo do dela.
- Não espere promessas, Jo. Porque eu não as farei. – Olívia tentou recuar, mas Joana a segurou mais firme.
- Não estou te pedindo nada... Mentira. – Se corrigiu com um sorriso. – Te pedi uma semana, e é só o que vou te pedir. – Falou já colando o seu corpo no de Olívia, que sentiu na mesma hora o calor lhe subir, incendiando o seu corpo inteiro.
- Uma semana. – Sussurrou no ouvido de Joana, e fechou seus braços em volta dela, tomando a sua boca num beijo ardente.
CAPÍTULO 7 – Despedida parte 1
Naquela noite, dormiram juntas no quarto de Olívia e se amaram até o amanhecer. Mal tinha fechado os olhos e enlaçado o corpo nu de Joana por trás, e Olívia já ouvia o despertador tocar. Remexeu-se e resmungou na cama, enfiando ainda mais o rosto nos cabelos de Joana, que riu da reação infantil dela.
- Levanta Ollie! Você tem que trabalhar. – Falou docemente, se virando na cama e ficando frente a frente com ela. – Eu prometo te deixar descansar hoje à noite. – Falou com um sorriso sedutor.
- Impossível descansar com você nos meus braços. – Olívia falou se rendendo e puxando o corpo de Joana até encaixá-lo no seu. – Como eu posso descansar, se tudo o que eu quero é passar o tempo todo te sentindo? – Falou com voz ainda mais enrouquecida pelo sono e desejo contido, provocando arrepios pelo corpo todo da morena.
Sentindo a respiração de Joana mudar com o simples toque das suas peles, Olívia foi para cima dela já tomando aquele corpo todo com suas mãos, seus lábios e sua língua. Chegaria atrasada para a primeira aula, mas como se importar com isso, quando cada segundo que passava com Joana lhe era precioso? Não queria que ela soubesse do efeito que tinha, mas era impossível para ela resistir a essa vontade crescente de estar com Joana.
Saiu correndo após uma rápida chuveirada, em que é claro, proibiu Joana de participar, e pegou o metrô para Botafogo.
A semana transcorreu da mesma forma como começou. Olívia lutando para não se apaixonar ainda mais por Joana, e falhando. Passavam os dias separadas, Olívia trabalhando e Joana estudando para o concurso com Marcinha, que também ficava sozinha já que Guto tinha a faculdade e novo emprego em uma loja de roupas para complemento do final de ano.
À noite, Joana e Olívia se entregavam a paixão que sentiam. Faziam amor por horas e conversavam sobre a vida. Se vendo cada vez mais encantada por aquela mulher, Olívia já não sentia forças para lutar contra o que estava sentindo. Ao aceitar passar mais essa semana ao lado dela, havia se aberto para essa possibilidade, mesmo pensando que teria controle sobre os seus sentimentos, de que viveriam plenamente aquele amor. Mas no fundo, ainda tinha uma voz que dizia para ela correr, mas correr muito, o mais distante possível daquela mulher que tanto mexia com ela.
Em contrapartida, Joana também se via cada vez mais apaixonada por Olívia. Havia decidido que seria capaz de compreender a resistência dela e lutaria com todas as forças para reconquistá-la. Tentava entender as nuances nas ações dela. Em muitos momentos, percebia uma entrega absoluta de Olívia, ela lhe falava coisas profundas, era carinhosa, sedutora, e apaixonada. Em outros, era a Olívia fria e distante que tentava aparentar ao mundo. Não se entregava e deixava mensagens no ar para interpretação de Joana. Não lhe prometia nada, e se afastava quando Joana, sem querer, falava de planos futuros.
Seguiram dessa forma até sexta-feira, e Olívia já sentia a separação eminente, o que lhe provocava um frio na barriga, e um aperto no peito. Arrependia-se profundamente por ter deixado a situação chegar onde estava. Mas como manter distância, quando Joana estava ali, sorrindo para ela que acabara de chegar do trabalho?
Ela estava ao telefone, mas andou até Olívia e beijou-lhe de leve nos lábios.
- Ta bom. Agora deixa eu falar com ela. – Joana prosseguia a falar com seu interlocutor. – Eu sei Dé. A gente conversa quando eu chegar. Me deixa dar um beijo de boa noite na Bela.
Olívia, ao perceber que ela falava com o marido, seguiu direto para o quarto e fechou a porta. Não era a primeira vez que presenciava um dialogo entre os dois, mas sempre lhe causava um embrulho no estômago. Era a prova de que o que estavam fazendo era errado. Queria Joana, a desejava, e mesmo procurando não pensar nisso, se imaginava ao lado dela, vivendo plenamente aquele amor. Mas como? Como, se Joana tinha uma vida que não a incluía? Uma vida da qual ela não podia fazer parte. Olívia nunca pensou em ter filhos, tinha medo de repetir as ações de seus pais. Se ficasse com Joana, que papel teria na vida da filha dela?
Estas eram questões que a atormentavam. Mesmo tendo deixado claro que não queria aquilo, que não esperava que Joana ficasse com ela, como poderia não pensar nessa possibilidade quando a tinha em seus braços todas as noites lhe falando de amor e de uma vida que elas poderiam construir? Ela via o esforço que a outra fazia para não falar nisso, mas a escapava, e Olívia se via sonhando com ela.
Ligou o pequeno aparelho de som que tinha no quarto e apertou play. “With Or Without You”, do U2 começou a tocar e ela aumentou o volume. Aquela foi uma das musicas que embalaram seus dias na adolescência, quando se viu sozinha, mais sozinha do que jamais se sentiu na vida, pensando em Joana e no amor imenso que sentia por ela.
Joana ouviu os acordes de “Whit os Whitout You” vindo do quarto. Sentiu a dor que Olívia tentava com tanta determinação esconder. Desligou o telefone, após se despedir mais uma vez de André, que ela sabia, tinha sentido o afastamento da mulher, levantou-se do sofá, e seguiu até a porta do quarto, rezando para que não estivesse trancada.
Não estava. Encontrou Olívia jogada na cama ainda vestida. O som da musica era ainda mais alto dentro do pequeno cômodo, e ela andou devagar até a mulher magra, cor de neve, cabelos negros, deitada sobre o colchão, tão linda. Linda demais, Joana pensou. Deitou-se ao lado dela, encostando a cabeça em seu peito.
Não sabem por quanto tempo ficaram assim, Joana contando a respiração de Olívia, e esta lhe acariciando os cabelos, e o rosto. Joana prendia o seu corpo cada vez mais próximo ao dela. Queria a certeza do sentimento que Olívia sentia por ela. Queria a força daquela que foi e ainda era, o seu porto seguro.
Olívia, por sua vez, tentava encontrar coragem para dizer adeus. Sabia, tinha a certeza dentro dela, de que jamais amaria alguém como amava Joana. Um sentimento que havia perdurado por tanto tempo, e que voltara com força total com o primeiro olhar trocado, não podia ser menosprezado como ela tanto queria poder fazer, mas sabia também que não estava pronta para vivê-lo, e mais do que isso, não acreditava que Joana estivesse.
O CD já havia acabado, e com ele veio o silêncio ensurdecedor das palavras não ditas. Joana sentia a angustia de Olívia, e tinha consciência de que este momento chegaria. Queria poder pedir, implorar para que Olívia acreditasse no amor que ela sentia, mas sabia também que era demais para pedir. Teria que provar, e isto, levaria ainda um tempo longo. Tinha questões sérias para resolver antes de poder se entregar por inteiro para a mulher que era dona do seu coração.
- Jo? Ta acordada? – Olívia perguntou com a voz rouca que tanto provocava os sentidos de Joana.
- To. – Falou baixinho, sem deixar o corpo de Olívia. A apertou mais forte nos braços, no que Olívia retribuiu, beijando-lhe os cabelos.
- Amanhã é o seu ultimo dia. Domingo já é a prova. O que você quer fazer? – Olívia, sem coragem de encerrar aquele momento pela falta que já sentia dela, desistiu de romper o que tinham vivido. Ainda tinha um dia, e queria aproveitá-lo.
- Quero ficar nessa cama com você. – Joana respondeu ainda baixinho e já passando a mão nos seios de Olívia por cima da camisa.
- Adoro que você seja tão safada. – Olívia disse em meio ao riso, mas já sentindo a mesma excitação que Joana sempre provocava nela. – Então dessa cama não vamos mais sair. – Puxou Joana para cima dela, e beijou-lhe profundamente. Joana sentiu a diferença do beijo, que apesar de estar cheio de desejo, tinha também um sabor a mais, o da saudade que ambas sentiriam dos lábios uma da outra. Era um beijo apaixonado, as línguas se buscavam, se sentiam sem pressa, degustando seus últimos momentos juntas.
Olívia passou a mão pela nuca de Joana e puxou-a pelos cabelos, fazendo gemer nos lábios dela. Se movia sob ela, devagar, provocante. Joana já rebolava, imprensando seu corpo no dela, descendo as mãos pelos seios, até alcançar o sexo.
Com pressa, necessidade de sentir aquele corpo nu junto ao seu, Olívia arrancou a pequena blusa que Joana usava, e abriu o botão do short. Tirou sua própria blusa e Joana a ajudou a tirar as calças e a calcinha. Nuas, voltaram a se sentir, dessa vez, Olívia por cima, já a excitando e se movendo com maior fulgor. Queria, desejava aquele corpo todo marcado no seu. Se esfregaram, e Olívia a penetrou, provocando um gemido. A sentiu por dentro, pulsando em torno do seu dedo, e com voracidade, introduziu outro dedo, aumentando a velocidade.
Joana já não agüentava mais, gemia e puxava Olívia contra o seu corpo, querendo senti-la perto, dentro dela. Beijou-lhe a boca e arranhou-lhe as costas. Olívia então saiu de cima dela, deixando-a com vontade.
- Onde você pensa que vai? – Joana reclamou ofegante. – Olha como me deixou! – Exclamou apontando para baixo.
- Deliciosa. – Foi a resposta de Olívia, olhando para aquele corpo perfeito, de pernas abertas para ela. – Tenho um presente. – Falou com os olhos vermelhos e lacrimosos de excitação. Foi até a mochila, e tirou lá de dentro um pacote. Começou a abrir.
- Hey! Se é presente, não era eu quem devia estar fazendo isso? – Joana perguntou, sentando-se na cama.
-Não! – Olívia falou. – Fica na posição em que estava. Toda gostosa e aberta pra mim.
Joana obedeceu, se excitando ainda mais com o jeito mandão de Olívia.
Esta tirou do pacote um dildo, e lentamente, fazendo tudo olhando para Joana, vestiu o suporte e prendeu o consolo nele. A Joana, faltava ar com aquela visão. Poderia ter se assustado, se Olívia não tivesse tornado aquele momento tão sexy.
- Quero te comer toda. Sempre quis te comer assim. – Falou enquanto se aproximava e montava em cima de Joana. – Se abre bem pra mim, vai. – Pediu no ouvido dela e depois a olhou dentro dos olhos.
Joana abriu as pernas a encarando. Nunca tinha feito sexo com outra mulher dessa forma. Sempre achou estranha a necessidade de ‘brinquedos’, mesmo quando Vânia, sua outra mulher, tinha insistido para que usassem. Mas com Olívia era diferente. A queria dentro dela de todas as formas, e se excitou com o novo acessório.
Olívia a penetrou devagar, dando tempo para que ela se acostumasse com o novo objeto. Começou então um movimento cadenciado, vendo Joana fechar os olhos e gemer.
- Ta doendo, gostosa? – Perguntou no ouvido dela, ainda se movendo.
- Não. Não pára! – Foi a resposta entrecortada pela respiração.
Aumentou o movimento ouvindo os gemidos que saiam por aquela boca vermelha. A beijou com paixão, estocando cada vez mais rápido, sentindo o corpo sob o seu rebolar e se entregar.
Gozou uma, duas vezes, ainda rebolando para que Olívia não parasse. Beijou-lhe a boca e arranhou-lhe as costas de tanto prazer. Com a respiração difícil, pediu que tirasse. Olívia obedeceu, caindo ao seu lado, suada, exausta, mas feliz.
- Nunca pensei que seria tão bom ser comida por você assim. – Joana falou se virando para ela. – Mas acho que com você, nunca nada poderia ser ruim. – A fala com diversos sentidos, foi ouvida por Olívia, que preferiu ignorar os outros, e se ater ao sexual.
- É porque você dá muito gostoso. – e a tocou entre as pernas.
- Pode parar. Ela não é de brinquedo. – Joana falou rindo. – Agora é a minha vez de te comer gostoso. Quero fazer você gozar pra mim, como eu gozei pra você. – E ela desprendia o suporte do corpo de Olívia.
- Opa! Não mesmo. – Olívia falou, tirando as mãos dela. – Meu bem, eu já deixo você me comer, e adoro dar pra você. Mas assim não.
- Por que não? – Joana perguntou sedutora. – Ta com medo de gostar?
- Jo, não força a barra.
- Vai me negar esse prazer? Eu adoro te comer e quero te comer com tudo que eu tenho direito.
Olívia escondeu o rosto com as mãos e balançou a cabeça.
- Ninguém nunca... – Deixou no ar, encarando Joana.
- Ninguém nunca tinha me comido assim também. E eu amei que tenha sido com você. – Falou docemente e voltou a retirar o dildo e então o suporte. – Se doer, eu paro. – Quase brincando e provocando Olívia.
- É serio Jo. Não quero. Não vai nem entrar.
Vendo o desespero nos olhos de Olívia, Joana desistiu de insistir, mas foi para cima dela e se esfregou devagar.
- Tudo bem, amor. Quando você estiver pronta. Mas um dia ainda te como com ele. – E beijou o pescoço branquinho de Olívia. – Porque você é uma delicia, e eu to louca pra te comer, te sentir por dentro. Quero você tremendo toda pra mim.
Deslizou a mão e encontrou o sexo de Olívia já seco com o pavor que tinha sentido. Passou a excitá-la. Lambia seu pescoço, enfiava a língua no ouvido e se movia contra ela falando obscenidades. Com os dedos, primeiro se concentrou no clitóris, a sentindo relaxar, depois introduziu um dedo dentro dela. Olívia gemeu. Tinha que admitir, ali estava uma mulher capaz de desarmá-la e fazer ela se entregar de um jeito que nunca ninguém foi capaz de fazer. Abriu mais as pernas e deixou que Joana a tomasse com vontade, e ela o fez. Desceu pelo corpo de Olívia beijando e lambendo, até se concentrar em seu clitóris. A chupou primeiro devagar, sentindo toda a extensão do sexo com a língua e lábios, depois voltou ao clitóris, e sentiu Olívia gozar, o liquido quente a inundá-la, e continuou chupando, sem tirar seus dedos de dentro dela.
Durante toda a noite tentaram saciar o desejo imenso que sentiam uma pela outra. Deixaram o quarto somente para usarem o banheiro e buscarem comida. Não havia nem sinal de Guto e Marcinha que deveriam ter saído para curtir a noite carioca.
O dia já despontava, quando exaustas, se abraçaram e relaxaram na cama. Joana estava em êxtase com a sensação daquele corpo grudado ao seu, a respiração em seu pescoço, a mão passeando por seu braço e cintura, deslizando até chegar às nádegas. Olívia a tocava encantada com a suavidade da pele, o perfume que se desprendia dela, se aconchegou mais a ela, apertando-a contra o seu corpo, ouvindo um suspiro de Joana.
- Assim vou querer começar tudo de novo, amor. E eu sinceramente não tenho mais forças. – Joana falou sonolenta.
- Só estava te sentindo. Parece uma perda de tempo dormir quando temos tão pouco tempo... – Falou tão baixo, que parecia falar para ela mesma.
A dor que cruzou o peito de Joana, o fez disparar, e como Olívia estava atenta a cada respiração e reação daquele corpo, pode perceber o que o seu comentário desencadeara. Apertou Joana ainda mais próxima, e beijou-lhe a nuca.
Nada disseram. Cada uma tinha um milhão de pensamentos contraditórios passando-lhes pela cabeça naquele momento, mas nenhuma das duas tinha qualquer intenção de compartilhá-los. Estavam apavoradas com o que sentiam. E mais ainda, queriam desesperadamente saber o que a outra sentia, mas não tinham coragem de perguntar.
Se virando na cama, Joana ficou de frente para Olívia, enlaçou-a com a perna direita, e aproximou o seu corpo ao maximo do dela. Seus rostos estavam tão juntos, que uma respirava a respiração da outra. Os olhos se perdiam, os verdes nos castanhos amêndoa e vice-versa. Olívia passou o braço pela cintura de Joana e a puxou para si, esta tocou-lhe o rosto com delicadeza e suspirou.
- Amo você. – Não suportava mais guardar aquele sentimento e aquelas palavras teimavam a todo o momento querer sair de sua boca. As soltou. Ao contrario do que imaginava, Olívia não se esquivou, nem mesmo piscou. Continuou a encará-la com a mesma expressão séria no rosto, ainda que serena.
Grudadas da forma em que estavam Joana fechou os olhos. Sua respiração foi se tornando cada vez mais profunda. Olívia ainda a observava. O rosto simétrico, tão perfeito quanto o corpo daquela mulher. A boca vermelha, carnuda. O nariz um pouco arrebitado, os cílios longos. Fechou os olhos sentindo o hálito dela varrer-lhe o rosto.
- E eu amo você. – Deixou sair em meio à respiração. Uma vontade imensa de que Joana não a tivesse escutado, e a esperança de que tivesse. Não iria saber, pois logo adormeceu nos braços dela.
*****
O dia seguinte amanheceu nublado, e virando-se na cama, Olívia viu Joana a observá-la. Estava de banho tomado e com um vestido florido curto, que não ocultava em nada suas lindas pernas torneadas. Ela abriu um sorriso lindo e estendeu a mão para acariciar-lhe o rosto.
- Dormiu bem? – Sua voz era doce e calma.
- Humhum! – Foi só o que Olívia foi capaz de expressar. Não era muito eloqüente logo que acordava.
- Então vai pro banho, que hoje quem tem planos para nós, sou eu. – Falou animada dando um beijo estalado nos lábios de Olívia.
Esta resmungou e virou a cara para o travesseiro, fazendo assim com que o lençol que a cobria, deslizasse para o chão revelando seu corpo nu.
- Assim já é maldade, Ollie! – Joana resmungou. Voltou pra cama e deitando por sobre ela. Beijou-lhe sensualmente a nuca e esfregou seu sexo contra as nádegas dela. – Desse jeito nunca vamos sair da cama.
- Você que esta provocando. – Olívia falou com um sorriso.
- Acha que eu sou de ferro? Ver você assim, nua, me tira toda e qualquer razão. – Se esfregava cada vez mais contra o corpo dela.
Olívia já sentia seu sexo molhado. A respiração de Joana no seu pescoço, os pequenos gemidos ao tocar seu corpo, causavam-lhe arrepios.
- Que bom que voltamos à programação de ontem. Não tenho nenhuma intenção de deixar essa cama hoje. – Olívia falou com seu corpo reagindo ao corpo de Joana.
Joana saiu de cima dela e tirou o vestido e a calcinha. Olívia havia se virado na cama para encará-la, querendo saber por que a havia deixado. Quando se deparou com aquele corpo bem feito, cheio de curvas e a pela morena, abriu um sorriso safado.
- Vem pra cá, vem. – Estendeu a mão para Joana que a segurou e montou em Olívia, sentando sobre seu ventre.
- Você é a minha perdição, sabia? Sempre foi. Esse desejo intenso que eu sinto por você não é normal. Nunca senti isso por ninguém. – Começou a rebolar sobre ela, e Olívia lhe tocou os seios e os levou a boca. Chupando, sugando. – Nunca, ninguém me deixou tão excitada. – Segurou a mão de Olívia, e guiou-a a seu sexo encharcado, comprovando assim o seu ponto de vista.
- Ah... – Olívia gemeu ao senti-la molhada e pulsante. – Você não faz idéia, faz? Do quanto você me enlouquece? – Olívia rosnou antes de introduzir dois dedos e fazer Joana gemer alto. – Rebola pra mim. – Pediu ainda com a voz rouca.
Joana rebolava sentindo Olívia dentro dela, molhando aquele corpo branquinho e magro, mas ao mesmo tempo forte que já se movia contra o dela. O verde dos olhos banhava em fogo e a incendiava. Não era só desejo, apesar de o ser, Joana via muito mais naqueles olhos que não desviavam dos dela.
E foi assim, mergulhada naquele olhar intenso, que Joana chegou ao ápice, tencionando o corpo e envolvendo os dedos de Olívia, para depois pulsar e relaxar, até cair por cima dela.
Ficaram abraçadas um tempo, recuperando a respiração. Olívia a envolvia em seus braços e desenhava padrões em suas costas com seus dedos longos. Esse contato sutil provocava arrepios na morena, que se aproveitando da posição em que estava, começou a passar os lábios e depois a língua na pele sensível do pescoço, subindo ao ouvido e voltando até o colo. Sentiu o corpo de Olívia responder e se incendiar.
Passou as mãos pelo tórax, barriga, pernas. E subindo por entre as coxas, encontrou o lugar desejado, tocando-a de leve. Olívia ofegou quando o contato se tornou mais intimo. Mais uma vez aquela mulher a dominava e mais uma vez ela se entregava.
Joana massageou o clitóris com delicadeza antes de introduzir dois dedos na cavidade de Olívia. Ainda montada sobre ela, começou a movimentar seu sexo contra a barriga dela, enquanto seus dedos se moviam dentro dela.
Logo, Olívia já acompanhava o ritmo de Joana e se pôs a tocá-la. Em geral, ela não permitia, mas desta vez também se abriu. E assim, tocando-se mutuamente, ambas gozaram uma nos braços da outra.
- Quero me encaixar em você e te sentir em mim. – Joana disse, ainda respirando com dificuldade.
Olívia sentou-se, e passou sua perna por cima da dela, até que seus sexos se tocassem plenamente. Era a sensação mais incrível do mundo. Os movimentos dos corpos eram involuntários. Uma explosão de sentidos de dois corpos que se encaixam, se completam.
Passaram o dia todo na cama. Entre carinhos e caricias, poucas palavras foram ditas. Na verdade, Olívia tinha medo de expor o que sentia e desta forma constatar de fato que estava amando aquela mesma mulher, e que mais uma vez teria que deixa-la ir embora. Tinha muito medo dos seus sentimentos, mas não conseguiu impedir a si mesma de se entregar. Entregou-se muito mais do que planejara. Muito mais até do que se achava capaz de se entregar.
Pensava nisso, enquanto encostada ao portal que dava acesso a cozinha, assistia Joana, vestindo apenas uma camiseta e uma calcinha, preparar um almoço para elas. Como podia ser tão linda? Era quase um sonho tê-la ali. Queria dizer tantas coisas. Queria compartilhar uma vida inteira com ela. Poder acordar todos os dias nos seus braços morenos e receber aquele sorriso lindo, iluminado. Estava presa entre dois sentimentos conflitantes. De um lado, uma felicidade imensa, borbulhante, uma sensação de formigamento pelo corpo, misturada ao frio na barriga de pular de pára-quedas, ou surfar em uma onda gigante. De outro o medo aterrador da perda. Joana não era sua. A sentira sua naqueles dias, mas ter um prazo para que o sonho chegasse ao fim, lhe provocava dores contínuas no peito, uma sensação de afogamento. Estava no limiar entre o êxtase e o vazio.
Lembrou-se claramente de quando começaram a namorar. Joana havia enfim cedido e se permitido ser de Olívia. Claro que não se expuseram nem assumiram a relação publicamente, mas sentiam-se juntas.
Já havia passado um mês desde a festa, e por conseqüência o primeiro beijo e a tarde em que, na casa de Olívia, haviam feito amor pela primeira vez. Após se entregarem uma à outra, Joana fora embora chorando e desde então, evitava Olívia em todos os lugares. Na escola, mesmo que tentasse manter as aparências de que nada havia acontecido, não se permitia ficar sozinha com Olívia. Continuou o seu namoro com Leonardo e fingia para todos e para si mesma que nada havia mudado.
Em princípio, Olívia tentou conversar com ela, mesmo que fosse para pôr um ponto final naquela historia, precisava ouvir de Joana que não havia significado nada, que ela dissesse que não sentia a mesma coisa, precisava desesperadamente, de qualquer sinal de que aquilo não era uma fantasia sua, que de fato tinha acontecido. Sofria ao ver Joana rindo e brincando entre os amigos e com o Leo ao seu lado. Preferiu se afastar de vez. Se Joana não a queria, não insistiria.
Em uma tarde, Olívia estava saindo da escola quando elas se cruzaram no portão. O coração acelerado e as mãos suadas denunciavam o nervosismo que Olívia sentia. Joana também estancou e nos seus olhos Olívia pode ver medo e de alguma forma, saudade.
Ficaram assim, a se encararem por alguns segundos. Logo Léo e um grupo de amigas das duas se aproximaram. Olívia desviou o olhar e já começava a se afastar, quando Lilian a chamou.
- Ei Olie. – Ela esperou que Olívia se virasse antes de prosseguir. – Te coloquei no nosso grupo para o trabalho de historia. Nós vamos nos reunir hoje na casa da Clara para começar o trabalho. Às sete e meia. Tudo bem pra você?
Olívia encarou Joana, mas esta desviou o olhar. Percebeu ali que era ela quem estava abrindo mão de tudo sozinha. Joana continuava vivendo a vida dela com os amigos, o namorado. Sentia falta das suas amigas. Não tanto quanto de Joana, mas sentia falta da vida que tinha antes daquilo tudo acontecer.
- Tudo bem. Eu levo as bebidas. – Respondeu marota, como era costume seu.
- Finalmente você esta de volta. – Exclamou Thais. – Achei que iria permanecer um zumbi para sempre.
Todos riram da brincadeira, menos Joana que continuava a encarar os próprios sapatos. Olívia se despediu de todos e seguiu para casa. Estava decidido, se Joana queria fingir que nada havia acontecido, ela também o faria. Estava cansada de se esconder e sofrer sozinha.
Naquela noite, seguiu para a casa de Clara sentido uma dor de estomago constante. Pensara em desistir inúmeras vezes enquanto se arrumava, mas então lembrou-se de quem era. Sempre fora descolada, atrevida, desinibida. Era conhecida por ser durona, o que na verdade era uma fachada para esconder suas dúvidas e medos, mas que lhe servia bem. Enfrentaria este momento de cabeça erguida e se isso incomodasse Joana, ainda melhor.
Como qualquer grupo de adolescentes que se reúne para fazer um trabalho de escola, em menos de vinte minutos elas nem ao menos sabiam do que se tratava a matéria. Estavam absortas em colocar a conversa em dia, fazer confidências e beber toda vodka que o pai da Clara tinha escondida em casa. Os pais dela estavam viajando, e a irmã mais velha, que deveria supervisioná-la, havia saído com o namorado, melhor para elas.
Mesmo ainda distantes Olívia e Joana participavam das conversas e brincadeiras. Não se olhavam ou ao menos dirigiam à palavra uma a outra, mas se divertiam e por alguns momentos, parecia de fato que nada havia acontecido.
Um pouco alteradas pela bebida, começaram uma brincadeira de verdade ou conseqüência incentivadas pela Thais. Ela era, com exceção da Joana, a amiga com quem Olívia tinha maior afinidade.
- Eu começo. – Gritou Thaís, girando a garrafa vazia no meio do grupo. – Há! Clara para mim. Pode mandar Clarinha. Estou preparada.
- Ok. Então, lá vai. Até onde você foi com o Cadu?
Todas as meninas riram da cara da Thais perante a pergunta.
- Com o Cadu? Bom, nós fizemos tudo. – Thais falou orgulhosa, mas ao mesmo tempo, corando intensamente.
- Quero detalhes. – pediu Clara.
- Ah, gente. Vocês sabem... tudo. Amasso, beijo e sexo.
- Hum... sexo. Tem certeza? – Clara incentivava e provocava ao mesmo tempo.
- Claro né! Eu hein.
- E como foi? – Lílian perguntou. Em geral ela era tímida, mas Olívia achou que a vodka já fazia efeito.
- Bom. Mas com o Rafa é melhor. – Thais respondeu encerrando. – Vamos ver quem vai ser a próxima vitima. – Girou novamente a garrafa e caiu de Lílian para Joana.
- Jo, e você e o Léo? Que vocês transaram, nós já sabemos, mas quero saber se você gozou?
- Meu Deus, isso daqui esta mais quente do que eu imaginava. – Thais falou rindo.
- Ah, que pergunta Lili. – Joana desconversou.
- Tem que responder, Jo. – Thais cobrou.
- Não. – Joana respondeu, e seu olhar cruzou com o da Olívia.
- Não?- Clara perguntou. – Então o Leo não sabe mesmo o que esta fazendo. – Todas riram, inclusive Joana, que mesmo sem graça não deixou de olhar intensamente para Olívia.
Continuaram a brincadeira e as perguntas se tornavam cada vez mais íntimas. Olívia conseguira escapar de algumas revelações com brincadeiras, em outras situações, simplesmente escolheu conseqüência e com isto, já havia bebido quase metade da outra garrafa de vodka que haviam aberto.
- Agora tem que responder Olie. Você já transou? – Era Clara perguntando. Ela estava afiadíssima e louca para fazer esta pergunta a Olívia.
- Já. – Respondeu simplesmente e evitou o olhar de Joana.
- Precisamos de mais, Olie. Quem, quando, onde, como? – Thais reclamou.
- Vocês perguntaram se eu já transei, eu respondi. Não adianta perguntar com quem, como foi, quais posições, porque eu não vou falar. – Disse ascendendo um cigarro.
- Transou nada. – Provocou Clara. – Pode admitir amiga. Ser virgem não é doença.
- Eu sou virgem. – Lílian falou rindo.
- Nós sabemos Lili, e vamos mudar isso em breve, certo? – Thais falou.
- Se Deus quiser e o Diabo baixar. – Lílian falou rindo.
- Mas é serio Olie, porque você não se abre com a gente. Eu já falei coisas muito íntimas hoje, porque eu sei que nunca sairão daqui. Pode falar amiga. – Thais pressionou.
- Que pressão gente. A Olie fala se quiser. Vamos continuar. – Joana interveio.
Olívia olhou na direção de Joana e por um momento seu coração parou. Joana estava com medo que ela entregasse o que aconteceu com elas? O ódio lhe atingiu em cheio no peito. Levantou e deixou a sala. Pode ouvir ao longe Thais perguntar: “O que deu nela?” e Clara responder: “Absolut”.
Andava de um lado para outro na varanda, sentindo o vento frio da noite e uma angustia gigante a lhe comprimir o peito. A expressão, “tem um elefante sentado em cima de mim”, enfim fez sentido.
Ouviu que alguém se aproximara, imaginando ser uma das suas amigas, continuou virada de costas para a porta. Foi a voz dela que a despertou.
- Desculpa Olie. Eu achei que você precisava de ajuda lá dentro. – Joana disse em um tom baixo de voz.
- Não. Você achou que eu iria falar alguma coisa. – Olívia rebateu dura, virando de frente para ela.
- Não, não achei. – Joana respondeu a encarando.
Ficaram neste desafio silencioso por alguns segundos. Joana foi a primeira a ceder, desviou o olhar e se virou em direção a casa.
- Você vai continuar me ignorando? – Olívia perguntou.
- Eu não to te ignorando. – Joana disse como um reflexo. Logo se arrependeu. – Você tem razão, eu to.
- Então fala o que você está pensando Jo. Esse silêncio esta me matando. – Olívia enfim soltou. – Se eu pudesse voltar atrás...
- O que? – Joana a interrompeu. – Se pudesse voltar atrás o que faria?
- Eu teria guardado o que eu estava sentindo pra mim. – Olívia disse com um nó na garganta. – Não teria tentado nada, dito nada, e talvez agora, pudéssemos estar lá dentro, rindo e brincando sem este peso entre a gente.
Vendo-a fragilizada, Joana se aproximou e tocou seu rosto delicadamente. Olívia estremeceu com o contato. Sentiu a respiração presa dentro do peito e a palma da mão quente de Joana em seu rosto. Fechou os olhos com um suspiro.
Em um impulso, Joana tomou-lhe os lábios com os seus em um beijo doce, mas repleto de significados. Surpresa com a atitude dela, Olívia simplesmente se deixou beijar.
- Desculpa. – Joana disse em meio às lagrimas que já teimavam em descer. – Eu tenho sido horrível com você.
Olívia a puxou para seus braços e ali a abrigou. Ficaram abraçadas durante um longo tempo sem nada dizer. A verdade é que as duas estavam sofrendo. Sofriam por não estarem juntas, sofriam pela possibilidade de ficarem, sofriam pelo o que aquilo significava na vida delas... Dores que pareciam se extinguir quando se sentiam próximas daquela forma.
- Eu não estou te cobrando nada Jo. Sinto sua falta. – Olívia quebrou o silêncio, mas não a soltou. Continuou fazendo carinho em suas costas e em seu cabelo.
- Também sinto a sua. – A voz de Joana saiu abafada, pois tinha seu rosto afundado no peito de Olívia. – Eu to com medo. – Confidenciou baixinho, fazendo com que Olívia a apertasse ainda mais forte em seus braços.
- Eu sei. – Disse por fim. – Mas também não consigo mudar como me sinto.
Joana se remexeu lentamente, somente o bastante para posicionar o seu rosto de frente para o de Olívia. A beijou novamente, e dessa vez o beijo foi profundo e repleto de desejo. Uma apertou a outra ainda mais forte contra si, colando os corpos, buscando tornar possível a fusão, a ocupação de dois corpos num mesmo espaço.
Pararam para tomar fôlego, e os olhos de amêndoa eram fogo. Olívia tocou o rosto que tanto amava com seus dedos trêmulos, Joana desceu os lábios pelo rosto e pescoço dela, lhe provocando arrepios.
- Quero ser sua Olie. – Confidenciou em seu ouvido.
- Então pára de fugir de mim. – Olívia pediu, passando os dedos pelo rosto dela.
Joana a abraçou mais forte, sentindo que ali poderia ficar para sempre. Sentia-se segura nos braços de Olívia, de uma forma que ninguém mais era capaz de fazê-la sentir. Podia não entender aquele sentimento, mas negar que ele era real se tornava a cada dia mais difícil.
Apertando-a em seus braços, Olívia passou os lábios pelo pescoço dela, saboreando o gosto salgado da pele. A amava tanto. Esperara tanto que ela admitisse que não lhe era indiferente. Beijou-lhe o pescoço, o rosto, a boca. E a entrega de Joana lhe deixou de pernas bambas.
- Eu não vou mais fugir. Prometo. – Joana disse olhando-a nos olhos. – Não consigo viver sem você, Olie.
- Nem eu sem você. – Olívia sorriu. – Mas também não quero te pressionar a nada.
- Você não esta me pressionando. Eu que não consigo mais fingir que não sinto um monte de coisas por você, que por mais confusas que sejam, eu não quero deixar de sentir. – Respirou fundo e fez um carinho no rosto de Olívia. – Você é linda, sabia?
- Não. Linda é você. – Olívia retrucou.
- Será que uma vez na vida, você pode receber um elogio e apenas agradecer? – Joana colocou as mãos na cintura, o que Olívia não poderia achar mais charmoso.
- Ok. Obrigada. – Olívia se rendeu. Ainda a encarando, perguntou o que vinha engasgado desde cedo. – E o Leo?
- Eu vou terminar com ele amanhã mesmo. – Falou segura.
- Tem certeza? – Olívia precisava saber.
- Absoluta. – Joana confirmou. – Não sinto por ele nem metade do que sinto por você. – Conseguiu tirar um sorriso lindo de Olívia com essa declaração. – E além do mais, quero ser sua namorada. Mesmo que ainda não possa contar pra todo mundo, é o que eu quero ser.
- Você é muito careta mesmo Jo. – Olívia falou rindo, mas imensamente feliz que assim ela quisesse. A queria sua. E não importava nem um pouco que só elas soubessem disso, bastava. – Então, você quer namorar comigo? – A proposta continha um coração na mão, que entregava a Joana sem medo, sem prudência, mas com toda a sua alma. E Joana pode ver isto em seus olhos. Emocionada, respondeu:
- Já sou sua. – Beijou Olívia para selar o momento, e juntas, voltaram para a casa.”.
Ao terminar de colocar os pequenos pães no forno, Joana se voltou para a porta e se deparou com Olívia a olhando profundamente. Estava linda, com a sua calcinha preta e larga característica, e uma camiseta regata branca. Sorriu, mesmo sem saber que sentimento a outra estava tentando lhe passar. O sorriso leve veio como resposta, fazendo com que Joana não resistisse, e vencesse a distancia entre elas, enlaçando Olívia pela cintura.
- Está aqui há muito tempo? – Perguntou sedutora.
- O bastante pra já te querer nua de novo em meus braços. – Foi a resposta sussurrada ao pé do ouvido que Joana recebeu.
- Não provoca Ollie. Fome esqueceu? – Joana se afastou tocando de leve seus lábios aos dela.
- Certo. – Olívia suspirou insatisfeita. – Uma fome de cada vez.
Joana riu e seguiu até a pia para terminar de preparar a salada.
CAPÍTULO 8 - Despedida parte 2
Almoçaram às quatro horas da tarde sentadas nas almofadas da sala. Olívia ainda se impressionava com a naturalidade daquela convivência após tantos anos. A sensação que tinha, era de que nunca haviam se separado. Existia, é claro, uma nuvem constante sobre elas. Ambas tinham seus medos e suas teorias do que estava acontecendo, mas não partilhavam. Olívia via aquele momento como um universo paralelo. Para ela, estavam vivendo intensamente a realização de um sonho, mas que a hora de acordar chegaria logo e deixaria um vazio imenso.
Para Joana, ela se reencontrava com ela mesma, mais do que encontrava o seu amor. Sabia que fizera Olívia sofrer muito em uma época, em que esta não tinha estrutura para isso, e que este fato deixara marcas. Mas cada vez que a olhava, ou que a ouvia falar, e tendo tido a oportunidade de conhecê-la novamente, mais se encantava por essa mulher firme, decidida, um pouco ainda rebelde como sempre fora, mas extremamente justa e responsável. Apaixonava-se cada dia mais, e tinha a certeza de que não era um reflexo do sentimento que um dia nutriu por ela, se apaixonava pela mulher a sua frente, mas sabia também que ainda não era o momento certo para viver aquele amor, e temia magoar Olívia mais uma vez se fizesse promessas que não poderia cumprir de imediato.
Após o almoço, tomaram um banho longo, em que mais uma vez se amaram. A sensação de despedida as acometia a todo instante, e um desejo de aproveitar cada segundo, se tornava latente.
À noite, seguiram até o bar do Bola para se encontrarem com Guto e Marcinha, que também haviam passado o dia em suas despedidas, já que as duas seguiriam de volta para Teresópolis logo após a prova no dia seguinte.
Olívia ficou surpresa ao ver Marina e Clarissa sentadas à mesa com o casal. E se chegou já indagando a amiga com os olhos. Em uma troca rápida de olhares, percebeu que ela não estava nada bem.
- Resolveram finalmente sair da cama? – Guto implicou abrindo um sorriso safado para as duas lindas mulheres, que se aproximavam de mãos dadas. E levando uma cutucada nada discreta da namorada.
- Não foi idéia minha sair da cama. – Olívia revidou como sempre faziam.
- Amor! Olha a indiscrição. – Joana falou com um sorriso tímido e escondendo o rosto no ombro de Olívia.
- Eu ouvi mesmo certo? ‘Amor’? – Theo falou já caindo na gargalhada. – Quem te viu quem te vê dona Olívia. Que eu saiba você não dá essas intimidades para as suas namoradas.
Olívia fechou a cara ao ver a expressão de Joana desmoronar. Não que ela logo não tenha se refeito, mas esteve ali, a decepção. Em um reflexo, segurou-lhe a mão. Percebeu que não queria decepcioná-la. Não queria que ela pensasse que era mais uma de suas tantas mulheres, seus casos. Ela era muito mais do que isso.
- Privilégio de poucas. – respondeu no mesmo tom brincalhão de Theo.
- É a primeira vez que eu escuto. – Ele continuou rindo sem perceber o clima que seu comentário criou. – Ou melhor, teve a Estela, mas foi falar uma vez só, que você terminou com ela no mesmo dia.
Olívia nem se deu ao trabalho de responder, e seguiu até o outro lado da mesa, onde a Joana já havia se sentado, e tomou o lugar ao lado dela.
- Às vezes eu me esqueço que você já foi de tantas. – Joana não controlou o ciúmes e nem o comentário. Mesmo que este tenha sido feito em baixo tom, apenas para Olívia ouvir.
As duas se encararam e demorou um tempo para que Olívia respondesse. Queria dizer que amor, só foi dela, mas achou melhor não arriscar ainda mais seu coração.
- Não, não fui. Sexo não é sinônimo de entrega, não se esqueça disso. – Dito isto, Olívia se levantou e seguiu para a porta, no que foi acompanhada por Nina, que até então havia apenas as cumprimentado.
- Você não tem jeito mesmo. – Nina já chegou falando. – Não disse nada pra ela, não é mesmo? – O olhar que dirigiu a Olívia, era afável. Uma repreenda em tom de brincadeira.
- Falei o que achei que devia. – Foi a resposta estourada, em meio a uma baforada do cigarro.
- Cabeça dura demais, você. – Nina encostou também na parede, e filou um cigarro da amiga. – Mas estão vivendo “in love”, não estão?
Olívia soltou o ar pesadamente, antes de encarar a amiga nos olhos e fazer um sinal positivo com a cabeça. Sim, estavam vivendo in love. Mais do que deveriam.
-Ah, amiga. Amor é coisa complicada. Às vezes eu me pergunto se vale mesmo a pena.
- Você e a Clau? – Não precisava dizer mais nada, para que a outra entendesse do que ela estava falando.
- Acabou. – Disse triste. – Conversamos muito e chegamos à conclusão de que era o fim. É triste, mas estou mais leve desde então.
- Ela te traiu?
- Ela diz que não, mas não nega a atração que sente por aquele merdinha. – Raiva. Ao menos isso, pensou Olívia. – Mas o importante não é ele. Ela não me ama mais como antes e esta se abrindo para novas possibilidades. Se me dói constatar isso? Muito. Mas a verdade é que com tudo isso, eu também não sei mais o que eu sinto por ela.
- E estão fazendo o que juntas aqui? – Olívia perguntou indignada.
- A convite do Guto. E está tudo bem. Nós somos adultas, e a Clarissa nem saiu da minha casa ainda.
- E da sua cama, ela já saiu?
- Já. Mas a minha cama e os meus braços, ela já havia deixado há muito tempo, Li.
Ficaram em silencio. Cada uma com seus pensamentos. Perdidas em divagações sobre suas próprias vidas. Olívia podia ver a dor que a amiga sentia, mas conhecia Marina muito bem para saber que ela lidaria com tudo isso de forma natural e sem perder o bom humor. Nunca fora mulher de se entregar às dificuldades da vida, não começaria agora.
- E então, amor vale à pena? – Saiu mais sarcástica do que ela pretendia.
Nina a encarou, vendo nos olhos dela o quanto estava resistindo ao sentimento que já estava fazendo morada dentro dela. Olívia amava Joana e isso era claro desde o dia em que lhe contara a historia das duas, mas estava ainda mais forte, mais presente neste momento. Após soltar a fumaça do cigarro no ar, desviando assim o olhar daquele verde intenso, Nina enfim respondeu serenamente:
- Vale minha amiga. O pior é que vale. – Diante da expressão incrédula da outra, continuou. – Toda a dor que eu estou sentindo agora, é recompensada por toda a felicidade vivida plenamente ao lado daquela mulher. – e apontou para dentro do bar. – Acredite em mim, não me arrependo de nada. E se acontecer de eu me apaixonar de novo, o que eu confesso desejo muito, vou viver tudo intensamente como se fosse à primeira vez.
- Quem é você e o que fez com a minha amiga? – Olívia não resistiu.
- Até as cachorras amam. – Nina respondeu em meio ao riso. – E nós somos as provas vivas disso.
De volta à mesa, Olívia se acomodou ao lado de Joana mais uma vez. Esta lhe lançou um olhar tristonho, mesmo que nos lábios, um sorriso tenha surgido, ainda que tímido, lindo.
Por de baixo da mesa, Olívia tocou-lhe a perna, repousando ali sua mão. Se encararam, e se entenderam. Não era momento para conversas mais profundas ou crises de ciúmes.
Aparentemente, ninguém mais sabia do rompimento de Marina e Clarissa, e Olívia deixou como estava. Tratou a ex-namorada da amiga o mais cordialmente possível, foi educada, mas deixou claro com a distância que impôs que sabia o que havia acontecido, e que não concordava com a atitude da loirinha.
Entre brincadeiras, principalmente partindo do Guto e do Theo, o clima estava descontraído. Em vários momentos, Joana e Olívia se tocavam. Um carinho no braço, na perna. Olhavam-se e sorriam uma para outra. Sem perceber, se portavam como um casal apaixonado.
Foi a chegada de um grupo de meninas ao bar que abalou o clima na mesa. Nina, antes mesmo de Olívia, anteviu o perigo. Ao menos três das meninas do grupo, já haviam passado pela cama de Olívia, mesmo que esta não tenho lhes dado mais do que algumas horas de prazer, todas, invariavelmente, se lembravam muito bem dela.
- Olívia, que prazer! – Uma mulher alta, loira, cabelos longos, vestido curto, olhos azuis e um corpo escultural, se aproximou sorrindo. – Não te vejo mais pela noite. Achei que tivesse acontecido algo grave com você.
- Oi, Vivian. – Olívia a cumprimentou com um sorriso sem graça.
- Nossa! Não ganho nem um beijo, um abraço? – A outra falou provocante e já um pouco alterada pela bebida.
Olívia a olhou sem graça e se voltou para Joana, que neste momento, já havia abaixado a cabeça como lhe era característico, e rodava uma tampinha entre os dedos. Marina resolveu intervir antes que a situação se tornasse ainda mais desconfortável.
- Ola, Vivi. – Se ergueu para cumprimentar a mulher. – Tudo bem com você?
- Nina! Está ainda mais linda do que eu me lembrava! – Falou graciosa, depositando dois beijos molhados no rosto de Marina.
Marina sorriu sedutora. Viu Clarissa se mexer ao seu lado na mesa, mas ignorou. Poderia estar sendo civilizada quanto ao término, mas isso não queria dizer que não tinha prazer ao constatar o ciúme da outra.
- Venha beber algo comigo. – Marina chamou, já pegando a loira pela mão. Esta olhou para Olívia e sorriu, e então seguiu Nina até o bar.
- Uau. Você e a Nina já pilotaram aquele avião? – Guto brincou.
- Guto! Lembra de mim? Marcinha, sua namorada. Muito prazer! – Ela estendeu a mão para ele com os olhos arregalados.
- Oh meu amor! Foi só uma brincadeira. Você é mil vezes mais linda e eu te amo! – Segurou as mãos da namorada, e beijou-lhe os lábios delicadamente. – Além do mais, não gosto desse tipinho. Acho vulgar. – Falou alfinetando Olívia, que não dava nenhuma atenção às provocações. Estava totalmente concentrada em Joana, que desde o ocorrido, havia ficado muda ao seu lado.
Não demorou muito, e Clarissa pediu licença e decidiu ir embora. Não sem antes passara ao lado de Marina, que conversava animadamente com Vivian no bar. Despediu-se dela e disse que a esperava em casa. Nina, não perdendo tempo, avisou que talvez não fosse para casa àquela noite. Estava dando o troco, e da forma mais baixa possível.
Quando Guto já enrolava a língua para falar, Marcinha resolveu leva-lo para casa com a ajuda de Theo, que apesar de ter bebido tanto quanto o amigo, ainda tinha controle dos seus movimentos. Joana se ofereceu para ajudar, e Olívia se foi com eles.
As duas não trocaram uma palavra por todo o caminho. Olívia e Theo iam à frente carregando Guto, que cantava animadamente, do que ela não poderia deixar de rir junto ao Theo. Alguns passos atrás, Marcinha deu o braço a amiga e sorriu para ela. Estava esperando o momento para enfim se meter naquela historia. Havia deixado Joana fazer o que queria, mas naquela noite, percebeu que não era apenas uma aventura, ela estava envolvida, profundamente envolvida com a sua cunhada.
- Jô, o que vocês estão fazendo? – Perguntou baixinho com uma tensão na voz.
- Eu não sei amiga. Eu achei que soubesse, mas na verdade, eu não sei. E duvido muito que a Olie saiba. – Respondeu triste.
- Você esta apaixonada por ela?
Joana não respondeu. Não sabia como dizer que amava Olívia sem soar completamente louca. Estava apaixonada. Ainda apaixonada por Olívia. Porque agora que estava ali ao lado dela e se dera conta do que sentia, percebeu que nunca deixou de sentir. Pode ter amado outras pessoas, mas não como a amava. Mas Olívia era inconstante, fechada em seu próprio mundo. Não permitia a entrada de Joana, com exceção de raros momentos em que abaixava a guarda, para logo em seguida, reergue-la.
- Está, não está? Eu tinha certeza! – Marcinha soltou. – Você enlouqueceu?
Joana a encarou assustada com o tom que ela usou, e ergueu uma sobrancelha para a amiga.
- Porque ela é mulher? – Joana a desafiou.
- Claro que não, né Jô?! Eu lá tenho esse tipo de preconceito?! – Se acalmou. – Mas a Olívia? Me desculpa, amiga, mas mesmo sendo a minha cunhada e eu gostando de verdade dela, que eu saiba ela nunca levou ninguém a serio. O Guto mesmo fala. Ele se preocupa com ela. Diz sempre que a Olívia vai terminar sozinha, porque usa as mulheres e joga fora.
- Eu sei. – Joana enfim deixou essa constatação entrar nela. – A Olie se fechou para as outras pessoas. Não permite a entrada de ninguém. E a culpa é em boa parte minha.
- Como assim sua Jô? Por que vocês foram namoradinhas na escola?! – Marcinha revidou. – Isso não justifica ela ser tão leviana com os sentimentos das pessoas. As mulheres se apaixonam por ela e ela simplesmente some da vida delas.
- Não, Marcinha. Porque ela foi meu primeiro amor e eu o dela. Eu a magoei muito, e agora ela não me permite entrar com medo que eu o faça de novo. – Suspirou. – E como eu posso garantir que não vou fazer? Eu não posso me esquecer que eu tenho a Bela e o Dé na minha vida. Ela não merece que eu a machuque de novo.
- E ela pode te machucar? – Segurou o braço da amiga e a fez se virar para ela. – Eu vi como você ficou hoje quando aquela mulher veio falar com ela. – Marcinha acariciou o rosto triste da Joana. – Que garantias você tem que ela vai ficar com você? Você vai arriscar tudo por ela?
Joana não respondeu. Estava se perguntando a mesma coisa a noite toda. Estaria disposta a jogar toda a sua vida pro alto pra viver aquele amor, sabendo que poderia não ser correspondida? Precisava de uma certeza de Olívia. Precisava da força dela.
Subiram as escadas com dificuldade. Olívia e Theo depositaram Guto na cama dele e voltaram para sala assim que Marcinha e Joana entravam também em casa.
- Preciso de uma cerveja bem gelada depois desse esforço! – Exclamou Theo se jogando no colchonete da sala.
- Precisamos. – Olívia fez coro e se dirigiu a cozinha.
- Ele apagou? – Marcinha perguntou entrando na cozinha logo atrás de Olívia.
- Apagou. – Pegou as duas latinhas para voltar para a sala. – E se eu bem conheço, só acorda amanhã agora.
- Olívia. – Marcinha falou após um segundo de silencio. – O que você sente pela Jô? – Foi direta como sempre.
- Eu... – Olívia apoiou as latas na pia e se virou para a cunhada. – Marcinha, eu sinceramente não pretendo ter essa conversa com você. Eu posso entender que a Jô é sua amiga e que você se preocupe com ela, mas isso é entre eu e ela.
- Você tem razão. – Marcinha admitiu. – Só te peço pra tomar cuidado. A Jô não é como as outras mulheres com quem você sai.
- Não, ela não é. – Olívia respondeu sem deixar margens para que Marcinha revidasse. Pegou as latinhas na pia e passou por ela, olhando-a dentro dos olhos.
Voltou para a sala, e Marcinha seguiu para o quarto do Guto com uma garrafa d’água.
- Aqui, Theo! – Entregou a latinha para ele e sentou-se ao seu lado. – Cadê a Jô? – Perguntou assim que notou a ausência da sua morena. “Sua”? Seria mesmo? Não, não era.
- Entrou no quarto. Disse que tinha que deixar as coisas prontas para amanhã. – Ele respondeu e fitou a amiga. – Li o que ta rolando entre você e essa gata? Nunca te vi tão comportada assim!
- Ah, Theo! Não torra! – Virou a cerveja.
- Ok. Foi mal! Mas que você ta estranha, isso ta. – Foi a resposta dele antes de levantar. – Bom, já fiz minha boa ação do dia. E juro que não me aproveitei do corpinho do seu irmão... só um pouquinho. Mas a culpa foi dele.
- Você não vale nada mesmo! – Olívia sorriu. – Muito obrigado, amigo!
- Disponha! – Ele riu e deu dois beijinhos nela antes de se dirigir a porta e sair.
Olívia ainda ficou um tempo na sala. Terminou de beber a sua cerveja e a do Theo e só então tomou coragem para entrar no quarto.
Encontrou Joana deitada na cama só de calcinha e camiseta. Os cabelos longos e com cachos nas pontas, caíam sobre o travesseiro formando uma moldura para o seu rosto. Ela estava de olhos fechados, mas Olívia duvidava muito que estivesse dormindo. Aproximou-se tirando os tênis, depois a bermuda e por fim a blusa, ficando só de calcinha.
Deitou-se ao lado dela em silencio e sem tocá-la. Ficou escutando a respiração entrar e sair, e não se arriscou a olhá-la. Sabia que não teria força para resistir.
Após uns dez minutos nessa posição, Olívia desistiu. Aproximou-se de Joana na cama se enlaçou junto ao corpo dela, enfiando o rosto no pescoço, e sentindo aquele perfume que a inebriava. Não sabia mais como seria capaz de sobreviver sem isso. Na verdade, não sabia mais como viveria sem ela.
Joana abriu os olhos e pensou nas milhares de coisas que gostaria de falar. Mas o gesto simples de Olívia a havia quebrado. Sentir o corpo dela tão próximo e aconchegado ao seu, era o que realmente queria e precisava naquele momento. Retribui a abraçando de volta.
Nesta noite, não transaram. Ficaram curtindo estarem uma ao lado da outra, o calor dos corpos, as respirações que se confundiam, os pequenos toques que arrepiavam a pele. Nada disseram apenas se olharam por horas e se acariciaram delicadamente. Dormiram juntas. Unidas. Fundidas. Não sabiam onde uma terminava e começava a outra.
**** X****
Joana acordou com o barulho insistente do despertador. Sentiu o corpo de Olívia às suas costas. O braço dela em volta da sua cintura, uma das pernas entre as suas, a respiração profunda, cadenciada, em sua nuca. Não queria ter que sair daquela posição. Não queria ter que se mover. Era a hora de dar adeus aquele momento de sonho, e ela não se sentia pronta.
Tentou esticar o braço para pegar o celular ao lado da cama, mas foi impedida por um abraço forte. Olívia a segurava junto ao seu corpo.
- Por favor. – Sussurrou. – Não sai daqui.
Ela tinha acabado de despertar e um aperto no peito lhe atingiu em cheio. Queria mais alguns minutos, horas, dias, anos... Queria o para sempre das historias infantis, dos contos de fadas.
- Ollie... – Joana disse fraca. Não queria sair dali.
- Eu sei. – Foi só o que a outra falou antes de afrouxar o braço.
Joana desativou o despertador, e se voltou de frente para ela. Olívia tinha os olhos marejados, deixando o verde ainda mais intenso e profundo. A encarava deixando transparecer toda a angustia que levava no peito.
Com os dedos trêmulos, Joana tocou o rosto pálido da mulher amada. Delicadamente o contornou, decorando cada linha, cada expressão. A observou fechar os olhos, com o indicador e o dedo médio, percorreu toda a face e se ateu aos lábios entreabertos que se ofereciam doces, macios. Aproximou o seu corpo do dela e tomou-lhe os lábios com os seus. Uma caricia leve que foi logo retribuída. Olívia a puxou para junto de si, e invadiu a sua boca com a língua quente, úmida.
Do beijo o fogo se acendeu. Joana montou sobre ela, esfregando seu corpo ardente, com desejo, necessidade, vontade. Sendo tocada com a mesma intensidade. Nada disseram, seus corpos eram muito mais eloqüentes naquele momento. Se desvencilharam das poucas peças de roupa que ainda impediam o contato direto de pele com pele.
Joana desceu com lábios, língua e mãos, pelo corpo de Olívia. Decorava a sua extensão como havia feito com o rosto, deixando uma marca de fogo na pele branca. Ao chegar aos pés voltou devagar, saboreando cada parte até alcançar o sexo molhado e nele se deleitar.
Chupou Olívia alternando entre lentos movimentos, sentindo cada parte com a ponta da língua, e rápidos, excitando, fazendo o clitóris crescer na sua boca e a molhar ainda mais, quando com um gemido profundo, Olívia tremeu e gozou.
Rapidamente voltou a tomar-lhe a boca. Colocou a coxa entre as pernas de Olívia, e sentiu-a encharcá-la, se esfregando ainda mais nela. Olívia a girou na cama e se colocou por cima dela. Seus olhos se encontraram, estavam repletos de desejo e luxuria, mas ainda presentes o amor e a doçura que Joana havia visto antes.
Se esfregando sobre sua amada, Olívia tocou-lhe entre as pernas. Joana pulsava em seus dedos, deliciosa. Beijou-lhe a boca ao introduzir seus dedos na cavidade molhada, e nos lábios de Joana se perdeu. Ficou olhando o rosto dela se contorcer em prazer ao massagear-lhe o clitóris com o dedão. Sentiu o corpo todo tremer, e aumentou o contato, Joana era linda gozando.
Os olhares se encontraram e elas recomeçaram. Olívia queria gozar com ela, então a virou em um sessenta e nove. Línguas e dedos as levaram a loucura ao mesmo tempo e na mesma intensidade, os gemidos antes contidos, ecoaram alto nas paredes do pequeno quarto.
Puxando-a para junto de si, Joana tomou-lhe em um beijo longo e repleto de significados. Sentiu as lagrimas escorrerem de seus olhos, mas não se importou. Estava se sentindo frágil demais para ampará-las ou impedi-las.
Olívia sentiu as lágrimas se misturarem a saliva, e aprofundou o beijo. Queria tanto que fosse capaz de jurar o amor que sentia transformando-o em palavras, mas não conseguiu. Demonstrou da forma que sabia fazer melhor, colou seu corpo ao de Joana e sem abrir os olhos, beijou-lhe todo o rosto, bebendo de suas lagrimas, descendo lentamente, como antes Joana havia feito com ela, querendo ter o gosto dela na boca como uma lembrança dos dias que passaram juntas.
Ao chegar ao sexo, a chupou devagar, com cuidado e delicadeza, saboreando as respostas involuntárias do corpo dela. Joana gemia baixinho a cada toque. A língua de Olívia em seu sexo era algo que ela jamais havia esquecido, e que nunca iria esquecer. Sentiu que iria gozar, então puxou Olívia para cima e olhou-a nos olhos. Tocou-lhe entre as pernas e se deliciou ao constatar o quanto estava molhada e excitada por aquele momento.
Entendo o que ela queria, Olívia se deixou entregar, e também a tocou. Gozaram juntas mais uma vez, e se mantiveram abraçadas. Os corpos suados e saciados. Os corações batendo juntos, a respiração começando a se amansar.
- Eu te amo! Não importa se você acredita ou não, nem te peço que sinta o mesmo, mas eu quero dizer, eu te amo. – Joana disse olhando-a nos olhos.
Olívia beijou-lhe os lábios com doçura antes de responder.
- Você sabe como eu me sinto Jo. – Falou mirando aqueles olhos amendoados. – Sempre soube. E mais uma vez, isso não basta.
Joana sentiu a derrota que já a assolava, duplicada. Olívia também se sentia derrotada e não havia nada que pudesse fazer para mudar este sentimento. Mais uma vez ela iria deixá-la e não importava que tivesse intenção de voltar correndo para ela, neste momento, não podia.
Abraçaram-se longamente antes de deixarem a cama. Joana foi direto para o chuveiro, e Olívia para a cozinha. Quando Joana deixou o banheiro, havia um café da manhã completo posto na mesa da sala.
- Inacreditável. – Soltou com um sorriso.
- Você precisa se alimentar bem antes da prova. – Olívia correspondeu ao sorriso.
Sentaram-se a volta da mesa para tomarem café. Logo Marcinha se juntou às duas. Estava com a expressão cansada, de quem não dormiu bem a noite, mas ao contrario do que as duas pensaram quando a viram, não tinha sido uma noite em claro cuidando de Guto. Ele saiu do quarto, também cansado, mas parecendo feliz. Pelo jeito elas não tinham sido as únicas que se despediram com sexo.
Durante o café, Marcinha pareceu querer deixar claro para Olívia que a pequena desavença tinha se esvaído. Não comentou nada quando as viu de mãos dadas, nem quando trocaram um beijo longo ao se despedirem a porta no momento que as duas deixavam o apartamento com suas malas.
- Eu sei que você me pediu para não fazer promessas... – Joana começou, mas Olívia a impediu.
- Não fala nada. O que importava de fato, já foi dito. Agora é com o tempo. As coisas vão acontecer se tiverem que acontecer, Jo.
Elas se olharam longamente em frente ao prédio.
- Bora, Jo! Ou vamos nos atrasar! – Marcinha gritou de dentro do táxi.
- Não me esquece. – Joana pediu ao ouvido de Olívia. – Eu te amo! – Repetiu.
- E eu você. – Olívia rebateu roubando-lhe um beijo que provavelmente escandalizou toda a sua vizinhança que passava pela rua naquele momento. – Agora vai. Boa prova.
Joana sorriu de dentro do táxi, antes do carro partir. Olívia voltou pelas escadas com Guto silencioso ao seu lado. Entraram juntos no apartamento, e ele se jogou no colchonete da sala.
- Você ta bem? - Perguntou ao ver a irmã parada, parecendo desnorteada, no meio da sala.
- To. Vou pro banho. – Falou sem olhá-lo nos olhos e seguiu para o banheiro. Ligou o chuveiro, tirou suas roupas e entrou de baixo da água, deixando que suas lágrimas se misturassem com ela. Sentiu o soluço que não foi capaz de silenciar, sair dolorido de seu peito. Saudade.
Capítulo 9 - A vida que segue
Logo, Olívia voltou a sua rotina. Trabalho na escola, seus livros em casa. Estava escrevendo mais do que nunca. Sabia que angustia e dor eram fortes fontes de inspiração, mas nunca havia sido tão produtivo. Em uma semana, seu livro estava nas mãos da editora e outro começava a se desenhar a sua frente.
Parou de digitar, e pegou um cigarro à mesa. Ascendeu-o e andou até a janela. Olhou a rua quase vazia e suspirou. Era uma terça-feira, e ela mais uma vez não conseguia dormir. Desde que Joana havia partido, suas noites pareciam intermináveis. Relutava em deitar na cama para sentir uma falta absurda do corpo dela ao lado do seu. Mesmo com o calor que fazia no Rio de Janeiro em dezembro, sentia a noite fria, solitária.
Soltou a fumaça e deixou a dor vir mais uma vez. Vinha travando essa luta diária, sentia a angustia vir, e a amparava trabalhando ou escrevendo, até ser vencida pelo cansaço.
Estava feliz por enfim ter algo mais em que pensar. Logo cedo Paula havia ligado pedindo para que fosse até a universidade conversar com ela sobre o mestrado. Sabia que havia passado, pois conhecia a ex-namorada e amiga bem demais, e por mais que Paula tenha tentado manter o suspense no ar, não resistiu e contou que seu projeto havia sido aceito pelo departamento de línguas. Este talvez tenha sido o momento decisivo para Olívia. Passara as ultimas duas semanas em um sofrimento velado, mas constante. A notícia do seu mestrado lhe puxou de volta ao foco de sua própria vida. Não tinha tido notícias de Joana até então, e precisava parar de esperar por qualquer contato. Não podia reduzir sua vida aquele sentimento, ou aquela mulher. Terminara seu livro e agora teria o mestrado todo pela frente para se ocupar. Seus planos futuros haviam voltado a ser o que eram antes de Joana retornar a sua vida. Agarrou-se a isso como se agarraria a uma corda durante uma escalada alta em que pisasse em falso e se visse caindo no abismo sem fim. Voltaria a subir por ela.
Apagou o cigarro no cinzeiro de latão que mantinha sempre em sua janela, e voltou para a mesa. O arquivo aberto já contava com sessenta paginas. Sessenta paginas em cinco dias. Olívia sabia que estava transpondo de uma obsessão à outra. Achou essa ao menos mais saudável. A nova historia não falava de amor, era sobre dor e solidão. Apropriado, pensou ao varrer o quarto vazio com os olhos. Aquela solidão que buscara, e agora a torturava, também precisava findar. Nunca foi mulher de sentar em casa sozinha sentindo pena de si mesma, era hora de retornar das cinzas.
Ok, ok. Estava sendo melodramática, e agradecia imensamente por ainda não terem inventado nenhum aparelho eletrônico, capaz de capturar pensamentos alheios.
No dia seguinte saiu cedo de casa, queria passar na universidade antes de ir para o conselho de classe na escola. As aulas haviam terminado e as provas também. Este era o momento hipócrita em que os professores se reuniam e decidiam o futuro dos seus alunos baseados em suas próprias crenças de merecimento. Em geral, ajudavam os alunos pelos quais sentiam simpatia, e reprovavam aqueles de quem não gostavam. Repugnante e infelizmente, imutável. Olívia não concordava com o sistema de notas e muito menos com a forma como puniam os alunos que tinham maior dificuldade ao invés de ajudá-los a superá-las. Mas, fazia parte da sua carreira acadêmica se adaptar o melhor possível, para depois tentar mudar o mundo.
Chegou ao quarto andar do Bloco B da Universidade Federal do Rio de Janeiro e se dirigiu diretamente ao corredor onde ficava a sala de Paula. Martha, a secretaria mirradinha de sessenta anos a atendeu lançando olhares de reprovação, desde a roupa, uma camiseta vermelha com desenhos psicodélicos, passando pelo jeans rasgado, ao tênis all star velho, chegando ao cabelo curto e desalinhado. Sim, ela havia tomado uma atitude quanto ao cabelo que crescia em desalinho. Voltara a cortá-lo repicado e curto, caídos sobre os intensos olhos verdes.
Elas já se conheciam, mas Martha fingia que não. Nunca aprovara a ‘amizade’ entre a Professora Paula Leite, e a estudante rebelde, Olívia Gurgel.
- Só um instante Olívia, a professora Paula esta em reunião na sala dela. – Se dirigiu a ela educadamente, mas sem deixar de transparecer seu desagrado ao vê-la ali novamente.
- Sem problemas. Eu espero. – Respondeu com um sorriso safado no rosto e uma piscadela que fez Martha fechar ainda mais o semblante. Sempre gostara de provocar Martha e tirar o sorriso cínico dos seus lábios. Paula pedia que ela não o fizesse, mas Olívia não resistia. Martha mal sabia, ou fingia que não sabia que suas incontáveis reuniões com a Paula naquela sala durante a sua graduação, eram encontros sexuais, que sem duvida, não eram propriamente abafados pelas paredes finas que separavam a sala, daquela pequena ante-sala. Aí o ar de reprovação constante na presença de Olívia.
Demorou uns vinte minutos para que a porta se abrisse. Primeiro saiu uma jovem alta, cabelos longos cor de mel, corpo bem feito, vestindo uma calça jeans e uma blusa de alcinhas amarela. Logo em seguida, Paula, um pouco mais baixa, cabelos longos castanhos, presos em um coque solto. Ela vestia uma calça social preta e uma camisa branca delicada e muito feminina. As duas se despediram com um sorriso, e Olívia teve que rir, a Paula parecia ter encontrado outra estudante.
Paula viu Olívia praticamente jogada na poltrona, as pernas abertas e o sorriso moleque que ela tanto conhecia e adorava. Sorriu para ela, o que a outra não deixou passar despercebido. Encarou Olívia a medindo. Esta lhe sorria divertida.
- Li! Que bom te ver! – Paula disse se encaminhando até a amiga que se ergueu para abraçá-la. – Achei que fosse ter que te arrastar até aqui.
- A Nina exagera. – Olívia respondeu, já deixando claro que sabia que Nina e Paula tinham andado se falando sobre a depressão dela. – Eu estou bem.
- Ok. – Paula olhou-a nos olhos antes de se virar para a moça parada um pouco atrás. – Camila, esta é Olívia, uma grande amiga minha. Olívia, esta é a Camila, minha aluna do curso de pós-graduação.
- Muito prazer, Camila! – Olívia a cumprimentou divertida, o que Paula não deixou de perceber.
- Prazer. – A outra respondeu com um sorriso incerto. – Eu preciso ir. Depois nos falamos Paula.
Saiu andando provocante e Olívia teve uma pequena crise de riso sob o olhar acusador de Martha.
- Vamos entrar. – Paula a puxou pelo braço.
Entraram na sala e Olívia se jogou na cadeira de frente para a mesa de Paula. Era uma sala pequena, com uma mesa de madeira no centro, uma estante de livros ao fundo, uma cadeira por de trás da mesa, e duas à frente. E do outro lado, um pequeno sofá de dois lugares.
- Hum, gatinha! – Olívia provocou Paula.
- Não enche Li! – Paula retrucou sem entusiasmo. Andou até a sua cadeira, e também se sentou, encarando Olívia. – Como você está? De verdade.
- Bem... Mesmo! – Respondeu sem coragem de encará-la nos olhos. Paula sempre teria esse poder sobre ela, era irritante. Talvez fosse a pessoa mais próxima de uma figura materna que ela teve em sua vida. Parece nojento pensando pelo prisma de terem sido namoradas, mas a relação de amizade e cumplicidade que construíram assim se definia. Paula cuidava de Olívia, se preocupava, a escutava e a colocava nos eixos, como ela mesma dizia. Tinha um senso de responsabilidade com relação a ela muito forte, da mesma forma como Olívia jamais queria desapontá-la.
- Mentira. Bem você não está. – Paula ascendeu um cigarro e ofereceu o maço a Olívia, que aceitou. Sempre filara os cigarros de Paula, principalmente porque na época em que namoravam, não tinha dinheiro pra bancar o próprio vicio, até que Paula começou a impor que ela arrumasse um emprego melhor e se virasse pra comprar o próprio cigarro. – Essa menina voltou virando você do avesso. – Completou soltando a fumaça no ar.
- Não é assim, Paula. Eu não vou negar que mexeu comigo, mas eu to bem. Eu sabia que seria só isso. – Falou encarando a própria mão, antes de erguer a cabeça e encará-la. – Você sentiria o mesmo se a Fátima aparecesse hoje na sua vida.
Paula sustentou o olhar, pois sabia que Olívia não tinha intenção de agredi-la, apesar de cutucar a ferida. Fátima havia sido seu grande amor, que a deixara porque não queria deixar o marido e os filhos para viver com ela.
- Ao menos você admite que ela é o grande amor da sua vida. – Permaneceu mergulhada no verde intenso dos olhos dela. Não era uma pergunta, mas uma constatação, e antes que Olívia pudesse formular qualquer resposta, Paula emendou. – Você se lembra do dia em que te questionei sobre o seu passado?
Olívia sinalizou que sim.
- Eu queria morrer. Eu estava completamente apaixonada por você. Era a primeira vez que eu deixava alguém entrar de forma tão arrebatadora dentro de mim depois da Fátima. Mas ali eu soube que você nunca seria capaz de se entregar a mim, ou a quem quer que fosse. Seu coração ainda pertencia a sua primeira namorada, e até que você fosse capaz de resolver essa questão dentro de você, não permitiria que ninguém mais entrasse. Eu soube ali, que nós não ficaríamos juntas.
- Eu te amei muito, Paula. Você sabe disso, não sabe? – Olívia se preocupou com a tristeza que viu no olhar de Paula. – Você é uma das pessoas mais importantes da minha vida, e como minha mulher, foi com quem eu tive a relação mais completa, inteira... eu quis viver tudo com você.
- Eu sei disso, Olívia. Não duvido que você tenha me amado, e sei bem da importância que temos uma na vida da outra. Mas o lugar que essa mulher ocupa no seu coração, não permite que mais ninguém entre por completo.
Olívia não falou nada, e Paula não esperava que ela o fizesse. Disse o que tinha de dizer. Não gostava de ver o sofrimento naqueles olhos verdes que tanto amava, mas sabia também que Olívia nunca admitiria a dimensão daquele sentimento.
- Certo. Desde que você saiba que eu estarei sempre aqui pra você, vou respeitar os seus silêncios. – Paula falou com um sorriso singelo, no que fui correspondida. – Vamos ao seu mestrado.
- Passei mesmo? – Olívia perguntou ansiosa e feliz pela mudança no assunto.
- Claro que passou. Tinha alguma duvida? - Sem esperar resposta, continuou. – Pela linha que você decidiu seguir, a pessoa mais indicada para te orientar, é a Claudia Tavares. – Viu o desgosto no rosto de Olívia. Como uma criança, era assim que se portava diante dela muitas vezes. – Eu sei que você não gosta dela, mas é a sua melhor opção. E ela é uma excelente profissional, então não faz essa cara. Eu tenho aqui uma lista com a bibliografia sugerida por ela. Vocês se reunirão assim que passarem as festas de final de ano. Ela teve que viajar um pouco antes, mas me pediu para deixar tudo encaminhado com você.
- Ela vai é me fazer sofrer, isso sim. Odiava as aulas dela, o jeito superior com o qual ela me olhava. Odeio gente arrogante, e Claudia Tavares, é uma das mulheres mais arrogantes que eu já conheci.
- Hum, esse discurso esta me parecendo tesão enrustido, Olívia.
- Que tesão, Paulinha? Aquela mulher é frígida!
As duas caíram na gargalhada. Apesar de possuir uma beleza exuberante, com seu metro e setenta, pele morena, olhos azuis, cabelos castanhos claros, um rosto perfeito, Claudia era rígida na postura assim como na forma de se vestir. Inteligentíssima, fazia discursos inflamados sobre a história da literatura e a contribuição desta nas grandes revoluções da humanidade, mas só era capaz de se mostrar assim enquanto ensinava, ao final da aula, era a mesma pessoa fria e distante. Olívia tinha uma implicância absurda com ela.
- Bom, vai ter que engolir, sinto muito. Ela é chefe do departamento e escolheu seus orientandos.
- Quer me torturar, então! Ok. Eu encaro. – Falou desdenhando.
- Quer almoçar comigo? – Paula mudou completamente de assunto.
- Depende, a aluna gostosinha não vai se importar? – Olívia implicou.
- Não, a Camila não é ciumenta. E além do mais, é só um casinho. Não vou investir. Muito bonitinha, mas novinha e deslumbrada demais pra minha cabeça. – Paula pegou a bolsa e estendeu a mão para Olívia.
- Alguém já te disse que você não presta Paulinha? – Segurou o riso.
- Eu não estou enganando ninguém.
- É, essa parte eu aprendi com você. Faz, mas avisa que esta fazendo. – Completou rindo.
- Exatamente. Não te poupa da dor de cabeça depois, mas é bom saber que você agiu certo. – Piscou para Olívia, antes de carregá-la para fora da sala.
À tarde, Olívia se dirigiu a escola onde lecionava. Passou pelo conselho de classe se esforçando para se manter calada e não retrucar cada observação feita pelos outros professores. Defendeu muitos alunos os quais estavam sendo destinados à recuperação e outros a reprovação. Acreditava em dar chances a todos, contanto que não fossem ser prejudicados com isso.
Saiu sentindo-se desgastada, e preferiu não ir direto para casa. O tempo ocioso a estava enlouquecendo. Cada segundo que passava sem uma atividade especifica, era levada de volta a Joana. Fosse com lembranças dos seus momentos juntas, fosse com suposições sobre como ela estaria agora, e a saudade. Uma saudade constante que lhe doía no peito. Para não pensar, precisava de companhia. Ligou para Nina e descobriu que ela estava trabalhando em uma exposição no centro da cidade. Saltou no metrô da Carioca e se dirigiu a pequena galeria.
O movimento no centro era intenso e Olívia se viu tragada pelas grandes construções que tanto adorava. Aquela era uma parte da cidade das quais mais gostava. Imponente e bela, o centro antigo lhe dava a sensação de ser transportada para uma época diferente.
A galeria ficava em uma rua transversal a Avenida Rio Branco. Andou admirando a arquitetura, até parar em frente a um prédio com a fachada clara e recém reformada, mas que mantinha a estrutura original da década de 20. A porta em madeira pesada estava entreaberta, e uma musica clássica saía baixa lá de dentro.
Entrou mantendo a porta encostada. O hall de entrada já tinha placas referentes à exposição. A artista, Verônica Guedes, era uma grande amiga da Marina e tinha um talento especial retratando as relações humanas em um trabalho de luz e sombra. Suas pinturas pareciam fotografias em preto e branco. Eram delicadas e muito bem trabalhadas. Olívia já havia ido a algumas exposições dela e sempre se surpreendia com a veracidade com que os personagens eram tratados. Pois sim, os via como personagens. Cada quadro era uma historia sendo contada.
Virou à direita e se viu no salão principal, onde muitas obras já se encontravam dispostas. O trabalho da Marina era propiciar um ambiente agradável e estruturado para a admiração das peças. Apesar de preferir os cenários de teatro, sempre dedicou um carinho especial às exposições, especialmente da Verônica, de quem também era fã incondicional.
Um dos quadros na parede oposta à entrada chamou a atenção de Olívia assim que varreu a sala com os olhos. Andou até ele e à distancia de um metro, parou. A pintura retratava duas mulheres nuas enlaçadas contra um fundo negro. Não era o primeiro quadro com duas mulheres que Verônica pintava. Gay assumida, muitos dos seus retratos tratavam desta temática, assim como o fazia com homens se amando e homens e mulheres. Mas este era diferente. Havia entre elas um sentimento forte. A forma como se tocavam, demonstrava o conforto que uma tinha nos braços da outra.
Demorou-se admirando as pequenas nuances que as curvas daqueles corpos compreendiam. Em sua mente, criava historias possíveis para aquele enlace. Mas mais forte que qualquer outra coisa, foi o sentimento profundo que lhe abateu. Só era capaz de ver o amor ali presente, quem estivesse amando tão profundamente. Ou talvez ela o visse dessa forma, porque estava irremediavelmente apaixonada.
Saiu do seu estado de contemplação, assim que ouviu passos no salão próximos a ela. Olhou para o lado e se deparou com os olhos escuros, quase negros de Verônica. Com os cabelos cacheados e cheios presos com um nó sobre a cabeça, e vestindo uma bata indiana verde água, ela parecia uma fada, etérea e distante. Postou-se ao lado de Olívia e admirou a obra.
- Amor e dor. – Disse no seu tom de voz baixo característico.
- Dá pra sentir. – Olívia respondeu sem tirar seus olhos da pintura.
- Só quem já amou pode sentir.
Ficaram um tempo em silêncio admirando aquele amor e dor, como Verônica havia falado. Com um sorriso sincero com os dentes de cima da frente um pouco separados, Verônica abraçou Olívia.
- Já estava me perguntando quando a veria. – Disse se soltando do abraço.
- Mais uma vez você conseguiu se superar. São lindos, Verônica. – Olívia abrangeu o espaço com o olhar.
- Fico feliz que tenha gostado. Especialmente deste aqui. – Apontou para o quadro.
- É fantástico. – Olívia retribuiu.
Marina entrou no salão vestindo shorts jeans e camiseta preta. Estava coberta em poeira de madeira e suada, usando os cabelos presos em um rabo de cavalo um pouco acima da nuca.
- Achei que não viesse mais! – Exclamou ao ver Olívia parada no meio do salão. – Não são lindos?
- Lindos. – Abraçou a amiga apesar dos protestos da mesma dizendo que estava suada.
- Vamos tomar um chopp? – Marina se dirigiu às duas.
- Eu não posso, Nina. Mas vão vocês. – Verônica respondeu. – Tenho ainda algumas coisas para organizar por aqui e a Giselle chega hoje à noite.
- Hum! Então você tem coisa melhor a fazer hoje do que beber com duas solteiras convictas. Está mais do que certa. – Nina provocou.
Despediram-se de Verônica, e seguiram descendo a rua em direção a um boteco do centro mesmo. Esperariam o transito melhorar para irem para casa, e Olívia não tinha qualquer intenção de apressar este momento.
Sentaram-se a uma mesa na calçada e pediram uma cerveja de garrafa e pasteis. Nina falou sobre a exposição e Olívia ficou feliz ao ver a amiga tão entusiasmada. Fazia agora mais de um mês que Clarissa a deixara e somente o trabalho parecia resgatá-la daquele sofrimento.
- A Verônica se superou dessa vez. E eu quero que você veja a ambientação do salão do segundo andar. O jogo de luz ficou incrível. O Dinho foi espetacular. – Falava com empolgação. Seria contagiante, se não fosse o nó constante que Olívia carregava no peito.
Após o silencio que se formou, Nina segurou a mão da amiga entre as suas e olhou no fundo dos seus olhos verdes.
- Vai passar. – Disse contundente. – Como tudo na vida. Você é uma guerreira, Olívia. Uma mulher forte e determinada. Não se deixe consumir por essa dor.
Olívia nada respondeu. Sabia que a amiga estava certa. A dor que sentia agora era consciente, tão diferente daquela sentida quando ainda era uma menina. A saudade iria se perpetuar, mas ficaria cada dia mais leve, mais distante dos seus pensamentos. A esperança, esta também a deixaria em algum momento, pois por mais que negasse para si mesma, ainda nutria esperanças de que Joana ligasse, reaparecesse e ainda a quisesse.
- Eu sei Nina. Vai passar. Já esta passando.
- Bom. – Nina observou-a antes de continuar. – Eu e você somos duas fraudes.
- Somos? Por quê? – Perguntou sem dar muita atenção.
- Porque passamos essa imagem de fodonas, quando no fundo somos mais sensíveis e frágeis que todas as mulheres com quem ficamos e que se apaixonam por nós.
Olívia caiu na gargalhada, no que foi seguida por Nina. Ela tinha razão. Olívia sempre lidou com seus pequenos casos amorosos como se nada a atingisse. Sem se envolver, sem sofrer, mas principalmente, sem sentir. Mas quando sentia, era muito mais intenso do que era capaz de suportar.
Ainda ficaram horas conversando e bebendo. De certa forma, ambas lidavam com o vazio que só a dor de amor é capaz de provocar. Não tocaram nos nomes de Joana e Clarissa, ainda não era o momento de mexer nas feridas. Era preciso deixar cicatrizar. Mas nessa conversa descontraída com Nina, Olivia conseguiu se sentir mais como ela mesma. Não morreria desse amor, mesmo que não pudesse viver dele como ainda desejava.
Voltou pra casa depois da meia noite e encontrou Guto esparramado no futon como sempre.
- Finalmente! Estava pegando quem? – Ergueu os olhos do filme que passava na televisão, mas que assistia sem muito interesse.
- Pegando ninguém. Estava tomando um chopp com a Nina. – Sentou-se ao lado do irmão.
- Você fez algum voto de castidade? – Brincou.
- Não. Só não estou no clima para flertes e noitadas. E o mestrado vai começar logo, preciso de foco.
Pode sentir os olhos de Guto presos a ela. Sabia que ele tinha muitas coisas a dizer referentes a seu romance com Joana, mas ela ainda não havia permitido. Todas as vezes que ele tentava iniciar uma conversa, ela o cortava. Imaginava que ele era a sua fonte mais segura e informada de noticias da mulher que era dona do seu coração, e até por isso, preferia não falar ou ouvir o que ele tinha a dizer.
Esta noite, ou pelo efeito do álcool, ou pela conversa com a Nina, sentia-se entorpecida, mas também um pouco mais forte. Previu que ele logo faria a investida, mas não o impediu.
- Eu sei que você não quer falar sobre o assunto e eu entendo, mas você não pode se fechar assim, Ollie. – A pausa foi de uma respiração. Guto esperou que ela se virasse para ele ou que revidasse de alguma forma, mas ela se manteve em silencio e virada em direção a TV, mesmo que não a assistisse. – Eu não gosto de te ver assim, me dói. Por que você não liga...
Olívia não o deixou terminar a pergunta. Com um olhar de gelar a alma, levantou de uma vez só do futon e seguiu em direção ao quarto.
Guto a alcançou antes que pudesse bater a porta.
- Olívia. Eu sou teu irmão, porra. To aqui pra você pro que der e vier e você sabe disso. Eu não agüento te ver assim. – Respirou fundo antes de continuar. – Fala comigo.
Olivia encarou os olhos que espelhavam os seus tal a intensidade do verde e da força que tinham e recuou, mas não o impediu de entrar. Jogou-se na cadeira e mirou os próprios pés.
- Ollie... se você a ama assim, tem que lutar por ela. – Ele se agachou de frente para ela e segurou suas mãos entre as suas. – Se você não correr o risco, nunca vai saber se valeria à pena.
- Ela sabe o que eu sinto. Eu já arrisquei Guto, mais do que você pode imaginar. – Ergueu os olhos para encontrar os dele, e sorriu tristemente. – Eu vou ficar bem. Decepções fazem parte da vida. Eu já estou me reerguendo, não se preocupe.
Guto não acreditou. Olívia não estava bem. Mas ela se fechou há tanto tempo e de uma maneira que ele sabia que ninguém conseguiria entrar. Só a vira vulnerável uma vez na vida, e foi quando Joana a deixou há mais ou menos quinze dias. Nem quando ela deixou a casa dos pais ele a viu assim. Talvez por ser jovem demais na época, não saberia dizer, mas sempre a admirou por sua força e determinação, mas agora não conseguia ver a fortaleza. Pela primeira vez sentiu vir dela um medo que nem ela admitia.
Olívia sorriu para ele soltando suas mãos e erguendo-se. Antes que ela pudesse se afastar novamente, ele a puxou para um abraço.
- Eu to aqui, não esquece disso.
- Eu sei mano. – Ela correspondeu o abraço, mas o dispensou.
Guto deixou o quarto da irmã ainda mais angustiado do que havia entrado. Assim que ele saiu, Olívia tirou a roupa e deitou-se nua sobre a cama. A noite sempre era mais difícil. A falta que sentia de Joana lhe doía e corroia por dentro. Era uma dor física que não conseguia controlar. Sentia-se fraca e odiava se sentir assim. Socou o travesseiro descontando a raiva que nutria por si mesma. Como podia ter se deixado levar dessa forma? Como permitira que Joana a invadisse novamente e dilacerasse seu coração? Como pode não prever que a historia se repetiria? Não podia nem ao menos odiá-la. A amava demais para isso. Odiava a si mesma. Pedira que não fizessem promessas, que deixassem rolar, que não se comprometessem. O fez por medo dessa dor que agora pulsava em seu peito. E de que adiantara?
***X***
O tempo em sua imensurável benevolência, passou rapidamente e quase indolor. Olivia direcionou todas as suas energias para o mestrado e seus livros. As férias escolares lhe proporcionavam um tempo que não tinha durante o ano letivo. Colocou a leitura em dia e encaminhou um novo rascunho para a sua editora. Seu primeiro livro seria lançado em março e todos os preparativos estavam sendo feitos.
O Natal veio e com ele um saudosismo que não lhe era comum. Talvez a presença de Guto tenha desencadeado esse sentimentalismo. Lembrou-se dos natais de quando era criança, com toda a família reunida, seus pais, avós, tios e primos.
Este ano, fizeram uma grande ceia no Bar do Bola. Eram uma família. Olívia, Marina, Bola, Tom, Theo e Guto, que neste ano decidiu ficar com a irmã para as festas.
Assim veio também o novo ano, festejado com muito entusiasmo nas areias de Copacabana. Foi a primeira vez que Olívia encontrou com a Marcinha depois que ela e Joana deixaram o Rio. Em um entendimento silencioso, evitaram tocar no assunto da ultima visita da cunhada. Olívia guardou para si todas as perguntas que gostaria de fazer sobre a sua amada, e Marcinha respeitou o desejo dela.
Com janeiro, vieram também as responsabilidades com o mestrado. Era o momento de colocar em prática suas teorias. Precisava definir o que iria estudar e sobre o que iria escrever sua dissertação.
Acordou cedo com o corpo suado e dolorido de mais uma noite mal dormida. Havia saído com o Theo para uma festa e bebido demais. Lembrava-se também de uma loira e um banheiro, mas não importava. Sexo sem compromisso e de preferência sem nomes era o remédio que ela melhor conhecia para ajudar o tempo a passar mais rápido e levar as lembranças embora.
Deixou a cama e a luz do dia ainda não se fazia presente. Tomou um banho rápido e frio para acordar, vestiu uma calça jeans, uma camiseta e tênis. Arrumou a mochila e saiu para um dia de céu azul claro. O sol ainda não invadira as ruas da Lapa e somente os resquícios da noite eram vistos espalhados e manchando a beleza da manhã. Muitas latas, garrafas e sujeira próximas aos Arcos.
O trajeto longo e em geral engarrafado foi feito em menos de cinqüenta minutos, um recorde. Chegou à universidade e havia pouco movimento por ali àquela hora. Dirigiu-se direto ao setor de Letras e procurou um lugar para sentar em que estivesse mais fresco. Encostada em uma pilastra e sentada sobre o piso frio, abriu um livro e esperou. Aquele era o primeiro dia de sua orientação e decidiu que não importavam os seus sentimentos controversos contra a sua orientadora, se dedicaria como nunca.
Ouviu o som metálico de saltos pisando firmes sobre o piso de pedra. Olhou por cima do livro em suas mãos e uma mulher alta, dona de um corpo magro, mas forte e com um porte invejável enfiada em um terninho azul escuro, veio em sua direção.
Os óculos escuros escondiam os olhos azuis e penetrantes que Olívia já conhecia. Um sorriso brincou em seus lábios rosados sobre a pele clara. Ela tinha uma imponência que Olivia ao mesmo tempo em que admirava, também odiava. Provocava-lhe uma reação de desafio muito parecida com a que sentia por seu pai, concluiu.
- Bom dia Olívia. Que bom que chegou cedo. Vamos até a minha sala. – A voz grave de Claudia combinava bem com sua postura rígida.
Recolheu seus pertences devolvendo-os a mochila e seguiu os passos firmes de Claudia até o final do corredor.
Claudia destrancou a porta para um escritório parecido com o de Paula, mas mais espaçoso e seco do que da sua ex-namorada, Olívia constatou. Sem retratos de familiares ou amigos, apenas a mesa, as cadeiras e muitos livros cobriam as paredes. Um único quadro cobria a parede branca. Era uma pintura abstrata e colorida que Olívia se pegou admirando.
Após deixar sua bolsa sobre a mesa e ligar o computador, Claudia se voltou para a jovem a sua frente. Apesar de Olívia ter quase trinta anos completos, seu modo de vestir e seu corpo bem feito, lhe davam um ar de menina. O corte de cabelo rebelde e o ar travesso contribuíam para passar este impressão.
- Pode sentar-se aqui Olívia. – Claudia apontou para a cadeira de frente para a sua mesa. – Vamos descobrir quais matérias serão mais propícias para a sua formação e de que forma faremos a sua orientação.
Olívia deixou-se cair sobre a cadeira e abriu sua mochila. Os óculos de grau que usava para leitura de perto já estavam à mão, assim como um caderno antigo e uma caneta BIC. Claudia sorriu para os itens simplórios.
- Nada de computador? – Arqueou a sobrancelha.
- Não. Não me arriscaria com ele em um ônibus para cá. Fora que não vejo necessidade.
- Simplifica a vida. – Claudia respondeu, sentando-se em sua cadeira de couro. – Mas você tem razão, não é necessário.
Olivia sorriu de lado e abriu o caderno.
- Bom, o seu projeto está muito bem escrito e estruturado. Acredito que deseja prosseguir nesta mesma linha? – Terminou com uma pergunta, no que Olivia apenas sinalizou como positivo. – Isso simplifica e muito o nosso trabalho aqui hoje. Vamos partir então para a parte prática. Eu tenho algumas sugestões de autores que eu gostaria que você pesquisasse e algumas aulas que gostaria que você assistisse além das pré-requeridas pelo programa. - Olívia concordou mais uma vez.
Num todo, o encontro com sua orientadora foi mais agradável do que poderia esperar. Talvez fosse bom que não caísse nas mãos de Paula para esta etapa da sua educação. A intimidade entre as duas causaria problemas. Olivia precisava de alguém distante, mas que a conduzisse e desafiasse.
Saiu de lá com seu novo horário, que felizmente não era pesado, só exigindo que ela comparecesse duas vezes por semana a universidade e a lista de livros que precisaria comprar, mais da metade ela já havia lido e sabia que da outra metade, muitos conseguiria com Paula. O que a surpreendeu mesmo, foram as aulas extras que Claudia lhe pediu para assistir. Uma de literatura no teatro no curso de artes dramáticas e outra de fotografia artística, uma eletiva muito concorrida do curso de belas artes. Ao menos estas duas no primeiro semestre. Decidiriam as próximas quando o semestre seguinte começasse.
Passou pela sala de Paula e a buscou para almoçar. Esta estava entusiasmada pela amiga e já começou a fazer sugestões antes mesmo de chegarem ao restaurante.
- Isso vai pirar a sua cabeça. O que eu gosto na Claudia, é que ela não fica no pensamento formal. A pose dela é só fachada. – Ia dizendo Paula enquanto se serviam no refeitório. – Você vai amar literatura no teatro. O Fernando Arela, que leciona esta matéria, é um dramaturgo fantástico. As peças dele são belíssimas e muitas adaptações que você vê por aí da literatura para o teatro, são dele.
- Ok. Quer fazer essa aula por mim? – Olivia implicou com a exaltação da outra. – Se eu não soubesse que você gosta, e muito de mulher, diria que tem uma queda pelo Arela.
- Engraçada você. – Levaram os pratos até a mesa. – Mas e então, está animada?
- Estou. Acho que vai ser ótimo assistir a estas disciplinas. Ao menos eu saio um pouco da área comum que estudei por tantos anos.
- É isso aí. O mestrado te dá a chance de olhar para tudo por um outro prisma.
- E até que a Claudia foi razoável. Ela parece ter sinceramente gostado da minha proposta e já veio cheia de idéias interessantes. Isso me dá mais ânimo. Imagina se ela quisesse mudar tudo? Eu ia socar a cara dela.
- Até parece, Li. Você só tem pose de durona, no fundo tem um coração gigante.
- Não espalha isso por aí, ok? – Olivia brincou. – E você? Como está a vida?
- A vida está bem. Tenho algumas novas turmas este ano e finalmente comprei um cachorro.
- Jura? – Olívia sabia o quanto Paula sempre quis ter um cachorro, mas sempre adiou os planos, pois não tinha muito tempo para cuidar de um filhote e o bicho acabaria morrendo. – Que coisa boa.
- Não é? A Filó é linda.
- Filó, Paula? Não me diz que o nome da cachorra é Filomena?
- Não, é só Filó. É uma York Shire pretinha. Muita linda. Você vai amar.
- Tenho certeza disso. – Olhou com mais atenção para a ex-namorada. – O que aconteceu? Tem mais alguma coisa aí que eu sei. Pode ir falando Paulinha.
- Tem. Mas não é pra você fazer conjecturas, nem me fazer criar expectativas, ok?
- Manda. – Olívia largou os talheres sobre a mesa e cruzou os braços em expectativa.
- Eu conheci alguém. – Ruborizou ao dizer isso o que fez com que ficasse ainda mais bonita. Quando namoravam, Olívia adorava deixá-la sem graça para ver o rosto dela se iluminar daquele jeito.
- Quando você diz alguém... – Deixou no ar.
- Sim. Acho que estou me apaixonando, Li.
- Não acredito! – Exclamou feliz. – Sério Paulinha? Quem é essa mulher que te deixou assim?
- O nome dela é Lara, e ela é advogada. – O sorriso em seu rosto era algo que Olívia nunca pensou que veria novamente. Conhecia cada expressão daquele rosto, e aquele sorriso era algo raro e precioso.
- Eu preciso de mais informações meu amor. Como você a conheceu? Quando? Quantos anos ela tem? Qual o time de futebol, o signo, o prato predileto?
- Nunca te tomei como uma pessoa curiosa Olívia. – Paula brincou.
- Não é curiosidade, é preocupação. Ou você acha mesmo que eu vou deixar qualquer uma entrar na sua vida assim? Sem um inquérito?
- Inquérito? Tá bom.
- É serio Paula. Você é uma das pessoas mais importantes no mundo pra mim. E se alguém conseguiu botar esse sorriso no seu rosto e fazer seus olhos brilharem desse jeito, eu quero detalhes. – disse séria.
- Também te amo Li. – fez uma pausa e acariciou de leve o rosto da amiga. – Respondendo ao inquérito, eu a conheci em uma festa de ano novo na casa de um amigo na Barra. O Fred, você deve lembrar dele. – Olívia assentiu. Lembrava bem do Fred. Um médico renomado e uma das melhores pessoas que Olivia já conhecera. Festeiro inveterado, vivia em busca de paixões fulminantes e amores avassaladores. Tinha um entusiasmo pela vida invejável. – Então. O Lucas, namorado do Fred foi quem me apresentou a Lara. Eles são amigos de faculdade, e ela estava morando na Inglaterra há uns três anos mais ou menos. Nós conversamos durante horas e trocamos telefones. Na semana seguinte saímos juntas e quando eu vi já estávamos namorando. Ela é aquariana, torce pelo Fluminense, o que é um problema, e gosta de comida japonesa. Respondido?
- Quase. – Olivia brincou. – Preciso conhecer logo essa mulher.
- É bom você nem tentar, ouviu Olívia?
- Paula! – exclamou indignada. - Você acha mesmo que eu daria em cima de uma namorada sua?
- Não. Você não faria isso. Mas sem charme e sem flerte, que eu bem te conheço.
- Isso é natural. Não posso mudar. – começou a rir. – Mas agora falando serio, eu estou muito feliz por você, Paulinha. Não existe no mundo pessoa que mereça mais a felicidade do que você.
- Nossa! Nunca te ouvi falar assim. Achei que felicidade fosse curtição de momento, não?
- Às vezes é. Mas não se restringe a isso.
Querendo ou não, Olivia transparecia a tristeza que ainda carregava dentro do peito. Por mais que tivesse retomado a sua vida e isso incluísse novas mulheres, de preferência uma por noite, sabia hoje que isso não a faria feliz. De certa forma, preferia a ignorância à sabedoria que lhe fazia não apreciar mais tanto suas pequenas aventuras. Acordava no dia seguinte com a ressaca por companhia e um vazio ainda maior ocupando-lhe o peito.
Paula decidiu não comentar a sombra que perpassou o olhar de Olívia. A amava demais e não suportava vê-la assim. Percebia o esforço que ela fazia para estar bem diante de todos, mas conhecia o coração que batia ali dentro e o som solitário era mais difícil de ignorar quando já se tinha ouvido uma bateria fazendo seu dueto. Paula conhecia este sentimento. Conhecia o eco do vazio. O vivera. E a sua frente estava a pessoa que a ajudara a enfrentar, assim como lhe provara que a vida não é feita de um amor só. Como ser humano, era capaz de amar diferentes pessoas, de formas distintas e intensidades incomparáveis.
- Há esperança, minha querida. – Paula disse com um sorriso e sabia que não requeria maiores explicações. A relação que criara com Olívia, mesmo após a separação, era de entendimento sem palavras. Sabia que ela preferiria assim.
Naquela noite voltou para casa com um novo questionamento. Será que seria capaz de se apaixonar novamente por outra pessoa? Nunca buscou o amor. Não depois de tê-lo perdido. E ele se apresentara para ela na forma de uma única mulher. Nunca questionou o fato de que amava Joana. Esta sempre foi sua certeza. Amava, mesmo sabendo que ela nunca seria sua. Mas e a possibilidade de um novo amor? Onde se encaixava na sua historia? Deveria, como disse Paula, nutrir essa esperança? Ou isso seria somente uma maneira de se enganar?
A resposta parecia esperá-la em casa. Assim que abriu a porta, deu de cara com Guto e Marcinha assistindo televisão. Nem ao menos sabia da visita da cunhada, mas ficou feliz ao vê-la. As duas pareciam ter finalmente se entendido e isso fazia Olívia extremamente feliz. Não queria guardar reservas com relação à cunhada. Sabia da intenção do irmão em se casar com ela, o que ela acreditava ser uma convenção retrograda, mas que apoiava, pois sabia que o faria feliz.
- Ollie! – Marcinha exclamou puxando-a para um abraço apertado.
- Hey! O Guto não me disse que você viria. Que surpresa boa! – Falou com sinceridade, e Marcinha pareceu de fato perceber isso.
- Eu sei. Não avisei que viria. – Se voltou para o namorado. – Consegui uma folga de ultima hora, e queria contar ao Guto e a você pessoalmente que eu passei no concurso! – Gritou a ultima parte.
Olívia sorriu sincera e abraçou acunhada mais uma vez.
- Isso sim é boa notícia! Quando você se muda pra cá?
Marcinha ficou surpresa, assim como o próprio Guto, mas este conhecia bem a irmã para saber que a oferta era de coração. Ela de fato abriria a sua casa para que a mulher dele viesse dividir o apartamento com eles.
- Eu não sei ainda quando virei de vez para o Rio, mas eu certamente não pretendo invadir o espaço de vocês.
- Por que não? Se vocês não quiserem morar juntos ainda, eu entendo, mas você pode ficar aqui o tempo que for necessário até encontrar um canto. A casa á sua. Sério.
Marcinha sorriu e abraçou Olívia mais uma vez. Guto olhou para a irmã e agradeceu com um sorriso.
- Comemoração no Bola? – Guto propôs entusiasmado.
- Claro. Eu vou só tomar um banho rápido e nós vamos. – Olivia falou já se dirigindo ao banheiro.
O Bar do Bola estava mais cheio que o habitual. Muitas pessoas sentadas às mesas e outras em pé por toda extensão do bar e a frente do mesmo. Uma roda se samba ao fundo empolgava a clientela.
Olívia tomou a frente, e os três rumaram para o bar, onde puderam avistar o Bola andando de um lado para o outro tentando atender a todos os pedidos.
- Noite agitada, não? – Olívia perguntou provocando com um sorriso no rosto.
- Não é? – Bola respondeu cansado, mas parecendo realmente animado. – Um amigo pediu um lugar para fazer a roda de samba semanal, e eu aceitei. – Saiu para atender um rapaz na outra ponta.
- Nossa, nunca vi o Bola tão cheio. – Exclamou Guto, se referindo ao bar.
- Realmente. – Olívia olhou em volta. – Procurem um lugar para sentar, vou dar uma mão para o Bola.
Guto e Marcinha partiram para o meio do bar, e Olívia passou para a parte de trás do balcão. Encontrou um avental, um bloco e uma caneta. Como trabalhara por um tempo ali, conhecia bem o lugar e o procedimento. Já estava atendendo quando o Bola se deu conta de que ela estava ali.
- Muitíssimo obrigado. Prometo que a gorjeta é sua.
- Não precisa Bola. Prefere que eu fique aqui, ou que parta para as mesas?
- As mesas. Não consegui chegar lá ainda. – Falou com um sorriso.
Assim, Olívia tomou uma bandeja nas mãos e partiu para atender aos pedidos. Achou graça em quanto lhe pareceu natural voltar a sua antiga função. Mesmo com o local cheio e muitos pedidos a serem atendidos, se virou facilmente.
Theo chegou ao bar, e teve a mesma surpresa que eles. Encontrou Olívia atendendo uma mesa logo a entrada.
- Uau. O que aconteceu aqui? – a interpelou.
- Noite de samba. – Disse simplesmente. – O Guto e a Marcinha estão mais lá pra dentro.
E partiu para a próxima mesa, onde um grupo de meninas conversava animadamente. Não percebeu logo de cara quem eram, mas ao se aproximar, se deparou com Sara, um caso antigo.
- Vocês vão querer o que? – Falou com um sorriso discreto no rosto.
Uma ruiva sentada à cabeceira da mesa olhou para cima e abriu um sorriso no mínimo sacana, no que foi prontamente correspondida por Olivia. Força do habito talvez, mas lhe saía natural, fácil.
- Você. – A ruiva falou já um pouco alta pela bebida. – Pode ser?
- Não estou no cardápio, mas agradeço. – Brincou. Estava flertando abertamente, fazendo com que Sara fechasse a cara por um instante apenas, se recompondo em seguida.
- Então, mais uma rodada de chopp. – Sara devolveu com um sorriso de tirar o fôlego.
- Certo. – Olivia anotou o pedido no bloco que trazia no bolso do avental. – Eu já volto com o chopp.
Fingiu abertamente que não reconhecera Sara, mesmo podendo sentir o olhar dela cravado em seu rosto. Ignorar era a melhor jogada. Provavelmente, isto faria com que Sara viesse atrás dela em algum momento e aí então, seria simpática, mas a cortaria. Não gostava de alimentar esperanças e mesmo que a outra lhe dissesse que entendia e que só o que queria era sexo, ainda assim, sabia do risco que era retomar qualquer contato. Em geral, mesmo dizendo que não queria compromisso, que não estava interessada, a maioria das mulheres queria sim ter uma nova chance e conquistar Olívia. Conhecia bem demais as regras do jogo para cair numa dessas.
Saiu andando em direção ao bar com um sorriso no rosto. Gostava do jogo. Por um curto tempo havia esquecido o quanto gostava de flertar e de ir à caça. Havia um prazer nisso que o sentimento por Joana nublara. Pensar em Joana lhe provocou a já conhecida dor. Uma pontada no peito que lhe tirava o ar. Empurrou a dor para o lado. Lidaria com ela mais tarde, sozinha e de preferência debaixo do chuveiro gelado.
A noite transcorreu tranquilamente. Sara a procurou e jogou seu charme. Era uma mulher bonita e definitivamente boa de cama, mas era problema, por tanto Olívia muito delicadamente, a dispensou. Já a ruiva, Thaís era o nome dela, esta ela levou para a parte de trás do bar. Sexo rápido e sem culpa.
Voltou para de trás do balcão e tirou o avental se espreguiçando. A roda de samba havia terminado o seu show, e com isso o bar fora esvaziado rapidamente. As poucas mesas ainda ocupadas, incluía um grupo de amigos um pouco bêbados e a mesa ao fundo com Guto, Marcinha e Theo que conversavam animadamente.
- A noite foi um sucesso Bolinha! – Tom abraçou o namorado por trás. – Deveríamos tornar uma constante aqui no bar.
- Definitivamente. – Bola sorriu cansado. – Mas vou precisar contratar ajuda. Não é Olívia?
- Contrate. Eu sou boazinha, mas não é pra tanto. No próximo samba, quero curtir e não trabalhar. – Implicou, mas sorriu para os amigos.
- Você é um anjo, minha querida. – Bola a abraçou. - Mas não pense que eu não vi você e a ruiva no meu estoque. – Cochichou ao seu ouvido.
Olívia abriu um sorriso de quem se desculpa, mas sem vergonha e foi puxada por Tom para um abraço.
Jogou-se em uma cadeira ao lado de Theo e logo Bola e Tom entraram no salão com travessas e pratos. Serviram um jantar com o que Tom conseguiu reunir na sua cozinha e que parecia delicioso. Sentaram-se todos a volta da mesa para comemorar.
- Ao samba do Bola! – Gritou Guto erguendo seu copo.
- Ao samba do Bola! – Repetiram todos em uníssono, brindando ao amigo.
- E a Marcinha que passou no concurso! – Emendou Theo.
- À Marcinha! – Todos brindaram.
A refeição se deu em um clima descontração total. Theo e Marcinha passaram a maior parte do tempo implicando com o namorado da menina. Guto ficara feliz com a aproximação dos dois, tinha em Theo o seu melhor amigo no Rio de Janeiro, o que deixava Olívia muito feliz, pois tinha o amigo como a um irmão, e ver os dois tão próximos era muito bom.
Bola se derretia pelo marido em elogios. Era reconfortante ver uma relação de tanto tempo que perdurava com tamanho carinho e admiração por ambas as partes. Olívia só sentia uma falta imensa de Marina naquele momento. Com a ausência dela, a família não se fazia completa. A amiga andava evitando qualquer contato, o que levava Olívia a crer que ou a amiga encontrara uma nova diversão, ou voltara para a anterior. Sabia que Clarissa tentara uma reaproximação logo que o caso com o residente em seu hospital desandou, mas Marina fora irredutível na época. Olívia conhecia bem a amiga para saber também que seria quase impossível para ela resistir. Por mais magoada que estivesse, ainda era apaixonada pela loirinha e conhecia na pele o quanto era difícil resistir quando um sentimento tão forte ainda as unia.
Estava ajudando o Bola a fechar o bar, quando Marcinha se aproximou e puxou a porta de ferro com ela.
- Foi uma ótima forma de comemorar. – Marcinha disse com um sorriso no rosto. – Me sinto em casa entre vocês. Espero de fato um dia fazer parte desta família.
- Você já faz Marcinha. De verdade. – Olívia falou com sinceridade.
- Obrigada Olívia. – A menina corou. – Pra mim é muito mais importante a aceitação e a acolhida de vocês, do que da família do Guto. Com exceção de você, é claro.
Olívia a olhou por alguns instantes sem responder, fazendo com que Marcinha se sentisse ainda mais envergonhada, se retificando rapidamente.
- Desculpa Ollie. Não foi minha intenção falar mal dos seus pais de forma alguma. – Se enrolou. – É que sei o quanto Guto a estima e o quanto a sua opinião pesa para ele, mais do que a de qualquer outra pessoa.
- Não precisa se desculpar, Marcinha. Entendo isso perfeitamente. – disse ainda com a mesma expressão. – É somente estranho pensar na minha família de nascença. Esta me é tão mais presente e por tanto, importante atualmente, que me esqueço que meus pais ainda fazem parte das nossas vidas, ou ao menos da do Guto. – Completou triste.
- Eu sinto muito. – Foi só o que Marcinha conseguiu dizer. Sabia da relação turbulenta de Olívia com os pais. Guto havia lhe contado, mas nunca ouvira da própria, qualquer menção aos pais.
- Não sinta. Já faz tanto tempo que é somente estranho.
- Ainda te dói? – Perguntou sem pensar e logo se arrependeu. – Desculpa. Fui inconveniente de novo. Se eu disser que a culpa é da cerveja, você acredita?
- Para de se desculpar, Marcinha. – Olivia falou delicadamente. – Não precisa pisar em ovos comigo. – Parou, respirou e prosseguiu. – Não sei se dói. Eu apenas não penso muito nisso. Acho que acabei abstraindo o fato de eles não me aceitarem. A culpa também é minha, mas quando amadureci o bastante pra me dar conta disso, já era tarde demais. Não existe mais nada para resgatar. Isso é triste. Tenho minhas magoas, mas tenho também boas lembranças da infância. Sinto pelo Guto. Acho que boa parte do que faz a relação dele com nossos pais tão estranha, é também um reflexo da decepção que eu provoquei neles.
- Não acho. – Marcinha disse após ponderar por alguns segundos. – O Guto tem os próprios problemas com os pais. Nenhum deles tem qualquer ligação com você.
Olívia sorriu para a cunhada. Aprendia a gostar cada vez mais daquela menina. O jeito meigo e um pouco tímido às vezes, escondiam na verdade uma força e uma determinação muito grande. Ela tinha uma maturidade que escondia por de trás daquele semblante angelical e a forma doce com a qual cativava. O senso de humor afiado e a percepção que era capaz de ter de tudo e todos a sua volta somente comprovava isso.
- Eu to te enrolando. – Marcinha disse por fim.
- Me enrolando? – Olívia perguntou achando graça.
- É. Tenho uma tarefa que não sei ainda se devo executar. – Falou devagar, como se pesasse o efeito das suas palavras, mesmo que enigmáticas.
Olívia logo percebeu do que se tratava, e da confusão, sua expressão se fechou em entendimento e rigidez. Respirou fundo. Sabia. De uma forma ou de outra, em algum momento sabia que Marcinha lhe procuraria para falar de Joana.
- O que ela pediu que me dissesse? – Perguntou enfim.
- Nada. Ela mesma quis dizer. – E Marcinha tirou do bolso da calça um pedaço de papel, que Olívia logo percebeu ser uma carta.
- Eu sei que o interurbano anda caro, mas ela não poderia ter ligado? – Perguntou irritada pegando o papel que a outra lhe estendia.
- Acho que não teve coragem de falar. Mas posso também estar redondamente enganada. Nós quase não temos nos falado. Ela vem me evitando. – Disse por fim.
- Tudo bem. – Olívia soltou o ar pesadamente. – Você não tem nada com isso. Obrigada, Marcinha.
A maneira com que falou, encerrava o assunto e Marcinha entendendo que a cunhada gostaria de ficar sozinha, pediu licença e voltou para dentro do bar.
Olívia olhou para o papel em suas mãos e fechou os olhos. Não conhecia o conteúdo da carta, mas era capaz de imaginar muitas coisas ao mesmo tempo. Explicações, desculpas, muito provavelmente um adeus. É claro que seu coração lhe traiu e criou esperanças infundadas. Uma declaração de amor. Um pedido para que a esperasse, uma confissão de que sentia exatamente o que ela Olívia, sentia. Afastou esses pensamentos mais rápido do que lhe ocorreram. Era melhor estar pronta para o pior.
Capítulo 10 - A carta
Andou pelas ruas sabendo que Marcinha explicaria a sua ausência. Ascendeu um cigarro e se afastou indo em direção ao seu prédio, passando diretamente por ele. Conhecia aquelas ruas como ninguém, e mesmo sabendo que seria imprudente andar por ali a noite sozinha, seguiu adiante. Sentou-se no chão contra o muro de uma casa, e tendo apenas a iluminação de um poste um pouco a frente, abriu a carta e segurou em suas mãos as páginas que poderiam mudar tudo novamente em sua vida.
“Minha querida Olívia.
Talvez neste momento você me odeie por ter mantido distância, por não ter te ligado, por não ter feito qualquer contato. Ou talvez simplesmente já tenha me esquecido. Gostaria que fosse assim, por mais que me doa.
O que vivemos foi tão lindo e tão intenso, que mesmo agora estando longe, posso sentir suas mãos sobre a minha pele, e seus lábios a me cobrirem de beijos. Seus sussurros roucos em meu ouvido ainda me assaltam, e me arrepio inteira só com a lembrança da sua voz. Das palavras de carinho, dos gemidos de prazer, de amor.
Quero que antes de tudo saiba que eu te amo. Te amo ainda com a mesma intensidade que amei a menina que me ensinou o que era amor, o que era felicidade quando ainda era tão imatura para compreender a dimensão desses sentimentos.
Privei - me de vivê-lo e me dói fazê-lo novamente. E mais uma vez não posso culpar ninguém, a não ser a mim mesma por essa decisão. É uma escolha dura. Uma escolha impossível. Viver plenamente o nosso amor mesmo com todas as incertezas, ou ficar perto da minha filha.
Não entrarei em detalhes porque de certa forma sei que no final somente a minha decisão impera. Tenho uma vida estruturada ao lado do André e não me acho no direito de machucá-lo dessa forma. Ele é o pai da minha filha, o homem que ficou ao meu lado em momentos difíceis, que me aceitou do jeito que eu sou e que me ama incondicionalmente. Estou sendo covarde, eu sei, mas é muito para abrir mão.
Enquanto estava nos seus braços, vivendo o sonho e a fantasia de poder viver uma vida inteira te amando e sendo amada por você, achei que seria capaz de tomar as atitudes necessárias com relação a minha vida aqui. Mas a verdade é que a realidade é tão mais complicada que não tive coragem de nem ao menos falar com você.
Não é justo que eu prejudique a minha filha. Nem mesmo é justo que eu machuque o André. Eu o amo. De uma forma totalmente diferente de como amo você, mas o amo e querendo ou não, construí uma vida ao lado dele, tive uma filha linda com ele.
Sei que é injusto com você até mesmo te contar essas coisas. Não existe obrigação alguma sua em me entender ou mesmo de ainda me amar. Estou mais uma vez te deixando por medo. Um medo diferente daquele que me fez te deixar ir embora da primeira vez, mas ainda assim medo. Medo de perder a minha filha, medo do sofrimento que poderei causar a ela. Não é justo que ela pague por algo que não é nem ao menos capaz de entender.
Afastar-me de você é defesa. Mesmo que nem por um segundo eu seja capaz de te esquecer, a distância e o tempo vão cicatrizando as feridas e assim eu me protejo. Não posso viver plenamente o nosso amor neste momento e te peço perdão por ter dito que o faria. Se ainda é meu desejo? De todo o meu coração. Não há nada no mundo que eu queira mais do que ficar ao seu lado, te amar todos os dias, cuidar de você e dormir nos seus braços. Mas não posso. Eu te amo tanto, mas a Isabela é a minha existência. Eu não poderia ser feliz vivendo longe dela, mesmo que ao seu lado.
Eu sei que deveria ter dito tudo isso cara a cara, mas seria difícil demais, fui covarde. Não resistiria a você e seria ainda mais doloroso deixá-la outra vez.
Eu só posso desejar que você seja muito feliz. Mesmo de longe, torço por você sempre. Você é uma pessoa incrível. Generosa, amiga, batalhadora, inteligente, criativa e merece toda a felicidade do mundo.
Você é a dona do meu coração. Meu amor será sempre seu. Te amo.
Um beijo. Um ultimo beijo.
Joana”
Baixou a carta com as mãos tremulas. As lágrimas escorriam por sua pele branca marcando-a. Sentiu o ar arder por sua traquéia e pulmão ao respirar. Sentia-se sufocar. Mesmo que esperasse por isso, esperasse a rejeição, tê-la confirmada era quase insuportável. A suportaria, sabia. Jamais pediria que Joana a escolhesse entre ela e a filha. Mas isso não diminuía a dor.
Chorou por um tempo que não foi capaz de mensurar. Sentiu a dor ir embora e voltar. Esperou voltar a ter sensibilidade nas pernas, para levantar e assim que o fez, sentiu-se tonta. Mas precisava andar. Precisava se movimentar. Precisava se libertar.
Cruzou as ruas e o ar frio da madrugada fez aumentar a sua angustia. A carta guardada no bolso lhe pesava. Teve raiva de Joana por sua covardia ao lhe escrever, por seu egoísmo, por lhe deixar. Sentiu saudade. Sentiu-se impotente diante da situação. Pela primeira vez na vida sentia um amor tão grande. Pela primeira vez na vida, teve vontade de vivê-lo plenamente, mesmo com seus medos, receios e duvidas, queria se jogar e viver intensamente esse sentimento. Queria ser para Joana a pessoa que ela via. E aí residia a ironia da vida. Quando se deu conta do quanto a queria, já a havia perdido. Pegou-se pensando nas infinitas possibilidades desta historia. Talvez se tivesse demonstrado claramente o quanto a queria, Joana teria tido mais força para lutar por ela. Talvez se tivesse tentado uma aproximação nos últimos meses, poderia ajudá-la a lutar. Talvez... talvez.
Os sentimentos eram múltiplos e todos tiveram o seu momento de predominância em seu coração. O ar da manhã também lhe trouxe clareza. O tempo passava, ela o sofresse ou não. Agora a escolha era dela.
Chegou em casa as sete da manhã. Pelo silencio, Guto e Marcinha ainda dormiam. Tomou um banho rápido e vestiu a primeira roupa que encontrou. Desceu para tomar café da manhã na padaria e de lá pegou um ônibus que a levou para a rodoviária Novo Rio.
A estrada estava tranqüila àquela hora, e Olivia se percebeu emocionada por fazer aquele caminho. Lembranças que em geral bloqueava lhe voltaram, mas sem a intensidade que pensou que teriam no dia que voltasse. O que a movia era tão mais forte que todo o resto que apenas as percebeu ali presentes, como pequenas sombras, sem forças para lhe preencher.
Desceu no centro e a cidade já se movimentava. Buscou o celular dentro do bolso da calça jeans e discou o numero que tantas vezes procurou nos últimos meses, mas para o qual nunca de fato ligou. Esperou o telefone chamar e no terceiro toque, pode ouvir a voz dela.
- Alo. – Era suave e delicada como lembrava. Doce.
- Joana. – Disse após uma pequena pausa para se recuperar.
- Ollie? – perguntou hesitante.
- Eu preciso falar com você. – Engoliu com dificuldade. Precisava se manter firme. Havia sido impulsiva sim, mas não sem pensar muito bem no que precisava dizer.
- Ollie eu... – a sua voz soava pesarosa. Dolorida. – Perdão pela carta. Eu não devia ter mandado.
- Mas mandou. E eu acredito que mereço um pouco da sua consideração. A que horas pode me encontrar?
- Ollie eu não posso ir ao Rio. Ainda mais agora. Se pudesse teria ido.
- Não, não teria. – Foi seca. – Mas também não há necessidade. Estou em Teresópolis.
- Você está aqui? – Joana se surpreendeu com essa informação. Olívia não ia a Teresópolis há anos. Depois que fora embora, nunca mais voltara.
- Eu vou te esperar na casa da minha tia. Ainda lembra onde fica?
- Claro que eu lembro. Mas a casa está vazia. – Nada daquilo fazia sentido para ela. E ouvir a voz de Olivia, mesmo que tão dura, era desconcertante.
- Eu sei. Por isso estou marcando lá. Não pretendo passar mais tempo do que o necessário aqui e prefiro não ficar vagando pela cidade. Vou direto pra lá e te esperarei. Qual o melhor horário para você? Prometo não tomar muito o seu tempo. – Completou.
- Eu vou deixar a Bela no Colégio às onze e meia e te encontro lá depois disso. – Respondeu no mesmo tom.
- Certo. Até lá. – Olívia desligou o telefone com uma dor que lhe apertava o peito.
Do outro lado da linha, Joana ainda segurava o aparelho nas mãos. Não conseguia acreditar que Olívia estivesse ali, tão perto. Mesmo com o tom de voz indicando que sentia raiva dela, ainda assim não pode deixar de sentir um formigamento pelo corpo. Não se sentia preparada para encará-la. Tinha pensado muito no que dizer, em como dizer... acabou escrevendo a carta. Tentou ser sincera em todos os sentidos. Não tinha a menor intenção de magoar a mulher que amava, mas sabia que não importava muito como o fizesse, a magoaria. Mas nunca, em momento algum, imaginou que ela iria atrás dela em Teresópolis. Conhecia Olivia bem demais e sabia que a primeira reação dela seria se esquivar de qualquer forma de embate. Não lutaria por elas, não buscaria maiores explicações, tocaria a sua vida como vinha fazendo desde que Joana deixara o Rio de Janeiro. Na verdade, contava com isso.
Contava com o jeito arredio e individualista de Olívia para conseguir prosseguir com seus planos. Não desistira dela. Nunca desistiria, mas por hora era o que precisava fazer. Não queria iludi-la, não queria prendê-la a ela quando sabia que a sua luta estava apenas começando. Precisava se manter distante da Olívia até que tudo se resolvesse. E ao mesmo tempo precisava saber que Olívia estava feliz e para isso deveria libertá-la. Lutara muito contra aquilo. Queria pedir que ela a esperasse, mas sabia que seria injusto. Mas e agora? O que ela faria quando estivesse cara a cara com ela?
A casa continuava a mesma, talvez um pouco deteriorada pelo tempo, mas as paredes brancas e as jardineiras sob a janela ainda estavam ali, mesmo que sem o seu colorido. Encontrou a chave onde sabia que estaria, debaixo da madeira solta da varanda do lado direito. Aquela casa fora mais seu lar do que a casa dos pais.
Girou a chave na maçaneta e abriu a porta que emperrara um pouco pelo tempo que permanecera fechada. Hesitou por um instante. A escuridão lá dentro era mórbida, e esperou que seus olhos se acostumassem com a falta de luz antes de dar o primeiro passo. Andou até a janela mais próxima e forçando-a, a abriu. A claridade iluminou o aposento e Olívia se deparou com a antiga sala de sua tia, empoeirada e com os moveis cobertos por lençóis.
Sentiu as lagrimas se formarem e bufou. Estava se tornando sentimental demais. Bom, na verdade estava sensível demais. Precisava fechar a comporta que fazia com que aqueles sentimentos aflorassem a todo o momento lhe desestabilizando.
Andou pela casa e a cada cômodo por que passava, abria as janelas e deixava o sol entrar. Lembrou-se de muitos momentos que passara ali, dos mais felizes da sua infância, aos seus dias mais triste de adolescente, quando se deu conta da sua sexualidade e fora expulsa de casa, indo morar com a tia.
Queria ter podido estar lá quando esta veio a falecer. A amava muito e sabia ser recíproco. Por não ter tido filhos, depositava todo o seu carinho em Olívia e Guto, e estes retribuíam felizes.
O quarto da tia foi o ultimo aposento no qual entrou. Era ainda o mesmo. É claro, que como o resto da casa, lhe parecia menor, mas ainda assim se sentiu uma menina travessa ao adentrá-lo. Tia Gigi não gostava que brincassem em seu quarto. Era o único lugar da casa que lhes era restrito, o que é claro, aguçava a curiosidade. Sentou-se ao lado da cama e abriu a gaveta do criado mudo. Estava vazia. Já imaginava isso. Mesmo que os moveis tenham sido deixados para trás, ou ao menos a maioria deles, seu pai, assim como os seus tios, deviam ter feito uma limpa na casa após a morte da irmã. Olívia não se ressentia, sabia que a tia pouco ligava para este tipo de coisa. Era um espírito livre.
Ouviu o barulho dos pneus em contato com a terra e soube que Joana havia chegado. Havia passado os últimos minutos sentada na cozinha, à mesa de madeira e fazia um pequeno lanche que tinha comprado na padaria antes de se dirigir a casa.
Ergue-se e caminhou lentamente até a entrada.
A viu deixar o carro e seu coração, em uma contração involuntária, disparou. Puxou o ar para os pulmões para acalmá-lo. Ela estava linda. Trajava um vestido branco fino e com pequenos detalhes em renda. Era leve para a estação. Os cabelos cheios e com cachos nas pontas, brilhavam a luz do sol fazendo Olívia se perder em devaneios e vontades. Sentia aquele frio característico no baixo ventre que resolveu interpretar como um nervoso por antecipação pela conversa que teria com ela, mas sabia no fundo que estava excitada pela visão daquela linda mulher.
Parou ainda sobre a varanda e a encarou. Os olhos de amêndoa eram cobertos pelos óculos escuros. Não era capaz de interpretar a sua expressão, mas estava seria. Percebeu o quanto desejava um sorriso, mas talvez fosse melhor assim, concluiu.
- Você realmente veio. – Joana soltou em um suspiro.
Olívia não respondeu. Por um tempo, apenas se encararam. Esperou que Joana tomasse a iniciativa e andasse até ela, e em um determinado momento, ela o fez. Andou lentamente, deixando que o vento brincasse com os seus cabelos, e revirasse seu vestido, marcando ponto a ponto as curvas do seu corpo.
Parou próxima a Olívia, tão próxima que uma podia sentir o calor que emanava do corpo da outra. Não planejara se colocar tão perto. Preferia a distância, era mais segura. Como um imã que encontra a sua polaridade invertida, sentia-se compelida a se aproximar. Agradeceu intimamente pelos óculos escuros encobrirem a emoção que certamente seus olhos entregariam. O olhar de Olívia era uma pedra de gelo. O verde, sem o brilho habitual, era duro, apagado. Era como olhar para as profundezas de um poço à noite.
Sentir a respiração de Joana tão próxima ao seu rosto era intoxicante. Não conseguia formular nada para dizer, não encontrava forças para se afastar. Usou toda a sua concentração em não tocá-la. Não poderia ceder. Não queria ceder.
Joana foi a primeira a interromper o momento. Ver a frieza em Olívia lhe doía. Sabia exatamente qual era a proporção com que a magoara mais uma vez. A culpa a assolava e também a enrijecia.
- Você pode falar Ollie. Eu estou aqui. – Foi o mais seca e impessoal que conseguiu ser. E surtiu efeito.
Olívia enfim foi capaz de se afastar e a convidou para entrar. Seguiram até a cozinha que era o local mais limpo, no caso, menos empoeirado da casa e tomando uma distancia segura, sentaram-se a mesa, uma de frente para a outra e se encararam.
Os segundos passavam e Joana começava a achar difícil respirar. O seu olhar fora capturado por Olívia, que ela poderia jurar, se sentia tão desconfortável quanto ela. Nada disseram e durante este tempo, apenas mergulharam, uma no olhar da outra e Joana pode ver nitidamente o gelo derreter a sua frente. Nada na expressão de Olívia seria capaz de entregar o que ela sentia, muito menos a mudança que ocorria, mas Joana podia detectar em seus olhos. O olhar que ela lhe dirigia, mesmo que ainda repleto de magoa, também denotava amor. Reconheceria aquele olhar em milhões, mesmo sob a nevoa que agora o cobria.
Sem nada dizer, Joana deixou sua cadeira lentamente. Sabia que qualquer movimento brusco poderia quebrar o momento. Olívia não desviou o olhar do dela, e Joana caminhou lentamente em direção a ela.
Com o coração acelerado Olívia percebia a movimentação da amada. Toda a sua raiva e toda a sua dor não eram páreo para o sentimento maior que a acometia. Amava aquela mulher com todos os seus sentidos. Via dentro dos seus olhos de amêndoa o mesmo amor. Não poderia se enganar tanto. Poderia?
Chegando em frente a Olívia, Joana sentou-se em seu colo. Ainda com movimentos lentos se permitiu sentir o corpo que tanto amava e desejava. Com as pontas dos dedos tocou a pele clara do seu rosto e desenhou sobre a pele cada marca, cada traço.
Olívia fechou os olhos ao sentir o toque das mãos dela, mesmo que um pouco tremulas, precisas. Sentiu os dedos lhe marcarem como fogo e suspirou. No próximo instante contornou o corpo de Joana com os dois braços e passou suas mãos levemente pelas costas dela, a puxando mais para perto.
O abraço foi inevitável. Estava premeditado a acontecer desde que se viram a entrada da casa. Nada era mais importante do que se sentirem, uma nos braços da outra. Se entregaram a esta sensação, acolheram o amor e a dor que cada uma carregava em si. Sem palavras, sem explicações... se permitiram sentir.
Por alguns minutos, isso foi tudo o que fizeram. Olívia procurava dentro de si as razões que a levaram até ali. A carta, e a dor que esta provocara foi à lembrança que lhe permitiu romper com o contato. Desvencilhou os braços de Joana que a envolviam e retesou o corpo. Joana percebendo a mudança, a encarou. O olhar gelado a repeliu e se ergueu, virando de costas para Olívia para poder se recompor.
- Desculpa. – Joana disse ainda de costas.
- Pelo o que? – O sarcasmo que empregou a pergunta, fez o seu papel.
- Acho que você se cansou das minhas desculpas. – Joana se voltou para encará-la em tom de desafio.
- Eu não vim te julgar ou mesmo brigar com você, eu vim perguntar por quê? – Olívia falou seria.
- Por quê? - Joana indagou.
- É, por que. Por que você voltou pra minha vida se a sua intenção não era ficar? Por que disse que me amava e me queria, se você claramente não estava nem disponível, nem pronta para viver isso? Por que me mandar àquela carta, se o seu silencio já demarcava o fim? – Em cada pergunta a sua dor se fazia presente. Sentia-se a mesma menina que fora rejeita pela mesma mulher que agora a encarava.
- Você não tem o direito de me julgar, ou julgar meus sentimentos por você Olívia. Eu sei que te magoei, mas eu não menti quando disse que te amava.
Olívia não permitiu que ela continuasse e se moveu em direção a ela como uma leoa.
- Não mentiu? – Parou em frente a Joana, a olhando de cima. – Eu não te pedi promessas ou explicações, mas você me deu. Você me fez acreditar que me amava. Me fez desejar um futuro com você. Me fez sonhar os seus sonhos como se fossem meus também. Pra que? Uma espécie de sadismo?
O tapa veio quente, forte e preciso sobre a face esquerda de Olívia. E num segundo movimento, Joana repetia o gesto, quando Olívia segurou-a pelo pulso com força.
- Quem deveria desferir esse golpe era eu. – Olívia disse ainda segurando o braço direito de Joana. – Você se faz de mártir pra que? Quer que eu sinta pena de você?
- Você não faz idéia, faz? – Joana disse trincando os dentes em uma tentativa inútil de conter as lagrimas. – Você não faz a menor idéia do quanto isso esta sendo difícil pra mim.
- Difícil pra você? Me explica o quanto isso é difícil pra você?
Olívia não arredou um milímetro e a proximidade estava deixando Joana sem ar. Deu um passo para trás e baixou os olhos. Respirou fundo antes de encarar aqueles olhos verdes tão intensos de um sentimento que ela reconhecia. Decepção. Não era a raiva das palavras proferidas, não era a frieza com que a tratava, era a profunda magoa que a estava matando.
- Eu não tenho o direito, mas eu te amo. Eu não posso, mas tudo o que eu mais quero é ficar do seu lado. E não, não foi uma aventura. Foram os dias mais lindos da minha vida em muito tempo, com a exceção do nascimento da Bia, é claro. – Respirou fundo, ganhando força. – Você pode me odiar, Olívia. Este é um direito seu e você tem razão, te mandar aquela carta foi covarde, mesquinho, imprudente... – Andou pela cozinha, enquanto Olívia se jogava de volta em sua cadeira. – Eu deveria ter ligado. Ou talvez eu não devesse ter feito nada. Poderia ter deixado as coisas como estavam, já que, como eu te disse pela carta, a escolha está sendo minha. – Parou e esperou Olívia erguer os olhos e encará-la. – Mas que saber? Eu sou egoísta sim. Por que se aquela carta te trouxe ate aqui, então valeu a pena.
Sem esperar que ela continuasse, sem querer ouvir as respostas que fora ali buscar, Olívia avançou para ela, mas desta vez, não com ódio ou raiva, mas com desejo, um desejo ardente que lhe ardia na pele. Segurou-a em seus braços e tomou-lhe a boca a força. Foi um beijo violento. Ambas tentavam se consumir nele. Mordiam, exploravam, invadiam, saciavam.
Com um gemido de dor e prazer, Olívia afastou o rosto apenas o necessário para olhar nos olhos de Joana. Seu lábio ardia, provavelmente estava sangrando, mas não se importava, não sentia. Arrancou a própria blusa e desceu as alças do vestido de Joana com a mesma vontade com que a havia beijado.
Foi correspondida em todos os sentidos. Joana lhe mordia o ombro enquanto suas mãos a puxavam para si. Ia além da vontade, era necessidade. Precisava sentir Olívia mais uma vez. Precisava se despedir do corpo dela. E por ter consciência de que esta poderia ser a ultima vez que se amavam, se entregava com voracidade e paixão.
Na cozinha, deixaram as roupas e, por alguns momentos, as magoas. Sem se soltarem, rumaram para o quarto, e por um momento Olívia pensou que seria sacrilégio fazer sexo no quarto da tia, mas o pensamento não permaneceu por muito tempo. Mal era capaz de raciocinar, quando Joana a penetrou antes mesmo de seus corpos caírem sobro o colchão.
Se permitiu ser amada e tocada de todas as formas. Se entregou ao prazer que somente aquela mulher era capaz de lhe proporcionar. Se abriu para que ela lhe invadisse com os dedos, a língua e seu corpo todo em uma sintonia perfeita, correspondia.
Perderam a noção do tempo, uma nos braços da outra, como deveria ser. E gozaram diversas vezes, uma para a outra, colocando em gemidos e na pele, no suor, nas palavras desconexas de prazer, todas as declarações de amor que gostariam de fazer. Sem palavras desnecessárias, faziam juras de amor eterno. Sim, se amariam para sempre, esta era uma certeza. Mesmo que nunca mais se vissem, mesmo que conhecessem outras pessoas, mesmo assim, se amariam, e nunca nenhum outro amor, seria tão forte e tão arrebatador.
A doçura do olhar que Joana desferiu em direção a ela, derreteu Olívia. Sentiu-se fraca. A raiva a estava sustentando mais do que qualquer outra coisa, e ela havia perdido a força diante daquela mulher linda e que ela tanto amava. E diante do desejo que sentia. Sentiu raiva de si mesma por ser tão fraca, tão vulnerável, tão suscetível a qualquer coisa que dizia respeito ao seu amor.
Joana sentia a dor de saber que aquele era o fim. Sabia agora, que não poderia mais lutar. Sabia que a estava perdendo.
Vestiram-se sem pressa e em silencio. Fora quase impossível deixarem uma o corpo da outra e o dia lá fora já findava. Não queria dizer adeus, mas não sabiam como não dizer. Protelariam o inevitável? Isto não aplacaria a dor. Joana foi a primeira a quebrar o silencio. Sabia que não teria outra oportunidade.
- Olie?
Olívia se virou, e mal conseguia distingui-la nas sombras. A casa, é claro, não tinha energia elétrica, e o sol já estava se pondo.
- Eu não quero abrir mão de você. Eu não quero te perder mais uma vez, e fazer isso esta me matando. Mas que direito eu tenho de te pedir para esperar por mim enquanto eu resolvo a minha vida? – As lagrimas corriam soltas pelo rosto moreno. – Mais do que tudo, eu quero que você seja feliz, Olie. – Se aproximou dela. – E eu queria muito ser a pessoa capaz de te fazer a mulher mais feliz do mundo.
Olívia mergulhou naquele olhar e deixou as lagrimas escorrerem por seu rosto e molharem a sua blusa. Não conseguia pensar em nada, não conseguia dizer nada, não se sentia capaz de se mover. A dor latente lhe acometia com fúria. Castigava o seu peito já tão acostumado a sofrê-la.
- Me perdoa. - Joana quebrou o momento, e tocou o rosto da sua amada. – Eu não queria nunca ser a causadora dessa dor. Eu queria provocar cada sorriso seu, cada arrepio. Queria ser catalisadora do seu êxtase, da sua alegria, da sua paixão e do seu amor.
Sentindo o aperto em seu peito se intensificar, Olívia puxou Joana para os seus braços, e em seu ombro pranteou a sua dor.
Joana a consolou para se consolar. Chorou junto e sentiu ela se acalmar em seus braços e desejou para sempre poder tomá-la desta forma. Queria ser o alento para a sua amada. Beijou-lhe o rosto todo e colheu com os lábios cada lagrima. A segurava firme em seus braços e o perfume dela lhe invadia os poros.
Sentindo a sua respiração voltar ao normal, Olívia se afastou somente o bastante, para poder encarar os olhos de amêndoa. A amava tanto que lhe doía. A amava e admirava. Acreditava na dor que via naqueles olhos. Acreditava, por tanto também, no amor que ela sentia. E era insuportável saber, que mesmo amando e sendo correspondida, não poderia vivê-lo plenamente. Definitivamente, isso não era pra ela. Chegava a ser irônico, a vida inteira maldisse as relações e as paixões. Nunca quis acreditar de fato em grandes amores, que quando se deparou com um grande amor na sua vida, fosse impedida de vivê-lo.
Tomou aquele rosto entre as mãos e lentamente aproximou seus lábios. Foi retribuída intensamente e a entrega de Joana era mais uma dor que se via fadada a carregar.
- Não consigo me despedir de você. – Joana admitiu quando deixaram a casa. – Você vai embora essa noite?
- Pretendo. – Foi seca e mais uma vez se arrependeu. – Desculpa, Jo. Reflexo. Eu estou cansada e também não consigo dizer adeus, mas não quero ficar enrolando, se nós duas sabemos que é inevitável.
Joana baixou a cabeça concordando.
- Eu te levo até a rodoviária.
- Obrigada. – Foi tudo que Olívia conseguiu responder.
Entraram no carro, e o silêncio se fez mais uma vez presente entre elas. Estavam esgotadas. Com a testa encostada no vidro do carro, Olívia mirava a paisagem, sem realmente vê-la. Sentia-se derrotada e era morada de uma tristeza melancólica.
Joana olhou para o lado, e mais uma vez pensou que seu coração fosse parar. Como queria poder dividir suas angustias com aquela mulher. Queria ser capaz de partilhar com ela a sua vida, mas sabia também que não seria justo arrastá-la para os seus problemas. A sua vida já estava difícil o bastante, sem envolvê-la.
Estacionou em frente à rodoviária, e nenhuma das duas foi capaz de se mover. Contrariando tudo o que planejara, Joana a puxou para os seus braços, e Olívia se deixou abraçar. Sentia-se vazia. Seus gestos eram mecânicos, sem sentido.
Se olharam uma ultima vez, e com um beijo delicado, suave, se despediram. Olívia deixou o carro, e andou até a plataforma, sentindo o olhar de Joana cravado em suas costas, mas não foi capaz de olhar para trás. Se o fizesse, sentia que poderia se perder ali mais uma vez, e nunca seria capaz de ir embora.
Dentro do carro, Joana deixou as lagrimas rolarem livres. A vontade de gritar, chamar por ela. Pedir, implorar que ficasse ao seu lado, estava queimando a sua garganta. Respirou fundo algumas vezes para se recompor. Foi a lembrança da sua filha, que a fez ligar o carro e partir. Bela precisava dela, e era nisso que se apoiaria.
Ao chegar na cidade maravilhosa, Olívia se jogou na noite. Foi direto para uma boate no centro. Bebeu e dançou até as luzes se ascenderem. Não falou com ninguém, ignorou todas as cantadas, e deixou o seu corpo se habituar a bebida e a falta que sentia de Joana. Não queria sentir nada, e não sentiu.
Pegou um ônibus e foi parar nas areias de Copacabana. O dia já se anunciava e alguns transeuntes começavam a tomar conta das ruas. Ficou admirando o vai e vem das ondas e mirou no infinito do mar. Era hora de esquecer. Mesmo em meio à dor, sentiu a brisa que a liberdade lhe trazia. Não estava mais presa àquele sentimento angustiante da espera. Sabia que levaria um tempo para se recuperar totalmente, a dor de amor não existe remédio imediato, mas sabia também que ficaria bem. Não era a sua primeira vez.
Com essa certeza, deixou para trás a areia e voltou para casa. Um novo dia raiava e da mesma forma outros viriam. A raiva também passaria. Amava demais aquela mulher para odiá-la. E a tristeza, esta faria morada em seu coração, mas a expurgaria de alguma forma. Viu-se tendo uma nova chance de recomeçar, e com este sentimento, mesmo que fugidio, entrou no apartamento que dividia com o irmão.
Capítulo 11 - Um novo começo
Marcinha logo teve que voltar para Teresópolis, a mudança definitiva seria feita em algumas semanas, quando tivesse que se apresentar no novo emprego. Mesmo que não dissesse, Olívia sabia que Guto estava ansioso por isso. Por um lado, a oportunidade de viver a relação deles sem a distancia o animava, ao mesmo tempo em que o apavorava, mas a felicidade era o sentimento predominante.
Quanto a Olívia, a decisão de esquecer Joana não tornara mais fácil seguir em frente. Ainda se pegava lembrando de detalhes e sonhando com algo que não havia sido e que não tinha a possibilidade de ser. Bloqueava ao maximo cada pensamento que a remetesse à morena, mas não era capaz de controlar seus sonhos, e noite após noite, acordava enrolada ao lençol, com o corpo suado e o coração na boca.
Não dividira o conteúdo da carta com ninguém. Alguns sabiam da sua existência, mas não insistiam em pedir detalhes. Marina foi quem chegou mais perto de arrancar de Olívia as palavras que sepultaram aquele amor, mas esta havia decidido manter-se alerta a estas investidas. Compartilhar, com quem quer que fosse, só tornaria mais real e por tanto, mais doloroso.
Sobre a sua ida a Teresópolis, também nada disse. Ao ser interpelada por Guto sobre a sua ausência àquele dia, disse apenas que havia saído para pensar. Como sua postura enigmática, não era novidade para nenhum de seus amigos, conseguiu fazer cessar os questionamentos.
As aulas na escola em que lecionava, já haviam começado e Olívia se dedicou ao trabalho com afinco, como lhe era característico. Novos alunos, novas descobertas, novos objetivos, era tudo o que ela precisava naquele momento para lhe tirar do torpor em que se encontrava. Adorava o início de ano. Era um recomeço, uma chance de fazer diferente. Era o mesmo que queria para a sua vida, e procurou disseminar este sentimento em todos os outros aspectos do seu dia a dia.
Na universidade, ela começava uma nova fase da vida, enfim o mestrado. Nada era novidade de fato, mas a quantidade de exigências era muito maior do que a da graduação. Vislumbrava muitas noites em claro tentando colocar a leitura em dia. Agradecia imensamente a facilidade que sempre tivera em absorver diversos conteúdos ao mesmo tempo, e manter a mente ocupada, era uma benção.
A disciplina de Fotografia artística proposta por sua orientadora, fora a que Olívia mais gostara. Sempre se interessara por fotografia, mas nunca tivera tempo ou vontade de se dedicar, mesmo como hobby. Sua vida sempre fora corrida e mesmo quando se dava ao luxo de gastar o dinheiro do pai, nada lhe interessava o bastante naquela época para que lhe desse a devida atenção. Mas agora que tinha esta oportunidade, se viu motivada a ir adiante.
Na segunda semana de aula, levou consigo a câmera semi-profissional que Paula lhe dera de presente. Assim que comentou com a amiga que tinha gostado das aulas, Paula lhe ofereceu a própria câmera que guardava em sua casa, mas que quase nunca usava.
Entrou em uma sala azulejada com cinco bancadas dispostas em filas e cobertas com mármore branco. Cada bancada continha um pia e três recipientes de aço, que pareciam com formas retangulares de bolo. Na parte de baixo, alguns tubos plásticos contendo substâncias de cores variadas.
Como fora uma das ultimas a chegar, e não era aluna do curso de graduação, ficou na ultima bancada onde outros três alunos já se posicionavam dois meninos e uma menina. E sim, eram crianças.
Um dos rapazes que estava mais próximo a ela, era alto, magro, o rosto ainda tinha marcas da adolescência espinhosa, e uns óculos de aros finos emolduravam seus olhos intensamente azuis, inocentes, pensou Olívia. Do outro lado, o outro rapaz, um pouco mais baixo que o primeiro, e um pouco mais encorpado também, tinha os cabelos cor de palha e olhos miúdos bem escuros. Um ar de divertimento brincava em seu rosto. Não era bonito, mas Olívia não saberia dizer o porquê, o achou simpático.
E por ultimo, a menina. Não se lembrava dela das duas ultimas aulas, mas ela parecia conhecer o restante da turma. Tinha uma postura descontraída, mas não abusada ou tímida. Os cabelos cor de fogo continham mexas louras e negras em contraste. Sua pele era tão clara quanto à de Olívia, e pintinhas lhe cobriam o rosto delicado. O seu rosto era lindo. Nem mesmo os olhos com delineador carregado, lhe tiravam a beleza clássica. Os olhos azuis, a boca rosada, o nariz pequeno e bem feito. O corpo era magro, mas com curvas discretas. Não muito alta, não muito magra, certamente não se destacava. Usava uma camiseta preta com a gola cortada com a logo da banda “The Who”. Calça jeans clara e um pouco larga, tênis all star azul. Olívia não precisava do seu gaydar para sacá-la de longe.
- Para aqueles que estão começando hoje, sejam muito bem-vindos. Perderam a parte teórica, e os seus colegas, muito provavelmente dirão que não perderam nada. - A turma riu da brincadeira do professor. Olívia respirou fundo para não se irritar. – Bom, vamos começar então com a prática. Este será o nosso local de trabalho de agora em diante. Será aqui que vocês aprenderão a revelar as suas próprias fotografias. Para isto, é claro, vocês precisam tirar algumas fotografias. – mais uma leva de risinhos sem graça e Olívia olhou para o lado, reparando que nenhum de seus colegas de bancada estavam compartilhando deste momento piada do professor, sentiu alívio.
Após mais algumas explanações, o professor, de quem Olívia recordava chamar-se Sergio, distribuiu tarefas por grupos. Com os três colegas de bancada, ela deveria fotografar paisagens urbanas para a aula seguinte. Ele ainda explicou o processo de revelação, a importância do enquadramento, os diversos recursos que uma câmera profissional disponibilizava e etc.
Ao final da aula, Olívia se viu em uma situação que lhe fez sorrir por dentro. Estava em meio a três colegas que não conhecia, precisando marcar um trabalho em grupo. Aquilo parecia ensino médio.
- Bom, precisamos marcar um dia e hora para tirar as fotos. – Falou a menina olhando para os três, e Olívia percebeu que ela evitava olhar para ela com mais atenção. Achou graça.
- E um local. – O rapaz alto e de óculos complementou.
- Nada mais urbano que o centro da cidade. – Olívia ouviu o terceiro falar. Ele parecia querer parecer displicente, mas seus olhares para a menina eram óbvios.
- Concordo Julinho. – A menina falou. – Que tal marcarmos em frente ao Teatro municipal e partirmos dali?
Todos concordaram inclusive Olívia, que encostada à bancada, parecia alheia a tudo que ocorria a sua volta. Percebendo isto a menina abriu um sorriso e se aproximou.
- Eu sou Emilia. Estes são Julinho e Gago. – Apresentou o garoto com cabelo de palha e o alto de óculos respectivamente.
- Olívia. – Se limitou a dizer.
- Certo, Olívia. Tudo bem pra você se nos encontrarmos amanhã? – Emilia insistiu.
- Claro. Estarei lá. – Olívia respondeu lançando um sorriso sedutor calculado para intimidar a menina, e saiu da sala sabendo que estava sendo observada com interesse.
No dia seguinte, acordou cedo, vestiu um short e uma camiseta, pegou a mochila e estava pronta para sair, quando Guto deixou o banheiro.
- Onde é que você vai tão cedo? Achei que não trabalhasse hoje.
- Eu não trabalho. – Mostrou a máquina fotográfica. – trabalhinho de faculdade em grupo. – falou sarcástica, arrancando, como previsto, uma gargalhada do irmão.
- Boa sorte. – Disse ainda rindo, quando Olívia deixou o apartamento.
Pegou um ônibus e logo se viu em frente ao Teatro Municipal. Amava aquela construção. Não apenas pela beleza arquitetônica, que era emocionantemente linda, mas pela história que aquelas paredes guardavam. Pegou-se criando uma cena, um enredo, uma historia. Como sempre que isto lhe acontecia, Olívia sacou da mochila um caderno e uma caneta, e sentada nas escadarias, traçou uma seqüência de fatos. Partiu da cena que vislumbrava, pontuando alguns diálogos, para logo depois construir um perfil dos personagens envolvidos na trama. Estava tão absorta em seu momento de criação, que não percebeu a aproximação de Emilia.
Somente quando esta fez sombra sobre o seu caderno, foi que olhou para cima e deu de cara com um sorriso maroto encantador.
- Desculpa. Não pretendia te atrapalhar. – Se desculpou calmamente, mas sem deixar de lançar um olhar provocante.
- Esta tudo bem. Só estava anotando algumas idéias soltas. – Olívia sorriu de volta.
Emilia tomou o lugar ao seu lado nas escadas e pegou um cigarro de dentro da bolsa transpassada que carregava. Olívia mirou o perfil daquela menina, e à luz do dia, ela era ainda mais bonita. Os fios dourados e avermelhados dos cabelos brilhavam intensamente sob o sol. A boca rosada e as sardas em contraste com a pele branca, eram ainda mais evidentes. Os óculos escuros cobriam seus olhos azuis, mas Olívia a achou sexy desta forma. Mais mulher, logo concluiu.
- Você não está no curso de artes, está? – Emilia quebrou o silencio.
- Não. Fotografia é uma das minhas eletivas do mestrado. – Respondeu.
- Esta fazendo mestrado em que? – Emilia se virou de frente para ela.
- Letras. – Olívia também ascendeu um cigarro. – Literatura, para ser mais exata.
- Impressionante. – A outra disse com um sorriso de canto de boca. – Você não faz o tipo.
- Como assim? – Olívia riu. – Existe um tipo especifico?
- Não sei dizer, mas sempre achei o pessoal de letras mais careta, e você está longe disso. – Era impressão da Olívia ou a menina estava flertando com ela?
- Bom, existe muita gente careta em diversos cursos, generalizar te torna tão careta quantos os que você julga. – Olívia desafiou.
- Você tem razão. Estou sendo preconceituosa. – Emilia admitiu. – Saiu totalmente errado. Eu só esperava que você respondesse, sei lá... cinema, publicidade, teatro.
- Entendi. – Olívia riu. – Então você já fez conjecturas a meu respeito? – Adorava deixar as pessoas sem graça, mas não é que a menina era interessante.
- Algumas. – Gostou ainda mais quando recebeu uma resposta atrevida e franca. – Mas você está se provando ainda mais interessante. – Emilia completou sedutora.
- Você também. – Olívia rebateu devolvendo no mesmo tom. – Me fala de você. Por que artes plásticas?
- Porque é só o que eu de fato sei fazer da vida. – Sorriu. – Mas a serio? Comecei Direito e parei. Tentei psicologia e percebi que a loucura alheia não me atraía tanto assim, com exceção de algumas. Depois parti para publicidade e foi lá que me dei conta de que o que queria mesmo era fazer artes. Sempre curti desenhar, e fotografia acabou se tornando outra das minhas paixões.
- Os caminhos nem sempre são fáceis, mas um dia a gente se encontra. O que também não garante que tudo não possa mudar novamente. – Olívia apagou o cigarro.
- E letras? – Emilia perguntou.
- Eu escrevo. É o que eu faço e em geral, o que eu sou. – Olívia constatou. – Gosto de contar historias, e na época em que decidi fazer faculdade, parecia ser o caminho mais óbvio. Hoje não tenho mais esta certeza, mas confesso que acabei me apaixonando pela profissão. Adoro ensinar, mesmo que não concorde com a burocracia dos meios de ensino, quando estou frente a frente com os meus alunos, é mágico.
- Uau. Realmente surpreendente. – Emilia provocou, o que lhe rendeu uma cutucada de Olívia. – Mas serio. Ontem quando te conheci, você estava fazendo uma cara de deboche...
- Te deixei intrigada, hã?! – Olívia ficou surpresa em o quanto estava gostando daquele jogo. Sim, era um jogo. Mas ao mesmo tempo, sentia-se a vontade ao lado de Emilia. Talvez pelo carisma e jeito direto com que ela lhe abordara, ou talvez fosse simplesmente aquela atração que em geral não requer explicação lógica, ela simplesmente existe.
- Interessada, seria o mais correto. – Pronto. Emilia jogou a cartada que faltava. Deixou as meias palavras e fez Olívia corar e sorrir.
Foram interrompidas pela chegada dos meninos. Julinho e Gago se aproximaram das duas, que se ergueram, ainda inebriadas pela conversa que estavam tendo, para recebê-los.
- Foi mal, mas eu perdi a hora. – Julinho chegou se desculpando. – Vocês estão aqui há muito tempo?
- Não muito. – Olívia respondeu e olhou de lado para Emilia que lhe sorriu.
- Então vamos. – Emilia os chamou.
Passaram a manhã fotografando várias ruas, prédios, pessoas. Realmente Emilia sabia o que estava fazendo, e Olívia passou a admirá-la ainda mais quando percebeu a seriedade dela com aquele projeto. Ela se envolvia, pensava na luz, no ângulo. Tinha um olhar ao mesmo tempo técnico, sem perder o envolvimento emocional com a imagem.
Descobriu também que os meninos eram bastante divertidos. Pelo jeito o Julinho, só fazia pose de marrento, era na verdade muito engraçado e divertido depois que relaxava. Eles eram amigos desde o primeiro período, mas em nenhum momento deixaram Olívia se sentir desconfortável por conta disso. Sempre que podia, Emilia a interava das piadas internas, e logo Gago se tornou um aliado.
Gago queria ser cineasta. Aquela cadeira, também era uma eletiva para ele, mas já conhecia o Julinho desde muito tempo. Ele tinha uma sensibilidade que Olívia podia sentir só de ouvi-lo falar sobre os seus projetos. Era um jovem extremamente doce e sonhador. Logo estavam os dois a combinar de embarcarem em um projeto juntos. Olívia assinando o roteiro e ele a direção. Emilia seria a diretora de arte e Julinho, após muitos protestos dos demais, conseguiu convencê-los de que daria um excelente cenógrafo. Como Emilia gostava de dizer, ele fora fazer arte, mas queria mesmo era cursar moda.
Almoçaram em Santa Teresa, pois com tantas andanças, acabaram optando por tirar algumas fotos de lá. Olívia era assumidamente apaixonada pelo bairro, e logo ela e Emilia convenceram os outros dois a subirem com elas.
O clima estava descontraído a mesa. Gago contava sobre o seu ultimo caso, e todos na mesa riam da sua historia:
- É serio! A menina virou pra mim, na cama, e disse que gostava de sexo violento. Masoquista mesmo. E eu fiquei como? Totalmente sem ação. Minha gagueira voltou com força total e eu acabei a minha noite trancado dentro do banheiro esperando ela ir embora.
- Só você Gago! Onde você arruma essas figuras? – Emilia perguntou ainda rindo muito.
- Esta eu conheci na faculdade. E eu juro que olhando de longe, você não diz.
- Essas são as piores. – Olívia comentou.
- Mesmo? – Emilia se mostrou interessada.
- Mesmo. – Olívia lhe sorriu de volta.
- Experiência própria? – Emilia perguntou.
- Algumas sim. – Olívia respondeu olhando dentro dos olhos dela. – Mas eu nunca me escondi no banheiro. – completou. Estava provocando e adorando a reação que Emilia estava tendo.
- Eu imagino que não. Não esperaria nada diferente de você. – Emilia rebateu.
- Mas também não curto masoquismo. Entre quatro paredes, quase tudo é válido. Este é um dos poucos limites.
- Concordo plenamente. – Emilia sorriu enviesado novamente, e Olívia se pegou gostando muito daquele traço no rosto dela. Era sedutor e travesso ao mesmo tempo. Completamente encantadora.
- Eu perdi alguma coisa aqui? – Gago perguntou olhando de uma para a outra.
- Fica quietinho, fica. - Julio deu uma cotovelada nada discreta no amigo.
- Autch! Por que isso? – Gago insistiu.
- É muito tapado mesmo. É por isso que você só arruma umas mulheres loucas. Não entende nada. – Julio concluiu o que fez com que as meninas rissem também.
- Não se preocupe Gago, nada que você precise entender. – Emilia respondeu ainda rindo. Seu olhar cruzou com o de Olívia, e esta lhe sorriu, dando a entender que o interesse era mutuo.
À tarde, se despediram. Olívia convidou Emilia para tomar uma cerveja com ela, mas este declinou justificando que tinha marcado um compromisso com a mãe. Olívia não saberia dizer se era verdade, ou se ela apenas havia puxado o freio de mão. De uma forma ou de outra, estava encantada, Emilia se tornava cada vez mais interessante. Trocaram telefones e Emilia prometeu ligar no dia seguinte para marcarem algo.
Olívia estava dentro do ônibus, voltando para casa, quando recebeu uma mensagem de texto no celular: “Só pra não deixar duvidas. Te ligo amanhã.” Era simples, mas lhe arrancou um sorriso que percebeu, veio fácil. Alias, aquele dia todo, ao lado de pessoas que ela mal conhecia, sentiu-se leve. Divertira-se como há muito tempo não fazia, e quase não pensara em Joana. Bom, este mérito era de uma certa ruivinha espevitada e convencida. Sorriu novamente com a lembrança, e releu a mensagem. Estava mesmo ficando mole.
Como prometido, no dia seguinte Emilia ligou. Marcaram um chopp na “Tasca do Edgar” em Laranjeiras, pois era próximo ao apartamento de Emilia, e ela chegaria tarde do trabalho. Olívia havia descoberto que a ruiva tirava fotos para algumas campanhas publicitárias. Era uma forma de arcar com os seus custos, sem abrir mão da arte. Ao menos foi esta a explicação que recebeu.
Saltou do ônibus na Pinheiro Machado, e subiu a rua lentamente. Sempre gostara daquele bairro, tinha um ar boêmio diferente dos bairros nobres da Zona Sul. Era um pouco mais jovem e arrojado. Mais escuro e Underground.
Chegou primeiro ao bar e sentou-se a uma mesa no canto, próxima a saída já que ambas fumavam. Pediu uma cerveja de garrafa, e estava no segundo copo quando avistou a ruiva entrando no bar. Ela estava linda com uma calça verde exercito larga, uma camiseta regata justa branca e um par de sandálias rasteiras marrom. Os cabelos soltos eram chamas vivas e convidativas. Mas nada tirou Olívia mais do sério, do que aquele sorriso luminoso que recebeu.
Ergueu-se e a cumprimentou com um abraço rápido, mas que lhe permitiu sentir a respiração da ruiva no seu pescoço a levando a loucura. Aspirou o cheiro floral antes de se desfazer do abraço e dar-lhe um beijo demorado no rosto. Se olharam e ali havia fogo.
Sentaram-se uma de frente para a outra e Olívia pediu mais uma cerveja e Emilia pediu bolinho de bacalhau.
- Estou sem almoçar. – Se justificou.
- Trabalhou muito? – Olívia perguntou.
- Um pouco. E você?
- Não muito. – Olívia sentia uma vontade louca de beijar aqueles lábios que se ofereciam emoldurando um sorriso sedutor. – Foram duas aulas na escola e o restante do dia eu passei escrevendo.
- Quero ler algo seu. – Emilia disse sincera.
- Eu te mando algumas coisas. – Olívia foi displicente. Em geral não sabia lidar muito bem com a atenção dos outros em volta dos seus trabalhos. Escrevia porque amava e por não ser capaz de não fazê-lo, mas ainda lhe era estranho quando outros falavam sobre isso.
- Você é mesmo modesta? Não me pareceu. – Emilia exalava charme e sedução por todos os poros. Olívia não via forma de resistir, e nem queria. Aquela menina lhe fazia muito bem.
- Não é modéstia, mas eu não posso dizer se você irá gostar de algo, até que você experimente. – Disse provocante.
Trocaram um sorriso que dizia claramente que aquela noite não findaria ali. Olívia sentia a excitação do flerte, do desconhecido. Se viu pela primeira vez pensando seriamente se não seria capaz de se apaixonar novamente e talvez Emilia pudesse vir a ser esta mulher. A achava a cada instante mais interessante, e mesmo sentindo a dor constante que seu coração já conhecia tão bem, ela estava totalmente sob controle, no fundo da mente, uma leve lembrança.
Passaram algumas horas bebendo e conversando. Falaram sobre tudo: família, trabalho, amigos, interesses em comum até chegarem à ex-namoradas e Olívia travar. Não mencionou Joana. Falou de Manuela, Paula e outras conquistas menos importantes, mas não conseguiu tocar no nome do seu grande amor.
Emilia havia tido vários romances passageiros, assim como ela. Dois grandes amores que ficaram para trás. Era uma mulher decidida, forte e ao mesmo tempo doce e divertida. Tinha um sorriso fácil e honesto que encantava Olívia cada vez mais.
Deixaram o bar e seguiram para o apartamento da ruiva na subida da Rua Alice. Era um prédio antigo e sem elevador. Subiram as escadas até o terceiro andar e Olívia se encantou com o espaço em que ela morava. Era um cômodo grande e espaçoso, com uma cozinha americana, um banheiro e um mezanino que servia de quarto. Todo o lugar transpirava arte. Muitos quadros nas paredes e alguns inacabados a um canto junto ao cavalete. Um sofá confortável coberto por tecidos indianos, uma pequena televisão e um radio. No mezanino, um colchão de casal sobre o chão de madeira, uma caixa de verduras virada para baixo que servia como mesa de cabeceira e um abajur.
- Meu canto. – Emilia abriu os braços abrangendo todo o espaço.
- É lindo. – Olívia disse sincera. – Assim como a dona. – Se aproximou de vagar. Um andar predador que Emilia achou extremamente sedutor e irresistível.
Olívia a tomou em seus braços e aproximou sua boca da dela. Emilia lhe sorriu e passou os braços pelo corpo magro, mas forte da morena. As bocas se tocaram de leve, e as duas de olhos abertos acompanhavam cada movimento. Um beijo doce. O gosto da boca da ruiva era ainda melhor do que Olívia imaginara. Sentiu primeiro os lábios, para então introduzir a língua devagar na boca rosada. Foi recebida pela língua quente de Emilia, que ditou um ritmo intenso em sua boca, sorvendo a sua saliva com vontade.
Beijaram-se intensamente, e Olívia podia sentir seu corpo ferver com o contato. Puxou a ruiva ainda mais para perto e a encostou na parede de tijolos. Desceu suas mãos pelo corpo bem feito, e tocou-lhe entre as pernas por cima da roupa. O gemido que saiu em meio ao beijo, a incendiou ainda mais.
- Eu sabia que seria bom. Desde que eu te vi pela primeira vez, sabia que a sua boca era deliciosa. – Emilia disse com a respiração entrecortada.
- Imagina o que a minha boca não pode fazer com você. – Olívia disse provocante, já descendo os lábios pelo pescoço branquinho e repleto de sardas. – Quero te provar inteira. – Falou perto do ouvido e pode sentir o corpo da outra estremecer de prazer.
Subiram as escadas que dava acesso à cama, com dificuldade. Enquanto subiam, iam tirando peça por peça das suas roupas. Quando atingiram o colchão, restavam apenas as roupas íntimas, que logo foram jogadas longe.
Olívia fez como prometera, provou cada pedacinho de pele do corpo da ruiva com devoção. Lambeu, chupou, mordeu, até se ater ao órgão pulsante que se apresentava para ela.
Emilia gemeu no primeiro contato, e Olívia se deliciou com a entrega dela. Se concentrou em dar o maximo de prazer a linda mulher que ali se oferecia. Pode senti-la tremendo em sua boca e introduziu dois dedos na cavidade quente e molhada. Viu um sorriso lindo brotar naqueles lábios, e a escalou até tomar-lhe a boca em um beijo ardente.
Se amaram por horas, mas Olívia não permitiu ser tocada. Emilia não insistira, mas ela sabia que a ruiva ficara frustrada. Tentou compensar dando todo o prazer que podia e como há muito tempo não fazia, dormiu por algumas horas agarrada a outro corpo.
Quando Olívia acordou com a luminosidade do dia entrando pela janela, deu-se conta de onde estava e se assustou. Emilia dormia lindamente sobre a cama ao seu lado. Ela tinha o corpo descoberto e era mais linda ainda a luz do dia. Mas Olívia sentiu-se vazia e a dor que atravessou seu peito, roubou-lhe o ar. Havia abaixado a guarda.
Ergueu-se em silencio para não acordar Emilia, recolheu suas roupas e saiu do apartamento. Mais tarde ligaria para a ruiva, mas agora não se sentia capaz de explicar nada, precisava simplesmente sair dali. Ganhou as ruas e o dia estava recém começando. Tomou um café forte na padaria da esquina, fumou um cigarro e tomou o ônibus que a levaria de volta para casa.
Por todo o trajeto, Olívia podia sentir uma angustia constante. Com Emilia não havia sido somente sexo como com as outras mulheres que teve depois que Joana a deixou. Com Emilia, houve um envolvimento, um desejo mutuo, uma sensação boa de estar com alguém. Olívia sabia que o preço seria mais alto.
Passou da dor ao ódio antes mesmo descer no ponto de ônibus. Sentiu raiva de Joana, mas principalmente, sentiu raiva de si mesma por permitir que ela criasse raízes em seu peito de forma tão avassaladora. Sentiu-se desnorteada. A noite havia sido incrível. Emilia era uma mulher incrível. Precisava esquecer Joana e se focar no seu futuro. Talvez nunca fosse capaz de amar ninguém como amara Joana, mas poderia viver com aquele sentimento quente que Emilia despertava nela. Aquela sensação gostosa que vai alem da atração puramente física.
Assim que chegou em casa, se refugiou no quarto e buscou o celular no bolso de trás da calça. Pressionou “send” e esperou.
- Oi fujona. – Uma voz sonolenta a atendeu divertida. Se Emilia havia ficado chateada com a sua saída pela manha, não demonstrou.
- Desculpa ter saído assim minha linda, eu tinha que passar em casa antes de uma reunião com a minha editora. E você estava dormindo tão linda, que eu não tive coragem de te acordar. – Falou tudo com a voz quente. Não estava jogando, não completamente, realmente queria se desculpar, queria mais uma chance de estar com a ruiva.
- Está desculpada. Mas da próxima vez, me acorda. Queria um beijo seu quando acordei. – Emilia disse travessa. – E talvez um pouco mais. – Sedutora, e Olívia estava adorando aquilo.
- Nunca mais vou deixar a sua cama sem antes beijar você inteira. – Prometeu.
- Vou cobrar. – Emilia disse rindo.
- Eu tenho que ir linda. Alguma chance de eu te ver hoje mais tarde? – Precisava se esforçar. Precisava sair daquele buraco, e Emilia estava jogando a corda, Olívia a agarraria com todas as forças.
- Pode ser. – Emilia falou displicente. – Talvez no bar que você fala tanto.
- Bar do Bola. – Olívia completou. – Então está marcado. Bar do Bola as dez? Tudo bem pra você?
- Ótimo. Te vejo mais tarde. Beijo. – Emilia se despediu.
- Beijo. – Ela já havia desligado.
Olívia achava graça na maneira como Emilia a tratava. Estava tão acostumada às mulheres a seguindo e cobrando e enlouquecendo, pedindo por atenção, que ter esta mulher linda e independente interessada nela, mas deixando Olívia com vontade, a estava surpreendendo de uma maneira completamente positiva.
Olívia foi à reunião com sua editora. Letícia estava entusiasmada com o lançamento do livro. Aparentemente, um dos donos da Editora, havia lido alguns projetos dos seus funcionários e um deles fora o livro de Olívia. Ele se apaixonara e providenciou que o livro entrasse no circuito da FLIP, assim como a autora. Olívia ficou imensamente feliz com a notícia. Sempre sonhara em participar de uma Feira do Livro de Paraty, mas nunca poderia imaginar que isto fosse acontecer tão rápido.
Passou toda a manhã e metade da tarde, envolvida com os preparativos para o lançamento. Com exceção da parte burocrática, decidir fonte, imagem da capa e outros pequenos detalhes para enviar para impressão, foram gratificantes.
Voltou para casa quando o dia já findava. Guto ainda não havia chegado do trabalho, e após ligar o aparelho de som no ultimo volume, Olívia foi tomar um banho. Sua cabeça estava a mil. Esta aproximação com Emilia estava sendo ótima, mas também lhe fazia lembrar de Joana com maior freqüência. Não havia gozado enquanto transava com Emilia, e no momento que chegou mais perto disso, foi em Joana que pensou. Optou por bloquear as imagens que lhe vinham a mente, mas elas agora voltavam com força.
“Desde que Joana decidira parar de fugir do que sentia por Olívia, as duas tentavam ao maximo serem cautelosas sobre o que ocorria entre elas. Na escola, se reaproximaram, mas mantinham a fachada da amizade, que era verdadeira o bastante para não transparecer que havia algo mais. Como o relacionamento entre mulheres ainda era tido como tabu, ninguém de fato pensava nisto quando via duas meninas andando juntas, ou partilhando momentos de carinho.
Estavam encontrando dificuldade era de terem momentos a sós. A família de Joana, nunca fora grande fã da relação da filha com Olívia. Sempre achara aquela menina muito rebelde para ser um bom exemplo. Já na casa de Olívia, era o padrasto da menina que criava caso. Como ele também tinha filhos e estes passavam o final de semana com ele a cada quinze dias, Olívia passara a dividir o quarto com o irmão mais novo.
Após três semanas de desencontros, Olívia tivera a idéia de levar Joana para a casa da tia. A casa ficava em um sítio um pouco afastado da cidade, mas a tia prometeu busca-las na escola para passarem o final de semana.
Joana se animou, mas sentia-se nervosa. Era a primeira vez que iriam dormir juntas como namoradas, e isto era completamente diferente do que haviam vivido até então.
Na sexta-feira, como combinado, tia Gigi estacionou em frente à escola a espera das meninas. Mas antes que pudessem entrar no carro, Léo as interceptou, segurando Joana pelo braço.
- Eu preciso falar com você. – Ele disse duro. Desde o termino do namoro, Joana se afastara do ex-namorado completamente. Ele estava com raiva por ter sido largado e como ainda gostava dela, queria uma segunda chance.
- Eu não tenho nada pra falar com você Léo. – Joana disse, tentando soltar o braço que ele apertava com força.
- Tem sim! – Ele disse irritado. – Você não pode simplesmente dizer que acabou e achar que esta tudo bem.
- Posso sim. Acabou Léo. – Joana tentou se soltar novamente. – Me solta Leonardo, você esta me machucando.
- Solta ela agora Léo. – Olívia se enfiou no meio dos dois e segurou o braço dele.
- Não se mete Olívia. Tenho certeza que isso tem dedo seu. – A acusou.
- Não Léo, o problema é que você não aceita o fato de que a Joana não te quer mais. – Ela o desafiou.
- Se você não fosse mulher... – Ele deixou no ar.
- O que? Você iria me bater? Bate então. – Olívia o desafiou e a esta altura, boa parte da escola já estava posicionada em volta dos três.
- Eu to te avisando Olívia! – Leo ameaçou.
- Chega Léo. – Foi a vez de Joana, que enfim conseguira se soltar, gritar. – Eu não tenho mais nada com você. Deixa a gente ir em paz.
Joana se posicionou a frente de Olívia num gesto protetor, fazendo com que Léo ficasse ainda mais furioso. O que o impediu de agir, foi à aproximação de um funcionário da escola, que percebendo o pequeno tumulto que ameaçava se iniciar na porta do colégio, chegou dispersando os alunos.
Olívia tomou a mão de Joana entre as suas e a puxou em direção ao carro da tia alguns passos além da entrada do colégio. Entraram no carro pelo banco de trás e tia Gigi olhou para a cara culpada das duas.
- Vocês estavam metidas naquela confusão? – Perguntou.
- Só um pouco tia, mas não fomos nós que iniciamos. – Respondeu Olívia com um sorriso culpado no rosto.
- Sei. Te conheço Olie. – A tia disse divertida, antes de dar partida com o carro.
Chegaram ao sitio e foram levar as mochilas para o quarto que iriam dividir. Havia duas camas de solteiro, era o quarto que Olívia sempre dividira com o irmão quando iam passar a noite com a tia.
Assim que entraram no quarto, ainda empolgada com a confusão, mas principalmente com o fato de que enfim poderia dormir uma noite inteira com a namorada, Olívia fechou a porta e tomou Joana nos braços, lhe dando um beijo que provocou milhares de sensações em ambas.
- Sua tia. – Joana disse ofegante, ainda derretida nos braços da amiga.
- Ela não vai entrar. – Olívia falou confiante, retirando uma mexa de cabelo do rosto de Joana. – E eu estava louca de vontade de te beijar.
Joana encarou aqueles lindos e brilhantes olhos verdes e ali se perdeu. Sentia um formigamento no baixo ventre e as mãos suadas. Não podia mais fugir. Não queria mais fugir. Tomou os lábios de Olívia em um beijo intenso e cheio de promessas. Apertou o corpo magro e esguio, puxando-o em direção ao seu e sentindo o coração de Olívia bater mais rápido com a aproximação. As mãos pareciam ter vida própria, e passaram a percorrer as costas de Olívia e se detiveram na nuca. O simples toque a levou a loucura. Olívia também a tocava com cada vez mais vontade e ousadia e Joana sentia seu corpo arder.
- OK. Agora sim... minha tia. – Olívia separou os lábios, mas não se afastou dela nem um centímetro. – Vamos para a cozinha. Nós teremos todo o tempo do mundo mais tarde.
As promessas naqueles olhos cinzentos sugavam Joana para uma outra dimensão. A desejava tanto que doía. Tocou o rosto de Olívia com delicadeza, fazendo com que esta fechasse os olhos com prazer.
- Mais tarde. – Disse num sussurro.
Olívia beijou-lhe os lábios com delicadeza e a puxou para fora do quarto. Entraram na cozinha e a tia colocava a mesa para um café da tarde com direito a leite quente, café, pão feito em casa, bolo de laranja, bolo de cenoura, mel, geléia de goiaba, manteiga e queijo minas.
- Hum tia! Está com uma cara ótima. – Olívia elogiou já se esparramando na cadeira e pegando um pedaço de bolo.
- Come com calma menina. Não vai queimar a língua. – A tia ralhou, mas sorrindo. Gigi amava a sobrinha como se fosse sua filha. Sempre se identificou mais com Olívia do que com qualquer outro sobrinho. Como nunca tivera filhos, acabou criando um laço muito forte com os filhos de seus irmãos.
- Está tudo realmente muito bom tia Gigi. – Joana reforçou. Era amiga da Olívia há bastante tempo para saber que Gilda gostava de ser chamada de tia pelos amigos de seus sobrinhos.
- Que bom que vocês gostaram. – Ela sorriu. – E então, qual das duas vai me dizer o porquê daquela confusão na escola hoje mais cedo?
Olívia e Joana se entreolharam antes que Olívia respirasse fundo, e falasse.
- O ex-namorado da Jo queria tirar satisfação com ela. – Falou com desagrado. Não importava que Joana agora estivesse com ela, ainda sentia ciúmes do Léo.
- Foi besteira Tia Gigi. – Joana tentou amenizar. – O Léo que fica insistindo para voltar, mas eu não quero.
- E não quer porque menina? – Tia Gigi perguntou inocentemente.
- Porque eu gosto de outra pessoa. – Joana disse isso olhando nos olhos de Olívia que abriu o sorriso mais lindo que ela já tinha visto na vida.
- Homens. –Tia Gigi, que nada havia percebido, resmungou. – Eles não gostam é de perder.
Após o café, ficaram horas sentadas na varanda conversando com a tia, que sempre tinha muitas historias para contar. Vez ou outra se olhavam profundamente, e mesmo quando a tia contou uma historia realmente embaraçosa da infância de Olívia e esta tenha ficado completamente roxa de vergonha, ainda assim o olhar que Joana lhe lançava era quente, apaixonado.
Mas somente quando a tia deu por encerrado o dia, foi que as duas conseguiram enfim, ficar a sós. Olívia entrou no quarto e com muito cuidado tratou de trancar a porta. Quando se virou de frente, viu Joana parada próxima à cama com a expressão de quem não sabe o que fazer. Nenhuma das duas sabia ao certo. Aquela era uma situação nova, esperada, mas nem por isso mais simples.
Sem tirar os olhos dos dela, Olívia se aproximou devagar, contando cada respiração, sentindo o corpo tremulo e o coração palpitante.
- Diz alguma coisa. – Joana implorou sem graça.
Funcionou, as duas começaram a rir da situação e lembraram que antes de qualquer coisa, eram amigas e que aquele constrangimento, não fazia na verdade nenhum sentido.
- Alguma coisa? – E riram ainda mais. Olívia se aproximou e a abraçou. – Não tem porque ter medo. Eu to aqui. – Disse baixinho no ouvido de Joana, que retribuiu o abraço.
O clima mudou instantaneamente. Olívia acariciava as costas de Joana e esta lhe dava pequenos beijos no pescoço. Não agüentando mais, Olívia tomou-lhe os lábios em um beijo urgente, sendo prontamente correspondida. Ainda beijando, deixaram-se cair na cama, os corpos se sentiam, e as bocas invadiam com língua, saliva e dentes.
Quando o beijo suavizou, Olívia rolou de lado e Joana se virou pra ela. Estavam próximas, ainda podiam sentir o calor do corpo da outra, e se olhavam.
- Se você esta com medo Jo, nós não precisamos fazer nada. – Olívia disse temerosa, mas ao mesmo tempo querendo passar segurança para a sua namorada. – Só de estar aqui com você, eu já estou feliz. – Disse afagando o rosto que tanto amava.
- Eu sei. – Um sorriso brotou nos lábios de Joana. – Eu não estou com medo Olie. Eu só quero que seja perfeito.
- Já é perfeito. – Olivia rebateu. – Somos eu e você.
Joana se aninhou nos braços de Olivia e afundou seu rosto no colo dela, sentindo o perfume da pele da sua branquinha. Deslizou a perna e enganchou no quadril de Olivia, aproximando ainda mais os corpos. Passou os lábios e então a língua pela pele do pescoço e subiu até o ouvido.
- Me toca. – Pediu. Mal sabia ela o quão sedutora era esta frase e o que fez com Olivia.
O sangue ferveu nas veias dela, e suas mãos passaram a explorar o corpo da morena saciando toda a curiosidade que estas tinham de conhecer e decorar cada curva, cada pinta, cada reação que o seu toque fosse capaz de provocar.
Lentamente foram se livrando das roupas. Se olhavam o tempo todo, com carinho, com desejo. Quando viu Joana completamente nua deitada na cama pela primeira vez, Olívia se emocionou. Ela era tão linda. Tudo nela era perfeito, as pernas grossas, a barriga lisinha, os seios médios. Tirou o que restava da própria roupa e percebeu o olhar desejoso de Joana sobre seu corpo.
Joana ergueu a mão e tocou o seio de Olívia. Era uma sensação tão nova para ela, mas ao mesmo tempo parecia tão natural. Olívia deitou sobre ela e sentiram o corpo uma da outra. Era a explosão de sentidos quando as peles se sentiram como um todo.
Olívia começou a dança por sobre o corpo da morena. Rebolava sobre ela sentindo ela entrar no ritmo e esfregar seu corpo no dela. Tomou-lhe a boca em um beijo profundo, intenso, muito diferente de qualquer beijo que tivessem trocado antes. Podia sentir os corpos se ascenderem, e deslizando a mão por toda a extensão da coluna dela, desceu pela bunda e contornou pela frente. Quando alcançou o sexo, senti-o molhado. Introduziu um dedo e ouviu Joana arfar ainda em sua boca. Começou um movimento lento de vai e vem sentindo a mulher em seus braços se derreter ainda mais. O corpo todo de Joana implorava por mais. Ela rebolava para sentir o dedo da sua amada dentro dela. Olívia introduziu mais um dedo e acompanhou o rebolado dela, que ficava cada vez mais ousado e estimulante. Olívia podia sentir o próprio liquido descer pelas pernas. E no rosto de Joana a expressão mais linda que já vira na vida, e que sabia, dedicaria o resto dos seus dias para vê-la novamente. Com um grito abafado, Joana gozou.
Ficaram abraçadas por alguns minutos esperando a respiração voltar ao normal. Olívia não se cansava de olhar para o rosto da morena e sorrir. A felicidade que ela sentia por ter Joana em seus braços era maior do que ela poderia imaginar que um dia sentiria na vida.
Joana sorriu para ela, sentindo-se plena, mas não saciada. Subiu sobre o corpo de Olívia e a beijou. Começou a se mover sobre ela, imitando os movimentos que Olívia havia feito. Desceu sua mão pelo corpo dela, passando pelo seio, barriga, ventre, até tocar-lhe o sexo. Sentiu a respiração da amada mudar. Passou os dedos por toda a extensão da vulva, até encontrar a cavidade que a esperava pulsante. Quando entrou em Olivia e ouviu seu gemido, sentiu-se completa.
Olívia nunca havia feito sexo com homens ou mesmo mulheres antes, não desta forma. Nunca havia sido tocada. Seu corpo todo reagiu quando sentiu Joana dentro dela. Foi tomada por espasmos imediatos de prazer. Um gozo forte, intenso. Provocou-lhe lagrimas.
Joana, vendo-a chorar, retirou a mão devagar e a abraçou.
- Te machuquei? Desculpa meu amor. – Disse afagando-lhe o rosto.
- Não. – Olívia conseguiu dizer por entre as lagrimas. – Foi incrível. – Completou, provocando um sorriso tímido no rosto da morena.
Se abraçaram e beijaram. Ficaram deitadas nuas, uma nos braços da outra com os corações batendo a mil. A emoção que sentiam era tão grande, que não cabiam palavras para explicar, só queriam sentir. E desta forma adormeceram, sabendo que estavam onde pertenciam. Não restava duvidas, haviam encontrado a sua outra metade.”
Olívia saiu do banho e se enrolou em uma toalha. Aquela lembrança lhe era sagrada. A primeira vez que entendeu o que era amar alguém fisicamente. A lembrança do primeiro toque, do primeiro orgasmo, ainda lhe era intensa. Sentiu saudade daquela mulher capaz de transformar o seu mundo e fazê-la se entregar sem reservas. Lembrou-se também, que foi a mesma que lhe feriu mais profundamente e por duas vezes.
Andou até o quarto e vestiu uma camiseta e uma calça jeans. Precisava se desvencilhar de todas as lembranças, de todos os vestígios da existência de Joana em sua vida. Queria poder sentir-se livre daquele sentimento que a corroia por dentro. Não queria mais sentir saudade.
Lembrou-se de Emilia e da forma como a fazia sentir. Precisava tentar. Emilia era uma mulher com quem ela conseguia ver futuro. Ela era diferente de todas as outras que passaram pela sua cama. Dar-se-ia a oportunidade de conhecer e quem sabe se apaixonar outra vez.
Capítulo 12 - Emilia
Chegou ao bar do Bola as dez da noite acompanhada de Guto, que já sabia que iria conhecer o novo affair da irmã. Ele brincou, fez piada, mas no fundo estava extremamente feliz por ela. Pode sentir pela forma como ela se referia a Emilia, que está era diferente, e ele não poderia desejar nada melhor para a sua irmã. Vinha acompanhando o sofrimento dela por causa da Joana e sabia que somente um novo amor, ou ao menos algo próximo disso, poderia curá-la.
Assim que colocaram os pés dentro do bar, foram recepcionados pelo Bola que andava animado entre as mesas. Após abraços e brincadeiras, ele apontou para o fundo do bar onde Theo e Marina tomavam uma cerveja e riam.
- Resolveu deixar a toca Nina? – Olívia provocou a amiga que se ergueu para abraçá-la.
- Conheço as suas teorias Li, e você errou em todas. – A desafiou.
- Mesmo? Nada de mulher? – A cutucou. – Quem te conhece que te compre.
- Ei! – Theo exclamou. – Para de implicar com a minha amiga. – Falou fazendo pose de segurança de shopping.
- Vai dar uma de macho pra cima de mim, Theo? Vê se te enxerga. – Olívia brincou e abraçou o amigo.
- Então? Quem é a gata que você vai nos apresentar hoje? – Nina perguntou maliciosa.
- Guto! – Se virou para o irmão.
- Eu não disse nada demais. – Ele fez cara de inocente. – Só disse que você traria uma “amiga”. – Demonstrou as aspas com as mãos ao falar.
- Muito engraçadinho você.
- Mas fala logo sapatão. Eu fiquei curioso. – o Theo a interrompeu.
- Ela é aluna do curso de artes da universidade. Estou fazendo a cadeira de fotografia artística com a turma dela. – Olívia se limitou a dizer.
- E a esta traçando? – Nina implicou.
- Não é bem assim Nina. Você vai conhecer. A menina é gente boa.
- Menina? Então é pirralha? – Nina estava inspirada, o que tirava Olívia do sério.
- Eu juro que eu não sei por que ainda me dou ao trabalho de explicar alguma coisa a vocês. Todos já tiraram suas próprias conclusões mesmo. – Olívia reclamou se fazendo de ofendida.
- Desculpa amiga. – Nina a abraçou por trás. – Você sabe que nós te amamos e torcemos por você sempre. – Beijou-lhe o rosto. – Qual o nome dela?
- Emilia.
- A boneca de pano? – Theo riu. – Adorei. Vou querer ir conhecer a Dona Benta e o Pedrinho.
Olívia teve que rir. Eles não iriam mesmo parar de provocar.
- Você a conheceu onde? No recreio? – Foi a vez de Marina implicar.
- Alias, ela tem permissão para sair tão tarde sozinha de casa? Não precisa do acompanhamento dos pais? Ou talvez o Barnabé vá trazê-la. – Theo completou.
- Já vou logo avisando que não comprarei bebidas alcoólicas pra cunhadinha. Ela que arrume uma carteira de identidade falsa. – Guto entrou na brincadeira.
- Você sabe que fazer sexo com menores dá cadeia, não sabe? – Theo perguntou.
- Você saberia. – Olívia revidou. – E podem parar com as piadinhas. A Emilia não é nenhuma criancinha.
Neste momento Emilia entrou no bar e avistou Olívia. Abriu aquele sorriso que a cativara e Olívia levantou da cadeira para recebê-la. Deu-lhe um selinho e sorriu.
- Que bom que você veio. – Falou no ouvido dela.
- Eu disse que viria. – Emilia respondeu. – Pra falar a verdade, eu até pensei em dar o troco por hoje de manhã, mas eu não resisti. Se você prometer me chupar daquele jeito que fez ontem, eu sou bem capaz de nunca resistir a você. – Falou sedutora, acendendo Olívia por inteiro.
- Bom, - Olívia pigarreou para se recompor. – Deixa eu te apresentar a minha família. – Apontou para a mesa. – Este é o Guto, meu irmão caçula.
- Não tão caçula assim. – Ele disse provocando risos nos demais. – Muito prazer Emilia. – Ele se adiantou e a abraçou.
- Esta é a Nina e aquele é o Theo. – Olívia continuou as apresentações, fingindo não ter entendido a piada do irmão.
- Oi Emilia. – Nina se adiantou dando dois beijinhos na ruiva.
- Emilia! Adorei seu nome. – Theo a abraçou. – Me desculpe por referências futuras à turma do sítio. – Falou rindo, para irritação de Olívia.
- À vontade. Mas vou logo avisando que o Pedrinho é gay sim, mas muito novinho pra você. – Emilia respondeu.
- Ok. Já aprovei Li. Ela tem senso de humor. – Theo falou para a amiga.
- Certo. – Olívia disse apenas e puxou Emilia para sentar a lado dela na mesa.
Aos poucos Emilia foi encantando a todos. O jeito direto que tanto cativara Olívia, conseguiu conquistar até mesmo Nina, que em geral era a mais difícil de se quebrar. Olívia sorria ao lado da sua menina, que a cada instante provava ser uma mulher incrível. As trocas de carinho entre elas, se tornavam mais evidentes a cada hora que passava, e Guto sorria ao ver a irmã tão solta e aberta para esta nova possibilidade que se descortinava a sua frente.
Voltaram para a casa de Olívia por volta das duas da manhã. A esta altura, Theo, Guto e Nina já estavam apaixonados pela ruiva. E Olívia percebeu que para ela, isto também poderia se tornar uma realidade. Pensava que nunca mais levaria uma mulher novamente para a sua cama, mas quando percebeu, já a havia convidado para passar a noite com ela na sua própria cama.
Chegaram ao pequeno apartamento e Guto se despediu das duas, se enfiando em seu quarto e caindo sobre a cama. Olívia guiou Emilia até seu quarto e se surpreendeu com a voracidade da ruiva naquela noite. A puxou para o colchão antes mesmo que ela pudesse dizer qualquer coisa.
- Assim vou achar que você só me quer pelo sexo?! – Falou brincando, enquanto a ruiva arrancava a própria camiseta.
- E quem disse que não é?! – Abriu um sorriso sedutor.
- Tudo bem pra mim. – Olívia respondeu a puxando para si.
Retirou o sutiã, e se deliciou com os seios pequenos e alvos, com a aureola rosada, e repletos de pintinhas, assim como toda a pele daquela menina. Ela era linda, e o sorriso safado que bailava em seus lábios, e o gemido ferino que saiu da sua garganta, quando Olívia a tocou entre as pernas ainda por cima da calcinha, fizeram a escritora sorrir.
Logo Olívia já a havia despido completamente, e demorou um tempo a apreciando. Ela era linda. Sensual demais. Uma menina tão mulher.
Retirou a própria roupa, e nua, deitou-se por sobre ela. A dança começou lenta. Um esfregar de pele com pele, os lábios deixando marcas quentes no rosto, pescoço, ombro, boca. Se sentiam sem pressa, apesar da ruiva estar mais afoita, deixou-se levar pelo embalo da outra.
Quando Olívia a penetrou, sentiu-a quente, molhada, e um gemido subiu por sua garganta, excitando Emilia ainda mais. Não existia mais a calma de antes. A busca frenética por sentir e dar prazer, tomou conta de todos os sentidos das duas, e Emilia, sem reservas, sem pudores, explodiu em um gozo que Olívia achou lindo e poético, como muitas outras coisas naquela menina.
Emilia tentou tocá-la como na noite anterior, mas mais uma vez, Olívia recuou diante das investidas. Queria permitir-se, mas não conseguia. Não gozou. Até sentiu que poderia, mas sua mente teimava em lhe levar para os braços de uma certa morena cada vez que tentava.
A ruiva dormiu em seus braços e Olívia a achou linda. Como queria ser capaz de se entregar a ela de corpo e alma. Não estava pronta para desistir ainda, mas sabia que se aquilo continuasse e se tornasse algo serio, em algum momento teria que se deixar levar, nem que fosse um pouco, nem que fosse apenas fisicamente a principio, e mesmo esta possibilidade, a assustava.
As semanas passavam e com elas Olívia se via cada vez mais envolvida com Emilia. As duas agora se viam quase todos os dias e dormiam juntas praticamente todas as noites, tanto na casa de Olívia, quanto na de Emilia. Não classificavam a relação que tinham, não cobravam e tentavam manter o ‘namoro’, na fase inicial enquanto fosse possível. Aquele período em que ambas as partes ainda estão se conhecendo e ainda acham os defeitos do outro, interessantes. Para Olívia, estava ótimo assim. Não conseguira se entregar por inteiro a Emilia como gostaria e sabia que esta merecia, mas gostava demais da companhia dela e procurava deixar isto sempre claro.
As aulas na faculdade estavam ficando cada vez mais interessantes e Olívia entregara uma parte da sua dissertação para sua orientadora. Claudia estava se saindo melhor do que Olívia poderia pressupor. Acabou descobrindo que por de baixo daquela aparente frieza, existia uma mulher apaixonada e cativante. Ela e Olívia passavam horas durante as suas reuniões semanais, conversando sobre tudo. Arte, cinema, livros, vida. Olívia descobrira que Claudia era divorciada e tinha dois filhos, o rapaz era medico e a menina estudante de Educação física. Era uma amizade ainda estranha, Claudia impunha um distanciamento entre elas, mas Olívia preferia assim. Não queria se sentir confortável demais, não enquanto Claudia era a sua orientadora, precisava que alguém a forçasse a escrever, especialmente quando requeria tanto estudo.
Marcinha enfim se mudara para o Rio de Janeiro e estava morando temporariamente com eles. Ela e Emilia se deram bem de cara, o que não era surpresa alguma, já que Emilia conseguira conquistar a todos com tanta facilidade. Passavam boa parte do tempo os quatro juntos, fazendo o que Olívia nunca se imaginou, programas de casais. Saíam juntos para irem ao cinema, jantar, show ao vivo, exposições, já que Emilia era rata de galerias, peças teatrais e etc. Olívia não pensava, apenas agia.
Em uma noite particularmente fria que anunciava o outono, saíram os quatro para uma ida ao cinema. O filme era de longe o que Olívia teria escolhido, mas como Marcinha havia se proposto a comprar os ingressos, foi junto.
Após a tortura de duas horas tendo que assistir uma comedia romântica totalmente sem graça e sem noção, voltaram para a Lapa indo parar no Bar do Bola, como de costume. Olívia sentiu um alivio imenso ao adentrar o seu habitat. Encontrou com Nina logo na porta, e após os cumprimentos, os outros três se dirigiram a uma mesa e ela ficou com a desculpa de fumar um cigarro com a amiga.
- Eu ainda estou tentando me acostumar a nova ‘você’. – Nina provocou.
- Então somos duas. – Olívia falou mal humorada.
- Então você consegue perceber o quanto é estranho te ver domesticada assim? – Nina sorriu condescendente.
- Eu acabei de sair de duas horas com Jennifer Aniston em uma comedia ridícula. Você acha que eu não sei o quanto isso é bizarro?! – Reclamou.
- Então porque, Li?
- Porque eu preciso disso Nina. Essa estabilidade provinciana e burguesa. – Olívia admitiu.
- Ainda a Joana? – Nina a encarou.
Olívia estremeceu diante do nome. Ainda era assaltada por lembranças a todo momento. Sentia falta da voz, do sorriso, das pequenas brincadeiras, do jeito meio desligado, da risada, do cheiro, do gosto. Sentia falta de tudo. Passava horas tentando entender o que havia acontecido. Diferente do que sentiu quando recebeu a carta que decretara o fim do romance delas, Olívia se pegava agora tentando entender o que havia acontecido, onde havia quebrado. Antes de ir embora do Rio, Joana disse que voltaria para ela. O que havia mudado? Esta e outras tantas dúvidas pairavam diante dela todos os dias.
- Na verdade sou eu. – Olívia admitiu triste. – Eu que não consigo parar de pensar nela. Não consigo deixar de sentir saudade.
- Li! – Nina a olhou com pena. – Eu jurava que você estava superando. Ainda que fosse vivendo esta realidade paralela de boa moça.
- Eu estou tentando Nina. E acredite, eu realmente gosto da Emilia, ela é uma mulher incrível, mas meu coração continua me traindo. Meu corpo, minha mente... Eu não posso me deixar perder o controle por um segundo, que eles se entregam à saudade que eu sinto dela.
Marina a olhou com preocupação. Sabia que a dor de amor podia deixar qualquer um perdido, sentira isso na pele mais de uma vez, e ainda sentia falta de Clarissa, mas nada parecido com aquilo. A dor da Olívia era palpável, angustiante, e ela como amiga, se via na obrigação de intervir.
- Vai atrás dela Li. – Falou após alguns segundos de silencio.
- O que? – Olívia demorou para processar a informação. Estava concentrada em suas lembranças mais uma vez.
- Vai atrás dela. – Repetiu. – Você precisa de um fechamento para essa historia e claramente aquela maldita carta não fez o serviço.
Olívia não respondeu nada em principio. Não havia contado a amiga, nem a mais ninguém, sobre a sua ida a Teresópolis. Todos ainda pensavam que ela havia deixado tudo como estava após a carta, que apesar de mais ninguém ter lido, sabiam do que se tratava.
- Eu fui atrás dela Nina. – Olívia precisava falar.
- O que? Quando? – Nina se surpreendeu.
- Após receber a carta. Eu não passei o dia andando pela cidade. – Olívia olhou para as próprias mãos. – Eu peguei um ônibus e fui até Teresópolis vê-la.
- E? – Nina a indagava com o olhar?
– Ela deixou bem claro que não quer ficar comigo. – Disse magoada. – Eu nem deveria ter ido até lá para início de conversa. Só ficou mais claro que nada do que eu fizesse, iria mudar a decisão dela. Ao menos disso eu sei. Eu sou burra, mas também sou orgulhosa.
- Burra duas vezes. – Nina sentenciou. – Você nunca vai ser capaz de estar de fato com a Emilia enquanto a Joana morar aí dentro. – Apontou para o peito da amiga. – E honestamente, a Emilia merece mais que isso.
- Eu sei. – Disse entre os dentes. – Se eu não precisasse tanto da força dela, já teria terminado tudo. Ela merece bem mais do que posso dar. – Confessou. – Eu sou egoísta mesmo.
- Egoísta e infantil. - Respirou fundo. – Eu te amo Li. Eu vou sempre ficar do seu lado pro que der e vier, mas ou você resolve essa questão logo, ou você vai se magoar ainda mais e pior, vai quebrar o coração daquela linda ruiva lá dentro. Pensa bem no que você esta fazendo.
- Você acha que eu faço alguma outra coisa além de pensar e tentar esquecer a Joana? – Olívia perguntou revoltada.
- Eu não estou duvidando da sua vontade, Li. – Marina afagou o rosto da amiga. – É a sua determinação em ir contra o que você sente que me preocupa.
Marina a deixou sozinha com seus pensamentos. Olívia espiou para dentro do bar e viu Emilia rindo e conversando com seu irmão e sua cunhada. Até mesmo o Bola e o Tom estavam à volta, todos rendidos aos encantos daquela menina linda. Olívia sentiu um aperto dentro do peito, porque ela não conseguia ser enfeitiçada? Queria tanto estar apaixonada por Emilia que se pegava fantasiando um sentimento que não existia.
Lembrou-se de uma tarde fria em Teresópolis muitos anos antes.
“Joana estava deitada de costas sobre o tapete do quarto. Ela e Olívia estavam passando mais um final de semana na casa da tia Gigi. Olívia tinha quase certeza de que a tia desconfiava de algo, mas como ela nunca disse nada, a sobrinha preferiu deixar as coisas como estavam. Não que ela não pensasse em se assumir de vez, mas sabia o quanto isso seria difícil de encarar e sabia que se o fizesse, estaria obrigando Joana a fazer o mesmo. Ela não estava preparada, e Olívia esperaria que ela estivesse.
- Chega. Não consigo fazer isso. – Joana jogou o lápis no chão e sentou. – Eu não tenho QI para física! – Exclamou.
- Ah tem sim. – Olívia revidou sedutora. – Você entende muito bem de física. – Se aproximou e deitou sobre o corpo de Joana, forçando-a a deitar sobre o tapete novamente.
- Alguém já disse que você é muito safada? – Joana riu.
- Não. Porque eu só sou safada com você. – Olívia disse rindo e beijando o pescoço da namorada.
- Acho bom. – Joana sorriu. – E vai ser só minha pra sempre.
- Pra sempre. – Olívia jurou. – Eu amo você.
- E eu amo você. – Joana repetiu beijando-lhe os lábios. – E vou amar pra todo o sempre.
Olívia adorava ouvi-la dizer que a amava. Ia ao céu e voltava cada vez que Joana se declarava. Tomou-lhe os lábios em um beijo doce. Queria ser capaz de dizer tudo o que sentia, mas como não encontrava palavras, deixou que o seu beijo carinhoso e calmo fizesse o discurso por ela.
- Às vezes eu acho que você jogou um feitiço em mim. – Joana disse com um sorriso nos lábios, acariciando o rosto da namorada.
- Eu que fui enfeitiçada por esses olhos de amêndoa. – Declarou.
- Amêndoa? – Joana riu.
- É, amêndoa. Eles são lindos meu amor.
- Os seus são como o mar em dia de chuva. Um verde escuro poderoso e intenso. Eu amo mergulhar nos seus olhos Olie. – Passou os dedos pelo rosto amado. – Eu nunca pensei que poderia ser tão feliz assim.
Olívia sabia do que ela estava falando. Nunca havia imaginado que a felicidade para ela viria dessa forma. Sempre achou que nunca iria se apaixonar. Achava piegas e em geral que o amor não valia mesmo a pena. Via sua mãe com o idiota do seu padrasto e a achava ridícula. As historias de amor no cinema também eram repletas de clichês e situações absurdas. Mas ali estava ela, amando pela primeira e sabendo que seria a única.
- Nem eu. – Respondeu depois de um tempo.
- Eu só queria poder dizer pra todo mundo que eu te amo. – Joana soou triste. – Como é que algo tão bom pode ser errado?
- Eu não sei Jo. As pessoas não entendem essa forma de amor. – Queria tirar aquela expressão triste do rosto do seu amor. – Mas isso não quer dizer que seja errado.
- Aposto como a minha mãe sempre vai achar errado. – Joana suspirou com essa constatação.
- Talvez. – Olívia disse. – Mas você acha errado?
- Não sei Olie. – Aquela resposta feriu Olívia de uma forma insuportável. Ela perdeu o ar e girou o corpo, deixando-se cair ao lado de Joana no chão. – Olie! – Joana a chamou. – Quando eu estou com você, eu não penso em certo e errado. No meu coração é certo, porque eu te amar assim não pode ser errado, nem feio. Mas eu tenho medo do que os outros podem pensar ou dizer, ou até fazer com a gente por causa disso.
Olívia nada respondeu. Sentiu uma dor tão grande no peito que não conseguia encontrar sua voz para falar qualquer coisa. Não era a primeira vez que desejava do fundo do coração poder ser um homem para que ela e Joana pudessem andar de mãos dadas pela rua sem que ninguém olhasse torto. Queria poder pedir a mão dela em casamento, e namorar em casa como qualquer garoto poderia fazer. Claro que não disse isso a Joana. Sempre buscava ser forte perto dela, sabia que se fraquejasse, talvez Joana se assustasse ainda mais.
- Olie, olha pra mim. – Joana pediu se virando para ela.
Olívia virou o rosto e se deparou com o rosto belo da sua namorada. Aqueles olhos que tanto a fascinavam e tentou sorrir.
- Eu queria poder dizer que com a gente vai ser diferente, mas é mentira Jo. Me desculpa. Se eu não tivesse feito nada com o que eu sentia, você não estaria tendo que nem pensar nessas coisas.
- Olívia Gurgel. – Sempre que Joana dizia o seu nome inteiro assim, ela sabia que ela falava serio. – Se você nunca tivesse me agarrado naquele banheiro, eu seria a pessoa mais infeliz do mundo, portanto não diga isso nunca mais.
Olívia a tomou para si em um abraço apertado. As duas caíram no chão abraçadas e riram.
- Eu te agarrei sim, mas quem me imprensou contra a parede foi você. – Olívia disse em meio ao riso, já passando a mão pelo corpo bem feito da morena.
- Você me enlouquece, sabia? – Joana sorriu. – E eu te amo por isso. A minha vida não tinha a menor graça sem você. E pode admitindo, foi feitiço. Eu sempre soube que você era meio bruxa.
Ainda rindo elas começaram a se tocar. O que começou como um carinho, uma brincadeira, logo se tornou algo quente e excitante. Fizeram amor no chão, entre sussurros e juras de amor eterno.”
Ignorando a dor que mais uma vez a assolava, Olívia entrou no bar. Emilia a recebeu com seu sorriso característico e um beijo que poderia fazê-la esquecer do mundo, não fossem aqueles olhos de amêndoa que não a deixavam em paz.
Ao voltarem para o apartamento, Olívia se jogou sobre o colchão e Emilia a encarou.
- O que foi hein? Que você fica melancólica às vezes, eu já sei, mas hoje está mais do que o seu normal. – Emilia sentou-se na ponta do colchão.
- Não é nada minha linda. Só um pouco de dor de cabeça. – Olívia sorriu.
- Olívia... – Emilia se interrompeu.
- O que? – Olívia perguntou com medo do que poderia ouvir.
- Eu respeito que você não goste de falar sobre as suas coisas, mas se nos vamos de fato levar isso adiante, eu preciso de algum feedback. – Ela foi doce, sem cobranças, o que quebrou Olívia. Ela sabia que Emilia tinha razão, não poderia continuar levando as coisas daquela forma. Não era justo.
- Você tem razão. Não é justo que eu me feche e te deixe de fora. – Disse por fim e sentou puxando um cigarro de dentro do maço o ascendendo. – Eu estou adorando tudo o que nos estamos vivendo Emilia, mas eu tenho algumas pontas soltas na minha vida amorosa que eu preciso acertar e não estou conseguindo. – Falou olhando para as próprias mãos.
- Joana, certo? – Emilia soltou.
- Quem te falou? – Olívia perguntou desconfiada.
- Ninguém. – Parou por um segundo. – Você, na verdade.
- Quando? – Olívia não se lembrava de ter mencionado Joana para ela.
- Uma noite que você bebeu um pouco a mais há algumas semanas atrás. – Emilia admitiu. – Você me chamou de Joana quando me deitei ao seu lado. E acredite, não foi o ponto alto da minha vida.
Olívia foi até ela e abraçou.
- Desculpa Emi. Mil desculpas. – Sentiu vergonha pelo lapso. – Eu juro que nunca quis fazer você passar por isso.
- Esta tudo bem Olívia. – Disse. – Eu entendo.
- Não deveria. – Respondeu se afastando. – Eu não sei nem o que dizer Emilia.
- Não precisa dizer nada. – Emilia se ergueu. – Você ainda a ama, não ama?
- Não tem nada pra amar. – Olívia se defendeu.
- Eu não sei o que aconteceu. Eu não conheço a história de vocês, mas eu posso ver que você ainda sofre por ela. E eu não quero e nem tenho o poder pra consertar isso.
Olívia baixou a cabeça e cruzou os braços, abraçando as pernas. Sentiu-se tão frágil naquele momento, que como há muito não fazia, chorou. Isso, mais do que qualquer coisa que pudesse vir a ser dita, fez com que Emilia se aproximasse e a abraçasse. Deixou que Olívia chorasse com o rosto colado em seu peito pelo o que pareceram horas. Quando esta se acalmou, Emilia levantou e foi até a cozinha, voltou de lá com um copo de água para ela.
- Esta se sentindo melhor? – Perguntou ao afagar-lhe os cabelos curtos e desordenados.
Olívia apenas fez sinal que sim com a cabeça. Sentia-se ridícula por chorar daquele jeito, mas não conseguiu se controlar. Não queria que Emilia a deixasse, mas sabia que seria injusto pedi-la para ficar.
- Eu só quero o seu bem Li. – Emilia disse, sentando-se de frente para ela. – E infelizmente para mim, eu me apaixonei por você.
Olívia se assustou com a declaração, tentou dizer algo, dar algum sinal de que ouvira o que foi dito, mas a única coisa que conseguiu foi encará-la surpresa.
- Não precisa dizer nada. – Emilia sorriu. – Eu sabia no que eu estava me metendo.
- Eu deveria ter te dito alguma coisa. Te avisado que eu era essa confusão em forma de pessoa. Eu deveria ter me afastado de você. – Olívia sabia, no fundo sabia, que estava sendo melodramática, coisa que odiava, mas nada daquilo se parecia com ela ou com o que ela acreditava, nada daquilo, na verdade, fazia qualquer sentido.
- Você nunca precisou dizer. – Emilia segurou a suas mãos. – Eu sabia. – Abriu um sorriso que foi prontamente correspondido.
- Eu quero que dê certo entre a gente Emilia. – Acariciou o rosto de menina dela. – É o que eu mais quero, de verdade. Você é uma mulher maravilhosa, e que mexe muito comigo. Eu sei que é pedir muito, mas não desiste da gente, não ainda. Me deixa tentar ser melhor pra você.
- Li... Eu quero ficar com você, mas ficar na sombra de outra mulher, não é algo que me agrade nem um pouco.
- Eu não vou te deixar na sombra. – Olívia disse tentando convencer a si mesma. – O que eu sinto pela Joana, não me faz bem. Eu não quero mais me sentir assim. Ela desistiu de mim, eu não quero desistir de você. Deixa eu te conquistar?
- Hum, dessa proposta eu gosto um pouco mais. – Um sorriso sedutor brotou em seus lábios. – Mas a serio Olívia, eu quero mais do que você pode me oferecer agora. Não é justo que você dê mais do que tem para dar, e que eu receba migalhas do que preciso de você.
- Não, não é justo. – Olívia reconheceu.
Elas se fitaram por alguns momentos. Dentro de Olívia, dois sentimentos conflitantes brigavam por espaço. Uma parte dela queria que Emilia fosse embora e a deixasse. Assim ela poderia se entregar a sua dor, não precisaria lutar contra os seus sentimentos por Joana e ficaria livre das obrigações de um relacionamento. Por outro lado, não queria que Emilia a deixasse. Não queria ficar sozinha. Precisava da força dela, para sair da letargia em que Joana a deixou. Queria mudar a sua vida, e Emilia lhe havia oferecido esta saída.
- Vamos deitar. – Emilia falou de repente. – Nós não precisamos decidir isso agora. Eu estou fragilizada, você esta fragilizada. Vamos dormir que amanhã é um novo dia. Talvez as coisas fiquem mais claras.
Olívia sorriu e a abraçou. Elas tiraram as roupas e deitaram nuas lado a lado. Olívia a puxou para perto e abraçou, sentindo o cheiro da pele clara invadir-lhe. Ficaram por um longo tempo acordadas, apenas acariciando uma a outra. Dormiram coladas, cada uma perdida nos seus próprios pensamentos, mas buscando a segurança nos braços alheios.
Nos dias que se seguiram, Olívia cumpriu o prometido. Dedicou-se a Emilia como nunca havia feito por mulher nenhuma, com exceção de Joana, é claro. Ela sabia que não era o bastante, mas se dedicar a isso, a estava mantendo longe das lembranças, e esta era uma vitoria.
Emilia parecia fingir que acreditava naquela mudança, o que provocava culpa em Olívia. Elas viviam uma mentira, mas que era tão bem interpretada por ambas, que elas eram capazes de acreditar, nem que fosse por alguns momentos, que viviam uma relação completa.
É claro, que vez ou outra, a verdade vinha à tona. O confronto com a realidade fazia com que cutucassem feridas, gerando brigas, ou momentos de confissão. De um modo geral, eram os momentos em que se conheciam melhor. Olívia acabara por contar toda a sua historia com Joana, o que Emilia ouviu com o coração na mão, mas constatou que não queria se afastar. Estava irremediavelmente apaixonada por Olívia e queria acreditar que poderia fazê-la se apaixonar por ela. Olívia, por sua vez, queria tanto acreditar nisso, que em muitos momentos se via dizendo que amava Emilia. E talvez amasse. Um amor mais fraternal do que gostaria de sentir, mas era amor.
Capítulo 13 - Mensagem
Quase um segundo (Cazuza)
Comp. Hebert Vianna
"Eu queria ver no escuro do mundo
Aonde está o que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores e as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa?
Ás vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
Tudo que não me deixa em paz
Quais são as cores e as coisas pra te prender?
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa?"
Com o final de maio, veio o momento que Olívia tanto esperou. Seu livro seria lançado, e Letícia havia programado para ela algumas viagens para fazer a publicidade do livro.
Na noite de autógrafos, a primeira de tantas outras que viriam, Olívia se viu sentada atrás de uma mesa em uma das livrarias que mais gostava na Zona Sul do Rio. Um coquetel era servido, e vários convidados já se encontravam presentes.
Ela vestia um terninho preto com uma camisa branca por baixo. Seus amigos estavam todos presentes, e sua linda ruiva, trajando um vestido azul marinho, sorria do outro lado da livraria.
A emoção que Olívia sentiu ao assinar cada exemplar era indescritível. Há muito tempo não sentia uma felicidade tão genuína.
No final da noite, quando restavam apenas as pessoas mais próximas, ela relaxou e com um sorriso contagiante, brindou a sua vitoria mais do que merecida.
- Eu nunca tive tanto orgulho de você. – Guto revelou emocionado ao seu ouvido, dando-lhe um abraço apertado.
- Nem eu maninho. – Olívia sorriu e beijou-lhe o rosto. – Surreal.
Os dois sorriram um para o outro e Marcinha puxou a cunhada para um abraço apertado.
- Finalmente vou ler algo seu. – Declarou sorrindo.
Letícia se aproximou e elogiou o sucesso da noite. Ela trabalhava a cinco anos na mesma editora, e este havia sido sem duvidas, o seu trabalho mais gratificante. Sentia um carinho especial pelo livro e pela a autora. Um carinho que por vezes até pensou poder ser algo mais, mas que mantinha guardado a sete chaves. Era casada com um homem e nunca se imaginou estando com outra mulher, até conhecer Olívia. Mas no final, havia concluído que este era o efeito que Olívia provocava nas pessoas, não merecia ser levado a serio.
Da livraria, a festa foi transferida para o bar do Bola, que havia mantido o estabelecimento fechado em homenagem a amiga. Até porque, ele e Tom, não perderiam este momento por nada.
Emilia estava radiante ao lado da namorada, e Olívia não poderia estar se sentindo mais feliz por tê-la ao ali consigo como sentia naquele momento. Ela lhe dera apoio, segurança e espaço para curtir aquela noite tão esperada. Assim que chegaram ao bar, Olívia a puxou de lado e abraçou a ruiva.
- Obrigada por tudo, Emi. Eu te amo, sabia? – Disse no ouvido dela. – Estou muito feliz por te ter ao meu lado esta noite. – Confessou.
- E eu estou muito orgulhosa de você, Li. – A ruiva admitiu emocionada, beijando os lábios que tanto amava. – Você estava ainda mais linda e sexy. Se é que isso é possível.
- Você gostou, é? – Falou provocante. – Eu posso fazer uma sessão de autógrafos só pra você em casa.
- Eu vou cobrar. – Emilia a beijou com devoção. Não era capaz de resistir a Olívia.
- Chega com essa pegação. – Nina se aproximou das duas. – Vamos entrar que a festa lá dentro não é a mesma sem a convidada especial.
As duas sorriram para a amiga e entraram no bar sob os aplausos dos amigos e convidados que já haviam tomado conta das mesas.
Paula estava ao lado da sua nova namorada, Lara. Olívia ainda estava avaliando se aprovava de fato o novo amor da sua ex, mas estava feliz por vê-la radiante daquele jeito. Em outra mesa, avistou Theo com Hugo. A cada semana ele lhe apresentava o amor da sua vida, e ela desistira de discutir. Na verdade Theo não conseguia se prender a ninguém, mas lutava contra isso diariamente.
Guto e Marcinha dividiam a mesa com Bola, Tom e Nina. Letícia e o marido, um homem bonito, mas que Olívia sempre achara sem graça, também estavam presentes.
- OK. Hora do discurso. – Guto gritou, no que foi acompanhado por todos os outros.
Olívia tentou fugir, mas Emilia segurou sua mão e a incentivou. Por fim, subiu em uma cadeira de frente para as mesas do bar, e encarou o seu pequeno publico.
- Vocês poderiam ao menos ter esperado eu beber um pouquinho antes disso. – Brincou. Ela respirou fundo e encarou os rostos daquelas pessoas que significavam tudo para ela, e deixou a emoção fluir. – Hoje foi uma das noites mais bonitas da minha vida. A celebração de uma conquista que não é só minha. – Sorriu para os presentes, e continuou. - É do Guto, por me aturar nos dias em que me enfio no quarto e não falo com ninguém. Da Letícia que nunca desistiu de mim, mesmo quando eu desistia. Da Paula, que foi a primeira pessoa a ler algo escrito por mim e de fato acreditar que eu era capaz, muito antes de mim. Nina, que é a personificação de melhor ser humano no mundo que eu conheço. Bola, Tom... O que seria da alma dessa escritora sem vocês? – Todos riram. – E de você, minha linda. – Falou olhando para Emilia. – Por estar ao meu lado durante este processo final e por me fazer tão feliz. Obrigado a todos vocês meus amigos. Sem vocês eu nada seria. – Ela desceu da cadeira, e voltou a subir. – Ah, ao Theo. Meu companheiro para todas as horas e a maior inspiração para criar o Carlos, meu personagem mais controverso e amado.
Em meio ao riso dos amigos e aplausos, Olívia foi juntar-se a eles nas mesas. Sentia que tudo estava perfeito. Todos riam e se divertiam. Saiu para fumar um cigarro, deixando Emilia em meio a uma discussão sobre arte moderna com Theo, que sempre achava que era entendido em qualquer assunto.
Tirou o maço do bolso, e com ele o celular. Percebeu que havia algumas mensagens de ligações perdidas e outras mensagens de texto. A primeira era da Manu lhe parabenizando. A tinha convidado para o lançamento, mas ela não pode ir. E logo abaixo, uma mensagem de um remetente com número de Teresópolis. Não o reconheceu, mas o frio na barriga lhe indicou de quem poderia ser.
Lá estava. Pensara nela a noite toda. Tentou mantê-la longe da sua mente, mas seu coração a todo o momento a traía, e logo se via lembrando dela, imaginando o que ela diria e em como seria tê-la ali ao seu lado.
A mensagem era curta, mas efetiva: “Eu sempre soube que este dia iria chegar. O topo do mundo é seu. Daria tudo para compartilhá-lo com você. Te amo!” Não, ela não precisava assinar. Olívia sentiu a saudade comprimir-lhe o peito. Vinha lutando com todos os sentimentos, pensamentos, lembranças, mas sua guarda estava baixa, e a enxurrada de sensações que a invadiram, poderiam destruir uma cidade.
“Fazia calor. Um dia atípico de primavera. No fundo de uma sala de aula vazia do segundo andar, e em meio a cadeiras, armários e mesas antigas, Duas meninas saboreavam o prazer de matar aula.
Olívia vestia a blusa do uniforme que Joana havia arrancado na pressa de sentir o corpo da namorada junto ao seu. Elas haviam faltado à aula dupla de educação física para namorar. Não conseguiam um momento só para elas há algumas semanas, e a saudade já extrapolava as suas medidas de segurança quando estavam em meio a outras pessoas. Viviam procurando uma desculpa para sentarem perto uma da outra, pequenas trocas de caricias e os olhares que se tornavam cada vez mais indecentes.
- Você tem certeza que trancou a porta, né? – Joana perguntou, enquanto abotoava a calça jeans.
- Sim, eu tenho. E você só pensou nisso agora? – Olívia sorriu. – Eu adoro quando você esta com esse fogo todo. – Se aproximou da namorada, e tomou-lhe os lábios em um beijo ardente.
- A saudade estava me matando. – Admitiu, deitando a cabeça no ombro da sua namorada e afundando o nariz no pescoço dela. – Não agüento ficar sem te tocar.
- Não fala assim... – Olívia sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. – Você acha que eu agüento?
- Não vejo a hora de terminar o colégio e ir embora com você pra bem longe. – Joana disse se desvencilhando do abraço e recolhendo o restante das suas roupas pelo chão. – Não ter que dar satisfação pra ninguém e poder te amar toda hora.
- Nós vamos ter tudo o que a gente quiser Jo. – Olívia a abraçou por trás. – Eu prometo.
- Eu sei que a gente vai. – Joana se virou sem sair dos braços dela. – Até porque você ainda vai ser muito famosa. Vai publicar vários livros e nós vamos morar um uma casa linda, com um jardim grande e cheio de arvores.
- É? – Olivia beijou-lhe a ponta do nariz.
- É. – Joana retribuiu. – Você escreve muito bem, Olie. Vai chegar ao topo do mundo.
- Você falando assim eu vou até fingir que acredito. – Olívia disse com o rosto vermelho.
- É a mais pura verdade, amor. – Joana a puxou mais pra perto. – E eu vou estar lá pra te aplaudir de pé.
- Eu te amo, sabia? – Olívia se derreteu naquele olhar.
- Eu amo mais. – Joana respondeu com os lábios colados nos dela.”
Não era justo. Olívia pensou quando conseguiu respirar novamente. Não era justo que ela se fizesse presente em um momento como aquele. Sentiu raiva. Por que ela não a deixava em paz?
Fumou outro cigarro tentando se acalmar, e quando voltou para dentro do bar, foi direto a mesa onde seu irmão estava sentado com a namorada.
- Marcinha, será que eu posso falar com você? – Olívia tentou disfarçar a turbulência que ocorria dentro dela, mas não foi tão eficaz. Marcinha concordou e se ergueu de imediato, tentando entender o que se passava na cabeça da cunhada. Guto fez menção de segui-las, mas Olívia o impediu. – A gente já volta.
Marcinha a seguiu até o lado de fora do bar e se virou esperando que Olívia lhe dissesse o que estava acontecendo, mas ela apenas se encostou à parede do lado de fora e parecia ter dificuldade para respirar. Marcinha se preocupou.
- Olie? Esta tudo bem? – Se aproximou tocando-lhe o ombro.
- Não. – Conseguiu dizer com dificuldade. Sentia a onda que queria atravessá-la e tentava refrear. – Só um segundo. – Pediu abaixando a cabeça e se deixando cair até sentar no meio-fio. Marcinha se acomodou ao lado dela acariciando-lhe os cabelos.
- Você quer que eu chame alguém? – Marcinha estava tensa. Olívia parecia passar mal e ela não sabia o que fazer.
- Não. – Olívia gemeu. – É com você que eu preciso falar.
- Ok. – Marcinha concordou e esperou.
Olívia voltou a sentir sensibilidade nas extremidades do corpo e sua respiração retornou ao normal. Antes de dizer qualquer coisa, mostrou a mensagem para Marcinha que apenas suspirou. Ela não parecia surpresa.
- Você contou pra ela que era hoje? – Perguntou tentando se manter sob controle.
- Contei. – Olhou Olívia nos olhos e percebeu o ódio que ela sentia. – Desculpa Olie. Eu nunca imaginei que ela faria isso.
- Por quê? Por que você contou? – Estava irada.
- Ela perguntou. – Marcinha disse enfim. – Eu nunca imaginei que ela iria tentar falar com você. Ela prometeu que não o faria.
- Você anda mantendo ela informada sobre a minha vida? É isso? – Olívia não podia acreditar naquilo. Sentiu-se traída.
- Olie... eu juro que nunca tive a intenção de me meter na historia de vocês. Eu fui arrastada pra isso.
- Jura? – Olívia se ergueu, mas Marcinha não a acompanhou. – E isso não é se meter? Eu estou finalmente dando um rumo pra minha vida. Pela primeira estou me sentindo bem desde que... – se interrompeu. – E aí isso?
Marcinha não sabia o que dizer. Na verdade sabia, mas não podia. Olhou com pena para a cunhada, o que deixou Olívia ainda mais irritada.
- Pra que? O que ela quer com isso? Ela me deixou. – Bradou. Sentia-se humilhada, envergonhada por se sentir daquele jeito. Por não ser capaz de controlar aquele sentimento absurdo que ainda nutria por Joana.
- Os motivos dela, são os motivos dela. – Marcinha disse se erguendo. – Mas você tem razão, eu não deveria ter dito nada.
- Isso não faz nenhum sentido. – Olívia levou as mãos à cabeça. – Ela vai embora dizendo que me ama e que quer ficar comigo. Aí me deixa no escuro por mais de um mês, manda uma carta pra dizer que não quer mais, mas continua querendo saber da minha vida e agora isso? – Apontou para o celular. – O que ela quer? Me enlouquecer? Isso é doentio. Se ela não me quer, porque não me deixa em paz? – Perguntou mais para si mesma do que para Marcinha que assistia ao desabafo de Olívia sentindo o coração apertado. Aprendera a amar a cunhada e não queria vê-la sofrendo daquele jeito.
Olívia andou de um lado para o outro da rua. Sentia uma dor dilacerante no peito, que se juntava ao ódio que ela sabia bem, ser o espelho do amor que sentia por Joana.
Em silencio, Marcinha esperou ela se acalmar, mas quando Olívia parou de andar, foi um soluço sofrido que deixou o seu peito. O choro não pediu licença, não se anunciou. Apenas se desprendeu. Necessidade física. Era o contrario de respirar, precisava deixar fluir.
Sem saber como agir, e com medo que alguém visse Olívia daquele jeito, puxou a cunhada até a outra esquina, onde a uma mesa do bar vizinho ao Bola, a sentou e deixou chorar. Afagou-lhe os cabelos e pediu uma coca-cola para as duas. Fez com que Olívia bebesse um pouco e esperou. Sabia que teria que contar um segredo que vinha guardando a sete chaves, mas não era justo que Olívia sofresse daquele jeito, e ela era a única que naquele momento poderia aplacar um pouco daquela dor. Joana teria que perdoá-la, mas a verdade, é que ela pedira por aquilo, por mais que falasse o contrario. E para ser sincera, Marcinha acreditava que era um direito da Olívia saber todos os fatos, por mais que Joana negasse e justificasse dizendo que a estava protegendo.
- Esta se sentindo melhor? – Perguntou quando Olívia ergueu o rosto molhado de lagrimas.
- Um pouco. – Respondeu fracamente. – Preciso voltar pra lá.
- Eu sei, mas antes eu preciso te contar algo. – Marcinha disse nervosa.
- Marcinha, se é sobre a Joana... eu entendo. Vocês são amigas e eu não quero me meter nisso. Só pede pra ela me deixar em paz, ok?!
- Na verdade é sobre a Jo, mas é sobre você também. E se eu não falar agora, não vou ter coragem depois.
Olívia a encarou e aquela menina doce e sorridente estava mais seria do que o normal. Não queria ouvir, e ao mesmo tempo, era o que mais queria. Qualquer coisa relacionada à Joana lhe interessava intensamente. Jogando para o alto toda a cautela que vinha construindo nos últimos meses, fez sinal para que Marcinha continuasse.
- Eu queria ter te contado tudo desde o princípio. Bom, talvez não na época, porque de certa forma entendia os motivos dela, mas quando te vi sofrendo desse jeito, eu pedi que ela viesse falar com você, que te explicasse, ela não quis. Ela acha que é melhor para você que ela simplesmente fique longe. Eu discordo. E hoje, bom hoje ela me deu mais do que motivos para abrir o jogo.
- Fala Marcinha. Você esta me enrolando de novo. – Olívia tentou fazer graça, mas nada daquilo era engraçado.
- Quando nós voltamos para Terê depois daquela semana, a Jo recebeu uma notícia que a deixou completamente desnorteada. – Marcinha fez uma pausa para beber mais um gole da coca. – O André estava esperando por ela na rodoviária, e eu nunca o vi tão abalado. Isabela, a filha deles, havia tido o que eles acreditavam ser uma gripe mais forte um pouco antes de nós virmos para o Rio. A Jo quase deixou de fazer a prova, mas como a Bela tinha melhorado e o Andre insistiu, pois sabia da importância do concurso para ela, Joana acabou vindo.
“Bom, por ser médico, e Graças a Deus, paranóico, André fez todos os tipos de exames e testes para saber o que a Bela tinha tido. Ele descobriu enquanto a Jo estava aqui, que a Bela estava com câncer. Leucemia para ser mais exata.”
Olívia sentiu o mundo girar. Não precisava de mais nenhuma explicação para o que Joana havia feito. Sentiu dor pela dor dela. Não tinha filhos, mas só de imaginar a mulher que ela amava passando por uma provação como esta, seu corpo todo reagiu. Queria protegê-la. Queria poder abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Olhou para Marcinha e viu que ela também estava emocionada.
- Porque ela não me disse nada? – A voz saiu embargada, presa.
- Porque ela não se achou no direito de te colocar no meio dessa historia. – Acariciou a mão da cunhada, que retribuiu apertando os seus dedos entre os seus. – Ela ficou completamente perdida. Demorou duas semanas para me contar e só o fez porque eu a peguei chorando no banheiro da escola.
- Como ela esta? A Isabela? Já começou o tratamento? – Olívia sentia-se frágil e completamente perdida com essa noticia.
- Já. Ela foi diagnosticada bem no início e já fez duas sessões de quimioterapia. Eles estão torcendo pra que ela não precise do transplante, e parece que tudo caminha para isso. – Marcinha a tranqüilizou. – O que você precisa entender Olie, é que a Jo não tinha condições de resolver nada na vida dela. Ela entrou em pânico quando soube da doença da filha e vem lutando contra isso da melhor forma possível. E mesmo que ela sofra com a distância entre vocês, porque ela sofre e sofre por saber que você esta sofrendo, ela meteu na cabeça que não tinha o direito de te arrastar para a vida dela agora.
- Ela tinha que ter me falado Marcinha. – Olívia disse. – Ela achou que eu não entenderia? Que eu não ficaria do lado dela? Porque eu ficaria. Eu daria tudo para estar ao lado dela neste momento. Alias, eu ficaria ao lado dela pra sempre, se ela me deixasse.
Marcinha a olhou emocionada. Já fazia um tempo que ela tinha se dado conta da pessoa maravilhosa que Olívia era. Era generosa, apaixonada, e tudo o mais que o Guto sempre dissera que ela era, mas que Olívia tentava tanto esconder, que Marcinha não conseguia enxergar.
- Eu sei Olie. Mas ainda assim, a Jo não queria bagunçar a sua vida. Ela e o Dé não estão mais juntos, mas ainda vivem na mesma casa por causa da Bela. Ele é um bom homem Olívia. E um excelente pai. – Olivia apenas concordou. – Ela sentiu que não tinha nada para te oferecer. Ela diz que fica feliz por você estar bem, mas eu vejo o quanto ela sofre por não poder estar com você.
Olívia não sabia o que pensar, ou o que sentir. Entendia o que Joana havia feito, ainda que não concordasse. E a sensação de saber que o seu amor era recíproco, era como se enfim seu coração parasse de orbitar em volta dos outros órgãos do seu corpo, e se encaixasse na caixa torácica, tendo os pulmões por companhia.
- Eu preciso vê-la. – Olívia falou se levantando.
- Olie. – Marcinha a chamou. – Desculpa dizer isso assim, mas a Emilia esta te esperando aqui ao lado. Não só ela, mas todos os seus amigos.
Olívia levou um banho de água fria. Pensar em Joana e saber que ela sentia o mesmo que ela e que também sofria estando longe, a tinha feito esquecer de todo o resto. Sim, tinha Emilia. Emilia que ficara ao lado dela apesar de todos os seus rompantes e momentos de depressão. Emilia, a quem ela havia prometido aprender a amar e fazer feliz. Ela não podia simplesmente deixá-la ali e ir atrás de Joana.
Respirando fundo, Olívia acendeu mais um cigarro. Marcinha, por fim, filou um cigarro da cunhada.
- Eu te mato se você contar para o Guto. – Ameaçou.
Olívia sorriu. E como era bom poder sorrir sentindo seu coração mais calmo.
- Você tem razão. Eu não posso fazer isso com a Emilia, mas eu preciso falar com ela. – Pegou o celular. – Você me cobre por alguns minutos? – Pediu.
- Claro. Vai lá. – Marcinha sorriu para ela.
Olívia se afastou com o celular na mão e o coração palpitando dentro do peito. Parou um pouco adiante de onde ainda via Marcinha sentada a mesa do pequeno bar. Discou os números e esperou.
Joana estava arrumando a sala. Bela havia demorado para dormir. Estava agitada por causa de uma apresentação na qual havia participado na escola. Ficava feliz em ver a filha encarando tudo com tanta leveza. Sempre fora uma criança alegre, e isso não mudara. Mesmo tendo perdido os lindos cabelos castanhos, se divertia com os chapéus que Joana e André haviam comprado para ela.
Estava terminando de colocar os brinquedos dentro do baú que ficava na sala, quando ouviu seu celular tocar. Era tarde e não esperava nenhuma ligação, por isso quando viu o numero ali registrado, seu coração parou. Pensara nela todos os dias e horas desde que se separaram, e mais intensamente ainda naquela noite. Estava orgulhosa dela e com uma saudade imensa. Demorou ainda alguns segundos para atender, mas enfim o fez.
O silêncio pairou assim que Olívia ouviu a respiração do outro lado. Queria ter certeza de que era ela na linha antes de falar qualquer coisa. Mesmo Marcinha tendo dito que ela o marido não estavam mais juntos, eles ainda viviam sob o mesmo teto. Não queria correr o risco de ser ele a atendê-la.
- Oi. – Joana disse por fim. As lagrimas já corriam pelo seu rosto. Não resistira ao mandar a mensagem, por mais que imaginasse que Olívia estivesse com ódio dela, ela tinha ligado. Precisava ouvir a voz rouca mais uma vez.
- Oi. – Olívia disse com o coração na mão.
- Parabéns por hoje. Eu sabia que você iria conseguir. – Joana falou. Tinha tanto medo do que poderia ouvir, mas precisava ouvir mais.
- Obrigada. – Olívia disse com a voz embargada. Pela segunda vez naquela noite, sentia as lagrimas deixarem seus olhos. – Recebi sua mensagem.
- Desculpa. Eu queria tanto ter estado aí. – Joana admitiu. Sentia-se vulnerável. A queria tanto. A amava tanto.
- Eu queria você aqui. – Falou emocionada.
- Olie... – as lagrimas já se perdiam pelo seu pescoço, roupa. Sentou-se no sofá. – Eu sinto tanto...
- Eu também, minha linda.
Joana soube então que ela sabia. Marcinha havia contado. Olívia era orgulhosa demais para ligar assim. Ela sabia. Joana não sabia se ficava irada com a amiga ou agradecia. Como era bom falar com ela.
- Você sabe. – Não foi uma pergunta. Era uma constatação.
- Sei. E em defesa da Marcinha, eu pirei quando recebi a sua mensagem. Ela só quis ajudar. – Explicou e esperou pela reação da Joana.
- Eu vou matar aquela baixinha. – Falou carinhosa. – Desculpa não ter te dito nada.
- Você devia ter me contado Jo.
- Eu não pude. – Joana chorava sem parar.
- Não chora meu amor. – Olívia sentia-se impotente. Queria estar ao lado dela, tomá-la em seus braços e nunca mais soltar. – Como ela esta?
- A Bela? Ela esta bem. Esta superando. – Falou com um sorriso na voz que deixou Olívia de pernas bambas.
- Eu queria ter estado ao seu lado, amor. Você não precisava ter passado por isso sozinha.
- Eu precisava Olie. – Discordou Joana. – Você tem a sua vida e este é um problema meu.
- Jo, você é problema meu. – Olívia disse carinhosa. – Quando é que você vai entender que eu te amo?
- Não fala assim. – Joana pediu com a voz pequena, tímida, abafada pela dor da saudade e o medo de se deixar levar.
- Falo porque é verdade. – Olívia sentia a mesma dor. – Preciso te ver. – Falou de súbito.
Joana nada respondeu. Não sabia como dizer que não podia. Queria tanto. Sentia tanta falta dela, mas este certamente não era o melhor momento. Estava perdida no som da respiração de Olívia que esperava por alguma resposta sua, que se assustou quando ouviu os passos na sala. André esfregava os olhos e parou em frente a ela.
- Quem é a esta hora amor? – Perguntou sonolento.
- Ninguém. Eu já vou deitar. – Respondeu, tentando tampar o bocal, mas não adiantou. Olívia já tinha ouvido e desligado.
Joana olhou para o aparelho em sua mão e sentiu o peito a se rasgar. Tinha feito Olívia sofrer mais uma vez. Parecia ser a única coisa da qual era capaz. A mulher que amava, o seu único amor, e ela só a machucava.
Capítulo 14 - "... mas com você, dá certo."
Olívia sentiu o mundo ruir ao seu redor. Fechou o celular e o jogou longe. Como podia ter sido tão estúpida? Como poderia acreditar em qualquer coisa que viesse de Joana? É claro que a historia de ter se separado do marido era mentira. Ela devia ter dito isso a Marcinha para conseguir mais informações sobre a vida dela. Era sádico o prazer que a Joana parecia ter de destruí-la.
Andou até o bar do Bola, e o olhar dela cruzou com a da Marcinha, que já havia voltado para o lado do Guto. Nada foi dito, mas pelo jeito que Olívia agia, a conversa não havia sido boa. Marcinha bufou. Nunca vira duas pessoas mais cabeças duras para o amor do que aquelas duas. Por que elas não se acertavam de vez?
- Uma gelada Bolinha. – Olívia pediu sentando-se em um banco no bar.
- Uma gelada saindo. – Bola lhe sorriu e serviu um copo para ela e outro para ele. Como a festa era fechada, ele bebia junto com os convidados. – Onde a senhorita se meteu, hein? Não vai me dizer que estava com outra do outro lado da rua?! Cuidado menina, assim você vai acabar sozinha. – Ele lhe repreendeu divertido.
- Nada disso Bola. – Mentiu. Porque a verdade é que estava do outro lado da rua colocando o seu coração nas mãos de outra mais uma vez. – Só retornando algumas ligações de amigos que não puderam ir hoje.
- A Emilia perguntou por você. – Apontou para a ruiva que vinha agora em direção a eles com um sorriso, mas que Olívia conhecia bem para saber que mascarava uma desconfiança.
- Estava onde, amor? – Ela perguntou. E foi a forma como a chamou que lhe atingiu. Como ela podia julgar Joana tão duramente quando também não estava sozinha. Bom, era bem diferente, pensou.
- Telefone. – E lembrou-se que o havia isolado. – Que eu perdi. – Concluiu.
- Como assim? – Emilia indagou se aproximando e deixando-se abraçar por Olívia que inventou uma historia mirabolante sobre estar ao telefone com a sua orientadora e ter sido roubada por um pivete assim que desligara.
Emilia fingiu acreditar e Olívia percebeu, mas não tentou convencê-la. Sua cabeça estava cheia, precisava urgentemente ficar sozinha, mas àquela noite não seria possível.
Quando todos foram embora, Olívia decidiu parar de beber. Tinha bebido muito, mas não estava nem um terço tão tonta como tentou convencer a todos. Deixou-se ser carregada para casa pelo irmão, fingindo estar mais alterada do que realmente estava. Guto a depositou na cama e Emilia a ajudou a se trocar. Caiu na cama deixou a outra acreditar que dormia profundamente. Não conseguiria olhar para ela inventar mais mentiras. Era mais fácil assim.
Os dias que se seguiram foram um martírio a parte. Lutava contra a vontade de ligar para Joana e tirar satisfações, com o restinho de amor próprio que ainda possuía. Marcinha ficara chocada quando Olívia a abordou e contou o que tinha acontecido durante a conversa dela com Joana.
- Eu juro que não sabia que eles tinham se entendido. Você tem certeza, Olie? – Ela disse na tarde, em que estando sozinhas somente as duas em casa, Olívia decidiu lhe contar tudo.
- Claro que eu tenho Marcinha. Estou me sentindo uma imbecil por achar que ela não amava o marido. – Suspirou. – Mas isso não importa mais. Eu cansei das porradas consecutivas. Vou recolher o que me resta de orgulho e seguir em frente como eu vinha fazendo. A verdade é que a Joana tem o dom de me deixar por baixo. Como eu posso amar alguém assim?
- Eu tenho certeza que existe uma explicação pra isso, Olie. – Marcinha ainda tentou convencê-la. – E vamos combinar, você não tem mais nem um celular para ela falar com você.
- Isso não é desculpa. Se ela quisesse falar comigo, teria ligado pra você. – Olívia deixou claro que já havia coberto todas as possibilidades e que estava mais do que convencida de que amava sozinha e que não tinha vocação para mártir.
Se Emilia tinha estranhado o comportamento da namorada na noite do lançamento do livro, não dissera nada. As duas mantinham a relação como antes, apesar de Olívia ter se tornado um pouco mais distante nos dias que se seguiram, Emilia tentava não pensar no que poderia ter ocasionado tal mudança. Olívia ainda estava ali com ela, e por mais incrível que pudesse parecer, isso bastava.
Na noite que antecedeu a ida de Olívia para São Paulo, Guto e Emilia decidiram fazer uma festa de despedida, já que esta seria apenas a primeira parada da escritora, na divulgação do seu livro.
Pensaram em armar a festa no Bar do Bola, mas por fim, decidiram fazer uma pequena reunião no apartamento dos dois, desta forma, Olívia não desconfiaria de nada.
Por volta das oito da noite, a sala estava arrumada com mesas e cadeiras de bar que o Bola havia emprestado, faixas de cartazes produzidos por Nina e Theo, e a geladeira repleta de cerveja gelada, e aperitivos espalhados pela cozinha, uma cortesia do Tom.
Na parede principal, um mural montado por Emilia, com fotografias das cidades por onde ela iria passar, a capa do livro, assim como o convite da noite de autógrafos, um flyer e fotografias de Olívia desde pequena com a família e os amigos.
Assim que adentrou o apartamento, e se deparou com a surpresa, Olívia ficou estática, seu primeiro pensamento foi, como poderia escapar dali? Não que logo não tenha sido substituído, por um sentimento bom, quente, de felicidade, de amor. Aquelas pessoas ali reunidas, estavam entre as mais importantes da sua vida. Seus amigos poderiam não ser muitos, mais eram os melhores.
Se deixou ser abraçada por cada um deles, e um sorriso emocionado, sincero, se prendeu em seu rosto, ainda que os olhos espiassem desconfiados, como estando em busca de uma saída, um refugio. Ansiava pela solidão que vislumbrava a frente. Teria tempo para pensar. Juntar as peças que pareciam faltar naquele tabuleiro.
- Vou sentir sua falta. – Guto disse, anormalmente sério, ao ouvido da irmã em meio ao abraço.
- Também mano. – Respondeu carinhosa. Sabia que a mudança de Marcinha para o Rio, estava mexendo com ele. Não de uma maneira ruim, apenas nova, e queria estar perto para apoiá-lo. – Skype. Sempre que precisar, ou apenas quiser falar besteiras.
- Eu sei. – Ele sorriu e a soltou. – Isso serve pra você também.
Olívia concordou com um menear de cabeça, sem conseguir encará-lo. Não, ela não pediria ajuda.
Os abraços que se seguiram, carinhosos, com palavras de incentivo, ela aceitava de peito aberto. Era reconfortante saber que não estava sozinha, que eles estariam sempre lá para apoiá-la. Era a ajuda voluntária, sem cobranças que ela tanto precisava.
Emilia foi a ultima. Tentando parecer displicente, mas Olívia podia perceber, o esforço que ela fazia para tornar tudo natural, quando estavam longe disso, quando a distancia já havia feito sua marca, como um abismo que se abre, repleto de questionamentos e dúvidas de ambas as partes.
- Não queria que você fosse embora sem uma despedida apropriada. – A ruiva lhe sorriu, daquele jeito moleque, livre, que tanto a havia encantado quando se conheceram.
- Eu amei. – Disse sabendo que era verdadeiro. – Obrigada.
Se olharam por apenas alguns segundos. Vontade de dizer, medo de ouvir. Um duelo silencioso que travavam com elas mesmas, e que foi interrompido pela voz do Theo.
- Eu quero propor um brinde, - todos se voltaram em direção a ele. – À minha amiga, irmã emprestada, alma gêmea assexuada, - todos riram. – eu só gostaria de dizer, o quanto eu sinto orgulho de você, mas quero você de volta o mais rápido possível, porque esse viado aqui, não consegue viver sem você.
- Eu volto Theo. – Olívia respondeu sorrindo para o amigo. – Mas eu tenho certeza que você sobrevive sem mim. Seja com o Caio, o Beto, o Hugo, o Marção, o Breno de Madureira, ou o Zeca da Farme, você se vira bem.
Ele a olhou com uma expressão ofendida, até transformá-la em um deboche, e rindo revidou:
- Você brinca, mas a sua situação é muito pior. Você vai viajar comprometida, e sem a namorada. Quero ver você se virar com essa! – Brincou, sem perceber o quanto aquilo também pesava.
Olívia sentiu o olhar de Emilia sobre ela, e se calou com um sorriso forçado e uma expressão despreocupada, e que de tão acostumada a usar, lhe saiu fácil. Se voltou para a cunhada, que havia se aproximado dela entregando-lhe uma cerveja, e decidiu prorrogar o embate que via se tornar ainda mais necessário, com a ruiva.
Durante toda a noite, ambas se evitaram, nada drástico, ninguém parecia perceber de fato, com exceção de Marina talvez, Olívia não saberia dizer, a amiga parecia sempre perceber tudo o que ocorria a sua volta, mas que lhes era incomodo.
Parou pela primeira vez, para reparar no mural que Emilia havia feito. Era lindo, e a fazia sentir ainda mais culpada com relação à namorada. A delicadeza, o bom gosto, o jeito solto e alegre, que Emilia esbanjava, o seu olhar sobre as coisas, tanto artisticamente, como humano, sensível, tudo isso gritava amor, de uma forma que assustava Olívia, a fazia se questionar sobre cada ação, cada pensamento, tudo o que vinha fazendo de errado com aquela menina.
Passando os olhos pelas fotografias, se deparou com uma imagem dela com talvez, dezesseis anos, não saberia precisar, em que ela estava abraçada a Joana e a Ligia, com Clara e Thais a volta. Lembrava bem do dia em que estava foto havia sido tirada.
As aulas chegavam ao fim, e como todos os anos, um churrasco era feito pelos alunos da turma, uma espécie de comemoração pelo ano que findava e as provas que haviam acabado. Se tinham passado de ano ou não, isso pouco importava, era o recesso que eles tinham, e precisava ser comemorado.
Clara, como sempre, levara bebida escondida sob a roupa, o que Olívia tentava entender. Seria fisicamente impossível que ela tivesse conseguido este feito, já que munida de uma blusa justa, e com a barriga de fora, e uma saia jeans apertada e curta, não havia espaço para uma garrafa de vodka passar despercebida.
De uma forma ou de outra, estavam as cinco reunidas, brindando com um pouco mais do que apenas refrigerante, o ano que findara, e as férias que estavam para começar.
Joana e Olívia estavam dando os primeiros passos naquela relação, e tudo ainda era novo e excitante. Se perdiam por horas uma nos olhos da outra, travando uma batalha perdida. Querendo muito mais do que eram capazes de verbalizar, e descobrindo a cada dia, uma nova face, um novo detalhe, um sentimento, um sentido uma da outra.
A certa altura da noite, Joana a puxou para perto de um galpão onde guardavam as bebidas. Contornando o espaço, a prensou contra a parede, colando seu corpo junto ao dela.
- Você enlouqueceu? – Olívia perguntou baixinho, se recobrando do susto, e começando a achar graça na atitude da outra.
- Não resisti. – Joana confessou, conseguindo ser ao mesmo tempo tímida, e incrivelmente sedutora. – Precisava de um beijo seu.
Sem demora, colou a sua boca na de Olívia, que correspondeu com toda a vontade que tinha dela, invertendo a posição dos corpos, e a imprensando contra a parede, deslizou seu joelho por entre as pernas dela, até atingir seu sexo, fazendo com que um gemido brotasse dos lábios da morena.
- Jo, eu não vou conseguir ficar apenas com um beijo. – Disse sem ar, quando as bocas se separaram.
- Eu sei Olie. – A puxou para perto novamente. – Saudade de dormir com você. – disse vermelha pela declaração, que naquele momento, julgou ousada.
- Dorme lá em casa hoje. – Olívia propôs, se agarrando aquela declaração que fez seu coração bater mais rápido. –O Guto está na casa do meu pai, eu tenho o quarto só pra mim.
- Minha mãe não vai deixar. – Joana abaixou a cabeça.
- E eu dormir lá com você? – Perguntou sem jeito, quase sem coragem, num impulso que sabia ser responsabilidade dos seus hormônios descontrolados. Nunca dormira na casa dela. Não na condição de namorada. Como amigas, também já fazia um tempo, e só posteriormente na vida, Olívia se deu conta que ela que se afastara, quando não suportou mais estar tão perto, querê-la tanto, e não poder.
- Eu posso perguntar. – Joana se animou. – Isso é bem mais provável de ela deixar.
Olívia sorriu ao perceber a ingenuidade de Joana ao aceitar a sua proposta. Lhe foi natural, como algo que já deveria ter sido feito. Sentiu o medo se dissipar, e somente a sensação gostosa de tê-la ali a preencheu.
Olívia voltou a grudar o seu corpo no dela, e descendo a mão pela nuca, agarrou os seus cabelos, e a puxou para um beijo intenso, que apesar de surpresa, Joana retribuiu a altura, se enroscando ainda mais a ela, e deixando que as mãos, explorassem o corpo junto ao seu.
Não resistindo, Olívia desceu a mão por sobre o sexo de Joana, que arfou, tremeu. Seu sexo pulsante nas mãos de Olívia, a levava ao delírio. Sentindo que a permissão havia sido dada, Olívia abriu o botão da calça dela, e colocou a mão por cima da calcinha, fazendo com que Joana amolecesse nos seus braços, sem para de se mover, Olívia afastou a calcinha dela de lado, e a tocou, sem penetrar, apenas a excitando, deixando ela ainda mais molhada, a lhe morder o ombro, em uma tentativa de controlar os gemidos, abafá-los.
Olívia se sentia encharcada, com o gozo eminente, assim como a sua morena. Pegou uma das mãos dela, e levou ao seu sexo, por cima da calça, e Joana a entendendo, abriu o botão da calça de Olívia, e sem cerimônias, adentrou a calcinha, sentindo o sexo encharcado em sua mão, aumentando ainda mais o prazer que já sentia.
Juntas, chegaram ao gozo, sentindo um prazer imenso, com os corpos colados, as respirações arfantes, os sentidos embaralhados e sensíveis. Se beijaram com paixão, querendo eternizar cada segundo, cada sensação, sabendo que eram as primeiras de muitas que estavam por vir, e queriam saborear cada uma delas.
Só pararam, porque o barulho a sua volta, as trouxe de volta a realidade. Entre sorrisos cúmplices, mãos suadas, e a excitação a flor da pele, voltaram para a festa, sem serem capazes de reprimir os sorrisos, olhares, e rostos em chamas pelo desejo contido.
A primeira noite na casa de Joana foi preenchida por sussurros, gemidos abafados pelo edredom e travesseiros, corpos suados, se descobrindo, explorando, com mãos, língua, lábios, cada pedaço do corpo cobiçado, amado. O gozo foi conseqüência do prazer da descoberta, a respiração partilhada, os toques, o carinho que veio depois, isso era o que importava àqueles corações, que pela primeira vez, descobriam a intensidade de amar.”
Olívia reprimiu o efeito que a lembrança deixara, e sorriu para a foto. Era uma doce lembrança, de uma época em que amar, parecia tão mais fácil. Ou então ela só era capaz de perceber isso agora por já ter vivido tudo o que viveu. Certamente, nada no amor nunca foi fácil.
Como todos sabiam que Olívia precisaria viajar cedo, pela meia noite, a festa se deu por encerrada. Guto e Marcinha, com a intenção de dar maior privacidade para as duas, decidiram sair para dançar com Theo em uma casa de samba. Como era um dia de semana, o Theo não se importou em abrir mão da caça, deixaria isso para o sábado.
Assim que todos saíram, Olívia se viu sozinha com Emilia, e um olhar foi tudo o que precisaram. Ao mesmo tempo, com uma sintonia incrível, pelo pouco tempo de convivência, se aproximaram, e em um abraço diminuíram a distancia, tentavam selar o abismo entre elas.
O clima tenso que as acompanhava há dias, havia se intensificado com a eminência da separação. E chegara o momento deixar que viesse tudo a tona. Era o certo a se fazer, e Olívia respirou fundo para começar, mas Emilia se adiantou.
- O que está acontecendo Li? – Perguntou dócil, mas visivelmente triste. – É o livro? A viagem? Sou eu? O que aconteceu pra te deixar assim?
- Não foi nada específico Em, eu só estou passando uma daquelas minhas fases estranhas, mas vai passar. – Não teve coragem de falar sobre o telefonema para Joana. – Essa viagem veio em boa hora. Eu vou ter um tempo para colocar as idéias no lugar.
- E como é que nós ficamos? – Perguntou calmamente, como se nada do que fosse dito, pudesse atingi-la.
- Como assim? – Olívia se fez de desentendida.
- Li, nós estamos começando algo, eu não sei se devemos manter uma relação a distancia enquanto você viaja. – Disse com firmeza, mas delicadamente. – Você precisa de um tempo, e eu também. Deixemos assim, e quando você voltar, a gente conversa.
- Simples assim? – Olívia perguntou.
- Complicar pra que? – Emilia sorriu. – Olie, você não me assusta, como pensa que o faz. Eu não estou com medo de você, ou de estar com você, mas eu quero mais.
Olívia abaixou a cabeça diante da sinceridade de Emilia. Mesmo a conhecendo e sabendo das suas variadas qualidades, aquela menina ainda a surpreendia, sendo extremamente sensata, e muito mais madura do que ela vinha sendo.
A abraçou fortemente nos braços, antes de dizer qualquer coisa. Beijou-lhe a testa, o nariz, e enfim os lábios. Delicadamente, com doçura e carinho.
- Você merece muito mais. – Disse por fim. – E isso, mais do que tudo, é o que me faz concordar com você. – Acariciou o rosto sapeca e repleto de pintinhas. – Mas eu quero a conversa da volta. Não importa se você estiver com outra pessoa, ou se já me esqueceu, ou descobriu que me odeia, - Emilia sorriu. – eu quero uma chance de falar e ouvir, de decidir, o que tiver que ser.
- Fechado. – Emilia sorriu de lado, e lhe estendeu a mão para um cumprimento de cavalheiros.
Olívia apertou a mão dela, e a puxou para seus braços.
- Dorme comigo hoje? – Perguntou um pouco insegura.
- Isso estava fora das negociações. – Respondeu sedutora. – Ou você acha que eu perderia a chance de dar bem gostoso pra você.
Bastou essa frase, e Olívia ascendeu inteira. A puxou para si com força, com Emilia correspondendo com o mesmo ímpeto, arranhando-lhe as costas, e esfregando seu corpo no dela.
E meio aos beijos, mordidas, mãos por toda a extensão dos corpos, chegaram ao quarto. Olívia a empurrou de encontro à cama, e se ajoelhou por sobre ela.
- Tira a roupa pra mim. – Pediu sedutora.
- Primeiro você. – Emilia retribuiu o olhar quente, ardente que lhe foi lançado.
Com um sorriso, entre divertido e contrariado, Olívia começou a se despir. A sua sensualidade, residia na simplicidade com que fazia isso, ainda que olhando diretamente nos olhos de Emilia, fazendo a ruiva perder o ar pela visão.
Completamente nua, Olívia a encarou e desafiou. Sorrindo, Emilia, se pôs de pé sobre a cama, e dançando, ao ritmo da musica que vinha da rua, “Não vá embora”, Marisa Monte, começou a tirar peça por peça. Sentou Olívia por sobre o colchão, e dançou para ela.
A letra dizia muito mais do que elas seriam capazes de confessar. Por mais diferentes que fossem as interpretações, aquela letra fazia o dialogo a ser travado, num misto de saudade, vontade e sensualidade em cada movimento que a ruiva fazia, gerando nelas um sentimento gostoso de estarem juntas.
Emilia se desfez de cada peça sem parar de dançar, ou de olhar nos olhos de Olívia. Restando somente a calcinha, se aproximou de Olívia, e sussurrando em seu ouvido, provocando arrepios por toda pele da escritora, pediu:
- Eu prefiro que você tire. – E deitou o corpo por sobre o dela. – Com a boca.
Não precisou pedir outra vez, e Olívia já a girava por sobre o colchão, colocando seu corpo sobre o dela, e com a língua, desceu a saboreando lentamente, primeiro os seios, em que acariciou lentamente, em movimentos circulares, antes de tomá-lo na boca. Partiu para o abdômen, indo em direção ao umbigo, e parando somente ao se deparar com o minúsculo pedaço de pano.
Lentamente, o puxou com os dentes, e deslizou pelas pernas, até chegar aos pés. Voltou a subir, saboreando as curvas da sua menina, como havia feito com os seios e a barriga, a excitando de uma forma nova, paciente, sem amarras, sem culpas, sem medos.
Ao chegar a seu sexo, Olívia a saboreou devagar, passou a língua, a provando, sentindo o gosto, bebendo do liquido que sorvia de sua cavidade convidativa, a levando a penetrá-la com a língua, antes de voltar ao clitóris, e penetre-la com os dedos, em uma cadencia lenta, a sentindo por dentro, pulsando, tremendo sob ela.
Um gemido rouco, longo, apenas confirmou o que Olívia já sentira, Emilia gozava lindamente, com o semblante refletindo puro prazer, em uma entrega que mexeu com o coração de Olívia. Apesar de todo o discurso, da racionalidade por trás das decisões, podia senti-la sua. Emilia não reprimia o seu sentimento intenso, puro, implorando para ser correspondido, e a escritora, queria ser capaz de corresponder.
Escalou seu corpo, e entregou-lhe na boca o seu próprio gosto misturado a saliva. Emilia se prendeu a ela tentando controlar a respiração e compasso apressado do seu coração. A amava tanto que lhe doía.
Ficaram abraçadas por um longo tempo, entre beijos doces, sorrisos compartilhados, olhares que diziam com todas as letras, que aquela história ainda não tinha acabado, e Olívia percebeu que sentia alívio nesta constatação. Dizer adeus a Emilia lhe parecia impossível naquele momento, e com este sentimento de perda, se agarrou ainda mais a ruiva, e foi assim, completamente coladas, que dormiram, na incerteza do que lhes aguardava o futuro.
Não vá embora (Marisa Monte)
“E no meio de tanta gente eu encontrei você
Entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio
E eu que pensava que não ia me apaixonar
Nunca mais na vida
Eu podia ficar feio só perdido
Mas com você eu fico muito mais bonito
Mais esperto
E podia estar tudo agora dando errado pra mim
Mas com você dá certo
Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais
Eu podia estar sofrendo caído por aí
Mas com você eu fico muito mais feliz
Mais desperto
Eu podia estar agora sem você
Mas eu não quero, não quero
Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais (2x)”
Capítulo 15 - Bem vindas a Terra do nunca
O dia amanheceu nublado, e Olívia deixou os braços da ruiva sentindo o coração comprimido no peito. Seriam seis semanas indo de uma cidade a outra e isto não poderia ter acontecido em momento mais propício. Ainda assim, sabia do que poderia estar abrindo mão.
A primeira parada, São Paulo. Em uma das mais conhecidas avenidas do país, uma livraria a recepcionou na primeira noite de divulgação. Era estranho para Olívia estar ali, passeando por entre as pessoas, participando de conversas que pouco a interessavam, e tendo que responder a perguntas sobre o seu livro, algo que ainda lhe era tão íntimo. Como a única pessoa que conhecia, era Letícia, e esta estava entretida com possíveis distribuidores dos livros, Olívia se refugiou do lado de fora, saindo pela porta lateral, por onde passavam os funcionários.
Ascendeu um cigarro, e procurou relaxar. A noite mal havia começado, e aquela era a primeira de uma seqüência que levaria mais de um mês. Querendo ou não, teria que se acostumar.
Uma mulher alta, com os cabelos negros e cortados de forma elegante, vestindo um vestido preto discreto, e um sapato de salto fino prata, se aproximou dela, e parando ao seu lado, também ascendeu um cigarro.
- Você é a autora, não é? – Perguntou sem olhá-la nos olhos.
- Sou. – Olívia respondeu olhando-a de lado.
- Meus parabéns. É um belo trabalho. – Comentou ainda sem fitá-la.
- Obrigada. – Olívia respondeu educadamente, e se voltou para o outro lado da rua, fingindo interesse em qualquer coisa, menos na mulher ao seu lado.
- Uma escritora monossilábica? Por essa eu não esperava. – Ela virou e sorriu para Olívia, que se deu conta que a mulher tinha um rosto ainda mais belo que o corpo. – Eu sou Helena Laskin, jornalista do Estado de São Paulo. – Se apresentou.
- Muito prazer. Olívia. – Disse simplesmente, mas a encarando.
- Eu sei. – Mais um sorriso. – Se incomodaria de me conceder uma entrevista?
- É sempre assim que aborda os seus entrevistados? – Olívia a provocou, e percebeu o seu reflexo. Para ela, flertar era tão natural quanto respirar.
- Alguns. Os que me interessam de fato ao menos. – Respondeu entrando no jogo. – Eu li o seu livro. Confesso que me surpreendi.
- Se surpreendeu? Esperava o que? – Olívia se virou de frente para ela.
- Mais do mesmo, eu acho. – Lançou um olhar que fez com que Olívia se arrepiasse. – Recebo muitos releases de livros por semana. São poucos aos que me dou ao trabalho de ler. O seu foi um deles, e não me arrependi.
- Então eu devo ficar lisonjeada? – Olívia sorriu.
- Não precisa. – Helena se aproximou. – Eu mal comecei a tecer os elogios.
Ponto para ela, Olívia contou na cabeça. Não sentia a menor vontade de levar aquilo adiante. Havia entrado no jogo por habito, quase sem querer. De fato, não queria. Não sabia se por ainda sentir no corpo as marcas da noite intensa que passara com Emilia, ou simplesmente não era capaz de ver mais nenhum sentido naquele prazer momentâneo que sabia que teria, para enfim acordar sentindo-se ainda mais sozinha.
- De qualquer forma, agradeço. – Olívia tomou uma postura mais profissional. – E quanto à entrevista, talvez em outro momento mais oportuno. – Lhe sorriu, e se afastou, voltando para o coquetel.
Após ler uma passagem do livro, sentou-se atrás de uma mesa e começou a autografar os exemplares. Tentou manter no rosto uma expressão serena e sorriu para cada um que se aproximou. Aquele era mais um dos personagens que representava. Não se sentia ela mesma, e talvez estar em meio a estranhos lhe desse permissão para fingir abertamente.
Avistou Helena ao longe, e está lhe deu uma piscadela, mas não se dirigiu a ela pelo resto da noite. Ela era uma caçadora, e como Olívia, não perderia tempo insistindo. Demonstrara o seu interesse, e agora deixaria para a presa o próximo passo. Mas Olívia nada faria, tinha certeza. Apesar de ter desejado estar solteira para voltar ao jogo, naquele momento, percebeu que não era disso que sentia falta, sentia falta da pessoa que era antes da Joana voltar a sua vida. Sentia falta da ignorância quanto à seus sentimentos. Ela havia mudado, e esta mudança, era irreversível.
O mês passou voando. Olívia estava se sentindo cada vez mais a vontade nas noites de autógrafos que se seguiram. Letícia esteve ao seu lado quase todo o tempo, exceto na parte final da viagem, em que Olívia se viu sozinha em cidades desconhecidas.
Foi um momento importante para ela de autoconhecimento. Ainda falava com Emilia quase todos os dias por telefone, e estava feliz por saber que ela estava bem e conquistando suas próprias vitórias profissionais. Teria uma exposição de jovens fotógrafos em agosto, e ela havia sido convidada a participar.
Quanto mais pensava, mais Olívia se via convencida de que Emilia era a companheira perfeita para ela, e nas ultimas conversas que tiveram, tentou deixar isso cada vez mais claro. Mesmo que elas evitassem falar da relação e de como ficaria dali pra frente, Olívia estava mais carinhosa e querendo ou não, isso enchia Emilia de esperanças.
Não havia mais falado com Joana. Ainda sentia uma falta absurda da ex-namorada. Eram muitas as noites em que acordava com o coração a mil, e a saudade a lhe doer o peito, mas resistia. Se Joana não era capaz de tomar uma decisão definitiva com relação a elas, ela o faria. Não podia mais esperar que Joana resolvesse procurá-la, mesmo que ainda sonhasse com isso, precisava enterrar aquele sentimento de vez, e vinha fazendo progresso neste sentido, ao menos na maior parte do tempo. Bastava parar de vigiar cada pensamento, para que se refugiasse nela, na sensação sublime que era estar em seus braços.
Acordou em uma madrugada fria na cidade de Curitiba, e sentiu seu corpo inteiro formigar. Mais uma vez seus sonhos a haviam levado longe, para uma sensação de êxtase vivida anos atrás. Não foi capaz de conter a enxurrada que lhe acometeu.
“Olívia estava sentada em um banco da cantina da escola, quando Thaís chegou se jogando ao lado dela.
- E aí? Vai hoje pra casa da Clarinha? – Perguntou roubando um pedaço do chocolate que Olívia segurava.
- Se a Clara parar de palhaçada, vou. – Respondeu irritada.
- Ainda aquela briga infantil por causa do Edu? – Thaís bufou. – A Clara é muito sem noção mesmo.
- Sem noção é pouco. O Edu é meu amigo. Além do mais, eu lá tenho cara de quem fica com namorado de amiga minha?Se a Clara não aprender a controlar esses ciúmes, ela vai acabar sozinha. – Olívia falou séria.
Estava realmente chateada com aquela briga. Ela e Clara sempre foram muito parecidas, ambas tinham um temperamento forte, apesar de expressarem suas opiniões de formas diferentes, Olívia era mais contida, esperava o momento certo, e sempre procurava convencer com um discurso coerente, ainda que apaixonado. Já Clara, explodia. Não pensava nas conseqüências, se tornava inflexível, e apesar de paciente, em muitos momentos Olívia perdia a cabeça e revidava.
- Ela vai voltar atrás. – Thaís falou. – Sempre volta.
Esta era outra verdade sobre Clara, ela podia armar um escândalo, jurar a qualquer um de morte, que em alguns dias, às vezes menos, parecia que nada havia acontecido. Ela se desculpava, como alguém se desculpa à um estranho por ter esbarrado na rua, e a mágica estava feita.
Olívia apenas concordou com um sorriso de lado, e um balançar de cabeça. Thaís sorriu para a amiga, e se afastou, passando por Joana no caminho. As duas trocaram algumas poucas palavras, e Thaís sumiu por entre os outros alunos.
Joana sentou ao lado dela, e olhando para o perfil de Olívia, acariciou a sua mão, e falou docemente:
- Você não precisa ir se não quiser.
Olívia se virou para ela, e perguntou:
- Não quer que eu vá?
- Você enlouqueceu? – Joana revidou. – É claro que eu quero que você vá. Só estou dizendo que eu te conheço. Eu sei o quanto você é orgulhosa, e sei que tem razão em estar puta com a Clara, por isso eu estou propondo que a gente faça outra coisa hoje. Você pode ir dormir lá em casa comigo, ou eu na sua.
O olhar doce que Joana lhe dirigiu, a quebrou. Sorriu para a morena, e acariciou os seus dedos levemente. Se perdeu nos olhos dela. Joana a tinha na palma da mão. A conhecia de uma forma que nem ela mesma era capaz de entender. Suspirou:
- Não se preocupe. Eu vou estar lá. – Olívia baixou os olhos antes de continuar. – Com a Clara eu me entendo.
Joana estendeu os braços, e a puxou. Se abraçaram por um tempo curto demais para o tanto que desejavam os braços uma da outra. Sorriram, e Joana lhe acariciou o rosto e se aproximou devagar do seu rosto, deixando Olívia sem ar. Ela desviou da boca, e parou com o rosto roçando no dela, com os lábios próximos ao ouvido.
- Eu te amo, sabia? – Sussurrou provocando arrepios em Olívia. – E estou louca pra te beijar. – disse isso, e beijou o lóbulo da orelha da namorada, a deixando literalmente molhada.
- Isso não se faz. – Olívia sorriu de lado. – Eu não tenho tanto autocontrole quanto você.
Partilharam um sorriso e um olhar completamente apaixonados, além de um pensamento em comum: não entendiam como eram capazes de amar tanto alguém dessa forma. Era completamente diferente de tudo que haviam sentido na vida. Aquele frio constante no baixo ventre, aquela dor no peito, o medo de perder, medo de não ser capaz de respirar se privada da convivência. Um desejo latente que não conseguiam controlar se espalhava pelo corpo todo, não deixando escolha.
Foram interrompidos pela aproximação de Clara que vinha acompanhada de Ligia, a única que tinha uma paciência ainda maior que a de Olívia, e que sempre ficava para tentar fazer Clara perceber as besteiras que havia dito e feito. Era o seu super poder, um dia Joana havia brincado, ser paciente o bastante para lidar com os ataques da Clara.
- Oi. – Clara começou.
- Oi. – Olívia respondeu, e receberam um revirar de olhos de Thaís que havia se juntado a elas.
- Eu não devia ter desconfiado de você. – Clara falou rápido. – Desculpa.
E Olívia sabia que seria isso que conseguiria naquele momento. Se tentasse conversar sobre o assunto, provavelmente entrariam novamente em uma discussão interminável, e não era disso que Olívia precisava. Engolindo o seu orgulho, e recebendo um sorriso de entendimento de Joana, sorriu para a amiga e respondeu.
- Ok. Desculpas aceitas. – Surpreendendo até mesmo Thais, que esperava que depois daquele discurso todo, ela a enfrentaria. – E eu jamais nem mesmo olharia para o namorado de uma amiga.
Neste momento, Joana precisou cobrir a boca com as mãos para não cair na gargalhada em frente às amigas. Olívia evitou olhar para a namorada, e conseguiu manter a expressão tranqüila. Clara se virou para ela e sorriu.
- Eu sei. – Abraçou Olívia. – Você vai lá pra casa hoje. – Afirmou. – Não teria a mesma graça sem você.
Olívia confirmou, e elas voltaram todas juntas para a sala de aula. Olívia e Joana não se viam capazes de disfarçar os olhares, ou mesmo os leves roçar de pele, enquanto caminhavam juntas pelo corredor da escola.
À noite, as cinco amigas se viram jogadas pela sala, falando besteiras e experimentando pela primeira vez, um cigarro diferente, como Ligia chamara o cigarro de maconha.
Thaís havia conseguido com o novo namorado, um rapaz mais velho, que fazia curso de inglês na sala dela. Dinho era divertido, engraçado, e havia conquistado as amigas da namorada logo de cara. Olívia gostara dele na hora, e os dois continuariam amigos, mesmo quando o namoro dele com Thaís já tivesse ido pelos ares, como sempre acabava por acontecer.
- E como eu vou ficar se fumar isso? – Ligia quis saber, provocando risos nas demais.
- Talvez uma versão mais divertida sua. – Thais respondeu ainda rindo. – Relaxa Lili, se você não quiser, não precisava fumar.
- Mas eu quero. – Ela se apressou em dizer, e as meninas voltaram a rir.
Thaís ascendeu o cigarro, e logo o cheiro da erva queimada já se espalhava pelo ambiente. Ela tentou explicar para as meninas como deveriam tragar, o que Olívia já sabia, mas que para as outras em um desafio a parte.
- Sejam bem vindas a terra do nunca. – Thaís exclamou.
O cigarro mágico, nome dado por Joana após fumar a primeira vez, e que acabou pegando entre elas, circulou pelas mãos de cada uma. Clara não conseguia tragar, e sempre terminava tossindo, o que em determinado momento, passou a ser engraçado. Ligia as surpreendeu, se soltando completamente, e passando a ser a diversão da noite.
Apesar dos olhos vermelhos, e o riso solto, Olívia não pode detectar nenhuma outra mudança em Joana. Ela estava relaxada, mas contida. Em diversos momentos Olívia teve o ímpeto de ir até ela e beijá-la ignorando completamente a presença das amigas, mas Joana a mantinha sob controle, mesmo que lançando olhares provocativos em direção a namorada.
- Eu preciso contar uma coisa. – Ligia falou voltando da cozinha, munida de refrigerante e uma travessa de salgadinhos que a mãe de Clara havia deixado preparado para elas.
- Hum, sessão revelações! – Exclamou Thais. – Adoro esses momentos.
Todas olharam curiosas para a loirinha parada em frente a elas. Ligia colocou os itens sobre a mesa, e olhou sem graça para as meninas.
- Não é nada não. – Disse tímida, sentando-se no chão, ao lado de Thaís.
- Ah, agora você vai falar. – Clara provocou. – Não pode jogar a bomba e sair correndo. Pode ir falando.
- Você fala se quiser Lili. – Olívia interrompeu.
- Por que você sempre defende a Lili? – Clara colocou as mãos na cintura. – Ela sabe que pode confiar na gente.
- Mesmo assim, a escolha é dela. – Olívia revidou.
- Tá bom, eu falo. – Ligia as interrompeu, quando Clara se preparava para falar.
Olívia bufou para Clara, mas nada comentou. Joana cruzou o pequeno espaço que havia entre elas, e sentou ao lado de Olívia, tomando às mãos dela, nas suas. Se olharam, e a vontade que antes era grande, se tornou insuportável. Olívia respirou fundo algumas vezes para se controlar.
- Vai em frente Lili, pode falar. Somos todas ouvidos. – Thais disse, sentando em posição de lótus, bem de frente para a loirinha que esfregava uma mão na outra, e não conseguia olhar para as amigas.
- Eu transei com o Luiz semana passada. – Falou de uma vez só. – Pronto, falei!
As quatro a olharam surpresa, e nos lábios de Olívia surgiu um sorriso pela timidez da amiga, mas Joana foi a primeira a se dirigir a menina.
- E aí? Como foi? – Perguntou delicadamente, a encorajando.
- Ah, sei lá Jo. Foi bom. Rápido. Estranho. – Falou tudo pausadamente. – Não sei direito.
- É assim mesmo sua boba. – Clara abraçou a amiga. – A primeira vez sempre é estranha.
- A minha não foi. – Olívia disse no ouvido de Joana, para que somente ela ouvisse. – Na verdade, foi perfeita.
Joana a olhou emocionada e sorriu. Ficaram se encarando por um tempo imensurável. Se permitindo com o olhar se tocarem, se sentirem, falarem tudo o que tinham vontade de dizer naquele momento, e que se viam impedidas.
- Adorei o seu momento revelação. – Thais falou sorrindo. – Foi o melhor dos ultimo tempos. E relaxa, com o tempo melhora bastante.
- Você saberia, não?! – Clara a provocou.
- Eu gosto de experimentar coisas novas, ué. – Thais deu de ombros. – E você não é nenhuma santa Clarinha.
- Não, eu não sou. – A outra disse rindo bobamente. – Olívia é a única santa entre nós. – Completou, e Joana se retesou.
- Santa não. – Olívia respondeu calmamente. – Sou apenas seletiva. Nesse corpinho aqui, não é qualquer um que vai colocar a mão. – Falou passando as mãos pelo corpo todo e rindo, descontraindo o clima que se instaurara.
As brincadeiras vararam a noite, e o relógio da cozinha já marcava quatro horas da manhã, quando decidiram ir dormir. Ligia já havia apagado no sofá, e Joana ressonava com a cabeça no colo de Olívia.
- Vocês se incomodam de dormir no quarto da minha irmã? – Perguntou para Olívia abrangendo a ela e Joana. – A Tata já desmaiou na minha cama.
- Claro que não. – Olívia respondeu.
- Boa noite meninas. – Clara se despediu, colocando uma coberta sobre a Ligia.
- Boa noite. – Olívia respondeu, vendo-a sumir pelo corredor.
Se vendo praticamente sozinha com Joana, já que Ligia dormia a sono solto, Olívia se abaixou e beijou os lábios da morena, passando as mãos despudoradamente, pelo corpo dela.
- Acorda Bela adormecida. Vem pra cama comigo. – Olívia falou provocante, e um sorriso surgiu nos lábios de Joana, antes mesmo que ela abrisse os olhos.
- Você é muito safada Olívia Gurgel. – Falou se erguendo. – E eu quero saber em detalhes o que você quis dizer com ser seletiva.
- Hum. Eu escolhi você. Isso basta. – Declarou apaixonada, acariciando o rosto da namorada e se inclinando em direção a boca dela.
- Aqui não amor. – Joana a impediu. – Vamos para o quarto.
Ela não precisou repetir, Olívia levantou e a puxou pela mão. Entre risos e sussurros se dirigiram a segunda porta do lado direito do longo corredor.
Sem nem ao menos esperar, assim que Olívia trancou a porta às suas costas, Joana a empurrou em direção a cama, e colocou seu corpo por cima do dela.
- Estava louca pra fazer isso. – Sussurrou antes de tomar os lábios dela em um beijo intenso, forte, instigante.
Do beijo, passaram a carícias mais profundas, e as mãos de Olívia tomavam o corpo da morena, a puxando para perto, mais perto, como se fosse humanamente possível, fundir dois corpos, tamanha era a sua necessidade de tê-la em seus braços.
Joana deixou os lábios dela, apenas para explorar o queixo, e então o pescoço, com leves mordidas, e um roçar de língua que deixou Olívia completamente aturdida e excitada. As mãos de Joana passaram a explorar o corpo de Olívia por de baixo da blusa, e encontraram os seios intumescidos. Sem ser capaz de controlar, Olívia gemeu alto, e Joana tratou de abafar com os próprios lábios.
- Amor! – Exclamou sorrindo. – Assim você acorda a casa inteira.
- Desculpa. – Olívia falou com a respiração entrecortada. – Mas você me enlouquece. – Disse ferina, de um jeito que nem sabia ser capaz de se expressar, e inverteu a posição dos corpos, se encaixando entre as pernas de Joana, ao mesmo tempo que se desfazia da blusa da morena.
- Tira a roupa. – Joana pediu com a voz rouca, enquanto auxiliava Olívia, arrancando a própria calça. – Quero sentir o seu corpo todo no meu.
Nus, os corpos voltaram a se encontraram, e a sensação sublime de ter a umidade de Joana em sua coxa, sentindo o seu próprio liquido escorrer pelas pernas dela, fez Olívia aumentar o ritmo do movimento antes cadenciado, que fazia sobre o corpo da namorada.
Sem penetração, apenas sentindo a excitação produzida por aquele contato intimo, Joana tremeu debaixo dela, fazendo com que Olívia se visse presa em uma espiral de prazer nunca antes experimentada. Gozou longamente por sobre ela, e afundou o rosto em seu pescoço.
Durante alguns minutos, ficaram abraçadas, ainda na mesma posição. Encantadas com a entrega dos corpos, com o calor gostoso de estarem perdidas, uma nos braços da outra.
Foi Joana quem interrompeu o contato. Delicadamente, empurrou Olívia para o lado, e subiu em cima dela. Com os lábios, foi tecendo um caminho de prazer, que já havia percorrido, mas que nunca havia feito desta forma, com calma, em uma provocação lenta e gostosa. O objetivo, não era o gozo, mas o prazer de sentir cada célula do corpo sob o seu, explodir.
Se saciou na pele, no suor, sentindo as vibrações quando tocava alguma parte mais sensível, fosse com os lábios, língua, ou mãos. Uma redescoberta do corpo amado, amando a entrega de Olívia, que apenas suspirava e gemia baixinho, aprovando aquela excursão.
O sexo encharcado de Olívia a recebeu pulsante, como se implorasse em cada reação involuntária, por um contato maior. Joana a olhou nos olhos, antes de mergulhar com a língua entre as pernas dela.
Olívia ofegou. Não acreditava que pudesse existir prazer maior do que já havia tido com a sua morena, mas ali estava ela, provando que o prazer era algo mutável, sempre existia alguma sensação nova a ser descoberta, uma forma diferente de sentir, e se entregou aos toques ousados e ao mesmo tempo, delicados, da menina que amava.
O gozo, apenas reflexo de algo infinitamente maior, mas que foi provado como uma recompensa pelos ávidos lábios de Joana, veio de forma sublime. Uma explosão de sentidos, que reverberou por todo o corpo de Olívia, que precisou cobrir a boca com um travesseiro, quando o gemido irrompeu de sua boca.
Calmamente, Joana se colocou ao lado dela, e acariciou o rosto da sua amada. Esperou calmamente que a respiração dela se abrandasse, para enfim, beijar-lhe os lábios, e com uma simplicidade desconcertante, dizer.
- Amo você. – Sorriu singela. – Você é tão linda. – Parecia lhe doer tal constatação.
- Linda é você amor. – Olívia revidou.
- Adoro quando você me chama assim. – Joana confessou com o rosto vermelho.
- Eu queria poder te chamar assim sempre. – Respondeu triste.
- Eu sei. – Resignada. – Eu também.
Joana se aconchegou nos braços dela, e Olívia passou a lhe acariciar as costas lentamente. Após mais alguns minutos de silencio, em que cada uma se perdeu nos seus próprios pensamentos, Joana riu.
- E a Clara acha que você é santa. Se ela soubesse... – Deixou no ar, e Olívia riu.
- Se ela soubesse o quanto eu esperei por você, diria que eu deveria ser canonizada ainda hoje. – Olívia bufou.
- Preferia não ter esperado? – Joana a provocou, ainda que com um tremor na voz. Tinha pânico de que Olívia quisesse conhecer outras mulheres, mais experientes, mais interessantes que ela.
- Nunca. – Olívia buscou os olhos dela. – Você é a única que eu quero. Eu não preciso de mais ninguém, só você. – Reafirmou.
- Acho bom. – Joana sorriu, e estreitou o contato entre elas.
- Quer que eu prove? – Olívia falou safada, já enroscando as suas pernas nas dela. – Vou mostrar o quanto eu te amo.
- É? – Joana provocou de volta. – E vai fazer o que?
- Te levar às estrelas. – Foi a resposta ousada que Olívia se permitiu dar.
Sem dar qualquer chance para resposta, Olívia a beijou, e tocou-lhe entre as pernas, provocando um arrepio por todo o corpo de Joana.
Percorrendo o mesmo caminho que a morena fizera por todo o seu corpo, Olívia saboreou a sua menina com ansiedade e devoção. Não se atendo a pequenos espaços, como a outra fizera, mas partindo imediatamente para o seu sexo. Tinha pressa, vontade, saudade do gosto dela em sua boca.
Explorou, instigou, lambeu, chupou, penetrou com a língua ereta, e depois com os dedos, estabelecendo um ritmo novo, alucinante, em uma busca por dar prazer, que não media esforços, não poupava, e quanto mais Joana tentava controlar os gemidos, mais Olívia abusava, ora passando a língua lentamente por toda extensão da vulva, ora a enlouquecendo com movimentos rápidos, que os dedos dentro da morena imitavam, fazendo-a se contorcer, e rebolar para ela.
Não foi apenas uma vez, mas duas, três, incontáveis espasmos de prazer que percorreram os corpos entregues aquela dança sensual, pois logo Joana também exigia tocar, chupar, provar mais, em uma sincronia perfeita que aos poucos elas conquistavam. Sem pudores, seguindo apenas a necessidade de conhecer, conquistar, e marcar para sempre os corpos com aquelas sensações arrebatadoras.”
O corpo de Olívia tombou sobre o colchão. Suado, tremulo, insaciável. Seu coração em um compasso agitado, bombeava o sangue pelas veias com força, como se fosse capaz de romper aqueles caminhos tão frágeis dentro dela.
A sensação do gozo melando as suas pernas e o lençol, a deixou atônita. Havia muito tempo desde a ultima vez em que se masturbara daquela forma. Sempre buscou em outros corpos a sensação fácil e rápida de saciar aquela necessidade latente, ainda que buscasse sempre na mesma pessoa, a inspiração para aquela explosão.
Virou-se na cama, e buscou a carteira de cigarro por sobre o criado mudo. O ascendeu, e encarou o teto, que a luz do posto do lado de fora, tratava de iluminar no formato da janela.
Não queria pensar em nada. Não queria ter que explicar a si mesma o que estava acontecendo dentro dela. A presença de Joana era tão forte, que era capaz de sentir o cheiro doce da pele entranhado em suas narinas, assim como o gosto, tão dela, na língua. O tempo não apagara qualquer vestígio da morena dentro dela. E isso lhe era assustador.
Pensou em Emilia, e no quanto aquela menina abria espaço nas suas defesas, e começava a ocupar um lugar, que Olívia nem sabia existir dentro dela antes. A ruiva o criara com seu jeito livre de ser, apaixonado, inteligente, quase despreocupado, que tanto a encantava.
A sua escolha estava feita. Não queria e nem poderia voltar atrás. O medo da decisão escorregou frio pela sua coluna, deixando toda sua pele arrepiada. Puxou o edredom por cima do seu corpo, e se encolheu em posição fetal, em uma tentativa inútil de se proteger, como se fosse de fora que a ameaça viesse, como se os seus sentimentos tivessem se expandido e tomado conta de todo o quarto.
Os dias que se seguiram, foram talvez os mais difíceis daquela viagem. Buscava se concentrar no trabalho, passando noites em claro escrevendo, isto quando não estava divulgando o livro.
A falta que sentia da sua família a comprimia, e nem as longas conversas ao telefone com Marina, tinham o efeito calmante e sensato que ela esperava. A amiga que sempre soubera ampará-la e ajudá-la a entender os próprios sentimentos, não conseguia aliviar a sensação de desamparo de Olívia. Talvez por ela não ter sido capaz de discorrer sobre tudo o que lhe afligia, ou simplesmente pela distância que tornava tudo tão irreal e fugidio. Não saberia dizer.
Emilia talvez fosse a que chegasse mais perto de entendê-la. Nas conversas, ainda que lacônica que teve com a ruiva, Olívia se viu desnuda em frente a ela. Completamente desarmada, e aberta a aceitar o apoio e o calor que a outra lhe oferecia. Por que sim, Emilia tinha o dom de aquecê-la por dentro, confortando-a.
Se sentia mais próxima a ela do que nunca. E isto, também a assustava. Tanto, que Olívia se permitiu fugir, apenas por um momento, ainda que só tenha se dado conta disso, após o ocorrido.
Foi em uma noite Porto Alegrense, que conheceu Cacá, uma loira com os cabelos longos e repicados, uma maquiagem carregada nos olhos, e um senso de humor invejável.
Havia saído com um rapaz que conhecera no hotel na tarde daquele dia. Dado era paulista, e Olívia não precisou nem recorrer ao seu gaydar para ter certeza. Reconheceram-se como iguais no primeiro olhar. Uma confusão com os quartos dos dois os aproximou, e após uma conversa descontraída no bar do hotel, decidiram dividir o quarto disponível pelos dois dias em que ficariam na cidade.
E Olívia não se arrependeu. Dado se mostrava a cada instante, uma companhia melhor. Era divertido, engraçado, e com uma animação contagiante. E foi assim, que convencera Olívia a colocar uma calça Jeans, um pulôver preto, e uma jaqueta de couro e sair pela noite gaucha.
Chegaram à boate e Olívia sentiu um arrepio de antecipação pelo corpo. Uma sensação conhecida, a energia da noite, da caça. Respirou fundo e se dirigiu ao bar.
- Olha mona, - Dado se virou para ela. – Eu sei que você não veio se divertir nos lençóis da luxuria, mas eu pretendo sair daqui acompanhado de um gauchinho gostoso.
- Não quero te impedir. – Olívia sorriu para ele. – Estarei aqui no bar se precisar de socorro.
- Adoro gente com sistema SOS embutido. – Ele respondeu rindo. – Vê se consegue se divertir um pouco. Você esta precisando.
- Vou tentar Dado. – Olívia lhe sorriu e se voltou para a sua bebida enquanto assistia Dado caminhar em direção a pista de dança, já lançando olhares a volta em busca da presa.
Cacá se aproximou dela logo no início da noite. Com uma confiança que disfarçava a sua insegurança, ela agiu como predadora, e Olívia se reconheceu na hora. Sorriu para a menina.
- Oi. – Ela falou se aproximando para ser ouvida. – Tu não és daqui, é?
- Não. – Olívia sorriu. – Carioca.
- Hum, vou adorar te ouvir chiando no meu ouvido. – Cacá falou sedutora, provocando uma gargalhada em Olívia.
- Direta. – Olívia sorriu para ela. – E ao menos para mim, inovadora. Esta eu nunca tinha escutado.
- Foi péssima, não foi? – Sorriu sem graça para Olívia. – Eu juro que tenho melhores, mas foi o primeiro pensamento que me ocorreu na hora. – Completou. - Bom ninguém pode dizer que eu não tentei. – Fez uma pose, que Olívia achou fofa.
- Não mesmo. – Olívia confirmou. – Olívia. – Estendeu a mão para ela.
- Cacá. – Respondeu sorrindo. – E o prazer é todo meu.
Olívia riu do jeito marrentinho da menina. Ela era abusada, e encantadora. Linda com uma calça jeans desbotada e uma camiseta preta com a logo do “The Clash”, cortada para fazer um efeito despojado, sobre um top preto.
- Cacá, é realmente um prazer. – Lhe sorriu, flertando de volta, ainda que sem intenção alguma de levar aquilo adiante.
- Quer dançar? – Cacá lhe perguntou sorrindo. – Prometo não te agarrar na pista. – Completou provocante.
- Claro. – Olívia respondeu a olhando nos olhos.
Foram para a pista, e Olívia ficou encantada com o jeito livre com que ela dançava a sua frente. Completamente sedutor, sem de forma alguma ser vulgar. Não resistiu, e colou seu corpo junto ao dela em uma dança sensual.
Ficaram por um tempo somente curtindo a proximidade dos corpos, os leves toques involuntários ou não, já fazendo com que uma corrente elétrica se estabelecesse entre elas. Olívia conhecia muito bem a sensação, e sabia que não sentiria absolutamente nada depois.
Cacá se virou de frente para ela e sorriu, ainda esfregando o corpo no de Olívia. A troca de olhares foi inevitável. Era apenas desejo, luxuria como Dado havia chamado, e Olívia se viu retribuindo por puro reflexo. Não impediu o beijo que se seguiu, e nem se martirizou. Era um beijo doce, macio, sem qualquer compromisso ou drama, e isso era reconfortante.
Terminaram a noite no quarto de hotel que Olívia dividia com Dado. Este tinha se arrumado com um moreno alto, e saíra da boate acompanhado do seu “bofe”, como o chamou ao se despedir de Olívia, que tinha Cacá ao seu lado.
A menina se tornava a cada instante, ainda mais interessante a seus olhos. Ela era engraçada e espirituosa. Após se separarem de mais um beijo na saída do elevador, cochichou em seu ouvido:
- Eu não te agarrei. – Mordeu o lóbulo da orelha dela. – Mas se tu continuar deixando, eu quero te lamber inteira.
Olívia sorriu, e a levou até a porta do quarto. A abriu, e puxou Cacá para dentro.
Após algumas horas de sexo, em que Olívia sentia-se cada vez mais fora de orbita, ergueu-se, e foi direto para o chuveiro. Queria tirar do seu corpo o suor e as marcas que a pura e simples satisfação da carne haviam deixado. Definitivamente, não era mais a mesma pessoa.
Voltou para o quarto, e encontrou Cacá já vestida, fumando um cigarro próxima a janela.
- Só estava te esperando sair do banho. – Disse se voltando para Olívia. – Eu já vou indo.
- Não precisa ir embora Cacá. – Olívia falou sem graça. – Dorme um pouco. – Apontou para a cama.
- Já vai amanhecer. Prefiro dormir na minha cama. – A loira lhe sorriu. – E não se preocupe, quem quer que ela seja, ela deve saber bem o que está perdendo. – Disse sedutora, mais uma vez arrancando um riso solto de Olívia.
- Talvez. – Olívia respondeu, não sabendo em quem pensar, se em Joana, ou Emilia. – Isso não muda os fatos. – Suspirou, puxando um cigarro, e sentando-se na poltrona.
- Mulheres são complicadas. – Cacá falou como se tivesse muita experiência no assunto, e Olívia lhe sorriu. – Por isso eu procuro não me envolver.
- Gostaria de ainda ter essa opção. – Falou rindo. – Quantos anos você tem Cacá?
- Vinte e um.
- Meu Deus, eu posso ser presa? – Olívia falou rindo.
- Não vai dizer que eu tenho idade pra ser tua filha. – Cacá fez pose.
- Filha talvez não, mas quem sabe irmãzinha mais nova. – Olívia balançou a cabeça. – De qualquer forma, foi muito bom te conhecer.
- Eu posso dizer o mesmo. – Cacá lhe sorriu e beijou-lhe os lábios delicadamente. – Eu nunca me apaixonei, mas se eu sentisse o que tu sentes, eu não perderia por nada. Lutaria até o fim.
E deixando Olívia, completamente confusa quanto aos seus sentimentos, Cacá fechou a porta do quarto às suas costas. Afinal, o que estava sentindo? Vinha pensando em Emilia mais do que poderia imaginar algum dia, e mesmo assim, Joana ainda era o seu primeiro e ultimo pensamento a cada nascer e pôr do sol.
Capítulo 16 - De volta pra casa
Quando retornou para casa em meados de Julho, Olívia foi recepcionada por uma festa na casa da Marina, que fora buscá-la no aeroporto levando-a direto para Botafogo.
Seus amigos estavam todos presentes, e ao ver seu irmão, a cunhada, Bola e Tom e Theo, foi que se deu conta da falta que eles faziam em sua vida.
- Achei que você não ia mais voltar. – Guto fez bico, que Olívia tratou de desmanchar o cobrindo de beijos.
- Pra que? Pra limpar seu bumbum e servir leitinho de madrugada? É pra isso que você tem a Marcinha. Desculpa cunhada. – Falou ao virar-se para a mulher baixinha e sorridente ao seu lado.
Marcinha lhe deu um abraço apertado. As duas acabaram se tornado boas amigas e muitas das ligações que Olívia fizera para casa durante a viagem, haviam sido para falar com a cunhada. Não mais apenas a conexão direta para o seu amor, mas alguém com quem ela criara uma simbiose, um entendimento profundo pelo qual não esperava. Marcinha se tornara essencial a sua existência.
- Ele precisa de você. E eu também. – A menina confidenciou a mantendo em seus braços.
- E eu de vocês. – Olívia respondeu doce, dando um beijo no rosto de boneca.
- Eu juro que na próxima turnê, eu vou com você. – Theo resmungou ao puxá-la para um abraço. – Minha vida não tem a menor graça sem você.
- Nem a minha sem você viado. – Olívia retribuiu o abraço.
- O Theo só fez reclamar enquanto você estava fora. – Bola entregou. – Mas você realmente fez muita falta.
- E perdeu a inauguração do novo espaço do Bola. – Tom completou, dando-lhe um beijo estalado na bochecha.
- Pois é, eu soube. Bar do Bola agora na Zona Sul. Vocês estão muito chics. – Implicou com os amigos.
- Não é? – Bola falou com um sorriso enorme no rosto. – Eu tenho purpurina pra dar e vender, minha querida. Bar LGBT agora em Laranjeiras. – Falou orgulhoso.
Guto a havia informado que eles tinham mudado de espaço. Estavam agora com novo endereço e em um bar estilizado na Rua das Laranjeiras, próximo ao Largo do Machado.
- Já que estão todos contando as novidades, eu também tenho uma. – Marina chamou a atenção de todos.
- Jura amiga? E não me contou nada nas ultimas quinhentas e sessenta e cinco ligações, por quê? – Olívia se fez de ofendida.
- Porque assim tem mais graça. – Disse simplesmente. – Então, eu fui chamada para fazer a cenografia de um filme do Walter Salles.
- Você esta brincando?! – Olívia exclamou levantando a amiga do chão. – Eu não acredito, Nina!
- Pode acreditar. – Falou com um sorriso largo no rosto quando a amiga lhe soltou. – Recebi a ligação na segunda-feira e a ficha ainda não caiu.
- Isso é incrível. – Theo disse, também abraçando a amiga. – Eu quero saber quando eu vou ficar chic assim! Uma lança um livro e sai em turnê, esses dois abriram um novo bar, você trabalhando pro Waltinho, e eu? A bicha aqui não merece nada, não?
- Você esqueceu esses dois aqui. – Falou o Guto, levando um cutucão da namorada.
- Vocês o que? – Olívia perguntou se voltando para o irmão e a cunhada.
Guto olhou para a namorada, como que pedindo permissão para falar, que ela concedeu com um sorriso e um movimento de cabeça. Ele segurou a mão dela e anunciou.
- Nós decidimos nos casar.
Olívia não se conteve e os abraçou emocionada. Se fosse há um tempo atrás, os sacanearia, dizendo que casamento era uma instituição falida, mas com tudo o que passara nos últimos tempos, não poderia ficar mais feliz pelos dois. Se eles tiveram a sorte de se encontrarem e se queriam passar o resto dos seus dias juntos, quem era ela para julgar?
- Eu só espero ter sido cogitada como madrinha. – Brincou com o irmão.
- A discussão foi se você seria minha madrinha, ou dela. – Ele falou rindo.
- Serei dos dois. – Olívia os abraçou novamente.
- Não to falando?! – Theo exclamou dramaticamente. – Só comigo que nada acontece.
- Ah, Theo. – Marina passou a mão na cabeça dele. – É só andar colado na gente. A sorte está no ar querido, respira fundo.
Todos riram da expressão indignada do Theo para Marina. E enfim a festa teve início. Mesmo estando cansada da viagem, Olívia não poderia estar mais feliz. Com exceção da Paula, que estava fora da cidade com a namorada, a sua família estava ali, e o mais importante, todos vivendo um momento feliz.
Passados dois dias que Olívia havia regressado, e após um descanso merecido, ela e Emilia decidiram se encontrar. Não que Olívia não a tivesse procurado antes, mas Emilia se fez de difícil, o que Olívia achou sedutor.
Marcaram na Tasca do Edgar, local onde havia ocorrido o primeiro encontro das duas. Olívia a esperava, sentada na mesma mesa que da outra vez, vestindo uma calça social cinza chumbo e uma camisa branca, pois havia acabado de deixar uma reunião com os donos da Editora. Os cabelos castanhos estavam um pouco mais longos, mas não menos rebeldes, e os olhos pintados ficavam ainda mais belos e intensos.
Estava nervosa, do que achou graça. Há quanto tempo não sentia essa palpitação no peito? Seria um sinal? Acreditava que sim. A decisão tomada, já não pesava como antes. Era o melhor a fazer, e estava feliz por isso.
Emilia entrou vestindo uma camiseta do David Bowie, o que Olívia achou extremamente charmoso e uma calça jeans rasgada. Ela parecia a menina que ela havia conhecido na faculdade, e um frio na barriga lhe indicou que estava fazendo o certo. Desejava Emilia. A queria ao seu lado.
- Oi. – Olívia falou ao se erguer para recebê-la com um sorriso.
- Oi. – Emilia repetiu se lançando para um abraço apertado. – Senti sua falta.
- E eu a sua. – Olívia falou entre os cabelos cor de fogo. – Muita falta.
Sentaram-se a mesa e Olívia já havia pedido outra cerveja e a porção de bolinho de bacalhau, fazendo com que Emilia sorrisse com a lembrança.
- Se tudo correr bem, eu te levo pra minha casa, não é? – Perguntou erguendo a sobrancelha.
- Se tudo correr bem, muito em breve eu espero que tenhamos a nossa casa. – Olívia disse lançando um olhar quente, apaixonado. Olhar que Emilia nunca tinha recebido desta e que fez seu coração vacilar.
- Não brinca com coisa seria Olívia, você pode se arrepender. – Emilia a alertou.
- Que bom então que eu não esteja brincando. – Olívia rebateu, buscando a mão dela por sobre a mesa. – Eu pensei muito sobre isso Emi. E por tudo o que nós temos conversado por telefone, você não deveria parecer tão surpresa.
- Uma coisa de cada vez, ok? – Emilia falou. – Hoje eu quero você na minha cama. Depois a gente pensa sobre as outras noites.
Olívia sorriu condescendente. Sabia que não poderia exigir nada de Emilia, especialmente que acreditasse nela depois de todos os altos e baixos pelos quais elas haviam passado, todos eles em sua conta, diga-se de passagem.
Terminaram o chopp e os bolinhos de bacalhau, e seguiram para a casa de Emilia. Elas mal haviam passado pela porta, e Olívia já a puxara para um beijo de tirar o fôlego. Um beijo repleto de saudade e desejo.
- Assim você não me deixa escolha. – Emilia falou assim que as bocas se afastaram para buscar por ar. – Vou te fazer pagar por cada dia em que ficou longe.
- Isso é uma ameaça? Soa mais como uma promessa. – Olívia já começava a despi-la, mas Emilia a impediu.
- Hoje quem manda aqui sou eu. – Se afastou um pouco. – Senta nessa cadeira pra mim. – Mandou e Olívia obedeceu.
Uma cadeira posicionada no meio do cômodo, em uma atmosfera totalmente diferente da que Olívia esperava. Emilia havia se preparado para aquele momento. Contara que ali acabariam a noite, e isto deixou a escritora, ainda mais excitada.
Emilia se aproximou devagar e Olívia tentou puxá-la para o seu colo, mas a ruiva não deixou. Pegou um pano e cobriu os olhos de Olívia.
- O que você esta fazendo? – Olívia perguntou, tentando impedi-la de cobrir-lhe os olhos. – Eu quero te ver.
- Você vai. Mas não agora. – Emilia terminou de vendá-la.
Olívia estava excitada. Emilia colocou uma musica de fundo. Era um house que Olívia não conhecia. Estranhou um pouco, pois sabia que a namorada preferia rock alternativo, ou clássico, mas não musica eletrônica e suas variações.
Quando sentiu Emilia próxima mais uma vez, esta começou a despi-la lentamente, tocando-lhe em cada parte do corpo que ficava descoberta. Olívia apenas ofegava e gemia sob o contato.
Quando faltava apenas a calcinha para ser retirada, Emilia sentou no colo de Olívia de frente para ela e passou a beijar-lhe o pescoço, passando a língua devagar sobre a pele, provocando arrepios.
- Estava com saudade do seu gosto. – Falou no ouvido dela, antes de introduzir a sua língua, a levando a loucura.
Olívia passou a mão nas pernas dela, mas mais uma vez foi impedida.
- Sem tocar. – Disse sensual, descendo as suas mãos por sobre os seios de Olívia.
- Isso é tortura. – Olívia reclamou.
- Você vai ser recompensada. – Emilia soou sacana em seu ouvido, antes de descer com a boca até os seus seios.
Emilia lambia e chupava o corpo de Olívia, ao mesmo tempo em que suas mãos também passeavam por sobre a pele branquinha. Mesmo achando aquilo tudo excitante, ainda era difícil para Olívia não ter o controle da situação. Queria mais do que tudo, se sentir preparada para se entregar a Emilia, e havia decidido que aquele seria o dia, mas quanto mais perto chegava disso, maior era o seu pânico.
Tentou novamente tocá-la, mas Emilia parecia decidida a dominá-la, e foi retirando a sua calcinha devagar, deixando-a completamente nua e a sua mercê.
Abriu os joelhos de Olívia até deixar o sexo que tanto desejava e que há tanto tempo almejava ter para si, exposto. Tocou-lhe levemente, e percebeu o arrepio que provocou no corpo dela.
Olívia tentava relaxar e aproveitar. Sentiu o toque leve, e logo pode sentir que Emilia descia pelo seu corpo, e em cada ponto em que passava, deixava um rastro quente com a língua. Quando atingiu seu sexo, Olívia gemeu, levando-a ao delírio.
Se abriu para ela e deixou-se dominar. Desde a ultima noite em que passara nos braços de Joana, nunca mais havia sido tocada, a sensação era maravilhosa, mas não se conteve e pensou na ex-namorada. Lembrou-se da sensação de tê-la entre as suas pernas a levando a loucura.
“Já havia passado da meia noite, e Olívia grudou o ouvido mais uma vez na porta do quarto. Ela esperava a mãe ir dormir, mas o som da televisão na sala continuava na mesma altura.
Joana, deitada sobre a cama a chamou:
- Nada ainda?
- Não. – Olívia voltou para a cama. – Isso já está ficando ridículo. Ela sempre dorme cedo! – Reclamou.
- Você fica linda irritadinha. – Joana implicou.
Olívia bufou como resposta.
- É serio. Adoro essa ruguinha na sua testa quando você esta mal humorada. – Continuou.
- Eu não estou mal humorada. Só irritada. – Olívia resmungou. –Nós nunca conseguimos dormir juntas, e logo hoje que meu irmão esta na casa do meu pai, minha mãe inventa de beber um vinho e ficar vendo filme até tarde.
Joana sentou-se e puxou Olívia para perto dela. Passou os dedos pela pele branca e delicada do rosto e mirou os lábios vermelhos, convidativos. Quando voltou seu olhar para os olhos, o verde intenso a recebeu incandescente.
- Você é linda. – Joana constatou com a voz cheia de desejo. – Quero sentir você. – Foi um pedido, uma suplica.
- E eu quero você. – Olívia disse aproximando seus lábios dos dela.
Do beijo repleto de paixão, passaram ao toque tão esperado. Olívia sentia o desejo arder por todo o seu corpo. Era sempre forte e intenso quando estava com Joana. Cada toque, cada beijo, cada nova sensação que experimentava, a libertava a fazia sentir-se mais viva. E ela queria tudo. Queria o mundo todo em um segundo.
Joana cobriu o seu corpo com o dela, arrancou-lhe a blusa e se perdeu nos seus seios pequenos e alvos. Os chupou e lambeu, provocando arrepios. Ela lançou-lhe um olhar que Olívia conhecia, mas que sempre a surpreendia. Era amor, paixão, desejo, tesão, tudo isso banhando em um mar de fogo.
Era a primeira vez que a morena tomava a iniciativa. Olívia sempre se via na obrigação de avançar os primeiros sinais, até que Joana relaxasse e a imitasse. Mas não dessa vez. Ela parecia mais confiante, ansiosa pelo contato dos corpos, e agindo com uma precisão que deixou Olívia completamente rendida.
Ao sentir Joana por sobre ela, esfregando seu corpo no dela, sentindo os lábios úmidos a marcarem sua pele em brasa, até alcançarem seu sexo sedento, pulsante, perdeu o fôlego, era a sensação mais sublime que já experimentara. A visão mais bela já presenciada. Ver o rosto da mulher amada entre as suas pernas, a sugar-lhe o néctar, lhe arrancando gemidos e por fim o gozo mais intenso que já sentira na vida, foi a experiência mais marcante da sua adolescência. Até aquele momento, nunca havia sentido os lábios e a língua da sua morena a tocar-lhe tão intimamente.
Quando abriu os olhos, com a respiração alterada e o coração acelerado, viu um sorriso lindo, luminoso no rosto do seu amor. Era um misto de felicidade, que ela compartilhava, de orgulho e desejo.
- Você consegue ficar ainda mais linda gozando. – Joana disse, enquanto escalava seu corpo, até chegar aos lábios. – Eu te amo tanto, que a minha vontade é passar o resto da vida te fazendo gozar, só pra ver esse brilho nos seus olhos.
- Eu amei gozar na sua boca. – Olívia falou próxima aos lábios dela. – Você me surpreende cada vez mais, Jo.
- Eu aprendi com a melhor. – Falou em meio ao riso. – E depois você diz que eu também sou sua primeira.
- Você é. E eu sou a sua. – Tocou-lhe entre as pernas, fazendo-a ofegar. – Dizem que sexo é instinto, mas com a gente, é amor. Eu quero descobrir muito mais com você. Quero descobrir tudo. Quero te dar muito prazer.
- Idem. – Joana disse em meio a um gemido. Estava ficando difícil se concentrar, com Olívia massageando seu clitóris e a penetrando.”#
Olívia pode sentir o gozo vindo. De olhos vendados, sentiu os espasmos pelo corpo e com um gemido rouco se entregou. Emilia retirou a venda dos seus olhos e lhe sorriu. Olívia sentiu-se culpada. Queria que aquele gozo fosse dela. Queria poder oferecer isto a ela, mas ainda não era. Todo o seu amor, todo o seu prazer, ainda eram de Joana. Ela mudaria isso.
Puxou Emilia para o seu colo, e beijou-lhe os lábios com ternura. Sentiu o corpo da ruiva, quente em suas mãos. Deslizou os dedos pelas pernas dela, subiu pelas costas e começou a tirar-lhe o espartilho.
- Não mesmo. – Emilia disse se erguendo.
- Então é tortura mesmo? – Olívia perguntou fingindo indignação.
- Só mais um pouquinho. – Um sorriso sedutor brotou nos lábios cor de rosa. – Prometo que você não vai se arrepender.
Aumentando o som, Emilia começou a dançar sensualmente. Ela era linda, sexy, com uma personalidade forte, tanto que enquanto assistia aquela mulher se despir para ela, Olívia só conseguia pensar no quanto gostaria de estar apaixonada por ela.
Cada peça de roupa retirada, deixava Olívia ainda mais ansiosa por sentir aquele corpo junto ao seu. O desejo que sentia por Emilia parecia ter crescido nos meses que passaram distantes. Sentiu saudade do cheiro e do gosto da ruiva que tanto a enlouquecia.
Quando Emilia estava completamente nua, Olívia se ergueu e foi até ela, enlaçou-lhe a cintura, e tomou-lhe os lábios com fervor. Suas mãos passeavam livremente pela pele exposta, até encontrarem o sexo molhado e ali se aterem.
- Cansei de esperar. Quero você. – Disse no ouvido de Emilia, introduzindo dois dedos em seu sexo.
- Então me toma. – Emilia disse provocante, a empurrando para o sofá.
Olívia caiu de costas e Emilia se posicionou por sobre ela. Ela rebolava sobre os dedos de Olívia e gemia. Os corpos quentes, excitados e sedentos, ditavam o ritmo cada vez mais forte. Quando sentiu que Emilia iria gozar, Olívia a abraçou fortemente em seus braços e olhou-a nos olhos. Ela era linda.
Incansáveis, os corpos se amaram por horas. Na falta das palavras, nas promessas que não poderiam ser feitas, Olívia buscava entregar o que tinha, o que era seu para dar. Seus sentidos, seu desejo, seu carinho, sua amizade. Dedicou toda a sua vontade, a estar o mais próxima possível de Emilia. Poderia ser feliz ao lado dela, e desejava, mais do que tudo, fazê-la feliz.
**X**
Os dias que se passaram, foram talvez, os mais tranqüilos e felizes que Olívia vivia nos últimos tempos. Havia uma tranqüilidade, uma paz na decisão que tinha tomado. Estar com Emilia a fazia sentir-se bem, sentia-se firme, calma. Era capaz de se focar nas outras áreas da sua vida, tendo o conforto e a confiabilidade, de estar em uma relação estável.Guto achava graça. Sua irmã, sempre tão alheia as relações convencionais, a calmaria que a monogamia poderia proporcionar, estava entregue àquela rotina e parecia feliz com ela.
Como Marcinha e Guto planejavam casar até o final do ano, Olívia achou que era hora de eles terem um lugar só para eles. Após muitas tentativas frustradas, ela enfim convenceu Emilia a morar com ela. Desta forma, elas se mudaram para um apartamento no Flamengo. Juntando o salário, mais os contratos dos dois livros, Olívia tinha uma renda maior e pode pagar por um lugar melhor para morar. O apartamento na Rua Paissandu tinha dois quartos e um quarto de empregada. O quarto maior era a suíte das duas, o menor, escritório da Olívia, e o de empregada, virou o ateliê da Emilia. Por ser próximo a área de serviço, ela tinha bastante espaço para espalhar as suas telas. A sala ganhou um sofá confortável e uma estante para a televisão e o aparelho de som. Era a primeira casa em que Olívia não tinha moveis montados a partir de sucata. Ela fizera questão de comprar tudo novo. É claro que tinha a cara delas, repleto de objetos de arte e com paredes temáticas pintadas por Emilia.
Olívia estava animada com o rumo que sua vida tomava. Estava escrevendo mais, as suas aulas do mestrado a estavam inspirando em novo projeto junto a uma ONG especializada em Educação de jovens e adultos, e as aulas na escola se tornaram mais produtivas.
Guto e Marcinha também resolveram deixar o apartamento na Lapa, e foram morar na Tijuca. Lá puderam alugar um apartamento maior, mas não tão caro quanto os da Zona Sul. Os dois vinham juntando dinheiro para o casamento e Guto finalmente chegava ao semestre final em uma faculdade. Olívia sabia que arquitetura não era a paixão do irmão, mas ficava feliz ao percebê-lo mais responsável com a própria vida.
Marcinha trabalhava na UERJ, e conseguira algumas cadeiras em duas Universidades particulares, a Gama Filho e Estácio. Com o que ela ganhava, e com o novo estagio de Guto em um novo escritório, eles enfim marcaram uma data.
A saída barulhenta dos alunos de suas aulas no final da manhã, foi o que despertou Olívia. Ela estava tão concentrada escrevendo na sala dos professoras, que nem havia se dado conta da hora.
Recolheu seu material, guardou o notebook na mochila e deixou a escola. Do lado de fora, enquanto se dirigia ao seu carro, sim, ela havia enfim conseguido comprar um carro, ela avistou Marina parada junto ao portão.
- Eu não acredito! – Exclamou, correndo para abraçar a amiga. – quando você chegou?
- Hoje mesmo. – Marina respondeu com um sorriso enorme no rosto. – Sentiu minha falta?
- Você esta brincando? – Olívia sentia-se radiante. Marina havia viajado para as filmagens do longa em que trabalhara ao lado do Walter Salles, e isso já fazia quatro meses. Ela havia partido logo após a chegada de Olívia da turnê do livro. – Eu estava morrendo de saudade de você.
- Que bom. Porque eu achei que eu nunca mais fosse conseguir voltar. – Abraçou a amiga novamente. – Almoça comigo?
- Claro! - Olívia olhou a volta. – Como você veio?
- Taxi. Agora a minha amiga é motorizada, ela pode me deixar em casa mais tarde. E além do mais, meu carro esta há tanto tempo parado, que eu achei melhor não arriscar. Não sem levá-lo para revisão antes.
- Quando foi que nós nos tornamos tão prudentes? – Olívia riu. – Responsáveis até?
- Eu sei. – Marina exclamou. – Também não entendo. Acho que é a idade.
- Sempre tive medo que esse dia chegasse. – Olívia balançou a cabeça. – Vamos?
- Vamos. – Marina parou. – Ei, cadê a sua esposa?
- Ela tinha umas fotos para tirar hoje. Só vai pra casa mais tarde. – Olívia respondeu.
-Uau. Você esta casada mesmo! Nunca imaginei este dia chegando. – Marina fingiu surpresa.
- Quer parar de implicar e andar comigo?
- Mas é serio Li. – Ela a seguiu até o carro. – Você era a ultima lésbica no planeta, que eu imaginaria casando. Todas as outras fazem isso repetidamente, mas você...
- Haha. – Olívia abriu o carro e entrou pelo lado do motorista. – Sabe que eu estou até gostando de morar com ela? – Disse assim que Marina também entrou no carro e fechou a porta.
- Serio? – Marina não controlou o riso.
- Serio. – Falou, dando um tapa no braço da outra. – A Emilia é ótima companhia. Nós nos damos bem, sabe? É fácil.
Marina preferiu não dizer nada. A amiga queria se enganar? Ela deixaria. Até porque, gostava de vê-la tocando a sua vida de forma centrada. A Olívia melancólica, não fazia bem a si própria.
- Aonde você quer ir? – Olívia fingiu não perceber o que Marina estava pensando. Como se ela própria não pensasse nisso diversas vezes ao dia.
- Sua casa. – Marina abriu um sorriso.
- Ok. Mas vou logo avisando, casar não me concedeu dotes culinários. Vamos ter que pedir comida em casa.
- E você acha mesmo que eu comeria qualquer coisa feita por você?! Por favor! Eu tenho amor à vida. Sou muito nova pra morrer envenenada. – Brincou, o que lhe rendeu outro tapa.
Marina e Olívia passaram a tarde na casa da escritora. O tempo que passou longe, rendeu boas historias a Nina. Ela havia adorado a vida nos sets de filmagem, mas confessou sentir muita saudade de casa. Já tinha outro projeto encaminhado. Faria a cenografia de um curta que o diretor de fotografia do filme estava dirigindo.
Havia também conhecido uma mulher da produção, com quem mantivera um caso por quase todo o tempo que passara fora. O nome dela era Ingrid, e Marina admitiu que gostara dela, mas que não levaria adiante.
- Você ainda pensa na Clarissa? – Olívia perguntou a certa altura da noite.
- Às vezes. – Marina parou para pensar. – Eu sinto falta do que eu tinha com ela. Eu tenho que admitir, eu gostava da vida de casada.
- E aí vem me criticar. – Olívia ergueu-se. – E falta dela como mulher, você sente?
- Não. – Respondeu após ponderar por alguns instantes. – Não mais. Hoje já consigo me lembrar das coisas boas, sem sentir que o meu peito esta sendo rasgado e jogado no lixo.
- Certo. – Olívia disse virando-se para ir até a cozinha.
- Porque o interesse? – Marina teve que elevar a voz para se fazer ouvir.
- Por nada. – Olívia disse, ao voltar para a sala com outra garrafa de vinho. Era a terceira do dia.
- Ahã. A quem você pensa que engana? Pode ir falando. – Marina aceitou o vinho que Olívia lhe entregava.
- Eu não sei. – Olívia suspirou e voltou a sentar no chão, ao lado da amiga. – Às vezes eu queria entender esse sentimento.
- Amor? – Marina a encarou com um sorriso compreensivo.
- É. – Olívia franziu a testa. – Ou não. Eu confesso que não sei mais classificar o amor. Acho que desaprendi.
Marina a encarou e tentou encontrar a melhor maneira de começar. Não queria remexer no passado, pois sabia que a amiga vinha fugindo dele com muito esforço, mas percebeu também que ela precisava falar alguma coisa que a estava angustiando, então bebeu mais um pouco do vinho, e com muito tato perguntou.
- O que você sente pela a Emilia?
Olívia a encarou confusa. O que ela sentia pela Emilia? Se perguntava isso com maior freqüência do que pensava ser normal para alguém que dividia a vida com outrem. Ela escolhera Emilia como sua companheira, mas as circunstâncias que a levaram a tomar tal decisão, nunca foram ideais.
- Eu a amo. – Concluiu em voz alta.
- Nossa! Que entusiasmo. Eu quase acreditei – Marina foi sarcástica.
- De verdade, Nina. É um amor diferente do que eu pensei já ter vivenciado. É um amor calmo, sem sobressaltos, com uma dose imensa de carinho e cumplicidade. Ela faz com que eu me sinta bem, sabe? Amada, desejada. Além de ser uma mulher incrível, que eu admiro profundamente, ela é linda, e sexy. – Sorriu. – Eu nunca pensei que o amor poderia ser tão tranqüilo e sem dramas, sabe?! Tirando a primeira fase da nossa relação, que não poderia ter sido mais conturbada, mas hoje, hoje eu sou capaz de respirar perto dela. Não sinto angustia, ou medo. É saudável.
- Uau. Isso foi para mim, ou você esta tentando convencer a si mesma que tomou a melhor decisão ficando com a Emilia?
- Você sabe ser má quando quer. – Olívia virou o que restava de vinho em sua taça. – Porque eu não sou capaz de amar alguém que me faz tão bem? – Disse por fim. – É o que eu mais quero Nina. Eu quero amar a Emilia loucamente. Eu quero sentir esse sentimento arder aqui dentro. – apontou para o peito. – Mas eu acho que não é possível condicionar os sentimentos, certo?
- Não completamente. – Marina falou docemente. – Você pode até tentar se sentir apaixonada por alguém, e irão haver momentos em que você será capaz de sentir isso, mas é só você relaxar, que ele se mostra o que realmente é.
- É. Isso é um fato. – Olívia se serviu de mais vinho. – Sabe o que é pior? Eu minto bem. Eu aprendi a dizer ‘eu te amo’, ainda que não sinta. E eu me sinto tão culpada quando vejo nos olhos dela, que ela de fato sente quando se declara. Eu sou uma pessoa horrível. – Concluiu.
- Não é não amiga. – Marina lhe olhou com ternura. – Você apenas esta fazendo o que muitas pessoas fazem. Escolhem o conforto de uma relação em que elas não amam profundamente, não aquele amor arrebatador, que te tira o chão e faz você se sentir a mulher maravilha ou o super homem, e ficam com a pessoa que as amam mais. Isso é mais comum do que você poderia imaginar.
- Mas é mesquinho e injusto. – Olívia olhou a volta, vendo todos os detalhes que faziam daquela casa, o canto da Emilia. – A Emilia merece muito mais do que isso.
- Ela sabe. – Marina disse.
- Sabe o que? – Olívia a olhou confusa.
- Sabe que ela te ama muito mais do que você a ela. Sabe que você talvez nunca venha a sentir isso por ela. A escolha também é dela. Ela não quer te perder, então ela aceita o pouco que você pode dar. Ela aceita o teu carinho e admiração, e em troca pode devotar o sentimento dela a pessoa amada, no caso você.
- Então é um acordo silencioso em que ambas as partes sabem que a relação é na verdade, uma farsa, e tudo bem?
- Não. Um dia uma de vocês vai pirar. Talvez você se dê conta de que isso é muito pouco e que viver em segurança não é o mesmo que viver. Ou ela passe a perceber que isso não é o bastante para ela, e aí ela vai te deixar, por mais que doa, mas vai deixar.
- Então é uma relação fada ao fracasso, é isso?
- Desculpa amiga, isso são teorias que eu fui construindo, baseadas em vivencias. – Nina virou o conteúdo do seu próprio copo. – Eu já tive os dois. Eu tive grandes amores e vivi relações vazias. As duas tiveram o seu papel, mas se você quer mesmo saber, todas terminaram, então... Eu ainda estou esperando pelo grande amor. Eu ainda acredito que ele virá e que vai virar a minha cabeça e que eu vou amar e ser amada dentro das mesmas proporções. Talvez isso seja um condicionamento que ficou embutido em mim desde criança, quando eu lia historias infantis de amores eternos, ou os romances da minha adolescência. Até hoje, eu espero. Então, talvez você esteja fazendo o certo.
As duas se calaram, perdidas em seus próprios pensamentos e conjecturas. A verdade era que Olívia sentia falta de sentir-se completamente apaixonada por alguém, ainda que sem ser correspondida, e ao mesmo tempo, sentia falta das pequenas aventuras. A segurança que Emilia dava a ela, às vezes a sufocava. Em alguns momentos bastava, mas não era sempre. Mas não se sentia pronta para perder aquilo. Gostava de tê-la ao seu lado. Ainda se divertiam juntas. Se entendiam na cama. Tinham um carinho imenso uma pela outra, e quem disse que isso não era amor? Amor não precisava ser pautado em um sentimento que corrói, que bagunça tudo o que esta a volta, que torna tudo tão intenso e ao mesmo tempo tão confuso.
Marina foi embora um pouco antes das dez, e Olívia aproveitou que estava sozinha em casa, para escrever um pouco. Fazia mais de uma semana que não se dedicava ao seu livro, mas não foi este o arquivo que abriu ao sentar-se de frente para o computador. Vinha escrevendo uma outra historia, um romance que começara a se desenrolar em sua mente algumas semanas antes, quando após sair do banho, sentou-se sozinha em seu escritório e começou a escrever.
Era uma historia de amor, melosa demais para seus próprios parâmetros, mas decidiu por não se censurar. E depois da conversa que tivera com Nina, algumas questões voltaram a ficar em aberto. A historia narrava a trajetória de um casal, começando pela maturidade, e voltando ao tempo em que se conheceram. Era um conceito de tempo que Olívia sempre gostara, mas que nunca tinha conseguido colocar no papel. Escrevia sem uma linha de tempo concreta, o momento que surgia em sua mente, era ao qual se dedicava, não impondo uma ordem ‘correta’ aos acontecimentos.
Estava perdida em seu universo paralelo, que era para onde ia quando escrevia, quando percebeu alguém parado a porta. Emilia sorria para ela docemente.
- Pode continuar. Você fica sexy concentrada assim. – A ruiva falou sedutora.
- Hum, se é assim. – Olívia se virou de volta para o computador e fingiu estar concentrada no trabalho.
- Assim é até maldade, gostosa. – Emilia andou até ela, abraçando-a por trás e beijando-lhe a nuca. – Senti falta do seu cheiro. – A voz sussurrada em seu ouvido, deixou Olívia excitada na hora.
- Também senti sua falta, minha linda. – Olívia puxou-a para o seu colo, e beijou-lhe os lábios. – Como foi a sessão de fotos?
- Cansativa, mas proveitosa. – Emilia começou a acariciar o pescoço branquinho dela. – E o seu dia, como foi?
- Foi bom. – Olívia começava a perder a concentração. – A Nina voltou de viagem e nós passamos o dia colocando a conversa em dia.
- Mesmo? Que bom. Estou com saudade dela. – Emilia passou a mão por de baixo da blusa de Olívia e tocou os seios dela. – Temos que marcar uma reunião logo.
- Ahã. – Foi só o que Olívia foi capaz de responder. Ela puxou o rosto de Emilia de encontro ao seu, segurando-a pela nuca. – Você é deliciosa. – Disse com a voz rouca, antes de tomar os lábios rosados com os seus.
O sexo foi diferente aquela noite. Olívia se dedicou a olhar para Emilia, prestando atenção em cada expressão do seu rosto, cada movimento involuntário do corpo, fazendo amor com calma e uma devoção carinhosa.
Emilia dormiu em seus braços quase que imediatamente, e Olívia ainda passou um longo tempo a admirá-la. O sentimento confortante de tê-la em seus braços, não parecia bastar, e uma angustia crescente a levava a querer escapar.
Deixou a cama tomando cuidado para não acordar a namorada, e foi para a pequena varanda tomar um ar. Esta era a parte que ela mais gostava naquele apartamento, a varanda. Abriu uma garrafa de vinho, serviu uma taça, e sentou-se na varanda sentindo o vento frio da noite.
Queria ser capaz de absorver a calma da brisa noturna na primavera. O cheiro das arvores era um calmante natural para a turbulência que sentia, queria começar dentro do seu peito. Lembrou-se de uma noite como aquela alguns anos atrás. Ela e Joana estavam separadas há duas semanas, e Olívia estava refugiada na casa da tia Gigi desde então.
“O sol se punha por de trás da montanha, e uma adolescente, vestindo calças de moleton e um casaco grande de mais, se encontrava sentada nos degraus da varanda assistindo ao espetáculo do sol a se esconder no horizonte.
Já fazia dias que Olívia nem ao menos saía de casa. Passava horas deitada sobre o colchão do quarto que ocupava na casa da tia. Mal se alimentava, mal falava, a única coisa que usava para se distrair, eram os livros da biblioteca da tia. Já finalizara dois romances de Machado de Assis, lera Jorge Amado, o que lhe tirara do sério, e se encantara por Zélia Gattai. Agora se entregava, não sem alguma dificuldade, aos “Cem anos de Solidão”, do Gabriel Garcia Marquez.
Pode ouvir os passos tímidos da tia ao se aproximar vindo da sala. Tia Gigi vinha sendo ainda mais incrível do que Olívia poderia esperar. Em nenhum momento perguntou o que acontecia, mesmo quando a garota aparecera na porta da casa dela com uma mochila nas costas, alegando que havia fugido de casa porque seus pais descobriram que ela gostava de meninas, e nem mesmo, quando em uma tarde como aquela, ela aparecera com os olhos inchados e se trancara no quarto. O máximo que fazia era insistir que Olívia comesse alguma coisa durante o dia.
- Vai chover amanhã. – A tia disse a suas costas. – Sente o cheiro?
Olívia respirou fundo, e sentiu o cheiro forte da grama que se estendia como um imenso tapete a sua frente.
- Eu fiz um bolo de laranja. Aproveita enquanto está quentinho. – a tia lhe estendeu um prato com um pedaço de bolo. Olívia o aceitou lhe oferecendo um sorriso tímido. Era o primeiro em muitos dias. – Isso vai passar minha querida. – Tia Gigi disse docemente.
Sentando-se ao lado da sobrinha, voltou a ficar em silencio, fitando o mesmo céu que se tingia de vermelho. Após alguns minutos, Olívia enfim mordeu um pedaço do bolo e suspirou.
- Eu vou precisar de uma carona amanhã. – A tia apenas confirmou com a cabeça sem olhar para ela. – Tenho uma prova no colégio.
- Claro minha querida. – Tia Gigi afagou-lhe o braço.
Olívia sentiu uma lagrima teimosa tentando descer pelos seus olhos, e a espantou antes que outras a seguissem. Já não sentia mais necessidade de chorar. Não que a dor tivesse diminuído, pois não tinha, mas vinha sentindo-se mais forte nos últimos dias. Sabia que não seria fácil voltar à antiga rotina, mas passaria por seu ultimo ano na escola antes de poder ir embora da cidade. Não falara com os pais desde que tudo acontecera, mas sabia que eles não se negariam a pagar pelo restante da sua educação, e depois disso, poderia deixar tudo pra trás.
Deu um beijo na tia antes de se erguer. Desceu os degraus restantes e saiu andando pelo jardim. A brisa leve da noite que caía, a acalentava. Sentia-se sob controle de seu corpo novamente. Podia sentir a mente mais clara. Talvez a raiva que passara a nutrir, a estivesse impulsionando, mas não importava. Se isto a levasse a seguir adiante, se alimentaria dela.
Olhou para o céu escuro e quase sem estrelas, e sentiu que a anestesia já não tinha mais efeito. Sentia a dor que seu peito carregava, mas era capaz de identificá-la e guardá-la dentro de si. Era uma pessoa bem diferente daquela que há vinte dias estava disposta a enfrentar o mundo pelo seu amor por Joana. O enfrentaria agora, por si mesma. E por menos nobres que pudessem ser suas motivações, elas voltaram a existir, e isso bastava, pelo menos naquele momento, bastava.”
De volta a sua realidade, Olívia serviu-se de um pouco mais de vinho. Já não era mais aquela adolescente conturbada, não poderia se esconder dos seus problemas como fizera antes. Sentia-se inquieta, e lembrou-se de uma frase de Érico Veríssimo: “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.” Eram os ventos da mudança, podia sentir. Havia mudado a sua vida tantas vezes, que já não lembrava como chegara até ali. O fato era, eles sopravam mais uma vez, e ela queria ser aquela que construía os moinhos de vento. Era tempo de dar um novo rumo a sua vida, ainda que isso causasse sofrimento, não somente a ela, mas a outros.
Terminou o seu vinho, fechou a porta que dava acesso a varanda, e pensou em ir deitar ao lado de Emilia, mas ao passar pelo escritório, decidiu entrar e escrever. Antes que seus dedos tocassem o teclado, abriu a gaveta da sua escrivaninha, e do fundo pegou um livro, onde dentro guardava antigas fotos, dentre elas, algumas dela e de Joana quando jovens. Elas sorriam das fotografias, e Olívia sorriu de volta. Quando no passado, as coisas tomam novas proporções, tomam novas dimensões, por isso ao passado pertencem e lá devem permanecer. Voltou a guardar o livro na gaveta, e encarou o seu presente, o texto ao qual vinha se dedicando e que a cada momento tomava contornos mais interessantes para ela.
Capítulo 17 - Um amor incondicional
Novembro chegou, e com ele um calor insuportável se abateu sobre a cidade maravilhosa. O verão se anunciava nos dias mais longos e no vapor que saía do asfalto ao meio dia.
Olívia detestava o verão. Mesmo vivendo no Rio de Janeiro toda a sua vida adulta, ainda se pegava sonhando com um clima mais ameno, e invernos mais longos. Sorriu para o ar condicionado do seu escritório no apartamento do Flamengo sem muito entusiasmo. Agradecia pelo frescor que ele possibilitava, quando o mundo lá fora parecia pegar fogo, mesmo que não gostasse do ar artificial. Gostaria de poder abrir as janelas e sentir uma brisa refrescante, ao invés do clima frio que se fazia completamente parado ali dentro.
Ouviu a campainha, e deixou a cadeira, que por mais confortável que fosse, estava matando a sua coluna pelas horas que passara ali sentada. Ao abrir a porta, o mormaço que tomava conta do restante da casa, a aqueceu, e ela fechou a cara.
- Eu preciso da sua ajuda. – foi o cumprimento que recebeu de Marcinha assim que abriu a porta. Ela passou por Olívia com sacolas penduradas nos braços pequenos, e o cabelo cheio, domado em um coque no alto da cabeça.
- Oi pra você também. – Olívia disse emburrada, tratando de fechar a porta atrás de si.
- Oi cunhadinha. – A outra lhe abriu um sorriso tenso. – Eu estou pirando.
Olívia sorriu. Marcinha vinha pirando há quase um mês, e tudo por conta da festa de casamento. Ela e Guto, que até então estavam decididos a fazer uma cerimônia simples, haviam sido persuadidos pelos pais de ambos, a darem uma grande festa em comemoração, com direito a casamento na Igreja Matriz de Teresópolis e recepção no clube Caiçaras, o maior da cidade.
- Minha mãe agora quer colocar uma fonte no meio do jardim de inverno do clube. – Reclamou. – E a sua mãe, quer enfeitar o salão todo com rosas. Como se eu gostasse de rosas. – Resmungou.
Olívia não conteve o riso.
- Se você disser: “Eu te avisei”, eu corto relações. – Marcinha atirou uma almofada na cunhada.
- Eu não vou dizer nada. – Olívia tentou conter o riso. – Mas o que você queria Marcinha? Honestamente? Você realmente achou que elas não fossem se meter no casamento de vocês? E de verdade, minha mãe está me surpreendendo. Ela nunca foi do tipo materna, mas esse casamento mexeu com ela.
- E eu não sei? Ela liga para o Guto quase todos os dias. – Marcinha falou desanimada. – Eu não sei o que fazer...
- Relaxa. – Este comentário lhe rendeu um olhar fulminante da cunhada. – É serio. Deixa as duas planejarem o casamento dos sonhos pra vocês. Você é filha única, então a sua mãe deve estar nas nuvens, e a minha, bom a minha mãe nunca pensou em planejar um casamento pra mim, então está se realizando através de você. Desculpa. – Olívia sorriu.
- Eu queria algo simples. – Marcinha sentou no sofá, no que Olívia a acompanhou. – Talvez um lual.
- Bastante hippie da sua parte. – Olívia comentou rindo.
- Você está se divertindo demais com isso, não esta?! – Marcinha a olhou enfurecida.
- Só um pouquinho. – Olívia riu. – Marcinha, você e o Guto vão se casar, isso é o que importa. Como, onde, isso é o de menos.
- Talvez seja o de menos, mas será que nem no meu próprio casamento eu posso dar opinião?
- Claro que pode. Mas pra isso, você precisa se impor.
- Eu sei. Mas aquelas duas separadas já são difíceis, juntas então...
- Desculpa linda. Adoraria poder ajudar, mas está fora do meu alcance.
- Na verdade você pode. – Marcinha fez cara de culpada.
- Como assim? – Olívia perguntou desconfiada.
- Sua mãe está vindo para o Rio neste final de semana e pediu para jantar com todos nós. Ela inclusive pediu que seu irmão te chamasse.
- Não mesmo. – Olívia deixou o sofá.
- Por favor, Olie. Se ela pediu pra te convidar, é porque ela realmente quer te ver.
- Nem começa Marcinha. Eu já vou ao casamento, e essa, é a minha parte nisso. – Olívia disse concluindo o assunto.
- Por favor. – Marcinha pediu mais uma vez.
- Não. – Olívia disse. – E nada do que você disser vai mudar a minha decisão.
Marcinha foi embora desapontada, mas isso não encerrou o assunto. À noite, foi a vez de Guto aparecer no apartamento sem avisar. Olívia estava deitada no quarto com Emilia assistindo a um filme, quando a campainha soou.
Emilia levantou depositando um beijo nos lábios da namorada e em menos de um minuto voltou acompanhada de Guto.
- Mano, por melhor que seja te ver, não precisa nem começar. Eu não vou. – Olívia disse assim que o viu entrar.
- Ah, vai sim. – Guto falou decidido.
- E quem vai me obrigar? – O desafiou.
- Olívia, eu não te peço muitas coisas...
- Ah, pede sim. – Ela o interrompeu.
- Isso é serio, ok? – Guto sentou ao lado dela na cama. – Eu não pediria pra você falar novamente com a mamãe se eu de fato não acreditasse que ela esta tentando.
Olívia emburrou, mas não revidou, dando a chance que Guto precisava para convencê-la.
- Ela pergunta por você sempre que me liga. Não é a primeira vez que ela pede para que eu marque alguma coisa para vocês se verem. – Guto tocou a perna dela, fazendo-a olhar para ele. – Por favor. Isso não é sobre o casamento, apesar de está ser a desculpa, isso é sobre nós como família. Faz isso por mim. Dá uma chance de a mamãe tentar ao menos.
Os dois se encararam por alguns instantes, e Emilia permaneceu parada a um canto para não interromper. Enfim, Olívia sinalizou com a cabeça que aceitava o convite do almoço.
- Obrigado. – Guto disse e abraçou.
- Mas isso não quer dizer que ela tem permissão de se intrometer na minha vida. – Olívia deixou claro.
- Claro que não. – Guto confirmou.
- E eu vou levar a Emilia. – Olhou para a namorada. – E se ela tiver qualquer problema quanto a isso, o acordo está desfeito.
- Sem problemas. – Guto sorriu. – Eu disse a ela que você estava vivendo com a Emilia. Ela também foi convidada.
- Ok. – Olívia disse, achando aquilo tudo muito estranho. – Quando e onde?
- Sábado à noite, na minha casa.
- Ok. – Olívia falou já sentindo as borboletas ganharem vida em seu estomago. Não via a mãe há muitos anos, e os últimos encontros foram, de forma geral, conturbados.
- Eu tenho que ir. A Marcinha está me esperando lá embaixo.
- Por que ela não subiu? – Emilia quis saber.
- Ela está com medo da Olie. – Ele respondeu com um sorriso.
- Amor! O que você fez com ela? – Emilia perguntou.
- Nada. – Olívia fingiu inocência. – Ela que se assusta com facilidade.
- Sei. – Guto disse com um sorriso. – É só porque ela ainda não aprendeu a lidar com esse seu ladinho revoltado.
Guto deu um beijo na irmã e na cunhada e foi embora. Quando Emilia voltou para o quarto, encontrou Olívia sentada olhando para o nada.
- O que foi minha linda? – Emilia a abraçou.
- Nada. Só essa historia de jantar com a minha mãe que não me desse muito bem. – Olívia a abraçou de volta. – Mas com você lá, eu vou ficar bem.
- Vai mesmo. – Emilia beijou a bochecha dela. – Se ela de alguma forma te atacar, eu viro uma leoa. Não tenho medo de sogras. – Fingiu-se de valente.
- É por isso que eu te amo. – Olívia sorriu e a puxou para sentar em seu colo. – Posso ser domadora de leões então? – Falou provocante.
- Só se for agora. – Emilia a beijou com voracidade.
No sábado pela manhã, Olívia levantou cedo da cama, o que era um milagre, até porque tinha ficado escrevendo até mais tarde, já que Emilia vinha trabalhado em um projeto que levou toda a noite e a madrugada também. Já passava das cinco da manhã, quando as duas foram deitar.
Deixou Emilia dormindo, e foi tomar um banho. Não podia negar que estava ansiosa pelo jantar àquela noite. Queria agir de forma casual, mas não vinha obtendo grande sucesso. A todo o momento lhe abatia uma apreensão e ansiedade, que tinha dificuldade em lidar.
Preparou um café da manhã completo, e levou ao quarto. Posicionou a bandeja sobre a mesinha de cabeceira, e deitou sobre o corpo nu da namorada. Cobriu seu rosto com beijos longos e delicados, sentindo-a despertar aos poucos. Sem nem mesmo abrir os olhos, o corpo de Emilia começou a responder ao seu. Ela se prendeu a Olívia, e fazia movimentos lentos, mas ritmados, sob o corpo dela.
- Bom dia. – Olívia falou baixinho no ouvido dela, antes de tomar o lóbulo direito de Emilia entre seus lábios, revezando entre beijos molhados e pequenas mordidas, fazendo com que a pele da outra se arrepiasse.
- Me acordar assim é até covardia. – Emilia gemeu, virando-se para ficar cara a cara com sua mulher. – Que horas são?
- Dez. – Olívia respondeu com cara de culpa. – Desculpa, não queria ficar sozinha, e me deu uma saudade de te beijar... – falou sedutora, já tomando os lábios rosados entre os seus, passando a língua de leve por sobre eles.
- Eu só não vou brigar com você, porque isso está gostoso demais. – Emilia sorriu e a beijou longamente, deslizando as mãos por de baixo da camiseta de Olívia.
Olívia soltou um suspiro satisfeito, antes de avançar sobre o colo de Emilia, lhe ajudando a se despir.
- Quero você dentro de mim. – Emilia ofegou quando Olívia a tocou entre as pernas.
Com um cuidado carinhoso, Olívia a penetrou com um dedo, e começou um movimento circular, que foi aumentando gradativamente, de acordo com os gemidos e suspiros de Emilia.
Fizeram amor por algumas horas, de jeito calmo, harmonioso, repleto de carinho e suspiros. Cada vez que se amavam, Olívia tinha uma confirmação que lhe tirava o sono. Ainda desejava outro corpo junto ao dela. Por mais que tivesse uma sintonia quase perfeita com Emilia, não era a perfeição. Não era o casamento explosivo entre dois corpos. Isto, ela só sentira uma vez, e a perspectiva de nunca mais ser capaz de se sentir assim com alguém, era frustrante.
Passou horas tentando escrever sem conseguir se concentrar, fechou todos os arquivos que mantinha aberto, e desligou o computador.
Uma hora antes do previsto para deixar o apartamento, já estava arrumada. Teve que rir de si própria e do seu nervosismo. Parecia até que estava se produzindo para um encontro amoroso. Como todas as tentativas que fizera para se acalmar, não haviam produzido qualquer efeito, decidiu partir para o mais lógico e básico, uma dose de tequila, e uma cerveja gelada. Não era a sua intenção chegar ao jantar embriagada, mas também não pretendia passar por aquela experiência, completamente sóbria.
Emilia chegou a casa, e foi deixando tudo pelo caminho, bolsa, pasta, maleta, chaves.
- Desculpa, desculpa, desculpa! – Foi gritando para Olívia, enquanto se despia e ligava o chuveiro. – A reunião demorou mais do que o esperado, mas eu juro que vou ser rápida.
Assim que deixou o banheiro, encontrou Olívia sentada à beira da cama, com uma garrafa de cerveja na mão, a expressão fechada.
- Amor, me perdoa. – Emilia falou doce, roubando um beijo da namorada.
- Esta tudo bem, Em. – Ela disse baixinho, retribuindo o carinho.
- Mesmo? Porque você não me parece bem.
- É besteira. – Olívia tentou desconversar.
- Fala amor. – Emilia começou a se vestir, mas sem deixar de prestar atenção em Olívia.
- É estranho saber que vou encontrar com a minha mãe. – Confessou. – Eu não sei como vou me portar. Me sinto com dezesseis anos novamente.
Emilia sorriu condescendente, e caminhou até ela. Afagou-lhe os cabelos, que mesmo longos, se mantinham desarrumados, e tomou uma de suas mãos entre as suas.
- Li. – Fez com que Olívia a encarasse, puxando seu rosto para cima com delicadeza. – Você não tem mais dezesseis anos. Você é uma mulher adulta, bem sucedida e livre. Eu sei que sempre importa o que nossos pais pensam da gente e que passamos a vida toda em busca da aprovação deles, e sim, eu estudei psicologia, - se interrompeu sorrindo. - mas você abriu mão disso há muito tempo. E mesmo que se sinta insegura, saiba que não deveria. – Acariciou o rosto da namorada. – Você é uma mulher incrível, admirável, generosa, talentosa, linda... e muito, muito amada. Não só por mim, mas por todos que te cercam. E acredite, todos nós temos muito orgulho de você. – a beijou.
- Obrigada minha linda. – Olívia a fitou emocionada. – Eu estava precisando disso. Mesmo que você tenha exagerado um pouco. – Um sorriso tímido, mas um pouco mais aliviado, brotou em seu rosto. – Eu te amo, sabia? – disse docemente, arrancando um sorriso enorme dos lábios de Emilia.
- Eu sei, mas é sempre bom ouvir. – Emilia respondeu, e mesmo sabendo que não fora intencional, Olívia sentiu uma pitada de amargura no tom que ela usou. – E eu amo você.
Beijaram-se longamente. Os lábios de Emilia lhe traziam conforto, segurança. A confiança em saber que era amada, era algo com o qual Olívia nunca se acostumaria. Mesmo que acreditasse ser uma mulher resolvida, algumas coisas marcam para sempre, e deste medo, ela só se veria livre no dia em que fechasse os olhos, e confiasse plenamente a sua vida e o seu coração novamente a alguém. Este ainda não era o caso ali.
Chegaram à casa de Guto e Marcinha por volta das oito e meia da noite. Olívia respirava com dificuldade, e Emilia lhe estendeu a mão ao saírem do carro. De mãos dadas se dirigiram a portaria do prédio. Milhares de imagens passavam pela mente de Olívia, mas nenhuma ficava tempo o bastante para ela se prender. Lembrou-se de momentos da infância em que a mãe costumava fazer bolo de chocolate nas tardes chuvosas e sentava com os filhos sobre o chão da sala para comê-lo. As idas a cachoeira nos finais de semana, enquanto seus pais ainda eram casados. Lembrou-se de quando teve catapora, e a mãe não deixou a cabeceira da sua cama um só segundo, lhe fazendo carinho e lhe trazendo sopa.
Nem todas as lembranças eram positivas, mas haviam muitas delas. Subiam pelo elevador, quando a lembrança mais dolorosa que tinha da mãe, lhe atingiu como uma bola de canhão no centro do peito, como se tivesse acertado o alvo certo. A decepção com que encarou os olhos verdes de Olívia na noite em que descobriu que a filha era lésbica e mantinha um caso com uma colega da escola, ainda lhe queimava.
“Quem poderia imaginar que em uma tarde ensolarada como aquela, o mundo de duas jovens, vivendo os dias mais felizes de suas vidas, iria ruir estrondosamente? Não aquelas almas apaixonadas, que devotavam sorrisos e cari]ícias entre palavras de amor eterno.
Quanto dura a eternidade? Qual a sua dimensão exata? Estas eram apenas algumas das questões que Olívia carregava, com passos lentos e sofridos, em sua volta para a casa.
A imagem dos olhos de Paulo, irmão mais velho de Joana, parado junto a porta do quarto ao flagrá-las seminuas sobre a cama, com seus corpos envolvidos, fundidos no ato sagrado do amor, iria atormentar as suas noites de sono, por muitos anos.
Não adiantou negar, nem o choro compulsivo de Joana sensibilizara o irmão, que logo se dirigiu aos pais, contando com detalhes tudo o que havia visto. Olívia quis ficar ao lado da namorada. Quis defendê-la da dor que sabia, ela agora agonizava. Argumentou, fingindo uma coragem que de fato não possuía, ouviu os insultos destinados principalmente a ela, com firmeza aparente, ainda que por dentro, pudesse sentir o coração descompassado e o tremor que seu corpo não era capaz de controlar.
Fora escorraçada da forma mais humilhante que pudesse imaginar. Chutada como um cão sarnento, sob juras de morte, e palavras de ódio, pelo pai da mulher amada. Não julgou a inércia de Joana, apesar de tê-la machucado, entendia a situação em que esta se encontrava, e se compadecia.
Mas somente ao abrir a porta da frente do seu apartamento, foi que teve real dimensão do acontecido. A um canto, sua mãe chorava compulsivamente, enquanto seu pai, que desde a separação, evitava estar no mesmo ambiente em que a ex-mulher, andava de um lado a outro, com uma raiva reprimida, capaz de ser sentida por qualquer um que estivesse a raios de distancia.
Sem saber como agir, sem ter idéia do que eles sabiam, apesar das ameaças claras de sua sogra de que contaria aos seus pais o acontecido, não sabia se ainda tinha forças para aquela luta, havia extinguido toda a sua coragem na casa da namorada. Sentia-se anestesiada até.
O que aconteceu a seguir, ainda era um borrão na mente de Olívia. Não tinha certeza de qual dos dois notara a sua presença primeiro, mas o olhar da sua mãe, ao cruzar com o seu, era a lembrança mais forte que tinha daquele momento. Decepção e nojo? Não saberia precisar. Mas não era nem de perto, o olhar que estava acostumada a receber de sua progenitora.
Seu pai a alcançou antes que se desse conta, e apertando seus braços finos com suas mãos grandes, lhe forçou a olhar para seus olhos. Ódio e incompreensão. Uma dor forte atravessou seu peito, ainda que não demonstrasse, foi capaz de sentir.
- É verdade? – Seu pai perguntou entre dentes, a sacudindo com força.
Olívia nada respondeu, sentia o choro que teimava em forçar passagem por seu peito e garganta, e que ela inutilmente esforçava-se para segurar. Travou uma batalha com o olhar raivoso do pai, tentando reconhecer qualquer vestígio do olhar amoroso que ele por vezes lhe dedicara. Foi o soluço de sua mãe que a despertou, e pode tomar consciência do seu corpo tremulo e da dor que sentia nos braços onde o pai ainda a segurava.
- Me diz que é mentira! – Seu pai pediu. – Diz que a minha filha não anda fazendo essas nojeiras por aí.
Com a ultima frase do pai, lhe subiu o ódio. Como alguém poderia julgar o seu sentimento por Joana, como nojeira? O encarou e desafiou com o olhar. Esquecendo-se da dor no braço, da angustia por sua amada, da decepção da mãe, do ódio do pai e do quão maior que ela, ele era, e respondeu com a voz tremula, mas não mais pelo choro, pela raiva.
- Não é mentira. Joana é minha namorada. – o enfrentou.
- Mentira! - Seu pai gritou, e com um movimento rápido, que Olívia, apesar da obviedade, não previu, um forte tapa que ele desferiu em seu rosto, fazendo-a cambalear e cair sentada no chão junto a porta.
Otavio Gurgel se assustou com o próprio ato, mas não ajudou a filha a se levantar, apenas se afastou sentindo culpa em meio à raiva. Olívia olhou timidamente para a mãe, e viu que ela escondia o rosto entre as mãos. Na verdade não podia esperar muito mais dela, apesar de ansiar por seu abraço.
Ergueu-se lentamente, e saiu andando em direção ao corredor. Assim que o atingiu, correu para o seu quarto, e antes de sequer pensar, começou a recolher seus pertences. Preparou uma mochila com algumas roupas e objetos pessoais, que incluíam seus diários, uma foto sua com Joana que mantinha dentro da gaveta de calcinhas, e algumas fitas k7 com suas musicas prediletas gravadas. Saiu pela porta da cozinha e esta foi a ultima vez que ali pisou.
Nos próximos meses viria a morar com a tia. Mesmo tendo voltado a ter relação com os pais gradativamente, nunca mais voltou a morar com nenhum deles. O que havia se quebrado ali aquela noite, nunca mais pode ser reconstruído. Eles passaram a ignorar a ‘condição’ da filha, e ela decidiu fingir que não se importava com o que eles pensavam.”
O elevador parou no quarto andar, e Emilia a tirou de seus pensamentos com um afago na mão que ela ainda segurava. Lhe dirigiu um sorriso inseguro e abriu a porta do elevador.
A distância que a separava do apartamento do irmão, foi vencida lentamente, e ainda assim, não lenta o bastante para acalmar seu coração. A adulta e a adolescente nela, ainda brigavam por espaço. E a mulher que ela havia se tornado, estava levando uma surra.
- Vai dar tudo certo. – Emilia sussurrou em seu ouvido antes de tocar a campainha. – Respira.
Olívia apenas confirmou que a ouvia com um menear de cabeça. Encarou a porta, que logo foi escancarada por sua cunhada, que sorria abertamente e puxou-a para um abraço apertado.
- Que bom que vocês chegaram. – Falou sincera. – E bem na hora, o jantar está quase pronto.
Ao fundo, Olívia avistou o irmão, e em seguida a mãe. Seu coração entrou em descompasso, e apertando ainda mais a mão da namorada na sua, entrou na casa.
Os passos que a levaram até a mulher que ela tanto amava, e a quem devia o fato de estar viva, foram incertos e temerosos. Fitou-a longamente antes, vendo em seu olhar a mesma apreensão e saudade que sentia.
- Minha filha. – Raquel deu o primeiro passo em sua direção, e tomou-a em seus braços. Olívia hesitou por um instante, antes de se entregar por inteiro aquele contato. Sentiu vontade de chorar, mas se conteve.
- Mãe. – Disse simplesmente, ainda abraçada a ela.
Ao desfazerem o abraço, não se separaram por completo. Olhavam-se, com sorrisos bobos dançando no rosto, e esperando que naquele momento, isso bastasse. A necessidade de palavras, já não existia, o que dizer afinal? Nada mudaria o que passou, nem para o bem, nem para o mal.
- Vamos jantar. – Guto chamou, e assim que Olívia e a mãe se soltaram, puxou a irmã para seus braços. – Estou imensamente feliz que você tenha vindo.
- Eu também. – Respondeu sinceramente, e ainda abraçados, os dois seguiram para a mesa de jantar que Marcinha prepara a um canto da sala.
O apartamento deles, apesar de pequeno, era extremamente aconchegante. Os moveis díspares, os quadros na parede que não seguiam uma lógica premeditada, assim como os panos que cobriam o sofá antigo, davam um charme especial a casa.
O jantar transcorreu de forma tranqüila. Falavam de amenidades, e aos poucos Olívia começou a relaxar, ou talvez fosse o vinho que começava a fazer efeito. O que importava é que cada vez mais conseguia participar da conversa sendo ela mesma, ou ao menos uma versão próxima do que ela acreditava ser.
Emilia fora extremamente simpática o tempo todo, e como acontecera com todos os seus amigos, logo ela parecia também conseguir conquistar a sua mãe. O clima leve parecia irreal em meio a tanta magoa passada, mas não poderia ser melhor.
Após todos terminarem de comer e esvaziar as taças de vinho, Marcinha deixou a mesa para buscar a sobremesa, e Olívia aproveitou a deixa para ir até a área de serviço fumar, único local onde isto era permitido na casa.
Ascendeu o cigarro, e tragou profundamente sentindo o efeito imediato que ele produzia. Estava tão concentrada no ato de fumar após mais de uma hora sentindo a abstinência da nicotina em momentos de tensão, que nem percebeu que outra pessoa se juntara a ela.
- Você ainda fuma? – Raquel perguntou sem qualquer repreenda, ascendendo o próprio cigarro.
- Assim como você. – Olívia respondeu com um sorriso no canto dos lábios.
- Sim. Algumas coisas não mudaram, não é? – Sua mãe a encarou profundamente.
- Poucas. – Olívia rebateu.
- Poucas. – Raquel suspirou, dando outro trago no cigarro. – Você está ainda mais bonita. Se é que isso é possível. – Disse emocionada.
Olívia não soube o que responder. Algo se moveu em seu peito, e uma vontade quase infantil de ser acolhida no colo materno, a inundou. A amava profundamente, e nem mesmo os desentendimentos, a distancia e a magoa passada, eram capazes de mudar este sentimento.
- Eu sinto tanto, filha. Por tudo. – Uma lagrima desceu pelo rosto claro da mulher. – Eu odeio não fazer parte da sua vida, apesar de saber que a culpa por isso é inteiramente minha. – Confessou. – E sei também que é tarde demais para arrependimentos. – Disse triste, o que parecia ser um discurso há muito ensaiado.
- Mãe... – Olívia disse com o coração na mão. Não queria fazê-la sofrer. Lhe doía profundamente causar qualquer dor que fosse a sua mãe. – Isso é passado.
- Eu sei. Eu sei. – Raquel forçou um sorriso. – Estou ficando velha, isso sim.
- Jamais. Você continua linda dona Raquel. – Olívia lhe sorriu. – E não é tarde. Estamos as duas aqui, não estamos?
Olívia percebeu que apesar de toda a dor que carregava no peito por todos os anos de distancia, e a rejeição que lhe fizera tanto mal por tanto tempo, eram pequenas perto da oportunidade de estar com sua mãe novamente.
Raquel se aproximou timidamente e abraçou a filha. Ficaram assim por longos minutos, matando uma saudade que não cabia em palavras, que não poderia nunca ser medida, ou quantificada, apenas existia, e começava enfim a ser sanada.
- Eu te amo tanto minha filha. – Raquel confidenciou ao ouvido da filha.
- Eu também te amo mãe. Mais do que você pode imaginar. – Olívia respondeu sentindo as lagrimas deixarem seus olhos. Mas estas, estas eram lagrimas de felicidade, tão diferentes das ultimas dedicadas aquela mulher.
- Sua namorada é linda. Além de ser extremamente simpática. – Raquel disse com um sorriso no rosto, ao se separar da filha.
- A Emilia é muito especial mesmo. – Olívia disse com um sorriso, sabendo que aquela era a forma que a mãe havia encontrado de lhe dizer que aceitava a homossexualidade da filha, e percebeu também o quanto esperou por isso.
Voltaram para a sala, onde os outros três conversavam animadamente. Raquel sentou no sofá ao lado de Guto, e reivindicou que Olívia se juntasse a eles. A mulher e a adolescente dentro dela, fizeram enfim as pazes, satisfeitas por igual com aquele momento de felicidade plena.
Na volta para a casa, Olívia sentia o coração mais leve do que sentira em anos. Sabia que aquele tinha sido apenas o primeiro passo, mas ele havia sido dado. Um aperto em seu peito lhe indicou que para tornar aquele momento perfeito, faltava uma coisa, algo que não havia identificado em principio, mas que logo tornou-se claro. Queria dividi-lo com Joana. Não pensava nela há muito tempo, ou ao menos vinha conseguindo se policiar quanto a isso, e a saudade que sentiu lhe apertou o coração.
Sabia que milhares de pessoas eram capazes de compreender o que ela sentia naquele momento. Certamente Marina vibraria com ela, assim que compartilhasse aquele sentimento com a amiga. A própria Emilia a brindava com um olhar orgulhoso, ao mesmo tempo que terno. Mas ninguém, ninguém era capaz de medir o que aquilo significava para ela, quanto a sua companheira adolescente. Alguém que vira de perto o seu sofrimento, que a segurara em seus braços e secara as suas lágrimas. É claro que isto antes de dar a facada final em seu coração já machucado. Por mais incrível que pudesse parecer, isso não parecia importar naquele momento.
“O dia seguinte, logo após os pais tanto dela, quanto de Joana descobrirem sobre o envolvimento das duas, foi um dos mais difíceis para elas. Não conseguiam se falar, ou mesmo se ver. E o medo e a angustia que sentiam, pareciam que nunca teriam fim.
Fora Joana quem escapara da sua “prisão domiciliar”, para ir ao encontro da namorada na casa da Tia Gigi, onde Guto lhe confidenciara que Olívia estava após a briga com os pais. O menino Gugu daquela época, não fazia idéia do ocorrido. Sabia apenas que a irmã havia brigado com os pais e saído de casa, sem entender de fato as razões que a levaram a isso.
A morena batera a porta da casa que por tantas vezes as abrigara, com o coração acelerado, um medo latente em seu peito, e a saudade ainda maior. Precisava ter certeza de que Olívia estava bem.
Tia Gigi apareceu à porta, e lhe sorriu docemente, aliviando um pouco da pressão que a menina sentia. Ou ela não sabia de nada, ou mais provavelmente, sabia, e aceitava. Isto era algo novo para ela.
- A Olie está aqui? – Perguntou gaguejando, esfregando uma mão na outra, ansiosa.
- Está sim Jo. – Tia Gigi lhe sorriu. – Ela está no quarto. – E abriu passagem para a menina entrar. – Acho que fará bem a ela te ver. – Completou, no que Joana apenas aquiesceu. Não tinha tanta certeza quanto a isso. Sabia que a magoara não partindo em sua defesa no dia anterior, e sentia o peito se rasgar por causa disso.
Andou lentamente até a porta do quarto. Toda a pressa em chegar, a ansiedade em vê-la, se esvaindo do seu corpo, quando outro sentimento se tornava predominante. O medo da rejeição.
Bateu a porta, e entrou. Avistou Olívia deitada de costas na cama, e com a cabeça virada na direção oposta, como se olhasse para o nada. Respirou fundo, fechou a porta às suas costas, e caminhou em direção a cama.
Nada disse. Tirou os tênis, e subiu na colcha colorida, deitando-se ao lado dela sem tocá-la. Por um tempo, foi tudo o que fizeram, até que Olívia se virou em sua direção, os olhos marejados do choro que a acompanhara por toda a noite, e se fitaram, se perdendo longamente uma nos olhos da outra.
As lagrimas silenciosas, eram as únicas companheiras delas naquele momento. Era difícil compreender como haviam chegado até ali. No dia anterior, estavam se amando como se o mundo a volta delas simplesmente não existisse. Eram apenas dois corações apaixonados se entregando de corpo e alma ao amor. E agora, pareciam duas estranhas. Como se uma vida inteira tivesse se passado em menos de vinte e quatro horas.
Olívia foi a primeira a quebrar aquele dialogo silencioso. Esticou o braço em direção a sua amada, e tocou-lhe o rosto. Joana suspirou e fechou os olhos. A delicadeza do gesto, a emocionando. Se moveu em direção a Olívia, e nela se agarrou. Um abraço sufocado, apreensivo, e ao mesmo tempo, completamente entregue.
Ficaram deitadas, abraçadas, unidas, com medo de proferirem qualquer palavra que as trouxesse de volta a realidade difícil em que estavam inseridas. Se refugiavam mais uma vez, ao pequeno conto de fadas em que viviam. Se permitiram esquecer por algumas horas, que o mundo lá fora desabava sobre as suas cabeças.
O beijo, desejo de ambas, aconteceu naturalmente, sem pressa, apenas com devoção. Um pedido de desculpa, um “sinto muito”, um medo compartilhado, um desejo dividido. Se amavam e não restava duvidas, mas até que ponto?
Segurando Joana, com as duas mãos em seus quadris, Olívia a puxou para cima dela, e aprofundou o beijo. O movimento dos corpos foi instantâneo, incontrolável. Precisavam sentir na pele aquele fogo que ardia dentro do peito.
Joana rebolava por sobre ela, roçava seu sexo no dela, e com as mãos explorava o corpo debaixo do seu. O destino das roupas, foi o chão. Pouco a pouco se livravam daqueles empecilhos, desejando que este ato fosse capaz de livrá-las de tantos outros que agora se impunham entre o amor delas.
O toque com a mão direita, entre as pernas da morena, libertou o primeiro gemido. Outros se seguiram, enquanto Olívia a fazia rebolar em seus dedos. As bocas não se separavam um segundo, com medo de estarem sozinhas, e assim se perderem.
Descendo a mão pelo corpo alvo sob o seu, Joana a tocou, fazendo Olívia se incendiar de dentro para fora. Os movimentos se tornaram mais intensos, e os corpos vertiam suor e escorregavam um em direção ao outro. Rolaram pela cama, se buscando, tocando, entrando. As bocas colavam na pele, num desejo mutuo de serem capazes de se engolir, marcar, pertencer.
Olívia procurou os olhos da sua morena quando sentiu que iria gozar. Joana entendeu o pedido para que fossem juntas, e intensificou os movimentos dos dedos e quadris, levando-as a loucura.
Os tremores pelos corpos encaixados ainda não haviam passado, quando Olívia a virou e colou sua boca no sexo molhado de Joana. A morena ofegou sentindo aquela língua quente no seu clitóris já sensível.
- Olie. – Pediu com a respiração entrecortada. – Vira pra mim.
Olívia a olhou, e obedeceu, virando o corpo em um sessenta e nove perfeito. Sentiu a língua de Joana a explorando, ao mesmo tempo em que se deliciava com o seu gozo. Se penetraram simultaneamente, e gozaram, uma na boca da outra, sentindo o corpo enfim saciado, ao menos naquele momento.
Olívia deitou ao lado dela na cama, e a puxou para os seus braços. Mais uma vez chorava. Um vazio imenso tomou conta do seu coração, e os braços da sua morena a envolvendo, era tudo o que precisava para liberar aquela dor contida.
- Shh – Joana sussurrou em seu ouvido. – Calma amor. – Falava, enquanto as suas próprias lagrimas voltavam a rolar pelo rosto. – Eu te amo tanto. – Disse com a voz embargada, quando um soluço subiu pela sua garganta.
- O jeito como ela me olhou. – Olívia disse enfim. – Ela nunca vai me perdoar.
Joana não precisava perguntar para saber de quem Olívia estava falando. Mesmo conturbada, a relação dela com a mãe era seu alicerce. Ela sempre dizia que no dia em que contasse que estava apaixonada por Joana, a mãe era a única pessoa que ela acreditava que iria entender. Perder a confiança nisso, a estava destruindo.
- Ela vai sim. – Joana disse mais para acalmá-la, do que de fato acreditando em suas próprias palavras. – Ela só precisa de um tempo, só isso.
- E como ficaram as coisas na sua casa? – Olívia perguntou temerosa.
- Piores impossível. – Joana soltou um suspiro. – Meus pais não quiseram nem me ouvir. E eu estou de castigo pelo resto da vida.
- Eu sinto muito Jo. Se eu não tivesse ido a sua casa... – Olívia começou, mas Joana a interrompeu.
- Uma hora iria acontecer amor. – Colocou as mãos no rosto dela. – Só nunca pensei que seria tão difícil.
- Eu não quero te perder. – Olívia confessou com a voz abafada.
- Você não vai me perder Olie. – Joana afirmou. – Eu te amo.
Olívia abriu um sorriso triste para ela, e a cobriu de beijos. Sabia que Joana fingia uma força e confiança que ela não tinha, mas queria tanto acreditar naquilo, que elas enfrentariam tudo juntas, que não deu ouvidos ao seu coração, quando este a avisou que o conto de fadas estava chegando ao fim. A ignorância era o seu lugar feliz.
Voltaram a se abraçar, e Olívia puxou o edredom por sobre os corpos nus. A aconchegou em seu ombro, e se perdeu no carinho delicado que ela fazia em sua barriga. Aquela proximidade, aquele calor que do corpo dela emanava, a embalou, e enfim ela foi capaz de descansar daquela dor.”
Chegando em casa, após Emilia ir dormir, Olívia deixou a cama que dividiam e foi se refugiar na varanda da sala. Com um cigarro em uma das mãos e o celular na outra, discou o numero que havia apagado do aparelho, mas que infelizmente ou não, havia memorizado.
O telefone chamou duas vezes, e ela o desligou. O que estava fazendo? Para que retomar qualquer forma de comunicação com uma mulher que não a queria mais? Sabia que as lembranças daquela noite a tinham levado de volta a um tempo em que Joana significava o mundo para ela, mas ainda assim não podia ser tão masoquista. Como queria ouvir a voz dela. Como queria dividir a sua vida com ela.
Estava imersa em seus próprios questionamentos, que se assustou com o toque do celular em sua mão. No visor, o numero que conhecia tão bem. Demorou alguns segundos para decidir se atenderia ou não. Pressionou, por fim, o botão do send, e levou o aparelho ao ouvido.
- Olie. – A voz que a saudou fez seu coração pular, como se fosse acordado após meses em um coma induzido. – É você? Aconteceu alguma coisa?
- Oi Jo. – Olívia enfim respondeu. – Eu não queria te assustar.
- Está tudo bem. – Joana disse ansiosa. – É muito bom ouvir a sua voz.
Olívia não sabia o que dizer. Dizer o que? Que estava morrendo de saudade dela? Que ainda a amava loucamente? Que por mais que tentasse, não era capaz de esquecê-la?
- Você está bem? – Joana perguntou diante do silencio da outra. Por mais que ouvir a respiração de Olívia do outro lado da linha preenchesse seu coração, precisava da voz rouca dela em seu ouvido.
- Estou. – Fez uma pausa enquanto decidia o que dizer em seguida. – Vi a minha mãe hoje à noite. – Disse por fim.
- Jura?! – Exclamou surpresa. - E como foi? – Joana parecia realmente interessada.
- Foi ... – suspirou. – surpreendentemente bom. Muito bom na verdade.
- Ah Olie. Você não avalia o quanto eu fico feliz em ouvir isso. – Ela era sincera e Olívia podia perceber. – Eu sei o quanto foi duro pra você viver afastada dela todos esses anos.
- Foi, mas hoje, só o que eu senti foi uma paz imensa. Como se enfim eu fosse capaz de fechar um ciclo em aberto há muito tempo na minha vida.
Joana congelou. O que aquilo significava? Olívia tentava dizer que a tinha esquecido? Que não a queria mais? Sentiu um pavor tão grande, que não conseguiu dizer nada.
- E eu queria que você soubesse. – Olívia concluiu com um suspiro triste.
- Que bom Olie. Eu sempre torci muito para que você se acertasse com a sua mãe, e eu sei que para a Raquel isso também foi importante. – Tentou a todo o custo disfarçar o tremor na sua voz.
- É. – Olívia se limitou a dizer, sentindo o efeito que a voz de Joana provocava em seu corpo.
O silencio caiu mais uma vez entre elas. Queriam dizer tantas coisas uma à outra, mas faltava coragem. Nenhuma das duas sabia como continuar o dialogo, e muito menos desejavam finda-lo.
- Como está a Bela? – Olívia achou que este era um assunto seguro, e ao mesmo tempo realmente se preocupava com a filha de Joana, ainda que não a conhecesse.
- A cada dia melhor. – Pode perceber o sorriso na voz do seu amor. – E ela é tão valente. Tão mais valente que eu.
- Que bom Jo. Eu tenho certeza de que ela vai ficar bem. Nem você, nem seu marido mereciam passar por isso. – Sim, ela não teve qualquer controle sobre o seu ciúmes.
- Olie... – Joana falou.
- Desculpa Jo. Eu não deveria ter dito nada. – Olívia respirou fundo antes de continuar. – Eu realmente fico feliz que a sua filha esteja bem. Eu só desejo boas coisas pra você sempre.
- Eu sei. Desejo o mesmo pra você. - Joana pensou em mencionar que sabia que Olívia estava vivendo com outra mulher, mas no fundo sabia que não tinha qualquer direito.
- Bom, era isso. – Olívia decidiu encerrar aquela ligação antes que perdesse o que lhe restava de controle, e admitisse que a queria mais que qualquer coisa no mundo e que somente ela a faria feliz de fato. – Desculpa ter ligado tão tarde.
- Você pode me ligar sempre que quiser. – Joana não resistiu.
- Não, não posso. – Olívia respondeu triste. – Não deveria ter ligado. – Admitiu. – Mas por alguma razão, me peguei desejando compartilhar isso com você.
- Eu estou muito feliz que você tenha me ligado. – Joana baixou a guarda. – Tenho vontade de te ligar todos os dias. – O silencio que se seguiu fez com que Joana se arrependesse de ter se deixado levar. Não era o momento de se abrir.
- Por quê? – Olívia perguntou com a voz fraca, após mais um momento de silencio entre elas.
- Porque, com exceção da Bela, você é a pessoa mais importante no mundo pra mim. – Quando se deu conta, já havia falado demais.
- É isso que eu não entendo Jo. – Olívia se viu perdendo o controle. – Se é assim, por que você me afastou da sua vida novamente?
Joana nada respondeu, embora Olívia pudesse ouvir um lamento em sua respiração. Diante do silencio da outra, Olívia voltou a falar.
- Eu cansei de tentar entender Jo. – Olívia falou resignada. – Te ligar foi um erro.
Se preparava para desligar, quando a outra se manifestou.
- Não desliga. – Ela chorava? Olívia não tinha certeza.
- É melhor nós pararmos por aqui. – Falou triste. – Nós duas sabemos que nada do que for dito pode mudar o que passou. Fica bem.
Olívia desligou sem maiores delongas. O aparelho queimava em sua mão. Sentiu que iria chorar mais uma vez àquela noite, e se impacientou consigo mesma. Despertara um sentimento que há tanto tempo tentava manter sob controle. Havia sido imprudente com seu coração novamente. Cada vez que buscava por Joana, seu coração se partia em mais um milhão de fragmentos, e todo o trabalho que tivera para colar os cacos antes partidos, era perdido.
Capítulo 18 - E mais uma vez, acreditar...
Todo amor que houver nessa vida
(Cazuza)
"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
Que ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio pra dar alegria"
O casamento de Guto e Marcinha se aproximava na mesma velocidade em que o tempo esquentava. Com as aulas da escola entrando em recesso de final de ano, Olívia se viu com maior tempo livre e acabou cedendo as suplicas da cunhada para que se envolvesse com maior afinco na cerimônia de casamento.
Desde o jantar na casa de Guto, ela e a mãe passaram a se falar com maior regularidade, e Olívia via crescer uma admiração mutua entre elas que a fazia imensamente feliz.
Com Emilia, acontecia o contrário. Distanciavam-se cada dia mais. Olívia sabia ser em maior parte por culpa sua. Não era capaz de continuar mentindo sobre o que sentia de verdade, e parou de fingir que o que havia entre elas, era mais do que uma amizade colorida que tomara proporções grandes demais.
Sem o seu empenho, a relação vinha morrendo aos poucos sem que qualquer uma das duas sequer tocasse no assunto. Emilia trabalhava em diversos projetos ao mesmo tempo, e usava isso como desculpa pelo abismo que se abrira entre ela e a namorada. Já Olívia, simplesmente cessara suas demonstrações explicitas de carinho e pequenas declarações. Continuavam juntas apesar de tudo, mas ambas tinham consciência, ainda que com sentimentos completamente diferentes referentes a isto, de que o fim estava próximo.
Na semana que antecedeu ao casamento, Marcinha viajou para Teresópolis para fazer os ajustes finais. Chegando lá, a primeira ligação que fez foi para a sua amiga, e madrinha. Marcaram de se encontrar na casa de Joana na mesma tarde.
Quando a campainha tocou, a morena largou o livro em que estava mergulhada, e recebeu a amiga com um sorriso e um abraço apertado.
- Eu não acredito que você esta aqui. – Joana confidenciou. – Estava morrendo de saudade.
- Eu também, amiga. – Marcinha disse sorrindo. – Você talvez seja a pessoa de quem eu sinto mais falta. Tirando meus pais, é claro.
- Nem me fala Marcinha. A vida aqui sem você não tem a menor graça.
Sorriram uma para a outra, e Joana fechou a porta acompanhando Marcinha até o sofá.
- Onde esta a minha afilhada mais linda do mundo?
- Na casa do pai. – Joana respondeu. – Ela está começando a se habituar em ter duas casas e dois quartos. Acho até que ela esta gostando bastante disso.
- Que bom Jo. Fico feliz que vocês enfim conseguiram resolver as coisas. – Marcinha foi sincera.
- Estamos caminhando para isso. Ainda tem toda a questão da sociedade do André com o meu pai, por isso ainda não contei a eles sobre a separação, mas a situação aqui estava insustentável, tanto pra mim, como pra ele.
- Eu imagino. – Marcinha a olhou triste. – Oh amiga, a sua vida está bastante complicada, não é?
- Muito. – Joana suspirou. – Mas graças a Deus a Bela esta melhorando, e isso é o que mais importa.
Seguiu-se um silencio em que elas apenas se encararam. A expressão triste de Joana, mexia com Marcinha. Tinha um carinho mais que especial pela amiga, e odiava vê-la naquela situação.
Joana suspirou querendo criar coragem para tocar no assunto que mais a angustiara nos últimos dias, seu telefonema para Olívia. Tinha medo de perguntar, mas sabia que não suportaria ficar sem ter noticias.
- Como ela esta? – Perguntou por fim. Sem precisar dizer a quem se referia, esta pergunta era recorrente nas conversas entre as duas.
- Jo, esquece a Olie. – Marcinha respondeu cansada. – Eu nunca vi duas pessoas mais cabeças duras em toda a minha vida. Você sofrendo por ela, ela por você. Toma uma atitude amiga!
- Ela ainda fala em mim? – Perguntou esperançosa, ignorando a bronca da amiga.
- Não. – Marcinha respondeu. – E você pode culpá-la? Quanto tempo ela passou esperando por um sinal seu? Quantas tentativas ela fez que você não correspondeu? – Joana fez menção de justificar. – Eu sei. Eu sei que pra você não tem sido nada fácil. Mas sinceramente Jo, isso não justificava a sua atitude com relação a ela. A Olívia teria te dado apoio em todo esse processo. A opção de afastar ela da sua vida, foi inteiramente sua. Eu sei que a Olie não é fácil, e eu sei que ela te deixa insegura, mas está mais do que claro o que ela sente por você. Ou ao menos sentia. – Parou como que tomando coragem. - Ela está com uma pessoa maravilhosa agora. Ela está retomando a vida dela. Não é justo que você queira interferir nisso.
Joana baixou os olhos. Sabia que a amiga tinha razão. A opção havia sido sua. Mas a verdade é que a Olívia ainda era um mistério para ela. Acreditava na sinceridade dela quando dizia que a amava, mas isso nem sempre bastava. Ela realmente acreditou que o que fazia, era o melhor para todos. Se envolver com Olívia naquele momento, só complicaria as coisas para Bela. Mas a queria. Como a queria.
- Ela me ligou. – Disse enfim.
- Quando?
- Na noite em que reencontrou a Raquel. – Joana disse triste. – Foi praticamente impossível não dizer tudo o que eu sinto por ela. Mas como você disse, eu sei que seria injusto.
- Eu não tinha idéia que ela havia ligado pra você. A Olie não é de se abrir facilmente. Acho que só me contou coisas da vida de vocês, porque estava realmente desesperada.
- Eu sei. Ela sempre foi discreta. Especialmente quanto aos seus sentimentos. Essa é uma das coisas que eu amo sobre ela. E pensar que isso já me irritou tantas vezes. – Joana sorriu ao lembrar. – Mas quando ela se declarava, era como assistir o sol nascer pulando sem pára-quedas do topo do mundo.
Marcinha afagou a mão da amiga. Queria mais que tudo, poder fazer algo por aquelas duas, mas elas haviam se magoado tanto e de tantas formas, que não via possibilidade alguma delas se acertarem.
- Você sabe que ela estará aqui para o casamento, não sabe? – Marcinha interrompeu os pensamentos de Joana. – E virá com a mulher dela.
- Eu sei. – Joana controlou a dor e a raiva que este pensamento lhe despertava. – E eu prometo respeitar o seu momento e ser civilizada. E eu sei que a Olívia vai agir da mesma forma.
- Bom. – Marcinha disse simplesmente. – Agora vamos as suas tarefas como minha madrinha. – Disse com um sorriso divertido.
- Ok, vamos lá. – Joana sorriu de volta. Estava realmente feliz pela amiga. Marcinha encontrara um homem que a amava mais que tudo no mundo, e aquilo era o que mais importava.
Almoçaram juntas, e passaram a tarde envolvidas com os planos do casamento. Havia ainda muita coisa a ser feita, e por mais que tanto a mãe quanto a sogra, houvessem se empenhado em deixar tudo organizado, existiam coisas que dependiam da aprovação da Marcinha, e outras que não dividira com as mulheres mais velhas, que era onde colocaria o seu jeito e do Guto na cerimônia.
No Rio de Janeiro, Olívia saía de mais uma reunião com sua orientadora. Claudia, mesmo com sua postura rígida, havia sido somente elogios a sua orientanda. Olívia era uma de suas alunas mais aplicadas e talentosas. Aprendera não somente a admirá-la, mas cultivava um carinho que poucas vezes era capaz de demonstrar.
- Mais dois semestres, e você será mestre em Literatura. – Claudia falou ao deixarem sua sala. – Não são muitos os orientandos para quem posso falar isso.
Olívia sorriu. Sabia que aquilo era o mais próximo que chegaria de receber um elogio, mas bastava. Com tudo o que acontecia em sua vida naquele momento, se dedicar ao mestrado parecia impossível, mas ela encontrou na atividade didática, uma válvula de escape bastante eficiente. Estava com o trabalho adiantado, e já cumprira boa parte do currículo exigido. Entraria de férias tendo alguma folga, mas como se conhecia bem, provavelmente se enterraria no trabalho para não ter que lidar com todo o resto.
- Bom, eu espero que você aproveite este tempo para descansar, mas se por um acaso decidir mexer na sua dissertação, pode me ligar a hora que for. Devo viajar alguns dias, próximo as festas de final de ano, mas no restante do tempo estarei pelo Rio mesmo. Não hesite em ligar, certo?
- Obrigada Claudia. – Olívia lhe sorriu. – Eu provavelmente irei te ligar.
Claudia sorriu em retorno. Aquela jovem de aparência por vezes desleixada, e até mesmo um pouco arrogante, se mostrara uma pessoa extremamente interessante. Se cumprimentaram com um aperto de mãos e Claudia seguiu decidida pelo corredor.
Se Olívia não estivesse tão enrolada com a sua vida amorosa, investiria em Claudia, pensou. Ela era uma mulher fascinante, além de possuir uma beleza exótica que a deixava ainda mais sensual.
Sacudiu a cabeça para retirar este pensamento, e foi com um sorriso nada inocente que adentrou a sala de Paula.
- O que você aprontou? – Paula perguntou assim que viu Olívia entrar fazendo aquela cara de criança que fez arte.
- Nada. Eu hein?! – Olívia desconversou. – Vim te buscar pra almoçar.
Paula se virou sem graça para ela.
- Eu meio que já tenho planos. – Falou culpada. – Desculpa Li.
- Com a Lara? – Olívia perguntou sabendo qual era a resposta.
- É. – Paula mordeu o lábio.
- Isso está mesmo ficando serio. – Comentou divertida.
- Está. – Paula prendeu a respiração. – Nós vamos morar juntas. – Soltou rápido, e olhou apreensiva para a ex-namorada.
- Bom, isso estava mais do que obvio. – Olívia constatou. – Você esta feliz?
- Muito. – Paula abriu um sorriso aliviado. – Eu não moro com outra mulher, desde você. Acho que estou um pouco ansiosa, só isso.
- Não precisa Paulinha. – Olívia se aproximou e a abraçou. – Vai dar tudo certo. E se não der, eu ainda estarei por perto pra te consolar.
- Eu sei disso. Mas é sempre bom ter essa confirmação. – Paula falou emocionada, aconchegando-se ao corpo de Olívia.
- E para sexo por vingança, ou por carência, ou por diversão. – Olívia falou. – Não importa o motivo, eu estarei sempre aberta para sexo com você.
Este comentário lhe rendeu um tapa forte no braço, para então as duas caírem na gargalhada.
- Você esta casada! – Paula acusou. – E eu sou uma mulher séria.
- Sei. – Olívia abriu um sorriso sedutor. – Isso nunca impediu nenhuma de nós.
- Não, não impediu. – Paula falou rindo. – Mas eu gosto de pensar que nós amadurecemos ao menos um pouquinho.
- Maturidade é superestimada. – Olívia reclamou. – Não me trouxe, nem mais sabedoria, nem mais diversão. – Se virou para Paula. – E vamos combinar que o sexo entre a gente, sempre foi incrível.
- Verdade. – Paula concordou. – E apesar de eu continuar te achando extremamente atraente, não sinto vontade alguma de ir pra cama com você.
- Aucht! – Olívia se fez de ofendida. – Eu sei que o meu ego é grande, mas você não precisava dar essa porrada.
- Até parece Li. – Paula riu. – Por que você não vem almoçar conosco? É realmente importante pra mim que você e a Lara se conheçam melhor.
- Se eu não for atrapalhar. Também quero conhecê-la melhor. – respondeu um pouco insegura.
- Claro que não atrapalha. – Paula lhe estendeu a mão e um sorriso. – Só tenta controlar os comentários sarcásticos, ok? E sem referencias sexuais que envolvam nós duas. A Lara tem a mente aberta, mas mulher nenhuma é grande fã de ex-namoradas.
- Hum. Então a senhorita perfeição não vai com a minha cara. – Declarou divertida. – Bom saber.
- Eu não disse isso. – Paula defendeu. – Ela só não te conhece direito, mas sabe da sua importância na minha vida.
- Vocês conversaram sobre ex-namoradas? – Olívia a repreendeu. – Você não sabe que isso é um tiro no pé?
- Como se lésbicas conseguissem controlar isso? – Paula a cutucou. – Vai dizer que você nunca falou das suas exs para a Emilia?
- É... – Ela resmungou. – Eu detesto ser tão mulherzinha quando estou envolvida. Ficamos idiotas e cavamos a nossa própria cova.
- Ok, mais um assunto proibido. – Paula falou enquanto pegava a própria bolsa de sobre o sofá e se encaminhava para a porta.
- Mais alguma proibição? – Olívia sacaneou. – Desse jeito é melhor você nem me levar. Eu posso acabar deixando alguma coisa vazar.
- Ai de você. – Paula lhe deu outro tapa no braço.
- Ai. Você anda violenta. Isso na cama deve ser uma delicia. - O olhar que Paula lhe dirigiu, foi fulminante, e Olívia caiu na gargalhada. – Estou apenas gastando as minhas gracinhas com você, já que no almoço vou ter que fingir que sou séria e comportada.
Paula apenas balançou a cabeça em uma negativa divertida, e puxou Olívia para fora da sala.
Lara as aguardava em um restaurante não muito distante do campus da universidade. Por tanto decidiram ir ambas no carro de Olívia, já que esta seguiria para a zona sul após o almoço, e Paula ainda teria que voltar para a faculdade e poderia ser levada pela namorada.
Desceram do carro, e atravessaram o hall de entrada do restaurante. Lara estava sentada a uma mesa no fundo do salão. Havia um copo de água gaseificada sobre a mesa e ela revisava alguns papeis.
- Oi amor. – Paula disse assim que se aproximaram da mesa.
- Oi meu bem. – Lara ergueu-se para cumprimentar a namorada com um beijo leve nos lábios. – Como vai Olívia? – Se virou para a convidada.
- Tudo bem. E você Lara? – Olívia estendeu-lhe a mão, que foi prontamente apertada pela outra em um gesto cordial.
- Já pediu? – Paula perguntou assim que se acomodou em uma cadeira ao lado de Lara, enquanto Olívia sentava-se de frente para elas.
- Ainda não. – Lara respondeu ao sentar-se. – Estava analisando alguns pontos de um caso que chegou hoje para mim, e acabei me distraindo.
- Sobre o que? – Olívia perguntou se dirigindo a advogada. – Se você não se importar, é claro.
- Não, não me importo. – Lara apanhou os papeis e guardou-os na pasta. – Uma jovem que entrou com uma ação contra o pai. Ela alega abandono afetivo e financeiro. O tipo de caso complicado para se provar qualquer coisa. Acaba tudo se tornando subjetivo e dependendo do juiz que vier a julgar o caso.
- Uau. Imagina se eu tivesse feito isso? – Olívia comentou. – Teria tirado um dinheiro grande do meu pai.
Como não a conhecia, Lara ficou apenas sem graça, enquanto Paula ria do sarcasmo de Olívia.
- Eu estou brincando. – Ela se adiantou a dizer para Lara. – Eu jamais faria isso. A culpa não foi dele, eu que dei o fora e não aceitei ajuda. – Se justificou.
- Não liga Lara. A Olívia não leva nada muito a serio. – Paula falou, repreendendo a ex-namorada com o olhar.
- Eu levo sim. – Olívia se defendeu. – Desculpa a brincadeira, Lara.
- Não se desculpe. – Lara falou seria. – Eu já pensei nisso. Meu pai é um político safado que também abandonou o lar como tantos outros. Teria herdado uma fortuna com uma ação como essa.
Desta vez foi Olívia quem ficou sem graça. Mas logo percebeu que Lara sorria, e relaxou. Elas acabaram se divertindo durante todo o almoço, que durou mais de duas horas. Entre brincadeiras e conversas serias, logo Olívia e Lara pareciam se conhecer há anos, e Paula, que nunca imaginou as duas se dando bem, estava surpresa com a fluidez com que aquela amizade começava a tomar forma. Olívia foi ela mesma, apesar dos pedidos da ex-namorada. E Lara que também tinha um senso de humor afiado, logo se identificou com a jovem escritora a sua frente.
Quando deixaram o restaurante, já haviam combinado um chopp no novo bar do Bola e do Tom, que agora se chamava ‘O Pônei Saltitante’. O nome era uma referencia direta a hospedaria em que os personagens do Livro “O Senhor dos Anéis”, um dos prediletos de Tom, se encontravam no inicio da historia, e como dizia Bola, nada poderia ser mais gay, o que Olívia não pode deixar de concordar.
Entrou no apartamento, e foi com alívio, que se viu sozinha. Vinha evitando encontrar com Emilia durante o dia, o que não estava sendo difícil. A namorada trabalhava o dia todo, e voltava tão tarde para casa, que elas mal se falavam antes desta ir dormir, e Olívia voltar aos seus livros.
Decidiu tomar um banho antes de voltar ao trabalho. Escrever dois livros simultaneamente, além da dissertação do mestrado, era exaustivo. Sua mente era povoada por personagens distintos, com personalidades fortes e características tão peculiares a cada um, que ela precisava de algumas horas de sanidade por dia. Fosse uma caminhada na lagoa, ou um chopp com os amigos. Outras vezes, apenas se permitia mergulhar em uma historia que não a pertencesse, fosse em um filme, fosse em um livro, mas nem sempre isso bastava.
Sempre que se permitia relaxar, uma nova situação começava a tomar forma em sua mente. Uma cena especifica, ou uma reviravolta completa na qual ela nunca havia pensado. Por isso a sensação constante de que não era ela quem criava as historias, ou talvez até as criasse. Mas só era capaz de dar o ponta pé inicial, pois assim que começava a tomar forma, ela ganhava vida por si só, Olívia sentia-se apenas um veiculo para colocá-las no papel.
Ela estava mergulhada em uma cena que começava a ganhar contornos em sua mente enquanto deixava que a água quente do chuveiro massageasse as suas costas, que não havia percebido a presença de outra pessoa no banheiro. Quando se virou, avistou Emilia parada ao batente da porta com um sorriso tímido no rosto, mas não menos encantador.
- Chegou há muito tempo? – Olívia precisou pigarrear para fazer com que a voz se soltasse da garganta.
- Não muito. – Emilia lhe pareceu cansada, mas ao mesmo tempo, serena. – Cancelaram as ultimas sessões por causa da luz. – Ela não se movera. Continuava mirando Olívia intensamente.
- Que bom. Você anda precisando mesmo de um descanso. – Olívia emendou sentindo-se inadequada, era como se elas não se conhecessem mais. Duas estranhas dividindo o mesmo teto.
- Uhum. – A ruiva se limitou a responder.
Olívia abriu a porta do boxe e se deparou com o olhar de Emilia sobre o seu corpo. Puxou a toalha e começou a se secar. Por mais incrível que pudesse parecer, não fazia idéia de como agir.
- Eu almocei com a Paula e com a mulher dela, a Lara hoje. – Olívia procurou qualquer assunto. – Sabe que a advogada é bem legal?
- Mesmo? - Emilia nem ao menos disfarçou a sua falta de interesse, e com um andar felino, deu um passo em direção a Olívia.
Seu corpo reagiu na mesma hora ao olhar faminto da outra. Não conseguia processar nenhum pensamento coerente ao perceber a intenção da ruiva. Se aproximando lentamente, como um animal que testa se sua presa irá fugir antes de dar o bote.
- Como foi o seu dia? – Olívia tentou quebrar o clima novamente. Se sentia profundamente inadequada naquela situação.
- Foi bom. – Mais uma vez, Emilia foi monossilábica, e deixou escorregar um sorriso sedutor nos lábios.
Quando Emilia estava a um palmo de distancia, Olívia já não era capaz de respirar. Seu corpo ardia e ansiava pelo contato. Não transavam há mais de um mês, e por mais que acreditasse estar certa sobre a distância que estabelecera, ainda sentia-se atraída por ela.
Emilia tocou o rosto de Olívia delicadamente, diante da aceitação desta, aproximou seu rosto do dela, até poder sentir a respiração sendo compartilhada. Poderia sucumbir diante desta sensação. Sentia tanta saudade da namorada, da cumplicidade que tinham, do braço dela em volta da sua cintura enquanto dormiam. Levantou os olhos, antes concentrados em mirar os lábios entreabertos de Olívia, e fitou seus olhos verdes.
Desta vez foi Olívia quem tomou o controle. Desceu seus lábios sobre os dela com vontade, mordendo, invadindo, lambendo, sugando. Sentiu seu corpo ser imprensado contra a parede do banheiro, quando Emilia revidou.
A luta que agora travavam, era a mais bela das danças. Buscavam uma o corpo da outra, e logo Emilia se desfez da toalha que cobria o corpo da amada. Olívia tentava tirar a blusa que Emilia vestia, mas esta não permitia. Apalpava, apertava, mordia e marcava a pele branca da sua mulher. Olívia a segurou pela nuca, forçando seu rosto para cima, e capturou novamente seus lábios, que já exploravam o colo desnudo.
Emilia retribuiu o beijo com desejo, pressa, voracidade, descendo suas mãos pelo corpo dela, que ainda era forçado contra a parede, com o seu. A tocou entre as pernas e gemeu ao senti-la molhada. Adorava possuir aquele corpo, e sentiu-se ainda mais excitada quando sentiu o corpo de Olívia se contrair.
Ditando um ritmo enlouquecedor, Emilia deixou Olívia desarmada. Ela se apoiava na parede lateral e sobre os ombros da namorada. Sentiu o tremor tomar conta de todo o seu corpo, as pernas bambearam, e se Emilia não a segurasse, teria ido ao chão.
Ficaram abraçadas até que a respiração das duas fosse regularizada, Emilia beijava o rosto de Olívia levemente, e tinha um sorriso vitorioso no rosto. Olívia sorriu-lhe de volta, acariciou-lhe a face com delicadeza, e beijou-lhe os lábios.
- Acho que eu preciso sentar. – Olívia falou sorrindo.
- Vem. Eu te levo até o quarto. – Emilia a puxou.
Olívia se jogou sobre a cama e puxou Emilia com força para junto dela. Se aproveitando da surpresa da namorada, a girou na cama, se posicionando por sobre ela.
- Agora é a minha vez. – Olívia falou sedutora.
- Então me toma. – Emilia rebateu.
Começou a tirar a roupa da Emilia lentamente, a cada peça retirada, cobria a pele sardenta com seus lábios e língua. Se demorou nos seios intumescidos, provocando um gemido de Emilia. Arrancou-lhe a calça, e a calcinha, e se posicionou por sobre ela. Começou uma dança excitante sobre o corpo dela, sentindo o sexo molhado de encontro ao seu.
- Me come. –Emilia falou em seu ouvido.
Olívia abriu um sorriso antes de tocá-la entre as pernas. Mas antes de penetrá-la, sentiu-a como um todo com a ponta dos dedos, levando-a a loucura. Emilia pedia, implorava para que ela parasse de torturá-la, mas Olívia continuou provocando, sentindo um prazer imenso em ver Emilia se contorcer debaixo do seu corpo.
- Li... – Ela pediu novamente. – Quero você dentro de mim. – As palavras saíam entrecortadas.
- Assim? – Olívia perguntou quando com dois dedos, a penetrou.
Como resposta, Emilia soltou um gemido alto. Olívia aumentou o ritmo, levando a ruiva à loucura. Não demorou muito para que Emilia gozasse com um grito alto no ouvido de Olívia.
Demoraram para se mover. Olívia ainda cobria o corpo dela com o seu, e Emilia a prendia a si com braços e pernas. Os corpos suados, colados, se sentiam.
- Estava morrendo de saudade. – Emilia confessou.
- Também. – Olívia falou sinceramente. Sentira saudades dela. Havia se esquecido do quanto era bom o sexo entre elas. – Adorei ser surpreendida assim.
- Juro que não foi planejado. – Disse rindo. – Mas quando eu te vi nua naquele chuveiro, eu não resisti. – Falou no ouvido dela.
Olívia se ascendeu inteira, e percebendo isso, Emilia posicionou o braço entre os corpos e a tocou.
- Quero sentir o seu gosto. – Sussurrou, antes de virá-la na cama e descer pelo seu corpo até alcançar seu objetivo.
Passaram horas em uma entrega física intensa como há muito tempo não faziam. Em nada pensavam, apenas se sentiam. E era bom. Existia uma conexão muito forte entre elas que parecia esquecida, mas que voltava a ser sentida por ambas.
Pegaram no sono uma nos braços da outra, em um acordo velado de tentar um recomeço, cada uma por seus próprios motivos, sem certezas, sem promessas vazias, apenas um entendimento de que era disso que precisavam naquele momento.
Na quinta-feira à noite, Olívia, Emilia, Guto, Theo, Marina, Paula e Lara, se reuniram no Pônei Saltitante para festejar a despedida de solteiro do Guto. Ele havia chamado o Theo para ser o seu padrinho, e este queria marcar uma festa grande em uma boate, mas foi dissuadido pelo próprio Guto, que preferia apenas passar a noite entre amigos.
Olívia e Emilia foram as primeiras a chegar, e foram logo ocupando a maior mesa do bar. O espaço era menor do que o bar do Bola na Lapa, mas com muito mais estilo. Marina os havia ajudado na escolha dos moveis, cor das paredes, decoração, tornando o lugar uma replica de uma taberna, que era como Tom imaginava que seria o Pônei Saltitante. É claro que tinha um estilo próprio, com mesas em madeira no andar de baixo e mesas de sinuca com um bar, no andar de cima.
A cozinha do Tom ficava no primeiro andar, e o cardápio havia ganhado maior diversidade. O negocio ainda estava conquistando espaço, mas os dois estavam entusiasmados com as novas perspectivas.
Logo chegaram Paula e Lara, e em seguida Marina com o Theo. Guto foi o ultimo a aparecer, e a sua chegada foi celebrada com entusiasmo por todos. Theo abraçou o amigo, e foi logo soltando:
- Eu não me conformo. Todos os bons partidos estão se casando. – Reclamou.
- Meu querido, você precisa começar a se apaixonar por homens gays. – Marina brincou com o amigo. – Já é difícil quando eles gostam da fruta, quando não gostam, é quase impossível.
- O Theo só esta deprimido porque o Cássio, sua ultima conquista, resolveu voltar para a mulher. – Guto informou. – Eu nunca vi ninguém tão propenso a escolher erroneamente como você, meu amigo.
- Mas eu vou dar a volta por cima. – Anunciou Theo. – Afinal, o que melhor que um casamento careta para encontrar diversos enrustidos louquinhos por uma nova experiência na terra de Bambi. – disse afetado, provocando risos em toda a mesa.
- Guto, você avisou aos nossos pais que não importa o quanto eles tentem, o seu casamento jamais será convencional? – Olívia se divertiu com a cara de espanto do irmão diante a declaração de Theo.
- Nah... é melhor no susto mesmo. – Bola se meteu. – Foi assim com os meus pais. Mas neste caso, ao menos não será o filho deles, um jovem e promissor judeu, que chegou ao aniversário da bisavó, acompanhado do namorado metido a roqueiro heavy metal.
Mais risadas, e Tom chegou com os petiscos.
- Eu ouvi Bolinha. – Repreendeu o namorado. – Vamos ver quão judeu promissor você é mais tarde.
A festa continuou entre brincadeiras e muitas risadas. Olívia sentia-se mais leve naquela noite do que em muito tempo. Além da felicidade que sentia pelo irmão mais novo, a nova fase que vivia com Emilia estava lhe fazendo muito bem. Desde a tarde em que a namorada a agarrara no banheiro, elas estavam mais próximas, mais carinhosas uma com a outra.
Marcinha, que por estar cuidando dos últimos preparativos para a cerimônia no sábado, não pode estar presente, ligou para o celular da cunhada para saber como estavam as coisas por lá.
- Não, ele não bebeu demais. – Olívia riu com a pergunta dela. – Relaxa. Seu noivo está bem, feliz e saudável. Bom, ao menos aqui ele esta comendo comida de verdade, nos outros dias em que ficou sozinho, provavelmente se alimentou de pizza.
- E você acha que eu não sei. – Marcinha disse carinhosa. – Já estou louca de saudade dele.
- E ele de você. Não se preocupe, amanha estaremos aí. – Olívia a tranqüilizou. – E como está a sua despedida de solteira?
- Esta ótima! – Marcinha se limitou a dizer.
- Marcinha, eu sei que a Jo é sua madrinha e que foi quem organizou a sua festa. – Falou condescendente. – Pode me contar. Eu adoraria poder estar nas duas despedidas. Você é como se fosse minha irmãzinha caçula, bem pequenininha. – Implicou.
- Também te considero dessa forma. – Respondeu emocionada. – E a festa esta mesmo ótima. A Jo chamou vários amigos meus do meu antigo trabalho e outros com quem estudei. Estou adorando rever a todos.
- Que bom lindinha. Fico muito feliz por você.
- E você e a Emilia, está tudo bem?
- Tudo ótimo. – Respondeu com um sorriso. – Ela esta mandando beijos. Alias, todos estão mandando mil beijos e loucos de saudade de você.
- Ah, manda um beijão pra todos! E agora me deixa falar com meu homem. – Exigiu de brincadeira.
- Sim senhora. Tenho até pena do meu irmão se é assim que você o trata na cama.
Olívia entregou o telefone para um Guto que fazia cara feia, antes que Marcinha pudesse revidar.
Assim que Marcinha desligou o celular, percebeu que Joana entrava na cozinha com algumas bandejas.
- Eles estão no novo bar do Bola. – Disse sorrindo. Havia avisado a amiga que iria ligar para o Rio.
- Que bom. – Joana sorriu. – Eles vêem amanha? – Tentou parecer desinteressada, mas sem obter muito sucesso.
- Vem. E Jo, - virou a amiga em sua direção – não alimente esperanças.
Não era preciso maiores explicações. Joana apenas concordou com um movimento rápido de cabeça, e um sorriso morno. Marcinha voltou para a sala, e Joana abaixou os olhos, perdida em seus próprios pensamentos. Estava ansiosa demais por ver Olívia, e ao mesmo tempo, fazia um trabalho mental para se manter sob controle. A veria acompanhada da mulher. Sabia que seria muito mais difícil do que apenas saber da existência da mesma, mas sabia também, que precisava se manter firme.
Olívia levantou para ir ao banheiro, e Paula a acompanhou, sob o olhar preocupado de Emilia, mas que ela soube disfarçar muito bem.
- O que foi? – Paula que a conhecia bem demais, perguntou.
- Nada. Só estava pensando em algumas coisas. – Olívia disse sem querer dar maiores explicações. A verdade é que sentia um frio na barriga constante diante da perspectiva de reencontrar Joana.
- Mesmo? – Paula perguntou desconfiada. – Eu te conheço Li.
- Mesmo. – Tentou passar confiança, e mesmo que não tenha conseguido convencer Paula, ela a respeitou.
Entrou no banheiro, e se olhou no espelho. O olhar perdido que a encarou de volta, era a imagem perfeita de como se sentia. Não queria, mas ansiava por ver Joana. Negava, mas contava os segundos para aquele momento. Estava apavorada por saber que ela estaria lá acompanhada do marido, e provavelmente linda no seu vestido de gala.
“Festa de aniversario da Clara. Como todos os anos, os pais dela haviam caprichado na decoração da casa e principalmente, da área da piscina. Com balões brancos e verdes, mesas com toalhas de linho por todo o jardim, com flores brancas e velas acesas. Parecia um conto de fadas.
Olívia estava no quarto da amiga esperando ela terminar de se arrumar. Como nunca gostara de vestidos, trajava uma calça social preta e uma bata em tons de azul. Clara já havia experimentado cinco vestidos diferentes, e Olívia apenas ria da indecisão da amiga, já ansiosa para sair dali e se encontrar com Joana.
- Você está linda Clarinha. Vai com esse. – Olívia disse impaciente quando a amiga se virou para mostrar o vestido amarelo com rendas no busto. – Desse jeito, quando conseguirmos sair daqui, a festa já terá terminado.
- Olie, você é a ultima pessoa que eu deveria ter chamado para estar aqui comigo. Nunca vi ninguém mais sem noção de moda do que você.
- Eu nunca disse que entendia de moda, mas sinceramente, são todos lindos. Qualquer um que você colocar, vai ficar deslumbrante. – Disse sincera. – Você é linda amiga.
Clara lhe sorriu, mas não resistiu e retirou o vestido amarelo, voltando a experimentar o roxo. Olívia suspirou, e se jogou sobre a cama. Aquela seria uma noite longa e torturante.
Assim que desceram, se depararam com uma pequena platéia as aguardando. Na verdade, esperando pela aniversariante, e Olívia tentou a todo custo se esquivar dos olhares que recaíam por sobre elas.
Deixou que Clara descesse a sua frente, e somente quando ela já cumprimentava alguns dos convidados, foi que se dirigiu para o salão. Andou em meio às pessoas, e seus olhos buscavam somente uma.
E lá estava ela. Linda, com um vestido creme tomara que caia na altura dos joelhos. Os cabelos cheios, presos em um coque solto que lhe caía pelas costas desnudas. Assim que ela se virou, seus olhos foram captados pelos verdes, e ela abriu um sorriso lindo, de tirar o fôlego.
Olívia andou até ela sem desviar o olhar. Era incapaz de ver qualquer outra coisa ou pessoa a sua volta, era como se os olhos cor de amêndoa a prendessem, a puxassem para ela.
Chegou perto o bastante para ser inebriada pelo perfume de Joana, e a abraçou longamente, mergulhando o rosto no seu pescoço, roçando os lábios por sobre a pele sensível, sentiu Joana se arrepiar.
- Não faz assim amor. – Joana pediu em seu ouvido, mas sem se soltar dela. – Já está sendo difícil não te agarrar com essa calça justa, você fazendo assim, eu não vou resistir.
Olívia sorriu antes de se desfazer do abraço. A Joana via nela uma sensualidade, que para ela era algo impossível. Nunca conseguiria ser feminina e vaidosa como todas as amigas eram. E certamente, era a única mulher que não usava um vestido aquela noite, e mesmo assim, Joana a olhava como se fosse a mais bela. Esse olhar quente que ela lhe lançava, era algo com o qual nunca se acostumaria.
- Você está linda Jo. – Se derreteu para a sua morena. – Mais linda ainda, se é que isso é possível.
- Pra você. – Joana deu um giro com o vestido, e as duas caíram na gargalhada.
- Isso está parecendo um filme antigo. A qualquer momento eu vou puxar um charuto e pedir uma dose de whisky.
- Hum, te imaginei com um smoking agora. Linda. – Joana lhe sorriu. – Mas você tem razão, parece um filme antigo de máfia.
Sorriram uma para a outra, e se prenderam naquele olhar repleto de desejo que compartilhavam. A voz aguda de Thais a anunciou, e a amiga se jogou nos braços de Olívia a cobrindo de beijos.
- Você me salvou! – Exclamou. – A Clara queria ajuda para escolher o vestido, e eu juro que tentei chegar a tempo. Mas do jeito que ela é, deve ter trocado de roupa umas quinhentas vezes antes de decidir qual vestir.
- Quinhentas? Mil seria mais exato. – Olívia riu. – Nunca vi alguém tão indeciso.
- Se para ir ao cinema ela leva horas se arrumando, imagina para a sua festa de aniversario? – Thais brincou. – Eu vou lá falar com ela e já volto. – Saiu andando pela festa com o seu jeito maroto de sempre.
- Então você ajudou a Clara a se vestir? – Joana a provocou.
- Ciúmes? – Olívia devolveu sedutora.
- De você ficar olhando a Clara tirar a roupa? Não. Imagina. – Joana bufou.
Olívia sorriu e voltou a puxá-la para seus braços, e quando Joana ameaçou se desvencilhar, Olívia a prendeu mais junto a si e falou em seu ouvido.
- Preferia mil vezes ter assistido você tirando a roupa. Apesar que desse jeito, eu não teria deixado você vestir nada. Te agarraria e arrancaria o resto, te deixando nua pra mim.
Os corpos se incendiaram, e foi preciso um autocontrole além do normal, para se soltarem. Joana respirou fundo algumas vezes, e pegou um copo de refrigerante de uma bandeja quando o garçom passou.
Por toda a noite, flertaram. Às vezes apenas olhares mais quentes, provocativos, em outras, pequenos toques, abraços, e beijos no pescoço que passavam despercebidos por todos. Não se desgrudaram a noite toda, o que para os outros, parecia natural, já que a todo o momento tinham a companhia de Thais, Ligia e até mesmo de Clara.
Um pouco antes de cantarem os parabéns, Joana anunciou que iria ao banheiro, e olhando significativamente para Olívia, pediu que ela a acompanhasse. Sem pestanejar, fizeram o trajeto até o interior da casa, vez ou outra parando para falar com algum colega, mas sem se desgrudarem.
Joana abriu a porta do banheiro que ficava na suíte de Clara, e por tanto ela sabia, estaria vazia, e puxou Olívia com ela. A Empurrou de encontro a parede, e parou a sua frente. Nada precisou ser dito, Olívia segurou em sua cintura com as duas mãos, e a trouxe para perto de si. A sua boca faminta, tomou a dela com sofreguidão, fazendo com que Joana soltasse um gemido de encontro a seus lábios.
O beijo, repleto de desejo, apenas confirmou o que ela já sabiam, precisavam se sentir. Precisavam matar a sede na saliva, como diria Cazuza.
Olívia aprofundou o beijo, e suas mãos passaram a percorrer o corpo da sua morena com força. Precisava senti-la. Com uma das mãos a segurou pela nuca, e a fez olhar nos seus olhos, com a outra, desceu pela lateral do seu corpo, contornou as pernas, e por debaixo do vestido, a tocou por sobre a calcinha.
- Ai amor. – Joana gemeu. – Olha o que você faz comigo.
Olívia sorriu e voltou a beijá-la, sentindo um prazer imenso ao tocar-lhe e senti-la toda molhada. Escorregou os dedos pela lateral da calcinha, e sentiu a umidade pulsantes e desejosa da sua amada.
Percorreu toda a extensão da vulva antes de penetrá-la. Joana arqueou as costas e ofegou. Ela gemina baixinho no ouvido de Olívia, enquanto esta aumentava o ritmo das estocadas.
Não demorou muito para que o corpo junto ao seu fosse tomado por tremores involuntários, e com um gemido rouco, Joana deixou seu gozo escorrer pelos dedos da sua namorada.
Olívia a apoiou com um dos braços, e retirou sua mão de dentro da calcinha dela. Levou os dedos melados até a boca, e os chupou sensualmente. Joana pensou que fosse gozar novamente somente de vê-la tão excitada por fazê-la sua. Sem demora, Joana se agachou de frente para ela, e abriu a calça de Olívia.
- Não amor. – Olívia protestou. – Alguém pode vir nos procurar.
- Eu não vou demorar. Só quero o seu gozo na minha boca. – E abaixou também a calcinha, ficando encantada com a visão da boceta de Olívia. – Relaxa amor.
Olívia não conseguiu responder, Joana já abria seus grandes lábios, e passava a língua pelo seu sexo quente, molhado, a fazendo estremecer.
Após explorar o sexo de Olívia com a ponta da língua, se concentrou no clitóris que crescia à medida que aumentava o movimento. A penetrou com um dos dedos, sentindo-a por dentro. Continuou passando a língua por sobre o clitóris, e pode senti-la contrair os músculos, fazendo-a aumentar ainda mais o ritmo dos movimentos.
O gozo veio forte, acompanhado de um grito abafado de Olívia, e Joana se deliciou, chupando cada gota, sentindo o sexo pulsante na sua boca, na língua, nos lábios. Dar prazer a Olívia era algo inexplicável. O prazer que sentia vendo-a gozar era indescritível.
Levantou e colou o seu corpo ao dela, sentindo a respiração ofegante da sua amada em seu pescoço. A beijou profundamente, sentindo a excitação voltar com tudo, como se não tivessem acabado de gozar.
- Eu continuo te querendo. – Olívia confessou. – Mas é melhor a gente voltar pra festa.
- Eu sei. – Joana concordou. – Só de te provar, já foi uma delicia.
- Não fala assim Jo. Estou morrendo de vontade de te chupar toda. – Disse rouca no ouvido da sua menina.
- Ai Olie. – Joana deu um passo atrás. – Chega. Ou eu nunca mais saio desse banheiro.
Olívia sorriu para ela, e levantou a calça e a calcinha. Ambas lavaram o rosto e ajeitaram as roupas e os cabelos. Com um ultimo beijo, deixaram o banheiro. ”
Lavou o rosto com a água fria que saía da torneira. Precisava voltar. Lembrar de Joana e da forma como ela a fazia se sentir, era uma tortura desnecessária. Era a festa do seu irmão, sua mulher a esperava. Uma mulher que a amava, que lhe dava segurança, que provara mais de uma vez que estava ali pra ela.
Voltou para a mesa, tomou a mão de Emilia entra as suas, e lhe sorriu. Emilia se virou para ela e devolveu o sorriso. Era um entendimento. Olívia tomou-lhe os lábios entre os seus em um beijo doce, calmo, mas que continha todo o seu desejo de estar ao lado daquela mulher que lhe fazia tão bem.
Capítulo 19 - O mundo de Joana
No dia seguinte logo cedo, saíram em caravana para Teresópolis. Olívia ia em seu carro com Emilia e Guto, e Theo e Marina seguiam no carro da cenógrafa. Bola e Tom não puderam acompanhá-los, mas iriam subir a serra no dia seguinte para o casamento.
Marina havia entregado um walkie-talkie para Olívia assim que se encontraram pela manhã.
- Para podermos nos comunicar na estrada. Até porque, com o Theo no carro, talvez eu precise que você me convença a não jogá-lo para fora da estrada. – Marina explicou. Ela e Theo viviam implicando um com o outro, mas nutriam uma amizade linda. Eram como irmãos, e talvez por isso brigassem tanto.
O dia estava claro e sem nuvens. Uma típica manhã de dezembro, ou seja, um inferno. Mas dentro do carro, com o ar condicionado ligado, e o som alto, os três nem pareciam perceber que no asfalto era possível se fritar um ovo.
Olívia levara o seu mp3 para a viagem, e o plugara ao som do carro. Logo a voz de Roger Daltrey, já arranhava os ouvidos deles. Olívia e Guto cantavam a plenos pulmões, enquanto Emilia se divertia com as interpretações que eles faziam das musicas, e registrava tudo com sua maquina fotográfica.
Ela estaria ocupada durante estes dias. Havia prometido aos noivos, como presente de casamento, fazer as fotos de todo o evento, incluindo o que eles chamavam de bastidores.
- Você esta achando que seu casamento é um concerto de rock, certo? – Olívia brincou com o irmão em uma tarde em que os quatro estavam reunidos no apartamento do flamengo.
- Mais ou menos isso. – Marcinha respondeu.
- Vocês não viram nada ainda. – Ele ameaçou.
- Eu to achando melhor filmar tudo. – Emilia provocou. – Não vamos querer perder estes momentos. Os seus filhos vão precisar saber quem é o pai deles.
- Não. Eu prefiro fotos. – Guto falou. – Fotografia te da a oportunidade de reinterpretar os momentos.
- É disso que eu tenho medo. – Marcinha abraçou o noivo. – Imagina quais não serão as historias que os nossos filhos irão ouvir?
- Eu posso ajudar com isso. – Olívia disse e cumprimentou o irmão batendo as mãos no alto, um high Five.
Chegaram a Teresópolis um pouco antes do meio dia, e foram direto para o hotel onde ficariam hospedados. Apesar da insistência da Raquel em receber seus filhos e amigos em sua casa, Olívia achou melhor eles terem alguma liberdade, alem do fato de achar cedo para dar aquele passo.
Por fim, sua mãe aceitou, e correu atrás de um bom hotel para os seus filhos se hospedarem, exigindo apenas, que comparecessem para um almoço em sua casa.
Após deixarem as bagagens em seus quartos, seguiram para o atual apartamento da mãe. Ela já não morava no mesmo lugar, o que foi um alívio para a escritora. Não acreditava que teria estomago para voltar a sua antiga casa. O faria se necessário fosse, mas sabia que seria uma viagem no tempo nada bem vinda.
Andar por aquelas ruas era estranho para ela. Reconhecia alguns lugares, e outros lhe eram completamente novos. Se pegou sorrindo com pequenas lembranças, e Emilia se aconchegou a ela.
- O que foi amor? – Perguntou baixinho.
- Nada. É só estranho estar de volta. – Disse sorrindo.
- Estranho bom, ou estranho ruim? – Quis saber a ruiva.
- Por enquanto, um estranho bom. – sorriu.
Estacionaram em uma rua próxima ao prédio. Olívia ainda resmungou por conta do transito. “Desde quando existe engarrafamento em Terê?” “Muitos carros, ruas estreitas, e monte de adolescente que não sabem dirigir.” – Foi a resposta que recebeu de Guto.
Entraram no prédio, e assim que tocaram a campainha, foram recebidos com muitos abraços e beijos. Raquel e Marcinha os esperavam ansiosas.
- Como foi a viagem? – Raquel se adiantou, pegando as bolsas e casacos dos seus convidados.
- Mãe, relaxa. – Olívia pediu. – Aqui é todo mundo de casa.
Raquel sorriu e deixou os casacos que tinha nas mãos, por sobre a poltrona do canto, tomou a filha em seus braços, e sentiu um alívio imenso ao receber um abraço apertado. Temera que após o primeiro contato, Olívia voltasse a tratá-la friamente, mas isso não aconteceu, ela continuava sendo doce com a mãe, emocionando-a.
- Para de chorar mãe. – Guto a abraçou. – Este é um momento de felicidade.
- Eu estou feliz. – Ela se apressou em dizer. – Imensamente feliz. Meu filho se casando, minha filha casada e o mais importante, os dois felizes. O que mais uma mãe pode querer?
Guto trocou um olhar significativo com a irmã, aquele era um momento único que viviam em família após tantos anos, era especial e todos ali sentiam.
- Cunhadinha! – Marcinha se jogou em cima de Olívia que havia tomado um lugar no sofá, enquanto Emilia e Theo auxiliavam a sua mãe na cozinha, e Marina conversava com Guto na pequena varanda. – Muito, muito obrigada por você ter vindo.
- Como eu poderia perder isso? – Olívia sorriu. – Como andam os preparativos?
- Tudo mais ou menos no lugar. – Marcinha falou ansiosa. – Mas quer saber? Decidi hoje que vou parar de me preocupar. Se sair algo errado, que saia. Eu não me importo.
- Ahã. – Olívia implicou, recebendo um cutucão por conta disso. – Não vai dar nada errado. O que de pior pode acontecer?
- Bom, pior mesmo, o noivo não aparecer. - Olívia abriu um sorriso. –Fora isso, acho que nada vai me tirar completamente do serio. Ando tomando Cannabis.
- Oi? – Olívia perguntou assustada.
- É homeopatia Olie. – Tentou tranqüilizar a cunhada.
- Homeopatia com base em qual erva? – Começava a achar graça.
- Essa mesma. – Respondeu piscando para ela. – Mas é só um calmante. O efeito é bem diferente.
- Sei. Se você diz. Quero experimentar. – Olívia pediu.
- Isso não é pra curtição Olie. Pra isso eu te arrumo um #beck# de verdade.
- Você? Jura? – Agora sim se surpreendeu.
- Eu não curto muito, mas as minhas primas de São Paulo fumam todos os dias. – Se explicou.
- Vou aceitar a oferta. – Respondeu quando viu sua mãe entrar na sala com um prato quente de lasanha, e foi em direção a ela. – Vocês querem ajuda?
- Não se preocupa filha, está tudo pronto. –Raquel beijou-lhe a face.
- Você? Na cozinha? – Theo passou por ela rindo. – Tá bom!
- Eu não me ofereci pra cozinhar. Só para servir a mesa. – Olívia se fez de ofendida.
- Mesmo assim amor, melhor não. – Emilia implicou com a namorada.
- Ok. Vou me preocupar somente em comer então. – Cruzou os braços.
- Sem manha Olie. – Theo lhe entregou uma garrafa de vinho. – Isso você faz bem.
Olívia saiu com a garrafa em busca de um saca-rolha, deixando os três rindo na cozinha.
Guto, Marcinha e Marina, conversavam a um canto, e Olívia se aproximou.
- Eu to falando serio. – Marina continuou já com o rosto vermelho de tanto rir. – A menina me olhou, e disse: “Espero que tenha sido satisfatório.”
Guto se dobrou de tanto rir sendo acompanhado por Marcinha, que tinha lagrimas nos olhos. Olhando de um para outro, Olívia ergueu as sobrancelhas, interrogativa.
- Só estava falando de uma atriz da peça em que estou trabalhando. – Marina explicou.
- Que você levou pra cama e depois fez o seu discurso sobre misturar trabalho e prazer? – Olívia que conhecia bem demais as jogadas da amiga quando se tratava de seduzir, inquiriu.
- Eu não tenho culpa se elas acham que existe algo além de sexo! – Se defendeu a amiga.
- Eu não estou julgando. – Olívia ergueu as mãos. – Longe de mim.
- Até porque, vamos combinar maninha, que moral você teria? – Guto continuava rindo.
- Exatamente. – Olívia concordou antes de continuar. – Mas você sabe que é confusão na certa transar com pessoas do trabalho, Nina. Eu esperava um pouco mais de você.
- Olha quem fala?! – Marina se defendeu. – E só para constar: um metro e setenta e dois, cinqüenta e nove quilos, pele morena de sol, olhos azuis, cabelos longos e loiros, e um sorriso de parar o transito.
Os três caíram na gargalhada da cara que ela fez.
- Meu Deus! – Marcinha falou. – E eu que pensava que somente os homens viam as mulheres dessa forma.
- Minha querida, esta é a grande hipocrisia feminina. As mulheres, heteros eu quero dizer, podem olhar para os homens como objetos sexuais. Os chamam de filé, pedaço de mau caminho, tanquinho e outros atributos mais, mas quando os homens se referem às mulheres como gostosas, delicia e etc, estão sendo desrespeitosos. Por isso eu acredito que o homossexualismo veio para mudar isso também. Homens falam assim com homens, que não se ofendem. Da mesma forma que se eu falar para uma mulher o quanto ela é gostosa, sem ser em tom pejorativo, mas sedutor, ela certamente não irá se ofender, e provavelmente, terminará a noite nos meus braços.
Guto chegou a aplaudir. Aquela não era a primeira vez que Marina fazia este discurso, mas ele estava a cada dia mais elaborado. Ela era a favor de toda a forma de expressão, especialmente quando dizia respeito ao desejo carnal. Acreditava que sexo era a forma como o ser humano manifestava melhor as suas ânsias mais profundas e secretas.
Mesmo que não concordasse com ela em todos os aspectos, Olívia se divertia e até mesmo, já jogara seguindo aquela cartilha. Também não concordava com os padrões sociais que ditavam as regras das interações humanas, mas não gostava quando esta liberdade tomava formas vulgares e virava libertinagem. Era grande fã do jogo da sedução, e talvez por isso, acatasse certos limites da conquista.
- Eu só queria que a mamãe tivesse ouvido isso. – Guto cochichou ao ouvido da irmã, quando se encaminhavam para a mesa.
- Pra ela morrer do coração um dia antes do seu casamento?
O almoço estava uma delicia. Em homenagem aos filhos, Raquel fez o prato que os dois mais gostavam na infância, lasanha a bolonhesa. Tinha anos que não cozinhava aquele prato, e estava feliz por enfim ter motivos para fazê-lo.
E Guto e Olívia realmente, pareciam duas crianças a mesa. Em meio a brincadeiras infantis e historias do passado, reviviam algumas lembranças da infância que ainda poderiam ser chamadas de felizes.
Theo não os poupou de suas historias e anedotas durante toda a refeição, no que foi prontamente acompanhado por Marina, que Olívia não entendia o porquê, estava inspirada àquela tarde.
Deixaram o apartamento de Raquel por volta das oito da noite. Guto, que havia prometido dormir por lá, acabou ficando para trás, após se despedir três vezes da namorada.
Olívia e Emilia seguiram para o hotel, e em um acordo velado, Marina e Theo foram levar Marcinha até a casa da Joana, onde ela iria dormir, já que a sua casa estava repleta de parentes que haviam vindo para o casamento.
Já no quarto, Emilia saiu do banheiro vestindo um roupão fornecido pelo hotel. Olívia estava sentada no pequeno sofá de dois lugares da ante-sala onde, muito concentrada, escrevia em seu notebook.
- Eu já disse o quanto você fica sexy quando está escrevendo? – Emilia sussurrou em seu ouvido ao se aproximar da namorada por trás.
- Já. – Olívia respondeu sorrindo. – Mas é sempre bom ouvir.
Pode sentir os lábios dela em sua nuca provocando arrepios por todo o corpo, depois a língua, que subiu pelo seu pescoço, até alcançar o ouvido. Olívia não resistiu, e em um movimento rápido, tomou o rosto de Emilia entre as mãos, e roubou-lhe um beijo apressado.
- Você gosta de me provocar, não é? – Perguntou quando as bocas se separaram.
Sem solta-la, Olívia a acomodou em seu colo, de frente para ela, e abriu o roupão, para descobrir o corpo nu da ruiva, ardendo de desejo.
Beijou-lhe primeiro o pescoço, e foi descendo pelo colo, até alcançar os seios. Passou a língua devagar pela aureola, sentindo o corpo todo dela se contorcer. Agarrou-lhe pelas nádegas, e com ela presa ao seu corpo, a levou para o tapete, colocando-se por cima do seu corpo.
Não demorou muito para que as roupas de Olívia também fossem retiradas. Emilia se contorcia, enquanto Olívia descia pelo seu corpo, beijando e mordendo com carinho. Chegou ao sexo encharcado da sua mulher, e o tomou para si, não demorando a provocar-lhe um orgasmo.
Quando a respiração de Emilia voltava a se regularizar, ela acariciou o rosto da esposa, lhe tirando um sorriso lindo. Quando Olívia sorria assim para ela, todas as dúvidas pareciam deixar de existir. Beijou-lhe os lábios com paixão, tentava dizer naquele beijo o quanto a amava, e o quanto precisava dela ao seu lado.
Olívia não se permitiu ser tocada. Com delicadeza, disse estar cansada e que precisava de banho e cama. Emilia sabia não se tratar de cansaço, mas não contestou. Sabia que o processo para reconquistar a sua mulher seria lento desde o dia em que decidira ficar naquele casamento.
Sabendo que sua negativa havia sido compreendida como uma desculpa, Olívia se culpou, deixando que a água do chuveiro lhe açoitasse as costas. Cada vez que acreditava estar próxima de sentir um amor verdadeiro por Emilia, seu coração a impedia. Lhe dizia claramente que não estava desocupado e nem aberto para que um novo sentimento criasse raízes ali. Não importava o quanto sua mente tentasse condicioná-lo a isso, ele tinha vontade própria, e sua única vontade, ainda era Joana.
Assim que parou o carro em frente ao prédio indicado por Marcinha, Marina avistou o grande amor de sua melhor amiga. Joana estava encostada ao muro, com o olhar perdido em algum ponto no final da rua. Ela continuava linda como esta se lembrava. Um pouco mais magra e abatida, mas ainda assim, provocava admiração por seus atributos físicos.
Não sabia ao certo se queria descer e cumprimentá-la, ou apenas deixaria que Marcinha saísse, dando uma desculpa. Era o que havia planejado, mas não contava que a morena fosse estar à porta esperando por elas. Seu olhar cruzou com o do Theo pelo espelho retrovisor. Ele provavelmente pensara o mesmo. Ambos acompanharam toda a trajetória de Olívia para se livrar daquele fantasma, como ela mesma havia se referido a Joana, e agora estavam ali, diante dele, mais vivo que nunca.
Marcinha, sem perceber nada, ou apenas fingindo não ver o desconforto no semblante dos amigos, os chamou para saírem do carro, enquanto ela mesma já se adiantava, chamando a atenção da amiga.
- Jo! – Acenou caminhando até ela.
- La vem a noiva. – Joana brincou, a abraçando. – Como foi o almoço?
- Foi tudo bem. – Marcinha falava, mas Joana já tinha seus olhos voltados para as duas figuras que timidamente, se aproximavam.
- Oi Joana. – Marina a cumprimentou quase formalmente.
- Oi Nina. – Joana tentou ser mais calorosa, estampando um sorriso em seu rosto. – Theo. - Aproximou-se dos dois, e os abraçou. – Como vocês estão?
- Bem. – Theo respondeu. – Cansados da viagem.
- Eu imagino. Não é longe, mas ainda assim cansativo. – Joana comentou.
Logo viram uma figurinha pequena vir em direção a eles, pedalando uma bicicleta com rodinhas. Trajava uma camiseta amarela, e uma bermuda jeans. O sorriso e os olhos amendoados entregaram de quem se tratava. Para Marina, nem foi necessário ouvir o grito da criança.
- Mamãe! Você viu como eu voltei rápido? – Tinha um sorriso sapeca no rostinho suado. – Você viu?
- Claro que eu vi. – Joana fingiu-se de brava. – E vi também o quão longe a senhorita foi.
- Desculpa mamãe, mas fui só até a esquina. – A criança tentou se justificar.
- E qual era o combinado, Bela? – Joana arrumava o boné na cabeça dela.
- Só até a casa da Tia Clara. – Falou baixinho, abaixando os olhos.
- Hum. – Joana murmurou. – Vem cá, quero te apresentar a uns amigos do Rio.
Só então, Bela pareceu perceber a presença dos visitantes. Olhou a volta e viu Marcinha próxima ao portão sorrindo para ela e piscando. Piscou de volta, antes de se voltar para os outros dois.
- Estes são o Theo e a Marina. – Se virou para eles. – Esta é a Bela, minha filha.
Tanto Marina quanto Theo, abriram um sorriso sincero para a criança e a cumprimentaram. Mesmo tímida, Bela foi muito simpática com os dois. Mas assim que terminaram os cumprimentos, ela correu para Marcinha.
- Dinda! – Gritou, se jogando no colo dela, e deixando assim que o boné caísse de sua cabeça, revelando os cabelos castanhos claros que começavam a crescer em sua cabeça.
- Oi pestinha. – Marcinha a abraçou forte nos braços.
- A pestinha agora precisa pegar a mochila lá dentro, não é Bela? – Joana interrompeu as duas. – Seu pai vai chegar já, já.
Bela saiu correndo em direção ao prédio.
- Devagar! Assim você cai menina. – Joana gritou.
- Posso mostrar a minha tiara pra minha dinda? – Gritou já da entrada, onde parara derrapando.
- Pode. – Joana afirmou. – Mas rápido.
- É pra ir rápido, ou não correr? – Bela perguntou com as mãos na cintura, provocando risos nos adultos a volta.
- Rápido, sem correr. – Joana falou tentando manter a expressão seria.
- Ela é linda, Jo. – Marina não conteve o comentário.
- E uma peste. – Joana emendou rindo. – Que bom que vocês estão aqui. – disse sincera.
- Não perderíamos por nada esse casório. – Theo falou olhando para Marcinha, que abriu um sorriso largo. – Até porque na hora em que o padre perguntar se existe alguém contra o casamento, eu preciso me pronunciar. O Guto era pra ser meu. – Piscou para Marcinha que somente meneou a cabeça.
Bela voltou correndo e parou em frente a eles com a tiara nas mãos. Estendeu-a para a mãe, que se apressou em prendê-la na cabeça da filha.
- E então, dinda? – Perguntou com um sorriso para Marcinha.
- Está linda. Parece uma princesa. – Marcinha falou emocionada, abraçando Bela mais uma vez.
- Posso ficar com ela até o papai chegar? Quero mostrar pra ele também. – Pediu suplicante para a mãe.
- Pode. Mas só até seu pai chegar. Depois a mamãe tem que guardar pra você usar amanhã. E cadê a mochila, pequena? – Foi a vez de Joana colocar as mãos na cintura, deixando claro com quem Bela aprendera o gesto.
- Certo. – Bela concordou. Voltando para o prédio para buscar a sua mochila.
Falavam sobre amenidades, ouvindo principalmente Bela contar suas historias, quando outro carro parou em frente ao prédio e um homem, trajando uma camisa branca e calças jeans, desceu do carro e estendeu os braços para a pequena, que com os olhos brilhando, correu em direção ao pai.
- Papai! – Exclamou.
Em uma avaliação rápida, Andre era um homem bonito, mas claramente hetero, Theo comentou mais tarde com Marina. Ele veio em direção a eles com Bela pendurada em seu pescoço.
- Desculpa o atraso. – Falou para Joana, depositando um beijo em seu rosto. – E essa menina? – Falou olhando para Marcinha. – Colega sua do colégio, Bela? – Brincou, recebendo um tapa fraquinho de Marcinha.
Andre desceu Bela de seu colo e abraçou Marcinha.
- Estava sentindo sua falta, sabia? – Andre falou para ela. – Preparada pro grande dia?
- Preparadíssima. – Marcinha respondeu com um sorriso radiante.
- Que bom. Estou muito feliz por vocês. – Andre falou sincero.
- Dé, estes são Theo e Marina. Amigos do Guto e da Marcinha. – Joana fez as apresentações.
- Oi, tudo bem? – Andre os cumprimentando com um sorriso.
- Vamos logo papai. Quero brincar com o Dan. – Bela puxou a camisa do pai.
- Estamos indo meu amor. Já pegou tudo?
- Já. – Mostrou a mochila.
- Então dá um beijo na sua mãe, e vamos embora. – Se virou para Joana. – Eu trago a Bela pela manhã.
- Certo. Manda um beijo pra Renata e pro Dan. – Joana falou se despedindo e pegando a filha no colo. – E você comporte-se, ouviu?
- Pode deixar. – Prestou continência.
- Eu não sei onde ela aprende essas coisas. – Joana comentou rindo.
- O Dan. Ele anda fissurado em um desenho que tem um general e seus soldados. – Andre explicou e logo se voltou para os outros três. – Vejo vocês amanhã no casório. Você vai ser dama de honra, certo? – Implicou com a Marcinha.
- Há-há. – Ela respondeu lhe abraçando.
- Foi um prazer. – Apertou a mão do Theo e da Marina. - Tomou a mão da filha e foi em direção ao carro.
Assim que os dois partiram, Joana convidou Theo e Marina para entrarem. Eles foram relutantes, mas por insistência das duas, acabaram as acompanhando.
Quando entrou na sala, Marina simpatizou com a casa de Joana de cara. Era bem arejada, com as paredes em branco, com diversos quadros e pôsteres nas paredes, tanto de filmes, como de bandas antigas. Uma estante grande com patina em tons azuis, abrigava uma enorme coleção de livros, DVDs e CDs. Logo em frente, um sofá branco bastante confortável, e duas pequenas cadeiras como as de diretores de cinema.
- Meu hobbie. – Explicou a morena. – Vicio antigo.
Os dois sorriram e continuaram explorando o cômodo. Havia diversas fotografias da Bela e outras de Joana entre familiares e amigos. Em um porta retrato perto da janela, Marina identificou uma foto de Joana com Olívia quando as duas não deveriam ter mais do que quinze anos. Logo abaixo outra foto delas, mas em meio a outras três meninas. E no alto da estante, uma fotografia recente das duas no Rio.
Marina sentiu-se estranha, como se invadisse um espaço que não era seu e nem lhe era permitido entrar. Assim que se virou, se deparou com o olhar de Joana. Theo seguia Marcinha até a cozinha, atrás de um copo d’água e Joana se aproximou de Marina.
- Recordações. – Disse triste. – Eu sei que deve ser estranho para vocês estarem aqui, ou até mesmo falarem comigo, mas eu quero que você saiba Nina, que eu tenho um carinho verdadeiro por vocês.
- Eu sei. – Nina tentou dizer.
- Não. Tudo bem. – Joana respirou fundo. – Eu não dei motivo algum para que vocês confiassem ou até mesmo gostassem de mim. Eu sei disso, e está tudo bem. Eu não vou me justificar. – Disse firmemente.
- A Bela está melhor? – Perguntou, deixando claro que sabia sobre a doença da menina.
- Bem melhor. A ultima sessão de quimioterapia foi há dois meses e ela está animada com o cabelo voltando a crescer. – Joana disse ternamente. – E ela voltou a ser a criança alegre e encapetada de antes. – Riu. – Mas eu não vou usar a doença da minha filha como desculpa.
- Eu não quis dizer isso. – Marina se adiantou. – Eu nem deveria ter falado nada.
- Não quanto a isso Nina. Não é nenhum segredo, nem motivo de vergonha. Só não justifica o que eu fiz com a Olie. Uma pena que levou um tempo longo demais para que eu percebesse isso.
Marina queria dizer milhares de coisas, fazer outras tantas perguntas, mas se conteve. E quando começou a falar, Theo e Marcinha voltaram rindo da cozinha com duas garrafas de cerveja e quatro copos.
- Tomei a liberdade amiga. Estou precisando. – Marcinha entregou um copo a cada uma delas e Theo as serviu.
- Um brinde. – Disse ele. – A Marcinha e ao Guto. Que eles façam um ao outro felizes por toda a eternidade.
- Saúde. – Disseram em uníssono.
- Nunca te imaginei como um cara romântico. – Marcinha disse rindo.
- Mas eu sou. – Theo se empertigou. – Só os homens que não percebem isso.
Sentaram-se em volta da pequena mesa de centro, e Joana serviu aperitivos e em um clima mais descontraído ao som de Joni Mitchel, foram todos relaxando. Marcinha estava acelerada, o que era compreensível, mas isso só a tornava mais engraçada, e ajudou a quebrar o gelo bem rápido entre eles.
Mais para o final da noite, Marina se viu sozinha mais uma vez com Joana, que estava parada próxima a janela com um cigarro entre os dedos.
- Não sabia que você fumava. – Também acendeu um cigarro.
- Voltei. Havia parado há seis anos. – Disse com um sorriso torto.
- Bom, eu não sou a melhor pessoa para falar sobre tabagismo. Adoro fumar.
- Eu também. Isso é que é o pior. – Joana soltou outra baforada. – E a sua vida, como anda?
- Tudo bem. Trabalhando bastante em vários projetos. Está tudo bem.
- Eu soube do filme com o Walter Salles. Parabéns. Ele é o meu diretor predileto no cinema nacional.
- Meu também. – Marina concordou. – E depois de trabalhar ao lado dele, gosto ainda mais.
- Muito bom. E vida pessoal? Alguém em especial?
- Nada. – As duas riram. – Ah, sei lá. – Marina suspirou. – Eu ando repelindo mulheres que querem compromisso. Mesmo que eu negue até a morte, e aqui já deixo avisado que se você algum dia abrir a boca estou disposta a cometer assassinato, mas eu não superei a Clarissa ainda.
- Oh, Nina. – Joana colocou a mão no ombro dela. – Disso, eu entendo.
As duas voltaram a rir. Não sabiam se por causa da bebida, ou apenas uma conexão que de fato se estabelecia, mas sentiam-se próximas.
- Você ainda ama a Olívia, não ama? – Marina enfim fez a pergunta que vinha lhe martelando na cabeça desde a hora em que entrara naquela casa.
- Amo. – Joana admitiu. – Não adianta negar. – Bebeu um gole da sua cerveja, e sentiu o gosto amargo da bebida quente. – Mas eu tenho consciência de que a perdi, não se preocupe.
- Não estou preocupada. Eu só fico triste por vocês. – Marina devolveu o afago recebido anteriormente. – A historia de vocês beira a novela mexicana.
Esse comentário provocou uma nova onda de risos nas duas.
- Fato. – Joana se viu obrigada a concordar. – O pior é saber que a burra fui eu. Eu tive tanto medo da rejeição dela, e estava tão fragilizada, que não arrisquei. Eu simplesmente aceitei como fato que ela não estava pronta pra mim. A Olívia tem cicatrizes profundas de machucados que eu provoquei, e essa culpa ainda me atormenta.
- Você tem razão. Você é realmente burra. – Marina a encarou indignada. – Você não percebe que a Olívia ainda é a mesma adolescente que você conheceu anos atrás? Aquela segurança toda é pura fachada. Ela morre de medo de se envolver, e culpa o que aconteceu com vocês anos atrás por isso, mas acredite, ela sabe que esta errada.
- Nós somos o acumulo das nossas experiências, Nina. E a Olívia só me associa a uma péssima experiência. Como eu posso acreditar em um amor pautado nisso? E se ela ficasse comigo e percebesse que aquele amor que ela acreditava existir, nada mais era que um desejo infantil de viver algo do qual ela foi privada? Eu cometi muito erros ao longo dos anos, mas se tem uma coisa que eu aprendi, é que nenhum amor baseado em sentimentos escusos, pode dar certo. E no final das contas, como ter certeza de que vai dar certo?
- Se você acha que algum dia terá esta resposta por antecipação, você nunca irá viver nada Jo. – Marina foi dura como lhe era de costume. – Eu entendo o seu lado, até porque você não esta sozinha nessa, você tem a Bela, mas você só vai saber o que de fato existe entre você e a Olívia, no dia em que tentar. Em que estiver disposta a entregar o seu coração a ela, e viver plenamente esse sentimento. Sem garantias, sem certezas, apenas esperança. Esse é o único sentimento que a gente leva para uma relação, esperança de que possamos ser felizes ao lado daquela pessoa.
Joana limpou a lagrima teimosa que desceu pelo seu rosto. Marina a puxou para um abraço, e no peito de uma quase entranha, Joana se permitiu chorar, ao mesmo tempo em que uma nova determinação lhe ocupava o coração. Se sentiria da mesma forma pela manhã? Não sabia, mas mesmo sem nada dizer, Marina parecia lhe dar o aval de que ela precisava para tentar, e ela o faria.
- O que esta acontecendo aqui? – Theo perguntou entrando na sala. – Eu consolo uma chorona no quarto, e você outra na sala?
- A Marcinha está bem? – Joana se adiantou.
- Está. Foi lavar o rosto, mas já vem.
- E o que deu nela? – Foi a vez de Marina perguntar.
- Nada. Nervosismo pré-casamento. Mas já passou. – Serviu as duas de mais cerveja. – E você? Está bem? – Se dirigiu a Joana.
- To bem sim. – Ela sorriu para ele. – O que vocês acham de uma festa do pijama?
- Não, não mesmo. – Marina a interrompeu. – Nós temos que voltar para o hotel.
- Pra que? Amanha vocês vão até lá e pegam as malas.
- Muito obrigada Jo, mas é melhor nos irmos mesmo. – Marina foi firme, mas delicada. – Pensa sobre o que a gente conversou.
Joana confirmou sorrindo. Se abraçaram, e assim que Marcinha retornou a sala, com os olhos inchados, mas com o mesmo bom humor de antes, eles se despediram, e foram embora.
- E você, cama! Amanhã você precisa estar linda, e uma noite mal dormida, não há maquiagem no mundo que acoberte. – Marcinha riu do jeito ‘ mamãe’ que Joana usou.
Dormiram juntas no quarto da Joana como sempre faziam. Enquanto Marcinha logo se entregou ao sono, Joana passou algumas horas ainda remoendo a conversa que tivera com Marina. Ainda haveria uma chance para ela e Olívia? Somente pensar nessa possibilidade, e seu coração já reagia com violência. Quando enfim adormeceu, foi com um par de olhos verdes que sonhou.
CAPÍTULO 20 - O casamento parte 1
O céu azul, os pássaros cantando e o sol, receberam a todos naquela manhã. Uma paisagem perfeita para a realização de um sonho.
Olívia acordara há alguns minutos, mas permaneceu deitada, sentindo o corpo pesado. Como quando estava no colégio, e por algum motivo temia ir à aula, a sua vontade era inventar uma doença e escapar daquele dia. Não podia. Passou os próximos vinte minutos convencendo a si mesma a organizar as suas prioridades. Aquele dia não era sobre ela. Era o dia mais especial na vida do seu irmão, e este deveria ser seu único significado. Todo o resto deveria ser irrelevante.
Fácil falar, difícil fazer. A perspectiva de estar frente a frente com Joana novamente, provocava um tomento dentro dela. Sentia o ar lhe faltar, um frio que percorria a espinha, e a sua barriga parecia morada de milhares de borboletas ensandecidas.
Levantou tomando cuidado para não acordar Emilia. Sabia que a ruiva estava fazendo um esforço sobre-humano para estar ali com ela e respeitar seus silêncios e atitudes que apenas confirmavam a sua instabilidade naquela relação. Culpa.
Após uma chuveirada rápida, vestiu um short e uma camiseta, e desceu para o salão onde seria servido o café da manhã. Um Buffet fora montado a um canto, e alguns poucos hospedes já ocupavam algumas mesas. Serviu-se de café preto, e foi sentar-se em uma mesa da varanda. Logo que parou a porta, avistou Marina sentada a um canto com um jornal em mãos, uma xícara de café ao lado, e um prato com alguns pães e pedaços de bolo.
- Acordou cedo. – Surpreendeu a outra, tomando o lugar a sua frente. – O Theo chuta muito a noite?
- Não. Eu dormi no sofá. O Theo se espalha a noite. – Respondeu com um sorriso mal humorado. – E você? A Emilia chuta?
- Não. Apenas acordei. – Olívia disse pegando um pedaço do pão da outra que havia sobrado. – Vocês voltaram muito tarde ontem?
- Pelas duas. – Marina se esforçou para parecer displicente.
- E ficaram fazendo o que nessa cidade até as duas da manhã? Que eu me lembre a vida noturna daqui não é para o nosso bico.
- Ficamos na casa da Joana com a Marcinha. – Esperou pela explosão, mas a primeira reação da Olívia foi confusão, para então, bufar.
- Mesmo? – Cortou o pão com raiva. – Não sabia que vocês eram amigos da Joana.
- Isso te incomoda? – Marina tinha o dom de tirá-la do sério.
- De forma alguma. Só fiquei surpresa. – Pausou tentando puxar o ar para preencher os pulmões e acalmar os nervos. Mas não funcionou. – Isso é inacreditável Nina! Essa mulher faz da minha vida um inferno, e você melhor do que ninguém sabe disso, e você fica amiguinha dela?! Você iria gostar se eu me aproximasse da Clarissa?
Marina respirou fundo antes de revidar. Previra aquele ataque, e se preparara para ele. Na verdade, estava saindo melhor do que ela esperava.
- Em primeiro lugar, eu nunca te proibi de manter contato com a Clarissa. – Olívia fez menção de falar algo, mas com um movimento de mão, Marina a calou. – Segundo, eu não planejei ir parar na casa da Joana, o fiz como um favor a você. – Mais uma vez Olívia quis revidar, mas Marina impediu. – Em terceiro... sim, eu gosto da Joana. Ela é uma mulher admirável em muitos sentidos, mas isso não vem ao caso. O fato é que você, por ser no fundo uma criança mimada, prefere continuar colocando toda a culpa do fracasso da relação de vocês, sobre ela. E não se dá nem ao trabalho de olhar os seus próprios erros nessa historia.
- Honestamente Marina, vai se fuder. – Olívia levantou, deixando cair o guardanapo no chão, mas não voltou para recolhê-lo.
- Vê se cresce Olívia! – Gritou.
- Que isso gente? – Theo perguntou, quando Olívia passou por ele como um foguete, o fazendo se desequilibrar e se apoiar na parede para não cair. – O que deu nela? – Perguntou a Marina.
- Pirraça. Mas vai passar. – Marina bebeu mais um gole do seu café, e Theo preferiu não perguntar mais nada.
Olívia estava a meio caminho do seu quarto quando lembrou que Emilia ainda estava lá dentro. Voltou pela escada, e saiu pela porta da frente para não ter que encarar Marina mais uma vez.
Estava tão irritada, que andava rápido pelas ruas, até seus passos se tornarem uma corrida. Não tinha idéia de para onde estava indo, apenas corria sem rumo.
Quando uma dor do lado esquerdo do corpo dificultou sua respiração, parou e apoiou as mãos nos joelhos. Quem a Marina pensava que era para falar assim com ela? Como ela podia se achar no direito de se meter na sua vida daquela forma?
Assim que se acalmou um pouco, olhou a volta e percebeu que estava parada diante da sua antiga escola. Não percebera que corria para lá, não pensara. Olhou para a fachada, e apesar de haverem pequenas mudanças no prédio, a estrutura ainda era a mesma que se lembrava.
Foi obrigada a rir. Até inconscientemente, buscava Joana. Sentou-se na mureta que circundava o pequeno jardim da entrada, e olhou a sua volta. As imagens lhe vieram nítidas, até mesmo o cheiro lhe parecia familiar. Mergulhou.
“Era noite de festa junina na escola, e a comissão de formatura do terceiro ano decidira que uma barraca do beijo e uma de salsichão, eram o que eles precisavam para arrecadar dinheiro para a grande festa no final do ano.
Gabriel e Clara, amiga da Olívia e da Joana, haviam sido os encarregados da barraca do beijo, o que rendera muitas piadas durante a noite. E para as meninas, restaram duas horas no turno da barraca de salsichão.
Após dançarem a quadrilha com o restante da turma, Joana puxou Olívia para um canto da escola ao lado da entrada lateral. Elas haviam passado a noite toda longe uma da outra. Não que isso tenha impedido as trocas de olhares entre as duas, mas a saudade que sentiam, era palpável.
- O que você está fazendo? Eu não terminei meu turno na barraca. Ainda tenho quinze minutos de trabalho escravo. Uma pequena previa do que será minha vida ano que vem provavelmente. – Olívia resmungou.
- Eu só queria tirar uma casquinha da mulher mais gata da festa. – Joana acariciou o rosto dela. – Posso?
Olívia não tinha forças, e na verdade nem queria resistir, beijou-a com vontade, saudade. Passara a festa inteira desejando estar ao lado dela, poder abraçá-la como via outros casais fazerem, beijá-la sempre que lhe desse vontade ou simplesmente, andar de mãos dadas, algo tão simples, e tão impossível para elas.
- Você estava linda dançando a quadrilha. Adorei a camisa xadrez. – Joana continuou provocante. – Quase roubei um beijo seu no meio da dança.
- Não me entenda mal, eu estou adorando essa versão safada de você, mas nós temos que voltar pra festa. Meu irmão esta aqui, seu irmão esta aqui e o pior: seus pais estão aqui. – Olívia acariciou o rosto dela. – Sem bandeiras, lembra?
- Eu sei. Só precisava te beijar pra agüentar até o final da noite. – Joana se desvencilhou. – Quero dormir com você hoje.
- Eu também amor. – Olívia a puxou para si e beijou-lhe novamente os lábios. – Mas sua mãe foi bastante clara quando disse ‘não’ mais cedo. Aliás, alto e claro, pra falar a verdade. O “não” mais sonoro que já recebi na vida. Se ela já me odeia hoje, imagina se soubesse que estamos namorando?
- Eu sei. Mas vou tentar de novo. Ela e o meu pai beberam um pouco do ponche batizado, que eu vi. Quem sabe? – Abriu um sorriso irresistível.
- Ok, você tenta isso, que eu prometo te beijar até o dia amanhecer. – Olívia a olhou com devoção. Era o olhar que geralmente dedicava a ela, mas que nunca percebia, pois o olhar que recebia, tinha a mesma intensidade.
- Isso sim é perfeição. – Joana disse, retomando o assunto da aula que tiveram mais cedo, em que a professora de filosofia pediu que eles explicassem o que era perfeição. – Você nua na minha cama. Eu não quero mais nada da vida.
- Você é perfeita. – Olívia declarou, deslizando a mão pelo ombro e braço da sua namorada e segurando a sua mão.
- Não, não sou! – A outra negou fazendo careta.
- Você tem razão. Perfeita você não é. Ninguém perfeito seria tão implicante. – Olívia brincou. – Você é perfeita pra mim. – Declarou perto do ouvido de Joana.
- É porque eu te amo demais. – Sorriu.
Trocaram um beijo repleto de paixão e desejo, e Joana escorregou as mãos pelo corpo da namorada, se atendo aos seios, e então desceu pela barriga, erguendo a camisa que ela usava, e tocando-lhe a pele.
Olívia sentiu o ar lhe faltar, prendeu Joana mais junto a seu corpo, e gemeu quando esta lhe tocou entre as pernas por cima da calça.
- Amor... para. – Pediu fraca.
- Saudade dela. – Joana rebateu, aumentando a intensidade do toque.
Sem dar qualquer chance pra Olívia fugir, Joana abriu a calça da namorada, e colocou sua mão por dentro da calcinha sentindo a umidade dela na ponta dos dedos. Um gemido rouco saiu de sua boca, e Olívia ofegou. Ela tinha um poder sobre ela irresistível, delicioso, e ao mesmo tempo, apaixonante.
- Jo. Por favor. – Olívia pediu num sussurro. Como se fosse capaz de controlar a excitação que sentia. –Alguém pode chegar.
- Relaxa amor. – Joana disse a beijando novamente. – Goza pra mim.
Dito isto, Joana a invadiu com dois dedos. Olívia não viu mais nada, não pensou em mais nada, estava completamente entregue nas mãos do seu amor. Gemia baixinho em seu ouvido, levando Joana a loucura. Ela aumentou o ritmo do movimento, entrando e saindo de dentro dela, até que se voltou para o clitóris. O provocou, massageou, e logo Olívia já estremecia em seus braços, e de sua cavidade, o liquido escorria, molhando toda a sua calcinha.
- Estava louca pra te sentir. – Joana suspirou em seu ouvido, e a abraçou fortemente. – Eu te amo cada vez mais.
- Viu? Perfeito? – Olívia rebateu ainda ofegante. – Vontade de você. – Gemeu baixinho, deslizando as mãos pelas pernas de Joana e subindo por dentro do seu vestido.
- Achei que tínhamos que ir. – Joana a provou, ao mesmo tempo que se abria, facilitando o contato. Implorando por ele com todo o seu corpo.
Os olhos se encontraram, e havia fogo. Com as mãos hábeis, Olívia passou os dedos pelas coxas dela antes de afastar a calcinha pela lateral, e sentir o quanto ela estava molhada. Suspirou e então entrou. A penetrou com os dedos, enquanto sua boca se degustava com o gosto da pele do pescoço, colo, queixo, boca, e recebia a respiração cada vez mais descontrolada de Joana em seu rosto.
A segurou firmemente e aumentou o movimento dentro dela. Joana rebolava e gemia sem controle. Olívia colou sua boca na dela, e mais uma vez os olhares se encontraram. Quentes, apaixonados, brasa pura.
O gozo veio, e Joana amoleceu em seus braços. Seu corpo tomado por espasmos, e um sorriso lindo no rosto. Olívia sorriu de volta e a abraçou. Assim ficaram por alguns minutos, apenas sentindo o calor gostoso dos corpo colados, as respirações misturadas, olhares cheios de amor. O beijo que se seguiu, foi calmo, doce, sem a necessidade latente que antes as dominava. Era uma caricia leve, gostosa. Os lábios se tocavam, as línguas se sentiam. Uma felicidade genuína as invadiu.
Assim que se soltaram, Olívia acariciou o rosto de Joana com as pontas dos dedos, recebendo um sorriso lindo em retribuição.
- Sério. A gente precisa voltar.
- Eu sei. – Joana falou resignada.
- Não faz essa carinha de cachorro que caiu da mudança. Se sua mãe não liberar, eu pulo a janela. – Disse com um sorriso divertido no rosto.
- O pior é que eu sei que você é bem capaz de fazer isso mesmo. – Joana riu.
- Eu faço. Por você, tudo! – Disse com a certeza de que sempre seria assim.
Elas andaram até o local da festa, ainda rindo e brincando. Chegando ao meio dos amigos, Joana apenas tocou a mão da namorada, e foi em direção aos pais, deixando Olívia com um sorriso bobo no rosto.
- Viu o passarinho verde?- Lígia parou ao lado dela.
- Não. Só estou cansada. – Olívia tentou se refazer.
- Sei. – Ligia disse desconfiada. – É o Nando, não é?
O Nando, ou melhor Fernando Luiz, era um colega de classe delas que tinha uma queda pela Olívia desde a oitava série. Era um bom amigo, mas nunca passaria disso, é claro. Além de amar Joana, Olívia estava cada dia mais certa de que nunca seria capaz de se apaixonar por um homem na vida.
- Claro que não! – Olívia riu.
- Tadinho. Você deveria dar uma chance a ele, sabia? - Parou para olhar a amiga. – Namorar te faria bem.
- O que? – Olívia riu sem graça, sentindo-se totalmente desconfortável com o rumo daquela conversa.
- Ah, qual é Olie?! Você é linda amiga. Eu juro que não te entendo. Nunca te vi com ninguém. Vai virar freira, é?
- Lógico que não. – Olívia a empurrou de brincadeira. – Só acho esses garotos do colégio uns idiotas.
- É, eles são. Mas fazer o que? Até que a gente vá para a faculdade, é o que nos resta. Eles servem para ganhar experiência.
- Você é cruel, Lili. E eu que te achava a mais santa de todas nós.
- As pessoas mudam, Olie. Você mudou muito. – Constatou a outra.
- Mudei como Lili?- Olívia achou graça.
- Sei lá, está mais confiante. – A outra respondeu a analisando. – E se eu não soubesse melhor, diria que você está apaixonada.
- Até parece. – Olívia desconversou.
Ligia riu da amiga, e foi andando para o meio da festa. Olívia olhou a volta e viu Joana conversando com os pais. A achava tão linda às vezes, que doía. Ela que nunca acreditara no amor, se via fazendo planos futuros, e todos eles incluíam Joana como sua mulher para sempre. Mesmo que nunca reconhecessem o casamento gay, mesmo que olhassem torto para elas na rua, sabia que nada disso importaria, o amor delas bastava.”
Passou as mãos pelos cabelos, e suspirou. Aquele lugar lhe trazia tantas recordações, tanto boas quanto ruins, mas definitivamente fortes. Fechou os olhos e buscou acalmar seu coração, mas por mais que tentasse bloquear, as palavras de Marina insistiam em lhe voltar a mente. Não era como se ela não soubesse que tinha errado com Joana também, pois sabia. Mas também deixara claro mais de uma vez, que a amava e a queria, ou não deixara?
Lembrou-se de cada momento em que estiveram juntas ou se falaram naquele ultimo ano, e as palavras estavam lá, admitira o seu amor, mas com que relutância? Joana também disse que a amava, e o que ela fizera com isso? No fundo, era claro que ambas haviam errado e muito, não souberam se comunicar direito, ou eram simplesmente incapazes de compreender o que a outra dizia.
Compreender. Isso realmente importava? Definir quem errara mais, quem fugira por medo e em que momento, quem carregava a maior culpa, era realmente tão importante assim? E ainda que fosse capaz de perceber cada desvio no caminho que ambas trilhavam desde que se conheceram, de que adiantaria?
Passado. Aquela história pertencia ao passado, e lá deveria permanecer. Estava cansada de sentir aquele incomodo constante cada vez que pensava em Joana. Não poderia dar a ela todo esse poder sobre si. Ela dominava seus pensamentos, seus sentidos, sentimentos. Na verdade, Joana era uma ilusão que a própria Olívia criara em sua mente. Uma forma de se proteger dos outros. O sentimento que nutria por ela, a impedia de se apaixonar por qualquer outra mulher, e isso ela sabia, era culpa sua.
A sua volta para hotel foi mais tranqüila. Caminhou lentamente começando a sentir o efeito do sol quente em sua pele branca. Foi direto para o quarto, e agradeceu por Emilia não estar lá esperando por ela. Não seria capaz de encará-la naquele momento. Não quando seu corpo estava ardendo de desejo por outra mulher.
A água gelada não somente aliviou o ardido em sua pele, como lhe deu uma sensação de limpeza mais profunda. Precisava estar refeita para o dia que teria pela frente, e precisava especialmente, dedicá-lo ao irmão e a cunhada, que nada tinham a ver com seus dramas amorosos. Resolveria seus próprios problemas em outro momento. A tarde e a noite, seriam dedicados a celebrar a felicidade de duas pessoas importantíssimas na sua vida, e era sobre que isso que deveria ser.
**X**
O casamento estava marcado para aquela tarde, por volta das cinco e meia. Guto e Marcinha decidiram que se casariam ao pôr-do-sol no jardim do clube. Queriam fazer a cerimônia no mesmo local onde dariam a festa.
O lugar estava todo decorado com flores de diversas cores, com predominância do branco. Fitas amarradas às arvores, também davam um toque efêmero, um casamento no país das fadas, como Marcinha o chamara.
- Está tudo lindo mano. –Olívia passou o braço por sobre o ombro do irmão enquanto ambos miravam o jardim.
- Está tudo perfeito. – Ele balbuciou emocionado.
Olívia o apertou ainda mais forte em seus braços, e assim seguiram para a sala que havia sido reservada para o noivo, e onde Raquel já os aguardava.
Theo havia ido para a casa de Joana a pedido de Marcinha. A mulher que faria a sua maquiagem não havia comparecido, e Joana ligara para o amigo para que ele viesse salvar a pátria, o que ele fez com gosto.
Marina tinha ido a rodoviária buscar Bola e Tom que estavam subindo de ônibus, já que Adoniades não suportaria uma viagem tão longa. Ela e Olívia haviam entrado em um acordo silencioso de não mencionar o ocorrido àquela manhã. Mesmo ainda estando magoada com a amiga, Olívia tinha consciência de que ela não tivera a intenção de feri-la, mas apenas de lhe abrir os olhos, ainda que não estivesse disposta a admitir isso ainda.
Por volta das três e meia da tarde, Joana parou o carro no estacionamento do clube. Theo estava ao seu lado, e Marcinha e Bela no banco de trás.
- Vamos? – Chamou-os.
Os quatro seguiram pelo jardim, com Bela correndo à frente deles, e Theo carregando os vestidos delas que estavam dispostos em cabides. Foram direto para a sala que Marcinha havia reservado para se arrumar, e que ficava do lado oposto da sala em que Guto se encontrava. Os dois haviam se falado por diversas vezes por telefone, mas não se viam desde o dia anterior.
- Será que é muito cedo? – Marcinha sentou-se a cadeira que ficava de frente para o espelho.
- Não. Assim temos tempo de nos arrumarmos com calma. – Theo respondeu. – Eu quero estar lindo.
Joana e Marcinha riram para ele.
- Mamãe, posso ir brincar lá fora? – Bela estava impaciente.
Joana olhou para o rosto ansioso da filha, e dela para Marcinha.
- Vai lá amiga. Minha mãe e a minha tia já estão chegando. E o Theo fica comigo, não fica Theo?
- Claro. Eu sou praticamente um pagem e estou adorando. – Falou orgulhoso.
- Ok. Eu já volto. – Joana garantiu. – Vamos meu amor, vamos brincar lá fora.
Olívia deixou a sala em que se encontrava em companhia da mãe e do irmão, e seguiu para o jardim. Precisava urgentemente de um cigarro. Emilia ligara mais cedo para informar que só iria mais tarde, acometida de uma dor de cabeça, decidira ficar no hotel. Mesmo se oferecendo para voltar para lá e ficar ao lado dela, Emilia insistira para que ela não fosse. Sabia que o seu sumiço da manhã teria um preço, e sentia-se péssima por deixá-la tão insegura.
Ascendeu o cigarro e respirou fundo. O sol ainda estava forte e brilhante, por isso se deteu próxima a uma marquise que fazia sombra sobre o jardim. Foi quando avistou uma criança passar correndo pelo gramado.
- Bela, não vai pra longe. – Ouviu então a voz que fez seu coração dar um looping. Logo depois da criança, uma mulher vinha caminhando pelo jardim, olhando a criança que corria e pulava.
Olhou com cuidado, e sentiu um formigamento por todo o corpo. Joana estava ainda mais linda do que ela lembrava. Vestia-se de forma simples, com um short de pano xadrez, e uma camiseta branca, óculos escuros, mas seus cabelos estavam diferentes, presos no alto em um penteado moderno, todo ondulado e com fios soltos.
Ainda a admirava, quando esta se virou para onde ela estava. Quis se esconder, mas não se moveu. Joana estancou, e ergueu os óculos do rosto revelando seus lindos olhos castanhos.
Não saberia precisar quanto tempo passaram apenas se olhando, até que Joana baixou os olhos e então voltou a encará-la andando em sua direção. Olívia não sabia como agir. Não esperava encontrá-la tão cedo naquele dia. Sabia que seria inevitável, uma vez que ambas estariam no altar àquela tarde, mas não pensou que a veria assim, sem preparo algum.
Joana se aproximou até estar a poucos metros de onde Olívia se encontrava. Continuaram se olhando, como se buscassem decifrar o que se passava na cabeça da outra. Foi o chamado da criança que as despertou.
- Mamãe! Posso ir até o lago? – Bela gritou para ser ouvida.
Joana se virou para a filha, e Olívia a admirou antes de se voltar para a forma pequena que corria em direção a elas.
- Posso mamãe? – Bela pulou no pescoço dela.
- O lago não, meu amor. Eu disse que você podia brincar no jardim. – Joana estava com a voz um pouco presa. Por mais que tentasse soar natural para a filha, seu coração batendo forte no peito, não permitia.
- Mas no lago tem peixinhos. – Justificou a menina.
- Eu sei pequena. Mas por enquanto, só o jardim, certo? – Joana beijou-lhe a ponta do nariz.
- Tá bom. – Falou resignada.
- Bela, esta é Olívia. – Joana disse se virando lentamente para a mulher a sua frente. – Olie, esta é a minha filha, Bela.
- Oi. – A criança disse tímida.
- Oi. – Olívia respondeu, e após pigarrear para clarear a garganta. – É um prazer te conhecer, Bela.
- Ela é irmã do tio Guto. – Joana explicou.
Bela abriu um sorriso para Olívia, e ela pode ver os traços da sua amada naquele rostinho pequeno e sapeca. O sorriso era o mesmo, assim como os olhos. Olívia não resistiu e sorriu de volta.
- É a moça da fotografia, não é? – Bela perguntou a mãe, reconhecendo Olívia das fotos que tinha espalhadas pela casa delas.
- É sim meu amor, esta é a moça das fotos. – Joana lançou um olhar intenso na direção de Olívia, ao mesmo tempo sentindo-se sem graça, como se tivesse sido pega em flagrante fazendo algo errado.
- Que fotos? - Olívia perguntou curiosa.
Antes que Joana pudesse falar qualquer coisa, Bela se adiantou.
- A mamãe tem um monte de fotos na sala, e têm algumas com você. – Disse como se fosse a coisa mais simples do mundo. – E têm um monte de fotos minhas também, né mamãe?
- Claro que tem. – Joana acariciou a cabeça da filha. - Agora vai brincar. Mas sem sair de perto de mim, certo? – Joana a soltou.
- Certo. – Respondeu sorrindo e então saiu correndo para perto das arvores.
Joana e Olívia voltaram a se encarar. Ambas com milhares de coisas que gostariam de dizer, mas que não sabiam como. Apenas se miravam longamente. Uma forma de matar a saudade que o olhar sentia das feições da outra, dos traços delicados, da forma dos lábios, do brilho dos olhos. Ao poucos a respiração se tornou ofegante, e Olívia buscou o ar com força, provocando um sorriso tímido de Joana.
- Ela é linda Jo. – Olívia falou, tentando recobrar algum equilíbrio.
- Obrigada. – Joana agradeceu, e lançou um olhar doce para a filha, antes de voltar seus olhos para a mulher a sua frente.
- Então quer dizer que você tem fotos minhas? – Olívia perguntou sorrindo.
- Sim. – Joana baixou a cabeça.
- De quando? – Olívia quis saber.
- Quando você for a minha casa, eu te mostro. – A encarou de volta.
Olívia ficou completamente sem ação diante daquele olhar. Sentiu o desejo arder como fogo em seu peito. Queria beijar os lábios doces dela. Era uma vontade tão forte, que não sabia como iria controlar.
– Posso te dar um abraço? – Joana pediu desejosa. Precisava daquele contato para tornar a presença dela ali real.
Olívia suspirou, e andou até ela. Lentamente a tomou em seus braços, e seus corpos se tocaram. Uma descarga elétrica passava livremente entre eles, e elas estreitaram o contato. Joana pousou a cabeça no ombro de Olívia, e esta a puxou mais pra perto. O perfume inebriante que se desprendia dela, a deixava tonta, subiu uma das mãos, até encontrar a nuca livre.
Joana a apertou mais forte. Não queria nunca mais solta-la. Não queria nunca mais ter que dizer adeus. Seu coração batia alegre dentro do peito, como se tivesse encontrado o que lhe dava força para pulsar.
Sem solta-la, Olívia afastou o rosto e Joana a encarou. Passou os dedos trêmulos pela pele do rosto da sua morena delicadamente, sentindo a textura que ainda era a que e lembrava. Joana fez o mesmo, como um reconhecimento. Quando se deram conta do que faziam, soltaram-se. Olívia deu um passo atrás, e Joana, que teve o impulso de puxá-la de volta, apenas assistiu sua amada recuar.
- Desculpa. – Pediu Olívia sem encará-la.
- Não foi nada. – Joana se apressou em dizer.
- Ok.
Ficaram um tempo em silencio, esperando que seus corações retomassem um ritmo normal, ou ao menos mais lento, pois normal jamais seria enquanto estivessem uma na presença da outra.
- Como está o Guto? – Joana decidiu por interromper o silencio que a deixava mais insegura ainda.
- Está bem. Feliz e ansioso ao mesmo tempo. – Olívia falou carinhosa.
- Vai dar tudo certo. – Joana garantiu – Esse dois tem algo raro.
- E a Marcinha? Não a vejo desde ontem. – Olívia disse após concordar.
- Bem também. O Theo tem o dom de distraí-la quando ela começa a surtar. – Joana falou divertida.
- O Theo tem esse dom, verdade. – Olívia sorriu, e Joana se perdeu naquele sorriso, sem se dar conta de que a encarava, sem nem ao menos ter prestado atenção ao que ela havia dito.
Olívia captou o olhar da outra, e abriu um sorriso ainda mais largo. Se preparava para falar, quando seu telefone tocou, olhou para o visor e era Emilia, precisava atender. Não se viam desde a noite anterior.
- Oi Emi. – Falou e viu Joana abaixar a cabeça. – Não, já estou no clube. – Joana desviava o olhar. – Tá certo. Te vejo mais tarde. Um beijo. – Desligou.
- Sua mulher? – Joana perguntou, tentando parecer cordial.
- É. – Olívia não sabia o que mais dizer.
- Ela vem?
- Está no hotel. – Respondeu.
- Hum. – Joana tinha no rosto um tom púrpura que Olívia conhecia bem. Já a vira irritada um numero significativo de vezes, para reconhecer.
- Seu marido vem? – Olívia queria deixar claro que se ela estava casada, Joana não ficava para trás, não tinha o direito de ter ciúmes.
- O André vem. – Joana respondeu olhando-a nos olhos, desafiando-a. – Com a mulher dele e o filho dela.
Olívia não soube o que dizer, e viu Joana sentir-se vitoriosa. Uma reação quase infantil, mas que ela achou divertida. Quando novas, ter razão sobre qualquer assunto, era uma questão de horna para Joana. Muitas vezes as brigas se tornavam infinitas, se Olívia não desse um basta. Mas bastavam cinco minutos para que a Joana voltasse pedindo desculpa, e dizendo que ela tinha razão. Outras vezes, resolviam este impasse na cama. Ia comentar o fato, quando Bela as interrompeu.
- Mamãe. Banheiro! – Chegou falando, enquanto apertava a bexiga com as mãos.
- Vamos entrar então. – Falou sorrindo para a filha. – A gente se vê mais tarde. – Falou para Olívia que apenas concordou balançando a cabeça.
- Tchau tia. – Bela falou para Olívia que lhe sorriu.
- Tchau Bela. Te vejo no casamento. – Respondeu.
- Eu sou dama de honra. – Ela falou orgulhosa.
- Tenho certeza de que será a mais linda dama de honra do mundo. – Este comentário carinhoso, lhe rendeu um sorriso luminoso da menina, que se apressou a entrar na frente da mãe.
Joana, ao passar ao lado de Olívia, trocou um olhar profundo, cheio de significados para as duas, e tocou de leve a sua mão, no que Olívia correspondeu sem pestanejar. Não havia como negar, aquela mulher mexia com ela de uma maneira que nenhuma outra jamais seria capaz de fazer.
Ficou assistindo-as entrar, e somente quando sumiram pelo corredor, foi que se voltou para fora e ascendeu outro cigarro. Um sorriso que ela nem se deu conta, brotou em seus lábios, nada parecia importar no mundo. Sempre fora assim quando Joana estava ao seu lado, nada mais no mundo tinha qualquer relevância. E ela estava livre. O que isso significava, não poderia dizer, mas sentiu um alivio imenso ao constatar este fato.
CAPÍTULO 21 - Blue Moon - O casamento parte 2
Às cinco da tarde, Guto já estava vestido e ansioso dentro da sala preparada para ele. Bebera litros de café, o que somente serviu para deixá-lo ainda mais agitado. Parou de andar por um momento, e se olhou no espelho.
- Eu to suando. – Reclamou para a irmã, que estava jogada sobre a poltrona, já trajando o seu terninho preto. – É normal ficar tão nervoso assim? Acho que eu preciso de um cigarro.
- Relaxa Guto. Você não está indo pra forca. – Olívia saiu do seu transe. – Você vai casar com a mulher da sua vida.
- Ok. – Ele sorriu nervoso. – Você tem razão. Será que ela está surtando também?
- Se eu bem conheço aquele pingo de gente, sim! Deve estar enlouquecendo a cabeça da Jo. – Falou sem pensar.
- A Jo? – Guto se virou para a irmã. – Desde quando ela voltou a ser a Jo? Você falou com ela não falou?
- Ei! – Olívia o interrompeu. – Pirou? Me erra Guto!
- Olie, não importa o que você faça, a vida é sua e eu não vou me meter, mas não magoa a Emilia. Ela não merece. Se quiser ficar com a Jo, termina com ela antes. É mais digno. – Guto a repreendeu.
- Quem falou em ficar com a Jo? – Olívia se irritou. – Se não fosse seu casamento, te dava uns cascudos.
- É obvio que você quer a Joana. Todo mundo sabe disso, até mesmo a Emilia. – Guto continuou. – Então para de fingir que isso não existe.
- Eu não estou fingindo. Estou dizendo que não existe absolutamente nada entre a Joana e eu. – Olívia tentou ser incisiva, mas o tremor na sua voz, e o desvio do olhar, lhe entregaram.
- Mesmo? Você vai continuar mentindo pra você mesma? – Ele parou diante dela com a expressão seria. – Diz que você não sente nada por ela?
- Claro que não. – Olívia mentiu.
- Negar não vai mudar os fatos. – Guto concluiu baixinho, pois Raquel acabara de abrir a porta e sorria para os dois filhos.
- Vocês estão lindos! – Limpou uma lagrima antes que caísse e estragasse a maquiagem leve.
Guto sorriu e caminhou até a mãe, abraçando-a. Olívia a mirou e forçou um sorriso, sentindo ainda o peso das palavras do irmão. O que queriam com ela? Já não bastava a turbulência que sentia? Tanto ele como Marina a intimavam a tomar uma atitude referente à Joana, mas como fazê-lo sem que se perdesse novamente no processo?
- Está tudo pronto. – Raquel falou orgulhosa. - Vim buscar o noivo.
Respirando fundo, Guto tentou arrumar pela milésima vez a gravata, sendo prontamente socorrido pela mãe. Buscou os olhos da irmã, e esta acenou com um sorriso brando. Tomando as duas mulheres pelos braços, Raquel do lado direito e Olívia do esquerdo, caminhou para fora da sala.
A banda contratada para tocar durante a cerimônia, já estava a postos com seus músicos. Assim que avistaram o noivo, começaram os acordes de “All i want is you” do U2. Todos os presentes se levantaram, e Olívia logo avistou Emilia fotografando cada momento. Não haviam se visto àquele dia, e a culpa se espreitou pelo seu peito.
Nas primeiras fileiras, Marina, Bola e Tom sorriam abertamente para eles. Os familiares deles também estavam ali, mas Olívia não deteve seu olhar em nenhum deles, nem mesmo o pai, que ocupava a cadeira da ponta da primeira fileira do lado direito.
Depositando um beijo na bochecha do irmão, ela seguiu para o que seria o seu lugar no altar, que nada mais era do que um pequeno palanque de madeira. Guto ajeitou o terno e virou-se para o corredor da entrada. A musica ouvida agora era “Blue Moon”, Lorenz Hart e Richard Rodgers, e ao fundo Olívia se emocionou ao ver Joana entrando com um vestido verde escuro. Sentiu seu coração bater mais rápido diante daquela visão, e ainda mais forte ao perceber que Joana olhava fixo para ela. Não desviou o olhar um só segundo. Andou diretamente até ela e sorriu, antes de tomar seu lugar ao lado oposto em que Olívia se encontrava.
“Festa de formatura do terceiro ano do 2º grau, como era chamado na época.
Olívia vestira um terno preto, com uma camisa branca por de baixo. Sua intenção era chocar os presentes, e cumpriu sua determinação. Todas as suas colegas trajavam vestidos de cores diversas, com exceção dela. Entrou no salão com Fred, um rapaz de cabelos negros e pele branca como a neve, talvez mais branca que a dela, e que havia se tornado um bom amigo nos seus últimos meses de escola.
Fred, assim como ela, era homossexual. Mesmo sem ter se assumido publicamente como ela fizera, não havia uma viva alma capaz de duvidar que ele era gay. Apesar disso, Fred causava uma ótima impressão por onde passava. Era alto, magro e extremamente bonito, ainda que tímido. Ele e Olívia se aproximaram assim que ela retornou a escola após o fatídico dia em que sua vida desmoronou. Ele foi um dos poucos a lhe estender a mão, e ela aceitou de bom grado. Acabaram se tornando melhores amigos, e Olívia lamentou muito quando se separaram. Fred acabara passando para engenharia na USP, e se mudou para São Paulo. Tentaram manter contato nos primeiros anos, mas logo estes se tornaram rarefeitos, e por fim, acabaram.
De qualquer forma, àquela noite, era ele que estava ao lado dela. Ambos um pouco embriagados, o que lhes dera coragem, já que ele trajava um terno preto como o dela, mas com uma blusa preta de gola role por baixo, e um cachecol colorido em volta do pescoço.
Ao chegar a sua cadeira a frente do publico presente, composto em sua maioria por familiares dos formandos, Olívia avistou Joana entrando de braços dados com Leo, que voltara a ocupar o posto de seu namorado. Ela estava linda. Lhe lembrava uma fada, com um vestido azul meia noite de cetim, os cabelos presos em um coque, mas com alguns fios soltos nas laterais, e um par de saltos altos na mesma cor do vestido.
Mesmo parecendo simples, ela tinha um brilho próprio que Olívia sabia, não era a única capaz de captar.
Tentou controlar a dor que parecia arranhar as paredes internas do seu peito, como se seu coração procurasse espaço para escapar. A garganta secou, e seus olhos lacrimejaram. Engoliu em seco para segurar o coração, e as lagrimas que insistiam em brotar nos seus olhos.
Quando os olhares se cruzaram, Joana não desviou como sempre fazia na escola. Ela sustentou o olhar intenso que Olívia dirigia a ela, e sorriu triste antes de tomar o seu lugar ao lado do namorado.
Após a colação e a entrega dos diplomas, todos os jovens partiram para o clube da cidade, onde ocorreria a grande festa.
Olívia e Fred chegaram por ultimo, ou ao menos foram uns dos últimos a adentrar o salão que já fervia. Um DJ tocava as musicas da moda, e os corpos se movimentavam em meio ao salão.
Pararam próximos ao bar, e como Olívia já havia completado dezoito anos, e Fred não, ela comprava as bebidas para os dois, que se divertiam separados do restante do grupo.
Avistou Joana dançando entre as suas amigas, Ligia, Thais e Clara. Olívia sentiu raiva e saudade, mas não percebeu a saudade naquela época. Era apenas raiva. Ela perdera tudo outra vez. Joana voltara a ter a vidinha ‘perfeita’ de antes, enquanto ela era tratada com um ser estranho, uma aberração.
Leo também estava junto, e para Olívia, ele parecia ainda mais idiota que antes. Teve vontade de ir até lá e provocar, mas se conteve.
Fred acabou por encontrar um garçom muito interessado em sua coleção de Guerra nas Estrelas, e sumiu com ele durante a noite. Sozinha e um pouco bêbada, Olívia cruzou o salão em direção ao banheiro. Alguns casais estavam aos amassos em toda a extensão da parede que dava acesso a parte externa do casarão, fazendo com que ela apertasse o passo ao perceber que um dos casais era o seu amor e o namorado.
Não se conteve, e esbarrou com força nele antes de entrar chutando a porta do banheiro. Queria quebrar tudo o que estava a sua volta, mas se conteve, se atendo a esmurrar a porta de uma das cabines, assustando as três meninas ali presentes, que fizeram questão de sair o mais rápido possível.
Se olhou no espelho e pode ver a dor que sentia refletida em seus olhos manchados de rímel. Estava chorando e nem havia percebido.
Ouviu a porta se abrir, e sem nem ao menos se virar para ver quem tinha entrado, gritou:
- Sai daqui se não quiser apanhar! – Nunca fora violenta, mas sentia que poderia entrar em uma briga naquela noite. Apanhar lhe parecia uma ótima alternativa para a dor que sentia.
- Eu vim conversar. – Joana disse reunindo coragem para se aproximar. Olívia lhe lembrava um bicho enjaulado, acuado. – Olie...
- Não me chama assim. – Olívia rosnou sem se virar para ela. – Some daqui, ou eu bato em você.
Joana se aproximou devagar, e Olívia sentiu o toque leve em seu ombro. O mundo parecia prestes a desmoronar novamente. A respiração de Joana perto da sua nuca, a desestabilizava, lhe feria como vapor de chaleira quando a água fervia, assim como a mão que alcançou a sua, lhe queimava como brasa.
- Deixa eu ver a sua mão. Você se cortou. – Joana falou carinhosa, segurando a mão dela com delicadeza.
- Joana, sai daqui. – Olívia disse com um fio de voz. As lagrimas ainda escorriam por todo o seu rosto, e sua garganta estava completamente fechada.
Joana apertou o toque em seu ombro e encostou seu corpo nas costas dela, encostando seus lábios na nuca desnuda, já que Olívia havia cortado o cabelo bem curto.
- Você esta ainda mais linda hoje. – Joana suspirou em seu pescoço, e o beijou.
- Não faz isso. Por favor. – Olívia pediu em meio ao choro. – Não vê que você só me machuca mais?! Como se já não tivesse feito o bastante. – Olívia tentou impor agressividade, mas sua voz saía entrecortada.
- Me perdoa. – Joana pediu após alguns minutos, em que ficou ali parada, apenas sentindo o corpo da mulher amada.
Olívia se virou para ela com a intenção de empurrá-la para longe, mas os olhos de amêndoa estavam molhados, e em meio a raiva, sentiu o amor pulsar dentro do seu peito. E não era só amor, era desejo. A segurou, e como na primeira vez, a beijou em um banheiro durante uma festa.
Foi um beijo longo, saudoso, úmido pela saliva que buscava o gosto da boca amada, como pelas lagrimas que ambas deixavam cair entre elas. Olívia a apertou contra o seu corpo, e Joana estreitou o contato, segurando-lhe pela nuca com a mão esquerda, enquanto a direita lhe acariciava as costas por dentro do paletó.
Os segundos se tornaram minutos, e nenhuma das duas queria interromper aquele beijo. Sabiam que no momento que isso acontecesse, tudo acabaria. Seria como se não tivesse acontecido. Nada teria mudado. E foi ao tomar consciência disso, que Olívia descolou seus lábios dos dela, beijou-lhe as pálpebras que ela mantinha fechada, e soltou-se sem que houvesse qualquer resistência.
Deixou o banheiro, e passou por Leo sem nem olhá-lo. Ganhou a noite, e andando sem rumo pelas ruas, foi se despedindo da sua vida ali. Deixava uma parte importante sua para trás. Deixava a sua alma nos lábios da sua morena.”
Se assustou com a clareza dos detalhes. Bloqueara aquela lembrança com tanto afinco e por tantos anos, que pensava estar completamente perdida. Um arrepio lhe subiu pela espinha, e seu olhar para a Joana se tornou frio, magoado. A morena a conhecia bem demais para não perceber a mudança, e sentiu-se frágil. Lembrara-se daquele dia repetidamente na ultima semana. Quis morrer por estar longe de Olívia naquele momento. Tantos planos haviam sido feitos por elas para a formatura. Tantos sonhos para o que viria depois. A tão sonhada liberdade. E na verdade, se viu ainda mais aprisionada a uma vida que não desejava, que lhe era imposta, e o pior, longe do amor da sua vida.
Só pararam de se encarar, quando perceberam que Marcinha entrava acompanhada do pai, e com Bela à frente, jogando pétalas de flores pelo chão. A menina fez tudo corretamente, e com um sorriso lindo no rosto.
Marcinha estava linda. O vestido branco era simples e delicado, assim como ela. Os olhos azuis brilhavam intensamente, e ao tomar a mão do Guto na sua, Olívia pode sentir o amor profundo que eles compartilhavam. Emocionados, eles se viraram para o celebrante.
A cerimônia foi simples e rápida, e durante toda ela, Olívia não foi capaz de disfarçar os olhares trocados com Joana. Um olhar que foi amansando à medida em que a cerimônia avançava. Nenhuma das duas, sequer tentava disfarçar. Compartilhavam sorrisos doces, e uma cumplicidade que somente dois amantes são capazes de possuir, os olhares pegavam fogo dentro delas ainda que buscassem resistir. Sem palavras, assumiam aquele sentimento quente que as invadia.
Após o beijo que selava o casamento, e a chuva de arroz, a festa começou. A banda estava preparada no palco ao lado, e começou a tocar “If i fell” dos Beatles assim que os noivos deram as mãos para deixarem o altar. As mesas para os convidados já estavam preparadas por todo o jardim, e as cadeiras que serviram para aqueles que assistiam a cerimônia, foram retiradas por funcionários do clube sem maiores transtornos.
Olívia olhou a volta, mas Joana não estava mais no altar. Procurou por ela com os olhos, mas foi impedida por Nina, que a puxou para um abraço emocionado.
- Nunca vi um casamento tão bonito. – Falou à amiga sinceramente.
- Uau, nunca pensei que houvesse algo capaz de te deixar assim. – Olívia implicou.
- Eu ando romântica, e a culpa é do Theo. – Nina revidou.
- Alias, cadê ele? – Olívia olhou a volta.
- Está lá atrás. Ele ficou com a Marcinha até ela entrar. Virou o personal dela. – Disse rindo.
- Ele deve estar orgulhoso. – Olívia olhou a volta procurando por Joana, mas os olhos que a encaravam não eram os de amêndoa, e sim os azuis de Emilia. Decepção.
Olívia andou até ela, que recuava pelos jardins, e precisou correr para alcançá-la. Puxou-a e se deparou com as lagrimas que corriam soltas pelo rosto bonito da ruiva.
- Me solta Olívia. – Ela falou entre dentes. – Eu não quero fazer isso aqui. Volta pra festa e nós conversaremos no Rio.
- Você está indo embora? – Olívia perguntou surpresa.
Emilia a encarou antes de responder, e sorriu friamente.
- Você é inacreditável. – Falou com raiva.
- Emi... – tentou começar, mas a outra a cortou.
- Não diz nada. Qualquer coisa que você disser, qualquer explicação furada, e até mesmo a verdade, só vão fazer com que eu me sinta pior. – Emilia despejou. – Eu sabia que era um erro vir com você. Eu sabia que me sentiria assim quando visse o seu “grande amor”, – ironizou - mas eu confesso, esperava mais respeito da sua parte.
- Emilia, se acalma. – Olívia pediu. – Vamos entrar e conversar lá dentro, longe de tudo.
- Pra que? Pra você dizer que não há nada entre vocês?
- Não existe nada entre a Joana e eu. – Olívia falou, se batendo por saber que aquilo nunca seria inteiramente verdade. – Não vai embora assim.
- Disso tudo, sabe o que mais me indigna? Você ter permitido que eu tentasse. Enquanto você me dava um gelo, eu conseguia te respeitar, mas você me permitiu entrar de novo na sua vida, me fez acreditar que eu tinha uma chance que eu nunca tive.
- Eu também acreditei. – Olívia falou baixinho. – Eu te amo Emilia.
- Esse amor eu não quero. – Emilia enxugou mais lagrimas que caíam sobre o seu colo. – Você pode até me amar, mas não como eu preciso ser amada pela mulher da minha vida.
Olívia não soube o que dizer. Tinha um limite para as mentiras que contava para ela e para os outros. O amor que Emilia queria, e que tinha direito à receber, ela não tinha pra dar, nunca teve.
- Fala pro Guto e para a Marcinha que eu mando as fotos depois. – Começou a se afastar.
- Emilia! Espera. – Olívia foi atrás dela. – Não faz assim.
- Estou te poupando o trabalho de terminar comigo. – disse seria. – Isso já foi longe demais Olívia. Eu já me machuquei demais. Pra mim chega.
Voltou a andar, deixando uma Olívia desnorteada para trás. Tinha sido tão covarde com a Emilia, tão cruel. Pensou em correr atrás dela, pedir perdão, mas pra que? Não se perdoaria pelo o que fez a ela, não podia exigir isso dela.
Olhou para o jardim a suas costas, e viu as luzes se ascenderem para abrigar a festa. A noite caía rapidamente e o sol se punha atrás das montanhas. Era hora do crepúsculo. Era o momento do dia que ela mais gostava, mas naquele momento só era capaz de sentir uma tristeza imensa. Como se com o sol, toda a cor que Emilia trouxera para a sua vida, também se extinguisse, e a escuridão da sua culpa, tomasse conta de tudo.
Quando voltou para a festa, diversos convidados já tomavam conta da pista de dança. Ela avistou Guto e Marcinha entre eles, e aqueles sorrisos eram um alento. Marina estava ao lado do bar conversando com uma mulher que Olívia não foi capaz de reconhecer. Theo se esbanjava na pista, e Olívia se viu obrigada a sorrir. Ao longe, próxima as arvores, Joana conversava com duas pessoas que Olívia simplesmente abominava, os pais da morena.
Ficou surpresa com o desprezo que sentiu ao vê-los. Antes de descobrirem sobre elas, ao menos eram cordiais, mas nunca de fato gostaram dela. Após o ocorrido, não apenas a escorraçaram, como deixaram claro que ela havia sido a responsável por tudo o que acontecera. Se havia duas pessoas no mundo que ela gostaria de nunca mais ter precisado ver, eram aqueles dois.
Se preparava para ir ao encontro de Marina, quando uma mão tocou o seu braço. Virando-se rapidamente para a pessoa, se deparou com a terceira pessoa que ela menos gostava no mundo, seu pai.
- Não ia nem ao menos falar comigo? – Ele a questionou.
Apesar dos anos, Otavio Gurgel permanecia praticamente o mesmo. Os cabelos castanhos escuros podiam estar mais escassos, mas ainda se faziam presentes. Os olhos verdes intensos que ela herdara, também ainda eram os mesmos. Respirou fundo, e tentando deixar claro que não tinha qualquer intenção de prolongar aquela conversa, falou.
- Boa noite Otavio.
- “Pai” é pedir muito, não é? – Ele foi delicado.
- Bastante. – Respondeu.
- Tudo bem. Eu entendo.
- Entende? Bom. – Foi fria e se preparava para deixá-lo, quando ele falou.
- Não existe nada no mundo que eu me arrependa mais do que a forma como tratei você. – Olívia parou de andar, mas permaneceu de costas. – Se algum dia você achar que pode me perdoar pelo o que eu te fiz, por favor, me procure.
Não o viu se afastar. Continuou parada no mesmo lugar por mais alguns minutos, sentindo-se a pior pessoa do mundo. Não pelo seu pai, mas por todas as pessoas que magoou. Triste por Emilia, por tê-la feito sofrer daquela forma. Vê-la ir embora cortou seu coração. Estava ainda perdida em pensamentos, quando sentiu o perfume que seria capaz de reconhecer em qualquer lugar no mundo. Virou-se, e Joana lhe sorria.
- Estava te procurando. – Disse timidamente.
- Estava resolvendo algumas coisas. – Respondeu seria.
- O que foi? – Joana se aproximou, erguendo a mão para tocar em seu rosto, mas interrompeu o gesto. – Aconteceu alguma coisa Olie?
- Muitas. – Deixou que um sorriso triste se abrisse em seu rosto. – Mas não quero falar disso.
- Certo. – Joana sorriu de volta. – Vim te chamar pra dançar comigo. – Disse decidida, e Olívia percebeu que ela se preparara para fazer aquele convite.
- Acho melhor não. – Olívia respondeu.
Joana ficou sem graça e escondeu o rosto com as mãos.
- Desculpa. – Pediu com um sorriso envergonhado. – Eu não devia ter proposto isso.
- Não, Jo! – Olívia se apressou a dizer, e foi a sua vez de se interromper em meio a um gesto para tocá-la. – Eu agradeço, de verdade. Só não estou no clima para dançar.
- E para beber? – Joana emendou. Havia decidido que tentaria, que iria reconquistar Olívia e não estava pronta para desistir ainda.
- Beber pode ser bom. – Sorriu.
Joana seguiu a frente, e Olívia a acompanhou. Temia aquela proximidade, mas não se sentia capaz de simplesmente se afastar. Chegaram ao bar, e Olívia pediu uma dose whisky, o que fez como que Joana a interpelasse erguendo as sobrancelhas.
- Só uma dose. – Respondeu, e virou o copo assim que estendido a ela. Sentiu o gosto amargo descer queimando por sua garganta, e logo pediu outro. Não queria precisar pensar em nada, queria simplesmente não existir naquele momento.
- Vai com calma Olie. – Joana disse docemente, tocando seu braço.
O arrepio que sentiu, foi apenas a confirmação de que precisava se afastar imediatamente da morena antes que fizesse algo que pudesse se arrepender. Bebeu mais um pouco do liquido em seu copo, e tentou sorrir.
- A fraca para bebida sempre foi você, não eu. – Foi sarcástica.
- Isso é verdade. – Joana respondeu, pedindo uma marguerita ao garçom. A atitude ríspida de Olívia a magoava, mas não queria admitir. – Mas eu fiquei mais forte com o tempo.
- Tenho certeza disso. – Olívia concordou, e buscou a terceira dose.
Saiu andando sem nada dizer a Joana, que apenas assistiu o afastamento do seu amor. Achou melhor não forçar a barra. Havia prometido a Marcinha que se controlaria por ela, e decidiu fazê-lo. Não era uma desistência, apenas um recuo, disse a si mesma. Ficou a observá-la de longe.
Olívia andou pela festa, vez ou outra cumprimentando algum conhecido, mas evitando qualquer contato com quem quer que fosse. Sentia-se tão covarde e cruel pelo o que havia feito a Emilia, que sua vontade era se esconder em um canto escuro e esperar por aquela noite passar.
Buscou uma mesa mais afastada da pista, e sentou-se sozinha com outra dose. Não gostava de whisky, e talvez por isso o tenha escolhido como companheiro. Uma forma de punir a si mesma. Fora que sabia o efeito que a bebida logo teria sobre ela. Anestesiaria todos os seus sentidos, e assim seria mais fácil passar pela dor. A todo o momento, a imagem de decepção nos olhos de Emilia a acometia, e ela sentia uma pontada forte no peito.
Pegou o celular e tentou falar com a ruiva, mas esta havia desligado o aparelho, o que não era nenhuma surpresa. Ligou então para o hotel, só para descobrir que ela havia saído de lá com as malas e passado a conta do quarto para o nome de Olívia, após pagar a primeira noite. Era orgulhosa. E disso Olívia sabia bem.
Mais uma dose, e seu mundo já parecia diferente. O formigamento pelo corpo era um bom sinal, sinal de que logo viria a sensação pela qual ansiava, e todas as preocupações a deixariam por algumas horas.
Do outro lado da pista de dança, Joana continuava a observar cada movimento do seu amor. Foi tirada de seus pensamentos por Marina, que animada, veio chamá-la para dançar.
- Vamos! O Theo está fora de controle vai ser divertido. – disse apontando para o amigo.
- Talvez mais tarde. – Joana respondeu sorrindo para Nina.
- Você está olhando o que? – Procurou com os olhos o ponto em que ela se fixava. – Ah. Entendi. – Provocou. – E não foi até lá ainda por quê?
- Eu tentei, mas ela me cortou e se afastou. – Respondeu séria. – E está bebendo demais.
- Olívia? Ela não tem mais fígado, não se preocupe. – Marina, que já estava alegrinha, brincou.
- Ainda assim. – Joana estava preocupada, e tentava com isso, mascarar a dor que se formava em seu peito.
- Ok. Se você está preocupada, porque não vamos até lá? – Marina começou a andar.
Joana relutou por um instante, mas acabou seguindo a amiga. Estava com uma angustia se formando em seu peito. Primeiro, por ter visto de quem se tratava a mulher de Olívia, e a ruiva era estonteante, isso não fez nada bem para o seu ego. E segundo, porque Olívia bebia sozinha, e Joana não vira nem sinal da ruiva na festa. Ficou entre conjecturas, em nenhuma delas se via tendo uma chance de aproximação. Ou Emilia fora buscar algo, ou resolver alguma coisa e já voltaria e Olívia bebia esperando a namorada. Ou elas haviam brigado, e Olívia bebia por causa dela. Nas duas, Emilia era importante demais para a sua amada, e isso era um sinal de que ela deveria se controlar e se afastar. Havia decidido reconquistá-la, mas apenas se soubesse que ela não estava feliz com a mulher dela.
- Ei?! Está fazendo o que jogada aqui neste canto? – Marina chegou perguntando, e Joana se manteve afastada, apenas assistindo.
- Me escondendo. – Olívia respondeu com a voz já pastosa.
- De quem? – Marina, puxou uma cadeira e sentou-se de frente pra ela.
- Todo mundo. – Disse simplesmente.
- Todo mundo quem?
Sim, era papo de bêbado, e Joana se irritou.
- Aconteceu alguma coisa, Olie? – Ela perguntou serena.
Olívia a olhou com desagrado, desafiando-a. Nada respondeu, e voltou a beber do seu copo.
- Serio amiga, aconteceu alguma coisa? – Marina se preocupou.
- Nada que não estivesse previsto que iria acontecer. – Respondeu displicente. – Todo mundo me avisou, mas eu me achava fodona demais pra acreditar.
- Não estou acompanhando... – Marina declarou.
- Simples. A Emilia terminou comigo porque eu sou uma filha da puta insensível e sem coração. – Voltou a beber.
- E cadê ela? – Marina passou por cima da declaração, quando se deu conta que não mais havia visto a ruiva.
- Foi embora. – Disse baixinho, os olhos tristes.
Joana lutava com dois sentimentos muito fortes. Por um lado, sentia-se péssima por ver Olívia sofrendo por outra mulher. Por outro lado, sentia péssima simplesmente por vê-la sofrer. Queria se aproximar, mas não sabia como esta reagiria. Agiu então por impulso, e se abaixou ao lado de Olívia.
- Quer alguma coisa? Quer ir embora? – Perguntou tocando-lhe a mão.
Olívia sentiu a descarga elétrica novamente, mas isto, apenas a lembrou de que Joana era o motivo de Emilia estar sofrendo tanto, portanto, afastou o braço.
- Quero. – Disse sem encará-la. – Quero você bem longe. – Foi ríspida.
Joana pode sentir os olhos se encherem d’água, mas segurou as lagrimas. Encarou Olívia, mas esta não desviou os olhos fixos no copo sobre a mesa. Lentamente, Joana se ergueu do chão, e sem olhar para trás, saiu andando.
O seu coração passando por um turbilhão de sentimentos dos quais ela não tinha qualquer controle. A dor, a dor da rejeição era predominante. Sabia que não conseguiria fingir que não sofria com a rispidez de Olívia, e talvez merecesse, pensou. Não por aquele momento especifico, mas por tantos outros.
Andou rápido por entre os convidados, até encontrar a porta do clube e se refugiar na sala em que Marcinha havia se arrumado mais cedo. Não podia simplesmente ir embora, não faria isso com a amiga, e ainda que soubesse que a filha poderia ser levada pelo André para casa, não gostaria de deixá-la sem nada dizer. Sentou-se em uma das cadeiras, e chorou.
Olívia esperou até ter certeza de que Joana não estava por perto, para erguer os olhos. Pode vê-la se afastar em meio às pessoas. Andava apressada, e Olívia sentiu uma dor dilacerante que nem mesmo o álcool foi capaz de aplacar. Acabara de ferir a mulher que amava. Agora eram duas pessoas por quem ela nutria o melhor sentimento do mundo, ainda que de formas diferentes, a quem ela machucara.
- Precisava ser tão dura? – Marina a recriminou.
Nada respondeu. Com dificuldade, deixou a cadeira, e afastou-se da amiga. A ultima coisa que precisava agora, era uma lição de moral. Andou cambaleante até o bar, e pediu mais uma dose. Levou o copo a boca, e quase cuspiu todo o conteúdo. Não tinha idéia do quanto havia bebido, mas certamente fora muito.
Sentiu uma mão pousar sobre seu ombro, e olhou para cima. Sua mãe a mirava com preocupação, e Olívia sentiu vontade de rir. Era tudo tão ridículo, tudo tão confuso, e seu humor negro tomou conta.
- Não me olha como se você se importasse. – Soltou um sorriso amargo.
- O que aconteceu pra você estar nesse estado, Olívia? – Sua mãe foi firme, ainda que doce.
- Eu não valho suas rugas de preocupação e nem os seus cabelos brancos. – Disse enrolado.
- Filha. – Raquel se aproximou e pegou-a pela mão.
- Me solta. – Olívia puxou a mão e encarou a mulher a sua frente. Vergonha.
Andou pelo meio da festa com um sorriso cínico, bobo, que bailava em seu rosto. Os olhos injetados, e os movimentos lentos e descoordenados, eram percebidos e criticados, ou era assim que ela percebia. Se divertia com a expressão de espanto de alguns, e de reprovação de outros. Passou a flertar com algumas mulheres pelas quais passava, mesmo as acompanhadas, mas estava tão fora de si, que não se incomodava com os insultos, ou que não surtisse efeito.
Uma loira muito bonita estava parada próxima ao som, e Olívia seguiu diretamente à ela. Lhe parecia familiar, mas ao mesmo tempo não tinha idéia se realmente a conhecia. Chegou perto o bastante, e se apoiou para falar-lhe ao ouvido.
- Quer sair dessa festa chata comigo? – Tentou usar o seu tom mais sedutor, o que num final de balada poderia até dar certo, mas não ali.
- Olívia, você esta fedendo a álcool. – A mulher respondeu.
- A gente se conhece? – Olívia perguntou intrigada, mas querendo ser sensual.
- Você está mal mesmo. – A loira sorriu. – Não lembra mesmo de mim?
- Você deve estar me confundindo. – Falou bobamente. – Se a gente se conhecesse, eu me lembraria. – Piscou para ela que apenas riu.
- Sou eu, Ligia. Lembra? – A loira sorriu para ela. – Não nos vemos há mais de quinze anos, mas não pensei que você tivesse se esquecido de mim. – Brincou.
- Ligia? Uau! – Olhou-a de cima em baixo. – Você ficou gostosa!
- Eu não sei se agradeço, ou te mando ir pastar. – A loira respondeu divertida. – E eu continuo gostando de homens. – Concluiu.
- Que pena. Mas aposto que uma noite comigo, e você mudaria de idéia. – Já estava começando a achar graça naquela conversa. Ligia fora sua grande amiga na escola, mas assim como todos os outros, também se afastou quando ela se assumiu gay. Era no mínimo um reencontro inusitado.
- Já tive a minha experiência homossexual, e acredite, foi ótima. Mas não o bastante para me fazer mudar de time. – A loira disse com um sorriso maroto, que fez com que se parecesse muito com a menina que Olívia costumava conhecer. – E vamos combinar, neste estado você não vai dar conta.
- Eu dou conta até dormindo. – Olívia provocou.
Ligia apenas riu, e olhou docemente pra ela.
- Ok, já chega. – Guto se aproximou calmamente. – Vem Olie. – Segurou a irmã.
- Guto! – Ela exclamou se jogando nos ombros dele. – Eu estou tão feliz por você. A Marcinha talvez seja a ultima mulher confiável no mundo. Você deu sorte. Eu não confio nem em mim.
- É, eu sei. – Guto falou a apoiando. – Agora vem.
- Tchau Olívia. Bom te ver. – Ligia se despediu com um sorriso.
- Quando quiser uma foda de verdade, me procura. – Olívia piscou para ela, enquanto o irmão a puxava para fora da pista de dança.
Joana secou as lagrimas e lavou o rosto no banheiro adjacente à sala. Arrumou os cabelos, e respirou fundo. Precisava sair dali. Precisava enfrentar o que estivesse pela frente, aí sim poderia embora.
Chegou ao lado de fora do prédio, e viu que a festa continuava animada. Avistou o ex-marido com a namorada e as crianças, e andou até eles. Bela, assim que a viu, correu para os seus braços.
- Mãe! Você me viu dançando? – Pulou em seu colo.
- Não pequena, desculpa. Você dançou bastante? – Disse a apertando em seus braços.
- Dancei. Estou exausta. – a menina falou fazendo cena, o que provocou risos nos adultos.
- Ela estava a mil. – André falou carinhoso.
- Você a leva pra casa? – Joana perguntou.
- Claro. Já estamos indo. Estava só esperando pra falar com você.
- Obrigado Dé. – Joana agradeceu, e se voltou para a filha. – Vai com o papai, e amanhã eu te busco, certo?
- Certo. – Bela lhe deu um beijo no rosto, e foi para junto do Dani.
- Você está bem? – André perguntou a ex-mulher, ao perceber seu rosto vermelho pelo choro.
- Estou. Não se preocupe. – Andou até ele e o abraçou.
Guto carregava Olívia, acompanhado da mãe e de Marina, que assim que viram o estado em que ela se encontrava, o haviam alertado. Por mais triste que Raquel estivesse, sabia que a filha não estava bem, e não a deixaria se expor ainda mais.
Sentia-se tonta, as pernas não obedeciam. Sabia que não andava sozinha. O braço do irmão em volta de sua cintura era o seu epicentro. Deixava-se conduzir, queria que assim fosse pra sempre. Ter alguém que decidisse por ela, que a levasse. Foi neste momento que ergueu a cabeça e avistou Joana a alguns metros, abraçada a um homem. Seu sangue ferveu.
Liberou-se do braço do irmão, que não havia percebido a movimentação, e seguiu em direção a ex-namorada.
- Eu sabia que você não prestava. – Gritou.
Ao ouvir a voz de Olívia, Joana se soltou de André e se deparou com a fúria nos olhos verdes tão amados.
- Você é a razão de tudo que dá errado na minha vida. – Olívia continuou, mesmo que Guto tentasse contê-la.
- Chega Olie. – Ele falou em seu ouvido.
- Não Guto. Ela precisa me ouvir. – Ela continuou.
- André, leva a Bela daqui. – Joana pediu antes de se virar. - Preciso ouvir o que Olívia? – Joana também se enfureceu.
- Você destruiu a minha vida. – A acusou. – Disse que me amava, mas sempre foi mentira, não foi?
- Olívia! Chega. – Raquel disse firme. – Você passou de todos os limites!
- Eu nem comecei. – Se virou para a mãe com ódio. – Todo mundo me culpou por ter levado essa daí pro mau caminho. Ninguém nunca questionou. Vocês não fazem idéia do que eu passei. – As lagrimas embaçavam a sua visão sem que ela permitisse. – Eu queria te dar o mundo, mas você nunca quis. Porque continuar com essa farsa depois de tanto tempo? Eu não posso ser tão burra assim. Você flertou comigo ainda hoje. – Disse magoada. – E agora está aí, de abraços com o seu maridinho. Você não vale nada. É uma piranha mesmo.
André que pedira para Renata levar as crianças para o carro, se empertigou.
- Você não tem o direito de falar assim com ela. – Ele se dirigiu a Olívia.
- Dé... – Joana pediu.
- Esta é a mulher da sua vida? – Ele concluiu, olhando magoado para Joana, que apenas o olhou triste antes de se voltar para Olívia. – Eu te levo pra casa Jo, vem. – Estendeu a mão para a ex-mulher, mas Joana não se moveu. Continuava presa aos olhos verdes que a encaravam deixando extravasar toda a dor que sentia.
Contrariando tudo o que poderiam esperar dela, Joana foi em direção a Olívia, e tocou-lhe o rosto com delicadeza. Ela se deixou tocar, e sem perceber, as lagrimas deixaram os seus olhos, marcando seu rosto. Joana a abraçou, e ela se deixou abraçar, enquanto caía em um choro compulsivo.
- Calma amor. – Joana falava em seu ouvido, voltando a chorar, sentindo o seu amor tão frágil. – Calma. Eu to aqui.
A amparava em seus braços, e Olívia se entregava àquele afago. Não conseguia mais organizar os pensamentos, nem tinha idéia do que estava sentindo naquele momento, a única coisa da qual tinha consciência, era dos braços de Joana em volta do seu corpo, o perfume dela a invadindo, a sensação de ser protegida, e nada mais a volta fazia qualquer sentido, apenas Joana.
- Jo. – Marina chamou. – Eu vou levá-la para o hotel. O Guto vai me dar uma mão.
- Não Nina. –Joana se adiantou ainda abraçada a Olívia. – Eu a levo pra minha casa. Os meninos ainda estão na festa, e não tem porque ninguém mais se envolver. Eu cuido dela. – Disse com firmeza, o que lhe rendeu um sorriso, mesmo que discreto da Marina.
- Eu vou com você. – Raquel se adiantou.
- Não precisa Raquel. – Joana sorriu triste para ela. – É o casamento do seu filho. Fica aqui, e não se preocupe, eu dou noticias. – Se virando para o ex-marido. – Dé, me ajuda a colocá-la no meu carro?
Mesmo contrariado, ele acatou o pedido da ex-mulher, e apoiou Olívia em seu ombro, enquanto Joana a segurou pelo outro lado. Andaram lentamente até o estacionamento sob os olhares preocupados de Guto, Raquel e Marina.
Chegando ao carro de Joana, esta o abriu e ajudou André a colocá-la no banco da frente, e afivelar o cinto. Olívia estava indo e voltando. Não tinha noção exata dos acontecimentos, mas ainda sentia o perfume que a confortava, bastava.
- Você tem certeza de que quer fazer isso, Jo? – André perguntou visivelmente chateado com o ocorrido.
- Tenho. – Ela confirmou. – Isso é problema meu e de mais ninguém.
- Eu não concordo. – André falou serio.
- Eu sei.
André a mirou sério. Estava com uma raiva imensa a lhe corroer. Não sabia se era ciúmes, até porque estava de fato apaixonado pela Renata, mas ver Joana ser carinhosa e protetora com a mulher que havia sido a razão da separação deles, o tirava do sério. Respirou fundo antes de voltar a falar.
- Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, me liga que em dois minutos eu estou lá. – Ele garantiu.
- Obrigado. – Joana o abraçou e entrou no carro.
Ainda se virou para olhá-la, e Olívia estava de olhos fechados. Tão frágil, tão machucada, que Joana sentiu um aperto no peito. Acariciou o seu rosto, e ligou o carro partindo logo em seguida.
Esta estória está maravilhosa e muito bem escrita, parabéns!
ResponderExcluirJá sou sua fã e acompanho semananalmente os capítulos postados no ABCLES... bjs
Oi Alê!!!
ResponderExcluirVc nem sabe o quanto eu fiquei feliz com o seu comentario por aqui. O Blog anda desatualizado, mas vou voltar a postar por aqui tb!!
Muito obrigada pelo carinho!
Um beijo enorme!!
A verdade é que a Olivia vem me encantando cada vez mais. Acabo meio que vendo algumas coisas nela, que eu tenho também, não vou julgar como um espelho, mas...
ResponderExcluirEnfim, eu me apaixonei por esse romance desde o título, e fico vidrada no sita toda vez que ele é atualizado. Nunca tive a oportunidade de dizer por lá o quanto ele me facina por apenas um motivo: meu celular não abre a caixa de comentários :(. Mas estou dizendo agora, isso é que importa.
A Joana, nem vou comentar dela, vai soar clichê demais. Quero que as duas fiquem juntas logo, e pronto. Risos...
Bibiana, simplesmente, depois de todo esse texto, parabéns! Maravilhoso, todo ele. Poucas estórias me envolveram tanto.
Beijos
Oi Jess!!!
ResponderExcluirNossa, estou muito feliz em receber seu comentario por aqui!!
Pois é, a Olívia tem características com as quais me identifico. Todos os personagens têm um pouco de mim, mas a Olívia, certamente, é com quem mais me pareço... ou ela se parece comigo... sei lá!rsrs
Cara, é tão bom "ouvir" isso!! Porque eu fico assim também quando me apaixono porum história... muita ansiedade para ler cada capítulo... =D
Muito bom te "conhecer"!!
Beijooos
Olá...
ResponderExcluirAcompanhando e adorando...
Tenho uma queda (um tombo) pela Jo!
Mais não queria que a Emilia (mais conhecida como boneca de pano, rsrs) sofresse!
No aguardo mega ansiosa!
Bjo Kyra
Oi Kyra!!!
ResponderExcluirMuito feliz em te ver por aqui!! Juro que vou tentar manter o blog atualizado. Eu me esqueço as vezes dele, e só posto lá no site!!
Eu amo a Jo. Amo a Emilia também. Eu a criei para ser rival da Joana, e pra isso, ela tinha que ser incrivel também rsrs O sofrimento é inevitavel, mas ela é forte!! rsrs
Acabei de postar, mas deve demorar pra entrar lá no site. Vou postar aqui também.
Beijoooos